
Imagem gerada por Inteligência Artificial (Gemini)
Por Jorge Alexandre Alves*
Traduzindo os fatos:
O ataque militar realizado pelos Estados Unidos em solo venezuelano no último sábado, culminando com o rapto do presidente Nicolás Maduro, inaugura um novo momento nas relações internacionais. A ordem mundial estabelecida após a II Guerra Mundial acabou. O que se testemunhamos na Venezuela é a concretização material das novas diretrizes americanas para a América Latina e Caribe, chamada por Donald Trump de “Doutrina Donroe, onde “D” do termo é uma autorreferência do presidente norte-americano.
Na verdade se trata da ressurreição da Doutrina Monroe em sua versão 2.0: a América para os [norte]americanos. A Marreta de Trump golpeou com força simultaneamente certa ordem global baseadas em regras multilaterais, o direito internacional e a autonomia do países latinoamericanos em relação aos EUA. A maior independência dos países da região em relação aos norte-americanos, experimentada desde começo do século XXI, se explica parcialmente por alguns fatores.
A relativa retração de arroubos imperialistas (pelo menos de forma escancarada) pelas potências ocidentais, potencializada pela luta contra o terror a partir dos ataques de onze de setembro de 2002 é um deles. A formidável expansão econômica e tecnológica da China, que se tornou o principal parceiro comercial na região, superando os Estados Unidos é outro elemento importante nesta equação.
O terceiro elemento foi a onda progressista que tomou conta da América Latina duas décadas atrás, com a eleição de lideranças de esquerda em vários países da região. Dentre eles, a Venezuela, com sua Revolução Bolivariana, foi a nação latinoamericana que mais desafiou o império americano. Não foi por acaso que a “Pátria de Bolívar” se tornou alvo direto dos EUA.
Mas a hedionda ação militar na capital venezuelana não pode ser explicada apenas por uma suposta tentativa estadunidense de voltar a exercer hegemonia política na região. Ao reeditarem a Doutrina Monroe, é óbvio que os americanos desejam tornar novamente o controle da América Latina e o Caribe.
Consequentemente, são motivações econômicas que estão por detrás do ataque contra esta nação sul-americana. Pela lógica do Tio Sam, é o que importa neste momento. Na Venezuela estão as maiores reservas de petróleo do mundo, sem falar em outras riquezas minerais, como ouro, ferro, alumínio e o acesso ao bioma amazônico Nisso reside o principal interesse americano.
Ocorre que a Venezuela se tornou o país latinoamericano que mais se aproximou de países historicamente rivais dos EUA. Através de sua empresa estatal de Petróleo, a PDVSA, boa parte do petróleo do país é vendido para China, Rússia e Irã. Sem falar nas relações com Cuba, para quem as remessas de recursos materiais e econômicos venezuelanos para a ilha caribenha colaboram decisivamente para que a situação atual do povo cubano não seja ainda mais grave, diante da crise econômica que enfrentam.
Mudar o governo sediado Caracas por outro mais simpático aos norte-americanos significa não apenas subordinar um país rico em recursos naturais, mas acessar recursos naturais fundamentais para atravancar o declínio derradeiro do império americano. Do ponto de vista interno, acessar o petróleo venezuelano significa reduzir a inflação americana causada pelo preço interno dos combustíveis.
Um governo venezuelano alinhado aos interesses norteamericanos retiraria a ajuda material a Cuba. Nos EUA, o atual Secretário de Estado, Marco Rubio, descende de uma família cubana de elite exilada na Flórida após a Revolução de 1959. Atingir do governo cubano traria grandes dividendos políticos a um potencial candidato à sucessão de Trump.
Neoimperialismo: Um breve rearranjo internacional
Ao aplicar um golpe de força contra a Venezuela, com as autoridades americanas dizendo com assustadora franqueza suas motivações para tanto, os Estados Unidos procuram estabelecer uma espécie de neoimperialismo. Políticas imperialistas nunca foram interrompidas de fato. Entretanto, Após 1945 o imperialismo das potências ocidentais se travestiam de defesa da democracia, combate a tirania e ao comunismo, ou pelas chamadas razões de Estado.
Agora, os norteamericanos mandaram às favas quaisquer subterfúgios para legitimar suas ações. Trump e a extrema-direita estadunidense não precisam mais legitimar suas ações diante da opinião pública internacional. Por isso, não escondem seus reais interesses. É um perigoso esperneio do império diante de mudanças globais que parece ser cada vez mais inevitáveis.
Para retardar, ao menos, a perda definitiva da supremacia global do Atlântico Norte, os americanos começaram a dar sua maior cartada em Caracas. Apesar da decadência de sua hegemonia, os EUA ainda há espaço nova ordem mundial que lhes favoreça. Nesta nova configuração internacional, Washington tenta reestabelecer uma versão século XXI da Conferência de Ialta, que deu as bases iniciais para a correlação de forças que se consolidou após a II Guerra Mundial, com a criação da ONU e os acordos financeiros de Bretton Woods.
