Jannah Theme License is not validated, Go to the theme options page to validate the license, You need a single license for each domain name.

Artigo

  • VIVAT BRASIL – Nota de repúdio à política do governo brasileiro no atendimento aos povos indígenas e às comunidades tradicionais durante a pandemia covid-19

    Nós, VIVAT BRASIL, com mais de 1.200 integrantes das 13 Congregações Religiosas associadas (Sociedade do Verbo Divino, Missionárias Servas do Espírito Santo, Congregação do Espírito Santo, Irmãs Missionárias do Espírito Santo – Espiritanas, Congregação das Irmãs da Santa Cruz, Missionários Combonianos do Coração de Jesus, Irmãs Missionárias Combonianas, Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeu – Scalabrinianas, Missionários Oblatos de Maria Imaculada, Congregação das Irmãzinhas da Assunção, Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo, Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos) e Irmãs Missionárias do Santo Rosário),   manifestamos nossa solidariedade aos Povos Indígenas e às comunidades tradicionais, especialmente da Amazônia brasileira, pela perseverante luta e constante resistência em defesa da vida e da ecologia integral, diante da situação atual de desgoverno do País, seja em nível social, político, econômico e ambiental.

    Nos juntamos com a voz da CNBB, que no dia 13 de julho lançou uma carta aberta, pedindo a “aprovação pelo Congresso Nacional do Plano emergencial (PL 1142/2020), derrubando os 16 vetos do Presidente no que refere ao enfrentamento à Covid-19 nos territórios indígenas, comunidades quilombolas e comunidades tradicionais”.

    Com profunda indignação, repudiamos a atual política do governo nos seguintes aspectos:

    Desrespeito aos Povos Indígenas da Amazônia diante da atual situação de calamidade pública. No Brasil, a Covid 19 já atingiu 143 etnias, contaminando 16.656 indígenas, dos quais 542 já morreram, segundo dados publicados na Folha de São Paulo (“Os militares e o genocídio indígena” – 21 de julho) e confirmados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Devido à conhecida vulnerabilidade dos povos indígenas, o Estado deveria ter evitado que o vírus chegasse às aldeias, mas, ao contrário, não tomou nenhuma providência para evitar que garimpeiros, madeireiros e grileiros invadissem as terras indígenas, levando a contaminação. Neste contexto, é ainda mais grave a atitude genocida do Presidente Bolsonaro que vetou o fornecimento de água potável, alimentos e leitos hospitalares às populações tradicionais. O próprio Papa Francisco recorda que a água “é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos” (Laudato Si, n. 30).

    A situação é tão grave que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, no dia 20 de julho, notificou o governo Brasileiro com medidas cautelares, a dar proteção aos Povos indígenas Yanomami e Ye’kwana em Roraima.

    Omissão do Governo Brasileiro que, mesmo diante da pandemia, mantém há mais de 60 dias o Ministério da Saúde sem um Ministro para liderar o enfrentamento do coronavírus no país.

    Falta de respeito com as culturas indígenas quanto ao ritual de velório e funeral das vítimas da Covid-19. Muitos indígenas estão sendo enterrados sem notificação a seus parentes e, em muitos casos, não é registrado no atestado de óbito que são indígenas. Além do mais, é negado o direito de levar o corpo para suas aldeias mesmo com o compromisso de obedecerem às orientações sanitárias.

    Omissão dos órgãos federais na fiscalização da grilagem de terras públicas, invasão de garimpeiros, desmatamento provocado por madeireiros, pecuaristas e agronegócio da soja. Segundo o INPE, de agosto de 2019 a 10 de julho de 2020, a degradação na Amazônia legal aumentou em 64%, somando um total de 7.540 km² de área desmatada.

    Diante da urgência de defesa da vida dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na Amazônia, inclusive com doações de qualquer espécie estamos dispostos a encaminhar para as localidades mais afetadas. Assim, alçamos nossas vozes como grito de protesto à omissão do governo Bolsonaro e manifestamos nossa solidariedade a todos os defensores e defensoras do povo, que lutam e contribuem para amenizar tanto sofrimento. Por isso, fazemos memória aos mártires como Pe. Ezequiel Ramin (35 anos) e Ir. Dorothy Stang (15 anos) em nome de todos que deram suas Vidas pela Vida, Vidas pelo Reino e Vidas pela Amazônia. Assim, a VIVAT BRASIL se une com todas as pessoas e suas organizações sociais e pastorais em defesa da vida e da ecologia integral para o BEM VIVER em nossa CASA COMUM.

    VIVAT BRASIL, 24 DE JULHO DE 2020.

  • Realmar a economia pela comunhão dos povos – Eduardo Brasileiro e Gabriela Consolaro

    Foto de Ismael dos Anjos, publicada em Diário do Aço, 23/10/2018, quando a tragédia de Mariana completou três anos.
    Hoje, o Papa Francisco nos convida a realmar a Economia. Da mesma forma, como os apóstolos que olharam ao redor e questionaram com dúvidas como seria possível alimentar uma infinidade de pessoas no meio de um deserto, nós também nos deparamos com as incertezas. 

    Realmar a economia pela comunhão dos povos

    Por: Eduardo Brasileiro e Gabriela Consolaro, publicado em CNLB, 23/07/2020

    “Ser humano é buscar a espiritualização
    de todas as dimensões da existência.” (Frei Betto)

    1. A PARTILHA

    Ao fomentar a partilha e, assim, alimentar uma multidão cansada e incrédula, Jesus, por meio da multiplicação dos pães, mais que perpetuar um milagre, apresenta uma proposta. Quando caminha junto de milhares de pessoas que o seguem e acreditam nas palavras de paz e justiça que propõe, o Mestre indica o seguimento da humildade, solidariedade e fraternidade. Na vivência fiel aos ensinamentos que prega, olha o povo com compaixão, temendo que desfaleçam pelo caminho (Mt 15, 32).

    A mesma realidade encontramos hoje. Uma multidão cansada de lutar para sobreviver em um sistema falido, que até aqui matou, excluiu e degradou, se encontra incrédula e com medo de deixar esvair pelas mãos a vida num futuro próximo. Mais uma vez, o Pastor olha com compaixão aos discípulos fatigados e chama a um momento novo: de partilha, comunhão e esperança. Convida a trilhar o caminho para a saciedade, a suficiência, a convivência entre irmãs e irmãos na busca da construção do Bem Comum.

    Hoje, o Papa Francisco nos convida a realmar a Economia. Da mesma forma, como os apóstolos que olharam ao redor e questionaram com dúvidas como seria possível alimentar uma infinidade de pessoas no meio de um deserto, nós também nos deparamos com as incertezas. Deus nos mostra, de novo, que o milagre reside na partilha, na construção coletiva, na comunhão entre povos que escolhem acreditar na construção de novos paradigmas – por vezes tomados como radicais, mas que só assim são capazes de responder à radicalidade da normalização da morte, da exclusão e da desigualdade.

    A partir da realidade posta, Jesus e seus discípulos organizam a multidão, reúnem as ofertas do povo, suscitam a partilha para todos comerem e saírem saciados. O chamado para a construção da Economia de Francisco e Clara busca dar uma nova perspectiva aos que hoje sofrem com a marginalização de um sistema voltado ao lucro. Com a certeza de uma origem comum, uma pertença recíproca e um futuro partilhado (LS 202), os pães são postos na mesa em uma comunhão entre os povos, para que, outra vez, todos comam e se sintam saciados.

    2. O ENCONTRO

    No caminhar conjunto, Deus não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-lo no chão da realidade. O Papa Francisco, em 2015, no encontro com os movimentos populares em Santa Cruz de La Sierra (Bolívia), aclamou aos povos se unirem em três grandes tarefas.

    A primeira, uma economia a serviço dos povos, retoma o lugar da economia como cuidado da casa no desafiante contexto de encontrar na própria humanidade a possibilidade de recompor um sistema que gere vida e não exclua. Uma economia biocentrada, retoma o chamado da relação ampla com os seres e não fixada no lucro. A segunda, que é a união dos povos no caminho da paz e da justiça, provoca o lugar de poder na sociedade capturado pelos mercados, corporações e elites e o devolve ao povo, como “artífice do seu próprio destino”. A última tarefa apresentada pelo Papa Francisco nos convida a defender a nossa irmã, Mãe Terra. Substituindo a compreensão de dominação humana, nos coloca como elementos da Criação, subvertendo a lógica de apropriação e degradação das vidas.

    O encontro é um lugar da genuína alegria. Nele, a espiritualidade humana se descobre misturada aos diversos tons que compõem a fraternidade universal. Na pluralidade que, com sede de justiça e fome de paz, se descobre artesã do novo tempo em encontros coletivos, em formulações políticas, em incidência territorial, em potencialização de vozes silenciadas, para assim construir uma aldeia de justiça que é totalmente contra a sociedade marcada pelo medo, ódio e indiferença.

    3. O PACTO

    A sociedade globalizada pela indiferença viu o projeto de poder estabelecido pelo neoliberalismo ruir o tecido que sustenta a humanidade. Fraturando o bem comum que estabelece a relação comunitária e de partilha privatizou todas as dimensões do nosso convívio. Estabelecendo a competição e o lucro como essência de governos, empresas e famílias, foram forjados homens e mulheres tomados pela mentalidade empresarial e afastados de suas relações com todas as outras formas de vida.

    Portanto, mais que crises separadas, o que ocorre diante das crises atuais – com o trabalho, com a democracia, com a fome – faz parte do conjunto de iniciativas que destituíram do poder e exaurem diariamente a humanidade e a Terra. A Economia de Francisco e Clara nos convida a fiar o tecido de uma nova cultura e um/a novo/a homem e mulher. Esse contraponto exige a superação daquilo que o sociólogo coreano Byung Chul Han apontou ser uma sociedade produtora de uma vida feliz que nega toda complexidade da vida humana e massacra a humanidade com um padrão: a ideologia de felicidade baseada exclusivamente no enriquecimento individual não contribuindo na afirmação de uma cultura e de instituições democráticas.

    A afirmação de uma economia na complementaridade das relações toma fôlego por inúmeras iniciativas já existentes no mundo, presentes na Economia Solidária, por exemplo, que restitui o lugar da solidariedade como mote das relações de troca e compra. O reconhecimento da economia pelo suficiente que considere as relações com a vida do Planeta, tirando a lógica do lucro e emergindo a lógica do ser. Uma economia pela proximidade que ambienta a necessidade de superação do modelo de finanças globais que produzem dinheiro para enriquecimento individual e passemos para modelos diversos que não unifiquem, mas que planificam a diversidade cultural e econômica do planeta.

    Um novo humanismo é a emergência de uma sociedade em redes, que partilha e coopera no autocentramento comunitário. Assim, as comunidades se empoderam de uma espiritualidade capaz daquilo que diz a exortação do Papa Francisco, ‘Evangelii Gaudium’: “encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (24), para construir o pacto global por novas economias.

    Gabriela Consolaro, selecionada para o evento em Assis, é Secretária Nacional de Formação da JUFRA – Juventude Franciscana do Brasil.

    Eduardo Brasileiro, selecionado para o evento em Assis, é membro do coletivo de Paróquias da Zona Leste de São Paulo: IPDM – Igreja Povo de Deus em Movimento.

     

     

  • Documentário mostra como torcidas organizadas lideraram protestos contra Bolsonaro

    Desde o fim do mês de maio, membros de torcidas articularam manifestações que se espalharam pelo país. Ocuparam as ruas em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília, e em outros diversos estados brasileiros. Na pauta, questionavam a política do governo para a pandemia do coronavírus e levantaram a bandeira antirracista e a favor da democracia.

    O documentário “Protesto Futebol Clube” acompanhou esses manifestantes ao longo de quatro semanas para entender o fenômeno político, a relação histórica das organizadas com a luta pela democracia e as tensões entre torcedores de times diferentes dentro do movimento.

  • Leonardo Boff – O princípio da auto-destruição e o combate ao Covid-19

     

    Depois que se lançaram duas bombas atômicas primárias sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, a humanidade criou para si um pesadelo do qual não consegue mais se libertar. Ao contrário, ele se transformou numa realidade ameaçadora de nossa vida sobre este planeta e a destruição de grande parte do sistema-vida.

    Criaram-se armas nucleares muito mais destrutivas, químicas e biológicas que podem destruir nossa civilização e afetar profundamente a Terra viva. Pior ainda, projetamos a inteligência artificial autônoma. Com seu algoritmo que combina bilhões de informações, recolhidas de todos os países, pode tomar decisões sem que nós saibamos. Pode eventualmente, numa combinação enlouquecida, como já assinalamos anteriormente, penetrar nos arsenais das armas nucleares ou de igual ou maior potência letal e deslanchar uma guerra total de destruição de tudo o que existe, inclusive de si mesma. É o princípio da auto-destruição. Vale dizer, está nas mãos do ser humano pôr fim à vida visível que conhecemos (ela é só 5% as 95% são vidas microscópicas invisíveis). Assenhoreamo-nos da morte. E ela pode ocorrer a qualquer momento.

