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Artigo

  • I – O sentido econômico da proposta
    Marcos Arruda

     

    PROPOSTAS PARA A ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA

    Por Marcos Arruda[1]

    Série de pequenos textos que visam colaborar com o grupo de jovens brasileiros que vão a Assis para o Encontro Mundial Economia de Francisco.

    1. SENTIDO ECONÔMICO DA PROPOSTA DE UMA ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA

    As figuras de São Francisco de Assis e Santa Clara servem de guias para a visão de uma Economia da Vida, como pretende o Papa Francisco. Quais são as principais lições que emergem dessas figuras?

    • A primeira lição é a da simplicidade voluntária, ou da sobriedade feliz. Trata-se de dois desafios simultâneos. Um, em relação ao padrão de consumo das pessoas: a escolha de um modo de vida e de consumo simples e sóbrio, reduzindo as necessidades de bens materiais a um mínimo. A emoção envolvida nesta escolha é a do Uma das melhores consequências dela é a redução da demanda de energia e, portanto, das emissões de gases de efeito estufa (GEE). A escolha do uso de energia de fontes renováveis e limpas; de meios públicos de transporte em vez do automóvel; o uso da bicicleta em vez dos veículos de combustão interna sempre que possível, a substituição de chuveiro elétrico por chuveiros esquentados por energia solar; a economia no uso da água e a prática de recolha da água da chuva; a reutilização e a reciclagem de produtos descartados, o cuidado com a saúde das árvores e das florestas são alguns exemplos.

    O outro desafio é de cunho social ou coletivo. A população pobre do Brasil não tem acesso a nutrição regular e de qualidade, muito menos a água morna para se banhar. Seu padrão de consumo não cobre suas necessidades básicas. Libertá-la destas carências deve ser a primeira prioridade para os fazedores de políticas públicas. As práticas de economias centradas na vida (biocêntricas) visam criar e manter as condições propícias para que cada pessoa, e o conjunto da sociedade, possa desenvolver seus potenciais humanos e sociais em harmonia com o meio natural. Incidir nos governos em todos os níveis em favor de políticas que revertam os fatores antrópicos (causados pela espécie humana) do aquecimento global e reconheçam por lei os direitos da Natureza. Organizar a cidadania planetária em torno destas políticas, eis o grande desafio de uma Economia da Vida neste momento.

    • A segunda lição de Francisco e Clara é a da solidariedade. Francisco e Clara vinham de famílias abastadas. Rejeitaram a vida no luxo para dedicar-se ao serviço divino na forma de oração e de cuidado com os oprimidos. Também dedicaram energias e tempo para promoverem a Paz e o respeito à diferença. Só economias humanizadas e realmadas, responsáveis, plurais e solidárias podem nos dias de hoje levar à prática o espírito destes dois santos. Mas entre a visão de economias do Bem Viver e sua concretização há grande distância. Definir a visão que sirva de guia das nossas ações e, ao mesmo tempo, definir os passos do nosso cotidiano que nos levem do caos social atual, e do colapso climático que se avizinha, até a realização daquela visão, este é o desafio metodológico, que trataremos em breve.
    • A terceira lição é a da busca de coerência entre a espiritualidade e a luta pela paz com justiça. Toda economia competitiva é, por natureza, uma economia de guerra. Francisco e Clara foram veículos da mensagem divina da Paz. Uma economia de guerra jamais pode levar a uma economia e uma cultura da Paz. Foram as práticas cooperativas e solidárias dos grupos de hominídeos e de humanos que ofereceram as condições para a subsistência e a evolução destes seres com o cérebro em processo de complexificação. Desde cedo esses nossos antepassados perceberam a dimensão invisível da realidade do mundo e a incorporaram no seu viver cotidiano. O entendimento humano foi alcançando fatos que estão na base de uma Economia da Vida e de uma Ecologia Integral, como a riqueza da biodiversidade (da qual fazemos parte também), a consciência de que somos todos interconectados, entre nós e com todas as outras formas de vida; e a compreensão de que as diferenças de gênero, de talentos e atributos, são fontes de maior riqueza enquanto família humana, em vez de serem motivo de maus sentimentos como a inveja, a cobiça e o espírito de competição. As emoções que alimentam estas atitudes e práticas são a paz interior, a compaixão, a empatia e a não-violência (expressão positiva em sânscrito – persistência na verdade, resistência passiva.)

    Um desdobramento desta terceira lição é o trabalho pela paz, justiça e equidade em escala planetária. Em busca de um acordo pacífico entre Cruzados e Muçulmanos, Francisco e Illuminato navegaram até o Egito. Se horrorizaram diante da carnificina e da postura antievangélica dos Cruzados. Essa guerra levou Francisco a tentar persuadir os Cruzados a negociar a paz. O Sultão al-Khamil chegou a oferecer Jerusalém aos Cruzados em troca da paz, mas eles rejeitaram sua oferta. Francisco e Illuminato decidiram ir ao campo muçulmano com surpreendente audácia, e criaram com o Sultão e seus sábios sufis um diálogo de vários dias sobre a espiritualidade das duas religiões. Daí emergiu um laço de amizade entre o Sultão e Francisco. Francisco nos ensina que a Política da Amizade é a matriz da Paz com Justiça.

    As disputas políticas e econômicas tendem à demonização do “inimigo” e a busca de soluções violentas. Hoje em dia, o sistema do capital joga empresário contra empresário, trabalhador contra trabalhador, país contra país, povo contra povo. A ganância e a voracidade visando acumular dinheiro e riquezas materiais é a marca dos que praticam o capitalismo como sua religião.

    Que audácia, que profundo compromisso de Francisco e seus irmãos com os valores fundantes do Cristianismo!

    O desafio do Encontro de Assis é encontrar modos de fazer a Economia coerentes com essas virtudes de Francisco e Clara.

    As lições de Clara

    Além da escolha por abandonar a riqueza e o luxo da família para abraçar com alegria a simplicidade e a pobreza voluntárias como modo de vida, Clara enfrentou o patriarcalismo de sua época e, ainda muito jovem, abriu sua própria trilha e seguiu o apelo do seu coração a despeito da oposição do pai. Foi uma mulher que encarnou as virtudes do Sagrado Feminino. No Mosteiro de São Damião, onde ela se instalou, logo acompanhada por sua irmã Agnes e outras devotas, ninguém tinha posses privadas, a alimentação excluía toda carne, e a pegada ecológica era exemplar.

    Aprendendo de seu exemplo, a Economia de Francisco e Clara deve ser uma economia do suficiente em termos materiais, rejeitando a ideologia do crescimento econômico ilimitado, e com ele o excesso de consumo e de produção sem consideração com as gerações futuras e os limites dos ecossistemas. A partilha da posse dos bens produtivos e o acesso responsável de todas e todos aos bens comuns que a Terra oferece; o cuidado e o respeito a cada outra pessoa, colaborando para que os direitos de todo ser sejam respeitados; o trabalho pelo reconhecimento legal dos direitos da Natureza; a promoção das comunidades autogestionárias como unidades de produção e reprodução da vida e, portanto, protagonistas do seu próprio desenvolvimento econômico, social e humano, são apenas alguns elementos que devem marcar a Economia de Francisco e Clara.

    *    *    *

    Fonte da foto: https://www.facebook.com/EconomiaDeFrancisco/

    [1] Economista e educador do Instituto PACS, Rio de Janeiro, colaborador da rede Solidarius, do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCJS), da Rede Global Diálogos em Humanidade – Brasil, e da Ágora das e dos Habitantes da Terra – Brasil. Marcos também é associado ao Instituto Transnacional, Amsterdam.

  • Mark Weisbrot: Departamento de Justiça dos EUA fez uso criminoso da Lava-Jato no Brasil

    Brasil 247 / Montagem reprodução

     

    Mark Weisbrot: Departamento de Justiça dos EUA fez uso criminoso da Lava-Jato no Brasil

    Os EUA queriam demolir a mudança institucional que ocorreu no século XXI e deu à América Latina uma voz independente, diz economista e pesquisador.

    CINTIA ALVES, Jornal GGN, Brasília (DF) (Brasil) 2 de mar de 2020.
    Recebido por www.dialogosdosul.operamundi.uol.com.br

    Os Estados Unidos usaram a Lava Jato para atingir um “objetivo da política externa, que era se livrar de Lula e Dilma Rousseff e avançar um pouco mais no processo de “demolir” a independência dos países latino-americanos que não estão alinhados com o governo norte-americano. É o que avalia o economista e pesquisador norte-americano Mark Weisbrot.

    Em entrevista a André Neves Sampaio, colaborador do GGN nos Estados Unidos, Weisbrot falou sobre as relações do Departamento de Justiça norte-americano com a Lava Jato, os interesses geopolíticos por trás da operação, a participação de Sergio Moro no processo e do alinhamento de Jair Bolsonaro ao governo Trump.

    Segundo ele, há evidências claras de que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos está “envolvido nesse crime” [uso da Lava Jato para fins geopolíticos], inclusive convergindo com os interesses políticos “do seu amigo [Sergio] Moro”.

    De acordo com Weisbrot, a meta principal dos EUA na América Latina sempre foi a de ter países alinhados à sua política externa. “É com isso que eles mais se preocupam agora.”

    Com o golpe em Dilma e a condenação, e inviabilidade eleitoral de Lula – ações patrocinadas por Moro e Lava Jato – os EUA progrediram um pouco mais com o plano de “demolir” a independência na região. “Acho que é disso que eles mais queriam se livrar.”

    De acordo com Weisbrot, a meta principal dos EUA na América Latina sempre foi a de ter países alinhados à sua política externa.

    Confira, abaixo, a íntegra da entrevista que faz parte da série “Lava Jato Lado B – A influência dos EUA e a indústria do compliance.”

     André Sampaio: Você acha que o Departamento de Justiça dos EUA tem alguma influência na Lava Jato?

    Mark Weisbrot: Sim, não há dúvida de que o Departamento de Justiça – como sabemos por seus próprios discursos e documentos – está pesadamente envolvido nessa investigação. Eu acho que pode até ter tido alguma influência política também.

