Artigo

  • Ariovaldo Ramos: O que falta para a fé proclamada por cada religião ser praticada de fato?

    CONIC – ação global de solidariedade para proteger a Amazônia e seus habitantes

    O que falta para a fé proclamada por cada religião ser praticada de fato?

    Religiões têm conteúdo para defender a paz e a igualdade, mas frente aos imperativos do capital o discurso religioso torna-se mera retórica. Enquanto isso, o meio ambiente aguarda por ações concretas de preservação.

    Por Ariovaldo Ramos | para a RBA, redebrasilatual,  30/04/2022

    Segue o artigo

    Esses dias participei de uma reunião entre religiosos; é sempre bastante educativo e interessante. A marca constante é que todos falam bem da sua religião, que é boa, pela paz, vida e progresso de tudo e de todos, e que amam o planeta.

    É um momento interessante, porque a gente conta um do outro e conhecer é importante, porque quanto mais a gente conhece o outro mais força tem contra quaisquer preconceitos.

    Entretanto, apesar de todas as religiões serem boas, e de todo mundo ser pela paz e pela vida, nós estamos em guerra.

    Guerra militar, econômica, social, religiosa. E os operadores desta guerra são todos religiosos, de um jeito ou de outro. Qualquer colocação sobre Deus é religiosa: dizer Deus existe é religioso, dizer Deus não existe também é.

    Tudo exige a construção de ética. Contudo, isso não tem sido suficiente: as guerras estão aí, os genocídios estão aí.

    No Brasil estamos assistindo ao genocídio dos povos da floresta e a um genocídio pela destruição dos biomas.

    Estamos assistindo a uma guerra econômica, onde os trabalhadores perderam seus direitos, sua aposentadoria, sua seguridade. Os salários foram reduzidos, o trabalho foi precarizado, muito próximo do análogo à escravização.

    Estão todos sendo empobrecidos, expulsos da suas casas e indo morar na rua, e o Estado é absolutamente inoperante porque a guerra também é política, e a maioria dos estados brasileiros está na mão do capital, de uma maneira ou de outra, mesmo aqueles que dizem que não. Sem contar a ascensão do neonazismo.

    E continuamos religiosos. Tem sido assim na história do mundo, tem sido assim história brasileira, nós vivemos quatro séculos de escravização sob o manto da religião.

    A pergunta é: por que, se é verdade que as religiões são todas pela paz, pela vida, pela convivência pacífica e respeitosa, pelo direito de culto e de expressão, não concretizamos, na história, o que cremos, a despeito de todas as mudanças que fomentamos?

    No Brasil, as três festas sagradas, das três grandes religiões monoteístas coincidiram em termos de calendário: os cristãos celebraram a Páscoa; o judeus, a Passagem; e os muçulmanos, o Ramadã.

    Essa coincidência nos desafia a repensar o diálogo religioso, o que fizemos nessa reunião de que participei.

    Mas, parece que algo falta: nossas religiões têm o conteúdo necessário para priorizar a paz e a igualdade, contudo, parece que a fé proclamada não é praticada, talvez, porque os senhores do capital também se impõem às lideranças religiosas, e acabam transformando todo discurso religioso numa retórica que os preserva.

    Necessitamos de um movimento à altura da relevância da fé e da religião.

    Insisto que, juntos, deveríamos trabalhar para que a Constituição brasileira acolhesse o reconhecimento do direito da criação, do direito da natureza, transformando os nossos biomas em sujeitos de direito, determinando defensores desses sujeitos de direito frente ao Judiciário, de modo que, em nome dos biomas, ações pudessem ser levadas ao Judiciário, o que faria com que a luta pela preservação do meio ambiente e contra o genocídio dos povos tradicionais não contasse apenas com a “boa vontade” do executivo ou com anuência do legislativo, mas, também, com ação do Judiciário.

    Alguém dirá que existem leis… Sim, só que essas leis precisam ser cumpridas pelo Executivo e não o são.

    E não se tem como entrar no judiciário em nome da criação, da natureza.

    Há nações indo por esse caminho. Acabei de saber que o Chile, na sua Constituinte, está admitindo o direito da natureza, assim como a Colômbia, que transformou o rio Atrato, que corre na Cordilheira dos Andes, em sujeito de direito para evitar a sua a poluição e destruição.

