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Artigo

  • CARTA AO POVO DE DEUS

    Montagem da imagem Por Jornal GGN -27/07/2020

    CARTA AO POVO DE DEUS

    22 de julho de 2020.
    Festa de Santa Maria Madalena, “Apóstola dos Apóstolos”.

    Povo de Deus,
    a vós, graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo (Ef 1,2).
    Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância (Jo 10, 10).

    1. Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo.
    2. Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.
    3. É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor.
    4. O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança.
    5. Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.
    6. É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós” (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).
    7. Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
    8. Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.
    9. O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população; e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais.
    10. O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde; na desnecessária tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.
    11. No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.
    12. Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil. Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel. O Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à COVID-19, aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020).
    13. Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário. Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?
    14. O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos. Estamos comprometidos com o recente “Pacto pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.
    15. Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs. É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença, para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/4/20).
    16. Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).

     

    O Senhor vos abençoe e vos guarde. Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós.
    O Senhor volte para vós o seu olhar e vos dê a sua paz!
    (Nm 6,24-26).

     

    1. Dom Adolfo Zon Pereira, SX, bispo de Alto Solimões, AM.
    2. Dom Adriano Ciocca Vasino, bispo prelado de São Félix do Araguaia, MT.
    3. Dom Ailton Menegussi, bispo de Crateús, CE.
    4. Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém, PA.
    5. Dom Aldemiro Sena dos Santos, bispo de Guarabira, PB.
    6. Dom Aloísio Alberto Dilli, OFM, bispo de Santa Cruz do Sul, RS.
    7. Dom André Marie Gerard Camillade Witte, bispo emérito de Ruy Barbosa, BA.
    8. Dom Angélico Sandalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau, SC.
    9. Dom Antônio Carlos Cruz Santos, MSC, bispo de Caicó, RN.
    10. Dom Antônio Carlos Félix, bispo de Governador Valadares, MG.
    11. Dom Antônio Celso de Queirós, bispo emérito de Catanduva, SP.
    12. Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB, bispo auxiliar de Belém, PA.
    13. Dom Antônio Fernando Saburido. arcebispo de Olinda e Recife, PE.
    14. Dom Fr. Antônio Roberto Cavuto, OFMCap, bispo de Itapipoca, CE.
    15. Dom Armando Bucciol, bispo de Livramento de Nossa Senhora, BA.
    16. Dom Armando Martin Gutiérrez, bispo de Bacabal, MA.
    17. Dom Arnaldo Cavalheiro Neto, bispo de Itapeva, SP.
    18. Dom Benedito Araújo, bispo de Guajará-Mirim, RO.
    19. Dom Bernardo Johannes Bahlmann, OFM, bispo de Óbidos, PA.
    20. Dom Canísio Klaus, bispo de Sinop, MT.
    21. Dom Carlo Ellena, bispo emérito de Zé Doca, MA.
    22. Dom Carlos Alberto Breis Pereira, OFM, bispo de Juazeiro, BA.
    23. Dom Carlos Alberto dos Santos, bispo de Itabuna, BA.
    24. Dom Carlos Verzeletti, bispo de Castanhal, PA.
    25. Dom Claudio Cardeal Humnes, OFM, arcebispo emérito de São Paulo, SP.
    26. Dom Dario Campos, arcebispo de Vitória, ES.
    27. Dom Derek John Christopher Byrne, SPS, bispo de Primavera do Leste, Paranatinga, MT
    28. Dom Egidio Bisol, bispo de Afogados da Ingazeira, PE.
    29. Dom Edilson Soares Nobre, bispo de Oeiras, PI.
    30. Dom Edivalter Andrade, bispo de Floriano, PI.
    31. Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos, SDB, bispo auxiliar de Manaus, AM.
    32. Dom Edson Taschetto Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira, AM.
    33. Dom Eduardo Vieira dos Santos, bispo auxiliar de São Paulo, SP.
    34. Dom Élio Rama, bispo de Pinheiro, MA.
    35. Dom Erwin Kräutler, bispo prelado emérito do Xingu, Altamira, PA.
    36. Dom Estevam dos Santos Silva Filho, bispo de Ruy Barbosa, BA
    37. Dom Eugênio Rixen, bispo de Goiás, GO.
    38. Dom Evaldo Carvalho dos Santos, CM, bispo de Viana, MA.
    39. Dom Evaristo Pascoal Spengler, OFM, bispo prelado de Marajó, PA.
    40. Dom Fernando Barbosa dos Santos, CM, bispo prelado de Tefé, AM.
    41. Dom Fernando José Penteado, bispo emérito de Jacarezinho, PR.
    42. Dom Flávio Giovenale, bispo de Cruzeiro do Sul, AC.
    43. Dom Francisco Biasin, bispo emérito de Volta Redonda/Barra do Piraí, RJ.
    44. Dom Francisco Cota de Oliveira, bispo eleito de Sete Lagoas, MG.
    45. Dom Francisco de Assis Gabriel, CSsR, bispo de Campo Maior, PI.
    46. Dom Francisco Lima Soares, bispo de Carolina, MA.
    47. Dom Gabriel Marchesi, bispo de Floresta, PE.
    48. Dom Gentil Delazari, bispo emérito de Sinop, MT.
    49. Dom Geovane Luís da Silva, bispo auxiliar de Belo Horizonte, MG.
    50. Dom Getúlio Teixeira Guimarães, bispo emérito de Cornélio Procópio, PR.
    51. Dom Geremias Steinmetz, arcebispo de Londrina, PR.
    52. Dom Gilberto Pastana, bispo de Crato, CE.
    53. Dom Giovane Pereira de Melo, bispo de Tocantinópolis, TO.
    54. Dom Guido Zendron, bispo de Paulo Afonso, BA.
    55. Dom Guilherme Antônio Werlang, MSF, bispo de Lages, SC.
    56. Dom Gutemberg Freire Régis, CSsR, bispo emérito de Coari, AM.
    57. Dom Hernaldo Pinto Farias, SSS, Bispo de Bonfim, BA.
    58. Dom Irineu Andreassa, bispo de Ituiutaba, MG.
    59. Dom Irineu Roman, CSJ, arcebispo de Santarém, PA.
    60. Dom Itamar Vian, arcebispo emérito de Feira de Santana, BA.
    61. Dom Jailton de Oliveira Lino PSDP, bispo de Teixeira de Freitas-Caravelas, BA.
    62. Dom Jaime Vieira Rocha, Arcebispo de Natal, RN.
    63. Dom Jayme Henrique Chemello, bispo emérito de Pelotas, RS.
    64. Dom Jan Kot, OMI, bispo de Zé Doca, MA.
    65. Dom Jesús María Cizaurre Berdonces, OAR, bispo de Bragança, PA.
    66. Dom Jesús María López Mauleón, OAR, bispo prelado do Alto Xingu, Tucumã, PA.
    67. Dom Jesus Moraza Ruiz de Azúa. bispo prelado emérito de Lábrea, AM.
    68. Dom João Aparecido Bervamasco, SAC, bispo de Corumbá, MS.
    69. Dom João José Costa, OCarm, arcebispo de Aracaju, SE.
    70. Dom João Muniz Alves, OFM, bispo do Xingu-Altamira, PA.
    71. Dom JoãoSantos Cardoso, bispo de Bom Jesus da Lapa, BA.
    72. Dom João Justino de Medeiros Silva, arcebispo de Montes Claros, MG.
    73. Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, bispo auxiliar de Belo Horizonte, MG.
    74. Dom Joaquim Pertiñez Fernandez, bispo de Rio Branco, AC.
    75. Dom Josafá Menezes, arcebispo de Vitória da Conquista, BA.
    76. Dom José Alberto Moura, arcebispo emérito de Montes Claros, MG.
    77. Dom José Albuquerque de Araújo, bispo auxiliar de Manaus, AM.
    78. Dom José Altevir da Silva, CSSp, bispo de Cametá, PA.
    79. Dom José Belisário da Silva, OFM, arcebispo de São Luís, MA.
    80. Dom José Benedito Cardoso, bispo auxiliar de São Paulo, SP.
    81. Padre José Celestino dos Santos, administrador diocesano de Ji-Paraná, RO.
    82. Dom José Haring, bispo emérito de Limoeiro do Norte, CE.
    83. Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV, bispo prelado de Itacoatiara, AM.
    84. Dom José Luís Azcona Hermoso, OAR, bispo prelado emérito de Marajó, PA.
    85. Dom José Luiz Bertanha, SDV, bispo emérito de Registro, SP.
    86. Dom José Luiz Ferreira Salles, CSsR, bispo de Pesqueira, PE.
    87. Dom José Maria Chaves dos Reis, bispo de Abaetetuba, PA.
    88. Dom José Mario Stroeher, bispo emérito de Rio Grande, RS.
    89. Dom José Moreira da Silva, bispo de Januária, MG.
    90. Dom José Moreira de Melo, bispo emérito de Itapeva, SP.
    91. Dom José Reginaldo Andrietta, bispo de Jales, SP.
    92. Dom José Roberto Silva Carvalho, bispo de Caetité, BA.
    93. Dom José Valdeci Santos Mendes, bispo de Brejo, MA.
    94. Dom JuarezSousa da Silva, bispo de Parnaíba, PI.
    95. Dom Juventino Kestering, bispo de Rondonópolis, MT
    96. Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM, arcebispo de Manaus, AM.
    97. Dom Limacêdo Antonio da Silva, bispo auxiliar de Olinda-Recife, PE.
    98. Dom Luciano Bergamin, CRL, bispo emérito de Nova Iguaçu, RJ
    99. Dom Luís Ferrando Lisboa, bispo emérito de Bragança, PA.
    100. Dom Luís Flávio Cappio, OFM, bispo de Barra, BA.
    101. Dom Luiz Demétrio Valentini, bispo emérito de Jales, SP.
    102. Dom Luiz Gonzaga Fechio, bispo de Amparo, SP.
    103. Dom Luiz Mancilha Vilela, arcebispo emérito de Vitória, ES.
    104. Padre Manoel Aparecido da Silva, administrador diocesano de Barreiras, BA.
    105. Dom Manoel João Francisco, bispo de Cornélio Procópio, PR.
    106. Dom Manoel de Oliveira Soares Filho, bispo de Palmeiras dos Índios, AL.
    107. Dom Manuel Ferreira dos Santos Júnior, MSC, bispo de Registro, SP.
    108. Dom Marcos Marian Piatek, CSsR, Bispo de Coari, AM.
    109. Dom Mariano Manzana, bispo de Mossoró, RN.
    110. Dom Mário Pasqualotto, PIME, bispo auxiliar emérito de Manaus, AM.
    111. Dom Martinho Lammers, bispo emérito de Óbidos, PA.
    112. Dom Mauro Montagnoli, bispo de Ilhéus, BA.
    113. Dom Mauro Morelli, bispo emérito de Duque de Caxias, RJ.
    114. Dom Meinrad Francisco Merkel, bispo de Humaitá, AM.
    115. Dom Milton Kenan Júnior, bispo de Barretos, SP.
    116. Padre Nadir Luiz Zanchet, Admistrador diocesano de Balsas, MA.
    117. Dom Neri José Tondello, bispo de Juína, MT.
    118. Dom Orlando Octacílio Dotti, OFM Cap, bispo emérito de Vacaria, RS.
    119. Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, bispo de Guaranhus, PE.
    120. Dom Pedro Casaldáliga, bispo prelado emérito de São Félix do Araguaia, MT.
    121. Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá, AP.
    122. Dom Pedro Luiz Stringhini, bispo de Mogi das Cruzes, SP.
    123. Dom Paulo de Mascarenhas Roxo, bispo emérito de Mogi das Cruzes, SP.
    124. Dom Philip Eduard Roger Dickmans, bispo de Miracema do Tocantins, TO.
    125. Dom Plínio José Luz da Silva, bispo de Picos, PI.
    126. Dom Protógenes Luft, bispo de Barra do Garças, MT.
    127. Dom Roberto José da Silva, bispo de Janaúba, MG.
    128. Padre Roberto Oliveira Silva, administrador diocesano de Jequié, BA.
    129. Dom Romualdo Matias Kujawski, bispo de Porto Nacional, TO.
    130. Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho, RO.
    131. Dom Rubival Cabral Britto, bispo de Grajaú, MA.
    132. Dom Santiago Sánchez Sebastián, bispo prelado de Lábrea, AM.
    133. Dom Sebastião Bandeira Coelho, bispo de Coroatá, MA.
    134. Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Caxias, MA.
    135. Dom Sergio Aparecido Colombo, bispo de Bragança Paulista, SP.
    136. Dom Sérgio Eduardo Castriani, CSSp, arcebispo emérito de Manaus, AM.
    137. Dom Severino Clasen, OFM, bispo de Caçador, SC.
    138. Dom Sílvio Guterres Dutra, bispo de Vacaria, RS.
    139. Dom Tarcisio Scaramussa, SDB, bispo de Santos, SP.
    140. Dom Teodoro Mendes Tavares, bispo de Ponta de Pedras, PA.
    141. Dom Tommaso Cascianelli, CP, bispo de Irecê, BA.
    142. Dom Valdemir Ferreira dos Santos, bispo de Amargosa, BA.
    143. Dom Valentim Fagundes de Meneses, MSC, bispo eleito de Balsas, MA.
    144. Dom Vicente de Paula Ferreira, C.Ss.R, bispo auxiliar de Belo Horizonte, MG.
    145. Dom Vilsom Basso, SCJ, bispo de Imperatriz- MA.
    146. Dom Vital Corbellini, bispo de Marabá, PA.
    147. Dom Vítor Agnaldo de Menezes, bispo de Propriá, SE.
    148. Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, bispo emérito de Viana, MA.
    149. Dom Welington de Queiroz Vieira, bispo diocesano de Cristalândia, TO.
    150. Dom Wilmar Santin, OCarm, bispo prelado de Itaituba, PA.
    151. Dom Zanoni Demettino Castro, Arcebispo de Feira de Santana, BA.
    152. Dom Zenildo Luiz Pereira da Silva, CSsR, bispo prelado de Borba, AM.