    Um número de membros do Congresso dos EUA e da Casa de Representantes, um mês atrás, escreveu ao Departamento de Justiça e fez várias perguntas, e expressou preocupação. Eles escreveram uma carta, liderados por Hank Johnson, que é membro do Comitê Judiciário, que tem papel de supervisionar o Departamento de Justiça, que terá de responder essas perguntas.

    Eles dizem na carta que estão muito preocupados com as notícias de ações em conluio entre o ex-juiz Moro e os procuradores do caso, que se basearam em evidências fracas. Que as crenças dos procuradores eram insuficientes para uma condenação, e que Lula não teve um julgamento imparcial. Isso deveria ser uma preocupação para o Departamento de Justiça.

    E eles [parlamentes] perguntam o que eles [Departamento de Justiça] realmente sabem disso. Se eles [DOJ] sabiam desse conluio. Qual foi seu papel. Perguntam detalhes do que eles fizeram. Então, espero que em breve teremos mais informações sobre o que o Departamento de Justiça fez. Mas me parece que, esmagadoramente, foi politizado, exatamente como a operação em si.

    Depois do impeachment de Dilma, Aloísio Nunes, na época em que ele era presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, viajou aos EUA para uma reunião com Tom Shannon. E no mesmo período, houve uma coletiva de imprensa com José Serra e John Kerry, no Brasil, durante o impeachment. E Serra disse nessa coletiva que estava buscando melhor relacionamento com os EUA. Você acha que os EUA também influenciaram o processo democrático no Brasil?

    Sim, os EUA tiveram um papel muito importante em legitimar e apoiar o golpe contra Dilma. E todo o caminho até a prisão de Lula, eles estavam apoiando através do Departamento de Justiça e outras agências dos EUA. Mas o golpe, em si, foi muito apoiado.

    Um dos grandes sinais foi quando, um ou dois dias depois que o Congresso votou pelo impeachment de Dilma, o senador Aloysio Nunes, que comandava a comissão de Relações Exteriores no Senado, veio para os EUA e se encontrou com Tom Shannon, que era o número 3 do Departamento de Estado na época, e alguém que se envolveu em muitas atividades terríveis ao longo de sua carreira. Ele se aposentou alguns meses atrás.

    Este encontro foi um meio dos EUA demostrarem de maneira muito clara, para aqueles que estavam prestando atenção, que o País estava apoiando o golpe. Porque a votação do impeachment no domingo antes de Nunes encontrar com Shannon foi vista ao redor do mundo como um espetáculo. Na verdade, foi uma vergonha, que afetou a cobertura da imprensa aqui, que era majoritariamente a favor do processo de impeachment, mas começou a hesitar depois que viu o que os senadores estavam dizendo.

    Shannon teve um papel crucial. Todo mundo sabe quem ele é. É um ex-embaixador no Brasil e, como disse, o terceiro no comando do Departamento de Estado na época. Ele se encontrar com Nunes, quando não precisava se encontrar, foi uma tentativa de mostrar o apoio dos Estados Unidos ao golpe. E foi muito inteligente, porque a maioria da mídia ignorou, mas todos no Brasil, toda a classe política no mundo, todos que entendem de diplomacia sabiam que isso era uma maneira de mostrar apoio ao golpe.

    E como se não fosse suficiente, em agosto, John Kerry foi ao Brasil e falou em frente da embaixada dos Estados Unidos com José Serra – que na época era o ministro das Relações Exteriores do governo golpista, se assim quiser chamar – e deu todo o apoio ao novo governo. Disseram que iriam trabalhar juntos. Pouco antes disso, o Senado estava votando e preferiram não condenar Dilma [à perda dos direitos político]. Foi sem erro uma demonstração do apoio dos EUA não só ao impeachment, mas para se livrar de Dilma. Todo mundo que prestou atenção entendeu, embora tenha sido ignorado pela mídia.

    Como você analisa o relacionamento entre Bolsonaro e Trump, considerando que durante o governo Lula, o Brasil teve outro tipo de relacionamento com os EUA, tentando estreitar o bloco econômico na América do Sul e também se posicionamento contra a guerra no Iraque, por exemplo, e agora Bolsonaro parece fazer tudo o que Trump quer. Como você vê esse relacionamento?

    Não há nenhuma dúvida de que o governo Trump está muito feliz com Bolsonaro e o apoia fortemente ou vai tentar apoiá-lo de toda maneira que puder. Isto é porque eles unificaram a política externa. É por esse motivo também que os EUA quiseram se livrar do antigo governo brasileiro, assim como outros governos de esquerda que foram eleitos no século XXI. Não há diferença, e eles tiveram sucesso em se livrar de alguns deles. Mas eles contribuíram, claro, como disse, para se livrar de Dilma e Lula, e agora eles podem ter o que querem. Especialmente Trump. Porque ele é um extremista e eles [Trump e Bolsonaro] compartilham muita ideologia em comum. Você ainda tem nos Estados Unidos toda uma política externa, um establishment – que inclui arma de indução de pânico, o Departamento de Estado, Conselho de Segurança Nacional, as comissões de relações exteriores do Congresso, e o departamento de Defesa. Todos eles têm uma estratégia em comum, e essa estratégia é não ter governos independentes na América Latina. E se livrar daqueles que foram eleitos e das instituições que eles construíram para a independência regional, como, por exemplo, a Unasul [União de Nações Sul-Americanas] ou CELAC [Comunidade das Nações Latino-Americanas e Caribe]. Eles realmente não querem nenhuma dessas coisas. A transformação da América Latina no século XXI foi a primeira vez em 500 anos que a região teve tanta independência. E, desde o começo do século, a estratégia tem sido de limitar e reverter [o crescimento], mais ou menos como na Guerra Fria contra a União Soviética. Mas eles realmente querem se livrar. E agora eles têm o que querem. De novo: Trump e Bolsonaro têm uma conexão ainda mais especial por sua ideologia racista e de extrema-direita.

    Qual é a importância do Brasil, como o maior País da América do Sul, para a política externa dos Estados Unidos?

    O Brasil tem sido o grande prêmio para eles. Eles perderam o Brasil depois de 2002 até 2016. Não tinham o País no bolso. O Brasil é mais difícil do que estes outros países [da América do Sul] para os EUA conseguirem se aproximar, porque ele tem uma longa tradição de independência – mesmo na ditadura militar, que foi relativamente independente dos Estados Unidos, ou mais independente do que os Estados Unidos esperavam quando apoiaram o golpe.

    Quando essa história for finalmente escrita, eu acho que o golpe contra Dilma, Lula e o PT será visto como um dos mais importantes apoios dos Estados Unidos, em grande escala, a um golpe na América Latina.

    Como você vê o juiz Sergio Moro? Ele foi o cara que primeiro condenou Lula e agora é ministro de Justiça de Jair Bolsonaro.

    Moro é claramente um líder disso. Ele tinha os olhos o tempo todo em cima do golpe. Ele teve de pedir desculpas à Suprema Corte por grampear Lula, sua esposa e Dilma, e criou esse grande espetáculo prendendo Lula com todos esses policiais, quando Lula se voluntariou para responder perguntas. Então ele fez todas essas coisas, e claro, fez coisas que descobrimos depois, como colaborar com os procuradores, que é antiético e ilegal.

    E ele era muito próximo dos Estados Unidos. Ele já veio aqui, ele tinha contatos aqui. Na verdade, esteve aqui recentemente com Jair Bolsonaro e teve encontros em uma desses centros de fusão dos Estados Unidos.

    Então acho que ele teve um papel chave. Ele fez tudo ser tão óbvio ao se tornar ministro da Justiça depois de ter entregado a eleição para Bolsonaro prendendo Lula, que teria vencido a eleição de acordo com todas as pesquisas. Acho que esse foi o papel dele e como ele será lembrado.

    Você acha que a trama principal da Lava Jato era finalmente tirar Lula da eleição? Acha que Lula na prisão era o principal objetivo dessa operação?

    Sim, acho que era o que eles mais queriam: por Lula na cadeia e impedi-lo de disputar a eleição. Você pode ver isso. No julgamento em que ele foi condenado e enviado à cadeia, não havia evidência material. Tudo foi baseado no testemunho de um executivo que não só tinha um acordo de delação, mas como a Folha de S. Paulo publicou, seu acordo foi interrompido e paralisado, até que ele mudasse sua história, porque a história original não implicava Lula, então ela foi cortada desse acordo que poderia salvá-lo de uma temporada na prisão, até que ele dissesse o que queriam.

    Essa era praticamente a única evidência que eles tinham, porque Lula nunca comprou esse apartamento, nunca ficou nele. Não havia nada além desse cara e sua delação. Então, estava muito claro o que eles queriam fazer: tirar Lula do jogo. E eles fizeram tudo, até mesmo de maneira subsequente, para assegurar que isso aconteceria.

    O que você acha que a Operação Lava Jato significa para o Departamento de Justiça dos Estados Unidos?

    É algo muito desagradável. E acho que por isso esses membros do Congresso escreveram essa carta. É uma carta sem precedentes. Eu não consigo lembrar de nada assim. Claro que o Congresso tem discordâncias com o Departamento de Justiça sobre direitos civis ou sobre a presidência, mas eu não acho que alguma vez [congressistas] já foram atrás deles [DOJ] por algo que fizeram no exterior, em outro país.

    Isso realmente esclarece para todos que estão olhando que o Departamento de Justiça tinha um papel importante, e um papel político. Estava perseguindo um objetivo da política externa, que era se livrar do governo do Partido dos Trabalhadores. Claro, estou dizendo isso com base nas evidências que existem agora, a maioria circunstancial, mas espero que teremos evidências mais fortes.

    Esse é um dos problemas da mídia aqui, é que eles tem esse padrão. Sempre que os Estados Unidos fazem algo em outro País que é imoral ou ilegal, eles usam o que chamamos de estratégia de cortina de fumaça. Sabe? No sistema judicial, no sistema criminal, nós temos esse padrão que chamamos de evidências “além da dúvida razoável”, ou nos casos civis chamamos de “preponderâncias das evidências”.

