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Artigo

  • Boff explica a “ecologia integral” da encíclica

     
    “Laudato Si” denuncia “submissão da Política à Tecnologia e Finança”, enxerga-a como raiz da crise ambiental e social e sustenta: única alternativa é mobilização. Por isso, defensores do sistema querem silenciá-la
    Por Leonardo Boff, com apresentação de Ivo Lesbaupin
    No dia 18 de junho, o Papa Francisco deu a conhecer sua encíclica “Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum”. Anteriormente à sua publicação, o texto tinha sofrido pressões de setores conservadores, especialmente nos Estados Unidos, para evitar certos temas. De nada adiantou, sua encíclica enfrenta a temática do cuidado da Mãe Terra sem medir palavras quanto às causas da degradação ambiental do planeta. Depois de fazer uma síntese das principais conclusões científicas sobre as condições ambientais, o aquecimento global, as mudanças climáticas, ele aborda “a raiz humana da crise ecológica” que ele designa como “o paradigma tecnocrático dominante”.
    “O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real” (n. 109). Critica a ideia de que “as forças invisíveis do mercado” sejam capazes de regular a economia assim como controlar a situação ambiental.
    A causa principal é a atividade humana, nos dois últimos séculos, “particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial” (n. 23). Enquanto mantivermos o atual modelo de produção e de consumo, não haverá solução.

     

