Artigo

  • O Planeta também necessita de uma UTI

    O IHU traduziu e publicou importante artigo que indica que os sinais vitais do planeta se aproximam dos pontos de não retorno. É o que indica um novo estudo que alerta que a crise climática se acentua, sem que haja ações suficientes. Segue o artigo:

    Sinais vitais do planeta: A ciência pede “mudanças transformadoras do sistema”

    A reportagem é de Eduardo Robaina, publicada por La Marea-Climática, 29-07-2021. A tradução é do Cepat para o IHU de 30 Julho 2021.

    Ano 2019. A humanidade vive alheia às máscaras, distância física, toques de recolher e álcool em gel. Naquele momento, a COVID-19 ainda não havia desestabilizado o mundo e os olhos da comunidade científica estavam sobre uma grande crise que não era nova, mas que começava a receber uma atenção como nunca antes: a climática.

    A gravidade era tamanha (e ainda é) que uma coalizão de mais de 11.000 cientistas, de 153 países, assinou um artigo em que declaravam uma emergência climática (com o acréscimo de quase 3.000 a mais, posteriormente), ao mesmo tempo em que estabeleciam um conjunto de sinais vitais para a Terra com a finalidade de medir a ação climática efetiva. Desde então, passaram-se 20 meses, com uma pandemia no meio que ainda continua. Em que ponto está o planeta e, por conseguinte, os seres que o habitam?

    Um novo estudo revisado por pares e publicado nesta semana na revista científica BioScience conclui, para surpresa de (quase) ninguém, que tudo segue igual em relação à ação climática, enquanto a emergência climática é ainda mais evidente. O trabalho, liderado por uma equipe de pesquisa da Universidade do Estado do Oregan, constata que não foram tomadas as medidas necessárias para enfrentar a crise climática, sendo que esta, a cada dia, dá demonstrações de sua capacidade de destruição e de piorar a vida das pessoas, sobretudo a das mais vulneráveis.

    Dois anos após aquele artigo no qual se declarava a emergência climática, “houve um aumento sem precedentes dos desastres relacionados ao clima, incluindo inundações devastadoras na América do Sul e no sudeste da Ásia, ondas de calor e incêndios florestais que bateram recordes na Austrália e no oeste dos Estados Unidos, uma extraordinária temporada de furacões no Atlântico e ciclones devastadores na África, no sul da Ásia e no Pacífico ocidental”, destaca o estudo.

    Além disso, os autores alertam que “há cada vez mais provas de que estamos nos aproximando ou já cruzamos pontos de inflexão associados a partes críticas do sistema terrestre, como as camadas de gelo da Antártida Ocidental e Groenlândia, os recifes de coral de águas quentes e a mata amazônica”. Basta rever as imagens devastadoras do mês de julho para constatar esta realidade apontada pela comunidade científica.

    Uma situação insustentável

    “Os fenômenos e padrões climáticos extremos que presenciamos nos últimos anos – para não falar das últimas semanas – manifestam a necessária e grande urgência em abordar a crise climática”, afirma o doutor Philip Duffy, coautor do relatório e diretor executivo do Centro de Pesquisa Climática Woodwell. Em seu estudo, foram pesquisadas as mudanças recentes nos sinais vitais planetários desde a publicação do artigo anterior que declarava a emergência climática. Das 31 variáveis analisadas, os autores descobriram que 18 estão em novos mínimos ou máximos históricos.

    Em referência aos gases do efeito estufa – responsáveis pelo aquecimento que impulsiona a mudança climática -, os três mais importantes – o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso – chegaram a novos recordes de concentrações atmosféricas até este momento do ano, tanto em 2020 como em 2021. Em abril deste ano, a concentração de CO2 atingiu 416 partes por milhão (ppm), a maior concentração média mensal mundial, jamais registrada. O nível seguro, segundo a ciência, gira em torno de 350 ppm.

    Essas altas concentrações fizeram com que 2020 fosse o ano mais quente na Espanha e na Europa desde que há registros, ao passo que o nível mundial empata com 2016. Além disso, os cinco anos mais quentes, já registrados, ocorreram a partir de 2015.

    Outro dos sinais vitais cruciais destacados pelos autores é o fato de que a superfície total queimada nos Estados Unidos aumentou em 2020, alcançando os 4,1 milhões de hectares, a segunda maior quantidade já registrada. Atualmente, o país norte-americano acumula ao menos 86 incêndios florestais em sua parte oeste.

    Também preocupam, e muito, as taxas de perda anual de matas na Amazônia brasileira, que aumentaram tanto em 2019 como em 2020, alcançando 1,11 milhão de hectares desmatados, a maior nos últimos 12 anos. Este aumento, segundo os pesquisadores, deve-se provavelmente ao enfraquecimento na aplicação da lei sobre o desmatamento, o que desencadeou um forte aumento na utilização ilegal de terras para a pecuária e a soja. “A degradação das matas devido a incêndios, seca, corte e fragmentação fez com que esta região atue como fonte de carbono em vez de sumidouro”, aponta o estudo.

    Mesma situação de alarme com as camadas de gelo da Groenlândia e a Antártida. Ambas continuam com sua precipitada perda de massa, enquanto a extensão do gelo marinho do Ártico segue diminuindo até atingir mínimos históricos a cada verão. As geleiras estão derretendo muito mais rápido do que se acreditava, perdendo 31% a mais de neve e gelo por ano do que há apenas 15 anos.

    Em relação aos oceanos, a acidificação de suas águas está próxima do recorde. Junto com o estresse térmico, ameaça os recifes de coral dos quais mais de 500 milhões de pessoas dependem para obter alimentos, além de ser um grande recurso para o turismo e de oferecer proteção contra tempestades.

    O artigo também menciona que, “pela primeira vez, o número de ruminantes (uma importante fonte de gases do efeito estufa) no mundo ultrapassou os 4 bilhões”, o que representa uma massa muito maior “que a de todos os humanos e mamíferos selvagens juntos”. Um dado que contrasta, segundo o documento, com o fato de que a produção recente de carne per capita diminuiu em aproximadamente 5,7% (2,9 quilos por pessoa), entre 2018 e 2020.

    “As futuras quedas no consumo e a produção de carne provavelmente não ocorrerão até que haja uma mudança generalizada para dietas baseadas em plantas ou que aumente o uso de análogos (substitutos) da carne, cujas popularidade está crescendo e se prevê que alcancem um valor de 3,5 bilhões de dólares em todo o mundo até 2026”, citam os autores.

    Apesar dos indicadores ruins, o estudo tenta lançar algo de esperança. Por exemplo, comemora que houve um forte aumento no desinvestimento em combustíveis fósseis: os subsídios foram reduzidos para um mínimo histórico de 181 bilhões de dólares em 2020, uma queda de 42% em relação aos níveis de 2019.

    O que fazer diante da emergência

    Em resposta a essas descobertas sem precedentes e à atual crise climática, o estudo pede que os combustíveis fósseis sejam progressivamente eliminados, que sejam criadas reservas climáticas estratégicas para o armazenamento de carbono e a proteção da biodiversidade e que se fixe um preço mundial do carbono suficientemente alto para induzir à “descarbonização” em todo o espectro industrial e de consumo.

    “Temos que mudar rapidamente a maneira como estamos fazendo as coisas, e as novas políticas climáticas deveriam fazer parte dos planos de recuperação da COVID-19, sempre que possível. É hora de nos unirmos como comunidades global, em um sentido compartilhado de cooperação, urgência e equidade”, pede William Ripple, principal autor do estudo e reconhecido professor de ecologia da Universidade do Estado do Oregan.