    A cortina de fumaça é algo que a mídia só parece usar para coisas que os Estados Unidos fizeram, mesmo sabendo que é obvio para qualquer observador. Mesmo os depoimentos que o Departamento de Justiça, oficialmente, já fez sobre esse caso, [mostram que] havia elementos, havia motivação, havia oportunidade, e eles estavam envolvidos nesse crime de um jeito que estava diretamente voltado para os mesmos fins políticos que seu amigo Moro estava direcionado.

    Por que os Estados Unidos e Departamento de Justiça quiseram se livrar de Lula e seu partido político?

    Toda a operação por parte dos Estados Unidos, toda a operação contra Lula e seu partido político… A propósito, não foi a primeira vez, devo dizer. Em 2006, temos documentos, há um artigo na Folha de S. Paulo sobre isso, mostrando que os Estados Unidos intervieram para tentar enfraquecer o PT naquela época. Eles estavam pressionando por uma legislação que poderia enfraquecer o PT e o governo naquela época. Eles sempre quiseram se livrar desse governo. Por que isso?

    A meta principal na América Latina, desde sempre, foi ter países alinhados completamente, ou pelo menos alinhados à política externa dos Estados Unidos. É com isso que eles mais se preocupam agora. Talvez, 30 anos atrás, eles se preocupassem mais com interesses corporativos. Mas agora, na última década ou duas, a preocupação tem sido a política externa. Eles derrubaram o governo do Haiti duas vezes desde 1991. O que o Haiti tem? Nada. Eles fizeram isso porque as pessoas elegeram alguém que não estava alinhada com a política externa. E é um país pequeno. Pense no Brasil.

    Brasil quis contrariar a política externa dos Estados Unidos, quis negociar com Irã, Turquia, Rússia por um acordo de troca de combustível nuclear, por exemplo, em 2010. Isso, como vimos na mídia, foi como um ponto de virada. E outra coisa que fizeram, obviamente como líder do movimento de independência da América do Sul, do século XXI, ajudaram a estabelecer a Unasur, CELAC, todos esses outros governos de esquerda, na Bolívia, Equador, Venezuela, Uruguai, Paraguai, Honduras, até o governo dos Estados Unidos vetar estes governos.

    Então foi um preço alto [pago pelo Brasil] que sempre esteve presente. Obviamente, é o maior País da região e a maior economia. Eles queriam demolir essa mudança institucional que ocorreu no século XXI e deu à América Latina uma voz independente no cenário mundial. Acho que é disso que eles mais queriam se livrar.

    Mark Weisbrot

    Descrição

    Mark Weisbrot é um economista americano, colunista e co-diretor, com Dean Baker, do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas em Washington. Como comentarista, ele contribui em publicações como o New York Times, o The Guardian e a Folha de S. Paulo. Wikipédia.

     

  • Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia: “o neoliberalismo foi um fracasso”

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    Por Justo Barranco, Carta Maior, 03/03/2020

    O Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz acredita que estamos passando por uma crise tripla: de capitalismo, do clima e de valores. E ele atribui isso à crença em mercados irrestritos, ao neoliberalismo seguido desde o governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos.

    Pouco antes de viajar de Nova York ao Vaticano, para participar de um simpósio sobre economia justa, o ex-economista-chefe do Banco Mundial e consultor econômico de Bill Clinton conversou dias atrás com o La Vanguardia sobre seu novo livro, “Capitalismo progressista para uma era de descontentamento“, no qual ele dispara contra Donald Trump e diz que os EUA está em guerra consigo mesmo, que a classe média mais poderosa do planeta não para de perder poder de compra. E levanta a necessidade de retornar a um capitalismo de prosperidade compartilhada, no qual a política controla a economia e assume que a educação e, portanto, a criatividade e a produtividade dos cidadãos são a base da riqueza de um país.

    – Taxas de juros negativas, manifestações, populismo, crise climática … O que acontece?

    – É o efeito cumulativo de vários fatores, e um é claramente o aumento da desigualdade. A crise financeira criou muita insegurança e a maneira como ela foi resolvida sugere a muitos que o sistema está quebrado. Na Europa, a crise do euro levou ao desencanto com o funcionamento da União Europeia. Há uma sensação de falta de poder diante de problemas muito sérios. E isso é combinado com problemas de desindustrialização em muitos países, de transformação estrutural, com perda de empregos e sistemas inadequados para as pessoas passarem dos empregos antigos para a nova economia.

    – As quatro décadas de revolução neoliberal, desde Reagan, cumpriram o que prometeram?

    – Não, e a evidência é muito sólida de que o crescimento tem sido muito mais lento após o início do reaganismo e thatcherismo que antes. E praticamente todo esse crescimento foi para as pessoas que são mais ricas. Além disso, a crise de 2008 mostrou a instabilidade do sistema. Em todas as dimensões, o neoliberalismo foi um fracasso.

    – Por que falhou?

    – O principal fator é que os mercados desregulados muitas vezes levam à exploração e à ineficiência. Os benefícios são alcançados, mas não produzindo produtos melhores a preços melhores, mas tirando vantagem de outros, como temos visto com os bancos. E há um fenômeno relacionado, que é subestimar a necessidade de ação coletiva. Muitos dos sucessos da pesquisa básica em ciência e tecnologia são financiados pelo governo e, se você cortar seus fundos, diminuirá o crescimento. Vemos isso de maneira extrema nos EUA. agora com Trump propondo cortar um terço no orçamento da ciência. O Congresso não permitiu, mas é visível sua falta de compreensão do que leva ao progresso.

    – Você disse que Trump é como reaganismo, mas com esteroides.

    – (risos) É. Reagan em seu orçamento de 1981 não se preocupou com o déficit fiscal, que foi o início de grandes déficits. Em 1986, ele tentou corrigi-lo, porque estava claro que a redução de impostos não aumentara a renda como ele acreditava. Em vez disso, a irresponsabilidade de Trump em seu corte de impostos em 2017 foi que ele já sabia o que ia acontecer. E se Reagan reduziu os impostos corporativos, Trump fez muito mais. No que Reagan tentou ser razoável, embora errado em seguir a economia do lado da oferta do neoliberalismo, Trump não estava ciente de nenhum limite. Também existem diferenças importantes. O reaganismo, o republicano padrão, acredita no livre mercado. Trump, em protecionismo. E Reagan não tentou a desinformação que parece o centro da política de Trump. É por isso que estou falando sobre esteroides: é pegar todos os princípios do padrão neoliberal, exacerbá-los e adicionar ingredientes muito piores que os republicanos tradicionais.

    – Reagan foi melhor?

    – Com ele, pessoas como Eisenhower parecem santas. Até Reagan parece muito melhor, não tínhamos percebido o quanto as coisas poderiam ficar ruins. Até Nixon criou leis ambientais, como água limpa. Trump nega as mudanças climáticas e tenta piorar o meio ambiente a qualquer custo. Mesmo quando empresas como Ford dizem que poderiam e gostariam de assumir padrões ambientais mais altos, ele diz que não deveriam. É fenomenal. Não sei se houve um caso assim.

    – Mais do que um conservador, ele diz, Trump é um revolucionário.

    – Está derrubando muitas normas básicas da sociedade. O funcionamento da economia e da política baseia-se em regras e convenções como a de que o presidente é civilizado. Baseia-se no funcionamento das leis, separação de poderes, burocracia independente. Ele está minando as instituições que ajudamos a criar durante mais de 200 anos para dar estabilidade à sociedade e dar voz às pessoas e contribuir para a eficiência econômica.

    – Qual é o seu objetivo?

    – Em parte, ele não tem estrutura intelectual e é incapaz de trabalhar com conselheiros: os razoáveis são demitidos ou vão embora. E todo presidente precisa de pessoas com experiência no governo e na execução de projetos produtivos e criativos. Mas ele vem do setor imobiliário, um setor que não é exatamente criativo ou líder, e era conhecido por seu mau comportamento e falências, por tirar proveito de fornecedores e trabalhadores, por ser basicamente desonesto. Ele não é o empresário com quem você negociaria, e é por isso que os bancos dos EUA o rejeitaram e daí seu relacionamento com o Deutsche Bank e com os russos. Ele tem muito pouco entendimento e um narcisismo que dificulta sua orientação. Ninguém esperava que ele fosse melhor do que ele é, mas ele seria controlado pelo partido republicano. Esse foi o grande engodo. Isso o transformou em um partido pelo nativismo populista extremo que divide os americanos. Trump não apenas não entende o que é necessário para fazer a democracia funcionar, nem que a maioria dos líderes tenta criar coesão social. Em vez disso, sua vontade é governar dividindo o país.

    – O impeachment foi justo?

    – Sem dúvida. O impeachment é que o Congresso o acuse de crimes e ofensas graves. Outra questão é sua destituição. Ele deveria ter sido destituído, o que ele fez é inadmissível, mas a mesma liderança republicana que se rendeu a ele disse que não haveria um julgamento justo e decidiu absolvê-lo sem sequer ouvir evidências não disponíveis antes.

    – Os democratas podem derrotá-lo?

    – Ainda é possível. Há ruido nas divisões do Partido Democrata, mas em seus objetivos elas são muito pequenas, existe um grande consenso no controle de armas, nos direitos reprodutivos das mulheres, no salário mínimo, na saúde para todos e na educação. Existem diferenças na melhor maneira de alcançá-las. E, acima de tudo, Trump não cumpriu, é outra mentira. A economia criou menos empregos mensais do que no segundo mandato de Obama. Ele não superou seu rival.

    -Vivemos um crescimento surpreendentemente lento em uma economia tão inovadora. Por que?

    – Tem a ver com desigualdade. Investimos bem abaixo do necessário em pesquisa, educação e infraestrutura, porque aqueles que estão da faixa 1% mais rica não querem um governo que impõe impostos mais altos. E também, quando você redistribui o dinheiro da base para o topo e dá mais dinheiro aos ricos, eles gastam menos de sua renda, o que diminui o crescimento.

    – A classe média se apaixona pelo neoliberalismo ou pela tecnologia?

    – O problema básico é o neoliberalismo, o mercado irrestrito. A falta de uma política adequada contribuiu para moldar a tecnologia. Qualquer um que olhe o desejável em termos de nossos investimentos em P&D (pesquisa e desenvolvimento) diria que precisamos fazer coisas que ajudem contra as mudanças climáticas, não precisamos de inovação que tente criar mais desemprego, como agora.