    Já se criou uma expressão para nomear esta fase nova da história humana, uma verdadeira era geológica: o antropoceno, vale dizer, o ser humano como a grande ameaça ao sistema-vida e ao sistema-Terra.

    O ser humano é o grande satã da Terra, aquele que pode dizimar, como um anti-cristo a si mesmo e os outros, seus semelhantes, além de liquidar com as bases que sustentam a vida.

    A intensidade do processo letal é de tal ordem que já se fala da era do necroceno. Quer dizer, a era da produção em massa da morte. Já estamos dentro da sexta extinção em massa. Agora é acelerada de forma irrefreável, dada a vontade de dominação da natureza e de seus mecanismos, da agressão direta à vida e à Gaia, a Terra viva, em função de um crescimento ilimitado, de uma acumulação absurda bens materiais a ponto de criar a Sobrecarga da Terra.

    Em outras palavras, chegamos a um ponto em que a Terra não consegue repor os bens e serviços naturais que lhe foram roubados e começa a mostrar um avançado processo de degeneração através dos tsunamis, tufões, degelo das calotas polares e do parmafrost, as secas prolongadas e as nevascas aterradoras e o surgimento de bactérias e vírus de difícil controle. Alguns deles como o Covid-19 pode levar à morte milhões de pessoas.

    Tais eventos são reações e até represálias da Terra face à guerra que conduzimos contra ela em todas as suas frentes. Essa morte em massa ocorre na natureza, com milhares de espécies vivas que desaparecem definitivamente por ano e também nas sociedades humanas com milhões que padecem fome, sede e toda sorte de doenças mortais.

    Cresce mais e mais a percepção geral de que a situação da humanidade não é sustentável. A continuar nessa lógica perversa, vai construindo um caminho na direção de nossa própria sepultura.

    Demos um exemplo: no Brasil vivemos sob a ditadura da economia ultra neoliberal com uma política de extrema direita, violenta e cruel para as grandes maiorias pobres Perplexos, assistimos as maldades que foram feitas, anulando direitos dos trabalhadores e internacionalizando riquezas nacionais que sustentam nossa soberania como povo.

    Os que deram o golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff em 2016 aceitam a recolonização do país, feito vassalo da potência dominante, os USA, condenado a ser apenas um exportador de commodities e um aliado menor e subalterno do projeto imperial.

    O que se está fazendo na Europa contra os refugiados, rejeitando sua presença na Itália e na Inglaterra e pior ainda na Hungria e na catolicíssima Polônia, alcança níveis de desumanidade de grande crueldade. As medidas do Presidente norte-americano Trump arrancando os filhos de seus pais imigrantes e colocando-os em jaulas, denota barbárie e ausência de qualquer senso humanitário.

    Já se disse, “nenhum ser humano é uma ilha… por isso não perguntem por quem os sinos dobram. Eles dobram por cada um, por cada uma, por toda a humanidade”.

    Se grandes são as trevas que se abatem sobre nossos espíritos, maiores ainda são as nossas ânsias por luz. Não deixemos que essa demência acima referida detenha a última palavra.

    A palavra maior e última que clama em nós e nos une a toda a humanidade é por solidariedade e por com-paixão pelas vítimas, é por paz e sensatez nas relações entre os povos.

    As tragédias dão-nos a dimensão da inumanidade de que somos capazes. Mas também deixam vir à tona o verdadeiramente humano que habita em nós, para além das diferenças de etnia, de ideologia e de religião. Esse humano em nós faz com que juntos nos cuidemos, juntos nos pomos em cooperação, juntos choremos, juntos nos enxuguemos as lágrimas, juntos oremos, juntos busquemos a justiça social mundial, juntos construamos a paz e juntos renunciemos à vingança e todo tipo de violência e guerra.

    A sabedoria dos povos e a voz de nosso coração nos testemunham: Não é um Estado que se fez terrorista como os Estados Unidos sob o Presidente norte-americano Bush que irá vencer terrorismo. Nem é ódio aos imigrantes latinos difundido por Trump que trará a paz. É o diálogo incansável, a negociação aberta e o acordo justo que tiram as bases de qualquer terrorismo e fundam a paz.

    As tragédias que nos atingiram no mais fundo de nossos corações, particularmente a pandemia viral que afetou todo o planeta, nos convidam a repensarmos os fundamentos da convivência humana na nova fase, planetária, e como cuidar da Casa Comum, a Terra como o pede o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral, “sobre o cuidado da Casa Comum” (2015).

    O tempo é urgente. Desta vez não haverá um plano B, capaz de salvar-nos. Temos que nos salvar todos, pois formamos uma comunidade de destino Terra-Humanidade.

    Para isso precisamos abolir a palavra inimigo. É o medo que cria o inimigo. Exorcizamos o medo quando fazemos do distante um próximo e do próximo, um irmão e uma irmã. Afastamos o medo e o inimigo quando começamos a dialogar, a nos conhecer, a nos aceitar, a nos respeitar, a nos amar, enfim, numa palavra, a nos cuidar; cuidar de nossas formas de convívio na paz, na solidariedade e na justiça; cuidar de nosso meio ambiente para que seja um ambiente inteiro, sem destruir os habitats dos vírus que nos vêm dos animais ou dos arborovírus que se situam nas florestas, ambiente este no qual seja possível o reconhecimento do valor intrínseco de cada ser; cuidar de nossa querida e generosa Mãe Terra.

    Se nos cuidamos como a irmãos e a irmãs, desaparecem as causas do medo. Ninguém precisa ameaçar ninguém. Podemos caminhar à noite por nossas ruas sem medo de sermos assaltados e roubados.

    Esse cuidado será somente efetivo se vier acolitado pela justiça necessária, pelo atendimento às necessidades básicas dos mais vulneráveis, se o Estado se fizer presente com saúde (a importância que o SUS mostrou face ao Covid-19, com escolas, com segurança e com espaços de convivência, de cultura e lazer).

    Só assim gozaremos de uma paz possível de ser alcançada quando houver um mínimo de boa vontade geral e um sentido de solidariedade e de benquerença nas relações humanas. Esse é o desejo inarredável da maioria dos humanos. É essa lição que a intrusão do Covid-19 nos está dando e que temos que incorporá-la nos nossos hábitos nos tempos pós-coronavírus.

     

  • Pedro Ribeiro de Oliveira – Análise de Conjuntura

    Imagem: besthqwallpapers

    Neste momento de pandemia, em que os fatos parecem se atropelar, é quase impossível fazer uma análise abrangente da realidade. Mas não podemos perder de vista a realidade global, porque somos apenas uma parte dela. Por isso, arrisco-me a publicar este texto pensado para os tempos de comunicação por internet, quando a maioria das pessoas (inclusive eu) não leem com atenção mais do que três páginas.

    Há que se distinguir três âmbitos estruturais no tempo e no espaço: (1) a Terra e sua comunidade de vida, com seu tempo longo, medido por séculos; (2) o sistema-mundo capitalista, com seu tempo histórico, medido por décadas e (3) o Brasil social, político, cultural e econômico, com seu tempo conjuntural, medido por semanas.

    • A realidade do Brasil é determinada pela conjuntura do sistema-mundo (a médio prazo) e pelo estado da Terra (a longo prazo). Só para fins de análise separam-se as diferentes conjunturas.
    1. A Terra e sua comunidade de vida

    A comunidade científica prevê que a catástrofe climático-ambiental deverá ocorrer até 2050, se não forem tomadas as medidas urgentes, mas poucos são os Estados que cumprem os compromissos do Acordo de Paris, assinado em 2015, por 195 países. Essa catástrofe vai dizimar a espécie humana e provocará mudança radical no modo de produção e de consumo e o esfacelamento dos Estados nacionais.

    Cabe a nós, hoje, pensar e preparar um modo de produção pós-catástrofe e pós-capitalista, para evitar a guerra de todos contra todos e – na melhor das hipóteses – criar uma civilização planetária onde comunidades territoriais vivam em harmonia entre si e com a Terra. Para isso, é preciso ter presente que:

    • a Terra com sua comunidade de vida é sujeito da história, não é coisa,
    • questão ambiental é questão política,
    • tempo da Terra é longo (2 séculos são quase nada),
    • não é mais possível crescimento econômico de longo prazo.
    1. Sistema-mundo capitalista em crise.

    A atual crise econômica é um repique da crise da bolha financeira de 2008, fortemente agravada pela pandemia do covid-19. É o fim do ciclo de acumulação capitalista puxado pelos EUA no século 20. Abre-se o período de transição para um novo ciclo. Sinais dessa crise são o fim do desenvolvimentismo no Sul global e o fechamento das economias do Norte global. Resultado: Megacorporações ganham mais poder (inclusive sobre os Estados nacionais), a riqueza concentra-se em 1% da população humana – as classes opulentas – enquanto a pobreza e a miséria só aumentam.

    • desde o século 15 as transições no sistema-mundo seguem o mesmo padrão: financeirização do capital > “destruição criativa” = guerra > mudança de centro.

    Aplicando-se esse padrão, estamos no momento das guerras. Conforme o tipo de armamento utilizado, distinguem-se 3 formas: (1) guerras localizadas, étnicas, contra drogas; (2) guerras de 4ª geração ou híbridas e (3) nuclear, com a provável extinção da espécie humana.

    • Na dimensão geopolítica, o mundo tende a ser repartido entre 3 potências polo:
      EUA + União Europeia, Rússia e China.
    • Na dimensão econômica o sistema-mundo capitalista passará a ter centro a China, que hoje promove a nova rota da seda. Será um capitalismo verde = precificação dos danos ambientais, e de 5ª geração = 4ª revolução industrial (informática) + controle social por tecnologia 5G e Inteligência Artificial.
    • Na dimensão cultural, é o fim da hegemonia de civilização ocidental moderna. Ao mesmo tempo que o mundo se desvencilha de seu colonialismo, seu supremacismo, seu especismo e outros vícios históricos, arrisca perder seu humanismo de inspiração cristã, sua ética universalista, a democracia como valor universal, e o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade.
    • Na dimensão política, é o neoliberalismo em ruinas (Wendy Brown): após combater o Estado social, ele cede o lugar a regimes autoritários com ideologia tosca e tradicionalista (família, religião e propriedade) > totalitarismo do mercado enquanto os Estados nacionais em declínio se enrijecem.

    Na contramão dessas tendências destrutivas, pode-se perceber uma novidade:

    • Novos movimentos – de jovens e adolescentes; de povos originários; contra o racismo; pelos direitos LGBTs; de trabalhadores/as precarizado/as, e outros – se difundem pelo mundo. Importante: o protagonismo feminino nesses movimentos e seu jeito de fazer política com arte.
    1. A conjuntura brasileira

    Em 2002 o PT fez um pacto com as classes opulentas, constituídas por cerca de 71,5 mil declarantes de Imposto de Renda com rendimentos mensais superiores a 160 salários-mínimos (dados de 2013). Elas permitiram a Lula um governo social-desenvolvimentista, mas sem realizar reformas estruturais (agrária, fiscal, política, etc) nem auditar a dívida pública. A crise econômica de 2008 e suas consequências geopolíticas levou as classes opulentas em 2014 a romper esse pacto e buscar uma coalizão com corporações e o aparato de segurança dos EUA para dar outro rumo político ao Brasil. Com a imprescindível colaboração do Poder Judiciário, o PT foi trocado por Temer, com a missão de privatizar a exploração do petróleo e alinhar-se politicamente aos EUA, conforme o Programa Uma ponte para o futuro.