     

  • Arthur Soffiati: A humanidade e as florestas em vista do Covid-19

    Publicado por  leonardoboff.org/  – em  03/08/2020

     Arthur Soffiati é um eminente ecologista, de Campos-RJ, já conhecido por suas contribuições neste blog. Vamos publicar uma série de três (3) artigos acerca das formas como os seres humanos se relacionaram com as florestas. Esta série é oportuna pois nos ajudará a entender o porquê da intrusão do coronavírus  no planeta inteiro. O foco predominante das análise se concentra na ciência, na técnica, nos insumos e da desenfreada busca  de uma vacina, o que é necessário e urgente. No entanto, vê-se  o Covid-19 isoladamente sem o seu contexto que é o capitalismo e o neoliberalismo que no afã de acumularem mais e mais riqueza e aumentarem o consumo está depredando a natureza  e pondo em risco a sustentabilidade do planeta Terra, limitado e com bens e serviços também limitados e, por isso, não suporta um projeto ilimitado. Esse ponto da natureza está praticamente ausente nas análises dos epidemiologistas.

    O vírus é consequência do antropoceno, vale dizer, dos seculares ataques dos seres humanos à natureza que reage como todo ser vivo quando atacado. O Covid-19 como o aquecimento global e toda uma série de vírus já enviados, representa uma represália da natureza contra as agressões da humanidade. A continuar esta dinâmica de super-exploração de todos os ecossistemas poderemos contar com mais vírus e, eventualmente, como alguns afirmam, com “o Big One“, com aquele grande e inexpugnável que afetará grande parte da biosfera e levará também milhões e milhões de seres humanos ao desaparecimento, não excluída a hipótese, de toda a espécie humana. Como nunca antes na história o ser humano é responsável por seu destino junto com a vida caso quiser viver ou aceitar absurdamente seu desaparecimento. Ou mudamos ou contemos com o pior.

    O estudo de Arthur Soffiati nos introduz nas várias  etapas da relação da humanidade para com as florestas até chegarmos ao ponto culminante atual com o contra-ataque da natureza à violência que lhe infligimos. Se quisermos ter futuro como espécie junto com a comunidade de vida, devemos fazer uma radical conversão ecológica, de respeito à natureza, aos seus ritmos e também aos limites que não podem ser ultrapassados. L.Boff

    Arthur Soffiati: A humanidade e as florestas

    Sempre e nunca são palavras que não devem ser usadas pelo historiador. O senso comum acredita que o ser humano sempre foi desmatador, caçador e poluidor. Que faz parte da natureza humana destruir a natureza não-humana. Por outro lado, não é raro ouvir que nunca houve um período em que a humanidade tenha se relacionado de forma equilibrada com a natureza. Associo arbitrariamente a origem da cultura ao Homo habilis, ancestral do Homo sapiens, há 1.400.000 anos passados. Supõe-se que os primeiros hominídeos, grupo zoológico do qual fazemos parte, desceram das árvores e se adaptaram às savanas. Sua economia baseava-se na coleta, caça e pesca. É de se perguntar por que o Homo habilis, o H. erectus, o H. neaderthalensis e H. sapiens desmatariam. Uma que outra árvore podia ser cortada ou queimada, mas não toda uma floresta. Não havia necessidade de desmatamento nem tecnologia capaz de tal proeza. No máximo, um incêndio provocado por raios ou por combustão espontânea. Também um incêndio ocasional depois da invenção das técnicas de produzir fogo.

    Até 10.000 anos passados, não houve necessidade de desmatar, porque a humanidade se organizava em pequenos grupos nômades que não incluíam em sua economia o uso de caules em larga escala. Com o aquecimento climático no início do Holoceno, algumas sociedades nômades inventaram a agricultura e o pastoreio. Comumente, as áreas para plantar e pastorear eram aquelas sem floresta, para facilitar o trabalho. Caso necessário, parte das florestas era derrubada para o plantio e o pastoreio. Elas também serviam para o fornecimento de lenha e de madeira. Contudo, o desmatamento era mínimo, já que a economia então vigente visava apenas a subsistência das sociedades.

    Com a formação das civilizações, o desmatamento aumentou. Ampliou-se a necessidade de campos de cultivo e de pastagem, bem como a necessidade de lenha e de madeira para construção. Há uma conhecida passagem na “Epopeia de Gilgámesh” em que o herói mitológico, com ajuda de seu amigo Enkídu, mata Humbaba, o protetor da floresta. Eram os primórdios da civilização mesopotâmica. A natureza ainda era protegida por entidades divinas e tinha um caráter sagrado. Gilgámesh é meio deus, meio humano. Depois de matar o protetor, ele destrói a floresta. Progressivamente, o sagrado cede lugar ao profano.

    Também na civilização chinesa, houve desmatamentos e caçadas colossais logo em sua fase inicial. Alguns historiadores sustentam que o confucionismo e o taoísmo são respostas culturais aos ataques contra a natureza e contra os humanos. Algo como uma tentativa de ressacralização do mundo. Na civilização Índica, que se desenvolveu no vale do rio Indo, atual Paquistão, a historiografia vem demonstrando que grandes desmatamentos contribuíram para seu fim. Como não havia pedra, os prédios e monumentos eram construídos com tijolos. Para seu cozimento, as matas foram transformadas em lenha. Entre os maias, a explicação mais consistente para explicar seu fim foi um grande desmatamento para ampliar campos de cultivo. Esses desmatamentos foram praticados em encostas de morros, contribuindo para a erosão e o assoreamento das partes baixas, onde havia brejos e lagoas.

    No diálogo “Timeu”, Platão narra que o desmatamento da península Ática transformou um corpo carnudo num esqueleto. Sua narrativa sobre os processos de erosão, empobrecimento dos solos e assoreamento do mar nas partes rasas é bastante atual. Na ilha de Páscoa, hoje conhecida com o nome original de Rapa-Nui, a construção de grandes ídolos de pedra exigiu uma base rolante para transportá-los do centro da ilha para a costa. Como não se conhecia a roda, usava-se o tronco da palmeira mais alta do mundo, existente na ilha, como rolamento. Assim, o desmatamento foi deixando a ilha desprotegida de cobertura florestal. Além do mais, cada grupo incendiava a mata de outro(s) como arma de guerra. Quando os europeus chegaram à ilha no século XVIII, Rapa-Nui estava devastada, erodida e assoreada.

    O desmatamento foi praticado em várias sociedades, com modos de produção distintos. Cada cultura construiu sua visão sobre as florestas. De sagradas a profanas, passando por concepções intermediárias. Nenhuma concepção, porém, transformou as matas em fonte de lucro como a ocidental em sua fase capitalista. Na sua fase de formação, entre o século V ao século XIV, vigorou o sistema feudalista de produção. Nele, as atividades rurais representavam o sustentáculo da economia. Partindo da Itália, os missionários cristãos não eram muito simpáticos às florestas porque elas eram sagradas para os povos ainda não convertidos e motivo de adoração. Depois de convertidos, eles eram instados a derrubar as matas. Mesmo assim, restaram muitas florestas, agora com caráter utilitário. Elas complementavam a economia feudal. Havia florestas comunais, ou seja, florestas que podiam ser usadas por todos, sobretudo pobres, para obtenção de lenha, madeira, água fresca e caça. Essa visão começa a ser mudada a partir do século XI, quando o capitalismo começa a progredir.

    Covid-19: A humanidade e as florestas (II)

    ARTHUR SOFFIATI  – leonardoboff.org – ATUALIZADO EM 10/08/2020

    Quando portugueses e espanhóis chegaram à África e à América respectivamente, no século XV, as florestas temperadas da Europa já estavam muito reduzidas. Elas foram progressivamente abatidas. Na África, a floresta tropical do Congo foi o que restou da grande floresta que cobria o Saara no início do Holoceno. Não houve um desmatamento descomunal que transformou uma grande mata num imenso deserto. Foram as mudanças climáticas naturais. Os povos que viviam na floresta congolesa extraíam recursos dela, mas sem comprometer sua integridade. O mesmo acontecia com a floresta equatorial da Indonésia. Além da floresta e do deserto, havia no continente africano extensas savanas e estepes habitadas por uma megafauna, que já era cobiçada pelos navegantes, sobretudo o elefante.

    No grande continente americano, os europeus encontraram as florestas temperadas do norte, a grande floresta amazônica e a Mata Atlântica. Além desses biomas, havia no interior o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, os campos do Sul e as zonas geladas do Antártico. Os povos que habitavam a América (considerando-a um só continente, pois não havia países) usavam as florestas, mas as consideravam sagradas e merecedoras de respeito. Eles obtinham nelas recursos para sua subsistência, mas sem ultrapassar limites. Essa visão contemplativa está demonstrada nos depoimentos de índios da América do Norte reunidos no livro “Pés nus sobre a terra sagrada”. Na América do Sul, é ilustrativo o depoimento do xamã yanomami Davi Kopenawa.

    Pesquisas arqueológicas estão demonstrando que culturas avançadas se desenvolveram na Amazônia antes da chegada dos europeus. Como se sabe, os solos amazônicos são pobres. As florestas se retroalimentam naquela vastidão de planície. Solo preto em grande quantidade vem sendo encontrado pelos arqueólogos. A conclusão é que a floresta chegou a comportar cerca de dez milhões de habitantes reunidos em culturas distintas que exploravam a grande floresta mantendo-a em pé. A terra preta era fabricada para o cultivo de diversas espécies, inclusive arbóreas. As prospecções sugerem uma ou mais civilizações na Amazônia. As ricas cerâmicas de Marajó, de Maracá, de Santarém e outras confirmariam que houve ali culturas que alcançaram grau civilizacional. Cauteloso, prefiro considerá-las neolíticas avançadas.

    Além do mais, os europeus encontraram as adiantadas culturas dos Andes, da América Central e do Ártico, sem contar a cultura já declinante dos maias. Esta, ao que tudo indica, não soube lidar com a floresta e a devastou. Em parte, seu declínio se deve a essa remoção, segundo os estudiosos. No círculo polar ártico, não existiam florestas. Os denominados esquimós conseguiram desenvolver uma refinada cultura para viver no gelo. No México, o grande império asteca impressionou os europeus, o mesmo ocorrendo com o império inca nos Andes.