    – Peça um papel maior do governo. Qual?

    – Precisamos de melhores regulamentações para proteger o meio ambiente e contra a exploração, contra o poder de mercado em uma série de áreas onde [a competição] não funciona. Depois, mais investimento público em educação, infraestrutura e tecnologia. Precisamos mudar as regras da economia, que agora minam os direitos dos trabalhadores, aumentam o poder das corporações, permitem a poluição excessiva e os gerentes extraem muito dinheiro das empresas. Precisamos de mais ação coletiva.

    – A globalização como foi feita foi um erro?

    – Nossos acordos comerciais são feitos principalmente de maneira tendenciosa em favor das corporações e muitos precisam mudar. Por outro lado, há áreas em que são necessários mais acordos, como a tributação das multinacionais. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a globalização ajudou muitos países em desenvolvimento, como China e Índia, embora tenha prejudicado alguns dos mais pobres da África.

    – Que responsabilidade os economistas têm no que aconteceu?

    – Muitos jovens economistas estão convencidos de que o caminho da profissão estava errado, havia muita fé nos mercados, mais baseada na ideologia do que na ciência econômica. É por isso que eles exploram novas áreas, como economia comportamental. Para pessoas que dedicaram 40 anos de vida ao neoliberalismo, é mais difícil mudar.

    – O mercado não será mais rei?

    – Há um desilusão real com os mercados. Como as empresas se comportam: a indústria farmacêutica e a crise dos opioides, a indústria de alimentos e a crise do diabetes infantil, os bancos e a crise financeira. E que o capitalismo não funcionou para uma grande faixa da sociedade, que a expectativa de vida nos EUA caiu, a decepção aumenta. A ideia de que o mercado é rei não é mais verdadeira, principalmente entre os jovens. Eles procuram outra forma de economia. Por isso escrevi este livro.

    *Publicado originalmente em ‘La  Vanguardia‘ | Tradução de César Locatelli

     

  • Do antropocentrismo ao biocentrismo

    Por Rafael Silva Martínez, analista político espanhol, em artigo publicado por Rebelión, 25-02-2020. A tradução é do Cepat para o IHU de 03.03.2020

    “Pode parecer impossível imaginar que uma sociedade tecnologicamente avançada escolha, em essência, destruir-se, mas isso é o que estamos em vias de fazer” (Elizabeth Kolbert)

    “O mundo moderno baseado no capitalismo, na tecnociência, no petróleo e em outros combustíveis fósseis, no individualismo, na competição, na ficção democrática e em uma ideologia de ‘progresso’ e do ‘desenvolvimento’, longe de procriar um mundo em equilíbrio, está levando a espécie humana, os seres vivos e todo o ecossistema global, a um estado caótico” (Víctor Toledo).

    Nossas sociedades atuais estão há décadas, inclusive séculos, em direção a um perigoso e exclusivo antropocentrismo, onde a vida gira em torno do homem. A principal causa disso tem sido a civilização industrial capitalista. E note que não dizemos que gira em torno do ser humano, uma vez que as implicações patriarcais também influenciam muito essa maneira de entender o mundo e a vida e, portanto, as mulheres são marginalizadas nessa visão.

    O homem (e mais especificamente, um certo tipo de homem, ocidental, branco e heterossexual) é o epicentro da vida, e o resto de manifestações da mesma, assim como o resto dos atores que fazem parte dela, ficam relegados a um segundo plano. E assim, modos de produção e consumo, mas também modos e formas de vida, e imaginários econômicos, sociais e culturais, vêm definindo os moldes do funcionamento de nossas sociedades.

    Os dogmas do capitalismo e do neoliberalismo, com seus perigosos valores, não só imbuíram as relações humanas e sociais no fundamentalismo de mercado, que provoca os processos de exploração do ser humano e da natureza, como também conduziram a um absoluto desprezo por todas as outras formas de vida não humanas, ou seja, animais, plantas e o resto de organismos vivos que a Mãe Terra abriga.

    Tudo isso nos conduziu à ampliação do conceito originário sobre o conflito capital-trabalho, que nos deixou Karl Marx, que agora também se manifesta na ordem vida-capital, ou se preferirmos, no conflito capital-planeta. Esse conflito é gerado pela degradação do meio ambiente e dos recursos naturais, cada vez mais ligados à ação do homem.

    O enfoque antropocêntrico (sobre o qual podem ser rastreadas inclusive motivações e origens religiosas) nos conduz inexoravelmente a um abismo civilizatório, suscitado em suas manifestações mais evidentes como um esgotamento de matérias-primas e de fontes de energias fósseis, bem como os terríveis efeitos de um caos climático que ameaça destruir todos os vestígios de vida em menos de algumas décadas, se não formos capazes de nos adaptar a esse colapso.

    E essa adaptação requer, portanto, uma mudança de paradigma civilizatório. Do antropocentrismo característico da civilização industrial capitalista, de caráter monocultural, patriarcal e depredador, temos que conseguir migrar para um paradigma ecocentrista, ou, se preferir, biocentrista, que reside fundamentalmente, como seu nome indica, em colocar a vida no centro. Uma vida (humana e não humana) que deverá ser novamente valorizada e respeitada, para que valha a pena o fato de ser vivida. Onde descansam os fundamentos do biocentrismo? Basicamente, em reconceitualizar os significados de diversos termos que foram apropriados pelo paradigma atual, tais como “progresso”, “desenvolvimento”, “bem-estar” e “riqueza”.

    Sob a visão antropocêntrica, esses conceitos estão absolutamente ligados aos postulados capitalistas, de tal modo que são entendidos unicamente em função do crescimento econômico, medidos por seus próprios indicadores, e que se manifesta em um contínuo crescimento no nível de produção de bens e serviços, ligado ao uso crescente das fontes de materiais e energia que são necessárias para esses processos.

    O crescimento sem fim da produção, bem como o consumo irracional e compulsivo, são os deuses desse tipo de civilização, onde a própria vida é relegada a segundo plano, sacrificada em prol do crescimento perpétuo. As necessidades humanas foram resignadas no altar desses valores, e a “riqueza” e o “bem-estar” são medidos unicamente de maneira material, na dimensão do “ter” ao invés das dimensões de “ser”, “estar” e “fazer”.

    A visão do “progresso”, também intimamente ligada à concepção utilitarista da ciência, mede o avanço de forma linear, de modo que se entende que nossas sociedades progridem se são capazes de produzir cada vez mais elementos para o consumo humano, sem se preocupar com outros indicadores que podem nos dar pistas sobre nosso grau de felicidade, coesão social, igualdade e redistribuição da riqueza gerada.

    A Natureza, sob o paradigma antropocêntrico, é valorizada apenas no sentido de nos proporcionar fontes de energia e materiais, alimentos e sustento para satisfazer às nossas necessidades básicas. Para conseguir tudo isso, a natureza é continuamente espoliada e saqueada, submetida a brutais processos de extrativismo, e as outras formas de vida não humanas são subvalorizadas e seus direitos não são reconhecidos.

    Devemos resinificar, portanto, os conceitos de desenvolvimento, riqueza e bem-estar e, para isso, temos que mudar o paradigma civilizatório. O desenvolvimento deve ser em escala humana, promovendo riqueza e o bem-estar interior e deixando de valorizá-la unicamente como o conjunto de nossos bens materiais. Isso também requer reposicionar as necessidades humanas, renunciando à visão capitalista e consumista.

    O progresso deve renunciar a estar vinculado ao crescimento contínuo, ao contrário, deve ser entendido como a plena realização das necessidades sociais e a valorização de todas as formas de vida. Devemos nos situar sob um prisma que valorize o florescimento da vida, que reconheça em si um valor, independentemente da utilidade para o ser humano.

    A diversidade das formas de vida deve ser entendida como um valor em si mesmo (valor intrínseco) e sua manutenção contribui para preservar tal valor. Nossa relação com a natureza deve ser exclusivamente para atender às nossas necessidades vitais. Mas, para alcançar esse novo paradigma, devemos dar importância a uma nova ética, uma ética ecológica ou uma ética da Terra.

    O paradigma biocêntrico ou ecocêntrico não precisa renunciar ao mercado em si, mas é evidente que os mercados precisam de intervenção e de controle sociais, a partir das comunidades humanas, que devem gerenciá-los democraticamente.

    Devemos conceder a todos os seres vivos um valor inerente, por si mesmos e, portanto, reconhecer os direitos dos animais e da própria natureza é uma consequência lógica dessa visão biocêntrica. Isso também implica passar de uma ética fundada no homem para outra ética ancorada na vida. Tradicionalmente, a ética concentra-se na conduta humana, conferindo ao homem uma série de atributos morais que o tornaram o único ser digno de reconhecimento de um valor intrínseco. Isso ocorre porque essa ética se encontra atravessada por um profundo antroprocentrismo, ligado a um dualismo fundacional, que diferencia o homem do ambiente natural que o rodeia.

    Essa distinção evoluiu para uma localização do homem em um plano de clara superioridade em relação ao mundo natural, seja animado ou inanimado, autorizando o ser humano para sua exploração e aproveitamento. Esse enfoque já não gera nada e necessitamos ir evoluindo para uma ética centrada na vida (humana e não humana), mediante um repensar dos supostos sujeitos morais. Também precisamos abandonar o especismo que nos caracteriza como humanos e começar a considerar o princípio da igual consideração de interesses para todas as espécies que habitam o planeta.

    Da mesma forma, os clássicos valores do capitalismo e do neoliberalismo também devem ser erradicados, para evoluir para valores de interdependência e ecodependência, que nos reconheçam como sujeitos em plena inter-relação com os outros. Temos que entender o verdadeiro desenvolvimento das potencialidades humanas no sentido de uma abertura para a interconexão e identificação que existe entre tudo que é vivo, o que nos permite superar valores como egoísmo e individualismo, para substituí-los pelo ideal de igualdade de todos os organismos, pois o potencial individual não pode ser alcançado isoladamente, mas sob uma conexão com os outros seres.