    O artigo insiste em que uma das principais lições surgidas do coronavírus é que nem sequer uma diminuição colossal do transporte e o consumo é o suficiente e que, ao contrário, “são necessárias mudanças transformadoras do sistema, que devem estar acima da política”. “Considerando os impactos que estão sendo observados no planeta, com um aquecimento de aproximadamente 1,25 grau, junto com os inúmeros processos de retroalimentação que se reforçam e os possíveis pontos de inflexão, é necessário urgentemente uma ação climática em grande escala”, lê-se no estudo, onde denunciam que, em 5 de março de 2021, “só 17% de tais fundos [pós-COVID-19] haviam sido destinados para uma recuperação ecológica”.

    E encerram lançando um apelo pela igualdade e a importância da educação: “Toda ação climática transformadora deve se centrar na justiça social para todos, dando prioridade às necessidades humanas básicas e reduzindo a desigualdade”. Nesse sentido, “como requisito prévio a esta ação, a educação sobre a mudança climática deveria ser incluída nos planos de estudo das escolas do mundo todo. Em geral, isto traria uma maior conscientização sobre a emergência climática, ao mesmo tempo em que capacitaria os alunos para passar à ação”.

     

  • Roberto Malvezzi (Gogó)
     Quando a paróquia vira um inferno!

    Padre Lino Allegri

    Um dos demônios alimentados pelos fundamentalistas religiosos é que nos países comunistas não há liberdade religiosa. Lá seriam proibidas missas, celebrações, procissões, assim por diante. Aqui, no Brasil, muito pelo contrário, a liberdade religiosa é total e completa.
    Talvez, se fôssemos perguntar aos terreiros de candomblé e outras expressões religiosas de origem africana, eles nos diriam que nem sempre têm liberdade religiosa. Antigamente a Igreja Católica se sentia no direito de perseguir os cultos afros no Brasil, até pichados como coisas do demônio. Na verdade, foi um comunista chamado Jorge Amado que introduziu na Constituição Brasileira de 1946 a liberdade religiosa para os cultos afros. Hoje, muitos pastores e igrejas evangélicas se sentem no direito de perseguir os cultos afros.
    O mesmo com os povos indígenas. Como me dizia um jovem indígena num dos preparativos do Sínodo para a Amazônia: “o pastor vai lá na tribo, a gente o acolhe bem, ele diz que nossa religião é coisa do demônio. A gente escuta, quando ele vai embora, a gente faz os nossos ritos”.
    Mas, alguma coisa de pior está acontecendo. A Paróquia da Paz, em Fortaleza, está sendo invadida por “católicos” durante as celebrações, que se sentem no direito de berrar, atacar o padre, criar confusão e divisão durante a própria celebração da Eucaristia. Não são os perseguidores dos cultos afros e nem dos índios, são católicos, os que se julgam verdadeiros intérpretes do Evangelho e da doutrina da Igreja Católica. Não são comunistas, muito ao contrário, são militares, defensores da pátria, da família, dos “Deus acima de todos”, inclusive da liberdade religiosa. Enfim, são os bolsonaristas, os fascistas de estilo brasileiro.
    Assim será se permitirmos que se instale no Brasil uma ditadura religiosa, uma teocracia, sempre a pior de todas as ditaduras, porque feitas em nome de Deus, ou o tal do “cristofascismo”. Sei lá o que quer dizer “terrivelmente evangélico”, ou “terrivelmente católico”, o certo é que que estas pessoas se sentem no direito de infernizar a vida dos outros, de ofender o Papa Francisco, ofender padres, bispos e leigos que tem um mínimo de fidelidade ao Evangelho. Enfim, querem impor suas ideias religiosas ao resto do país na estupidez e brutalidade.
    Ou esse país acorda, ou até nossas paróquias e comunidades vão se tornar um inferno.
    Toda solidariedade aos padres Lino, Ermanno e Luís Sartorel, italianos no Brasil, nossos amigos desde a década de 80, que saíram do conforto do primeiro mundo para estar a serviço dos setores mais descartados da sociedade brasileira.

    P.S. Apoiadores de Bolsonaro hostilizam padre que fez críticas ao presidente

    Após manifestar posição contrária ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante missa celebrada neste domingo, 4, o padre Lino Allegri, 82, da Paróquia da Paz, em Fortaleza, foi hostilizado por um grupo de fiéis apoiadores do atual presidente. Insatisfeitas com as declarações do sacerdote — que durante a homilia criticou as mais de 500 mil mortes por Covid-19 no Brasil —, cerca de oito pessoas entraram sem autorização na sacristia e o repreenderam pela sua fala. O fato ocorreu minutos após a celebração da missa, quando a maioria dos fiéis já havia deixado o local.

  • Roberto Malvezzi –
    O que o período Bolsonaro pode nos ensinar?

    Reprodução – Latuff para Brasil de Fato

    O que o período Bolsonaro pode nos ensinar?

    Roberto Malvezzi (Gogó)

    Em primeiro, um alerta aos ingênuos e mal-intencionados: quem muito fala de corrupção pode ser tão ou mais corrupto que aqueles que denuncia. Falamos de corrupção no sentido amplo, “cor ruptum”, coração rompido. Prestem atenção em Moro, Dallagnol e Bolsonaro.

    Segundo, a pior das democracias sempre é melhor que qualquer ditadura. Se a ilusão com as ditaduras for derrotada nesse momento, será um grande saldo positivo dessa tragédia.

    Terceiro, boa parte dos militares que foi ao poder logo mostrou toda sua ganância por propinas e corrupção. Que se acabe de uma vez por todas o mito que militar é sinônimo de incorruptibilidade. Bolsonaro é o ícone maior dessa ilusão.

    Quarto, todas as vezes que os militares saíram de sua tarefa constitucional e foram para a política, foi uma tragédia nacional. Dessa vez não foi diferente. No poder político, muitos se mostraram eticamente falhos, politicamente comprometidos com ditaduras, e tecnicamente uma lástima, como é o caso do especialista em logística. Quem sabe dessa vez os militares aprendam que não têm que se meter em política.

    Quinto, a elite só é contra a corrupção dos pobres, não contra a própria. Em outras palavras, a corrupção também é propriedade privada das elites. Aqueles que querem mudar esse país também devem aprender essa lição.

    Sexto, a destruição do Estado Brasileiro é, na verdade, um ataque aos bens comuns, é a destruição de uma legislação que garante direitos básicos à população e a proteção do ambiente. A elite nunca erra seu voto e sempre promove a luta de sua classe, sempre protege seus interesses, por mais mesquinhos e nefastos que sejam.

    Sétimo, dessa vez não conseguiram corromper e cooptar todas as instituições brasileiras de peso. A Lava-Jato mexeu nos brios do Supremo, alguns que pediram ditadura e tortura foram presos, espalhadores de fake News andam bem menos aguerridos. Como já se dizia antes, fascista só é corajoso enquanto está protegido. Depois, todos são covardes.

    Oitavo, a religião pode ser manipulada para qualquer lado. Esses pastores, padres, bispos, leigos, defensores da família, dos bons costumes, da pátria, são o exemplo da religião cooptada e servil aos interesses dos poderosos e de seus chefes. A crítica das religiões como ópio do povo deve ser retomada, aprofundada e popularizada. Louvemos todos os setores eclesiais que ajudaram a fazer essa resistência positiva contra o pior governo de nossa história.