    E se fosse militância comum às religiões instar o legislativo a consagrar tal direito?

    Daríamos um exemplo extremamente positivo acerca da importância da religião como consciência da sociedade.

     

  • Por um decrescimento ecossocialista

    Por Michael Löwy, Giorgos Kallis, Sabrina Fernandes e Bengi Akbulut, em texto publicado no Viento Sur, 30-04-2022. A tradução é do Cepat para IHU, 04.05.2022.

    Segue o artigo.

    O decrescimento e o ecossocialismo são dois dos movimentos – e propostas – mais importantes do lado radical do espectro ecológico. Evidentemente, nem todos os membros da comunidade do decrescimento se identificam como socialistas, e nem todos os ecossocialistas estão convencidos da conveniência do decrescimento. Mas há uma tendência crescente de respeito mútuo e de convergência. Vamos tentar mapear as grandes áreas de acordo entre nós e listar alguns dos principais argumentos a favor de um decrescimento ecossocialista:

    1. O capitalismo não pode existir sem crescimento. Necessita de uma expansão permanente da produção e do consumo, da acumulação de capital e da maximização do lucro. Esse processo de crescimento ilimitado, baseado na exploração dos combustíveis fósseis desde o século XVIII, está levando à catástrofe ecológica, às mudanças climáticas e ameaça a extinção da vida no planeta. As vinte e seis Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas dos últimos trinta anos manifestam a total falta de vontade das elites dominantes para interromper o curso em direção ao abismo.
    2. Qualquer alternativa real a essa dinâmica perversa e destrutiva deve ser radical, ou seja, deve enfrentar as raízes do problema: o sistema capitalista, sua dinâmica exploradora e extrativista e sua busca cega e obsessiva pelo crescimento. O decrescimento ecossocialista é uma dessas alternativas, em confronto direto com o capitalismo e o crescimento. O decrescimento ecossocialista exige a apropriação social dos principais meios de (re)produção e um planejamento democrático, participativo e ecológico. As principais decisões sobre as prioridades de produção e de consumo serão decididas pelas próprias pessoas, a fim de atender às reais necessidades sociais, respeitando os limites ecológicos do planeta. Isso significa que as pessoas, em diferentes escalas, exercem um poder direto de determinar democraticamente o que deve ser produzido, como e quanto; como remunerar os diferentes tipos de atividades produtivas e reprodutivas que sustentam a nós e o planeta. Garantir o bem-estar equitativo para todos não requer um crescimento econômico, mas mudar radicalmente a forma como organizamos a economia e distribuímos a riqueza social.
    3. Um decrescimento significativo na produção e no consumo é ecologicamente essencial. A primeira e urgente medida é a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, bem como o consumo conspícuo e esbanjador da elite rica do 1%. Desde uma perspectiva ecossocialista, o decrescimento deve ser entendido em termos dialéticos: muitas formas de produção (como as instalações de carvão) e serviços (como a publicidade) devem não apenas ser reduzidas, mas eliminadas; algumas, como os carros particulares ou a pecuária, devem ser substancialmente reduzidas; mas outras precisariam ser desenvolvidas, como a agricultura agroecológica, as energias renováveis, os serviços de saúde e educação, etc. Em setores como saúde e a educação, esse desenvolvimento deveria ser, acima de tudo, qualitativo. Mesmo as atividades mais úteis devem respeitar os limites do planeta; não pode haver uma produção “ilimitada” de qualquer bem.
    4. O “socialismo” produtivista praticado pela URSS é um beco sem saída. O mesmo vale para o capitalismo “verde”, defendido pelas corporações ou pelos principais “partidos verdes”. O decrescimento ecossocialista é uma tentativa de superar as limitações dos experimentos socialistas e “verdes” do passado.
    5. É do conhecimento de todos que o Norte Global é historicamente responsável pela maior parte das emissões de dióxido de carbono na atmosfera. Portanto, os países ricos devem assumir a maior parte do processo de decrescimento. Ao mesmo tempo, não acreditamos que o Sul Global deva tentar copiar o modelo produtivista e destrutivo de “desenvolvimento” do Norte, mas deve buscar uma perspectiva diferente, enfatizando as necessidades reais das populações em termos de alimentação, moradia e serviços básicos, em vez de extrair cada vez mais matérias-primas (e combustíveis fósseis) para o mercado capitalista mundial, ou produzir cada vez mais carros para minorias privilegiadas.
    6. O decrescimento ecossocialista também implica a transformação, mediante um processo de deliberação democrática, dos modelos de consumo existentes – por exemplo, o fim da obsolescência programada e dos bens não reparáveis –; dos modelos de transporte, por exemplo, reduzindo significativamente o transporte de mercadorias por navios e caminhões (graças à realocação da produção), bem como o tráfego aéreo. Em suma, é muito mais do que uma mudança nas formas de propriedade; é uma transformação civilizacional, uma nova “forma de vida” baseada nos valores da solidariedade, democracia, igualdade-liberdade e respeito pela Terra. O decrescimento ecossocialista sinaliza uma nova civilização que rompe com o produtivismo e o consumismo, em prol da redução do tempo de trabalho e, portanto, de mais tempo livre dedicado às atividades sociais, políticas, recreativas, artísticas, lúdicas e eróticas.
    7. O decrescimento ecossocialista só pode vencer através de um confronto com a oligarquia fóssil e as classes dominantes que controlam o poder político e econômico. Quem é o sujeito desta luta? Não podemos superar o sistema sem a participação ativa da classe trabalhadora urbana e rural, que compõe a maioria da população e já está sofrendo o peso das mazelas sociais e ecológicas do capitalismo. Mas também temos que ampliar a definição da classe trabalhadora para incluir aquelas parcelas da população responsáveis pela reprodução social e ecológica, as forças que estão agora na vanguarda das mobilizações ecossociais: as jovens, as mulheres, os povos indígenas e as mulheres camponesas. Uma nova consciência social e ecológica emergirá através do processo de auto-organização e resistência ativa das exploradas e oprimidas.
    8. O decrescimento ecossocialista faz parte da família mais ampla de outros movimentos ambientais radicais e antissistêmicos: o ecofeminismo, a ecologia social, o Sumak Kawsay (o “Bem Viver” indígena), o ecologismo dos pobres, a Blockadia, o Green New Deal (em suas versões mais críticas), entre muitos outros. Não buscamos nenhuma primazia, apenas pensamos que o ecossocialismo e o decrescimento têm um marco diagnóstico e prognóstico compartilhado e poderoso para oferecer a esses movimentos. O diálogo e a ação comum são tarefas urgentes na dramática conjuntura atual.
  • ECOCÍDIO & GENOCÍDIO, por Frei Betto