    Face à gravidade da situação que vivemos, o Papa denuncia a fraqueza da reação política internacional. “A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos” (n. 54).
    Depois de mostrar que a pobreza e degradação ambiental têm uma mesma raiz, ele afirma: “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza” (n. 139).
    O Papa tem uma clara postura de esperança. Ele conclama os cidadãos e cidadãs, a sociedade civil, a se mobilizar para exigir mudanças. Mostra transformações que já estão ocorrendo em diferentes lugares, experiências práticas que revelam uma outra postura.
    Para Francisco, “o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos” (n. 95). Ele propõe como solução uma “ecologia integral”, ambiental, econômica e social. “Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana” (n. 189). É preciso redefinir o desenvolvimento: para que apareçam novos modelos de progresso, precisamos de “converter o modelo de desenvolvimento global”, e “isto implica refletir responsavelmente “sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações”” (n. 194).
    Vamos publicar a seguir artigos de diferentes autores que procuram aprofundar o sentido desta obra. O primeiro é o de Leonardo Boff. Fique com ele (Ivo Lesbaupineditor da seção especial “Outro Desenvolvimento”).
    Antes de qualquer comentário vale enfatizar algumas singularidades da encíclica Laudato sido Papa Francisco.
    É a primeira vez que um Papa aborda o tema da ecologia no sentido de uma ecologia integral (portanto que vai além da ambiental) de forma tão completa. Grande surpresa: elabora o tema dentro do novo paradigma ecológico, coisa que nenhum documento oficial da ONU até hoje fez. Fundamental é seu discurso com os dados mais seguros das ciências da vida e da Terra. Lê os dados afetivamente (com a inteligência sensível ou cordial), pois discerne que por detrás deles se escondem dramas humanos e muito sofrimento também por parte da mãe Terra. A situação atual é grave, mas o Papa Francisco sempre encontra razões para a esperança e para a confiança de que o ser humano pode encontrar soluções viáveis. Honra os Papas que o antecederam, João Paulo II e Bento XVI, citando-os com frequência. E algo absolutamente novo: seu texto se inscreve dentro da colegialidade, pois valoriza as contribuições de dezenas de conferências episcopais do mundo inteiro que vão dos EUA, da Alemanha, do Brasil, da Patagonia-Camauhe até do Paraguai. Acolhe as contribuições de outros pensadores como os católicos Pierre Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Dante Alighieri, de seu mestre argentino Juan Carlos Scannone, do protestante, Paul Ricoeur e do muçulmano sufi Ali Al-Khawwas. Por fim, os destinatários são todos os seres humanos, pois todos são habitantes da mesma casa comum (palavra muito usada pelo Papa) e padecem das mesmas ameaças.
    O Papa Francisco não escreve na qualidade de Mestre e Doutor da fé mas como um Pastor zeloso que cuida da casa comum e de todos os seres, não só dos humanos, que habitam nela.
    Um elemento merece ser ressaltado, pois revela a ”forma mentis” (a maneira de organizar seu pensamento) do Papa Francisco. Este é tributário da experiência pastoral e teológica das igrejas latino-americanas que à luz dos documentos do episcopado latinoamericano (CELAM) de Medellin (1968), de Puebla(1979) e de Aparecida (2007) fizeram uma opção pelos pobres contra a pobreza e em favor da libertação.
    O texto e o tom da encíclica são típicos do Papa Francisco e da cultura ecológica que acumulou. Mas me dou conta de que também muitas expressões e modos de falar remetem ao que vem sendo pensado e escrito principalmente na América Latina. Os temas da “casa comum”, da “mãe Terra”, do“grito da Terra e do grito dos pobres”, do “cuidado”, da “interdependência entre todos os seres, “do valor intrínseco de cada ser”, dos “pobres e vulneráveis” da “mudança de paradigma” do “ser humano como Terra” que sente, pensa, ama e venera, da “ecologia integral” entre oturos, são recorrentes entre nós
    A estrutura da encíclica obedece ao ritual metodológico usado por nossas igrejas e pela reflexão teológica ligada à prática de libertação, agora assumida e consagrada pelo Papa: ver, julgar, agir e celebrar.
    Primeiramente, revela sua fonte de inspiração maior: São Francisco de Assis, chamado por ele de “exemplo por excelência de cuidado e de uma ecologia integral e que mostrou uma atenção especial aos pobres e abandonados”(n.10; 66).
    E então começa com o ver: ”O que está acontecendo à nossa casa” (nn.17-61). Afirma o Papa :”basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma deterioração de nossa casa comum” (n.61). Nesta parte incorpora os dados mais consistentes com referência às mudanças climáticas (nn.20-22), à questão da água (n.27-31), à erosão da biodiversidade (nn.32-42), à deterioração da qualidade da vida humana e à degradação da vida social (nn.43-47), denucía a alta taxa de iniquidade planetária, afetando todos os âmbitos da vida (nn.48-52) sendo que as principais vítimas são os pobres (n. 48).
    Nesta parte, traz uma frase que nos remete à reflexão feita na América Latina: ”Hoje não podemos desconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social que deve integrar a justiça nas discussões sobre o ambiente para escutar tanto ogrito da Tera quanto o grito dos pobres” (n.49). Logo a seguir acrescenta: ”gemidos da irmã Terra se unem aos gemidos dos abandonados deste mundo” (n.53). Isso é absolutamente coerente, pois logo no início diz que “nós somos Terra” (n.2; cf. Gn 2,7), bem na linha do grande cantor e poeta indígena argentino Athaulpa Yupanqui: ”o ser humano é Terra que caminha, que sente, que pensa e que ama”.
    Condena a proposta de internacionalização da Amazônia que “apenas serviria aos interesses da multinacionais” (n.38). Há uma afirmação de grande vigor ético: ”é gravíssima iniquidade obter importantes benefícios fazendo pagar o resto da humanidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental” (n.36).
    Com tristeza reconhece: ”nunca temos ofendido nossa casa comum como nos últimos dois séculos” (n.53). Face a esta ofensiva humana contra a mãe Terra que muitos cientistas denunciaram como a inauguração de uma nova era geológica -o antropoceno – lamenta a debilidade dos poderes deste mundo que, iludidos, “pensam que tudo pode continuar como está” como álibi para “manter seus hábitos autodestrutivos” (n.59) com “um comportamento que parece suicida” (n.55).
    Prudente, reconhece a diversidade das opiniões (nn.60-61) e que “não há uma única via de solução (n.60). Mesmo assim “é certo que o sistema mundial é insustentável sob vários pontos de vista porque deixamos de pensar os fins do agir humano” (n.61) e nos perdemos na construção de meios destinados à acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica (degração dos ecossistemas) e da injustiça social (empobrecimento das populações). A humanidade simplesmente “defraudou a esperança divina” (n.61).
    O desafio urgente, então, consiste em “proteger nossa casa comum” (n.13); e para isso precisamos, citando ao Papa João Paulo II : “de uma conversão ecológica global” (n.5); “uma cultura do cuidado que impregne toda a sociedade” (n.231).
    Realizada dimensão do ver, se impõe agora a dimensão do julgar. Esse julgar é realizado por duas vertentes, uma científica e outra teológica.
    Vejamos a científica. A encíclica dedica todo o terceiro capítulo na análise “da raiz humana da crise ecológica”(nn.101-136). Aqui o Papa se propõe analisar a tecnociência, sem preconceitos, acolhendo o que ela trouxe de“coisas preciosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano”(n. 103). Mas este não é o problema. Ela se independizou, submeteu a economia, a política e a natureza em vista da acumulação de bens materiais (cf. n.109). Ela parte de um pressuposto equivocado que é a “disponibilidade infinita dos bens do planeta” (n.106), quando sabemos que já encostamos nos limites físicos da Terra e grande parte dos bens e serviços não são renováveis. A tecnociência se tornou tecnocracia, uma verdadeira ditadura com sua lógica férrea de domínio sobre tudo e sobre todos (n.108).
    A grande ilusão, hoje dominante, reside na crença de que com a tecnociência se podem resolver todos os problemas ecológicos. Essa é uma diligência enganosa porque “implica isolar as coisas que estão sempre conexas” (n.111). Na verdade, “tudo é relacionado” (n.117), “tudo está em relação”(n.120), uma afirmação que perpassa todo o texto da encíclica como um ritornelo, pois é um conceito-chave do novo paradigma contemporâneo. O grande limite da tecnocracia está no fato de “fragmentar os saberes e perder o sentido de totalidade (n.110)“. O pior é “não reconhecer o valor intrínseco de cada ser e até negar um peculiar valor do ser humano” (n.118).
    O valor intrínseco de cada ser, por minúsculo que seja, é permanentemente enfatizado pela encíclica (n.69) , como o faz a Carta da Terra. Negando esse valor intrínseco estamos impedindo que “cada ser comunique a sua mensagem e dê glória a Deus” (n.33).
    O desvio maior produzido pela tecnocracia é o antropocentrismo moderno. Seu pressuposto ilusório é que as coisas apenas possuem valor na medida em que se ordenam ao uso humano, esquecendo que sua existência vale por si mesmo (n.33). Se é verdade que tudo está em relação, então,”nós seres humanos somos unidos como irmãos e irmãs e nos unimos com terno afeto ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe Terra” (n.92). Como podemos pretender dominá-los e vê-los na ótica estreita da dominação por parte do ser humano?
    Todas estas “virtudes ecológicas” (n.88) são perdidas pela vontade de poder como dominação dos outros e da natureza. Vivemos uma angustiante “perda do sentido da vida e da vontade de viver juntos” (n.110). Cita algumas vezes o teólogo italo-alemão Romano Guardini (1885-1968), um dos mais lidos nos meados do século passado e que escreveu um livro critico contra as pretensões da modernidade (n.83:Das Ende der Neuzeit, 1959).
    A outra vertente do julgar é de cunho teológico. A encíclica reserva um bom espaço ao “Evangelho da Criação” (nn. 62-100). Parte justificando a contribuição das religiões e do cristianismo, pois sendo a crise global, cada instância deve, com o seu capital religioso, contribuir para o cuidado da Terra (n.62). Não insiste nas doutrinas mas na sabedoria presente nos vários caminhos espirituais. O cristianismo prefere falar de criação ao invés de natureza, pois “criação tem a ver com um projeto de amor de Deus” (n.76). Cita, mais de uma vez, um belo texto do livro da Sabedoria (21,24) onde aparece claro que “a criação é da ordem do amor” (n.77) e que Deus emerge como “o Senhor amante da vida” (Sab 11,26).
    O texto se abre para uma visão evolucionista do universo, sem usar a palavra, mas fazendo um circunlóquio, referindo-se ao universo “composto por sistemas abertos que entram em comunhão uns com os outros” (n.79). Utiliza os principais textos que ligam Cristo encarnado e ressuscitado com o mundo e com todo o universo, tornando sagrada a matéria e toda a Terra (n.83). É neste contexto que cita P. Teilhard de Chardin (1881-1955, n. 83 nota 53) como precursor desta visão cósmica.
    O fato de o Deus-Trindade ser relação de divinas Pessoas tem como consequência que todas as coisas em relação sejam ressonâncias da Trindade divina (n.240).
    Citando o patriarca ecumênico Bartolomeu, da Igreja ortodoxa, “reconhece que os pecados contra a criação são pecados contra Deus” (n.7). Daí a urgência de uma conversão ecológica coletiva que refaça a harmonia perdida.
    A encíclica conclui esta parte, acertadamente: ”a análise mostrou a necessidade de uma mudança de rumo… devemos sair da espiral de autodestruição em que nos estamos afundando” (n.163). Não se trata de uma reforma, mas, citando a Carta da Terra, de buscar “um novo começo” (n.207). A interdependência de todos com todos nos leva a pensar “num só mundo com um projeto comum”(n.164).
    Já que a realidade apresenta múltiplos aspectos, todos intimamente relacionados, o Papa Francisco propõe uma “ecologia integral” que vai além da costumeira ecologia ambiental (n.137). Ela recobre todos os campos, o ambiental, o econômico, o social, o cultural, o espiritual e também a vida cotidiana (n. 147-148). Nunca esquece os pobres que testemunham também sua forma de ecologia humana e social, vivendo laços de pertença e de solidariedade de uns para com os outros (n.149).
    O terceiro passo metodológico é o agir. Nesta parte, a encíclica se atém aos grandes temas da política internacional, nacional e local (nn.164-181). Sublinha a interdependência do social e do educacional com o ecológico e constata lamentavelmente os constrangimentos que o predomínio da tecnocracia traz, dificultando mudanças que refreiam a voracidade da acumulação e do consumo e que podem inaugurar o novo (n.141). Retoma o tema da economia e da política que devem servir ao bem comum e criar as condições de uma plenitude humana possível (n.189-198). Volta a insistir no diálogo entre a ciência e a religião, como vem sendo sugerido pelo grande biólogo Edward O.Wilson (cf. o livro A criação: como salvar a vida na Terra, 2008). Todas as religiões “devem buscar o cuidado da natureza e a defesa dos pobres” (n.201).
    Ainda no aspecto do agir desafia a educação no sentido de criar a “cidadania ecológica” (n.211) e um novo estilo de vida, assentado sobre o cuidado, a compaixão, a sobriedade compartida, a aliança entre humanidade e o ambiente, pois ambos estão umbilicalmente ligados e a corresponsabilidade por tudo o que existe e vive e pelo nosso destino comum (nn.203-208).
    Por fim, o momento do celebrar. A celebração se realiza num contexto de “conversão ecológica”(n.216) que implica uma “espiritualidade ecológica”(n.216). Esta deriva não tanto das doutrinas teológicas mas das motivações que a fé suscita para cuidar da casa comum e “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo” (216). Tal vivência é antes uma mística que mobiliza as pessoas a viverem o equilíbrio ecológico, “aquele interior consigo mesmo, aquele solidário com os outros, aquele natural com todos os seres vivos e aquele espiritual com Deus” (n.210). Aí aparece como verdadeiro que “o menos é mais” e que podemos ser felizes com o pouco.
    No sentido de celebração “o mundo é mais que uma coisa a se resolver, é um mistério grandioso para ser contemplado na alegria e no louvor”(n.12).
    O espírito terno e fraterno de São Francisco de Assis perpassa todo o texto da encíclica Laudato sí. A situação atual não significa uma tragédia anunciada, mas um desafio para cuidarmos da casa comum e uns dos outros. Há no texto leveza, poesia e alegria no Espírito e inabalável esperança de que se grande é a ameaça, maior ainda é a oportunidade de solução de nossos problemas ecológicos.
    Termina, poeticamente com as palavras “Para além do sol”, dizendo: “caminhemos cantando. Que nossas lutas e nossas preocupações por esse planeta não nos tirem a alegria da esperança” (n.244).
    Apraz-me terminar com as palavras finais da Carta da Terra, que o próprio Papa cita (n.207): “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade e pela intensificação no compromisso pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”.
    [Este texto, publicado originalmente no blog de Leonardo Boff, será um capitulo de um livro em italiano “Curare la Terra”, Editrice EMI, Bologna 2015]
  • Perspectivas para as CEBs no Pontificado de Francisco