    Nono, estamos sendo salvos pelas vacinas. Infelizmente, famílias como a minha, mais de 500 mil, perderam seus entes queridos para o Covid19, graças a uma campanha sistemática de descredibilização das vacinas, da ciência e a corrupção na compra das vacinas. Os fundamentalistas, tanto os religiosos como os do mercado, têm que ser combatidos permanentemente.

    Décimo, enfim, estamos do lado certo da história. Com todos aqueles que resistiram a essa tragédia, sairemos desse pesadelo mais pobres, mais machucados, mais mortos, porém, com a consciência limpa que não temos as mãos mergulhadas nesse mar de sangue.

    Publicado originalmente no site do autor: robertomalvezzi.com.br

  • Marcos Sassatelli – Presidente: “o tirano que mata nossa gente”

    Praça de Joinville recebe velas em homenagem aos 500 mil mortos pela Covid-19 no Brasil (NSC)

    “Senhor, tu que fugiste de jegue para o Egito, mostra-nos um meio de nos livrar desse fascista brasileiro. Tu que entraste em Jerusalém montado num jumento, dá-nos a coragem de enfrentar o tirano que mata nossa gente. Livra-nos, Senhor, do desgoverno da morte. Está pesado demais” (Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, 13/06/21).

    Com Leonardo Boff e fazendo minhas suas palavras, “uno-me nesta oração para que Deus e a Mãe Terra tenham piedade de sua gente e nos livrem de quem está produzindo um holocausto”.

    No dia 19 deste mês de junho, o Brasil – com uma população de 214 milhões – registrou 500 mil mortes pela Covid-19. “É a maior tragédia brasileira. Nunca houve um evento tão mortífero quanto a pandemia do novo coronavirus (mesmo com subnotificações). Foram 195 mil vidas perdidas em 2020 e já são mais de 300 mil em 2021… Das 500 mil mortes, 150 mil foram de pessoas abaixo de 60 anos e 350 mil de idosos (60 anos e mais), sendo 280 mil homens e 220 mil mulheres” (https://www.ecodebate.com.br/2021/06/21/). Um verdadeiro massacre!

    Segundo estudo do professor e epidemiologista Pedro Hallal, das 500 mil mortes, 375 mil (ou seja, 3 em cada 4) poderiam ter sido evitadas caso o Brasil tivesse adotado uma política de saúde – científica e tecnicamente planejada, com medidas de controle da pandemia (como vacinação eficiente, isolamento social e uso de máscaras) – que colocasse a vida em primeiro lugar. O principal responsável por essas mortes é Jair Bolsonaro, que – a toda hora – fala o nome de Deus em vão para, hipócrita e oportunisticamente, acobertar e legitimar seu comportamento político criminoso.

    Infelizmente, estamos diante do desgoverno de um presidente frio e insensível, cínico e assassino, para o qual a vida dos seres humanos – sobretudo dos pobres – e da Mãe Terra não vale nada. Além de tudo, com suas palavras e seus atos, debocha da gravidade da pandemia e demostra ser uma pessoa totalmente desiquilibrada.

    Comparemos as 500 mil mortes pela Covid-19 do Brasil com as de outros países que têm uma população similar. Conforme foi divulgado nas redes sociais, na Indonésia – com uma população de 276 milhões – as mortes foram 54 mil; no Paquistão – com uma população de 225 milhões – as mortes foram 22 mil; na Nigéria – com uma população de 211 milhões (quase igual à do Brasil: 214 milhões), as mortes (reparem!) foram 2 mil; no Bangladesh – com uma população de 166 milhões – as mortes foram 13 mil. Esse quadro não precisa de comentários, fala por si mesmo.

    Em 19 deste mês de junho – dia no qual o país atingiu 500 mil mortes – a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o lema “toda vida importa”, realizou um tempo de sensibilização em memória dos mortos pela Covid-19 – manifestando conforto, solidariedade e esperança – e fez a seguinte Oração (que é nossa também):

    Pai de bondade!
    Há mais de um ano, temos chorado por tantos irmãos e irmãs
    que a triste e violenta pandemia arrancou de junto de nós.

    Chegamos agora a quinhentos mil mortos.
    Não são apenas números! São pessoas!
    São nossos filhos e filhas, irmãos, irmãs, amigos, parentes, conterrâneos.

    Sabemos que uma única morte já é suficiente para entristecer nossos corações.
    Quanto mais todas essas mortes,
    muitas vezes sem o mínimo necessário
    para o tratamento digno como ser humano.

    Por isso, vos pedimos:
    acolhei cada um desses filhos e filhas e concedei-lhes a paz eterna!
    E a nós dai a graça de trabalhar por um mundo onde se respire

    solidariedade, acolhimento, partilha, compreensão e resiliência.
    Que nossas lágrimas nos lavem da indiferença, do egoísmo e da omissão!
    Que a saudade seja estímulo à fraternidade!
    E que a fé seja o sustento de nossa esperança!
    Pela intercessão da Virgem Mãe Aparecida,
    olhai pelo Brasil, olhai pelo povo brasileiro.
    Amém.

    Marcos Sassatelli, Frade dominicano
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP)
    Professor aposentado de Filosofia da UFG
    E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
    Goiânia, 28 de junho de 2021

     

  • Roberto Malvezzi (Gogó)
     Não é seca,
    é a devastação da Amazônia

    Imagem: publicado por FIA – no blog/desmatamento-da-amazonia

    Por que a velha mídia e os cientistas se mostram surpresos com o vazio de nossos reservatórios e com a maior seca dos últimos 91 anos?

    Quando cheguei pela primeira vez no município de SINOP, Mato Grosso, me perguntei o que isso significava. Então, me disseram que era uma sigla: Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná. O próprio site da prefeitura diz que a cidade se originou na década de 70 do século passado, pela política de ocupação da Amazônia Legal pelo Regime Militar.

    Quando estive lá, a cidade era uma serraria atrás da outra, mas também me disseram que já tinha diminuído o número, já que a madeira estava acabando. Então, viria a soja para ocupar os espaços desmatados. Depois viria o gado. Por fim, terras abandonadas, imprestáveis para qualquer uso. Números dizem que o agronegócio deixou para trás cerca de 80 milhões de hectares de terras imprestáveis no território brasileiro.

    Mas, o que o pessoal do Paraná foi fazer em SINOP? Foi levar o modelo de desenvolvimento que eles aplicaram no próprio estado décadas atrás. E o modelo, que sempre foi predador, continua predador. É o modelo que sulistas e sudestinos espalham também no Oeste Baiano.

    Agora, com o licenciamento ambiental pornograficamente liberado, a grilagem das terras públicas liberada, então o avanço sobre a Amazônia tende a se acelerar e devastar o bioma como nunca na história desse país. No último mês de abril o desmatamento foi de 810 km2, o maior da série dos últimos dez anos (Imazon).

    Então, acontece uma seca nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Aí vem a mídia, a Agência Nacional de Águas etc., para dizerem que passamos pela maior seca dos últimos “91 anos”. Se você destrói a floresta amazônica, fundamental no ciclo das águas que abastece o Brasil pelos Rios Voadores, como você vai querer que continue chovendo no Sul e no Sudeste? É como matar as árvores dos ovos de ouro. E matam.