Novamente, os Estados Unidos tentam impor uma ordem a qual os “global players” terão zonas de influência. O poderio militar russo e o desenvolvimento tecnológico chinês são irreversíveis, os americanos sabem disso. A Rússia pode não ter as pretensões globais da China, mas não é um país qualquer. Com a China, a disputa não é apenas militar. Com o novo sistema de pagamentos desenvolvidos por chineses e russos, é possível desdolarizar o comércio internacional, com efeitos severos nas contas publicas dos EUA.
Por isso, a ação americana na Venezuela é um esperneio. A nova configuração global desejada pelos EUA terá curta duração. O perigo é que se trata de uma potência decadente, cujos dirigentes serão capazes de tudo para resistir a mundo multipolar que cada vez mais sem impõe nesta quadra histórica. O grande risco para a América Latina e o Caribe reside exatamente nisso. Os americanos, em nome dos seus interesses, farão o que tiverem que ser feito. Mesmo que isso custe a ruína de sociedades inteiras e morte de milhares de pessoas. Gaza pode ter sido uma amostra grátis do que pode ocorrer no “quintal” do Tio Sam.
Para se contrapor à China, os americanos precisam ter um espaço vital (América Latina e Caribe) no mundo, rico em recursos naturais ao alcance de suas mãos. Necessitam de minerais usados na alta tecnologia (as chamadas terras raras) para terem alguma alternativa diante do poderio chinês na produção de processadores digitais e de semicondutores. Também precisam impedir a conclusão da transição energética em escala global. A manutenção de algum poder do império norteamericano passa pela manutenção da matriz energética baseada em combustíveis fósseis e da imposição do uso de petróleo e gás aos seus aliados.
Não podemos descartar algum tipo de acordo entre americanos, chineses e russos a respeito de um rearranjo internacional dessa natureza. Seria uma antessala para um inevitável confronto direto por acontecer neste século? Isso lembra as sucessivas concessões feitas a Hitler pelas potências ocidentais nos anos 1930. Se o tempo comprovar essa hipótese, a situação da América Latina é ainda mais crítica.
Nessa lógica, da mesma forma que a OTAN incluirá a Ucrânia, ninguém socorrerá Caracas, desde que, por hora, as remessas de petróleo da Venezuela para Rússia e China não sejam interrompidas. Não foi por acaso que as instalações petrolíferas da PDVSA (a Petrobras deles) não foram atingidas pela ação das tropas de elite norteamericanas. Resta a China resolver submeter sua província rebelde, Taiwan. Qual será a reação dos EUA quando isso correr? Após o sequestro de Maduro, os americanos perderam sua narrativa na defesa das liberdades e da soberania nacional no extremo-oriente.
A ação em Caracas deu aos americanos uma vitória tática neste momento. Na perspectiva dos Estados Unidos, a perda de Taiwan talvez seja o preço a ser pago para garantir momentaneamente sua hegemonia na América Latina e Caribe. Talvez isso explique o fato de, apesar das condenações da Rússia e da China, elas serem meramente protocolares. Pode não ter sido por acaso a visita de um emissário chinês a Nicolás Maduro, poucos dias antes de seu sequestro pelos militares americanos.
A Venezuela e suas contradições:
Conhecer a fundo a conjuntura política venezuelana não é tarefa das mais simples no Brasil. Após Hugo Chaves não ter renovado a concessão de televisão da maior empresa de comunicação local (a RCTV) em 2007, que participou ativamente de um golpe de estado contra o então mandatário, saber o que de fato acontece na Terra de Bolívar se tornou ainda mais complicado.
A mídia corporativa brasileira, historicamente conservadora, nunca foi simpática a governos minimamente progressistas. Basta recordarmos o que aconteceu aqui em 1964. Após as reformas que lá fizeram no sistema de concessões na comunicação, isso apenas piorou. Chaves e seu sucessor, Maduro, são odiados pelos donos da Grande Mídia brasileira e por muitos de seus jornalistas. Não por acaso, sempre se referiram aos dois como ditadores. Por outro lado, a Revolução Bolivariana também tem suas contradições, como ocorre em todos os processos políticos.
Contudo, vale dizer que o petróleo é a principal riqueza venezuelana desde os anos 50 do século XX, quando as primeiras reservas do chamado “Ouro Negro” são descobertas. Nessa época, a América Latina, era varrida por uma onda de golpes militares e pela interferência dos EUA em governos legítimos, como aconteceu na Guatemala.