    A chegada do Papa Francisco levou a um impulso às Comunidades eclesiais de Base (CEBs). 
    A partir desta nova situação eclesial, o Iser Assessoria e o Setor CEBs da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB organizaram um encontro de assessores e assessoras das CEBs do Brasil de 30 de julho a 1 de agosto de 2015.  Estiveram presentes mais de 50 pessoas, procedentes das diferentes regiões do país, para refletir juntos a partir do tema “Perspectivas para as CEBs no Pontificado do Papa Francisco”, sem deixar de lado os desafios que se apresentam na evangelização do mundo urbano, aspecto que constitui o tema central do próximo Intereclesial, a ser celebrado em Londrina, em janeiro de 2018.
     Os desafios do mundo urbano são grandes e complexos, assim como os da própria realidade eclesial. Dentro deste panorama socioeclesial, as CEBs se movem em uma perspectiva de esperança, que surge da proposta do Reino e a retomada de Francisco da visão eclesiológica do Vaticano II.
    As CEBs se posicionam como instrumento necessário e eficaz na realização da missão, de que são destinatários principais a juventude, os empobrecidos e excluídos, as mulheres, e também na que se fazem participantes os movimentos populares, as pastorais sociais e outras igrejas, com quem querem assumir conjuntamente as causas dos pobres.  Foram compartilhadas diversas experiências de trabalho na periferia de algumas cidades brasileiras e com aqueles que vivem nas periferias existenciais. Tudo isso sem esquecer que vivemos em uma sociedade e participamos de uma linguagem onde o virtual exige cada vez mais protagonismo.
    Neste sentido, Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo e ex-relatora da ONU em questões referentes ao direito à moradia digna, depois de analisar a realidade do mundo urbano, assinalava que as CEBs devem assumir o papel, a partir de seu compromisso com a libertação, de oferecer uma leitura alternativa do que se passa, que seja fonte de esperança e de utopia. E não só isso, devem também mostrar aos movimentos populares que não estão loucos nem sozinhos e que suas reivindicações são legítimas.
    Da reflexão coletiva surge a necessidade de revitalizar as CEBs, revendo seus princípios orientadores e metodológicos, sendo necessário um diálogo com a complexa realidade do mundo urbano a partir de uma perspectiva bíblica, na qual devem se consolidar experiências de fé transformadoras, libertadoras e proféticas, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus de Nazaré, valorizando as expressões religiosas populares e elaborando um discurso contrário ao do mercado, que coloque o foco na solidariedade, na vida fraterna, na reconstrução das relações comunitárias, no macroecumenismo, na ecologia, na misericórdia e na escuta do clamor dos sofredores, assumindo o compromisso de lutar por direitos, que leve a reafirmar a centralidade dos pobres e a prática da justiça. Tudo isso baseado em uma articulação da mística, da presença, do testemunho e da profecia.
    As CEBs são conscientes que o presente é um tempo de busca, em um ambiente em que o clericalismo e a autorreferencialidade eclesial levam a um sentimento de estar como ovelhas sem pastor. A isso se referia Francisco de Aquino Junior, sacerdote e professor de Teologia, que fez uma leitura histórico-teológica da vida da igreja nos últimos 50 anos, as consequências do modelo eclesial assumido desde a década de 80 e o empenho do Papa Francisco para mudar esta dinâmica, aspectos em que também insistiu o professor Sérgio Coutinho. Daí, o ser igreja em saída, que tanto incentiva o bispo de Roma, tem que partir de algumas perguntas: Para onde? Com quem? A favor de quem?
     As CEBs assumem que hoje são uma minoria teológica e eclesiológica, que não são a única expressão profética do Reino, que devem buscar o consenso, que não devem diluir o espírito, carisma e identidade dentro da realidade contemporânea e que são igreja pobre e dos pobres, colocando os excluídos, as minorias e o seguimento de Jesus de Nazaré como elementos centrais.
    O caminho a seguir deve partir de um processo de formação de leigos e de leigas que animam a vida das comunidades, numa perspectiva bíblica e teológica que coloque a Palavra de Deus no centro da experiência comunitária, impulsionando os grupos de reflexão bíblica. Um desafio urgente é fazer-se presente nas bases com novas metodologias, levando em conta as experiências bem sucedidas de vida comunitária e aproveitando os ventos favoráveis chegados com Francisco e que têm permitido que voltem adquirir protagonismo as intuições eclesiológicas formuladas no Vaticano II e em Medellín.
    As CEBs creem em uma eclesiologia participativa onde os conselhos pastorais sejam mais valorizados, comunitária, ministerial, laical, ecumênica, aspectos defendidos no Vaticano II. Insistem na necessária incorporação dos jovens e outros atores sociais, e no imperativo de abraçar o cuidado da Casa Comum e dos frágeis do mundo.
    A partir destas idéias surgem algumas perguntas, como a formulada pelo sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira em sua intervenção, se as CEBs são ainda comunidades eclesiais de base, se não deixaram de ser aquilo que Pedro Casaldáliga destacava em 1989, as definindo como “a nova forma de toda a igreja ser”, para converter-se em um movimento espiritual a partir dos círculos bíblicos e da Teologia da Libertação. A socióloga Solange Rodrigues que, como Pedro faz parte da equipe de Iser Assessoria, se interrogava se tem sentido falar de CEBs em uma sociedade urbana, complexa e plural.
    Na verdade, são muitos os elementos a serem refletidos e, ao mesmo tempo, são muitas as perguntas que surgem ao levar adiante um processo evangelizador baseado na centralidade dos pobres e na luta pela justiça. A isso buscam responder as CEBs do Brasil e  de tantos lugares do mundo, especialmente da América Latina. Tudo isso sem esquecer da letra da canção com que o encontro foi encerrado:  “Nossa alegria é saber que um dia todo este povo se libertará, pois Jesus Cristo é o Senhor do mundo, nossa esperança realizará”.
    Luis Miguel Modino*
    *Sacerdote diocesano de Madri desde 1998 e missionário na Diocese de Ruy Barbosa, Bahia, Brasil desde 2006.
    Fonte: periodistadigital.com