    Os cientistas já alertaram que, nessa latitude, no Chile há o deserto do Atacama, na África o deserto da Namíbia e na Austrália o deserto Australiano. Mas, mistério, chove à cântaros no Centro-Oeste brasileiro, nas regiões Sul e Sudeste, chegando até Uruguai, Paraguai e Argentina. Hoje se fala que a Amazônia chega até à Patagônia.

    Então, matemática simples, como ligar lâmpada e interruptor, se o agronegócio continuar destruindo a Amazônia como está fazendo, a região Sul do Brasil, incluindo o norte da Argentina, viram deserto como o é em outras latitudes da Terra.

    É uma escolha. E esses homens que dominam o Brasil escolheram o pior cenário. Novas secas virão, sempre mais terríveis e o deserto aguarda a todos ali na frente.

    [Artigo publicado no site do autor]
  • Roberto Malvezzi (Gogó) – Paulo Guedes é o ícone da “economia que mata”

    http://www.nanihumor.com/2013/11/papa-critica-economia-que-mata.html

    Se existe alguma virtude no atual governo é que ele é absolutamente transparente nos seus propósitos, ainda que seja uma perversa transparência. Como diz Jesus sobre os mercenários em uma de suas falas: “O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10,10).

    Bolsonaro avisou na campanha que viria para destruir (voltar 50 anos na história) e que gostaria de ver mortos ao menos os 30 mil que a “ditadura torturou, mas não matou”. Esse propósito se materializa com os fatos, como os 400 mil mortos pela Covid19, mas também a fala expressa do ministro Paulo Guedes: “De acordo com o ministro, não foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas sim ‘o avanço na medicina’ e ‘o direito à vida’ (Globo Economia). O ministro não tem pudores de dizer que a vida de muitas pessoas é um problema para a concepção que ele tem economia.  

    Para o ministro as únicas vidas que valem é a dos mercadores. O resto das vidas têm que ser sacrificadas no altar dos deuses do mercado. Pensadores como Jung Mo Sung e Franz Hincklammert já devassaram a alma sanguinária e sacrificial desses deuses. Mas, esses deuses têm uma característica pavorosa, isto é, são insaciáveis.

    Mas, assim como Bolsonaro não fala sozinho, mas tem milhões de pessoas ainda sustentando suas práticas e seu discurso, Paulo Guedes também não fala sozinho. Ele é o ícone da “economia que mata” segundo o dizer do Papa Francisco: “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiroDigamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”. (FRANCISCO, Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 09-07-2015).

    Além de Guedes, agora a Câmara dos Deputados deleta a licença ambiental e quer instalar a grilagem aberta nas terras públicas. Bolsonaro não está só, ele é o ícone dessa direita extrema e implacável.

    A mídia corporativa brasileira já nem fala em mercado, mas na Faria Lima. Além do personagem histórico, o que é a Faria Lima? Uma avenida em São Paulo, que junto com a Paulista, a Rebouças e a Nove de Julho fazem o quadrado dos Jardins na capital paulista. Isso quer dizer que Paulo Guedes representa uma avenida no Brasil, os mercadores da Faria Lima, onde estão estabelecidos os escritórios do mundo financeiro e as startups. É o Brasil pensado para uma avenida.

    Podemos acusar Bolsonaro, Guedes e Sales de tudo, menos de que são enganosos em seus propósitos e em suas práticas. Eles são convictos no processo de destruição que promovem. Dizem abertamente a quem servem e o que fazem. E fazem.

  • Dom Mol: Ditadura nunca mais

    “Defender ditadura, isso está fora de qualquer possibilidade de quem quer ser discípulo de Jesus”, afirma Dom Mol, em nome da CNBB.

    Nesta terça-feira, a coletiva de imprensa da 58ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que acontece de 12 a 16 de março, abordou a Análise de Conjuntura e a 6ª Semana Social Brasileira. Ao longo da semana, esses momentos são mediados por Dom Joaquim Mol, bispo auxiliar de Belo Horizonte – MG e presidente da Comissão Episcopal para a comunicação da CNBB.

    Diante de uma pergunta em referência à democracia, num contexto social em que muitos cristãos pedem a volta da ditadura e pregam a violência como mudança para o país, Dom Joaquim Mol, afirmava que “de maneira completamente inesperada começaram aparecer pessoas no Brasil, inclusive governantes brasileiros, apoiando a ditadura em detrimento da democracia”. Segundo o presidente da Comissão Episcopal para a Comunicação da CNBB, “só consegue apoiar e pedir a volta da ditadura quem nunca passou por isso”. Ele dizia que “querer a ditadura de volta, qualquer tipo de ditadura em nosso país, significa apontar uma espécie de anomalia na cabeça da pessoa, ela não pensa adequadamente, como também não sente adequadamente”.

    O bispo auxiliar de Belo Horizonte definia a ditadura como “a intolerância total a tudo o que é diferente, a toda e qualquer diferença, de qualquer tipo. A ditadura e a imposição de um modo de governar, de envolver a cultura, a economia, de fazer política com um máximo de intolerância a quem faz, sente e pensa diferente”. O bispo insistia em que “é por isso que a ditadura mata. Por isso a ditadura não tem nenhum escrúpulo em matar quem quer que seja, se estiver pensando diferente”.

    “Pedir a ditadura de volta é uma insanidade mental, uma insanidade dos sentimentos, é um total embrutecimento do ser desejar a ditadura”, enfatizava o bispo. Frente a isso, definia a democracia como a alegria, a importância, a valorização da diversidade pacífica entre nós”. Junto com isso, Dom Mol definia a democracia como “a expansão de direitos individuais e coletivos a todos, não só a um pedacinho”. Ele fazia referência à profunda desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, o que ele vê como “falta de democracia, porque democracia significa escola de qualidade para todo mundo, alimentação para todo mundo, teto para todo mundo, trabalho para todo mundo, terra para todos os que precisam de terra”.

    Segundo Dom Mol, não há como entender “a busca, a propaganda, a defesa de toda e qualquer ditadura”. Ele diz que não podemos permitir que a ditadura que aconteceu no Brasil durante 20 anos “seja chamado com outro nome que não ditadura militar e civil”, quando “alguém sem voto, foi e tomou o poder a passou a exercer esse poder com mão de ferro, quem pensa diferente, morre, inclusive com tortura”. Ele dizia que “um cristão, jamais pode, nem pensar em defender ditadura, isso está fora de qualquer possibilidade de quem quer ser discípulo de Jesus”.

  • Os Quartéis e os Palácios: uma Simbiose Brasileira
    Por Jorge Alexandre Alves

    Imagem: de redebrasilatual Preocupação com sua má relação com o Congresso motivou Bolsonaro a se cercar de ministros militares

    A questão que envolve os militares e suas relações com o poder civil não é nova. Desde Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, temos a interferência militar em funções civis no Estado. Isso se intensificou na República, aliás resultante de uma conspiração liderada por um marechal que, até uma semana antes, era monarquista convicto.

    Antes de mais nada, precisamos ter clareza que Bolsonaro é um projeto militar. Esse apoio se deu fundamentado na DSN (doutrina de Segurança Nacional), fundamento pedagógico da formação dos candidatos a oficiais-generais na Escola Superior de Guerra e similares.

    A maior parte das cúpulas militares em 2018 acreditavam existir um esforço internacional em desestabilizar o Brasil e estavam convencidos que a esquerda brasileira participava desse esforço. Ficava fácil, neste caso, identificar o inimigo interno e combatê-lo. Ao mesmo tempo havia subliminarmente os projetos pessoais de poder e de recursos – para os líderes e seus pajens.