    A vida deixará de ser entendida, então, como a capacidade de sobrevivência em plena competição com os outros, mas, ao contrário, como a capacidade de coexistir e cooperar.

    Em resumo, precisamos passar da perspectiva antropocêntrica à perspectiva biocêntrica, da banalidade e infinitude das necessidades humanas à sua avaliação, satisfação e garantia, do crescimento material à qualidade de vida, da Natureza como objeto de exploração à Natureza entendida como patrimônio natural e lugar comum de todas as espécies, da conservação utilitarista desse patrimônio à sua preservação ecológica, da sua avaliação instrumental à sua valorização múltipla e intrínseca.

    Necessitamos evoluir do papel humano de consumidores ao papel de cidadãos, de uma visão ensimesmada a uma visão de si mesmo ampliada e integrada ao restante dos seres, do cenário do mercado ao cenário social, do saber científico como conhecimento único e privilegiado a uma valorização de uma pluralidade de conhecimentos e de uma justiça social e ecológica opcionais a uma justiça social e ecológica asseguradas. Esta é, em essência, a visão biocêntrica.

  • NOTA PÚBLICA PELO RESPEITO AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
    Nota assinada por 250 entidades e organizações

    A construção do Estado Democrático de Direito se faz com o fortalecimento da democracia e das instituições democráticas, com a garantia dos direitos humanos, com o enfrentamento das desigualdades e com a participação popular com liberdade de expressão e de organização. Todas as instituições e todos/as os/as cidadãos e cidadãs estão convocados/as a se comprometer e a se engajar na promoção e defesa desses valores, de modo permanente.

    Inaceitável que o Presidente da República promova ações que ataquem estes pilares, replicando convocações de manifestações públicas contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Uma atitude que ataca frontalmente os princípios constitucionais por afrontar o inciso II, artigo 85, da Constituição Federal, que diz: “São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, co ntra: II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação”.

    Ataques à democracia e à estabilidade social vindas da maior autoridade do país não podem ser minimizadas como sendo de “cunho pessoal”. Urge que as instituições democráticas reajam com veemência a este tipo de atitude e promovam a responsabilização constitucional. Também confiamos que as organizações populares da sociedade civil se engajem na formação de uma ampla frente de luta conjunta para defender a democracia e a liberdade, o Estado Democrático de Direito e a garantia da realização de todos os direitos humanos para todos/as os/as brasileiros/as.

    Brasília, 27 de fevereiro de 2020.

    #PorDemocraciaeDireitos

    Assinam:
    Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil – AMDH Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH Processo de Articulação e Diálogo – PAD Fórum Ecumênico ACT Brasil – FEACT Brasil Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais – ABONG Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB União Brasileira de Mulheres – UBM Liga Brasileira de Lésbicas – LBL Articulação Brasileira de Gays – ARTGAY Associação Juízes para a Democracia Plataforma DHESCA Brasil Plataforma MROSC Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – FBOMS Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – FBSSAN Rede de ONGs da Mata Atlântica Rede de Cooperação Amazônica – RCA Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil – CONCRAB Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ Coalizão Negra por Direitos Associação Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes – ANCED Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários – Unisol Brasil Fórum Nacional dos Direitos de Crianças e Adolescentes – Fórum DCA Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC Associação Brasileira de Saúde Mental – ABRASME Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST Movimento de Atingidos por Barragens – MAB Movimento de Mulheres Camponesas – MMC Comissão Pastoral da Terra – CPT Conselho Indigenista Missionário – CIMI Cáritas Brasileira Fundação Luterana de Diaconia – FLD Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia Aonectas Direitos Humanos FIAN Brasil Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço Coordenadoria Ecumênica de Serviços – CESE Criola Geledés Educafro UNEAfro Rede de Religiões Afro-brasilieras e Saúde – RENAFRO Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos – IDDH Instituto Vladimir Herzog Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares – GAJOP Centro de Assessoria Multiprofissional – CAMP Ação Educativa, Assessoria, Pesquisa e Informação Artigo 19 Articulação Comboniana de Direitos Humanos Ação da Cidadania do Maranhão Ação da Cidadania São Paulo Articulação do Semiárido do Maranhão – ASA/MA Associação Circo Belô/ Belo Horizonte/MG Associação Comunitária de Desenvolvimento Econômico, Agrícola, Sócio-Cultural e Educativo – ACADE/PI Associação das Costureiras do Dirceu II – PI Associação de Apoio a Criança e ao Adolescente – AMENCAR Associação de Apoio Social e Ambiental da Bahia – APMS Associação de Ex Conselheiras e Conselheiros do RJ Associação de saúde da Periferia – ASP Associação de Servidores da Educação Básica do Estado do Piauí Associação de Terapia Ocupacional de São Paulo – ATEOESP Associação dos Produtores de Artesanato de Teresina – ASPROARTE Associação Internacional Mayle Sara Kali – AMSK/Brasil Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes – APACC Associação Paulista de Saúde Pública Casa da Mulher Trabalhadora – CAMTRA Casa de Cultura CCIAO – João Pessoa/PB CDES Direitos Humanos Centro Burnier Fé e Justiça – MT Centro de Apoio a Projetos de Ação Comunitária – CEAPAC Centro de Apoio aos Direitos Humanos Valdício Barbosa dos Santos Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia – CAPA/FLD Centro de Cultura Negra do Maranhão – CCNM Centro de Defesa da Cidadania e dos Direitos Humanos Marçal de Souza Tupã i – MS Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza – CE Centro de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes – CEDECA Renascer Centro de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes da Bahia – CEDECA/BA Centro de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes do Rio de Janeiro – CEDECA/RJ Centro de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes Ermínia Circosta – Itaim Paulista/SP Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular do ACRE – CDDHEP Centro de Defesa dos Direitos Humanos Helda Regina Centro de Defesa dos Direitos Humanos Heróis do Jenipapo Centro de Defesa dos Direitos Humanos Teresinha Silva Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá Centro de Direitos Humanos “Valdício Barbosa dos Santos” Centro de Direitos Humanos de Barreirinhas – MA Centro de Direitos Humanos de Joinville – SC Centro de Direitos Humanos de Londrina – PR Centro de Direitos Humanos de Palmas – CDHP Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennes – CDHDMB/MT Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo – CDHEP Centro de Direitos Humanos e Memória Popular – CDHPM/RN Centro de Direitos Humanos Nenzinha Machado Centro de Educação e Cultura Popular – CECUP Centro de Estudos de Saúde Coletiva do ABC – CESCO Centro de Estudos e Ação Social – CEAS Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – CEDEMPA Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos – CEPDH/Caxias do Sul Centro de Integração Sócio cultural Aprendiz do Futuro – CISAF Centro de Promoção da Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Pe. Josimo Centro de Referência Integral do Adolescente da Bahia – CRIA Centro de Solidariedade da Criança e do Adolescente – CSCA/Ananindeua/PA Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social – CENDHEC/PE Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileiro – CENARAB Círculo Operário Leopoldense – COL Coletivo de Artesãs do Piauí – CAPI Coletivo Desencuca – GO Coletivo Feminino Plural Coletivo Feminista GSEX Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo – CDHPF Comissão de Mobilização Docente – CMD/UFG/GO Comissão Pró-Índio de São Paulo Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos no Piauí Comitê Estadual de Enfrentamento a Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes do Amazonas Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes Comitês Islâmicos de Solidariedade – CIS Congresso Nacional Afro-Brasiliero – CNAB Conselho de Missão entre Povos Indígenas – COMIN/FLD Conselho Regional de Psicologia do Pará e do Amapá – CRP10 Fórum das Mulheres da Amazônia Paraense – FMAP Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Bahia – Fórum DCA/BA Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Paraíba – Fórum DCA/PB Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Roraima – Fórum DCA/RR Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo – Fórum DCA/SP Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Amazonas – Fórum DCA/AM Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Maranhão – Fórum DCA/MA Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Pará – Fórum DCA/PA Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Pernambuco – Fórum DCA/PE Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Piauí – Fórum DCA/PI Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Tocantins – Fórum DCA/TO Fórum de Direitos Humanos do Piauí Fórum de Direitos Humanos e da Terra – MT Fórum de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes de Minas Gerais – FEVCAMG Fórum de Gênero e Masculinidades do Grande ABC Fórum de Mulheres do Mercosul Seção Lages – SC Fórum Permanente de Cultura – GO Frente de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente de Minas Gerais Manuel Munoz Frente Estadual da Luta Antimanicomial – FEASP Frente Inter-Religiosa do ABC Fundação Grupo Esquel Brasil Fundação Instituto Nereu Ramos – Lages/SC Fundação Movimento Ecológico do Piauí – FUMEPI Grupo Ambientalista da Bahia – Gambá Grupo Gayvota Grupo Guará: Grupo Unificado de Apoio a Diversidade Sexual de Parnaíba – PI Grupo LGBT GEE – GO Grupo pela Livre Expressão Sexual Ilê Omolu Oxum Instituto Abaré – Fomento a Autogestão Popular de Santo André Instituto Braços – SE Instituto Brasil Central – IBRACE Instituto Dakini Instituto de Acesso à Justiça – IAJ Instituto de Apoio ao Desenvolvimento Ambiental – IDEAH Instituto de Direitos Humanos Econômicos, sociais, culturais e ambientais – IDHESCA Instituto de Pesquisas e Formação Indígena – Iepé Instituto IDHES Instituto Mira-Serra Instituto Samara Sena – ISENA Instituto Sócio Ambiental da Bahia – IDESAB Instituto Soma Brasil – PB Instituto Travessias Instituto Universidade Popular – UNIPOP IROHIN – Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro Brasileira Meu voto será Feminista Movimento de Defesa dos Direitos dos Moradores em Núcleos Habitacionais – MDDF/Santo André-SP Movimento Nacional da População de Rua – MA Movimento Nacional de Direitos Humanos – Articulação Piauí Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH/SC ONG Sã Consciência Organização de Direitos Humanos Projeto Legal – RJ Plataforma Mrosc – Bahia Proame Cedeca Bertholdo Weber Programa Socieducativo para homens autores de violência doméstica “e agora José” Projeto Meninos e Meninas de Rua – SP Rede de Mulheres Negras da Amazônia Rede de Mulheres Negras de Alagoas Rede Feminista de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos Rede Jirau de Agroecologia Serviço de Assessoria as Organizações Populares Rurais – SASOP Serviço de Paz – SERPAZ Sindicato dos Psicólogos de São Paulo Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – SMDH Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH Themis – Gênero Justiça e Direitos Humanos Torcida Esquadrão Andreense – Santo André-SP União de Mulheres de São Paulo União de Negras e Negros pela Igualdade – UNEGRO/MA União por Moradia Popular – MA Unidade e Cooperação para o Desenvolvimento dos Povos – UCODEP

    Foto: https://www.zonacurva.com.br/o-grito-da-passeata-dos-cem-mil-contra-a-ditadura-militar/

  • DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS
    Nota Pública da Comissão Brasileira Justiça e Paz

    Um sistema político-econômico, para seu desenvolvimento saudável, necessita garantir que a democracia não seja somente nominal, mas sim que possa se ver moldada em ações concretas que velem pela dignidade de todos os seus habitantes sob a lógica do bem-comum, em um chamado à solidariedade e uma opção preferencial pelos pobres (cf. ‘Laudato Sì’, 158).