     

  • Vídeos Teologia da Libertação

    Gente amiga das CEBs,
    Mais uma vez o Iser Assessoria tem uma boa notícia para compartilhar com vocês.
    Conseguimos colocar mais 5 filmes disponíveis no youtube. Eles fazem parte de uma coleção sobre Teologia da Libertação, que fizemos na virada dos anos 80 para os anos 90. Os links seguem abaixo e também podem ser encontrados em nossa página na internet: www.iserassessoria.org.br .
    Em 1989 houve um encontro de diversos teólogos da libertação no Brasil, para tratar dos rumos daquela coleção da editora Vozes Teologia e Libertação. Aproveitamos a ocasião para gravar entrevistas com estes patriarcas da teologia produzida em nosso continente. Faustino Teixeira foi o responsável pelas entrevistas e pela edição do material, em colaboração com o jornalista Xico Teixeira. Daí surgiram 4 filmes, um deles sobre espiritualidade, em que se destaca a contribuição de Jon Sobrino (El Dio de los pobres). O segundo sobre eclesiologia (Igreja de los Pobres). O terceiro sobre a Palavra de Deus (Bíblia: Deus Vivo). O quarto sobre os encontros e desencontros culturais no processo de evangelização (Uns e Outros: o desafio da inculturação).
    Cada um destes filmes têm cerca de 30 minutos. Eles revelam as intuições iniciais, as ideias centrais da teologia gestada a partir das inovadoras experiências eclesiais realizadas em nossa América. Os entrevistados falam em português e em espanhol. Não há legendas, mas as condições de gravação foram muito favoráveis, em um local tranqüilo, e os de língua espanhola foram convidados a falar pausadamente. 
    É possível compreender perfeitamente a riqueza que querem nos transmitir.
    Fecha o conjunto o filme Nossa América, dirigido pelo cineasta Silvio Da-Rin, que traça um panorama da América Latina, as contradições e potencialidades deste território em que uma teologia tão original surgiu e se desenvolveu. Totalmente produzido a partir de imagens previamente gravadas, este filme envolveu um cuidadoso trabalho de pesquisa e de edição. É narrado em português. Este filme foi produzido também para contribuir na preparação do 7º. Encontro Intereclesial, realizado em Duque de Caxias (RJ), e que teve como tema a América Latina. Esta situação hoje tem aspectos muito diferentes, mas é um documento histórico que nos ajuda a compreender as condições que possibilitaram a emergência da Teologia da Libertação.
    Esperamos que possam saborear estes filmes e que eles contribuam para  fortalecer o seu compromisso com as CEBs neste início de século XXI.   
    Vídeos Teologia da Libertação
    produzidos pelo Iser Assessoria
    El Dios de los Pobres
    Espiritualidade da Libertação
    1990 – 23 min
    Apresenta a Teologia da Libertação como um forte movimento de espiritualidade revolucionado pelos empobrecidos. O vídeo abre espaço para uma reflexão sobre a articulação que vigora entre gratuidade e eficácia libertadora, assim como para as dificuldades que o tema tem suscitado na prática pastoral.
    El Dios de los Pobres – Parte 1  https://www.youtube.com/watch?v=4CGqNIuf3m8
    El Dios de los Pobres – Parte 2  https://www.youtube.com/watch?v=f39784ERsks
    A Igreja dos Pobres
    1990 – 23 min
    Apresenta a nova consciência da Igreja, que acompanha a irrupção histórica dos pobres e seu movimento de cidadania eclesial: o significado da Igreja dos pobres e o desafio que essa representa para toda a Igreja.
    A Igreja dos Pobres – Parte 1  https://www.youtube.com/watch?v=Ht1EHOEajjA
    A Igreja dos Pobres – Parte 2  https://www.youtube.com/watch?v=HiC82QokNfQ
    Bíblia: Deus Vivo
    1990 – 22 min
    Traz os aspectos essenciais da nova interpretação popular da Bíblia, que vem ganhando cidadania na América Latina e, em particular, o método de Frei Carlos Mesters.
    O vídeo procura mostrar a importância da Bíblia na vida das Comunidades Eclesiais de Base, o que está surgindo de novo na sua interpretação e suas características mais importantes.
    Bíblia: Deus Vivo – Parte 1  https://www.youtube.com/watch?v=Z737ICp8oX8
    Bíblia: Deus Vivo – Parte 2  https://www.youtube.com/watch?v=Ib-zSOj1Ty0
    Uns e Outros
    O desafio da inculturação
    1990 – 23 min
    Abre espaço para uma reflexão de estrema atualidade para a Igreja: a questão do outro, da identidade e diferença, a relação de evangelização com a religião popular, com os desafios específicos do índio e do negro e a questão do sincretismo religioso.
    Nossa América
    1989 – 25 min
    A luta dos países latino-americanos contra a dependência econômica, a injustiça social e a dominação política. A partir da edição de vários filmes, esse vídeo foi feito como material informativo para o 7º Encontro Intereclesial de Cebs.
    Nossa América – Parte 1  https://www.youtube.com/watch?v=JRL2PJXGOZA
    Nossa América – Parte 2  https://www.youtube.com/watch?v=av0MdMTY8KQ
  • CEBs e desafios do mundo contemporâneo