    Bolsonaro foi visto como o cavalo selado que tornava possível essa articulação entre visão de mundo e interesses privativos da cúpula militar. Acreditava-se também que a hierarquia faria o capitão ter algum respeito por generais, almirantes e brigadeiros. E que seria possível tutelá-lo.

    Militares são moralistas. Vale a máxima que prescreve que não basta ser honesto, precisa parecer honesto. Por isso o discurso legalista. Mourão, Heleno (antes dele Etchegoyen), Villas-Boas, Azevedo e outros fazem política há muito.

    Certamente, alguns de vocês devem se lembrar do Gen. Heleno – Comandante Militar da Amazônia – tecendo considerações sobre as demarcações indígenas na Amazônia. Ou sobre a questão (que foi ao STF) referentes às disputas entre arrozeiros e o povo Ianomâmi na Reserva Raposa Serra do Sol, mais de uma década atrás. Isso custou a Heleno a quarta estrela (posto de General-de-Exército, o mais alto da força).

    Da mesma forma, Villas-Boas, Pujol (O próprio Heleno) foram comandantes daquela desastrosa missão dos capacetes azuis da ONU no Haiti (MINUSTAH). Generais escalados para esses postos o são por razões políticas. Aqui cabe sinalizar, todos eles nomeados para essa missão nos tempos em que a esquerda mandava(sic!) no país.

    Fernando Azevedo tem inserções na vida civil há muito tempo. Ele foi ajudante-de-ordem de Fernando Collor nos anos 1990. E foi preposto do Comando do Exército no STF presidido por Dias Toffoli.

    Ou seja, há pelo menos uma década presenciamos essa promiscuidade de militares na política. São sinais péssimos transmitidos por quem está na cúpula dessas corporações militares. A questão do legalismo e de uma defesa estrita do papel profissional da caserna até existe, mas nenhum desses protagonistas militares na política podem ser considerados exemplos de tais princípios.

    Por isso, carecem de fundamentos as teses até agora ventiladas pela grande imprensa. O que temos é uma orquestração muito bem articulada de militares participando plenamente na política. Engana-se quem pensa que as FFAA estão divididas. O que ocorreu essa semana nada tem a ver com respeito à Constituição ou com legalismo militar.

    Azevedo e seus comandantes podem ter se dado conta de algum prejuízo institucional junto à “opinião pública” que o vínculo com Bolsonaro pode representar. Talvez tenha uma questão do orgulho pessoal, afinal deve ser duro a um general ter que ceder às ordens de um capitão.

    Mas isso não significa que a “tropa” não aceitará ser politizada. Aliás, a tropa já está politizada. Os generais estão muito bem articulados e não há nenhum movimento que indique que os quase 12 mil militares que hoje estão no Poder Executivo retornarão aos quartéis, ou se os que estão na reserva irão para suas casas botar o pijama.

    Por outro lado, existem duas questões que merecem nossa atenção. Primeiro, podemos até admitir que nem todos os generais e oficiais superiores (coronéis e tenentes-coronéis no Exército e seus correspondentes nas outras forças) sejam bolsonaristas ou que concordem com essa presença militar em segmentos civis do Estado Brasileiro. Mas não é o que acontece nas bases militares, sobretudo quem veste uniforme verde-oliva.

    Bolsonaro frequentou por mais de quinze anos formaturas de cadetes na AMAN e nas outras escolas militares. E com o beneplácito dos comandantes de força e das autoridades civis. Isso o tornou muito popular junto aos oficiais inferiores (tenentes) e oficiais intermediários (capitães e majores). Da mesma forma que é muito popular entre sargentos e praças.

    Quando Bolsonaro exige que oficiais-generais tornem as FFAA sua guarda pretoriana, ele acena para suas bases militares, emparedando o alto-comando militar. Por um lado, aparenta instaurar a quebra da hierarquia e da disciplina na corporação. Isso pode ter acendido algum sinal de alerta nestes generais exonerados – apenas por uma questão de formalidade militar.

    Por outro lado, há um jargão militar que afirma a palavra convence, o exemplo arrasta. Que exemplos os generais que, mesmo na ativa, acumulam funções civis dão aos jovens oficiais? Ou seja, o presidente aposta na desordem militar dentro de uma promiscuidade com funções civis inaugurada por uma geração inteira de oficiais.

    Disso deriva a segunda questão. Daqui a dez, quinze anos, sairão dos capitães e majores de hoje (a maioria bolsonarista) os oficiais-generais das três forças. Ou seja, temos uma bomba de efeito retardado plantada no Estado Brasileiro. Como esperar reverter a atual situação diante dessa possibilidade?

    Finalmente, é preciso reconhecer que muito pouco sabemos a respeito do ethos militar e do cotidiano nos quarteis. Essa geração que hoje lidera as FFAA não ascendeu ao generalato pelas mãos de Bolsonaro ou mesmo de Temer. A maior parte deles chegou ao topo da hierarquia militar quando tínhamos governos progressistas.

    Precisamos saber as razões destas escolhas. Se eram os melhores de sua geração, havia um grave problema que não foi detectado. Se não, é necessário reconhecer que, neste aspecto, a esquerda no poder não foi feliz em escolhas tão delicadas e estratégicas.

    Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Atua no Movimento Nacional Fé e Política.

  • Roberto Malvezzi (Gogó): Tendências da Humanidade e da Terra

    Foto: iStock – Imagem publicada pelo site terra.como.br em “Planeta estourou recursos naturais capazes de regeneração”

     

    A Conjuntura a partir do pensamento complexo

    Roberto Malvezzi (Gogó)