    A Comissão Brasileira Justiça e Paz inicia nova gestão, com a renovação de seus membros pela CNBB, e o faz com a reunião de seu colegiado por três dias de intensos e fraternos debates e estudos, que culminaram com a presença do presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte.

    Deparamo-nos com um quadro nacional de graves ataques aos direitos humanos e à dignidade da pessoa, que se expressa em uma preocupante trajetória do governo rumo ao autoritarismo e ao desrespeito às normas constitucionais, e se manifesta em um processo de elevação da pobreza, do reaparecimento da fome e da miséria, mas também no aumento do feminicídio, de assassinatos de lideranças populares no campo e nas cidades, da iminência de um processo de etnocídio e genocídio de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, fruto da cobiça humana e do incentivo governamental à ocupação das terras indígenas para a mineração, a agricultura e a pecuária voltadas à exportação.

    É uma conjuntura que preocupa os cristãos de todo o planeta em comunhão com as pessoas de boa vontade que habitam nossa Casa Comum, ameaçada por um sistema econômico que, sob o signo da morte, compromete a vida na Terra. Nós nos unimos ao Papa Francisco em sua caminhada profética em defesa da Amazônia, dos pobres e desesperançados, respondendo a seu chamado de unir forças para garantir a vida de mulheres e homens que precisam receber os frutos do desenvolvimento humano integral, numa perspectiva do Bem Viver.

    O Brasil está em uma encruzilhada que ameaça a democracia, a soberania e a vida. Enfrentar essa situação, com dignidade e amor ao próximo, é dever de todas as pessoas.

    “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que dá o trabalho!” (Papa Francisco).

    Brasília, 19 de fevereiro de 2020

    Secretaria Executiva Comissão Brasileira Justiça e Paz

  • Dez pontos para se entender a conjuntura do Brasil

     

    Esse texto se propõe a indicar elementos para uma análise de conjuntura desses tempos obscuros que estamos vivendo. São chaves de leitura preliminares. Como tais, não serão desenvolvidas aqui.

    1) O que se passa atualmente no Brasil não é um caso isolado. Coisas semelhantes ocorreram em outras partes do mundo. O que aconteceu nas eleições presidenciais de 2018 por aqui com o uso da tecnopolítica – disseminação de “fake news”, transmissão automática de mensagens – já havia ocorrido de forma semelhante no Reino Unido (Brexit), na Argentina (eleição de 2015 – vitória de Maurício Macri) e nos EUA (eleição de Donald Trump).

    2) Da mesma forma, governos de viés autoritário, baseados na intolerância e no ódio à diferença/pluralidade cultural se estabeleceram em várias partes do mundo ao longo desta década. E em lugares muito diferentes entre si, tais como as Filipinas (Duterte), Índia (Modi), Turquia (Erdogan), Hungria (Orban), Polônia (Morawiecki) Reino Unido (Boris Johnson), EUA (Trump), Brasil (Bolsonaro). Além destes, estiveram até recentemente  presentes no governo italiano (Salvini). São lideranças de extrema-direita, ultraconservadores e que chegaram ao poder ou se aliaram com governos democraticamente eleitos. A “implosão lenta” das instituições democráticas é, portanto, um fenômeno que não se restringe ao Brasil.

    3) As descobertas relacionadas ao petróleo do Pré-Sal, os recursos naturais de que dispomos e a inserção brasileira na geopolítica internacional na década passada trouxeram o país para o centro de uma disputa entre os EUA (potência em declínio) e a China (potência emergente) coligada com a Rússia. Além de nossas contradições internas, a ascensão da extrema-direita no Brasil nos últimos anos também é efeito da chamada Guerra de 4ª Geração. Principalmente porque os governos de esquerda buscaram um alinhamento internacional com um grupo de nações que ficaram conhecidas como BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

    4) Bolsonaro é um autoritário proto-fascista. Não é neoliberal nem anarcocapitalista como seu ministro Paulo Guedes. Seus atos presidenciais são marcados pela desonestidade intelectual, pelo grotesco e pela bizarrice. É notório seu despreparo para o cargo, mas sua estratégia política tem sido extremamente eficiente em anular as esquerdas e em manter um contingente não muito elevado (mas aguerrido) de apoiadores, sobretudo nas redes digitais.

    5) A democracia para ele é uma questão de conveniência.  Enquanto o sistema eleitoral servir aos seus interesses, ele se sujeitará a disputar as eleições. Se ele for derrotado sob qualquer circunstância, contra qualquer candidato, ele não entregará o poder pacificamente. Em 2018, ele já tinha um discurso pronto (a tese da fraude das urnas eletrônicas) para justificar uma eventual derrota e contestar um resultado que lhe fosse adverso. Agora que ocupa a cadeira presidencial, que argumentos terá ao seu dispor para se negar a deixar o poder?

    6) Enquanto Bolsonaro for bem-sucedido em manipular as eleições através das “fake news”, de mensagens enviadas pelas redes digitais e por aplicativos de comunicação, as eleições continuarão a acontecer. Mas isso não significa que continuamos numa democracia. Na ditadura havia eleições…

    7) O grupo que hoje está no poder formou um “consórcio do ódio” para vencer as eleições. A base de apoio bolsonarista, apesar das fissuras recentes, continua forte, embora sem coordenação. É formada por segmentos da grande propriedade agrária (agronegócio), por segmentos religiosos fundamentalistas seja no campo evangélico (setores intelectuais presbiterianos, evangelismo norteamericano e pastores neopentecostais), seja por extremistas católicos que fazem oposição ao próprio Papa (catolibãs). O Presidente ainda conta com apoio de frações do grande capital, sobretudo dentre os grandes rentistas. Ao mesmo tempo, o governo sublocou sua agenda econômica ao Congresso Nacional. O presidente da Câmara se comporta como um primeiro-ministro não declarado em temas de economia e nas finanças, como se estivéssemos em um “parlamentarismo branco”. O setor financeiro agradece e lucra como nunca.

    8) A grande imprensa se divide entre o apoio quase incondicional e a oposição à agenda moral do governo. Se a mídia capitalista não o apoia totalmente, tem muita responsabilidade pelo atual estado de coisas. TV, rádio e jornais deram grande contribuição à polarização política, pois ajudaram a incendiar o país, criando um ambiente social que permitiu a ascensão do bolsonarismo ao poder, sepultando quaisquer vestígios da chamada Nova República.

    9) O “Messias” busca constituir um aparato político-militar que o sustente indefinidamente no poder. Para tanto, está cada vez mais cercado de militares, terceirizando setores do governo aos quartéis para, caso descarte o processo eleitoral, ter um dispositivo militar para governar o país sem eleições, com poderes absolutos. Por isso, há tantos militares ocupando postos-chaves no Poder Executivo. Os oficiais-generais que estão no governo compartilham ou da mesma visão de mundo de Bolsonaro ou da aversão que ele tem às esquerdas e aos movimentos sociais. Mas esse é o eixo institucional do aparato de poder bolsonarista. Existe outro, oculto.

    10) Diferente de outros governos conservadores, o consórcio que está hoje no Planalto tem conexões não explicadas com o pior do banditismo nacional e da criminalidade mais abjeta. No campo e na cidade, grupos paraestatais se veem autorizados para impor o terror e à violência a seus opositores (indígenas, negros, feministas, movimentos sociais, comunidade LGBT, moradores das periferias, intelectuais, servidores públicos, professores e jornalistas investigativos) e por exercer formas de dominação autônomas face aos poderes constituídos. Os autores das queimadas da Amazônia, as milícias no Rio e em outras partes (talvez na Bahia e no Ceará?), e grupos armados (jagunços), patrocinados pela grande propriedade agrária, estariam de alguma forma em simbiose com os atuais donos do poder central?

    Será esse o eixo oculto do dispositivo ditatorial que está em curso no Brasil? Não há como afirmar. Queimas de arquivo recentes talvez tenham sido eficientes em encobrir a verdade dos fatos. E podem ocultar da sociedade brasileira ligações que tornariam evidentes o que hoje parecem ser apenas indícios.

    OBS: Agradeço a Ivo Lesbaupin e a Névio Fiorin a leitura preliminar e as sugestões ao texto.

    * Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor da Educação Básica. Católico, participa do Movimento Fé e Política.

  • “É assassino quem tira a vida dos pobres” (Eclesiástico 34, 25)
    Mensagem dos Frades Dominicanos no Brasil

    Hoje no Brasil, os Direitos Humanos vêm sendo violados, não como exceção, mas como rotina. Povos indígenas são ameaçados em seus direitos e seus territórios: várias lideranças indígenas foram assassinadas nos últimos meses, como os guajajaras Paulo, Firmino e Raimundo, no Maranhão. A Amazônia sofre violência, queimadas e devastação por mineradoras, garimpeiros, madeireiros e latifundiários. Neste chão, hoje entregue à ganância dos poderosos, posseiros e sem-terra, lideranças populares e defensores de direitos são equiparados a delinquentes e vilipendiados por um Estado que abriu mão de suas responsabilidades na efetivação das reformas agrária e urbana, e de políticas sociais inclusivas.