    CEBs e desafios do mundo contemporâneo
    As comunidades eclesiais de base (CEBs) constituem uma das mais significativas experiências da Igreja Católica na América Latina. Elas surgiram num conjunto de iniciativas pastorais que repercutiram o Concílio Vaticano II em nosso continente. O Concílio apontava para três grandes desafios: a descolonização, pedindo que cada Igreja superasse o predomínio europeu e revelasse seu próprio rosto; a descentralização, pedindo que surgissem instâncias de comunhão e participação; e a desclericalização, que convocava o protagonismo dos leigos e leigas para a missão. Ao longo dos últimos 50 anos, as CEBs viveram esse sonho conciliar, através de um “novo modo de ser Igreja” gestado numa dinâmica que parte da proposta de uma Igreja Povo de Deus, congregando gente que se engaja no seguimento de Jesus para a missão evangelizadora.
    Os bispos latino-americanos, no Documento de Aparecida, afirmam que as CEBs são “escolas que tem ajudado a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como testemunhas da entrega generosa, até mesmo com o derramar do sangue de muitos de seus membros”(DAp 178).
    Hoje, existem milhares de CEBs espalhadas pelo Brasil, e seus membros continuam engajados nas transformações da Igreja e da sociedade local e nacional. Passados 50 anos da convocação do Vaticano II, é importante perceber os grandes desafios que se apresentam para a Igreja neste início de século, e as interpelações e reflexões sobre como orientar a caminhada das comunidades em sua ação pela transformação do mundo em fidelidade à proposta de Jesus.
    As CEBs são um bom exemplo para quem busca relançar, retomar e reanimar o espírito conciliar na Igreja Católica. Esta é, sem dúvida, a melhor maneira de celebrar os 50 anos do Vaticano II.
    Ao longo da caminhada, a atuação das comunidades tem sido apoiada por uma rede de assessores e assessoras, pessoas que têm um conhecimento específico sobre diferentes temas e que colocam esse saber a serviço da caminhada das comunidades. O surgimento de novas gerações de assessores e assessoras, agentes de pastoral e animadores de comunidade exige um esforço continuado de formação dessas pessoas para melhor desempenhar suas tarefas e ajudar as CEBs neste caminho reflexivo e em suas práticas religiosas e sociais.
    Tendo em vista essa necessidade, uma parceria entre o Iser Assessoria e o Setor CEBs da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB promoveu, ao longo de 2011, quatro Seminários para assessores e assessoras de CEBs, reunindo cerca de 100 pessoas de todos os 17 regionais em que o país está dividido pastoralmente.
    Concluindo esse projeto, resolvemos reunir numa publicação os artigos dos diversos peritos e peritas presentes nos seminários.
    A primeira parte traça a caminhada histórica das CEBs, desde o Vaticano II (1962-1965) até Aparecida (2007). As contribuições de José Oscar Beozzo e de Daniel Higino reconstroem essa trajetória cheia de avanços e percalços. Dentro desse panorama histórico, as CEBs deixaram sua marca nos sucessivos Encontros Intereclesiais. O Pe. Alfredinho, com sua contribuição, partindo da imagem do trem das CEBs, mostra o encadeamento dos temas que devem animar a caminhada das comunidades através de sugestivas “estações” em que o trem deve fazer suas paradas de reabastecimento. Completando essa parte, o artigo de Josenildo Francisco de Lima aborda o momento de crise das CEBs, com o sugestivo subtítulo “Entre a perseguição e o martírio por fidelidade aos pobres”.
    A segunda parte trata especificamente do assunto do seminário. Sérgio Coutinho e Solange S. Rodrigues, a dupla que organizou e animou os seminários, escrevem sobre a identidade e a diversidade das CEBs diante do atual quadro sociopolítico e eclesiástico. Completa essa unidade o testemunho vivo que nos é dado por Mercedes de Budallés sobre a identidade e a diversidade presentes na vida das CEBs do Centro-Oeste.
    A terceira parte reúne uma série de artigos sobre os desafios do mundo contemporâneo que interferem na vida e na organização das CEBs. Ivo Lesbaupin nos coloca diante da atual conjuntura socioeconômica. Roberto “Gogó” Malvezzi retrata a caminhada das CEBs diante dos desafios do semiárido. Lúcia Ribeiro aborda as relações de gênero na vida das comunidades. Sílvia Fernandesanalisa as CEBs diante dos desafios do pluralismo religioso. Por fim, Fernando Altemeyer Jr. aponta para o futuro das CEBs diante da cultura urbana.
    A quarta parte traz uma contribuição escrita a seis mãos por Nelito DornelasPedro Ribeiro de Oliveira e Tereza Cavalcanti sobre o papel de um assessor e de uma assessora pastoral nas CEBs.
    Graças à Editora Paulus, esta publicação torna-se uma realidade. Esperamos que ela possa servir a todas as pessoas envolvidas na preparação e na animação do 13º Intereclesial de Juazeiro do Norte, em janeiro de 2014, quando então todas as CEBs se colocarão em romaria para celebrar a vida e a caminhada nos sertões do Padre Cícero.
  • 8º Encontro Nacional de Fé e Política