    1. O pensamento complexo é um desafio, não uma resposta (Edgar Morin).
    2. O mundo jamais voltará a ser como era antes da pandemia. A pandemia indica a mudança do mundo. Como já se diz, passamos não por uma época cheia de mudanças, mas por uma mudança de época. Não são várias crises, mas uma crise civilizacional que se expressa em múltiplas dimensões (Papa Francisco).
    3. Para alguns, uma mudança de Era Geológica. Essa é a tendência posta, é dela que falaremos. Entretanto, é sempre bom considerar a possibilidade das mudanças históricas imprevisíveis, como já dizia Bento XVI, como foi a queda do Terceiro Reich e da União Soviética. Como dizia Casaldáliga: “a humanidade tem o DNA de Deus e não é suicida”. Portanto, falamos de tendências, não de afirmações absolutas. A humanidade pode reagir, porém, a gravidade das tendências é real e factual: “Se tardar mais, tarde demais” (Papa Francisco).
    4. O mundo das tecnologias avança, o mundo e o número das populações descartadas também (Papa Francisco). Avança o “apartheid tecnológico”.
    5. Cresce o confronto geopolítico dos Estados Unidos e Europa em relação à China e aos BRICs. O Brasil atual optou por ser servo dos Estados Unidos.
    6. Avança a disputa pelos bens naturais como minérios, petróleo, gás, água e biodiversidade. Países como o Brasil optam pelo enjaulamento nos bens primários, como grãos, minérios e carne in natura.
    7. A tendência de expandir o “mercado” de bens primários para além da Terra, para o espaço, a Lua, Marte e asteroides vai se intensificar, inclusive de forma privada (Helon Musk). Um asteroide de ouro massivo valeria mais que toda riqueza da Terra. As descobertas cosmológicas tendem a se desenvolver com maior velocidade. Objetos não identificados, como os tic-tacs encontrados pela Marinha dos Estados Unidos, deverão ter sua origem decifrada e publicada. Emirados Árabes, China e Estados Unidos chegaram a Marte quase no mesmo dia.
    8. Intensifica-se a guerra híbrida pela disputa das consciências e o controle das pessoas, também a internet das coisas.
    9. O trabalho em casa chegou para ficar, para alguns, mas o maior empregador continuará sendo o de aplicativos, aonde se vai de carro, moto, bicicleta e a pé. Enfim, a precarização do mundo do trabalho tende a ser definitiva.
    10. A mudança no mundo trabalho e a destruição da legislação trabalhista tendem a ser permanentes, mas os prejudicados tenderão a se organizar diante dessas novas formas de exploração do trabalho.
    11. As privatizações acontecidas tendem a ser definitivas. No Brasil, o Estado construído por Guedes permanecerá como permaneceu no Chile após Pinochet. E Guedes foi colaborador íntimo de Pinochet.
    12. A destruição da saúde pública tende a ser permanente, da Universidade Pública, da Educação Pública.
    13. O fosso social entre bilionários e povo pobre se aprofundará.
    14. O apartheid social já é visível nas cidades através dos condomínios e das favelas enjauladas nos morros, beiras de rio e lugares insalubres.
    15. A alma brasileira estará dividida por longo tempo. Os construtores da cultura da paz terão um longo e sombrio tempo pela frente.
    16. Num Brasil estruturalmente injusto só o Estado policialesco, militarizado, milicianizado, com a elite armada privadamente, será possível sufocar e reprimir revoltas populares. A democracia e o Estado tendem mínimos cada vez mais. O capitalismo pode amenizar as revoltas com políticas tipo “renda mínima”.
    17. Nas periferias o povo continuará com suas artimanhas de sobrevivência, nos corações justos o desejo e o empenho por mudanças continuarão.
    18. O ódio permanecerá, porque ele se baseia na divisão social real da sociedade, entre quem têm riquezas e quem vive na miséria. Muitos pobres continuarão adorando pessoas como Bolsonaro, seguindo como rebanho pastores e lideranças religiosas, mas os ricos continuarão odiando gente pobre, índios, pretos, nordestinos, LGBTs etc. A classe dominante jamais erra na sua “luta de classes”.
    19. O fundamentalismo religioso – incluindo o propósito da Teocracia Evangélica – permanecerá como aliado dos nazifascistas, até como fundamentação teológica, porque todo fundamentalismo se identifica com outros fundamentalismos semelhantes, mesmo que tenham outros matizes de origem. As igrejas não terão mais unidade, fora as exceções honrosas de sempre, mas o comportamento de “manada”, de “rebanho” tende a permanecer pela busca de alguma segurança das pessoas jogadas nas agruras de um mundo inseguro.
    20. A mudança nos costumes, que tem por mãe a revolução dos costumes de 1968, tende a avançar, mas as forças reacionárias se tornarão cada vez mais belicosas na área dos costumes. Os liberais e neoliberais são a favor dessas mudanças, vide Rede Globo.
    21. O cristianismo originário da justiça, misericórdia, fraternidade, partilha, permanecerá nas periferias da humanidade e do cristianismo, com poucas adesões, as “minorias abraâmicas” das quais falava Dom Hélder. De resto será o poder, a prosperidade, a hipocrisia, as aparências, as vestes, as mídias, com predomínio do “deusnheiro”. Nos países mais abastados e com bom nível de educação devem crescer o ateísmo e a indiferença religiosa, sobretudo a indiferença eclesial.
    22. A destruição da Amazônia indica não ter mais volta e, sem ela, muda o território brasileiro, com a diminuição drástica de chuvas do Centro-Oeste para baixo, indo até Argentina, Uruguai e Paraguai.
    23. A proposta dos povos originários, do “Bem Viver”, com seu comunismo primitivo, que não aceita a privatização da terra, da água, da biodiversidade, do ar, do sol, resiste subalternamente – como sempre resistiu -, porém, sem a força para tornar-se hegemônica.
    24. Sem Amazônia, com enfraquecimento dos rios voadores, enfraquecem os aquíferos do Cerrado que alimentam as bacias brasileiras, inclusive a do São Francisco.
    25. Com a diminuição da biodiversidade vegetal, habitat dos animais, novas pandemias e endemias vão surgir, sempre com maior velocidade, com eliminação massiva de seres humanos, como acontece agora no Brasil e no mundo.
    26. Com o agravamento das mudanças climáticas, o território brasileiro, em grande parte, se torna inóspito para a vida, particularmente a humana (Lovelock).
    27. A temperatura elevada permitirá vidas somente em alguns pontos do território e da Terra. A elevação dos oceanos mudará a geografia física e humana dos litorais, particularmente no Brasil.
    28. Enfim, a vitória total do capitalismo significará uma Terra hostil e uma humanidade reduzida, altamente tecnificada, mas depois, nem os capitalistas sabem o que será.
    29. Parcela riquíssima da humanidade prepara bunkers para sobreviver caso venha a catástrofe. Os sobrevivencialistas têm seus motivos (UOL). Porém, tendem a sobreviver aqueles que sempre sobreviveram nas condições mais adversas e hostis.
    30. Até o final desse século a Terra e a humanidade serão completamente diferentes do que são hoje.Publicado originalmente no site do autor //robertomalvezzi.com.br
  • O Conservadorismo Católico de 1964 recorrente nos ataques à Campanha da Fraternidade de 2021

    O Conservadorismo Católico de 1964 recorrente nos ataques à Campanha da Fraternidade de 2021 

    José Cristiano Bento dos Santos[1]

    O atual acirramento de divergências políticas na Igreja Católica do Brasil é materializado nos ataques contra a realização da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021. Os acontecimentos do momento representam uma ruptura no catolicismo, por causa da visão de bispos, padres e leigos que resistem à atuação da instituição religiosa, na adesão aos Direitos Humanos, base fundamental da dignidade de todo homem e de toda mulher, principalmente, de grupos marginalizados, como a população negra, os indígenas, as mulheres, a comunidade LGBTQI+.

    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) articula há cinquenta anos, a Campanha da Fraternidade (CF), como ação sociorreligiosa que propõe temáticas que apontam para o compromisso dos cristãos com a sociedade, com debates e enfrentamento dos problemas que afetam a população pobre: precariedade da saúde, do trabalho, da educação, de moradia, falta de políticas públicas, etc..

    Nesta perspectiva, explica a própria CNBB, “a Campanha da Fraternidade é uma verdadeira iniciação à fé e à sua prática […]. A Campanha da Fraternidade quer ajudar a construir uma cultura de fraternidade, apontando os princípios de justiça, denunciando ameaças e violações da dignidade e dos direitos, abrindo caminhos de solidariedade” (CNBB, 2017, p. 19).

    O atual cenário de tensão na Igreja Católica é promovido por grupos resistentes às mudanças estruturais da Igreja, propostas pelo Concílio Vaticano II, de um catolicismo aberto às realidades do mundo moderno, no que se refere aos avanços da ciência e da tecnologia, das configurações dos processos políticos e culturais, principalmente, de uma vivência cristã atenta às demandas sociais dos mais empobrecidos. Essa mentalidade religiosa e politicamente retrógrada, produziu materiais que circulam nas redes sociais contra a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021, com narrativas de desinformação sobre as ações sociais da pastoral católica, a partir de acusações infundadas sobre os bispos do Brasil, ausência de dados sobre a violência e genocídio praticados contra as minorias sociais, distorcendo o objetivo da Campanha da Fraternidade que é a unidade dos cristãos, a partir da solidariedade. O próprio tema da CFE ressalta esse objetivo, “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, como também o seu o lema, “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2, 14a).