    Enquanto isso, permanecem impunes ecocídios mortíferos como em Mariana e Brumadinho, a reforma trabalhista estanca as possibilidades de se exigir condições dignas de trabalho, ao desarticular a legislação e dificultar o acesso à Justiça. Abre-se cada vez mais espaço para o trabalho precarizado, o desemprego e subemprego, e até a tolerância para o trabalho escravo. Movidos por nefasta ideologia ultraliberal, os poderes públicos se omitem, entregando os indefesos à sua sorte e deixando os poderosos aos seus lucros. A cada minuto quatro mulheres em nosso país são agredidas. A esperança de vida para transexuais no Brasil não ultrapassa 35 anos. Mais de 100 mil pessoas vivem ao relento, pois se encontram em situação de rua. Metade da população brasileira não dispõe de saneamento, sendo exposta a muitas enfermidades, enquanto o sistema público de saúde se encontra sucateado. Crianças, jovens, adultos são mortos por balas “perdidas”.

    Embora mais da metade da população brasileira seja formada por negros e pardos, fazendo de nosso país a segunda nação com maior contingente de negros do mundo, aqui esses nossos irmãos e irmãs – mais de 130 anos após a abolição da escravatura –, sofrem preconceitos e discriminações em dose dupla: por serem negros e pobres. São muitas as pessoas caídas à beira da estrada. Como na parábola do “bom samaritano” (Lc 10, 30-37), cada um de nós é desafiado a abrir o olho e tomar atitudes. Nós mesmos, como reagimos? Com aquela indiferença denunciada pelo Papa Francisco? Ou com aquela agressividade – para não dizer ódio – de quem destrata Direitos Humanos como “coisa de bandido”? Estaríamos dispostos a interromper a nossa rotina, desviar nosso caminho e nos colocarmos a serviço das vítimas de tantas injustiças? Afinal, a quem pretendemos “salvar”: a nós mesmos ou àqueles e àquelas que têm sido violentados, despejados, e assassinados, muitas vezes a mando ou com a anuência do Estado e do poder econômico, seu aliado?

    O compromisso com a defesa da vida e da promoção dos Direitos Humanos é prioridade para nós Frades Dominicanos no Brasil, consoante com nossas  Constituições e as decisões dos nossos Capítulos, e coerente com o exemplo do padroeiro que identifica nossa Província: Frei Bartolomeu de las Casas. Como ele, levamos a sério essa advertência bíblica: “Quem tira a vida dos pobres é assassino. Mata o próximo quem lhe tira seus meios de vida, e derrama sangue quem priva o operário de seu salário”. (Eclo 34, 21-22)

    Discípulos de Jesus, a exemplo dos discípulos de Emaús, não queremos nos deixar abater e não pretendemos caminhar sozinhos. Daqui, de nossa Assembleia anual, impelidos pela urgência frente a tantas violações do direito, da dignidade e da justiça, lançamos um apelo a todas as pessoas de boa vontade: é hora de assumir destemidamente nosso compromisso com a defesa intransigente da vida, da diversidade e do planeta, nossa Casa Comum. Discípulos de um profeta assassinado, porém ressuscitado, proclamamos nossa fé na promessa de uma terra sem males e reafirmamos nosso compromisso de colocar nossa vida religiosa consagrada a serviço do Reino por Ele inaugurado.

     

    Frades Dominicanos do Brasil

    Assembleia Anual

    São Paulo, 31 de janeiro de 2020.

     

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  • Frei Sérgio Görgen: A Petrobras está dentro de nossas casas

    Esta empresa é uma de nossas maiores façanhas como Povo Brasileiro. Muitos lutaram por ela.

    04/02/2020

    O ônibus que nos leva até a rodoviária, até o bairro ou até o centro da cidade é movido a diesel, com petróleo extraído do fundo do mar, pela Petrobrás e seus trabalhadores, com tecnologia de exploração em águas profundas desenvolvida por engenheiros e cientistas desta nossa amada nação.

    Nossos carros e motos se movem com gasolina, da mesma fonte e da mesma empresa. Assim nossos tratores, caminhões e colheitadeiras. Produzem e transportam o alimento e as bebidas que estão todos os dias em nossas mesas.

    Cozinhamos e aquecemos água – para o café, o chá, o chimarrão – com gás de cozinha originado na forma gasosa de co-produto proveniente da extração do petróleo. Assim também fertilizantes nitrogenados e uma gama enorme de produtos originários da petroquímica estão presentes em nosso quotidiano.  Muito mais do que imaginamos, de plásticos, estofados a chinelos de dedos.

    Em tudo isto, a Petrobrás presente.

    Esta empresa é uma de nossas maiores façanhas como Povo Brasileiro. Muitos lutaram por ela. Muitos desacreditavam de suas possibilidades. Getúlio Vargas assumiu a decisão política de cria-la no bojo de um fantástico movimento popular chamado “O Petróleo é Nosso”.

    O mesmo Getúlio criou a Fábrica Nacional de Motores e a Companhia Brasileira de Tratores. Mas Juscelino Kubitscheck, em troca de multinacionais automobilísticas e de máquinas agrícolas, rifou a indústria e a tecnologia nacional. O militares nacionalistas – já existiu este tipo de seres em nosso país – não aceitaram entregar a fabricação de aviões e a Embraer sobreviveu como empresa nacional até dias atrás.

    E assim a FNM e a CBT foram extintas e os motores de nossos ônibus, carros, motos, tratores, colheitadeiras, caminhões são todos produzidos por multinacionais e o lucro vai para fora. E vivemos o paradoxo de um povo que desenvolveu ciência para explorar petróleo em águas profundas e construir aviões, mas não sabe fazer uma motocicleta, um carro, …… Não que não sabe, é que houve uma decisão política que entregou isto a outros e matou o que era nosso. Matou a ciência, o saber, a indústria.

    Agora as multinacionais querem também a Petrobrás e todo o nosso Petróleo.

    O processo está em andamento, por isto o preço dos combustíveis e do gás já está dolarizado e sobe conforme a moeda americana. As refinarias da Petrobrás produzem 70% de sua capacidade e nós exportamos óleo cru e importamos diesel. Petrobrás produz adubos nitrogenados. Fecharam a fábrica e passaremos a importar encarecendo ainda mais os custos de produção agrícola, que vai encarecer o alimento.

    Os trabalhadores da Petrobras, os heroicos Petroleiros, estão na linha de frente para resistir e não deixar que este descalabro aconteça.

    Fosse por mim, não queria a Ford, a Mercedes, a GM, a John Deere ganhando dinheiro nas nossas costas e levando o lucro para fora enquanto nosso povo passa necessidade. Mais dia, menos dia, um projeto nacional começará a reverter esta desnacionalização reconstruindo uma nação livre, justa e soberana.

    Precisamos a Petrobras nacional e pública dentro de nossas casas, em nosso quotidiano, industrializando o país e gerando emprego, vendendo combustível em reais e não em dólares. Dispensamos a Esso, a Shell, e outras que tais, sugando nosso suor, nosso sangue e levando nossas riquezas.

    Até para a grande transição ecológica que as mudanças climáticas nos obrigarão a fazer, diminuindo paulatinamente a petrodependência em nossa economia, em nossa agricultura e em nossa sociedade, será mais fácil e mais viável com uma Petrobrás nacional e pública.

    Viva a resistência petroleira. Todo o apoio à greve dos petroleiros. Somos todos petroleiros.

    Frei Sérgio Antônio Görgen ofm. – Frade Franciscano, Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores.

    https://jornalggn.com.br/artigos/a-petrobras-esta-dentro-de-nossas-casas-por-frei-sergio-antonio-gorgen-ofm/

  • DOM, COMPROMISSO E PLURALIDADE: PELO DIREITO DE SER NO CATOLICISMO

    DOM, COMPROMISSO E PLURALIDADE: PELO DIREITO DE SER NO CATOLICISMO

    Por Jorge Alexandre Alves*

    O surgimento de grupos ultraconservadores no catolicismo tem chamado a atenção mais pelo barulho que fazem do que pela quantidade de membros que possuem. Com considerável aporte financeiro, têm sido relativamente eficazes em disseminar sua ideologia religiosa, assumindo para a si a missão de “recristianizar a Igreja”, nas palavras de Thais Oliveira. Contudo, é no ambiente líquido das redes sociais onde seu alcance é maior.

    Nas últimas eleições, o extremismo católico surfou na onda do conservadorismo de extrema-direita que colocou Jair Bolsonaro no Planalto e vários similares do gênero nos governos estaduais. Os catolibãs também elegeram representantes para o parlamento federal e nos legislativos estaduais também. Assim, seu discurso hoje está amplificado e potencializado pelo momento político vivido no país. Por isso, se por um lado são pouco numerosos, por outro não podemos desconsiderar o alcance de sua “catequese”.

    No contexto do catolicismo, suas falas e proposições vão na contramão do magistério do Papa Francisco. Alguns de forma velada e outros abertamente criticam o Bispo de Roma. E assim, constituem a linha de frente da resistência às reformas que Bergoglio vem tentando promover na Igreja.

    Com certa frequência, atacam a CNBB e sua direção, acusando-os dos mais variados disparates (comunistas, lenientes com a defesa da fé ou mesmo hereges). Não obstante o ataque à conferência episcopal, alguns prelados apoiam abertamente tais grupos. Os extremistas leigos acabam fazendo o “jogo sujo” contra o Papa que muitos eclesiásticos não têm coragem de fazer abertamente.

    Dessa forma, em algumas (arqui) dioceses muito conservadoras esses grupos tem feito ecoar com mais força sua mensagem intolerante. Há uma certa cultura católica em implementação por esses grupos. Aqui reside o problema, porque tal modus operandi tem se caracterizado pelo fundamentalismo religioso, permeado por um discurso de ódio a tudo o que tais grupos consideram contrários a fé cristã católica.