    Como mostra o historiador ambiental José Augusto Pádua no seu livro “Um sopro de destruição”, as luxuriantes florestas encontradas pelos portugueses na América alimentaram neles a concepção de que elas poderiam ser exploradas indefinidamente. Mais que concepção, pode-se falar numa síndrome de inesgotabilidade. Para quem deixou um continente com parcas manchas florestais, encontrar a Mata Atlântica pela frente alimentou a crença na sua infinitude. Logo nos primeiros tempos, a busca pelo pau-brasil estimulou um desmatamento ainda em pequenas proporções, ao mesmo tempo que alterava a concepção dos povos nativos. O famoso diálogo travado entre um velho tupinambá e o calvinista Jean de Léry ilustra duas visões de mundo não só distintas como antagônicas. O francês via dinheiro no pau-brasil. O tupinambá entendia que se tratava apenas de madeira, o que o levou a concluir que os europeus eram loucos. De fato, o sistema capitalista era algo inimaginável e inútil para o índio.

    Com a escolha da cana-de-açúcar para colonizar as terras reservadas a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, o primeiro grande tratado da globalização, exigiu-se desmatamento mais intensivo. Até o século XVII, as terras baixas foram depenadas. As florestas deram lugar aos canaviais e aos pastos. É de se perguntar por que os portugueses e seus descendentes no Brasil se contentaram com a Mata Atlântica até o século XIX. Os colonos tinham 1,3 milhão de quilômetros quadrados de floresta para explorarem. As árvores eram simplesmente queimadas para abrir espaço para as lavouras e pastagens. Além de não precisarem da Amazônia, os colonos não contavam com tecnologia para derrubar uma floresta que parecia infinita.

    Já existem artigos acadêmicos e livros demonstrando com documentos a visão que se tinha das florestas. Derrubá-las significava progresso e civilização. Havia algumas vozes no século XIX que já se opunham a uma tão grande devastação. Mas eram vozes isoladas. Havia quem condenasse o africano ou seu descendente escravizado como o culpado pelo desmatamento, quando, na verdade, eles cumpriam ordens do patrão, que por sua vez atendia às exigências de um capitalismo rasteiro. Por mais protestos isolados, o Brasil era uma grande fazenda dominada por rudes proprietários. Alguns cientistas também condenavam o desmatamento excessivo, como foi o caso de Auguste de Saint-Hilaire ao empreender excursões pelo Brasil. Nem a falta d’água na cidade do Rio de Janeiro causada pelo desmatamento do maciço da Tijuca, exigindo seu reflorestamento, foi suficiente para convencer a economia rural sobre a importância das matas.

     

    Arthur Soffiati: A Humanidade e as Florestas (final)

    Por LEONARDOBOFF.org – 17/08/2020

    Desde os anos de 1970, está havendo um descompasso entre a importância da floresta amazônica em pé e os interesses econômicos e políticos. Um documentário intitulado “No país da Amazônia”, dirigido por Joaquim Gonçalves de Araujo e datado de 1922, mostra uma floresta rica a ser conquistada, desbravada, explorada, derrubada. Converter a floresta derrubada em dinheiro significava progresso. Muitas árvores cortadas, muitos animais mortos e uma postura triunfalista são mostrados no documentário. Os índios são mostrados como animais ou quase. Tudo indica que o documentário foi produzido por interesses econômicos, dados os recursos caros empregados na filmagem.

    Outras aventuras dissonantes com a floresta foram praticadas na Amazônia, como a ferrovia Madeira-Mamoré e a Fordlândia. Elas foram recebidas com aplauso por representarem o desenvolvimento do Brasil. A partir da Conferência de Estocolmo, em 1972, a atitude em relação à grande floresta nos meios científicos e entre os ambientalistas mudou. Estudos progressivos foram mostrando a importância do grande bioma não só para o Brasil, mas para o cone sul e o mundo. Ela não é o pulmão da Terra, mas desempenha fundamental papel na troca de gases. Libera oxigênio, que não abastece o planeta, mas absorve gás carbônico que, junto com outros gases, agravam os efeito-estufa e aceleram as mudanças climáticas. A Terra sem a Amazônia lançaria na atmosfera várias giga toneladas de CO2.

    Mais ainda, a floresta em pé recebe as chuvas que provêm do oceano Atlântico e produz nuvens por evapotranspiração. Essas nuvens são empurradas para oeste, esbarram nos Andes e se dirigem para o sul, transformando-se em chuva na Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e nas regiões sudeste e sul do Brasil. Quem segue com o dedo o paralelo 24° S, encontrará os desertos de Atacama, de Kalahari e da Austrália. No Brasil, encontrará uma área outrora coberta pela exuberante Mata Atlântica. Mata Atlântica depende fundamentalmente da Amazônia. Sem a Amazônia, Sudeste e Sul do Brasil seriam um deserto como o de Atacama.

    Se Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia zelassem por sua oferta de água, reclamariam formalmente ao governo brasileiro por amaçar a umidade de seus países. Estudos de cientistas vêm demonstrando que a floresta também abriga animais hospedeiros de vírus, bactérias e protozoários sem serem afetados por eles. Com a captura desses animais e com o desmatamento, microrganismos patogênicos podem entrar na sociedade e deflagrar epidemias com potencial pandêmico. A hipótese mais consistente para a difusão do novo corona vírus pelo mundo é o habito oriental de consumir animais silvestres, como morcegos e pangolins, obtidos nas florestas. As oito espécies de pangolim são as mais ameaçadas de extinção do mundo. Sabe-se já, com segurança, que vírus africanos foram trazidos das florestas para a sociedade.

    Proteger a Amazônia, até recentemente, era uma preocupação de cientistas e ambientalistas. Com todas as advertências de que a grande floresta em pé representava uma garantia para a economia, o agronegócio, a mineração e a exploração de madeira continuaram aceleradas. Cientistas demonstraram que o desmatamento na Amazônia acima de 20% afetaria os outros 80% e a transformaria numa savana. As previsões já começaram a se confirmar. A Amazônia não está mais produzindo o antigo volume de água que abastece o mundo peri-amazônico. Nem mesmo está produzindo mais a água necessária à sua existência. Cerrado e Pantanal estão carentes de umidade. Nos períodos de estiagem, a secura está se acentuando e agravando os incêndios, como está acontecendo em 2020 no Pantanal, o maior incêndio registrado. Sudeste e Sul do Brasil estão com o abastecimento de água comprometido.

    Depois de se beneficiar excessivamente com o desmatamento da Amazônia, sobretudo com a abertura da Transamazônica pela ditadura militar, o agronegócio anuncia oficialmente que defende a grande floresta desde sua origem. A fala do atual ministro do ambiente, na fatídica reunião ministerial de 22 de abril, mostra que ele atendia a um pedido da ministra da agricultura para legitimar as áreas desmatadas do que restou da Mata Atlântica. A bancada do boi no Congresso Nacional continua com seu tom agressivo em relação à proteção florestal. Os fundos de pensão e finanças internacionais pressionam o governo brasileiro – o pior de todos os tempos em termos de proteção ambiental e social – a assumir uma atitude de proteção da Amazônia. Tais fundos parecem estar atendendo a seus clientes. E o governo esperneia. De forma retrógada, agita um conceito de soberania nacional anacrônico. Hoje, a soberania do Brasil deve ser usada para proteger a Amazônia para os brasileiros e para o mundo, não para interesses particularistas mesquinhos. Propala que os países que condenam o Brasil derrubaram suas florestas. De fato, derrubaram quando esta prática ainda era aceita em nome do progresso. Agora, eles reflorestam. Sustenta que o fogo na Amazônia é uma mentira e que existe uma campanha internacional de difamação para internacionalizar a Amazônia. Por incrível que pareça é a mesma economia que predou a Amazônia que agora prega oficialmente sua defesa.

    O atual governo não saiu da década de 1930. Não quer se atualizar. Não conseguiu e nem conseguirá, com sua postura anacrônica, militarista e assustada com fantasmas inexistentes.

  • Roberto Malvezzi (Gogó) – A Santidade Política de Casaldáliga é um Incômodo

     

    Casaldáliga foi enterrado sob um pequizeiro, à margem do rio Araguaia, no cemitério dos Karajás e dos Peões.

    A santidade política de Casaldáliga, na sua dimensão ambiental-social-econômica, deita raízes na Igreja Primitiva. Não se trata de dar comida ou roupa pontualmente para um pobre, mas romper com as injustiças estruturais de uma sociedade e criar outro tipo de sociedade. Por isso, foi um teólogo, um místico, um pastoralista e um profeta da linha dos cristãos libertários. A vida de Casaldáliga se insere na moldura maior do anúncio de Jesus, isto é, a justiça e a misericórdia (Mateus 23,23).

    Em primeiro, Pedro era um místico, mas um místico político. Foi ele quem trouxe a categoria espiritual da “noite escura” do mundo subjetivo de Teresa D’Ávila e João da Cruz para a dimensão social: “a longa noite escura do neoliberalismo”. E ele buscava uma madrugada para essa longa noite.

    Segundo, Pedro era um revolucionário convicto e explícito. Apoiou a revolução Nicaraguense, Cubana e todas as insurreições na América Latina e Central, a exemplo de El Salvador. Como dizia ele, sou movido por “amor de revolução”. Portanto, era um homem do aqui e agora da história.

    Terceiro, quando amaldiçoava todas as cercas, Pedro era contra a propriedade privada, sobretudo da terra, da água e dos chamados bens comuns. Os Movimentos Populares Socioambientais acrescentam aí a educação, saúde, energia e alimentos. Por isso Pedro gostava tanto dos índios, também por sua dimensão de um socialismo primevo. Ele sabia que, um bem comum privatizado, não é mais um bem comum.

    Quarto, e por consequência, Pedro era socialista convicto. Uma vez, em conversa particular, dizendo que vivia com um salário mínimo, que nas suas viagens mal tinha dinheiro para comprar um bolo e um refrigerante, me disse: “não estamos preparados para viver socialisticamente”. Sim, reconheci, desse jeito eu também não estou, nunca estive.

    Por fim, Pedro era avesso a todo ritualismo romano da liturgia, com aquelas mitras, báculos, indumentárias, todas originadas da Idade Média e extemporâneas ao nosso mundo. Nunca vestiu esses adereços e preferiu seu chapéu de palha, sua roupa simples, suas sandálias, que caiam bem em um ambiente tão quente como o Araguaia. Assim também era Dom José Rodrigues, bispo aqui de Juazeiro da Bahia. Para completar, decidiu não ir mais às Visitas Ad Limina, onde os bispos se apresentam diante do Papa a cada cinco anos.

    Sim, sem perder a ternura jamais, a santidade política de Pedro é um incômodo, inclusive para mim. Pior, ou melhor, tudo em nome do Deus que ele acreditava, o Deus de Jesus de Nazaré, aquele crucificado e ressuscitado há uns dois mil anos.

    Esses dias a esperança inabalável de Pedro ancorou às margens do Araguaia.

    Texto recebido pelo facebook

  • O bom odor de Pedro do Araguaia

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    defendo com ardor que não empenhemos um processo de canonização para esse homem de Deus. E muito menos proclamemo-lo como santo súbito, coisa que os integristas e conservadores gostam de fazer com seus líderes piedosos e defensores da doutrina. Mantenhamo-lo sempre Pedro do Araguaia. Sem mais. Assim deve ser; assim deve ser lembrado. Respeitemos sua rebeldia!”

    O bom odor de Pedro” – Por Solange do Carmo para http://fiquefirme.com.br/ – 09 de agosto de 2020 –

    Bem aventurados vós, os pobres” (Lc 6,20)

    “Na dúvida, fique do lado dos pobres”
    (Pedro Casaldáliga)

    O sábado, 08 de agosto, amanheceu mais cinzento pois Pedro partiu. Sim, Pedro. Era assim que ele gostava de ser chamado, pelo nome de batismo, sem nenhum título. Sem ele, o Brasil ficou mais sombrio, mais silencioso, mais inodoro e mais órfão. Por sua consciência política e sua coragem de denúncia, Pedro foi ameaçado, perseguido, jurado de morte, mas não recuou. Resistiu e prometeu que morreria de pé como as árvores da floresta. Tombado pelo cansaço da vida e não por uma bala de revólver, o bispo do Araguaia morreu martirizado pela doença de Parkinson, nos ensinando que é preciso alimentar a utopia de uma terra sem males, onde todos têm os direitos garantidos e não há explorador nem explorado.