    Os conteúdos produzidos por esses grupos, estão estruturados em inverdades que têm por meta destruir as ações de uma Igreja comprometida com as propostas de um cristianismo voltado aos dramas da humanidade, como é registrado na biografia de santos(as), mártires e de Papas preocupados com a justiça social. Percebe-se, ainda, que a narrativa que foi difundida nas redes sociais contra a Campanha, usa da fé de pessoas simples que se apoiam em indivíduos que instrumentalizam a religião para a manutenção de projetos políticos que utilizam o Estado para manter o povo na submissão e exploração sociais.

    Tensão no catolicismo brasileiro: um problema histórico

    A tensão no catolicismo brasileiro é um problema histórico, visto que a Igreja está imersa na realidade social que a condiciona, com os conflitos sócio-políticos que a atravessam estruturalmente e provocam divisões de interesses de classes, dentro da própria instituição. Esses interesses orientam as relações de poder e o jogo de forças entre grupos dominantes e dominados, na implementação de suas ideologias específicas, em apoio e na contraposição dos elementos hegemônicos do contexto histórico vivido (SOUZA, 1996).

    O apoio dos católicos conservadores ao Golpe Militar de 1964, ano de fundação da Campanha da Fraternidade, pode ajudar a compreender a manutenção de projetos políticos de opressão e exclusão, principalmente, a resistência à atuação de uma parcela da Igreja comprometida com as minorias sociais.

    Depois que as classes dominantes, representadas pela burguesia e pelas camadas médias, assumiram o poder por meio de um golpe de Estado, os militares consolidaram um regime político ditatorial que reprimiu violentamente os movimentos trabalhistas e os grupos de oposição. A sociedade brasileira foi submetida ao terror de um Estado autoritário, que usava a tortura, largamente empregada pelos órgãos policiais, contra os cidadãos oponentes para extrair confissões daqueles considerados suspeitos pelo sistema (SOUZA, Luiz, 2014).

    Nesse período ditatorial, a Igreja como um dos organismos pertencentes ao corpo social (Durkheim, 1987), se dividiu politicamente como a sociedade secular, entre católicos conservadores e progressistas, dentro da mesma instituição religiosa, isso desde a hierarquia eclesiástica, até os leigos. Nesta perspectiva, afirma Alberto Luiz Gómez de Souza:

    Uma parte significativa de cristãos e membros da estrutura eclesiástica católica ajudara a preparar o golpe de estado. Este não foi uma ação circunscrita aos militares, como algumas quarteladas na América Latina, mas um amplo movimento de setores da população e do exército (Souza, Luiz, 2014, p. 50).

    Os católicos apoiadores do Golpe Militar, considerados de direita, promoveram uma sistemática perseguição aos religiosos contrários ao Estado Ditatorial. De acordo com Herbert de Souza (1996), os conservadores causaram escândalo e lançaram uma campanha de acusação de infiltração ideológica do marxismo no interior da Igreja Católica, e alguns membros estavam proibidos de pronunciarem a palavra socialismo.

    Esquerda católica e Marcha da Família com Deus pela Liberdade

    Nesse período, no qual o país estava submetido ao terror ditatorial, uma esquerda católica, representada pela juventude, orientada politicamente pelos religiosos progressistas, se juntara à esquerda tanto universitária quanto operária, demonstrando uma participação mais profunda de católicos, nos movimentos libertários.

    Segundo Herbert de Souza (1996), a década de 1960 revela uma juventude com consciência social que ocupa o cenário político, através das organizações católicas, formadas em sua grande maioria por esses jovens no interno da Igreja, como a Juventude Universitária Católica (JUC), a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Operária Católica (JOC), a Ação Católica Operária (ACO) e a Ação Popular (AP). Esses grupos surgiram dentro da Ação Católica Brasileira (ACB) e do Movimento de Educação de Base (MEB). Afirma Souza: “Descobri um mundo de reencontros e o universo da militância: a JEC (Juventude Estudantil Católica) e, depois, a JUC (Juventude Universitário Católica), os dois braços estudantis da Ação Católica” (SOUZA, Herbert, 1996, p. 14).

    O envolvimento político dos jovens inclinou-se cada vez mais para a pobreza e a desigualdade social, para a luta dos trabalhadores por direitos e enfrentamento contra o autoritarismo do poder militar. Os grupos juvenis tornaram-se setores politizados da esquerda brasileira, com uma forte presença revolucionária na Igreja e na sociedade. Todavia, os grupos progressistas foram perseguidos pelos movimentos conservadores, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que acusava a Igreja de sofrer a ameaça do “fantasma do comunismo”, o terror dos conservadores.

    De acordo com Alberto Luiz Gómez de Souza (2014), os grupos conservadores da Igreja Católica, constituído por bispos, padres e leigos, utilizaram a bandeira dos bons costumes, para expandir a luta contra o comunismo, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, evento político amparado por elementos religiosos, que facilitavam a manipulação dos católicos e da sociedade conservadora.

    Esta articulação religiosa cooptada por um projeto político, articulado pelas classes dominantes, utilizou a reza do terço, devoção católica transformada em instrumento racional de dominação espiritual a serviço do Golpe Militar. Esse mecanismo foi idealizado pelo Padre Patrick Peyton, cidadão norte-americano e representante das forças reacionárias do catolicismo. Afirma Luiz Alberto Gómez de Souza:

    Uma campanha do rosário do Padre Patrick Peyton, em meses anteriores, com o lema “uma família que reza unida permanece unida”, preparara o terreno para, em São Paulo, dia 19 de março de 1964, a primeira Marcha da Família, com Deus, pela liberdade, uma resposta ao comício da Central, dia 13 de março, em que João Goulart anunciou a concretização das reformas de base. O presidente dissera ali: “O cristianismo nunca foi o escudo para privilégios condenados pelo santo padre, nem também os rosários podem ser erguidos contra a vontade do povo… Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena minoria”. Já o Padre Peyton defendera antes que o rosário seria “a mais poderosa alavanca que eleva o mundo do deprimente materialismo em que se encontra” (SOUZA, Luiz, 2014, p. 50-51).

    Diante desse conflito exposto, o autor deixa explícito que houve sim uma participação de setores importantes da sociedade civil, como o apoio dado pela Igreja Católica na deposição do presidente João Goulart e na entrega do país para os militares. Por isso o movimento Marcha da Família com Deus pela Liberdade ganhou uma amplitude nacional com a mesma pauta religiosa-política de protesto, através do incentivo de manifestações religiosas de cunho político em várias regiões do país e nas principais capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, nos fins de 1963 até meados de março de 1964, ano da concretização do Golpe Militar (SOUZA, Luiz, 2014).

    Eventos religiosos, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, articulam as frentes dominantes da sociedade, como uma parcela significativa da imprensa, a classe produtora de informação e ideologias que dão forma ao inconsciente coletivo e que ordenam o caos disfarçado de “manifestações espontâneas” dos setores conservadores pertencentes ao catolicismo. Nesta perspectiva, foram esses movimentos de caráter religioso, que apoiaram abertamente o golpe de 1964.