No entanto, a Venezuela manteve uma estabilidade política invejável durante todo o século passado, com suas instituições jurídico-políticas aparentemente funcionando e eleições regulares sem contestações. Era um país muito longe de ser visto como uma típica “República de Bananas” latinoamericana ou caribenha do período.
A indústria do petróleo tornou a Venezuela um país rico em termos de PIB. A renda per capita venezuelana foi disparadamente a maior da América Latina. Mas o que poderia ter levado o país a ser um campeão de bem-estar social na região o tornou um dos mais desiguais do continente. As favelas em suas principais cidades não são em nada diferentes das brasileiras ou das “villas misérias” argentinas.
Ou seja, o petróleo, ao invés de ser bênção e prosperidade, foi sendo convertido em desgraça e pobreza. Vinte anos antes da chegada do bolivarianismo ao poder – ainda nos ano 1970 – o Estado Venezuelano nacionalizou a exploração de petróleo com sua estatal, a PDVSA, removendo as empresa petrolíferas norteamericanas do país. Ainda eram tempos de Guerra Fria e os EUA usavam a narrativa da defesa dos direitos humanos como estratégia de combate aos soviéticos.
Como a maioria dos petróleo refinado pela Venezuela ia para a América do Norte, e o Oriente Médio vivia tempos de enorme instabilidade, os americanos resolveram não agir diretamente contra a Venezuela. Afinal, ainda era um aliado, onde as esquerdas não tinha relevância política e o país era uma democracia liberal. Intervir nesse contexto não pegaria bem.
O vice-presidente americano, J. D. Vance tentou justificar a ação militar em Caracas. Para um dos possíveis sucessores de Donald Trump, com o sequestro de Maduro, os americanos iriam compensar as perdas que tiveram causadas pelo petróleo roubado (sic!) das empresas americanas. Ora, quando a Venezuela nacionalizou a exploração de petróleo, Chaves e muito menos Maduro sonhavam em chegar ao poder.
No final do século XX, Hugo Chaves vence as eleições, pouco tempo depois de liderar uma tentativa de golpe de estado. É um período de fortalecimento dos movimentos sociais locais e de reinvindicações populares. A estabilidade política do século XX não se traduziu em igualdade e prosperidade para o povo venezuelano.
A população havia se cansado da democracia liberal. Por isso, colocaram no poder um coronel nacionalista, representante de uma nova geração de militares. Com um programa de nacionalizações e amplas reformas sociais, Chaves, que já havia tido certo apoio das organizações populares de viés progressista, tem enorme prestígio popular.
Trata-se de um raríssimo caso de tentativa de implementação do Socialismo que ocorre a partir de um processo eleitoral. Embora a plataforma eleitoral fosse mais nacionalista, os novos dirigentes venezuelanos chamaram suas políticas de Socialismo do Século XXI, e sua implementação se tornou a Revolução Bolivariana.
Em entrevista recente a Breno Altman, a ex-presidente Dilma Roussef afirmou, em tom crítico, que o bolivarianismo se organizou primeiro a partir do Exército da Venezuela. De fato, os militares se tornaram atores políticos relevantes, com presença em áreas civis, inclusive na PDVSA e na indústria local de petróleo e gás.
Alguns aspectos da condução de governo venezuelano já eram discutíveis nos primeiros anos dessa nova configuração política. Vinte anos atrás, Hugo Chaves poderia ser visto emissora estatal, a TeleSur, em uma mesa numa praça atendendo a telefonemas da população em um programa de rádio. Nesse programa, ouvintes reclamavam de suas carências e o então presidente dava ordens a ministros e assessores a fim de atender as demandas apresentadas. Não se faz política pública séria por rádio, da mesma forma que, trocando radicalmente o acento ideológico, não se faz política com lives, como presenciamos aqui.
Com Maduro, a gestão econômica piorou as condições de vida média da população, neutralizando avanços em saúde e educação. Críticas feitas por aliados da Revolução Bolivariana foram tratadas como se tivessem vindo da extrema-direita e fossem uma traição ao país. Nesses aspectos, o chavismo por vezes mais lembrava o mais o caudilhismo político latino-americano do século XX do que uma experiência socialista clássica.
Ainda assim, nos primeiros anos da Revolução Bolivariana reverteram um gigantesco déficit habitacional, garantindo moradia digna para quase dez milhões de famílias. Com o chavismo, a pobreza foi reduzida de 70% para menos de dez por cento da população. Todavia, a dependência da Venezuela em relação ao petróleo se acentuou.
Em mais de 1/4 de século, não se desenvolveu outros segmentos da atividade produtiva e a escassez de gêneros primários é enorme. Para além dos avanços em saúde e educação, as experiências do Socialismo real, por mais que se critiquem aspectos ideológicos, se notabilizaram por garantir a população algum grau de soberania alimentar, coisa que não podemos afirmar no caso da Venezuela. Vinte e cinco anos é tempo suficiente para que uma nação fosse capaz de reduzir a dependência do país a um só recurso natural. O bolivarianismo deixou uma lacuna na gestão econômica.