    O jovem Pedro veio da Espanha para anonimamente servir os pobres do Brasil. Mas, como o amor exala bom odor (2Cor 2,14-16), logo Pedro ficou conhecido pelo perfume da fé que exalava. Seu cheiro bom encantou mulheres e homens sofredores, que viram nele uma espécie de pai dos pobres. Esse título, em outros tempos dado a são Vicente de Paulo, cabe bem ao bispo do Araguaia. Sua caridade, porém, percorreu caminhos bem diferentes da difundida por Vicente, cuja filantropia imediata saciava a fome dos famintos e socorria os desabrigados. Pedro encarnou a vida do pequeno, do menor de todos, do mais insignificante dos humanos. Despojou-se de todo conforto, de toda segurança, de toda regalia, ao modo franciscano. Viveu junto dos explorados do Araguaia e se fez um deles. Mas também a comparação com o Pobrezinho de Assis não faz jus à vida de Pedro. Talvez Pedro pudesse ser comparado ao santo Oscar Romero, mártir da América Latina, cruelmente assassinado no altar, cuja vida foi unida à de Cristo num só sacrifício. Mas, apesar da mesma bravura, os dois bispos se distinguem. A poesia de Pedro, sua vida às margens do Araguaia, e sua sensibilidade para questões urgentes do nosso tempo, fazem-no uma pessoa singular.

    Pedro inaugurou um novo modelo de santidade que não cabe nos moldes canônicos da Igreja. Sua via de santificação foi a resoluta decisão política de enfrentamento dos exploradores e de defesa dos subalternizados, a começar pelas populações originárias. Suas causas ultrapassavam os muros da eclesia e se faziam incômodas para os grandes da Terra. Seu modo de ser cristão era único, seu apostolado episcopal era inusitado e sua visão de igreja era inconveniente. Sua piedade era rebelde, sua religiosidade subversiva e sua fé, escandalosa.

    Quando ninguém nas igrejas falava de direitos dos indígenas ou de respeito aos deuses dos quilombos, Pedro, criava o CIMI e a pastoral da Terra. O bispo poeta fazia ecoar seus versos em favor dessa gente sem voz. A famosa missa dos quilombos, musicada por Milton Nascimento, fez história. Tornou-se peça de teatro e incomodou os poderosos por ocasião da ditadura.

    Quando nas igrejas ainda não se falava de defesa do meio ambiente, nem havia o Francisco de Roma escrevendo a Laudato Si, Pedro protegia as matas, os bichos e toda espécie de vida. Amaldiçoava as queimadas, as cercas e o direito de possuir a terra, entendida como dom de Deus para a vida de todos.

    Quando nas igrejas ainda não se falava da maldição do garimpo e da indústria madeireira, Pedro levantava sua voz nos advertindo acerca dos perigos de exaurir a terra, de derrubar as matas e de poluir os rios. Enfrentou, junto aos pequenos agricultores e posseiros, os poderosos que querem exaurir o solo e ser donos das águas.

    Quando nas igrejas não se falava de agricultura orgânica, nem dos males causados pelos defensivos agrícolas, Pedro abominava os agrotóxicos e preservava as sementes autóctones.

    Quando nas igrejas não se falava ainda da falência do modelo econômico capitalista, Pedro sonhava com um mundo fraterno no qual o dinheiro não era senhor, nem o mercado seu reino. Colocou em versos sua paz inquieta; tornou conhecida sua indignação e inconformidade com os esquemas de privilégio de alguns em detrimento da escravidão de uma multidão.

    Por tudo isso e muito mais, Pedro é um tipo de santo que não pode ser canonizado. Sua vida não pode ser enjaulada na política de privilégios que a Igreja estabelece para declarar uma vida como santa aos olhos dos crentes. Canonizar Pedro seria privatizar sua vida pública, estabelecer direitos autorais sobre seus escritos, conformar sua poesia rebelde aos devocionismos católicos, calar sua voz profética. O bispo de punhos cerrados não combinaria com os santos de mãos postas.

    Duvido que Pedro aceitaria fazer dois milagres para garantir sua santidade. O bispo rebelde do Araguaia, que não assinou a penalidade do silêncio obsequioso imposto pelo papa João Paulo II, boicotaria toda tentativa de usar seu nome para promoção da Igreja institucional. Aquele que viveu pobre e morreu pobre reviraria no seio da terra se visse um só tostão ser gasto no processo de sua canonização. E, ainda, Pedro detestaria que sua vida ganhasse cercas – todas elas malditas no dizer do pobre do Araguaia – e ele não pudesse mais ser sinal para todos, católicos e não católicos, crentes e não crentes. Por fim, canonizar Pedro seria ferir sua honra colocando à frente de seu nome um título. Na sua kênose, Pedro desprezou toda titulação e somente como Pedro queria ser chamado.

    Além do mais, parece no mínimo estranho cultuar inquisidores canonizados pelos papas Pios e Pedro ao mesmo tempo. Seria constrangedor Pedro e são João Paulo II no mesmo altar; o primeiro rompendo com todo laço com os grandes do mundo e o segundo aliado a presidentes de impérios e monarcas conservadoras. Não dá para imaginar Pedro e santos monarcas, como Luiz da França ou santa Helena, empenhados nas mesmas causas terrenas. A não ser que o céu esteja dividido em departamentos e que cada santo – como um deus do Panteon – cuide de uma causa específica, não há lugar para Pedro no mundo dos santificados. Haveria dissenso no céu, porque o rebelde do Araguaia não se calaria nem mesmo no estágio das beatitutes divinas.

    Por tudo isso, defendo com ardor que não empenhemos um processo de canonização para esse homem de Deus. E muito menos proclamemo-lo como santo súbito, coisa que os integristas e conservadores gostam de fazer com seus líderes piedosos e defensores da doutrina. Mantenhamo-lo sempre Pedro do Araguaia. Sem mais. Assim deve ser; assim deve ser lembrado. Respeitemos sua rebeldia!

  • A Missa dos Quilombos de Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento


    Por Osvaldo Bertolino – Publicado 08/08/2020 em vermelho.org.br

    Arte e ato religioso se combinaram para denunciar as consequências da escravidão e do preconceito no Brasil. A Missa dos Quilombos, atitude revolucionária de membros da Igreja Católica, foi uma combinação de fé, comunhão, música e ritmo.

    Criação de dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, com música de Milton Nascimento, a Missa dos Quilombos expôs o que representa a escravidão e sua herança no Brasil. Um documentário da TV Senado relata a importância histórica da obra. A equipe da emissora viajou para São Félix do Araguaia, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para colher depoimentos exclusivos dos três autores e outros personagens.

    A Missa foi inicialmente celebrada na cidade de Recife, em 20 de novembro de 1981, para um público de 8 mil pessoas e se transformou em peça de teatro, dirigida por Luiz Fernando Lobo. O documentário mostra depoimentos do bispo dom José Maria Pires, que conduziu a cerimônia em Recife; do diretor teatral Luiz Fernando Lobo, que dirigiu o espetáculo homônimo encenado pela Cia. Ensaio Aberto; do compositor Fernando Brant; do percussionista Robertinho Silva e de todos os músicos, artistas e produtores envolvidos na história.

    Além do depoimento emocionado de Milton Nascimento, dom Pedro Casaldáliga fala sobre o sentido revolucionária da Missa. Com direção de Liloye Boubli e produção de Cláudia Rangel, o documentário estreou em novembro de 2006, mês em que a Missa completou 25 anos desde a sua celebração em Recife.

    Segundo dom Pedro Casaldáliga, o objetivo da Missa foi uma retratação aos povos negros, herdeiros dos escravos. “Para escândalo de muitos fariseus e para alívio de muitos arrependidos, a Missa dos Quilombos confessa, diante de Deus e da história, esta máxima culpa cristã”, disse ele. “Mas um dia, uma noite, surgiram os quilombos, e entre todos eles, o Sinaí Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi”, afirmou.

    Assim pensou o bispo do povo. E por isso foi perseguido e ameaçado, várias vezes acusado de comunista, inclusive por alguns dos seus pares da Igreja Católica. Mas também foi reconhecido por sua contribuição às causas do povo. Com sua sensatez e serenidade, estava sempre presente nos debates sobre as demandas populares. Inclusive fora do Brasil, como no encerramento do diálogo juvenil e estudantil da América Latina e do Caribe sobre a dívida externa, realizada em Cuba no ano de 1985. Com sua pausada voz característica, ele ocupou a tribuna e conclamou os jovens ao sagrado exercício da rebeldia.

    Em 2004, foi um dos organizadores da Agenda Latino-americana, lançada no Parlamento Latino Americano – composto por 22 países – com dados, análises e propostas para o combate a “uma nova fase do império”.

    Quando começaram as denúncias golpistas contra o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dom Pedro Casaldáliga também se apresentou ao debate. Em artigo publicado no Jornal do Brasil, fez críticas ao governo e ao Partido dos Trabalhadores (PT), mas enfatizou que “os grandes meios de comunicação e os grandes do dinheiro se refocilam com essa situação”. “A corrupção vem de longe e antes era maior e era a corrupção deles”, resumiu.
    Confira:
    1) um documentário sobre a primeira Missa dos Quilombos

    2) A Missa dos Quilombos pela Companhia Ensaio Aberto

  • Jornal do Vaticano: Pedro Casaldáliga da terra e do povo  

    “Vão me chamar de subversivo. E vou dizer a eles: sou mesmo. Para o meu povo em luta, eu vivo. Com o meu povo em marcha, eu vou”. É o início de um poema de D. Pedro Casaldáliga Plá, bispo emérito de São Félix, no estado de Mato Grosso, que morreu aos 92 anos no sábado, 8 de agosto, em Batatais (São Paulo), em decorrência de problemas respiratórios agravados pelo mal de Parkinson de que sofria há anos. E foi realmente poeta e sobretudo “subversivo”, D. Casaldáliga, quando em 1968, missionário claretiano, deixou a sua Espanha natal para chegar ao Brasil onde morou por toda a vida, uma opção radical de vida e de fé; e quando, poucos dias depois de ser nomeado bispo (por Paulo VI que sempre o defendeu), escreveu sua primeira carta pastoral, Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social, que se tornou um texto profético, manifesto de denúncia para a proteção das populações indígenas, do meio ambiente, das mulheres, contra a pobreza, a escravidão, a marginalização, os latifundiários, a ditadura.

    A reportagem é de Giovanni Zavatta, publicada por L’Osservatore Romano, 10-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini para o IHU, 11 Agosto 2020.

    Era 10 de outubro de 1971 e o Brasil, com o General Emílio Garrastazu Médici como Presidente da República, vivia um dos períodos mais difíceis de sua história, caracterizado pela violência e repressão. Dom Pedro ergueu-se a baluarte dos direitos dos mais fracos e indefesos, em particular indígenas e agricultores sem mais terra: “Estas páginas – escreve na carta – são simplesmente o grito de uma Igreja amazônica, a prelazia de São Félix, no Mato Grosso, contra o latifúndio e a marginalização social de fato institucionalizada. Por dever como pastor e por solidariedade humana”, o silêncio não pode mais ser tolerado. Dizer a verdade é “um serviço”, tem por finalidade “tornar-nos livres”.

    Há quase cinquenta anos Casaldáliga Plá criou a divisão, entre um antes e um depois, chamou a Igreja local para denunciar “erros e omissões”, porque o ponto de referência é “o Evangelho” e, também, “o Vaticano II, Medellín, o último sínodo”, o de 1971, dedicado ao tema O sacerdócio ministerial e a justiça no mundo. Salienta, citando um dos textos sinodais, que “o testemunho (função profética) da Igreja no mundo terá pouca ou nenhuma validade se não demonstrar ao mesmo tempo a sua eficácia no empenho pela libertação dos homens também neste mundo”. Por outro lado, “a Igreja deve envidar todos os esforços para defender a verdade da sua mensagem, mas, se não a identificar com um amor dedicado à ação, essa mensagem cristã corre o risco de não oferecer mais nenhum sinal de credibilidade ao homem de hoje”. A divulgação da carta pastoral – segundo o sociólogo José de Souza Martins “um dos documentos mais importantes da história social do Brasil” – foi proibida pela Polícia Federal e monsenhor Casaldáliga foi ameaçado de morte (em 11 de outubro de 1976, em um presídio, uma bala provavelmente destinada a ele atingiu e matou o padre jesuíta João Bosco Burnier que estava com ele) e de expulsão do país. Mas ele nunca saiu.