    Caminhada dos Mártires

    Meus irmãos e minhas irmãs,

    Por motivos de saúde não me foi permitido estar ai com todos vocês participando das vivências da fé e das reflexões sobre nossa realidade a partir do lugar do povo, iluminados pela mensagem libertadora de Jesus.
    Mas deixo-lhes esta pequena mensagem:
    Um povo e um movimento valem pelo sonho que alimentam e pelos esforços que fazem para pô-lo em prática. O sonho que vocês todos seguramente acalentaram nestes dias foi o de criar as condições para que todos, mas especialmente, os mais penalizados pela realidade social injusta, possam gozar de um “bem viver”.
    Esse sonho é nosso, dos povos andinos e dos movimentos que querem um outro mundo possível e necessário. Esse “bem viver” não é a mesma coisa que o nosso “viver melhor”, falsa utopia da sociedade de consumo, segundo a qual para que alguns possam viver bem e melhor, milhares e milhões tem que viver mal e pior.
    O “bem viver” supõe a integração de todos, não só dos humanos, mas de toda a comunidade de vida, dos animais, das florestas, dos lagos e das montanhas. Porque todos formamos a grande comunidade terrenal. Por isso reina equilíbrio dinâmico e harmonia entre homens e mulheres, entre marido e mulher, entre seres humanos e natureza e todos com Deus. O bem viver supõe uma economia do suficiente e decente para todos, sem concorrência que opõe as pessoas mas com cooperação que unifica a todos.Vivemos um momento crucial de nossa história em que o futuro comum está ameaçado pela excessiva ganância das elites opulentas, insensíveis e sem piedade face o destino da humanidade sofredora e da Terra crucificada. A civilização imperante não nos fornece nenhum sonho bom, somente pesadelos assustadores.Ou mudamos ou vamos ao encontro do pior. Nós que aqui estamos, somos daqueles que acreditam que podemos e devemos mudar, que está em nossas mãos lançar as sementes de um outro modo de habitar esse Planeta, com mais cuidado, amor, sinergia e sentimento de mútua pertença. A nós é dado carregar essa chama sagrada de esperança e não deixar que ela se apague sob a pressão daqueles que preferem a desgraça coletiva a perder seus privilégios e seus ganhos.Nossas dores não são estertores de quem está morrendo, mas são dores de quem está dando a luz a um novo mundo. O Movimento Fé e Política quer ser um dos parteiros do novo que quer nascer.Não estamos destinados a fracassar como espécie humana, assumida e eternizada pelo Verbo da Vida. Somos chamados a viver e a irradiar porque, como diz a Palavra da Revelação, contida no livro da Sabedoria: “Ao Senhor pertencem todos os seres. Ele ama a todos porque é o soberano amante da vida” (Sab 11,26).Seguidores do Deus amante da vida, carreguemos a esperança do futuro da vida e semeemos em todos os nossos caminhos sementes de vida, nova, alegre, solidária, fraterna e espiritual.Do irmão de caminhada, de tribulações, de fé de esperançaLeonardo Boff

  • III Fórum Regional de Fé e Política

    O Grupo Fé e Política de Macaé e Rio das Ostras realizou no dia 20 de agosto de 2011 o III Fórum Regional para refletir o tema do 8º Encontro Nacional de Fé e Política “Em busca da Sociedade do Bem-Viver”, que acontecerá em Embu das Artes, SP, de 29 a 30 de outubro de 2011.
    O Fórum aconteceu na Quadra Esportiva da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, no centro de Rio das Ostras.

    Os 94 participantes vieram de oito municípios da região: Macaé, Rio das Ostras, Casimiro de Abreu, Conceição de Macabú, Carapebus, Nova Friburgo, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio. Contou ainda com a presença de vários pastores e padres da região que apóiam a proposta da fé contextualizada. A acolhida foi primorosa: crachá, camiseta, bolsa, caneta, caderneta de anotação, café da manhã e o ambiente decorado com os 25 postulados para entender o Bem-viver.

    A mesa contou com a presença de Chico Alencar e Névio Fiorin que trouxeram para o contexto atual a proposta do Bem-Viver, que foi incluída na Constituição do Equador (2008) e da Bolívia (2009). Este país, resgatando princípios ancestrais, no ano passado promulgou a Lei da Mãe Terra, pela qual todas as formas de vida se tornam “sujeitos de direitos”. O Bem-Viver questiona de forma contundente nossa forma de entender o modelo ocidental de desenvolvimento. Houve trabalhos em grupos, plenário e fila do povo como forma de contemplar a diversidade de lutas e de lideranças presentes.

    Em outro momento chamado Vivências, Arialdo, trouxe a experiência do MST, que ocupou uma fazenda no ano passado e hoje estão acampados em Rio das Ostras. O MST se fez presente no Fórum com dez pessoas. Também Danilo Funke partilhou a experiência de um mandato popular e os desafios da participação.

    A espiritualidade também esteve presente. No início, a partir do Ofício das Comunidades, celebramos a riqueza da Pachamama, a Mãe Terra, através de seus quatro elementos: terra, água, fogo e ar. No final uma Ciranda da vida celebrou a comunhão e integração de todos os participantes.

    Um cozido primoroso, preparado por uma equipe de voluntárias da comunidade local, deu o tempero ao excelente encontro que tivemos em Rio das Ostras.

  • Seminário de formação de novos assessores de Comunidades Eclesiais de Base

    Terminou neste domingo, 17, no Rio de Janeiro (RJ), o 1º Seminário Nacional para Assessores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), promovido pelo Setor CEBs da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB, em parceria com o Iser-Assessoria.