    O governo Temer cumpriu a missão que lhe foi atribuída, mas não conseguiu fazer sucessor. As classes opulentas renderam-se então a Bolsonaro, com suas milícias (digitais e armadas), os militares corporativistas e sua tosca ideologia ultradireitista, para garantir Paulo Guedes e sua política de privatizações e de demolição do Estado de proteção social. O problema é que hoje Bolsonaro, incompetente diante da pandemia, com um ministério de baixíssima qualidade, incentivando o arraso ambiental e mais ocupado em defender seus filhos do que governar, tornou-se um estropício para quem tem a pretensão de constituir a elite do BrasilAqui situa-se a atual correlação de forças:

    • A mídia corporativa (Globo, Folha, Estadão e outros), que expressa os anseios do capital financeiro e do capital produtivo (agronegócio, indústria e serviços) quer livrar-se de Bolsonaro sem mudar a política econômica representada por Paulo Guedes. Tal propósito fica evidente na ausência de críticas à política econômica e aos militares que cercam o presidente para evitar estragos no comércio com a China e em outros pontos de interesse econômico.
    • Bolsonaro, porém, conta com total apoio do capital de rapina, que quer apossar-se de terras públicas, territórios indígenas e recursos naturais (Amazônia, água, garimpo). Protegido por grupos fascistas, religiosos de direita e grupos de ódio, ele tem uma base de apoio fiel, aparentemente disposta a matar ou morrer.
    • As grandes instituições políticas – Governos estaduais, Judiciário e Congresso – estão fragilizados pela cooptação de boa parte de seus membros (caso do Centrão).
    • As grandes Entidades da sociedade civil continuam quase imobilizadas por medo de retorno da esquerda ou de divisões internas (caso da CNBB).

    No polo oposto às classes opulentas, onde situam-se os grupos e setores
    oprimidos, empobrecidos ou socialmente discriminados, pode-se ver:

    • Resiliência de antigos Movimentos Sociais (Povos Indígenas, Partidos de esquerda, Sindicatos, MST, Mulheres, Negros etc) e emergência de novos movimentos em forma de coletivos (adolescentes, precarizados, LGBTs, antifas etc);
    • Oposição de intelectuais, artistas, estudantes e religiosos à necropolítica;
    • Manifestações de rua: movimentos antifas, antirracista, contra a violência (policial, à mulher e outras formas), com respaldo nas redes sociais e panelaços;
    • Ação de bancadas no Congresso, setores do Judiciário e alguns Governos estaduais;
    • Disseminação da economia solidária como alternativa à economia capitalista;
    • Sociedade civil se mobiliza: ações de solidariedade na pandemia em muitos setores;
    • Setores de Igrejas cristãs (inclusive bispos, padres e pastores) contra a necropolítica.

    Conclusão

    Neste tempo de incertezas decorrentes da pandemia, muita gente pergunta o que virá depois, esta análise não é alentadora. O “novo normal” que se desenha hoje repousa sobre a concentração ainda maior de poder e riquezas na minoria opulenta, que beneficiada pelo desmonte político e ideológico operado pelo neoliberalismo, não tem oponentes suficientemente fortes para dar outro rumo ao capitalismo concentrador de riqueza e predador do Planeta. Os governos ultradireitistas estão a serviço de sua ofensiva contra a Terra e os Pobres e só serão descartados quando for hegemônico o capitalismo de 5ª geração, com sua política de controle social por Inteligência Artificial e sua produção regida pela informática. Será a vitória definitiva do Capital sobre o Trabalho.

    O prognóstico, porém, pode ser inteiramente diferente se as classes e grupos oprimidos recuperarem seu protagonismo político, revertendo assim a vitória neoliberal do final do século 20. Vejo 3 grandes forças nesse sentido:

    • Consciência de serem os oprimidos e oprimidas sujeitos da própria libertação (Paulo Freire, Teologia da Libertação, Leitura popular da Bíblia, etc);
    • Retomada da democracia como valor universal, que ultrapassa os processos eleitorais e deve reger também a vida econômica e a produção do saber;
    • Desenvolvimento da economia solidária – talvez na forma da Economia de Francisco e Clara – como modo de produção e consumo pós-capitalista também em âmbito macroeconômico e planetário.
    • Enfim, o “novo normal” virá das periferias, com a sabedoria do Bem-Viver. Mas até chegar teremos pela frente muitas lutas, perdas e mortes. Mas a Esperança vence todo desalento, porque o bispo-poeta Pedro Casaldáliga já proclamou: “somos combatentes derrotados de uma causa invencível”.

    Vitória – ES, 9 de julho de 2020

    • Publicado originalmente no site do Movimento Nacional Fé e Política.
  • Leonardo Boff – a mãe que virou beija-flor para libertar a filhinha

    Leonardo Boff – Em homenagem aos indígenas: a mãe que virou beija-flor para libertar a filhinha

    Amigos/as,
    Estou enviando este belo mito indígena
    em homenagem aos muitos deles
    que estão morrendo de covid-19.
    Abraço desesperançado deste governo.
    lboff

    São muitos irmãos e irmãs nossos indígenas que estão morrendo por causa do Covid-19 e o descaso das políticas genocidas e etnocida do atual Governo.

    Dedico-lhes este belo mito-estória dos povos amazônicos sobre o sentido da morte e da entrada na suprema Felicidade. Ela vale também para os familiares dos milhares de falecidos por causa do Coronavírus. Eles merecem a nossa solidariedade e também nossas palavras de consolo.

    Sempre nos perguntamos: como as pessoas falecidas chegam ao céu? Há uma convicção entre os povos de que todos devem fazer uma viagem. Nessa viagem há provas a passar. Segundo este relato dos povos amazônicos, cada um deve se purificar, tornar-se leve para poder mergulhar para dentro daquele mundo de alegria e de festa onde estão todos os antepassados e os parentes falecidos.

    A nossa tristeza é que, por causa do descaso das atuais autoridades que desprezam e até odeiam os povos originários, muitos pajés estão morrendo, vítimas do Covid-19. Com eles desaparece uma inteira biblioteca de conhecimentos que eles herdaram, enriqueceram e sempre passam às novas gerações. Com sua morte há uma ruptura dolorosa dessa tradição. Eles e nós sofremos e ficamos mais pobres. A todos eles nossa profunda solidariedade e com-paixão, sofrendo também a dor que eles sofrem: LBoff

    Indígena usa mascara durante funeral do chefe Messias Kokama 53 do parque das tribos falecido devido a covid-19 em Manaus. 1589508291656_v2Em muitas tribos da Amazônia acredita-se que os mortos se transformam em borboletas. Durante o tempo necessário para a purificação, cada qual ganha uma forma adequada. As que se purificam logo, são alvíssimas, com poucas horas de vida e com cores brancas. Penetram diretamente no mundo da felicidade.

    As que precisam de mais tempo, são menores, leves e multicores. E as que precisam de muito tempo são maiores, pesadas e com cores escuras.

    Todas elas voam de flor em flor, sugando néctar e fortalecendo-se para carregar o próprio peso ao se alçarem ao céu, onde viverão felizes com todos os antepassados e parentes que estão apenas no outro lado da vida. Conta-se naquela floresta a seguinte estória:

    Coaciaba, era uma jovem índia, esbelta e de rara beleza. Ficara viúva muito cedo, pois seu marido, valente guerreiro, tombara sob uma flecha inimiga. Cuidava com extremo carinho da única filhinha, Guanambi.

    Para aliviar a saudade interminável do marido, passeava, quando podia, pelas margens do rio, vendo as borboletas ou na campina, perto do roçado, onde também esvoaçavam os colibris e outros insetos.

    De tanta tristeza, Coaciaba acabou morrendo. Não se morre só de doença, por velhice ou por causa de um vírus maligno da natureza. Morre-se também por saudade da pessoa amada.

    Guanambi, a filha, ficou totalmente sozinha. Inconsolável, chorava muito, especialmente, nas horas em que sua mãe costumava levá-la a passear. Mesmo pequena, só queria visitar o túmulo da mãe. Não queria mais viver. Pedia a ela e aos espíritos que viessem buscá-la e a levassem lá onde estivesse a sua mãe.

    De tanta tristeza, Guanambi foi definhando dia após dia até que também ela morreu. Os parentes ficaram muito penalizados, com tanta desgraça sobrevindo sobre a mesma família.

    Mas, curiosamente, seu espírito não virou borboleta como a dos demais índios da tribo. Ficou aprisionado dentro de uma linda flor lilás, pertinho da sepultura da mãe. Assim podia ficar junto da mãe, como havia pedido aos espíritos.

    A mãe Coaciaba, cujo espírito fora, sim, transformado em borboleta, esvoaçava de flor em flor sugando néctar para se fortalecer e encetar sua viagem ao céu.

    Certo dia, ao entardecer, ziguezagueando de flor em flor, pousou sobre uma linda flor lilás. Ao sugar o néctar, ouviu um chorinho triste e doce. Seu coração estremeceu e quase desfaleceu de emoção. Reconheceu dentro dela a vozinha da filha querida Guanambi. Como poderia estar aprisionada ai? Refez-se da emoção e disse:

    • Filha querida, mamãe está aqui com você. Fique tranquila que vou libertá-la para juntos voarmos para o céu.

    Mas deu-se logo conta de que ela era uma levíssima borboleta e que não teria forças para abrir as pétalas, romper a flor e libertar a filhinha querida. Recolheu-se, então, a um canto e, em lágrimas, suplicou ao Espírito criador e a todos os ancestrais da tribo:

    • Por amor ao meu marido, valente guerreiro, morto em defesa de todos os parentes, por compaixão de minha filha órfã, Guanambi, presa no coração da flor lilás, eu vos imploro, Espírito benfazejo e a vós todos, anciãos de nossa tribo: transformem-me num passarinho veloz e ágil, dotado de um bico pontiagudo para romper a flor lilás e libertar a minha querida filhinha.

    Tanta foi a compaixão despertada por Coaciaba que o Espírito criador e os anciãos da tribo atenderam, sem delongas, a sua súplica. Transformaram-na num belíssimo beija-flor, leve, ágil, que pousou imediatamente sobre a flor lilás. Sussurrou com voz carregada de enternecimento:

    • Filhinha, sou eu, sua mãe. Não se assuste. Fui transformada num beija-flor para vir libertá-la.

    Com o bico ponteagudo, foi tirando com cuidado pétala por pétala até abrir o coração da flor. Lá estava Guanambi sorridente, estendendo os bracinhos em direção da mãe.

    Purificadas e abraçadas voaram alto, cada vez mais alto até chegarem juntas ao céu.

    Desde então se introduziu entre indígenas amazônicos, o seguinte costume: sempre que morre uma criança órfã, seu corpinho é coberto de flores lilás, como se estivesse dentro de uma grande flor, na certeza de que a mãe, na forma de um beija-flor, venha buscá-a para, abraçadas, voarem para o céu, onde estarão eternamente juntas e felizes com todos os antepassados e com todos os demais parentes.

    Leonardo Boff reescreveu mitos-estórias de nossos povos indígenas:”O casamento entre o céu e a Terra”, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.

     

  • Frei Betto – O CARDEAL

    À porta do presídio o bispo é impedido de entrar. Só o arcebispo, que ali nunca esteve, tem passe-livre. Pouco depois, o arcebispo – que viu torturados, mas jamais acreditou em torturas – é removido para Roma. O papa nomeia para o seu lugar o bispo proibido de visitar os presos políticos. Do alto de seu novo múnus arquiepiscopal, o futuro cardeal, todo paramentado, apresenta-se à porta do presídio que, agora, se abre ao sopro da força do Espírito.

    O novo arcebispo sobe as escadas da galeria de celas, ouve atento as denúncias de maus-tratos, visita os frades dominicanos acusados de subversão, abençoa os que sofrem.

    Semanas depois, um dos frades é levado de volta às sevícias e, durante três dias, submerge no batismo de sangue, em comunhão com os mártires. O cardeal deixa a sua casa – pois vendera o palácio episcopal para construir centros comunitários na periferia – e vai ao presídio consolar o frade, cuja boca havia sido aberta para “receber a hóstia” de descargas elétricas, enquanto a pele ardia à brasa de cigarros.

    O cardeal ignora a advertência dos policiais e entra, sem pedir licença, numa delegacia de proteção da ordem política e social. Ninguém ousa barrá-lo, nem se atreve a acusá-lo de desacato à autoridade. O cardeal está de clergyman e caminha firme rumo ao subsolo, onde encontra um de seus padres sangrando em dores. Como quem teme mais a autoridade de Deus que a dos homens, o carcereiro mete a chave no cadeado e destranca os ferrolhos, permitindo que o cardeal toque as chagas do sacerdote descido há pouco do pau-de-arara.

    O jornalista judeu foi suicidado no mesmo local em que o frade havia sido espancado. O cardeal reage indignado e convoca os fiéis para a missa solene na catedral. Rabinos e empresários, empenhados em demover o cardeal, dirigem-se à casa dele e tentam convencê-lo da insensatez de um culto católico para um judeu assassinado. O cardeal retruca enfático: “Jesus também era judeu”. E abre a catedral à cerimônia fúnebre.

    O cardeal viaja quilômetros de carro para visitar prisioneiros afastados dos grandes centros urbanos, aceita mediar a greve de fome dos encarcerados, abre suas portas a familiares e advogados que vêm contar-lhe da mais recente vítima da ditadura. O cardeal telefona a generais e delegados, protesta junto ao presidente da República, informa ao papa o que se passa nos subterrâneos da história do Brasil.