    Neste artigo, publicado no Correio da Cidadania, Frei Betto nos ajuda a tirar da cabeça cinco equívocos em relação aos povos originários. Neste momento que acontece o 18º Acampamento Terra Livre dos povos originários em Brasília:

    Segue o Artigo:

    A política antiindigenista adotada pelo atual governo federal se baseia no tripé desconstitucionalização dos direitos; desterritorialização; e tentativa de integração dos indígenas à sociedade majoritária.

    Essa antipolítica inviabiliza os procedimentos de regularização fundiária dos territórios indígenas; não coíbe invasões, exploração ilegal dos recursos naturais, desmatamento (que, em 2021, ultrapassou 8 mil km2 na Amazônia), queimadas, grilagem, loteamentos e arrendamentos de terras.

    De acordo com o CIMI, houve 263 casos de invasões, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio, registrados em 2020. Isso representa um número maior do que o de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, quando houve 256 registros.

    Há, por parte do governo federal, uma premeditada ação de extermínio. Enquanto isso, o STF faz vista grossa ao protelar a votação sobre o Marco Temporal, que asseguraria aos povos indígenas a defesa e os direitos previstos na Constituição de 1988, sem subterfúgios jurídicos que visam a restringir o alcance dos preceitos constitucionais.

    Ruralistas, madeireiros, mineradoras e garimpeiros se unem para legitimar a especulação criminosa dos recursos ambientais e legalizar o ecocídio e o genocídio que afetam as florestas e as nações indígenas.