    Nasceu em Balsareny, na Catalunha, em 16 de fevereiro de 1928, de uma família de agricultores, em 1943 ingressou na Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos). Foi ordenado sacerdote em 31 de maio de 1952 em Montjuïc (Barcelona) e em 1968 mudou-se como missionário para o Brasil. Paulo VI nomeou-o prelado de São Félix do Araguaia em 27 de agosto de 1971, consagrando-o bispo no 23 de outubro seguinte. Desde então, em um Mato Grosso marcado pelo analfabetismo e pela marginalização social, onde quem mandava eram os proprietários das terras, Dom Pedro se tornou o “teólogo da libertação”, “profeta dos pobres”, “bispo do povo”. “Aqui – dizia ele – mata-se e morre-se mais do que se vive. Aqui, matar ou morrer é mais fácil, ao alcance de todos, do que viver”. Seu objetivo era um modelo de Igreja engajada em campo, por meio de pequenas comunidades de base, espalhadas pelas ruas, com estrutura participativa, corresponsável e democrática. Nesse sentido, observa o teólogo Juan José Tamayo, Casaldáliga “é um exemplo da globalização de baixo, das vítimas, ou seja, da alter-globalização da esperança diante do pessimismo instalado na sociedade”. Uma existência vivida pelas causas da libertação dos povos oprimidos que, dizia D. Pedro, “são mais importantes do que a minha própria vida”.

    O Papa Francisco, na exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia, cita um de seus belos poemas: “Flutuam sombras de mim, madeiras mortas. Mas a estrela nasce sem censura sobre as mãos deste menino, especialistas que conquistam as águas e a noite. Bastar-me-á saber que Tu me conheces inteiramente, ainda antes dos meus dias”. Navegando pelo Tocantins amazônico, ler as águas como um sonho, tendo o Senhor como guia: a Terra e Deus Para  D. Pedro Casaldáliga, um todo verdadeiramente indissolúvel.

  • Fritjof Capra: Pandemia é resposta biológica do planeta

    Foto por Folhapress

    Por: FOLHAPRESS – FERNANDA MENA – 10/08/2020

    Autor de “O Tao da Física” relaciona desigualdade social, economia predatória e devastação ambiental ao surgimento do novo coronavírus.

    Ícone do pensamento sistêmico, o físico e ambientalista austríaco Fritjof Capra, 81, interpreta a pandemia da Covid-19 como uma resposta biológica da Terra diante de emergências sociais e ecológicas amplamente negligenciadas.

    Segundo Capra, as mudanças de paradigma necessárias a essas emergências já são possíveis, tanto do ponto de vista do conhecimento quanto do desenvolvimento tecnológico. “Teremos a vontade política que falta?”, provoca ele, em entrevista à Folha por e-mail.

    Autor de best-sellers internacionais como “O Tao da Física” e “Ponto de Mutação” (Cultrix), entre outros, o Capra articulou a física moderna a uma visão holística da vida no planeta e dos fenômenos naturais, inserindo a humanidade e suas ações nos ciclos de transformação da vida no planeta.

    Capra é uma das estrelas deste ano do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cujo tema — Reinvenção do humano — implica num debate de múltiplas variáveis que, na visão do físico austríaco, são sempre indissociáveis e interdependentes.

    Diretor do Centro de Alfabetização Ecológica, com sede em Berkeley, na Califórnia (EUA), Capra desenvolveu uma pedagogia da ecologia a ser aplicada no ensino formal, primário e secundário.

    Convertido em ambientalista por sua própria pesquisa, o austríaco há décadas denuncia o caráter predatório da economia global capitalista extrativista e a captura corporativa da política, que sucumbe a interesses econômicos em detrimento dos recursos naturais do que chama de Gaia —a Mãe-terra da mitologia grega que batizou uma visão do planeta como um imenso organismo vivo.

    Para ele, estão equivocadas as atuais métricas do desenvolvimento baseadas no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) a partir de uma cultura de excessos, que implica em perdas sociais e econômicas.

    Veja a entrevista concedida a  Folha:

    Em quais aspectos o momento presente pode redefinir a condição humana?
    Na minha visão, o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas.

    Cientistas e ativistas ambientais há décadas vêm alertado para as terríveis consequências de sistemas sociais, econômicos e políticos insustentáveis. Mas até agora as lideranças corporativas e políticas teimaram em resistir a esses alarmes. Agora eles foram forçados a prestar atenção, já que a Covid-19 trouxe os avisos de antes para a realidade de hoje.

    Quais paradigmas a humanidade precisa mudar e por quê?
    Com a pandemia, Gaia nos trouxe lições valiosas capazes de salvar vidas. A questão é: teremos a sabedoria e a vontade política necessárias para ouvir essas lições? Mudaremos do modelo de crescimento econômico indiferenciado baseado no extrativismo para outro de crescimento qualitativo e regenerativo? Vamos substituir combustíveis fósseis por formas renováveis de energia que dêem conta de todas as nossas necessidades? Vamos substituir nosso sistema centralizado de agricultura industrial com uso intensivo de energia por um sistema orgânico de agricultura regenerativa, familiar e comunitária? Vamos plantar bilhões de árvores capazes de retirar o CO2 da atmosfera e de restaurar diferentes ecossistemas do mundo?

    Nós já temos o conhecimento e a tecnologia para embarcar em todas essas iniciativas. Teremos a vontade política que falta? Num momento em que o valor do conhecimento científico biológico e tecnológico se mostram tão importantes, qual é o papel das humanidades?
    Isso está diretamente relacionado a sua pergunta anterior. Se temos todo o conhecimento científico e tecnológico para construirmos um futuro sustentável, porque não o fazemos simplesmente?

    Quando refletimos sobre essa questão crucial, rapidamente percebemos que o nível conceitual não conta toda essa história. Nós também precisamos lidar com valores e éticas, e é por isso que as ciências humanas são mais importantes do que nunca. Literatura, filosofia, história, antropologia podem todas nos imbuir do compasso moral que tanto falta à política e à economia atuais.

    Índices de desmatamento têm aumentado na Amazônia brasileira. Quais são os incentivos para isso?
    Esses crimes são uma consequência direta da obsessão com o crescimento econômico e corporativo. A devastação de grandes áreas de florestas tropicais é impulsionada pela ganância de corporações multinacionais do setor de alimentação, que buscam incansavelmente lucro e crescimento.

    Se o que chamamos de progresso foi atingido à custa de danos ao meio ambiente, nossa ideia de progresso está errada?
    A crença em um progresso contínuo e, em particular, a obsessão de nossos economistas e políticos com a ilusão de um crescimento ilimitado em um planeta finito constituem o dilema fundamental que permeia nossos problemas globais.

    Isso equivale ao choque entre o pensamento linear e os padrões não lineares da nossa biosfera — a interdependência dos sistemas ecológicos e os ciclos que constituem a teia da vida. Essa rede global altamente não linear contém inúmeras alças de retroalimentação por meio das quais o planeta se regula e se equilibra.

    Nosso sistema econômico atual, ao contrário, parece não reconhecer a existência de limites. Nele, um crescimento perpétuo é perseguido incessantemente através da promoção do consumo excessivo e de uma economia do descarte que usa de maneira extravagante tanto recursos como energia, aumentando a desigualdade econômica.

    Esses problemas são exacerbados pela emergência climática global, causada pelas tecnologias de uso intensivo de energia e baseada em combustíveis fósseis.

    Com a pandemia, projeções apontam para o aprofundamento das já marcantes desigualdades sociais de nosso tempo. O que as produziu e como reverter esse processo?
    O aprofundamento das desigualdades é uma característica inerente ao sistema econômico capitalista de hoje. O chamado “mercado global” é, em verdade, uma rede de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental segundo o qual ganhar dinheiro tem primazia sobre direitos humanos, democracia, proteção ambiental.

    Valores humanos, no entanto, podem mudar porque eles não são leis naturais. A mesma rede eletrônica de fluxos financeiros pode ter nela embutidos outros valores. O ponto crítico não é a tecnologia, mas a política.

    Há sinais de mudanças neste sentido na política de hoje?
    Uma nova liderança começou a emergir recentemente em uma série de movimentos jovens muito potentes, como Sunrise Movement, Extinction Rebellion, Fridays for Future, entre outros.

    Há também a ascensão de uma nova geração de políticos, curiosamente formada por mulheres, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta Arden, a primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, ou a congressista [democrata] norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez.

    A crise atual prescreve nossa percepção de soberania e de globalização? Como?
    Com certeza absoluta! Para prevenir o alastramento da pandemia, agora e no futuro, teremos de reduzir densidades populacionais excessivas, como ocorre no turismo de massa e em condições de vida marcadas pela superlotação. Ao mesmo tempo, necessitamos de cooperação global.

    A justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19. E ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas.

    Seu trabalho explorou a interconectividade entre as ciências e os conceitos e filosofias considerados não-científicos. Como esse diálogo complexifica nosso entendimento do planeta e da humanidade?

    Eu me formei como físico e fiquei fascinado pelas implicações da física quântica, que nos mostra que o mundo material não é uma máquina gigante, mas uma rede inseparável de padrões de relações. Durante os anos 1980, minha pesquisa virou para a área das ciências da vida, da qual tem emergido um novo conceito sistêmico que confirma a fundamental interconectividade e interdependência de todos os fenômenos naturais.

    Quando nós entendemos que compartilhamos não apenas as moléculas básicas da vida, mas também princípios elementares de organização com o restante do mundo vivo, percebemos o quão firme estamos costurados em todo o tecido da vida.

    O que você aprendeu com a pandemia?
    Tem sido incrível para mim ver como o coronavírus expôs tantas injustiças ecológicas, sociais e raciais omitidas por décadas pelas mídias de massa.

    Também fiquei espantado de ver como, em um curto espaço de tempo, a poluição quase desapareceu da baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), onde eu vivo, assim como ocorreu em várias das grandes cidades do mundo. Isso me encheu de esperança quanto à capacidade da Terra de se regenerar.

     

  • Pastor Valdemar Figueiredo Filho defende punição por abuso de poder religioso nas eleições

    Imagem: Instituto Mosaico

    O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começou a discutir a possibilidade de punir abusos de poder religioso de candidatos já nas eleições municipais deste ano.

    A questão causa polêmica porque não há uma tipificação deste abuso na legislação eleitoral. Atualmente, o TSE entende que apenas abusos de autoridade ou de poder econômico podem resultar na perda de mandato.

    A discussão foi iniciada pelo ministro Edson Fachin, durante o julgamento de um caso de uma vereadora de Luziânia (GO), que é acusada de usar sua posição de pastora em uma igreja evangélica para influenciar os votos dos fiéis e promover sua candidatura nas eleições de 2016.

    Relator do caso, Fachin usou o seu voto no julgamento para propor a inclusão da investigação do abuso de poder de autoridade religiosa no âmbito das Ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aijes), que podem resultar na cassação dos mandatos e também na inelegibilidade dos candidatos. Para o ministro, trata-se de impedir que forças políticas possam coagir moral ou espiritualmente os eleitores e interferir na legitimidade do voto.

    “A imposição de limites às atividades eclesiásticas representa uma medida necessária à proteção da liberdade de voto e da própria legitimidade do processo eleitoral, dada a ascendência incorporada pelos expoentes das igrejas em setores específicos da comunidade”, disse Fachin.

    A tese proposta por Fachin causou reação imediata de parlamentares conservadores e líderes religiosos, principalmente os de orientação pentecostal.

    No entanto, há vozes dissonantes. O pastor VALDEMAR FIGUEREDO FILHO, 51 anos, baiano, pastor da Igreja Batista do Leme apoia a iniciativa de Fachin. Tem mestrado em ciência política pela Universidade Cândido Mendes e doutorado em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio. Publicamos entrevista publicada pela revista Época, por Cleide Carvalho.

    Segue a entrevista

    O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julga tipificar o crime de abuso de poder religioso, para regular a influência das igrejas nas campanhas políticas. O senhor é favor dessa ideia?

    VALDEMAR FIGUEREDO FILHO: Sou a favor, porque de fato há abuso. Ele existe e não é algo recente. Não estou dizendo que qualquer representação é abusiva, mas que existem relações abusivas dentro de um quadro de representação que é normal e legal. Algumas já foram inclusive notificadas à Justiça Eleitoral, como o uso de templos como comitês. Há vários casos Brasil afora, que ocorrem sem punição e sem vigilância.

    O fato de líderes religiosos declararem abertamente seus votos e se colocarem ao lado de candidatos durante a campanha causa interferência no processo eleitoral?