    A ditadura agoniza e o cardeal, convencido de que não se deve repetir nunca mais esta página da história, escreve o mais contundente relato dos crimes do regime militar, Brasil, Nunca Mais. O livro alcança repercussão mundial e torna-se fator de interdição, em funções públicas, de muitos que acreditavam que a liberdade se esculpe a pauladas.

    O cardeal incomoda, com o seu profetismo, a própria Igreja. Sua arquidiocese é retalhada, restando-lhe o centro, enquanto seu coração permanece na periferia. Seu nome é suprimido das comissões vaticanas. O papa João Paulo II mostra-lhe o dossiê que a Cúria Romana preparara contra ele e atira-o no lixo. O cardeal dobra-se, apanha os papéis e pede ao papa que assine, para guardar de recordação.

    O cardeal se chamava Dom Paulo Evaristo Arns.

    * Forquilhinha, 14 de setembro de 1921 — +São Paulo, 14 de dezembro de 2016 (Imagem Fabio Braga/Folhapress).

     

  • CARTA PÚBLICA: Pela defesa dos Direitos da Mãe Terra e pela Vida da Amazônia com seus povos

    Amigas e Amigos, 
    No dia 22 de abril de 2020 – Dia Internacional da Mãe Terra, nós, Organizações e movimentos sociais do Brasil lançamos uma Carta Pública em que anunciamos a decisão de desencadear um processo de mobilização nacional pela vida da Amazônia com seus povos e pelo reconhecimento dos direitos da Natureza, nossa Mãe Terra.
    As adesões à Carta Pública e a comunicação com a iniciativa deve ser feita pelo e-mail fclimaticas@gmail.com

    CIMI – Encontro das Mulheres do Povo Apinajé “Nós somos a terra, e devemos cuidar dela”

    CARTA PÚBLICA: Pela defesa dos Direitos da Mãe Terra e pela Vida da Amazônia com seus povos

    Anos e anos de pressão, especialmente das insistentes mobilizações dos povos originários e da publicação da Carta da Terra no ano 2000, fruto de um processo  internacional  participativo com adesão de mais de 4.500 organizações da sociedade civil e organismos governamentais, levaram a ONU a declarar, em 2009, o dia 22 de abril como Dia Internacional da Mãe Terra.

    Agora, no ano 2020, a celebração do Dia da Mãe Terra está sendo realizada com a humanidade vivenciando  uma dura experiência  de globalização:  em meses, um denominado  “novo coronavírus” está afetando todos os povos do Planeta. Levado pelos diversos caminhos do mercado, desde o do turismo até o de mercadorias, sua rápida capacidade de contágio só encontrou a estratégia de isolamento de todas as pessoas como medida capaz de diminuir a sua velocidade e evitar o colapso dos serviços públicos e privados de saúde.

    O orgulhoso mercado globalizado experimentou seus limites e contradições, e hoje a economia capitalista, cultuada como um ídolo todo-poderoso, revira-se  no esforço de prever o tamanho da sua queda.

    As pessoas, contudo, estão refazendo o aprendizado de viver a partir de sua casa – ou da falta dela -, e com tempo para refletir sobre o sentido da correria, do desgaste e exploração a serviço do um crescimento econômico sem limite num planeta limitado, e num sistema que concentra riqueza em poucas mãos e multiplica inseguranças e miséria para a maioria da espécie humana.

    De 2009  até hoje as grandes  empresas,  conglomerados  monopolistas, operadores  das commodities, mineradores, agronegócio, sistema  financeiro e os governos subservientes aos seus interesses não mudaram suas práticas de se apropriar e de explorar à exaustão os bens naturais dos biomas, destruindo tudo o que podia ser transformado em lucro. Isso acelerou de modo especial o desmatamento  da floresta da Amazônia e do Cerrado, e a maioria da população foi empurrada a viver em grandes cidades estruturalmente discriminadoras e racistas, sobrevivendo em favelas, sem direito garantido a trabalho, moradia e meio ambiente saudável.

    Esses projetos desenvolvimentistas, que avançam sobre os bens públicos e comuns com a conivência e apoio do Estado, são responsáveis pelo agravamento das mudanças climáticas e pelo fracasso do controle das emissões de gases de efeito estufa. As consequências presentes são os desastres causados por secas, enchentes, ventanias, intrusão salina, rebaixamento dos lençóis freáticos, elevação do nível dos mares e outros eventos extremos, que no futuro tendem a se multiplicar e agravar na medida que o planeta aquece.

    Os povos originários e comunidades tradicionais, ao contrário, consolidaram seus modos de vida fundados na compreensão de que a Terra é um ser vivo e fonte de vida, Pacha Mama, Mãe Terra. Contribuíram de forma decisiva para os avanços políticos que levaram o Equador a incorporar na sua Constituição, elaborada por uma Assembleia Constituinte Popular e aprovada por um Plebiscito nacional, um capítulo sobre os Direitos da Natureza, assim definidos:

    A natureza ou Pacha Mama, onde se  reproduz e realiza a vida, tem direito a que se  respeite integralmente sua  existência e  a manutenção e  regeneração de  seus  ciclos  vitais, estrutura, funções e processos evolutivos. (Capítulo VII, Art. 71)

    Da mesma forma, a Bolívia reconheceu estes direitos no Plebiscito de 2012 que aprovou a Lei da Mãe Terra. E, com certeza, há busca de novas práticas e novas relações com a natureza nas economias indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais, no crescimento dos plantios agroecológicos e agroflorestais, nas práticas de convivência com o Semiárido brasileiro e com os demais biomas, na economia popular solidária e em muitas outras iniciativas populares.

    Precisamos reafirmar: já há práticas que demonstram ser possível estabelecer relações de convivência com os biomas e desenvolver, ao mesmo tempo, iniciativas de produção dos bens necessários à vida. É falso o dilema: ou manter  o equilíbrio ecológico ou produzir o que a humanidade precisa. Primeiro porque a humanidade precisa, antes de qualquer outra coisa, de condições naturais favoráveis à sua existência: ar limpo, água pura, vegetações, flores, espaços agradáveis de encontro e de intercomunicação… Depois, já existem provas de que é possível produzir o que as pessoas e os demais seres vivos precisam – atenção: o que precisam  – cultivando, trabalhando amorosamente com as energias da Terra, superando práticas de agro e hidronegócio, de extração de minérios e fontes fósseis de energia, isto é, de exploração cada vez mais intensiva dos solos, água e ar, usando produtos químicos para que as mercadorias garantam lucros crescentes.

    Tendo por base as possibilidades construídas pelos povos e comunidades, e denunciando o caráter destrutivo das práticas empresariais e das políticas governamentais dominantes, as redes e entidades que subscrevem essa declaração pública assumem o compromisso de lutar, implementando mobilização nacional, em defesa dos direitos da Natureza, a nossa Mãe Terra. Ninguém, nem mesmo a totalidade dos seres humanos, somos donos, senhores da Terra. Ela, sim, é senhora da nossa vida. Como durante bilhões de anos se manteve viva e em evolução sem os seres humanos, certamente poderá continuar viva sem a presença da espécie humana. A humanidade, porém, só poderá continuar viva e ter direitos se reconhecer, defender e cuidar dos direitos da Mãe Terra.

    É por isso que assumimos a defesa do direito da Mãe Terra à floresta e à sociobiodiversidade da Amazônia, bem como dos demais biomas, para ter condições de garantir equilíbrio hídrico em todo o território brasileiro e da América do Sul. Defendemos igualmente a obrigação dos seres humanos e do Estado brasileiro de parar definitivamente o desmatamento e os incêndios criminosos, assumindo a obrigação de restaurar a biodiversidade destruída, na Amazônia e em todos os biomas, para que a Terra possa garantir a geração de umidade e chuvas, como ela desenvolveu em seu processo evolutivo.

    A crise humanitária gerada pelo Coronavírus prova que podemos viver de outra forma. Toda crise tem lições a nos ensinar. O isolamento social forçado nos obrigou a desacelerar o ritmo de vida. O desenvolvimentismo  desenfreado,  como se o planeta  não tivesse limites, está em cheque. Esse é o momento para mudar o rumo da caminhada humana, reconhecendo, defendendo e cuidando dos direitos da Mãe Terra, para que a espécie humana seja de fato expressão consciente e amorosa da Mãe de todos os seres vivos.

    Brasília, 22 de abril de 2020

    Assinado,

    Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade (AFES)
    Ação Social Diocesana de Patos/PB
    Ágora das/dos Habitantes da Terra Brasil (AHT-BR)
    Arquidiocese de Manaus
    Articulação Antinuclear Brasileira (AAB)
    Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC)
    Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espirito Santo
    (APOINME)
    Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)
    Articulação pela Convivência com a Amazônia (ARCA)
    Articulação pela Preservação da Integridade dos Seres e da Biodiversidade (APISBio)
    Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)
    Associação Alternativa Terrazul
    Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA)
    Associação de Agricultores Familiares Pe. Claret-Grama
    Associação de Combate aos Poluentes (ACPO)
    Associação De Pesquisa Xaraeís
    Associação de Saúde Socioambiental (ASSA)
    Associação dos Agroextrativistas do Baixo Rio Ouro Preto (ASAEX)
    Associação dos Moradores,
    Produtores e Amigos do Distrito De Nazaré (AMPAN)
    Associação Escola Família Agrícola Jaguaribana (AEFAJA)
    Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN)
    Associação Guardiões do Cerrado/Goiás (AGC)
    Associação Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania
    Associação para Recuperação e Conservação do Ambiente (ARCA)
    Associação Profissional dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro (APSERJ)
    Associação Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami-Secoya
    Associação Solidariedade Libertadora (ASSOLIB/MA)
    Auditoria Cidadã da Dívida
    Campanha Nem um Poço a Mais
    Cáritas Brasileira (CB)
    Cáritas Diocesana de Crato
    Cáritas Diocesana de Macapá Cáritas Diocesana de Pesqueira
    Cáritas Diocesana de Roraima Ceará no Clima
    Central de Movimentos Populares de Rondônia (CMP/RO)
    Centro Burnier de MT
    Centro Dandara de Promotoras Legais Populares de São José dos Campos
    Centro de Ação Cultural (CENTRAC)
    Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra – ES (CDDH)
    Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis (CDDH)
    Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá
    Centro de Direitos Humanos de Formoso do Araguaia
    Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS)
    Centro Diocesano de Apoio ao Pequeno Produtor – (CEDAPP)
    Centro Semear
    Coletivo Catarse
    Coletivo Dez Mulheres da Vila de Ponta Negra/RN
    Coletivo Mura de Porto Velho
    Coletivo Não Lugar
    Coletivo Pelo Direito A Cidade De Porto Velho/RO
    Coletivo Popular Direito a Cidade, Porto Velho-RO
    Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP)
    Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil
    Comissão Pastoral da Terra (CPT)
    Comitê de Energia Renovável do Semiárido (CERSA)
    Comitê Defensor da Vida Amazônica na Bacia do Rio Madeira – Núcleo FMCJS/RO
    Comitê Goiano de DHs D. Tomás  Balduino
    Comunidades Eclesiais de Base Regional Norte 1
    Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
    Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC)
    Conselho Nacional de Ouvidorias Externas das Defensorias Públicas
    Conselho Nacional do Laicato do Brasil
    Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP)
    Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)
    CRIOLA
    Diálogos em Humanidade – Brasil (DeH-BR)
    Diocese de Goiás
    Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)
    Fórum da Amazônia Ocidental (FAOC)
    Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)
    Fórum de Direitos Humanos e da Terra (FDHT)
    Fórum dos Atingidos pela Indústria do Petróleo e Petroquímica nas cercanias da Baía de Guanabara (FAPP-BG)
    Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCJS)
    Fraternidade da Anunciação – Goiás/GO
    Frente por Uma Nova Política Energética para o Brasil
    Fundação de Educação e Defesa do Meio Ambiente do Vale do Jaguaribe  (FEMAJE)
    Fundação Luterana de Diaconia – Conselho de Missão Entre Povos Indígenas – Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (FLD-COMIN-CAPA)
    Fundação Vida para Todos (ABAI)
    Greenpeace Brasil
    Grupo Ambientalista da Bahia (GAMBÁ)
    Grupo Carta de Belém (GCB)
    Grupo de Defesa da Amazônia (GDA)
    Instituto Aldeias
    Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE)
    Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (PROAM)
    Instituto Calliandra de Educação Integral e Ambiental
    Instituto Madeira Vivo (IMV)
    Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)
    Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA)
    International Rivers (IR)
    Iser Assessoria
    Laboratório de Pesquisa em Educação, Natureza e Sociedade (LabPENSo), da UERJ-FEBF
    Marcha Mundial
    Por Justiça Climática/ Marcha Mundial Do Clima
    Métodos de Apoio à Práticas Ambientais e Sociais (MAPAS)
    Movimento Baía Viva (RJ)
    Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE)
    Movimento dos Atingidos por Barragens  (MAB)
    Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
    Movimento Educação de Base (MEB)
    Movimento Nacional Contra Corrupção e pela Democracia (MNCCD)
    Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH/ES
    Movimento Pró-Saneamento e Meio Ambiente da Região do Parque Araruama/São João de
    Meriti – RJ (MPS)
    Movimento Sócio-Ambiental Caminho das Águas – Itu/SP
    Movimento Tapajós Vivo (MTV)
    Movimentos dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campos (MTC)
    Núcleo Cerrado FMCJS
    Núcleo de estudos Amazônicos da UNB (NEAz)
    Núcleo RJ do FMCJS
    O Grupo de Pesquisa Energia Renovável Sustentável  (GPERS/UNIR)
    Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA)
    Observatório Político da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP)
    ONG Mutirão
    Ong Pachamama
    Organização dos Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas
    (OPIROMA)
    Organização Orowari dos Povos Indígenas de Guajará Mirim e Nova Mamoré-RO
    Organizacion Comunal de la Mujer Amazonica (OCMA)
    Ouvidoria Geral Externa da Defensoria Pública do Estado de Rondônia
    Pastoral da Mulher Marginalizada (PMM)
    Pastoral do Meio Ambiente da Arquidiocese do Rio de Janeiro
    Preferência Apostólica Amazônia (PAAM)
    Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA)
    Rede das Associações das Escolas Família do Amapá (RAEFAP)
    Rede Eclesial Pan Amazônica – REPAM Brasil
    Rede Jubileu Sul Brasil (JSB)
    Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES)
    Serviço Interfranciscano de Justiça Paz e Ecologia (SINFRAJUPE)
    Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM)
    Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde de Goiás (SINDSAUDE/GO)
    Sinttel MG
    Sociedade Amigos por Itaúnas (SAPI)
    Sociedade de Apoio Sócio – Ambientalista e Cultural (SASAC)
    Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)
    TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta (Parintins/AM)
    União Estadual por Moradia Popular (UEMP-RO)
    Via Campesina Brasil