    Entre as conclusões do encontro foi destaque a necessidade de uma formação sistemática para os assessores das CEBs nas grandes regiões do Brasil, a constituição de uma rede de assessores de CEBs, além de contribuições para a animação das CEBs no contexto das comemorações do cinqüentenário do Concílio Vaticano II e das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE).

    Reunidos desde o dia 14, durante o Seminário os 30 assessores, representantes de 15 regionais, debateram as “CEBs diante dos desafios contemporâneos”. Para isso, a teóloga e professora da PUC-RJ, Eva Aparecida Resende, apresentou nos documentos do Magistério da Igreja (Concílio Vaticano II, Conferências do Celam e CNBB) os fundamentos teológicos para as Comunidades de Base.

    O assessor do Setor CEBs da CNBB, professor Sérgio Coutinho, juntamente com a socióloga Solange Rodrigues, do Iser-Assessoria, problematizaram a questão da “Identidade e Diversidade das CEBs”. Eles enfatizaram seus elementos eclesiais estruturantes e a diversidade de suas experiências no Brasil. O professor Celso Carias da PUC-RJ e o professor Ivo Lesbaupin do Iser-Assessoria, apresentaram os desafios para as CEBs hoje na dimensão social, política e econômica, especialmente no Brasil. Além disso, os participantes assistiram ao vídeo do 7º Intereclesial das CEBs realizado na diocese de Duque de Caxias, em 1989.

    No sábado, 16, o Seminário debateu outros desafios para as CEBs em sua dimensão cultural e religiosa. As sociólogas Lúcia Ribeiro (Iser-Assessoria) e Sílvia Fernandes (UFRRJ) trabalharam o papel da mulher e as relações gênero nas CEBs, como também toda a problemática relativa ao pluralismo religioso que afeta amplamente na sociedade atual. A parte da tarde foi dedicada ao papel e ao trabalho do assessor das CEBs. Para isso o padre Nelito Dornelas, da CNBB, ajudou com uma dinâmica a partir da pedagogia de Jesus descrita na narrativa dos discípulos de Emaús.

    O último dia do seminário se iniciou com a celebração litúrgica do Domingo de Ramos, onde se fez memória dos mártires de muitas comunidades e se renovou o compromisso pela defesa da vida no planeta. Os participantes elaboraram suas sínteses individuais e discutiram em grupos os encaminhamentos para os próximos seminários.

  • Assessores das CEBs discutem “Os desafios do mundo contemporâneo” em Seminário no Rio

    Na Casa Assunção, no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro até domingo, 17, o 1º Seminário Nacional de Assessores e Assessoras das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O evento reúne 30 assessores das CEBs, dos 15 Regionais da CNBB, desde ontem 14.

    Com o tema “As CEBs frente aos desafios do mundo contemporâneo”, o Seminário é uma realização do Setor CEBs da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB em parceria com o Iser-Assessoria, entidade sediada no Rio de Janeiro e que promove pesquisas e assessorias nas áreas de religião, cidadania e democracia

    .Outro objetivo do Seminário é promover uma formação mais sistematizada para aqueles que acompanham a caminhada das CEBs nos seus respectivos regionais; debater sobre a identidade das CEBs hoje e refletir os desafios que estão postos pelo mundo contemporâneo, tais como o mundo urbano, o mundo rural, a juventude, mudanças climáticas, os grandes projetos de infra-estrutura no país e as CEBs na vida da Igreja no Brasil a partir do documento 92 da CNBB.

    O assessor do Setor CEBs, professor Sérgio Coutinho, destaca que este seminário vem de encontro a um momento novo, um verdadeiro tempo de graça [kairós] na Igreja da América Latina e Caribe. “A Conferência de Aparecida chamou a atenção para o seguinte: para que a Igreja seja toda missionária é necessária uma conversão pastoral e mudança de suas estruturas, saindo de uma pastoral de manutenção para uma pastoral verdadeiramente missionária. Daí, ela chama a atenção para uma Igreja que seja comunidade, melhor, rede de comunidades”, explicou o assessor.

    Ainda segundo Coutinho, as CEBs compreenderam muito bem isso com a realização do 12º Intereclesial, realizado em Porto Velho (RO), em julho de 2009, quando trabalhou o tema da ecologia e da missão, e este evento teve repercussão direta na última Assembleia Geral da CNBB, quando as CEBs foram tema prioritário. O resultado foi a publicação do documento 92 “Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs”.

    Para Lenir Assis, da diocese de Londrina e assessora do Regional Sul 2 (Paraná), “este seminário vem em um momento providencial porque a caminhada das CEBs no Brasil precisa ainda ser mais aprimorada, procurando compreender os novos momentos que vivemos, sem deixar de fazer memória, de resgatar a nossa história, principalmente para aqueles mais novos, que estão chegando agora nesta missão de assessor e assessora de CEBs”.

    Ao longo destes dias, os participantes trabalharão as CEBs nos documentos da Igreja (do Vaticano II a Aparecida e nos documentos da CNBB); a identidade e a diversidade das CEBs; os desafios contemporâneos nos campos sócio-político, cultural e religioso; e o papel dos assessores nas CEBs.

  • CEBs criarão escola à distância para formação bíblica e teológica

    Sáb, 09 de Abril de 2011 14:27 por: cnbb

     

    A criação de uma escola à distância para formação bíblica e teológica para as CEBs foi uma das decisões tomadas pelos participantes do 9º Encontro Intercontinental de Articuladores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que terminou neste sábado, 9, no Chile. A escola terá o nome do arcebispo de El Salvador, assassinado em 1980, Oscar Arnulfo Romero.

    O encontro reuniu, desde 31 de março, assessores e assessoras das CEBs dos quatro continentes. Do Brasil participaram oito pessoas, representando a CNBB, a Equipe Ampliada das CEBs e a articulação do Cone Sul das CEBs.

    A Escola Oscar Arnulfo Romero começará a funcionar em janeiro do próximo ano e se estenderá até dezembro de 2014. Serão abertas vagas para 40 alunos.

    “A escola busca responder a uma das principais urgências, que é a qualificação de animadores e animadoras das CEBs”, explica o assessor do Mutirão para a Superação da Fome e da Miséria, da CNBB, padre Nelito Dornelas, membro da Equipe Ampliada das CEBs.

    Além da Escola, as CEBs promoverão também, em parceria com o Instituto Teológico de Pastoral Latino-americano do CELAM (ITEPAL), um curso sobre os desafios que as Comunidades de Base enfrentam no contexto social e eclesial. O curso será em Bogotá, na Colômbia, nos dias 5 a 25 de setembro deste ano.