    Enquanto isso, o presidente mente descaradamente. Afirmou, em Dubai, que a floresta amazônica está “exatamente igual quando o Brasil foi descoberto em 1500”. E que “mais de 90% daquela área estão preservados”.

    Indígenas de três aldeias Munduruku no Pará estão sendo intoxicados por mercúrio que contamina os rios, devido ao garimpo. Segundo pesquisa da Fiocruz, mais de 200 indígenas têm mercúrio no organismo acima dos níveis tolerados pela OMS. Crianças Munduruku de 12 a 14 anos, que comiam peixes três vezes por semana, apresentam problemas de visão, tremores e perda de memória.

    O corpo humano não consegue eliminar o mercúrio quando o ingere através de animais e água contaminados. O metal tóxico causa malformação de bebês e doenças neurológicas, como demência, tonturas, tremores, problemas de audição e visão. O peixe deixou de ser uma alimentação segura na Amazônia.

    Naquela vasta região, as maiores áreas de garimpo estão em terras Munduruku e Kayapó, no Pará, e Yanomami, no Amazonas e em Roraima. Entre 2010 e 2020, segundo o InfoAmazônia, a atividade garimpeira cresceu 495% em terras indígenas e 301% em parques nacionais e outras unidades de conservação da maior floresta tropical do mundo.

    Segundo Rômulo Batista, porta-voz do Greenpeace Brasil, “infelizmente, em relação aos alertas de desmatamento, o novo ano (2022) começa como foram os últimos três. A destruição da Amazônia e outros ecossistemas naturais não só não é combatida pelo governo, como impulsionada por atos, omissões e conluios com os setores mais retrógrados da nossa sociedade, que priorizam o lucro e a economia da destruição, agravando cada vez mais a crise climática em que vivemos na atualidade.”

    Os movimentos sociais, os partidos progressistas e os candidatos de 2022 não podem ignorar a devastação de nossas florestas (ecocídio) e o extermínio dos povos indígenas (genocídio). Eles não representam um número significativo de eleitores, mas são os únicos capazes de assegurar às gerações futuras um planeta habitável, sustentável, no qual haja harmonia entre a natureza e os seres humanos, que são também filhos e filhas da Mãe Terra.

    Para o professor José Ribamar Bessa Freire, coordenador, na UERJ, do Programa de Estudos dos Povos Indígenas, precisamos extirpar de nossas cabeças cinco equívocos em relação aos povos originários:

    “Primeiro equívoco: o indígena genérico. Hoje, vivem no Brasil, mais de 200 etnias, falando 188 línguas diferentes. Cada povo tem sua língua, sua religião, sua arte, sua ciência, sua dinâmica histórica própria, diferentes de um povo para outro. Por essa razão, o padre Antônio Vieira denominou o rio Amazonas de “rio Babel”.

    “Segundo equívoco: considerar as culturas indígenas atrasadas e primitivas. Elas produzem saberes, ciências, arte refinada, literatura, poesia, música, religião. Suas culturas não são atrasadas, como durante muito tempo pensaram os colonizadores e ainda pensa muita gente ignorante. As línguas indígenas, por exemplo, foram consideradas pelo colonizador, equivocadamente,  “inferiores”, “pobres”, “atrasadas”. Ora, os linguistas sustentam que qualquer língua é capaz de expressar qualquer ideia, pensamento, sentimento e, portanto, não existe uma língua melhor que a outra, nem língua inferior ou mais pobre que outra.”

    “As religiões indígenas também foram consideradas, no passado, pelo catolicismo colonizador um conjunto de superstições, o que é uma estupidez. Basta entrar em contato com as formas de expressão religiosa de qualquer grupo indígena, para verificar que essa visão é etnocêntrica e preconceituosa. Os Guarani foram classificados, por alguns estudiosos, como “os teólogos da América”, devido à sua profunda religiosidade desta nação indígena, que se manifesta em todo momento, no cotidiano, penetrando nas diversas esferas da vida. Em qualquer aldeia Guarani, a maior construção é sempre a Opy – a Casa de Reza. Nas atuais aldeias do Rio de Janeiro, a reza ou porahêi é feita diariamente, todas as noites, durante os 365 dias do ano, de forma comunitária, contando com a participação de quase toda a aldeia. Começa por volta das 19 horas e vai até meia-noite, podendo algumas vezes estender-se até de manhã. O cacique toca maracá e dirige as rezas, acompanhadas de cantos e danças. Não conheço nenhum grupo da população brasileira que reze mais do que os Guarani. Acho que eles rezam mais do que todos os bispos reunidos numa assembleia geral da CNBB.”