    Não é disso que se trata. O ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin não está tentando conter algo que é natural. O líder religioso pode exercer plenamente sua cidadania. Apoiar candidato e manifestar voto é um direito e está dentro da normalidade. A questão é quando algo que é natural se transforma em abusivo. Isso acontece, por exemplo, quando alguém diz que determinado candidato foi indicado por Deus. Ou quando o templo ou os meios de comunicação da igreja são transformados em máquina política. Se há um candidato oficial da igreja, que está funcionando como partido, é uma relação abusiva. Quem quer participar da política deve ir para o espaço público, não permanecer escondido atrás de símbolos sagrados.

    Hoje é proibida a propaganda política dentro de templos religiosos. O senhor considera que essa regra é cumprida?

    Não. A regra não é cumprida. No caso de candidatos que dispõem da estrutura dos templos, há abuso inclusive econômico. O que ele dispõe é, na prática de recurso de campanha. Não tirou um tostão para campanha publicitária, e o recurso vem da estrutura religiosa.

    Em sua opinião, o que é abuso religioso?

    Existem pessoas no ambiente religioso que estão muito vulneráveis. Há quem chegue por exemplo, depois de um luto ou em busca de uma cura ou de libertação de um vício. Essa pessoa tem fragilidades. Há muita gente nessa situação. Daí a sofrer abuso, não é difícil. isso não ocorre em apenas uma religião, mas em todas. O ambiente pode se tornar abusivo.

    C:omo o senhor avalia a aproximação entre política e religião no Brasil, com a formação inclusive de bancadas como a evangélica?

    Essa cena sempre esteve posta, desde que os portugueses chegaram aqui e celebraram a primeira missa. É um reflexo da estrutura social brasileira, não é novo. O que temos é uma mudança de atores. O que estamos vendo é o avanço de um outro grupo. A Igreja Católica tratava as coisas e influenciava no andar de cima. Ela sempre teve papel importante nas decisões e sempre esteve nas mesas de negociação. Com constituição de 1988 se forma um grupo, protestante, evangélico, pentecostal, que vai crescendo no Parlamento e no país. É um fato social, não só político. Mas ocorre que, para além do segmento religioso, temos por trás dele grupos econômicos, rede de comunicação, que são grupos fortíssimos, que movimentam rádio, TV, jornais, indústria fonográfica e internet. São empresas enormes, de dimensão nacional. A fachada é um templo, mas, quando se ultrapassam os portais, têm uma série de outras atividades, inclusive a política. Podem não ser a maioria, mas são os mais poderosos.

    O senhor acredita que o TSE terá maioria para decidir favoravelmente à tipificação do crime de abuso de poder religioso?

    Acho que não passa, embora eu seja favorável. Os interesses são muito fortes. A proposta em si já teve uma reação contrária muito forte. O discurso dos abusadores é que eles são perseguidos, como uma luta do bem contra o mal. Falo dos evangélicos mais articulados, nesse cenário mais malicioso. O inimigo agora, dizem eles, são os esquerdistas, a ameaça comunista.

    (com a contribuição de  PEDRO AUGUSTO FIGUEIREDO,
    em matéria publicada em O Tempo, 12/07/20).

  • Bancada Evangélica Popular apoia projetos de esquerda

    Eliad Dias dos Santos, 54, é uma das caras da Bancada Evangélica Popular | Foto: Rodrigo de Britos/Igreja Metodista

    ‘Somos evangélicos e temos vergonha da bancada bolsonarista. Eles não nos representam’

    Por Arthur Stabile para o site Ponte – 27/07/2020

    Pastora Eliad Dias afirma que o objetivo da Bancada Evangélica Popular é ser um contraponto aos religiosos conservadores: “vamos apoiar projetos de esquerda”

    Uma bancada evangélica de esquerda, com ideais progressistas e sem a imposição da teologia na atuação política. É com essa promessa que a Bancada Evangélica Popular, formada por pastores e presbíteros em São Paulo, tem se apresentado e se colocado como contraponto ao atual grupo político ligado aos neopentecostais.

    Uma das fundadoras do movimento, a pastora Eliad Dias dos Santos, 54 anos, explica que o primordial é entender que a fé e a política devem operar separadamente. “O projeto político da atual bancada evangélica é de poder, de impor o que acreditam. A teocracia não faz parte do nosso projeto, de jeito nenhum. O estado é laico”, explica à Ponte.

    A teóloga atua desde 1990 no centro da cidade de São Paulo, na região da Luz, com assistência a mulheres em situação de rua, prostitutas, população LGBT+ e imigrantes.

    Para Eliad, os evangélicos conservadores que dão sustentação ao governo de Jair Bolsonaro são motivo de vergonha para os cristãos progressistas. “É um governo genocida, fascista e que está acabando com a população. [Jair] Não é nenhum Messias e Deus jamais enviaria uma criatura daquelas para a gente. É uma praga no Brasil”, declara.

    Em entrevista à Ponte, Eliad fala da influência dos Estados Unidos na expansão evangélica nas Américas e que a atual Bancada Evangélica alinhada ao bolsonarismo não a representa. “Queremos denunciar, trabalhar para que sejam eleitos verdadeiros representantes do povo, não da milícia evangélica e de qualquer outra”, afirma, citando o ministro da Educação, o pastor conservador Milton Ribeiro, como exemplo de força dos evangélicos no governo federal. A bancada ainda não anunciou candidatura própria e nem definiu apoios para as eleições deste ano.

    Confira a entrevista:

    Ponte – Qual o objetivo da formação de uma nova bancada evangélica?

    Eliad Dias – Decidimos criar uma bancada para apoiarmos candidatos e candidatas de esquerda com demandas que acreditamos ser os valores do Reino de Deus. Trabalhamos para todos terem acesso aos direitos fundamentais e que os representantes pensem nessas questões. Se é para ter um trabalho fundamentado na Bíblia, vamos pegar o que é sério, o que é verdade, não o que essa bancada que está aí quer, de privilégios, do desmonte da sociedade, de impor uma teocracia. O Estado é laico, não tem essa história de ter um grupo específico lá. O ideal é que não tivesse uma bancada evangélica, mas, se existe, temos que fazer contraponto a essa gente.

    Como foi a reunião dessas pessoas para fundarem o grupo?

    Eliad Dias – Cada um de nós que estamos na bancada temos experiência na militância política. A grande questão é que falamos que somos evangélicos e morremos de vergonha pela bancada que está aí. Não nos representa. Faço parte, com Valéria Vilhena, da EIG (Evangélicas pela Igualdade de Gênero), formado para combater a questão que igrejas criam contra as mulheres, o papel das mulheres. Por isso existimos: para dizer que tudo que ele disse é bobagem. Não pode usar a bíblia para sustentar isso. Somos do estudo da religião, advogadas, um trabalho para fazer a desconstrução dessa teologia que os homens fazem para falar que mulher tem local de maternidade, de submissão. Quando Damares [Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] estava no auge, nos lugares que me chamavam para ir eu falava que sou reverenda e não pastora. Um cara falou que ela era pastora pela personalidade. Eu estudei quatro anos, fiz vestibular para ser pastora. Tudo o que ela representa ou fala em público jamais sairia da minha boca ou de outras mulheres. Não quero ser confundida com aquela criatura.

     Vocês têm a intenção de fazer um contraponto?

    Eliad Dias – É para mostrar que existe um povo evangélico progressista, cristão de verdade, que criamos a bancada. Não temos preocupação com lucro, dinheiro e poder. Queremos um país justo, que as pessoas tenham os seus direitos respeitados, sua cidadania exercida de fato. Hoje vemos ônibus lotados e a prefeitura vai dizer que está tudo bem. Isso aumenta as pessoas contaminadas [por Covid-19]. O auxílio emergencial: o que foi feito com as pessoas da classe média alta que conseguiram de forma irregular os R$ 600? Não aconteceu nada. Além de devolver, tinha que ter punição. Não deveria ter pedido se tem salário de R$ 10 mil. Os militares que receberam, não acontece nada? Verificamos que acontece um genocídio. O vírus caiu como um milagre para esse povo, a melhor forma de exterminar indígenas para ter suas terra, o modo mais fácil de exterminar a população negra, que sabemos estar sendo exterminada.

    Como é ser evangélica enquanto existe a Bancada Evangélica, com o peso que este termo carregou pela atuação no Congresso Nacional, e em meio aos apoios ao governo de Jair Bolsonaro?

    Eliad Dias – Bolsonaro é o que existe de pior. Outra coisa que brinco com meus amigos: estive fora do Brasil e falei que ia dizer que sou angolana, porque morro de vergonha de dizer que sou brasileira por conta do Bolsonaro. É esculachado em todos os lugares. Só piada. O Jair Bolsonaro é o que ficou evidente que o Brasil sempre foi. Não existe mito do brasileiro bonzinho, que é acolhedor, vamos derrubar isso. É o racismo. Bolsonaro foi eleito por uma camada populacional que se identificou com ele, fora as promessas vazias, a construção da mídia e pela Globo, por todos os órgãos contra os partidos de esquerda, especialmente o PT. As pessoas elegeram um homem que dizia que não existia corrupção, que seria diferente. Está sendo o pior de todos os governos que já tivemos. É um governo genocida, fascista e que está acabando com a população. Não é nenhum Messias e Deus jamais enviaria uma criatura daquelas para a gente. É uma praga no Brasil.

    Por que existe o apoio dos evangélicos conservadores ao atual governo?

    Eliad Dias – Existe um projeto nos Estados Unidos, muito anos antes de Bolsonaro ser candidato, de que, nos próximos anos, as igrejas de lá, a direita norte-americana evangélica, colocaria nas Américas presidentes evangélicos tementes a Deus. Essas igrejas de massa recebem dinheiro de fora para abrirem templos. Bolsonaro é dinheiro e poder, podemos ver o aumento de casas desses pastores, a recuperação das igrejas. É o toma lá dá cá: te apoio, mas você me dá coisas. Essas igrejas têm pouco de igrejas, são empresas. Tem os milicianos e os evangélicos, que têm um projeto de poder por conta de dinheiro. Queremos denunciar, trabalhar para que sejam eleitos verdadeiros representantes do povo, não da milícia evangélica e de qualquer outra. Silas Malafaia, Edir Macedo… não é igreja, é empresa. Têm TV, avião, helicóptero. Uma questão de poder. O apoio dos evangélicos foi pensando nisso. Não à toa a bancada pôde indicar o ministro da Educação [Milton Ribeiro, evangélico conservador] por poder e dinheiro.

    Como avalia na prática a atuação desses religiosos na política?

    Eliad Dias – Hoje não temos democracia. Em 2016, quando Dilma sofreu impeachment, foi o total rompimento da democracia. A carta à Bancada Evangélica assinada por ela [que falava de aborto e liberdade religiosa] foi quando tudo começou a ruir, ao não discutir pautas como o aborto. Se fortaleceram ali. Não só PSL, PSDB, mas o PT teve sua culpa pelo projeto de poder. Sentou com Edir Macedo, foi à inauguração do Templo de Salomão. Significa “estou coligada com você”. A partir do momento que um grupo tem como objetivo a destruição de outro, não posso me aliar. Não faz sentido eu convidar membros da Ku Kux Klan para fazer parte do meu aniversário. Tenho que evitar que a KKK chegue ao poder, não conversar como se fosse um grupo normal. Esses grupos nunca esconderam o projeto deles de poder, de impor o que eles acreditam. Esse é o problema.

    E como fazer contraponto ao que está posto no imaginário nacional do país ao ver evangélicos na política?

    Eliad Dias – Não somos isso. Ninguém tem projeto de chegar e dominar o Brasil. Vamos apoiar projetos de esquerda, que no nosso entendimento são projetos condizentes com o que acreditamos enquanto reino de Deus. O que Jesus queria? Igualdade para todos. Por isso ele morreu, porque foi assassinado pelos religiosos da época. A bancada não tem projeto de poder que essa Bancada Evangélica do Congresso tem. Queremos que todas as pessoas e grupos tenham direitos e exerçam sua cidadania. Apoiar nomes de pessoas realmente comprometidas com o reino de Deus. Não queremos ser uma bancada que ganhou da outra. A teocracia não faz parte do nosso projeto, de jeito nenhum. O estado é laico. Estamos aqui, às vezes com medo de sermos a próxima Marielle, mas bora lá. Sabemos com quem estamos lidando.

    Como encara os casos recentes de violência policial?