    ADESÕES
    A adesão a esta Carta Pública continua aberta às entidades através do e-mail fclimaticas@gmail.com
    Para divulgar use estas palavras-chave
    #direitosdanatureza
    #pelavidanaamazonia
    #salveaamazonia
    #amazonia
    #direitosdamaeterra

     

  • Os R$ 600 que podem mudar a face do Brasil – Antonio Martins

    Por Antônio Martins para Outras Palavras, 19 de junho de 2020.

    O Auxílio Emergencial pago a 64 milhões de pessoas está ameaçado pelo governo Bolsonaro-Guedes. Começou uma campanha da sociedade civil para defendê-lo. Parece ser por dinheiro, mas é por um mundo novo. Por isso, vale a pena.

    Vinte centavos sacudiram o Brasil, em 2013. Diante de manifestações gigantescas pela redução das tarifas de ônibus, o governo de esquerda amedrontou-se, temendo a autonomia das ruas. Os líderes do movimento erraram feio em suas análises da correlação de forças. Uma sucessão de equívocos grosseiros permitiu que a direita capturasse a onda de protestos e, um ano e meio depois, o poder.

    Mas fenômenos semelhantes vêm se repetindo com frequência e intensidade crescentes, em latitudes e circunstâncias políticas distintas. Um imposto “ecológico” sobre a gasolina (que na verdade ampliava a injustiça fiscal) fez nascer na França, em outubro de 2018, a rebelião dos gillets jaunesEm setembro de 2019, no Equador, um levante indígena e das periferias arrasou a popularidade do presidente Lênin Moreno, após um aumento de 30% nos preços da gasolina, imposto por acordo com o FMI. Um mês depois, no Chile, uma elevação de 3,75% nas passagens de metrô despertou os catracazos secundaristas, destapou trinta anos de revoltas contra as políticas neoliberais e obrigou o presidente Piñera e o Parlamento conservador a aceitarem uma Constituinte. Também em outubro, no Líbano, a introdução de um imposto sobre o whatsapp, de 2 dólares por mês, desencadeou protestos inéditos, queda do governo e uma crise política ainda irresolvida, que inclui moratória da dívida externa.

    Serão os R$ 600 do “auxílio emergencial” criado em março o estopim de uma nova revolta brasileira? Ou – talvez melhor – poderão abrir, enfim, um debate sobre os rumos do país, no pós-pandemia? Criarão, além disso, condições políticas para uma Renda Básica permanente, universal e capaz de assegurar vida material digna?

    É impossível saber, a esta altura. Mas na última quarta-feira (17/6) um novo ingrediente foi adicionado ao caldo de contradições, potencialmente explosivo, em que o governo trama a extinção do benefício. Um conjunto de 163 organizações e movimentos, articulados em torno da campanha “Renda Básica que queremos” apresentou ao Congresso a proposta de sua prorrogação até dezembro. O valor permanece o mesmo, mas há avanços importantes. Entre eles, reduz-se a intrincada burocracia que excluiu milhões, atrasou pagamentos e obrigou a formação de filas humilhantes. Estendem-se os R$ 600 aos trabalhadores da economia formal cuja renda familiar per capita seja inferior a meio salário mínimo. Elimina-se a exclusão dos que tiveram renda superior a R$ 28 mil em 2018 – o que pode contemplar parte dos uberizados, até agora barrados por Bolsonaro.

    Nas próximas quatro semanas, o debate em torno do Auxílio Emergencial pode migrar para o centro da agenda política. A última das três parcelas aprovadas pelo Congresso em 1º de abril começa a ser paga hoje (18/6). Mas a pandemia e o colapso econômico prosseguem, sem dar sinais de amainar. A partir de 18 de julho, cerca de 81 milhões de pessoas, para as quais os R$ 600 são indispensáveis, poderão despencar num abismo de exclusão ainda mais profundo. A demanda surpreendente pelo benefício – que em princípio deveria dirigir-se apenas aos “mais pobres” – revela como regrediu a Economia brasileira; como é insano pretender que ela “volte ao normal” após a covid-19; como é falso o discurso segundo o qual o país, após as contrarreformas de 2016-18, preparava-se “para decolar”.

    O governo está em saia justa e em desconforto crescente. Por um lado, o fim do Auxílio poderá abalar a já declinante popularidade do presidente – em especial nas camadas sociais onde ele ganhou um tímido alento. Por outro, a oligarquia financeira, base política essencial para sustentar Bolsonaro no poder, em meio a seus crimes e desatinos, dá sinais de impaciência: deseja impor, o mais breve possível, novos limites ao gasto social e a volta do que chama de “disciplina fiscal”.

    No Congresso, por onde a extensão do Auxílio Emergencial terá de passar, reina a ambiguidade. O alinhamento ideológico com as ideias neoliberais é vastíssimo e ficou demonstrado em todas as contrarreformas dos últimos anos. No entanto, a ideologia, apenas, não coloca votos em urna. Haverá eleições em breve, os parlamentares sabem que seu prestígio é baixo e a pandemia tem-nos levado a concessões que talvez em outros tempos fossem impossíveis. São exemplos disso, além da própria votação dos R$ 600 por três meses, em abril, a mais recente aprovação a Lei Aldir Blanc, que investe R$ 3 bilhões na Cultura.

    A novidade essencial introduzida em 17/6, pela proposta das 163 organizações, é criar um polo de mobilização. Agora, a luta para prolongar o auxílio emergencial, introduzir um embrião de Renda Básica no Brasil e questionar a “volta ao velho normal” não é apenas uma quimera – nem depende de um gesto de “boa vontade” do Palácio do Planalto ou do Congresso. Há instrumentos claros para agir: no momento, uma petição, indicações sobre como pressionar os parlamentares. Em breve, articulações com partidos, personalidades, antigos e novos “influenciadores” darão mais caldo à mobilização. Num país infelicitado pela pandemia e por um governo de devastação nacional, está surgindo um respiro, uma oportunidade nova para atuar, refletir e questionar. Porque a Renda Básica é, em muitos sentidos, a antítese do projeto de concentração brutal de riquezas, eliminação de direitos e esvaziamento da democracia, que o Brasil vive desde 2016. É o que veremos isso a seguir.

      1. O Destape

    Auxílio Emergencial já transfere, para as maiorias,
    quinze vezes mais renda que o Bolsa Família. Sua grandeza sinaliza
    quanto o Estado poderá fazer, quando deixar de ser colonizado pelo 0,1%

    Nos planos iniciais do governo, o Auxílio Emergencial era uma espécie de compensação, um “cala-boca”. Em 23/3, em sintonia com autoridades monetárias de outros países, o Banco Central (BC) ofereceu à banca privada um pacote de benefícios financeiros equivalente a R$ 1,2 trilhão. No mesmo período, tramitava no Congresso a chamada Emenda Constitucional do Orçamento de Guerra, que autorizaria o mesmo BC a comprar, pelo valor de face, créditos irrecuperáveis (os chamados “títulos podres”) em poder de bancos e corporações. A justificativa, como sempre nestas ocasiões, era “resgatar” o sistema financeiro, por meio de injeções de “liquidez”.

    Mas e para salvar a população açoitada pela pandemia? Em março, no conjunto de medidas adotadas em meio à pandemia, o governo ofereceu algo como uma esmola. Um pagamento de R$ 200 mensais, apelidado pelo Palácio do Planalto de “coronavoucher”, equivalia a mínimos R$ 6,66 por dia – pouco mais que três notas de R$ 2. O projeto governamental foi atravessado por uma articulação rápida, liderada pela sociedade civil, apoiada pelos partidos de oposição (e descrita em mais detalhes no próximo tópico do texto). Quando se formou uma maioria nítida em favor de R$ 500, o Palácio do Planalto cedeu e elevou o valor em mais R$ 100, numa jogada (em grande parte bem-sucedida) para apresentar o benefício como sua criação.

    Mas as dimensões que o “voucher” assumiria surpreenderam a todos. No início de junho, o número estava, segundo a Caixa, em 64,1 milhões. Além disso, 16,7 milhões, que cumprem os requisitos mas a quem foram solicitados documentos adicionais, estavam na fila de espera. Embora indignem, as concessões indevidas (servidores militares, Luciano Hang, pessoas de renda alta) não são relevantes, do ponto de vista estatístico. Só as solicitações já aprovadas já tornam o Auxílio Emergencial cerca de quinze vezes superior, em montante, ao bolsa-família: são R$ 38,4 bilhões transferidos mensalmente, contra cerca de R$ 33 bilhões ao ano. Além de pagar cerca de cinco vezes mais (são de R$ 89 a R$ 178, no bolsa-família), o Auxílio Emergencial abrange uma população maior. A diferença aparece graficamente nos mapas abaixo, construídos por O Globo com base em dados do governo federal.

    As consequências humanas são ainda mais importantes. No mesmo jornal, os repórteres Pedro Capetti e Geralda Doca traçaram, em 12/6, um pequeno panorama dos resultados. Milhões de pessoas, atingidas pela quebra da economia, usam previsivelmente o benefício para se alimentar. Mas outro fenômeno emergiu, mostram eles: a redução parcial das dívidas bancárias das famílias mais pobres. Segundo os últimos dados da Confederação Nacional do Comércio, já chega a 66,5% do total a percentagem de domicílios endividados – submetidos ao pagamento dos juros mais altos do mundo. A dívida total das pessoas físicas ultrapassa 3,1 trilhões de reais: em média, quase R$ 15 mil por brasileiro…

    As sucessivas “reformas” econômicas adotadas desde 2016 (Trabalhista, da Terceirização, da Previdência, do Congelamento do Gasto Social, entre outras) prometiam um mercado de trabalho “dinâmico”. Livre das “amarras” regulatórias, os empresários se sentiriam livres para contratar, e a redução dos índices de desemprego pressionaria os salários para cima. O fato de 80,7 milhões de brasileiros credenciarem-se a um benefício que tem como um dos critérios possuir renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo (R$ 511) revela como este discurso era falso e indica como é preciso alterar radicalmente os rumos.

    Mas como assegurar esta mudança de rumos, se o governo quer evitá-la a todo custo?