    “Um desses erros foi percebido no início de 1985, durante o sério acidente sofrido pela usina nuclear de Angra dos Reis, construída num lugar que os índios Tupinambá haviam denominado de Itaorna e que, até hoje, é conhecido por este nome. Nesta área, na década de 1970, a ditadura militar começou a construir a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto. Os engenheiros responsáveis pela construção não sabiam que o nome dado pelos indígenas podia conter informação sobre a estrutura do solo, minado por águas pluviais, que provocavam deslizamentos de terra das encostas da Serra do Mar. Só descobriram que Itaorna quer dizer “pedra podre”, em fevereiro de 1985, quando fortes chuvas destruíram o Laboratório de Radioecologia que mede a contaminação do ar na região. O prejuízo, calculado na época em bilhões, talvez pudesse ter sido evitado se não fôssemos tão burros e preconceituosos.”

    “O terceiro equívoco é o congelamento das culturas indígenas. Enfiaram na cabeça da maioria dos brasileiros uma imagem de como deve ser o indígena: nu ou de tanga, no meio da floresta, de arco e flecha, tal como foi descrito por Pero Vaz de Caminha. E essa imagem foi congelada. Qualquer mudança nela provoca estranhamento. Quando o indígena  não se enquadra nessa imagem, vem logo a reação: “Ah! Não é mais índio”. Na cabeça dessas pessoas, o “índio autêntico” é o do papel da carta do Caminha, não o de carne e osso que convive conosco, que está hoje no meio de nós. O governador Gilberto Mestrinho, por exemplo, para impedir a demarcação das terras indígenas, veio com esse papo mole, que reforça preconceitos. Ele disse: “esses aí não são mais índios, já estão de calça e camisa, já estão usando óculos e relógios, já estão falando português, não são mais índios”. Ele criou uma nova categoria, desconhecida pela etnologia: os ex-índios. Se essa lógica funciona, fico me perguntando se o Mestrinho não é, então, um ex-brasileiro, porque o cotidiano dele está marcado por elementos tomados emprestados de outras culturas. Aliás, isso acontece com todos nós. Você, por exemplo, está vestido com jeans, e muita gente usa um tipo de roupa que não foi inventada por nenhum brasileiro. O computador não é brasileiro, o telefone não é brasileiro, enfim toda essa parafernália que a gente usa – milhares de itens culturais presentes no nosso cotidiano – não tem suas raízes em solo brasileiro. Então, o brasileiro pode usar coisas produzidas por outros povos – computador, telefone, televisão, relógio, rádio, aparelho de som, luz elétrica, água encanada – e nem por isso deixa de ser brasileiro. Mas o índio, se desejar fazer o mesmo, deixa de ser índio?”

    “O quarto equívoco consiste em achar que os indígenas fazem parte apenas do passado do Brasil. Num texto de 1997 sobre a biodiversidade, vista do ponto de vista de um indígena, Jorge Terena escreveu que uma das consequências mais graves do colonialismo foi justamente taxar de “primitivas” as culturas indígenas, considerando-as como obstáculo à modernidade e ao progresso.”