    Eliad Dias – Tenho primos que são policiais e é uma eterna briga. Nem fazemos mais Natal juntos. O meu avô já era da Força Pública, essa questão vem de lá. Eles não entendem que na PM, a escola militar, a formação, é voltada para a questão da violência. Existe um grupo no Brasil a quem você precisa dominar e exterminar, que é a população negra, a maioria do país. Não é concebível que um policial vai aprender a fazer uma prisão em curso que se tenha bonecos negros para ele aprender. É inconcebível. Minha filha é negra e a avisei: se tiver em um grupo de jovens e alguém estiver usando drogas, você vai sair. Eles, se forem brancos, serão os usuários e você será entendida como a traficante. É questão de segurança. Teve o rapaz que ficou preso por estar com 10 gramas de maconha e morreu com Covid-19. Fosse branco ele seria usuário. Como é negro, é traficante.

    O recrudescimento da ação policial vai além do discurso nacional, aparece nas falas de governadores, como João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC).

    Eliad Dias – O Doria, logo que assumiu, disse que a polícia iria agir para matar, por isso ganhou [a eleição]. Um monte de gente entende que a violência vai acabar quando matarem os negros que não trabalham. Não conseguem entender esse racismo estrutural de a pessoa estar naquela situação, de termos meninos negros pedindo dinheiro no farol, de não terminarem a escola. A escola pública não os incentiva a ficar. Pelo contrário, os fazem sair. O professor não dispõe de tempo nem de olhar com carinho aos alunos. A autoestima é afetada, eles ficam no fundo, o professor não dá bola, acham que serão o futuro pagodeiro, ladrão ou jogador de futebol. E já sabe, é escadinha: não vai bem na escola, não consegue trabalho, não tem autoestima suficiente porque a sociedade diz que não serve para nada. A pessoa acredita nisso e acontece o que acontece. É estrutura, um ciclo. Teve reportagem recente do Frei Davi denunciando racismo nas igrejas. É estrutural. O Silvio [de Almeida, advogado] fez tanto sucesso no Roda Viva por conta disso. Mas o Brasil não discute, prefere matar, ir para o genocídio.

    Artigo publicado em https://ponte.org/somos-evangelicos-e-temos-vergonha-da-bancada-bolsonarista-eles-nao-nos-representam/

  • Como o cristianismo fundamenta e orienta a Direita global

    Entrevista com o jornalista Iacopo Scaramuzzi

    Por Lucas Ferraz para https://theintercept.com/ – 27 de Julho de 2020.

    De Roma a Washington, de Moscou a Paris, de Budapeste a Brasília, a geografia política e religiosa da extrema direita que ascendeu nos últimos anos contém um particular denominador comum: a instrumentalização do cristianismo como estratégia política.

    O sacro tornou-se um meio para marcar território, distinguir inimigos e – quem sabe – erradicar a diversidade, seja ela representada por gays, muçulmanos, imigrantes ou qualquer outra “modernidade” que ameace a tríade “Deus, pátria e família”.

    Do ex-capitão do Exército defensor da tortura e de milicianos ao ex-araponga Vladimir Putin, o todo-poderoso da Rússia que também abraçou a Igreja Ortodoxa de seu país, da jovem Marion Marechal-Le Pen na França, integrante da terceira geração de uma família ultraconservadora que está numa cruzada contra os muçulmanos, aos espanhóis do Vox, a extrema direita global desfruta dos símbolos e supostos valores do cristianismo.

    Trata-se de um caso de marketing político (particularmente bem-sucedido em alguns ambientes) que encontrou ressonância também em pensadores, instituições, cardeais e bispos no interior da Igreja Católica insatisfeitos com o pontificado do papa Francisco. O argentino acabou se transformando num inimigo comum para todos eles, sejam políticos ou religiosos.

    A eleição de Donald Trump em 2016, com o entusiasmado apoio que o republicano recebeu – e ainda recebe – de católicos tradicionalistas e demais grupos conservadores, serviu como ponto de partida para a consolidação do que muitos estudiosos classificam de “nacional-catolicismo”.

    O fenômeno opera atualmente numa rede global e é um dos pilares de projetos como o de Viktor Orbán e sua democracia cristã iliberal na Hungria, do recém-reeleito Andrzej Duda e sua tradição sacra na Polônia, de Matteo Salvini, que tentou se tornar homem forte do governo da Itália  brandindo rosários e falando em nome de Maria, além de ter pavimentado a vitória de Jair Bolsonaro e seu “Deus acima de todos”.

    “Eles dizem defender o cristianismo, mas o transformam, infelizmente, em uma ideologia petrificada, num esqueleto, num monumento aos caídos”, escreve o vaticanista Iacopo Scaramuzzi,  autor de um pequeno mas informativo livro recém-publicado na Itália em que destrincha como o cristianismo virou uma peça importante na radicalização política da extrema direita.

    Intitulada “Dio? In fondo a destra – Perché i populismi sfruttano il cristianesimo” (em tradução literal, Deus? No fundo à direita – Porque os populismos desfrutam do cristianismo), a obra estampa na capa quatro dos principais expoentes desse fenômeno: Salvini, Trump, Bolsonaro e Putin. Jornalista da agência italiana Askanews, Scaramuzzi acompanha o cotidiano do Vaticano em Roma desde 2006.

    No meio da tempestade que agita o mundo, o cristianismo é explorado como uma “estrutura sólida”, um “outro país protegido”, lugar de paz e prosperidade para a “família tradicional” – a dos que os brasileiros conhecem como “homens de bem”. Não importa se, na prática, a política implementada seja notadamente marcada pela ausência de valores cristãos.

    Como escreve Scaramuzzi, a exploração visa louvar um passado supostamente glorioso, além de ter um forte apelo a todos aqueles perdidos com as crises econômica, política, cultural, da globalização etc. A estratégia é mais ou menos simples e fácil de ser compreendida pelo eleitorado. O objetivo também é pueril: criar um sentido comum e respeitabilidade, conta o autor.

    No capítulo dedicado ao Brasil, o título dado por Scaramuzzi é um sucinto resumo do país de Bolsonaro: “Aliança entre militares, neoliberais e pentecostais”. Ele ressalta que o presidente brasileiro (católico) tem vários referentes religiosos, além dos pastores evangélicos, entre eles católicos tradicionalistas como o youtuber Bernardo Küster, e que frequentemente faz uso político do cristianismo quando transmite ao eleitorado a necessidade de um sacrifício, “quase um martírio”, para se afastar do mal.

    Isso vale para defender reformas econômicas de cunho neoliberal, para falar da facada que quase o matou na campanha eleitoral ou ainda sobre a necessidade de promover uma guerra cultural contra os valores considerados de “esquerda” para proteger a família.

    A formação de um “povo puro” a partir da instrumentalização do cristianismo, mostra o autor, encontra ferrenha oposição no atual chefe do Vaticano, que já declarou que mensagens revestidas de ódio e certas políticas como as que preveem muros contra imigrantes nada têm de cristãs. O desencontro entre essas correntes tem sido uma das marcas do papado de Jorge Mario Bergoglio.  “Não é surpresa que existe um pedaço da igreja que se reconhece mais em Salvini do que no papa Francisco”, me disse Scaramuzzi num bar do centro de Roma.

    Leia, a seguir, a entrevista com o pesquisador.

    The Intercept Brasil – O seu livro mostra métodos semelhantes da extrema direita em diversos países para explorar politicamente o cristianismo, muitas vezes para criar uma imagem de respeito ou mesmo para seduzir o eleitorado. É só uma estratégia eleitoral ou estamos diante de um retorno do fundamentalismo religioso à política? 

    Iacopo Scaramuzzi – Não estamos na fase do retorno do sacro, mas sim na fase da nostalgia. O que é muito diferente. É mais a recordação romantizada de um passado que não existe mais e que talvez nunca tenha existido. É um pequeno retrato de um mundo antigo. Esse ideal de mundo, com uma família tradicional formada por homem e mulher, é idealizado. Parece o mundo de uma peça publicitária, todo mundo loiro e feliz.

    Sempre houve um cruzamento entre religião e política, seja no cristianismo, no judaísmo, no islã, no hinduísmo. O que surpreende nesses últimos anos é a forma como a religião católica vem sendo instrumentalizada. Ela é usada como um objeto, de forma completamente superficial. Reduzida a um elemento identitário. Católicos conservadores ou progressistas sempre existiram, isso faz parte da história e não é novo. Mas, em poucos anos, essa estratégia virou algo comum para a direita populista em muitos países.

    Todas as religiões estão um pouco atravessadas pela questão da secularização [processo no qual a religião perde influência sobre as diversas esferas da vida social] e são reutilizadas de forma nostálgica e instrumentalizada, seja por parte do populista de direita europeu ou do jovem jihadista que não tem ideia nenhuma do que é o islã e depois se dá conta de que aquela é a sua identidade e se casa com ela. Não se trata de radicalização do islã, mas da islamização do radicalismo. Agora acontece algo semelhante com o catolicismo. Qualquer um pega um pedaço que lhe é mais cômodo e utiliza. Contradizem uma história etnográfica, teológica, doutrinária, mas isso não é importante para esses líderes.

    Você descreve estratégias de radicalização a partir do cristianismo que acabaram adaptadas às realidades de cada país. Não há um coordenador por trás disso?

    As semelhanças entre os países são muitas. Utilizam palavras de ordem e referências que demonstram uma certa coordenação. A ideia de fazer o livro surgiu após eu escrever sobre a coincidência de vários políticos se referirem à Nossa Senhora de Fátima. Salvini usa a santa para defender a eleição de seus aliados. Mais ou menos no mesmo dia [de maio de 2019], Bolsonaro participou de uma cerimônia em Brasília com um grupo de parlamentares católicos ao lado de Nossa Senhora de Fátima. Depois Viktor Orbán e seu chefe de gabinete falam de Fátima. Então logo você entende que isso não é casual. Há uma coordenação. Há toda uma história sobre Nossa Senhora de Fátima, que funcionou como um ímã de toda a mitologia política anticomunista do século passado. A imagem dela foi bastante utilizada politicamente, sobretudo por Salazar [António de Oliveira Salazar, ditador português], que citava frequentemente os três “Fs”, futebol, fado e Fátima.

    A conclusão que cheguei é que há uma coordenação entre um grupo de ideólogos, que se encontram em eventos, em Roma, onde ocorreu um em fevereiro, em Budapeste, onde houve um encontro dos cristãos perseguidos. Eles se conhecem, trocam informações. O filho de Bolsonaro [o deputado federal Eduardo Bolsonaro] encontra Salvini, Orbán se encontra com o chefe de gabinete de Trump. Há uma rede. Esses políticos têm estrategistas que elaboraram as ideias. Acho errado reduzir tudo a um grande arquiteto, uma pessoa que está por trás de tudo. É quase uma teoria da conspiração que agrada tanto a esses populistas de direita.

    Quando exatamente começa essa exploração do cristianismo?

    Simplificando, começa com a crise da globalização, a crise econômica de 2008. Esse coordenação será compreendida ao longo dos anos. Depois, em 2015, vem a crise da imigração na Europa. É um processo longo e complexo.  Se olharmos para políticos como Salvini, Putin e Bolsonaro, vamos ver que a conversão deles acontece de maneira muito rápida. Eles tomam esse caminho de forma muito superficial. Por exemplo, Salvini, na Itália, não tem nenhum background católico. Nunca foi interessado em religião, não vai à missa. Salvini usa com frequência um rosário, que ele nunca rezou. Não são políticos interessados nos ensinamentos da igreja, muito menos em temas como o acolhimento aos imigrantes, tão caro ao papa. Trata-se de uma evolução muito diferente da agenda teocon conservadora que esteve em moda durante o governo de George W. Bush nos EUA e de [Silvio] Berlusconi na Itália.

    Agora, são mensagens dirigidas a um eleitorado perdido, seja por causa da secularização, de uma sociedade multicultural, com uma mistura de pessoas de diferentes etnias e religiões, onde o percentual de católicos é cada vez menor. De frente a essa mudança de panorama sócio-etno-religiosa, há um pedaço da sociedade, na Itália e também em outros países, que reconhece nesses símbolos religiosos da extrema direita qualquer coisa de confortável. Os ideólogos entenderam que esse é um caminho a ser explorado. O cristianismo é uma linguagem que mais ou menos todos entendem, há uma referência cultural, traz um senso de identidade, mesmo se a maioria do eleitorado não frequenta a igreja. O referimento tem pouco a ver com a fé cristã, funciona mais como marcador identitário. Isso se tornou forte nos últimos anos e tenho a convicção de que vai aumentar com a pandemia.