    III. A mobilização

    Esvaziada, a democracia brasileira não abre espaço
    para debater em profundidade a Renda Básica.
    Mas a tramitação do Auxílio Emergencial revela brechas que é preciso aproveitar

    Se o Brasil fosse uma democracia digna do termo, o destino do Auxílio Emergencial estaria pautado com destaque no Congresso e seria manchete todos os dias nos jornais e na TV. O governo trama abertamente o fim do benefício. A vida de 81 milhões de pessoas (sem contar seus dependentes menores de 18) será atingida gravemente. Em meio a uma pandemia que não arrefece, elas podem ver-se obrigadas, em quatro semanas, a se lançar em desespero às ruas, para sobreviver. Muitas perderão o teto e a comida, como já adverte a FAO, agência da ONU para alimentação.

    Mas tal prioridade não existe para os parlamentares, conta José Antonio Moroni, integrante do colegiado de gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e um dos coordenadores da campanha pela prorrogação do auxílio emergencial. “Se os trâmites do Parlamento já são incertos em tempos normais, imagine em épocas de covid-19”, diz ele. As sessões presenciais da Câmara e Senado estão compreensivelmente suspensas. As votações são feitas à distância. Mas o que poderia ser uma oportunidade para publicizar a atividade dos representantes do povo (com apresentação online aos temas em debate e ao posicionamento dos congressistas, por exemplo) converteu-se em mais opacidade. A pauta é fixada exclusivamente pelos presidentes da Câmara e Senado. Sequer as reuniões de líderes dos partidos ocorrem com regularidade. Nesse cenário, não há a mínima ideia sobre quando, e de que forma, entrará em votação o destino do Auxílio Emergencial.

    Recorre-se a artifícios – e a campanha pelos R$ 600 tem sido particularmente hábil e criativa em manejá-los. Em março, no esforço que transformou o “coronavoucher” no Auxílio Emergencial, por exemplo, três instrumentos mostraram enorme capacidade de viralizar e repercutir. O escritor e ator Gregorio Duvivier talvez tenha dado a partida, ao produzir uma edição especial do GregNews dedicada ao tema. Um grupo de cerca 2 mil youtubers, articulado pela matemática Tatiana Roque repercutiu as ideias básicas. Esta densidade permitiu que uma petição online escapasse da previsibilidade deste instrumento, e reunisse, em poucos dias, 500 mil adesões. A história está contada numa extensa matéria que a economista Alessandra Orofino escreveu para a revista Piauí.

    Alessandra também narra como se passou a uma segunda etapa, já no Congresso. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, havia formado uma comissão de deputados encarregada de examinar medidas socioeconômicas relativas à pandemia. Cinco de seus integrantes –, Orlando Silva (PcdoB-SP), Tabata Amaral (PDT-SP), Mauro Benevides Filho (PDT-CE), Felipe Rigoni (PSB-ES) e Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) serviram de interlocutores entre a campanha e Maia. Ao fim, a proposta tomou a forma de um projeto de lei apresentado pelo deputado Eduardo Barbosa (PSDB-PA), aprovado em sessão virtual e votação simbólica.

    Na nova batalha, iniciada em 17/6, o cenário tende a ser muito distinto, Já não haverá o clima de surpresa com a pandemia, nem de busca, quase ingênua, do “bem comum”, entre parlamentares de um vasto leque de siglas. Será uma disputa política mais clássica e renhida. Há dois fatores novos, ambos com enorme peso. Por um lado, em favor da prorrogação do Auxílio Emergencial, pesam seu sucesso inegável, sua viabilidade comprovada e – em especial – o trauma material e político que sua retirada pode significar, para 80,7 milhões de brasileiros. Por outro, contra este embrião de Renda Básica, conspiram o governo Bolsonaro e a oligarquia financeira.

    1. Improvável Cilada

    Como todas as propostas transformadoras e populares, a Renda Cidadã está sujeita a captura.
    O ministro Paulo Guedes não pensa em outra coisa.
    Mas há muito espaço para evitar que seu plano seja bem-sucedido.

    Ao longo da pandemia, deu-se um movimento – limitado, porém, importante – na base de apoio social ao governo Bolsonaro. Todas as últimas pesquisas revelam que ele perdeu força no conjunto da população. Ficaram para trás os tempos em que um terço da sociedade o apoiava, um terço o rejeitava com todas as forças e um terço permanecia “isento”. Agora, a rejeição aproxima-se dos 50% e os defensores fiéis encolhem para menos de 30%. Vem daí o mote “somos 70%”. Mas além disso, houve uma migração social do apoio.

    Entre os mais ricos, mais brancos e mais escolarizados – o grupo em que o capitão foi, desde as eleições, majoritário – seu apoio despencou, certamente devido às insanidades “queima-filme” cometidas durante a pandemia. Em contrapartida, entre os economicamente mais pobres, a sustentação permaneceu minoritária – mas cresceu alguns pontos. A causa deste último movimento é, precisamente, o Auxílio Emergencial. Com pouco acesso à informação, uma parcela dos beneficiários dos R$ 600 reais taxa os pagamentos como “dinheiro do governo” – e agradece. Agora, mostra uma das últimas pesquisas, apenas 28% ainda consideram o governo “bom” ou “ótimo”. Mas entre os que recebem o Auxílio Emergencial, esta parcela sobe para 34%.

    Mas o que poderia ser um trunfo converte-se, nos limites estreitos do projeto bolsonarista, em dor de cabeça. Embora tenha crescido, o apoio do governo entre os mais pobres é minoritário e volátil, mostram as mesmas pesquisas. Desaparecerá junto com os R$ 600 – podendo transformar-se em ira. Além disso, não compra votos no Congresso, nem influência no Judiciário, nem espaço na mídia.

    Quem garante hoje a presença do ex-capitão no palácio – e em liberdade – não são seus seguidores evangélicos, ou a baixa oficialidade do exército e PMs. É o 0,1%, a aristocracia financeira. Esta classe, mínima mas poderosa e influente, tem pressa e foco. Está insegura: o cassino financeiro ruiu em todo o mundo, e sua salvação ainda não está assegurada. Em muitos setores economicamente relevantes, há empresas quebradas; e há bancos que podem desabar, caso estas corporações tornem-se insolventes. Todos precisarão ser salvos pelo Estado. Enquanto Paulo Guedes permanecer no governo, Bolsonaro será a garantia do resgate. Aí estão o 1,2 trilhão de benefícios aos bancos, ou a Emenda Constitucional do Orçamento de Guerra.

    * * *

    Paulo Guedes tem uma proposta para o Auxílio Emergencial. Quer transformá-lo no oposto do que é a Renda Básica. Esta sugere redistribuir a riqueza, numa era em que as máquinas fazem boa parte do trabalho antes realizado por humanos. Sustenta que, dadas as próprias modificações na produção, esta redistribuição já não pode ser realizada por meio dos aumentos salariais: hoje, eles beneficiam apenas uma minoria. Propõe, como alternativa, que todos tenham acesso a meios financeiros para uma vida digna, independentemente de trabalharem. Defende que este benefício seja complementar a uma espécie de Revolução dos Comuns: a garantia de serviços públicos excelentes e desmercantilizados: Saúde, Educação, Moradia, Transportes oferecidos gratuitamente ou a preços módicos.

    Mas há uma versão deturpada da Renda Básica, concebida por economistas ultraliberais como Milton Friedman e defendida há décadas por instituições como o Banco Mundial. Implica privatizar e mercantilizar os serviços públicos – criando uma nova fronteira para a acumulação capitalista. Nessa lógica, tudo o que hoje é Comum (o SUS, por exemplo) pode ser transferido ao mercado e à lógica do lucro e da desigualdade. Cada pessoa pagará segundo suas posses monetárias. Aos empobrecidos, restará o pouco que puderem comprar… usando as migalhas que o Estado lhes oferecerá.

    Paulo Guedes defendeu abertamente esta proposta, numa reunião ministerial em 9/6. Segundo sua visão, haverá, após as três parcelas, uma redução drástica do benefício – para R$ 200 ou 300. Em seguida, ele se tornará permanente, mas assumirá a forma de uma “Renda Brasil”. Esta última estará vinculada à redução drástica dos direitos sociais. Virá acompanhada da “Carteira de Trabalho Verde e Amarela”, que desidrata tanto quanto possível a proteção trabalhista, e do fim da contribuição patronal à Previdência – o que inviabilizará por completo a Seguridade Social.

    O ministro está cheio de planos perversos. Valeria perguntar-lhe, à moda de Garrincha, em 1958: “Já combinou com os russos?”

    1. Para que não haja “volta ao normal”

    A campanha iniciada em 17/6 convida a compreender em profundidade
    os mecanismos monetários que se escondem por trás do capitalismo contemporâneo.
    Ela não é por R$ 600 – embora comece com eles. Por isso, vale fazê-la

    A apresentação de uma proposta clara de Auxílio Emergencial pela sociedade civil, em 17/6, teve um efeito político essencial. Ela corta o espaço com que Bolsonaro e Guedes poderiam contar, para fingir uma “concessão”. Quanto mais o novo projeto, suas bases e seus argumentos tornarem-se conhecidos, melhor se estabelecerá a disputa política, e menos condições terá o governo para afirmar que está oferecendo o “benefício possível”.

    Porém, o efeito será ainda maior se a ideia de perenizar o Auxílio Emergencial vier acompanhada de uma provocação mais profunda – que ajude a compreender a natureza do capitalismo contemporâneo; seus mecanismos de acumulação de riquezas; o papel dos Estados, em assegurá-los; e as possibilidades reais de inverter esta ação.

    Este esforço exige expor a capacidade de criação de moeda dos Estados. Uma Reforma Tributária é indispensável e urgente, no Brasil. Mas garantir a continuidade do Auxílio Emergencial; e estabelecer, mais além, uma autêntica Renda Básica – que seja universal e que assegure de fato condições para uma vida digna, independentemente de trabalho – são objetivos que não dependem desta Reforma Tributária.

    As sociedades precisam se apropriar também dos mecanismos monetários de redistribuição (ou concentração) de riquezas. Quando num país periférico, como o Brasil, o Banco Central permite que a banca privada crie 1,2 trilhão de reais; ou quando os bancos centrais dos países mais ricos anunciam que emitirão “todo o dinheiro que for necessário” para salvar os mercados financeiros, eles não remanejam um único centavo dos Orçamentos públicos. Eles alteram o balanço de riquezas emitindo moeda nova – “fictícia”, contudo com o mesmo poder de compra da moeda tradicional. Quando um investidor internacional adquire um imóvel numa zona valorizada de uma metrópole brasileira, e afasta uma família local; ou quando assume o controle de uma empresa brasileira, ninguém lhe pergunta a origem de seus dólares ou euros. Foram gerados a partir do acúmulo capitalista tradicional? Foram criados pelo Banco Central norte-americano ou europeu? Não importa: têm idêntico poder de compra, em qualquer situação.

    E é aqui que aflora, ao contrário da redução da Economia a um conjunto de técnicas de cálculo, sua possível dimensão ética e humanística. A que serve, afinal, o manejo das riquezas produzidas pelo ser humano? A “voltar ao normal” e continuar reproduzindo uma sociedade em que seis homens brancos acumulam tanto quando a metade mais empobrecida do planeta? A estimular lógicas de competição sem limites que autorizam a buscar, em qualquer parte do mundo, o trabalho humano mais barato e a natureza mais fácil de devastar? Ou a tirar proveito da pandemia, e do choque reflexivo que ela provoca, para dizer que “nada será como está”! E estabelecer novas relações sociais?

    Talvez a luta para manter o Auxílio Emergencial e para criar, além dela, uma Renda Básica real desencadeie explosões populares como as que sacudiram a França, o Equador, o Chile, o Líbano e o próprio Brasil, nos últimos anos. Talvez, não. Mas algo parece certo: ela tem a vocação de dizer: “não é por R$ 600” – embora comece com eles. Por isso, vale travá-la.

    https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/os-r-600-que-podem-mudar-a-face-do-brasil/

    Imagem de Marcelo Horn (GERJ) (apud:
    https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/26/projetos-pretendem-garantir-renda-minima-a-populacao-em-tempos-de-calamidades)

  • Leonardo Boff – A transição ecológica para uma sociedade biocentrada

    O ataque do coronavírus contra toda a humanidade nos obrigou a nos concentrar no vírus, no hospital, no paciente, no poder da ciência e da técnica e na corrida desenfreada por uma vacina eficaz e no confinamento e distanciamento social Tudo isso é indispensável.

    Mas para apreendermos o significado do coronavírus, precisamos enquadrá-lo em seu devido contexto e  não vê-lo isoladamente. Ele expressa a lógica do capitalismo global que, há séculos, conduz uma guerra sistemática contra a natureza e contra a Terra.