    Esse tipo de atuação política da Igreja Católica pode ser interpretado, numa visão gramsciana, como “aparelhamento do poder”. Afirma Antonio Gramsci que “a Igreja, em sua estrutura, já está aparelhada para este trabalho” (GRAMSCI, 2007, p. 46). Uma visão que ajuda a compreender o papel que a instituição religiosa desempenhou para a efetivação da Ditadura Militar.

    Na história do catolicismo, quando se trata da relação envolvendo a alta hierarquia romana e o clero de modo geral, com a burguesia e o Estado, o que está em jogo são ações políticas da instituição católica em defesa e manutenção dos seus interesses corporativos (GRAMSCI, 2007), de seu poder e de seus privilégios, enquanto segmento religioso, majoritária na sociedade. Isso gera conflito de grupos dentro da própria instituição religiosa.

    No catolicismo brasileiro, pode-se observar que a Igreja como qualquer instituição, tem autonomia e poder de reação e por isso desenvolve um papel protagonista e não simplesmente reativo. Nesse sentido, como ator social, ela chega a ser responsável por mudanças estruturais na organização de uma nova sociedade, como afirma Luiz Alberto Gómez de Souza: “No momento das invasões bárbaras dos primeiros séculos, as Igrejas ajudaram a plasmar uma nova sociedade e o mundo feudal mais adiante” (SOUZA, Luiz, 2014, p. 35).

    O autoritarismo que ressurge contra a atuação social da Igreja

    A ruptura ideológica, atualmente, no catolicismo brasileiro, provocada por grupos conservadores, é continuidade dos mesmos conflitos de interesses apontados na implementação da Ditadura Militar. O discurso ideológico que apoiou o Golpe Militar de 1964, com a justificativa de a Igreja sofrer a ameaça do “fantasma do comunismo”, é recorrente nos dias atuais, e sustentado com mais vigor político e religioso do que no período ditatorial. Essa mentalidade ressurge nos momentos de intervenção social da Igreja contra propostas políticas que possibilitam o extermínio de direitos, historicamente conquistados pelos movimentos populares, classe trabalhadora, movimentos sociais, partidos de esquerda e pela própria instituição católica.

    De fato, para os grupos conservadores, quando a Igreja fala em distribuição justa de bens econômicos, materiais, financeiros e também da garantia de direitos sociais, conquistados a duras penas, ela é classificada, como comunista, esquerdista, petista, marxista, dentre outros, por esses cristãos, juízes de um “tribunal religioso”, capazes de julgar e condenar seres humanos ao “fogo do inferno”, simplesmente por defender direitos iguais para todos. Para estes “algozes” da Igreja, direitos iguais e bem comum são o mesmo que comunismo.

    Esses mesmos “juízes” defenderam a Reforma Trabalhista que aumentou o desemprego, a precarização do trabalho e o trabalho informal. Não contentes com este apoio que comprometeu de forma trágica a vida do trabalhador, sustentaram a Reforma da Previdência e atacaram de forma violenta, a Igreja, porque esta se posicionou contra essas reformas que destruíram os direitos sociais dos pobres, defendidos pela Constituição Federal.

    Como narrativa de sustentação para a sua militância no seio do catolicismo, estes fiéis que se autodenominam legítimos católicos defensores da Igreja, elegeram o Partido dos Trabalhadores (PT), como suposto inimigo, o demônio atuando em algumas pastorais da mesma instituição religiosa. Porém, outros partidos políticos circulam, livremente, no mesmo espaço, sem serem incomodados. Para esses outros, o silêncio é o passaporte da legitimidade.

    Os ataques à Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 ajudaram a perceber que estes grupos reacionários não se sentem intimidados em mostrar que são contra os Direitos Humanos, a distribuição de terra e de renda, o diálogo inter-religioso, a comunidade LGBTQI+ e outras minorias, mas a favor do armamento, da pena de morte, do racismo, do machismo, da xenofobia e do encarceramento em massa.

    Com quase trezentos mil óbitos confirmados pela Covid-19 e milhões de pessoas infectadas pelo vírus, num Brasil que se tornou o epicentro da pandemia, esses religiosos, em nome de Deus, preferiram fortalecer uma política negacionista da pandemia, minimizando seus efeitos, forçando a saída do isolamento social, promovendo aglomerações, recusando o uso da máscara e de outros cuidados básicos, e espalhando mentiras contra a vacina, meio fundamental para a proteção da vida.

    Outro fator grave é uma enorme apologia ao ódio visível nas redes sociais, principalmente, nos grupos de WhatsApp de membros de pastorais e movimentos. É estarrecedor o número de católicos que, no intuito de defenderem suas opiniões, muitas vezes infundadas no Evangelho, nos documentos da Igreja e do Papa Francisco, expressam todo tipo de acusações, mentiras, rancores e desrespeito contra seus líderes religiosos, neste caso, alguns bispos, que segundo a Tradição da Igreja, são sucessores legítimos dos Apóstolos.

    Esse tipo de comportamento revela um perfil de fiel mal-intencionado, proporcionando perseguição de católico contra católico dentro do mesmo credo religioso. Essa tensão parece ser consequência de um projeto contraditório de país, ou seja, um Brasil de “religiosos” sem Deus, que trocou o amor pelo ódio.  Por isso, é preciso conhecer a história de cada ação social da Igreja Católica, para não dividir “o corpo de Cristo” (1 Coríntios 12,27), que é uma construção de amor e união e não de divisão.

    Os ataques à Campanha da Fraternidade Ecumênica enfraquecem e descontroem toda luta contra a injustiça e opressão estruturais sofridas pelas minorias sociais, negando a violência simbólica, material e religiosa contra elas.

    Diante de tanta violência no mundo, respaldada pela religião, principalmente no Brasil, de modo particular no período do Regime Militar de 1964, é urgente perceber que este momento de realização da Campanha da Fraternidade de 2021, oportuniza meios para o(a) cristão(ã) refletir, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual.

    A Campanha da Fraternidade Ecumênica fala de união entre os cristãos católicos e evangélicos para superar as divisões que enfraquecem o sonho de Jesus de Nazaré: “Para que todos sejam um […]. Que eles sejam levados à plena unidade” (João 17, 22-23). Porém, é visível a resistência destes cristãos que não querem concretizar este sonho do Cristo, o que se percebe pelas atitudes de oradores que gritam contra as ações ecumênicas da Igreja. Seus discursos disseminados nas redes sociais revelam religiosos que não aceitam ou desconhecem a história da Campanha da Fraternidade, uma iniciativa eclesial privilegiada, pela qual a Igreja no Brasil, vivencia a Quaresma como meio de inserção e transformação das relações sociais.

     

    REFERÊCIAS

    CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2017: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2016. Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da visa.

    CONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2021. Fraternidade e Diálogo: Compromisso de amor.

    GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Volume 4. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

    SOUZA, Herbert de. Revoluções da minha geração: Depoimento a François Bougon. São Paulo: Moderna, 1996.

    SOUZA, Luiz Alberto Gómez de. Contradições das religiões nos anos de chumbo: do apoio à profecia. In: PANASIEWICZ, Roberlei; VITÓRIO, Jaldemir (org). Espiritualidades e dinâmicas sociais: Memória – Prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2014.

    [1] Doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina – UEL e padre da Arquidiocese de Londrina – PR.

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