    O extremismo católico direciona seus ataques fundamentalmente sobre qualquer pessoa, grupo, movimento ou expressão que possa ter vinculação à Teologia da Libertação. Mesmo que isso esteja bem longe da verdade, como aconteceu em 20/11/2019, em celebração pelo Dia Nacional da Consciência Negra, numa paróquia a poucos metros da sede do arcebispado do Rio de Janeiro. Os catolibãs consideram essa teologia (e toda pastoral que se produziu a partir dela) a origem de todos os males do catolicismo contemporâneo brasileiro.

    Esses grupos se entendem como verdadeiros “cruzados” do Novo Milênio, a caça de hereges em nome sã doutrina da Igreja. Travestidos de paladinos da tradição, destilam ameaças, difamações e perseguições a quem eles consideram responsáveis de, através da TdL, corromper a Igreja, infiltrando na esposa de Cristo o marxismo cultural, a ameaça a família e a subversão dos valores da cristandade. Agem com enorme violência simbólica, com doses cavalares de agressividade virtual através da internet, nas redes digitais.

    É nesse contexto explosivo que a Campanha da Fraternidade nos interpela com a temática da compaixão, do cuidado e da solidariedade. E faz uma significativa reflexão sobre o papel da vida como dom e compromisso cristão, trazendo uma poderosa imagem: a do Bom Samaritano. Cabe perguntar como podem grupos que se dizem defensores da fé da mais genuína Tradição ignorarem a mensagem contida nessa narrativa do Evangelho?

    Nove parágrafos do Texto-base (134-142) da CF-2020 desenvolvem a máxima “Cuidar é ter mais ternura na vida”. O parágrafo 135 afirma que “se Deus é ternura infinita, também o ser humano é capaz de ternura”. Sendo assim, onde está a ternura daqueles que, em nome da fé, espalham ódio e intolerância internet afora? Mais à frente, o parágrafo 137 começa afirmando que “não é possível falar de cuidado sem falar de ternura”. Que cuidado é esse dos catolibãs para com o próximo que se baseia na mentira, no ataque e na violência?

    Decerto que a ênfase da Campanha está relacionada ao cuidado com os pobres, os excluídos, aqueles sofrem nas periferias existenciais do mundo de hoje. Estes uma grave exigência à Igreja e aos seguidores de Jesus de Nazaré: que se coloque em saída, muito mais como hospital de campanha. Nesse contexto, a Eucaristia deve ser muito mais consolo e remédio do que prêmio para os bons, como nos ensina o Papa.

    Logo, fazendo jus ao significado mais profundo do termo católico, a Igreja deveria ser uma campeã do diálogo e da escuta, da construção de pontes. Consequentemente, todo católico deveria também recusar os muros da intolerância e do fechamento em si mesmos. Como defender a fé, anunciar a Boa-Nova e seguir ao Cristo indo na contramão desses princípios?

    As questões anteriormente suscitadas por uma breve reflexão sobre a CF-2020 já vêm sendo feitas há algum tempo. O extremismo dos catolibãs causa espanto e indignação em muitos grupos, dentro e fora da Igreja. Por vezes, ao manifestar publicamente seu escândalo com os fundamentalistas, pessoas e grupos também são criticados como incapazes de dialogar.

    Evidentemente, é fato que precisamos ser assertivos e abertos o suficiente para compreender as razões de tanta gente ter adotado uma narrativa baseada no ódio, sobretudo no campo da política. Mas no contexto religioso cristão-católico, o que fazer quando se é alvo e sua forma de crer é acusada de forma desonesta e vil? Neste caso, não se trata mais de uma limitação nas tentativas de estabelecer uma espécie de diálogo “intraecumênico”.

    Muitas vezes, debatendo sobre a questão do fundamentalismo, se interpela os adeptos da Teologia da Libertação com uma crítica bastante séria. Ao se escandalizarem publicamente com o tradicionalismo impregnado de ódio dos extremistas, estariam colaborando mais para o aprofundamento da divisão na Igreja do que para a pacificação dos espíritos. É uma crítica contundente, sem dúvida.

    No entanto, o problema é de outra natureza. E muito mais grave atualmente, uma vez que o diálogo somente é possível quando existe predisposição para a conversa. A raiz do problema se encontra nessa questão.

    Portanto, como estabelecer pontes com quem lhe vê como inimigo da Igreja e da fé? Com quem lhe nega a sua condição básica e fundamental de batizado? Com quem não reconhece que você tem o direito inalienável de escolher como ser cristão, e que podem haver outros modos legítimos de viver a fé?

    A acusação feita aos que se identificam com a Teologia da Libertação resvala em certo discurso presente nos ambientes paroquiais da arquidiocese do Rio de Janeiro em meados dos anos 1990. Naquele tempo havia tensões no campo pastoral entre várias tendências católicas, como o modo pentecostal-carismático de ser Igreja, os “movimentos de encontro” e os defensores de uma pastoral libertadora. Dizia-se que os carismáticos tinham a espiritualidade e o pessoal da TdL tinha o engajamento social. Muita gente afirmava buscar a síntese dos dois. E talvez seja possível ainda hoje encontrar gente reproduzindo esse discurso e angariando aplausos. Ledo engano.

    Só pode afirmar que não há espiritualidade na Teologia da Libertação quem desconhece o Ofício Divino das Comunidades ou a experiência fecunda de Penha Carpanedo e de tantas pessoas na Rede Celebra no campo da liturgia. Quem nunca ouviu com atenção as canções de Zé Vicente ou ignora a mística Hélder Câmara ou de Marcelo Barros.  E desconhece a potência criativa que usa a arte como expressão de fé do Ateliê 15 ou do Movimento dos Artistas da caminhada – MARCA.

    Precisa ser pouco informado ou desonesto para dizer que a TdL é vazia de Deus. Só pode ser coisa de quem nunca celebrou com a PJ ou nunca foi a um encontro de Ceb’s. Ou desmerece a experiência da leitura orante da Bíblia e nem nunca participou de um encontro ecumênico de formação pastoral, como foi o Curso do Rio ou é ainda o Curso de Verão em São Paulo.

    Mais do que tudo isso, negar a existência de uma íntima relação com o Deus de Jesus Cristo na Teologia da Libertação é solenemente ignorar a profunda fé do povo das comunidades. De gente que, contra toda adversidade desses tempos obscuros, continua a caminhar depositando suas esperanças no Senhor e no Reino de Deus. Quem afirma a ausência do sagrado na Teologia da Libertação despreza a fé simples do Povo de Deus.

    Portanto, longe de ser uma atitude fechada, o que se aponta é o elevado grau de fundamentalismo de certos grupos, a pressuposição de que um determinado modo de ser e de viver a fé é o único possível. Ou seja, aqueles que não vivem dessa forma devem ser ou “convertidos” à força ou suprimidos, cortados ou mesmo eliminados da comunidade eclesial.

    Mas também não podemos negar que se pensa a Igreja a partir de outras bases, de uma outra eclesiologia. Consequentemente, se constata um modelo de Igreja fracassou retumbantemente em sua missão de cristianizar o mundo contemporâneo. A renúncia de Bento XVI é a maior evidência disso. Por isso também existem objeções e questionamentos em relação a grupos que, para além de sua intolerância, desejam o resgate de um modo tridentino de viver o catolicismo, totalmente anacrônico.

    Entretanto, diálogo pressupõe escuta mútua e predisposição para se colocar como igual, olhando nos olhos e acolhendo as diferenças. Certamente isso não seria problema para quem se vincula à Teologia da Libertação. Todavia, ninguém quer ser agredido, atacado e violentado em suas crenças.

    Assim, o que parece é que certos grupos pentecostais católicos ou tradicionalistas estão tão convencidos de seu catolicismo embriagado de triunfalismo, são tão senhores da verdade que se recusam em reconhecer aqueles ligados à TdL como irmãos na fé.  Para os catolibãs, estes são como a lepra, hereges perigosíssimos. Como dialogar nesse clima?

    A única coisa que os fundamentalistas parecem desejar é a eliminação de qualquer um que se declare simpatizante da Teologia da Libertação como sujeitos eclesiais (alguns parecem até que, se pudessem, os queimariam numa fogueira tal qual se fazia nos autos de fé da Inquisição) ou a à capitulação diante do que se acredita ser o seguimento de Jesus. Com efeito, não parecem muito dispostos a quaisquer formas de diálogo. Tampouco querem debater teologia ou perspectivas eclesiológicas.

    Esses cristãos se veem numa batalha messiânica.  Por isso estão numa disputa permanente com quem não comunga de seus princípios. E aí entramos nós, que somos os alvos desse combate. Esse embate não foi por nós provocado e não ocorre em bases racionais.

    Ao mesmo tempo, é necessário não se deixar intimidar pelo ódio e pelo extremismo do catolibãs. Precisamos reafirmar o direito á diferença no catolicismo. Aliás, o termo católico significa universal. Em 2000 mil anos de cristianismo, essa universalidade nunca foi sinônimo de uniformidade.

    Não podemos ser ingênuos a ponto de crer que a pluralidade será facilmente aceita pelos intolerantes, como efeito de uma sensibilização dos espíritos ou por uma ação milagrosa de natureza divina. Esses grupos não estão abertos a esse caminho de conversão (metanoia). Tampouco serão convencidos através de argumentos racionais.

    A disputa se dá no plano simbólico, na subjetividade e nas narrativas.  Por isso, será muito difícil construir qualquer ponte com essa gente. Se eles nos reconhecem como interlocutores, eles deixam de ser quem são. Ora, só há existência para eles se eles tiverem um inimigo da fé, uma ameaça à cristandade a ser combatida.

    Para os catolibãs, apenas faz sentido defender a fé nessas bases.  Eles precisam de inimigos para manterem sua própria identidade. Por isso, a necessidade de alvos. Contra inimigos não há ternura, nem cuidado, nem humanidade. Só resta o ódio. Como lidar com isso?

    * Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor da Educação Básica e participa do Movimento Fé e Política.

    REFERÊNCIA:

    OLIVEIRA, Thais Reis. Os católicos ultraconservadores que querem “recristianizar” o Brasil. Disponível em: https://vermelho.org.br/2020/01/20/os-catolicos-ultraconservadores-que-querem-recristianizar-o-brasil/ Acesso em: 29/01/2020

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