Ao mesmo tempo, a escassez de insumos básicos e o estado de insegurança alimentar de boa parte da população venezuelano se deve ao papel odioso das burguesia local. Trata-se de uma elite econômica que, obviamente insatisfeita com os rumos populares do bolivarianismo, faz a Faria Lima parecer um bando de escoteiros.
Uma das formas da burguesia local de se opor ao governo foi causar uma enorme crise de escassez de produtos do cotidiano, como papel higiênico e sabonete. Para efeito de comparação, o Vietnã, por exemplo, saiu devastado de uma guerra sangrenta há 50 anos. Mas seus dirigentes foram perspicazes em reconstruir o país, e seu povo hoje vive muito melhor do que vivia nos anos 1970.
Todavia, nem os EUA e nem uma outra potência podem se arvorar a fazer o papel de polícia do mundo. O direito internacional não poderia ser violado dessa forma. As Forças Armadas de um país não podem sequestrar um chefe de estado de uma outra nação soberana.
Se Maduro era ou não um ditador e como isso se resolverá é um problema que somente o povo Venezuela pode resolver. É o básico do princípio da autodeterminação dos povos. Nessa perspectiva, os EUA sequestraram um presidente constituído (se as eleições foram ou não limpas é uma outra questão) de um país soberano.
Quando lemos os relatos sobre a ação criminosa das FFAA americanas, é muito estranho que um Exército dito tão preparado e forte quanto o venezuelano não tenha mobilizado seus recursos diante de uma invasão ao seu território. Trump está ameaçando a Venezuela e seu presidente há meses e as forças militares não tinham um plano de defesa nacional, tampouco um protocolo de emergência em caso de invasão?
Tudo parece estranho e ao mesmo tempo, incerto. Sobretudo quando a presidente interino da Venezuela, Delcy Rodríguez, em uma guinada, dá declarações propondo atuar em cooperação com os Estados Unidos.
Os impactos sobre o Brasil:
O que aconteceu em Caracas no último final de semana carrega uma gravidade ímpar. É a primeira vez na história que há uma intervenção militar direta em território sulamericano. O recado dado às forças progressistas latino-americanas é claro. Além disso, a ação dos EUA fortalece a extrema direita na região, quando teremos eleições presidenciais no Brasil, no Peru e na Colômbia.
Diferente da Venezuela, a economia brasileira é muito mais complexa e diversificada. Uma operação militar norteamericana contra uma autoridade brasileira que represente ameaça aos interesses ianques seria muito difícil. Somos membros fundadores dos Brics, o que obrigaria outros gigantes, como China, Rússia e Índia a agirem concretamente em caso de uma agressão em solo pátrio.
O Brasil é uma potência regional, um ataque ao território brasileiro similar ao que aconteceu na Venezuela seria improvável. No máximo, seria um último recurso dos americanos. O nosso país tem dimensões continentais. Soma-se a isso o fato da capital brasileira ficar no coração do interior, muito distante de nossas fronteiras e do litoral.
Tal configuração constitui um grande obstáculo para ações como a que os americanos deflagraram em Caracas. Uma agressão dessa magnitude exigiria de uma força estrangeira percorrer mais de 2000 Km dentro do território nacional. Somente com apoio ou omissão de forças internas seria possível o sequestro de um mandatário no Brasil, estando o Chefe de Estado na capital federal.
Portanto, a estratégia americana para subjugar a sociedade brasileira passa pelo chamado “Soft Power”. Trata-se de aprofundar a influência ideológica no país através da grande mídia, da indústria cultural, como aliás sempre foi feito desde que Walt Disney criou o Zé Carioca e Carmem Miranda virou a Brazilian Bombshell, dentro da estratégia da “política da boa vizinhança” quando o nazifascismo assolava o mundo há 90 anos.
Neste quadrante da história, onde a boa vizinhança deixou de ser política diplomática, os interesses norteamericanos no Brasil e em outros países do continente ocorrerá com muita agressividade, mas ataques militares não estão na ordem do dia. Desinformação, disputas culturais, instrumentalização da religião e mecanismos de guerra híbrida serão as armas do nem tão “Soft Power” assim. E evidentemente, muito dinheiro nas mãos da extrema-direita.
O objetivo consiste em vencer a guerra cultural. Mas o que poderiam fazer se isso não funcionar? Em 2027, caso a extrema-direita não volte ao poder, saberemos…
* Jorge Alexandre Alves é Sociólogo, Professor do IFRJ e integra o Movimento Fé e Política no RJ.