    “Por último, o quinto equívoco é o brasileiro não considerar a existência do índio na formação de sua identidade. Há 500 anos não existia no planeta Terra um povo com o nome de povo brasileiro. Esse povo é novo, foi formado nos últimos cinco séculos com a contribuição, entre outras, de três grandes matrizes: 1. As europeias, assim no plural, representadas basicamente pelos portugueses, mas também pelos espanhóis, italianos, alemães, poloneses etc.; 2. As africanas, também no plural, da qual participaram diferentes povos como os sudaneses, yorubás, nagôs, gegês, ewes, haussá, bantos e tantos outros; 3. Finalmente, as indígenas, formadas por povos de variadas famílias linguísticas como o tupi, o karib, o aruak, o jê, o tukano e muitos outros. Depois, as migrações de outros povos como os japoneses, os sírio-libaneses, os turcos, vieram diversificar e engrandecer ainda mais a nossa cultura. No entanto, como os europeus dominaram política e militarmente os demais povos, a tendência do brasileiro, hoje, é se identificar apenas com o vencedor – a matriz europeia –, ignorando as culturas africanas e indígenas. O indígena, no entanto, não foi “’eliminado” nem “assimilado”. Suas culturas se modificaram da mesma forma que a brasileira, a portuguesa ou qualquer outra cultura. No entanto, hoje, além de mais de 220 povos viverem falando suas línguas, mantendo organizações sociopolíticas próprias, o indígena permanece vivo dentro de cada um de nós, mesmo que a gente não saiba disso.”

  • Partido, eleições e mudanças estruturais

    “Tão importante quanto barrar o fascismo e deslanchar o processo de fortalecimento das instituições republicanas e democráticas, é retomar o trabalho de educação popular de base. Porque dele nascerá, pela prática que provoca a teoria e é por ela iluminada, o novo Movimento Popular com seus diferentes e complementares segmentos.”
    Artigo de Pedro de A. Ribeiro de Oliveira publicado no site do Movimento Nacional Fé e Política, discutindo as dificuldades das esquerdas se articularem para derrotar o bolsonarismo.

    Segue o Artigo:
    A geração política a que pertenço foi marcada pelo êxito da revolução cubana (1959). Ela parecia ser a demonstração cabal de que só um grande movimento social, liderado por um Partido com ideologia revolucionária, consegue derrotar o capital em sua fase imperialistapor meio de uma insurreição popular. O fundamento dessa concepção estava nas lições históricas das revoluções russa (1917) e chinesa (1949). Por outro lado, a Nossa América tinha muitos exemplos de governos democráticos, eleitos com um programa de reformas estruturais, mas que foram derrubados pela aliança entre as classes dominantes e os interesses imperialistas dos EUA.O surpreendente triunfo sandinista na Nicarágua (1979), acabou de nos convencer que só a grande mobilização popular, conduzida por um Partido – ou uma Frente ideologicamente sedimentada – consegue derrubar as estruturas sociais herdadas da colonização e a serviço do capital. Nessa concepção, os processos eleitorais que fazem parte do sistema democrático são importantes para educação política epodem assegurar certos direitos, mas não levam a mudanças estruturais.

    Escrevi o parágrafo acima usando a linguagem daquela época, porque ela reflete bem o pensamento de pelo menos um grande setor da Esquerda, pelo menos a chamada Esquerda católica no período de 1960 a 1990. Mas o fim do socialismo soviético, a derrota sandinista nas eleições, as dificuldades de Cuba e a conversão do socialismo chinês a um capitalismo manejado pelo Estadoabalaram profundamente aquelas convicções. Ao mesmo tempo, a partir de 1980 a experiência de articulação entre Movimentos Populares atuando na sociedade civil desde suas bases, e o Partido dos Trabalhadores atuando nos espaços do Estado, apontava uma nova forma possível de mudanças estruturais: sem necessidade de insurreição popular, a conquista da hegemonia social e política pelas classes trabalhadoras abriria o caminho para a desejada transformação das estruturas e a criação de um socialismo novo, democrático, ecológico e libertário.Foi nesse contexto histórico que nasceu o Movimento Nacional Fé e Política – MF&P – em junho de 1989.

    Desde então a esse setor da Esquerda representado pelo MF&P insiste na combinação de duas formas de ação política: uma, no espaço da Sociedade, por meio de diferentes organizações de base (como as CEBs, MST, Sindicatos, Movimentos identitários e outros), e a outra no espaço do Estado (por meio de Partidos de base popular, como o PT, PSOL e poucos outros). Essa combinação de forças havia produzido resultados excelentes na Constituinte de 1987-88, onde garantiu os Direitos de Cidadania e, após a derrota para os governos neoliberais de Collor e FHC, levou à eleição de Lula em 2002. Não por acaso a experiência brasileira era vista com tanta atenção e carinho pela Esquerda mundial, então desnorteada pelo fim do socialismo soviético e a globalização neoliberal.