    Os articuladores das CEBs decidiram ainda dar continuidade ao processo de fortalecimento das CEBs na América Latina e Caribe e realizar o 9º Encontro Latino-americano de CEBs, na cidade de São Pedro Sula, em Honduras. O evento será de 16 a 22 de junho de 2012, com vagas para 200 participantes.

    Padre Nelito destacou a reunião no Chile como momento forte de “oração, reflexão, estudo, convivência fraterna, partilha de experiências”. “Foram dez dias de profunda atenção aos sinais dos tempos que o Espírito vem suscitando na Igreja nos últimos cinquenta anos, impulsionados pelo Concílio Vaticano II, a Conferência de Medellín e os planos de pastoral em cada continente”, conta o padre.

  • II Fórum de Fé e Política de Macaé

    No dia 12 de junho de 2010 aconteceu em Macaé, RJ, o II Fórum de Fé e Política, no colégio estadual Télio Barreto, onde o ambiente estava preparado e enfeitado. O tema escolhido foi “Espiritualidade, ética e participação na construção da vida”.

    O acolhimento foi destaque. No credenciamento, os 80 participantes receberam camiseta e bolsa personalizada. A seguir, foi oferecido um precioso café da manhã.

    Iniciamos as atividades com cantos e a mística. Pastor Salvador motivou o início do encontro trazendo a memória de Amós, o profeta dos excluídos. Amós era uma pessoa simples, chegava a ser rude. Só que trazia uma mensagem forte. Suas palavras eram graves, cortantes. Por isso seu “ministério” foi bastante curto.

    O tema do livro de Amós é a justiça social. Amós profere sua mensagem no tempo do rei Jeroboão que tinha colocado em prática uma política expansionista muito bem sucedida. Seu êxito econômico e político excluía o povo pobre.

    Também nós somos uma nação rica, com um povo pobre, levado no cabresto. Amós denuncia muitas coisas. Seu conceito de justiça é diferente daquele que aprendemos nas escolas. Para Amós justiça não é “dar a cada um o que é seu”. Amós entende que Justiça é “dar a cada um o necessário” para uma vida digna.

    Somos um país com tantos Códigos, Estatutos e instrumentos legais diversos. Mas será que o direito, neste Estado de Direito, é o direito de todas as pessoas?

    Amós critica Amasias que se parece muito com a classe sacerdotal atual, pastores e padres. Desculpem-me se falo assim, generalizando. Vivemos num país de católicos e evangélicos. Todo dia tem missa e culto, padres e pastores pregando na TV. E são tantos os bispos, pastores, pregadores, mas onde está a voz profética de Amós nos nossos dias?

    Num segundo momento, houve a dinâmica do feijão. Cada participando recebeu um feijão estilizado, com o nome de um mártir das lutas populares da América Latina. Da dinâmica os participantes foram para o trabalho em grupos. Cada grupo recebeu um texto motivador e tinha uma pessoa para assessorar. Eram quatro grupos:

    1. Espiritualidade no Cuidar da vida
    2. Eleições e Ética na Política
    3. Participação e Acompanhamento
    4. A questão da terra e Plebiscito

    Depois do plenário, no momento chamado “digerindo idéias”, Névio destacou alguns pontos.

    O trabalho de reflexão e partilha em grupos é muito importante. Ali nos encontramos com diversas pessoas para conversar e trocar experiências. Descobrimos que não estamos sozinhos na luta. Muita gente boa caminhando conosco. É importante ter presente que as grandes transformações são semeadas de grão em grão, como o feijão que vocês trouxeram para a discussão deste Fórum.

    Temos muitas lutas e atividades acontecendo no país. Não podemos ficar de fora: Eleições, Ficha Limpa, Plebiscito Popular e tantas outras coisas acontecendo.

    Diversos organismos da CNBB publicaram a Cartilha Eleições 2010, o chão e o horizonte. O chão que pisamos e a realidade que vivemos. O horizonte que miramos e o Brasil que queremos. É bom termos presente que numa eleição federal, não escolhemos apenas nomes para os cargos vagos. Pelo voto apontamos o projeto de país que queremos construir. Nosso desafio é levar essa reflexão para as bases.

    O tema escolhido para o Fórum indica que nos movemos a partir da espiritualidade. Como Igreja, aprendemos com os pobres que Deus também teve um sonho. De seu sonho surgiu a criação, descrita como um jardim. Nós hoje precisamos aprender que o “jardineiro não é maior que o jardim”. No sonho de Deus o jardim é um lugar para todos. Como cristãos, somos portadores do sonho de Deus. Precisamos desenvolver uma espiritualidade ecológica, profética, como Amós.

    Este Fórum, na fala dos grupos, nos pede que caminhemos, fazendo cada município o seu caminho.

    Na Fila do Povo, que se seguiu, foram destacados diversos assuntos, sobretudo a política do royalties do petróleo. Algumas atividades foram lembradas:

     Quarta Cidadã – toda última quarta-feira de cada mês, 19h, na Segunda Igreja Batista, Cajueiros, Macaé, pastor Daniel faz um trabalho bíblico voltado para a construção da cidadania.

     Projeto Promovendo a Vida – A paróquia S. Paulo Apóstolo, Macaé, está implantando um projeto como alternativa de renda e inclusão. As bolsas do Fórum foram feitas por esse projeto.

     Ato comemorativo do Ficha Limpa – o Fé e Política de Macaé vai dar um destaque público à aprovação do projeto popular. Será dia 23 de junho a partir das 18h.

     Plebiscito Popular sobre o Limite da Propriedade da Terra na semana de 01 a 07 de setembro – terminando com o Grito dos Excluídos.

     Caravana da Juventude – Nos dias 19 e 20 junho, reunião diversos grupos de jovens para o Lançamento da Caravana, com diversas atividades: bandas, músicas, shows, debates. O objetivo é construir um plano de juventude, tendo em vista a criação do Conselho Municipal de Juventude de Macaé.

    No final do evento foi destacado o compromisso. Cada um falou onde deve ser plantada a semente que todos receberam. Começamos o encontro com Amós e terminamos com outro profeta, Isaías 65, 17-25 – “Eu vou criar um novo céu e uma nova terra”. Este momento terminou com a saudação “que Deus possa firmar estes nossos propósitos. Amém”.

    O encontro terminou às 13 horas com uma feijoada e a música de um conjunto de chorinho. O Fórum foi animador! Névio registrou.

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