    O capitalismo neoliberal gravemente ferido

    O capitalismo se caracteriza pela exacerbada exploração da força de trabalho, pela utilização dos saberes produzidos pela tecnociência, pela pilhagem dos bens e serviços da natureza, pela colonização e ocupação de todos os territórios acessíveis. Por fim, pela mercantilização de todas as coisas. De uma economia de mercado passamos para uma sociedade de mercado.

    Nela, as coisas inalienáveis se transformaram em mercadoria. Karl Marx em sua Miséria da Filosofia de 1874 bem escreveu: “Tudo o que os homens considerável inalienável, coisas trocadas e dadas mas jamais vendidas….tudo se tornou venal como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência… tudo se tornou venal e levado ao mercado”. A isso ele denominou o “tempo da corrupção geral e da venalidade universal”(ed.Vozes 2019,p.54-55).É o que estamos vivendo desde o fim da segunda guerra mundial.

    O capitalismo quebrou todos os laços com natureza, a transformou num baú de recursos, tidos ilusoriamente ilimitados, em função de uma crescimento também tido ilusoriamente ilimitado. Ocorre que um planeta já velho e limitado não suporta um crescimento ilimitado.

    Politicamente o neoliberalismo confere centralidade ao lucro, ao mercado, ao Estado mínimo, às privatizações de bens públicos e uma exacerbação da concorrência e do individualismo, a ponto de Reagan e Thatcher dizerem que a sociedade não existe, apenas indivíduos.

    A Terra viva, Gaia, um superorganismo que articula todos fatores para continuar viva e produzir e reproduzir sempre todo tipo de vida, começou a reagir e contra-atacar: pelo aquecimento global, pela erosão da biodiversidade, pela desertificação crescente, pelos eventos extremos e pelo envio de suas armas letais que são os vírus e bactérias (gripe suína, aviária, H1N1, zika, sikunguhnia, SARS, ebola e outros) e agora o covid-19, invisível e letal. Colocou a todos de joelhos, especialmente as potências militaristas cujas armas de destruição em massa (que poderiam destruir toda a vida, várias vezes) se mostraram totalmente supérfluas e ridículas. Agora passamos do capitalismo do desastre para o capitalismo do caos,como diz a crítica do sistema capitalista Naomi Klein.

    Uma coisa ficou clara a propósito do covid-19: caiu um meteoro rasante em cima do capitalismo neoliberal desmantelando seu ideário: o lucro, a acumulação privada, a concorrência, o individualismo, o consumismo, o estado mínimo e a privatização da coisa pública e dos commons. Ele foi gravemente ferido. O fato é que produziu demasiada iniquidade humana, social e ecológica, a ponto de pôr em risco o futuro do sistema-vida e do sistema-Terra.

    Ele, entretanto, colocou inequivocamente a disjuntiva: vale mais o lucro ou a vida? O que vem antes: salvar a economia ou salvar vidas humanas?

    Pelo ideário do capitalismo, a disjuntiva seria salvar a economia em primeiro lugar e em seguida vidas humanas. Mas releva reconhecer que é o que nos está salvando é aquilo que inexiste nele: a solidariedade, a cooperação, a interdependência entre todos, a generosidade e o cuidado mútuo pela vida de uns e de outros.

    Alternativas para o pós-coronavírus

    O grande desafio colocado a todos, a grande interrogação especialmente, aos donos dos grandes conglomerados multinacionais é: Como continuar? Voltar ao que era antes? Recuperar o tempo e o lucros perdidos?

    Muitos dizem: voltar simplesmente ao que era antes, seria um suicídio. Pois a Terra poderia novamente contra-atacar com vírus mais violentos e mortais. Cientistas já advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso não tenhamos aprendido a lição de cuidar da natureza e de desenvolver uma relação amigável para com a Mãe Terra.

    Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finanças estão numa furiosa articulação entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de pressão política.

    A primeira seria a volta ao sistema capitalista neoliberal extremamente radical. Seria 0,1% da humanidade, bilhardários, que utilizariam a inteligência artificial com capacidade de controlar cada pessoa do planeta, desde sua vida íntima, privada e pública. Seria um despotismo de outra ordem, cibernético, sob a égide do total controle/dominação da vida das populações.

    Este não aprendeu nada do covid-19, nem incorporou o fator ecológico. Pela pressão geral, talvez assuma uma responsabilidade socio-ecológica para não perder lucros e frequezes. Mas seguramente haverá grande resistência e até rebeliões provocadas pela fome e pelo desespero.

    A segunda alternativa seria o capitalismo verde que tirou as lições do coronavírus e incorporou o fator ecológico: reflorestar o devastado e conservar ao máximo a natureza. Mas não mudaria o modo de produção e a busca do lucro. O capitalismo verde não discute a desigualdade social perversa e faria de tudo da natureza, ocasião de ganho. Exemplo: não apenas ganhar com o mel das abelhas, mas também sobre sua capacidade de polinizar outras flores. A relação para com a natureza e a Terra continuaria utilitarista e não lhe reconheceria direitos,como declarou a ONU e seu valor intrínseco, independente do ser humano.

    A terceira seria o comunismo de terceira geração que nada teria com as anteriores, colocando os bens e serviços do planeta sob a administração plural e global para redistribui-los equitativamene a todos. Poderia ser possível, mas supõe uma nova consciência ecológica, além de dar centralidade à vida em todas as suas formas. Seria ainda antropocêntrico. É pouco representado, pelos filósofox Zizek e Badiou além da carga negativa das experiências anteriores e mal sucedidas.

    A quarta, seria o eco-socialismo com maiores possibilidades. Supõe um contrato social mundial com um centro plural de governança para resolver os problemas globais da humanidade. Os bens e serviços naturais seriam equitativamente distribuídos a todos, num consumo decente e sóbrio que incluiria também toda a comunidade de vida. Ela também precisa de meios de vida e de reprodução como água, climas e nutrientes. Esta alternativa estaria dentro das possibilidades humanas, desde que superasse o sociocentrismo e incorporasse os dados da nova cosmologia e biologia, que consideram a Terra como momento do grande processo cosmogênico,biogênico e antropogênico.

    A quinta alternativa seria o bem viver e conviver ensaiada por séculos pelos andinos. Ela é profundamente ecológica, pois considera todos os seres como portadores de direitos. O eixo articulador é a harmonia que começa com a família, com a comunidade, com a natureza, com o inteiro universo, com os ancestrais e com a Divindade. Esta alternativa possui alto grau de utopia, Talvez, quando a humanidade se descobrir como espécie, habitando numa única Casa Comum, teria condições de realizar o bem-viver e o bem conviver.

    Conclusão desta parte: ficou evidente que o centro de tudo é a vida, a saúde e os meios de vida e não o lucro e o desenvolvimento (in)sustentável. Vai se exigir mais Estado com mais segurança sanitária para todos, um Estado que satisfaça as demandas coletivas e promova um desenvolvimento que obedeça os ritmos e os limites da natureza. Não será a austeridade que vai resolver os problemas sociais que têm beneficiados ao já ricos, e penalizado os mais pobres. A solução se deriva da justiça social e distributiva, onde todos participam do ônus e do bônus da ordem social.

    Como o problema do coronavírus foi global, torna-se necessário um contrato social global para implementar soluções globais. Tal transformação demandará uma descolonização de visões de muno e de conceitos, como a voracidade pelo lucro e o consumismo, que foram inculcados pela cultura do capital. O pós-coronavírus nos obrigará conferir centralidade à natureza e à Terra. Ou salvamos a natureza e a Terra ou engrossaremos o cortejo dos que rumam para o abismo.

    Como buscar uma transição ecológica, exigida pela ação mortífera do covid-19? Por onde começar?

    Não podemos subestimar o poder do “genio” do capitalismo neoliberal: ele é capaz de incorporar os dados novos, transformá-los em seu benefício privado e para isso usar todos os meios modernos da robotização, da inteligência artificial com seus bilhões de algoritmos e eventualmente as guerras híbridas. Sem piedade podem conviver, indiferentes, aos milhões e milhões de esfaimados e lançados na miséria.

    Por outra parte os que buscam uma transição paradigmática, dentro do qual eu mesmo me situo, devem propor outra forma de habitar a Casa Comum, com uma convivência respeitosa para com a natureza e um cuidado com todos os ecossistemas. Devem gerar na base social outro nível de consciência e novos sujeitos sociais, portadores desta alternativa. Para isso, cabe enfatizar, devemos passar por um processo de descolonização de visões de mundo e de ideias inculcadas pela cultura do capital. Devemos ser anti-sistema e alternativos.

    Pressupostos para uma transição bem sucedida

    Primeiro pressuposto: a vulnerabilidade da condição humana, exposta a ser atacada por enfermidades, bactérias e vírus. dos ecossistemas e a alimentação humana.

    Fundamentalmente dois outros fatores estão na origem da invasão de micro-organismos letais: a excessiva urbanização humana que avançou sobre os espaços da natureza, destruindo os habitats naturais dos vírus e bactérias: saltaram para outros animais ou para o corpo humano. 83% da humanidade vive em cidades.

    O segundo fator é a desflorestação sistemática devida à voracidade do capital que busca riqueza com a monocultura da soja, da cana, do girasol ou com a a mineração e produção de proteínas animais (gado), devastando florestas e desequilibrando o regime de umidade e de chuvas de vastas regiões como é o caso da Amazônia.

    Segundo pressuposto: a interdependência entre todos os seres, especialmente entre os seres humanos. Somos, por natureza, um nó de relação, voltado para todas as direções. A bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que é da essência específica do ser humano a cooperação e a relação de todos com todos. Não existe o gene egoista, formulado por Dawkins no fins dos anos 60 do século passado sem nenhuma base empírica. Todos os genes se interligam entre si e dentro das células. Todos os seres estão inter-retro-relacionados e ninguém está fora da relação. Nesse sentido o individualismo, valor supremo da cultura do capital, é anti-natural e não possui nenhuma base biológica.

    Terceiro pressuposto: a solidariedade como opção consciente. A solidariedade está na base de nossa humanidade. Os bioantropólogos nos revelaram que este dado é essencial ao ser humano. Quando nossos ancestrais buscavam seus alimentos, não os comiam sozinhos. Levavam-nos ao grupo e serviam a todos começando com os mais novos, depois com os mais idosos e por fim a todos. Daí surgiu a comensalidade e o sentido de cooperação e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu o salto da animalidade para a humanidade. O que valeu ontem, vale também para hoje.

    A sociedade vive e subsiste porque seus cidadãos comparecem como seres cooperativos e solidários, superando conflito de interesses para ter uma convivência minimamente humana e pacífica e juntos construir o bem comum. Esta solidariedade não vigora apenas entre os humanos. É uma constante cosmológica: todos os seres convivem, estão envolvidos em redes de de relações de reciprocidade e de solidariedade de forma que todos se antre-ajudam para viver e co-evoluir. Também o mais fraco, com a colaboração dos outros, subsiste e tem o seu lugar no conjunto dos seres e co-evolui.

    O sistema do capital não conhece a solidariedade, apenas a competição que produz tensões, rivalidades e verdadeiras destruições de outros concorrentes em função de uma maior acumulação e, se possível, estabelecer o monopólio de um produto ou de uma fórmula científica.

    Hoje o maior problema da humanidade não é nem o econômico, nem o político nem o cultural, nem o religioso, mas é a falta de solidariedade para com outros seres humanos que estão ao nosso lado. No capitalismo ele é visto como um eventual consumidor, não como uma pessoa humana com suas preocupações, suas alegrias e padecimentos.

    Foi a solidariedade que nos está salvando face ao ataque do coronavírus, a começar pelos operadores da saúde que generosamente arriscam suas vidas para salvar vidas. Assistimos atitudes de solidariedade em toda a sociedade mas especialmente nas periferias onde as pessoas não têm condições de fazerem o isolamento social e não possuem reservas de alimentação. Muitas famílias que recebiam as cestas básicas, as repartiam entre outros mais necessitados.

    Referência especial merece o MST (Movimento dos Sem Terra) que forneceu toneladas alimentação orgânica para os mais vulneráveis.Não dão o que sobra, mas o que têm. Outras ONGs organizaram ações de solidariedade para atenderem aos mais carentes. Mesmo as grande empresas mostraram solidariedade, doando alguns milhões que lhes sobraram para enfrentar o covid-19.

    Não basta que a solidariedade seja um gesto pontual. Ele deve ser uma atitude básica, porque é um dado de nossa natureza. Temos que fazer uma opção consciente para sermos solidários a partir dos últimos e invisíveis, para aqueles que não contam para o sistema imperante e são considerados prescindíveis e zeros econômicos. Só assim ela deixa de ser eletiva e engloba a todos, pois todos somos co-iguais e nos unem laços objetivos de fraternidade.