    Não há um grande arquiteto por trás desse uso político do cristianismo, como você diz, mas ao menos há um alvo claro, que é o papa.

    Isso é muito interessante. Roma, que para muitos era uma cidade em declínio, voltou a ser um centro importante e de atração nesse cenário. Isso explica porque Steve Bannon queria criar um centro de estudos para novos populistas ao lado de Roma. Aleksandr Dugin, que não é o ideólogo de Putin, mas uma pessoa muito importante no seu círculo, vem a Roma expor suas ideias no prédio do Casa Pound [movimento e partido politico italiano neofascista, que se autointitula fascistas do terceiro milênio].

    Orbán e Marechal-Le Pen vêm a Roma para falar de João Paulo II e de sua aliança com [o ex-presidente e ícone conservador americano Ronald] Reagan contra o comunismo. Duda, o presidente polonês recém-eleito, disse que sua primeira viagem, quando a covid-19 permitir, será a Roma, por causa do centenário de João Paulo II [comemorado em 2020]. Roma, como capital do cristianismo, voltou a ter importância.

    O renascimento desse nacionalismo que abraça o cristianismo como uma de suas bases de sustentação acontece exatamente no momento em que há no Vaticano um papa que vai para outra direção. Um papa que, com todos os seus limites, abriu a Igreja para o mundo. No mesmo momento em que esses movimentos se fecham em seus países, usando um cristianismo que o próprio Francisco diz não ser cristianismo. Cria-se um conflito mundial em que Roma se torna um ponto de atração, um alvo e também um ponto de observação privilegiado.

    Francisco já fez várias críticas aos populismos da direita, inclusive citando recentemente que as declarações de ódio de alguns políticos o fazem lembrar dos anos 1930 (quando houve a ascensão de Hitler e do nazismo).

    Esse papa criou condições para um movimento que representa uma contradição na história recente da Igreja Católica. Mesmo que não seja um revolucionário, Bergoglio é um reformista que mudou algumas coisas. Ele fala coisas diversas não só dos católicos conservadores, mas também dos seus dois antecessores e do mainstream católico. Ele se liga ao Concílio Vaticano II [realizado na primeira metade dos anos 1960 com o objetivo de modernizar a Igreja Católica, entre outras coisas tornando-a mais próxima dos pobres]. Nos últimos trinta anos o catolicismo conservador foi majoritário e encontrou referências em papas como João Paulo II e Bento XVI, pontífices que deixaram de lado os pontos do concílio e que fizeram alianças conservadoras.

    Enquanto esse papa abria a igreja, em poucos anos houve a eleição de Trump, Mauricio Macri, Bolsonaro, a reeleição de Orbán, de Erdogan. O mundo foi para a direita de uma forma muito rápida e impressionante, e o papa, que não pode ser considerado de esquerda, mas diz muitas coisas de esquerda, claramente mudou a dinâmica de seu pontificado. Essa mudança aconteceu significativamente após a eleição de Trump. A oposição a ele cresceu rapidamente depois daquela eleição. Os opositores ficaram mais orgulhosos. Começaram as dúvidas doutrinárias, os manifestos de cardeais opositores e um deles fez até um pedido de demissão de Bergoglio.

    O que esses grupos católicos conservadores, cardeais e outros líderes religiosos ganham com essa aliança com políticos da extrema direita?

    A história que vemos hoje é uma mutação daquele conservadorismo católico dos últimos 30 anos. Políticos como Trump, Salvini, Bolsonaro, Orbán são uma evolução em relação a Bush, Berlusconi e outros dos anos 2000. São muito mais radicais, mais nacionalistas, mais anti-União Europeia, muito mais protecionistas. Eles vêm daquela história, quando a política também tinha uma aliança com a Igreja Católica. Então não é surpresa que existe um pedaço da igreja que se reconhece mais em Salvini do que no papa Francisco.

    Uma parte dos católicos está muito perdida e cansada do mundo de Francisco, que fala de pobreza, de ambientalismo, de crise do capitalismo, então isso causou uma fratura. Muitos desses líderes, como Bannon e Salvini, colocaram na cabeça que se deve fazer uma oposição a Francisco, uma oposição eclesial. Muitas vezes financiando-a, mas também mantendo contatos com cardeais contrários.

    Há um incômodo e uma preocupação no confronto com o papa, estamos numa época histórica de desencontros e os líderes religiosos também se radicalizaram. E estão ali a testemunhar, do seu ponto de vista, o que é o catolicismo. Também há uma divisão interna entre os opositores sobre como enfrentar o papa.

    Não há um grande arquiteto por trás desse uso político do cristianismo, como você diz, mas ao menos há um alvo claro, que é o papa.

    Isso é muito interessante. Roma, que para muitos era uma cidade em declínio, voltou a ser um centro importante e de atração nesse cenário. Isso explica porque Steve Bannon queria criar um centro de estudos para novos populistas ao lado de Roma. Aleksandr Dugin, que não é o ideólogo de Putin, mas uma pessoa muito importante no seu círculo, vem a Roma expor suas ideias no prédio do Casa Pound [movimento e partido politico italiano neofascista, que se autointitula fascistas do terceiro milênio].

    Orbán e Marechal-Le Pen vêm a Roma para falar de João Paulo II e de sua aliança com [o ex-presidente e ícone conservador americano Ronald] Reagan contra o comunismo. Duda, o presidente polonês recém-eleito, disse que sua primeira viagem, quando a covid-19 permitir, será a Roma, por causa do centenário de João Paulo II [comemorado em 2020]. Roma, como capital do cristianismo, voltou a ter importância.

    O renascimento desse nacionalismo que abraça o cristianismo como uma de suas bases de sustentação acontece exatamente no momento em que há no Vaticano um papa que vai para outra direção. Um papa que, com todos os seus limites, abriu a Igreja para o mundo. No mesmo momento em que esses movimentos se fecham em seus países, usando um cristianismo que o próprio Francisco diz não ser cristianismo. Cria-se um conflito mundial em que Roma se torna um ponto de atração, um alvo e também um ponto de observação privilegiado.

    Francisco já fez várias críticas aos populismos da direita, inclusive citando recentemente que as declarações de ódio de alguns políticos o fazem lembrar dos anos 1930 (quando houve a ascensão de Hitler e do nazismo).

    Esse papa criou condições para um movimento que representa uma contradição na história recente da Igreja Católica. Mesmo que não seja um revolucionário, Bergoglio é um reformista que mudou algumas coisas. Ele fala coisas diversas não só dos católicos conservadores, mas também dos seus dois antecessores e do mainstream católico. Ele se liga ao Concílio Vaticano II [realizado na primeira metade dos anos 1960 com o objetivo de modernizar a Igreja Católica, entre outras coisas tornando-a mais próxima dos pobres]. Nos últimos trinta anos o catolicismo conservador foi majoritário e encontrou referências em papas como João Paulo II e Bento XVI, pontífices que deixaram de lado os pontos do concílio e que fizeram alianças conservadoras.

    Enquanto esse papa abria a igreja, em poucos anos houve a eleição de Trump, Mauricio Macri, Bolsonaro, a reeleição de Orbán, de Erdogan. O mundo foi para a direita de uma forma muito rápida e impressionante, e o papa, que não pode ser considerado de esquerda, mas diz muitas coisas de esquerda, claramente mudou a dinâmica de seu pontificado. Essa mudança aconteceu significativamente após a eleição de Trump. A oposição a ele cresceu rapidamente depois daquela eleição. Os opositores ficaram mais orgulhosos. Começaram as dúvidas doutrinárias, os manifestos de cardeais opositores e um deles fez até um pedido de demissão de Bergoglio.

    O que esses grupos católicos conservadores, cardeais e outros líderes religiosos ganham com essa aliança com políticos da extrema direita?

    A história que vemos hoje é uma mutação daquele conservadorismo católico dos últimos 30 anos. Políticos como Trump, Salvini, Bolsonaro, Orbán são uma evolução em relação a Bush, Berlusconi e outros dos anos 2000. São muito mais radicais, mais nacionalistas, mais anti-União Europeia, muito mais protecionistas. Eles vêm daquela história, quando a política também tinha uma aliança com a Igreja Católica. Então não é surpresa que existe um pedaço da igreja que se reconhece mais em Salvini do que no papa Francisco.

    Uma parte dos católicos está muito perdida e cansada do mundo de Francisco, que fala de pobreza, de ambientalismo, de crise do capitalismo, então isso causou uma fratura. Muitos desses líderes, como Bannon e Salvini, colocaram na cabeça que se deve fazer uma oposição a Francisco, uma oposição eclesial. Muitas vezes financiando-a, mas também mantendo contatos com cardeais contrários.

    Há um incômodo e uma preocupação no confronto com o papa, estamos numa época histórica de desencontros e os líderes religiosos também se radicalizaram. E estão ali a testemunhar, do seu ponto de vista, o que é o catolicismo. Também há uma divisão interna entre os opositores sobre como enfrentar o papa.

    O papa Francisco se move bem nessa história? Ele já fez críticas aos populistas da direita, mas muitas vezes parece tomar distância e não é muito incisivo, sobretudo em relação a líderes como Bolsonaro e Trump.

    É verdade, mas acho que ele foi mais direto em relação a Bolsonaro. Ele escreveu uma carta para Lula [quando o ex-presidente estava preso], depois o recebeu em Roma. Enviou recentemente respiradores para o Brasil, dizendo ao núncio apostólico que no país havia um grande problema com o coronavírus. Ele falou certa vez numa homilia sobre como se faz um golpe, com acosso judicial, que depois é explorado pela mídia. Faltava só dizer nome e sobrenome, mas era claro para todo mundo que ele se referia à situação vivida por Dilma Rousseff.

    Acho que há pelo menos duas razões para explicar isso. Primeiro, o seu papel. Ele fala de maneira bastante direta, mas enquanto papa, não pode promover uma guerra do Vaticano contra Estados Unidos ou Brasil. Depois, ele é uma autoridade espiritual, não política. O papa dá indicação de fundo moral, mas o Vaticano já aceitou a diferença entre Igreja e estado faz tempo. A Igreja não vai entrar em questões político-partidárias, esse é um ponto saudável da separação entre estado e Igreja.

    E acho que existe também uma decisão de salvar a unidade da Igreja. Ele inclusive diminuiu um pouco a velocidade das reformas que estava promovendo para preservar essa unidade. Francisco entendeu que dentro e fora há o risco de uma ruptura, um cisma, pequeno ou grande, mas existe o risco. E um dos papéis do papa é preservar a unidade da Igreja. Bolsonaro, Trump ou Putin são referências para uma parte de cardeais, monsenhores e bispos, e também para uma parcela dos fiéis, que vê a modernidade como um incômodo e critica os imigrantes. O papa vai para outro lado, mas não pode ignorar um pedaço do mundo católico.

    Uma eventual derrota de Trump neste anos é esperada como portadora de novos ares, principalmente no Brasil. Se isso ocorrer, mudará também a dinâmica no Vaticano?

    Sim, mudaria o mundo e também o Vaticano. Há quatro anos, esse papa parecia realmente sozinho. Ele iniciou o pontificado com grande apoio popular, depois começam as eleições que praticamente deixaram Bergoglio sozinho ao falar sobre China, islã, imigrantes etc. Mas alguma coisa aconteceu nos últimos anos. O jornal Financial Times, ainda antes do coronavírus, falava da crise do capitalismo, da desigualdade. Quando o papa escreveu a Laudato Sì [encíclica ecológica divulgada em 2015], ele era uma pessoa bastante isolada nessa questão ambiental. Agora tem a Greta Thunberg, goste-se ou não dela. O coronavírus criou, em quem quer entender, uma consciência sobre a relação com o meio ambiente, o tempo, o consumo. Nos últimos anos, Francisco passou a estar menos isolado. Esse papa sabe muito de política, de política externa, e ele levou seu papado para fora da Europa. Mas houve uma coincidência com a chegada de todas essas questões da extrema direita a Roma.

    Este artigo se encontra em https://theintercept.com/2020/07/27/entrevista-direita-populista-usa-cristianismo-para-criar-sentido-comum-e-respeitabilidade/

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