    Quarto pressuposto: o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente entre os seres humanos. Pertence à essência do humano, o cuidado sem o qual nenhum ser vivo subsistiria. Nós estamos vivos porque tivemos o infinito cuidado de nossas mães. Deixados no berço, não saberíamos como buscar nosso alimento e dentro de pouco tempo morreríamos.

    Ademais cuidado é além disso uma constante cosmológica como o mostraram Stephan Hawking e Brian Swimme entre outros: as quatro forças que sustentam o universo (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear franca e forte) agem sinergeticamente com extremo cuidado sem o qual não estaríamos aqui refletindo sobre estas coisas.

    O cuidado representa uma relação amiga da vida, protetora de todos os seres pois os vê como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi a falta de cuidado para com a natureza, devastando-a, que os vírus perderam seu habitat, conservado em milhares de anos e passaram a outro animal ou ao ser humano para poder sobreviver devorando nossas células. O ecofeminismo trouxe uma expressiva contribuição à preservação da vida e da natureza com a ética do cuidado, desenvolvida por elas, pois o cuidado é de todos os humanos, mas ganha especial densidade nas mulheres

    A transição para a uma civilização biocentrada

    Toda crise faz pensar e projetar novas janelas de possibilidades. O coronavírus nos deu esta lição: a Terra, a natureza, a vida, em toda sua diversidade, a interdependência, a cooperação e a solidariedade devem possuir a centralidade na nova civilização, se não quisermos ser mais atacados por vírus letais.

    Parto da seguinte interpretação: não só nós agredimos por séculos a natureza e a Mãe Terra. Agora é a Terra ferida e a natureza devastada que estão nos contra-atacando e fazendo sua represália. São entes vivos e como vivos sentem e reagem às agressões.

    A multiplicação de sinais que a Terra nos enviou, a começar pelo aquecimento global, a erosão da biodiversidade na ordem de 70-100 mil espécies por ano (estamos dentro da sexta extinção em massa na era do antropoceno e do necroceno) e outros eventos extremos, devem ser tomados absolutamente a sério e interpretados. Ou nós mudamos nossa relação para com a Terra e a natureza, num sentido de sinergia, de cuidado e de respeito ou a Terra pode não nos mais querer sobre sua superfície. Desta vez não há uma arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou engrossaremos o cortejo daqueles que rumam para a sua própria sepultura.

    Quase todas as análises do covid-19 focaram a técnica, a medicina, a vacina salvadora, o isolamento social, o distanciamento e o uso de máscaras para nos proteger e não contaminar os outros. Raramente se falou de natureza, pois, o vírus veio da natureza. Por que ele passou da natureza a nós? Já o tentamos explicar anteriormente.

    A transição de uma sociedade capitalista de superprodução bens materiais para uma sociedade de sustentação de toda a vida com valores humano-espirituais como a solidariedade, a compaixão, a interdependência, a justa medida, o respeito e o cuidado e, não em último lugar, o o amor não se fará de um dia para o outro.

    Será um processo difícil que exige, nas palavras do Papa Francisco na encíclica “sobre o Cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Vale dizer, devemos introduzir relações de cuidado, de proteção e de cooperação. Um desenvolvimento feito com a naturezas e não contra a natureza.

    O sistema imperante pode conhecer uma longa agonia. Mas não terá futuro. Há uma grande acumulação de crítica e de práticas humanas que sempre resistiram à exploração capitalista. Segundo minha opinião, quem o vencerá definitivamente nem seremos só nós, mas a própria Terra, negando-lhe as condições de sua reprodução pelos limites dos bens e serviços da Terra superpovoada.

    O novo paradigma cosmológico e biológico

    Para uma sociedade pós-Covid-19 impõe-se a assunção das contribuições do novo paradigma cosmológico que já possui um século de existência. Lamentavelmente até agora não conseguiu conquistar a consciência coletiva nem a inteligência acadêmica, muito menos a cabeça dos “decisons makers” políticos parte de que tudo se originou a partir do big bang, ocorrido há 13,7 bihões de anos. De sua explosão surgiram as grandes estrelas vermelhas e com a explosão destas, as galáxias, as estrelas, os planetas, a Terra e e nós mesmos. Somos todos feitos do pó cósmico.

    A Terra que já tem 4,3 bilhões de anos e a vida cerca de 3,8 bilhões de anos são vivos. A Terra, isso é um dado de ciência já aceito pela comunidade científica, não só possui viva sobre ela mas é viva e produz toda sorte de vidas.

    O ser humano que surgiu já há uns 10 milhões de anos há 100 mil ano como sapiens sapiens é a porção da Terra que num momento de alta complexidade começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Por isso homem vem de húmus, terra boa.

    Inicialmente possuía uma relação de convivência com a natureza, depois passou de intervenção mediante a agricultura de irrigação e nos últimos séculos de agressão sistemática mediante a tecnociência. Essa agressão foi levada a todas as frentes a ponto de colocar em risco o equilíbrio da Terra e até uma ameaça de auto-destruição da espécie humana com armas nucleares, químicas e biológicas.

    Essa relação de agressão subjaz à atual crise sanitária. Levada avante, a agressão poderá nos trazer crises mais agudas até aquilo que os biólogos temem The Next Big One: aquele próximo e grande vírus, inatacável e fatal que poderá levar a espécie humana a desaparecer da face da Terra.

    Para obviar este possível armagedom ecológico, urge renovar o contrato natural violado com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos e garante a sustentabilidade dos ecossistemas. Nos, contratualmente, teríamos que lhe devolver cuidado, respeito a seus ciclos e lhe damos tempo para regenerar o que lhe tiramos. Este contrato natural foi rompido por aquele estrato da humanidade (e sabemos quem é) que explora os bens e serviços, desfloresta, contamina as águas e os mares.

    É decisivo renovar o contrato natural e articulá-lo com o contrato social: uma sociedade que se sente parte da Terra e da natureza, que assume coletivamente a preservação de toda vida, mantém em pé suas florestas que garante a água necessária para todo tipo de vida e regenera o que foi degradado e fortalece o que já é preservado.

    A importância da região: o bioregionalismo

    A ONU reconheceu a Terra como Mãe Terra e a natureza como titulares de direitos. Isso implica que a democracia deverá incorporar como novos cidadãos, as florestas, as montanhas, os rios, as paisagens. A democracia seria spcio-ecológica.

    A vida será o farol orientador e a política e a economia estarão a serviço, não da acumulação e do mercado mas da vida. O consumo, para que seja universalizado, será sóbrio, frugal e solidário. Destarte, a sociedade seria suficiente e decentemente abastecida.

    O acento não se dará à planetização econômico-financeira que seguirá o seu curso, mas à região. A ponta mais avançada da reflexão ecológica atualmente se realiza em torno do bio-regionalismo.

    Tomar a região, não como vem definida arbitrariamente pela administração geográfica mas com a configuração que a natureza fez, com seus rios, montanhas, floresta, planícies, fauna e flora e especialmente com os habitantes que aí moram.Na bioregião poder-se-á verdadeiramente criar um desevolvimento sustentável que não seja meramente retórico mas real. As empresas serão preferentemente médias e pequenas, dar-se-á preferência à agroecologia, evitar-se-ão os transportes para regiões distantes, a cultura será o cimento de coesão: as festas, as tradições, a memória das pessoas notáveis, a presença das igrejas ou dasreligiões, os vários tipos de escolas e outros meios modernos de difusão de conhecimento e de encontros entre as pessoas.

    A Terra será como um mosaico feito de distintas peças cm cores diferentes: são as distintas regiões e os ecossistemas, diversos e singulares, mas todos compondo um só mosaico, a Terra.

    A transição se fará por processos que vão crescendo e se articulando a nível nacional, regional e mundial, fazendo crescer a consciência de nossa responsabilidade coletiva de salvarmos a Casa Comum e tudo o que a ela pertence.

    A acumulação de nova consciência permitirá um salto para um outro nível em que seremos amigos da vida, abraçaremos cada ser pois todos possuímos o mesmo código genético de base, desde a bactéria originária, passando pelas grandes florestas, os dinossauros, os cavalos, os beija-flores e nós mesmo. Somos construídos por 20 aminoácidos e por 4 bases nitrogenadas ou fosfatadas. Quer dizer, somos todos parentes uns dos outros numa real fraternidade terrenal.

    Será a civilização “da felicidade possível” e da “alegre celebração da vida”.

    Brasil, nosso sonho bom: a sua refundação

    O Brasil, por suas riquezas ecológicas, geográficas e populacionais, tem todas as condições de começar a colocar os fundamentos de uma civilização biocentrada.

    Até hoje vivemos na dependências de outros centros hegemônicos. Está madurando, especialmente nas bases, a ideia da refundação de um outro Brasil.

    Três pilastras podem dar corpo a esse sonho, por mim exposto com mais detalhe no livro: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”(Vozes 2019). Sem entrar em detalhes direi:

    A natureza, das mais ricas do planeta em biodiversidade, em florestas úmidas e em água. Podemos ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro.

    A cultura que configura a relação do ser humano com a natureza e com outros seres humanos, diversa, rica em criatividade nas artes, na música, na arquitetura,nas danças e em certos ramos da ciência, não obstante o racismo visceral e as ameaças às culturas originárias e outras exclusões sociais, reforçadas pela atual política de ultra-direita e de viés fascitóide.

    O povo brasileiro ainda em fazimento, plasmado por gentes que vieram de 60 países diferentes. A cultura multiétnica e multireligiosa, a cultura relacional, o senso lúdico, a hospitalidade, a alegria de viver e sua criatividade são características entre outras de nosso povo.

    O Brasil é a maior nação neolatina do mundo e temos tudo para ser a maior civilização dos trópicos. Para essa utopia viável, temos que retrabalhar no consciente e no inconsciente coletivo, as sombras que nos pesam fortemente: do etnocídio indígena, da colonização, da escravidão e da dominação das oligargias, herdeiras da Casa Grande e de um governo atual anti-Brasil, anti-vida e anti-povo com traços claros de despotismo que pretende conduzir o país a fases superadas pela humanidade, ao ante iluminismo, ao mundo do atraso, avesso ao saber e aos valores civilizatórios que são já bens comuns das sociedades mundiais.

    Para terminar, tomo como referência a proposta do Papa Francisco, quiçá o maior líder ético-político da humanidade. Na reunião com dezenas de movimentos sociais populares em 2015 ao visitar a Bolívia. Na cidade de Santa Cruz de la Sierra disse:

    Vocês têm que garantir os três Ts :Terra para morar nela e trabalhar. Teto para morar porque não são animais que vivem ao relento. Trabalho com o qual vocês se autorealizam e conquistam tudo o que precisam.

    Em seguida continuou: “Não esperem nada de cima. Pois vem sempre mais do mesmo e geralmente ainda pior. Sejam vocês mesmos os protagonistas de um novo tipo de mundo, de uma nova democracia participativa e popular, com uma economia solidária, com uma agroecologia com produtos sãos e livres de transgênicos. Sejam os poetas da nova sociedade.

    Lutem para que a ciência sirva à vida e não ao mercado. Empenhem-se pela justiça social sem a qual não há paz. Por fim, cuidem da Mãe Terra sem a qual nenhum projeto será possível.

    Aqui estamos diante de um programa mínimo para um novo tipo de sociedade e de humanidade.

    O futuro nos assinala que não iremos ao encontro do capitalismo neoliberal, embora teime em se impôr. Ele não deu certo: acumulou demasiada riqueza em poucas mãos à custa do sacrifício de milhões e milhões vivendo em condições sub-humanas e junto a isso devastou a maioria dos ecossistemas e colocou a Terra numa emergência ecológica.

    A travessia para uma sociedade ecologicamente sustentada com uma cultura, uma política e economia compatíveis é a grande utopia viável da humanidade e dos grupos progressistas do Brasil.

    Cremos e esperamos que esse sonho não seja uma fantasmagoria, mas uma realidade possível que se adequa à lógica do universo, feito não pela soma de seus corpos celestes, mas pelo conjunto das redes de suas relações dentro das quais nós também estamos envolvidos. Para citar Paulo Freire, diria: precisamos construir uma eco-sociedade na qual não seja tão difícil o amor.

    O Brasil, libertado de suas sombras históricas, pode ser um embrião da nova sociedade, una, diversa dentro da única Casa Comum, a Mãe Terra.

    Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu:Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 1995/2015; esm espanhol por Trotta, Madrid 1996, Dabar, México 1996.

     

     

Botão Voltar ao topo