    A responsabilidade pelo governo da República, porém, quebrou aquela articulação entre os Movimentos Populares atuantes na Sociedade e o Partido dos Trabalhadores atuante no âmbito do Estado. Restaram os laços de companheirismo e amizade entre militantes do PT e militantes de Movimentos Populares, mas acabou-se a articulação orgânica entre eles. A eleição de Dilma, em 2014, deixou patente o fim daquele modelo político que já vinha sendo esgarçado desde os governos de Lula.

    O avanço da Direita após os protestos de rua de 2013 e suas vitórias eleitorais no Legislativo e no Executivo em 2018 me levam agora a recolocar a função do Partido político no processo de mudanças estruturais na sociedade. A experiência recente do Brasil e de outros países de Nossa América mostra que,no governo, os Partidos de Esquerda – ainda que tenham forte base popular – são capazes de realizar projetosde desenvolvimento econômico e social com redistribuição de riqueza, mas não de realizar mudanças estruturais no modo de produção e consumo capitalista. Essa constatação faz que muitas pessoas da minha geração tenham passado a considerar o projeto socialista como uma utopia, isto é, uma ideia que abre horizontes e aponta caminhos, mas nunca será historicamente concretizada. Assim sendo, só resta ao Partido político empenhar-se a fundo nas eleições para, conquistando poder no Legislativo e no Executivo, reduzir os danos provocados pelo capitalismo e garantir os Direitos Humanos e de Cidadania.Enquanto isso, atuando no âmbito da sociedade, os Movimentos sociais assumem as pautas identitárias e culturais, com vista a produzir uma forma de sociabilidade mais humana e respeitosa da Terra.

    Não estão erradas as pessoas que pensam assim.Mas depois de sessenta anos buscando a superação do modo de produção e consumo capitalista, me custa muito renunciar à ideia de revolução como esgotamento de uma época e inauguração de uma nova época. Nova época com estruturas sociais que favoreçam a Justiça, a Paz e os Direitos da Terra. Por isso não renuncio à Revolução. Vejo-me então obrigado a recolocar em questão o Partido como indutor – não condutor – do processo revolucionário. A experiência do PT como organização popular para atuar na esfera do Estado pode e deve ser retomada, inclusive por outros Partidos. A condição é que o Partido seja entendido e formatado como conduto político do Movimento Popular – assim mesmo, no singular e com maiúsculas, para realçar seu papel de sujeito histórico. A prioridade, hoje, é recompor o Movimento Popular desde as bases numa sociedade estilhaçada pelo fascismo e pelas redes de internet a serviço do capital e sua ideologia liberal.

    Em termos práticos, isso significa, hoje, investir no processo eleitoral para barrar o fascismo. Ou seja, eleger Lula em uma forte aliança para reduzir os danos do golpe de 2016 e do bolsonarismo, e sedimentar as bases sociais e políticas da(re)construçãoda Nação. Mas esta não é a única prioridade hoje. Focar apenas nela é ater-se ao urgente postergando o necessário. Tão importante quanto barrar o fascismo e deslanchar o processo de fortalecimento das instituições republicanas e democráticas, é retomar o trabalho de educação popular de base. Porque dele nascerá, pela prática que provoca a teoria e é por ela iluminada, o novo Movimento Popular com seus diferentes e complementares segmentos. E é dele que espero – provavelmente só para a geração deminhas netas – um Brasil e um Mundo realmente humanizado.

    15/ fevereiro. 2022

  • Chacina no Complexo do Salgueiro


    Dia 20 de novembro aconteceu a Chacina do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, RJ. Dez pessoas foram mortas — um policial militar, um suspeito de atacá-lo e oito homens cujos corpos foram encontrados dois dias depois em um manguezal. De acordo com a investigação, dois homens, o acusado de ter atirado contra o sargento e um menor de idade não tinham passagens pela polícia.

    Texto de George Ferreira Lau, Co-fundador e Coordenador do cursinho Preparatório Comunitário Paulo Freire, professor de História e Filosofia.

     

    Todos os corpos merecem respeito.
    Dos polícias e do povo preto.
    Todo corpo merece respeito, e se injustiça existiu, o justiçamento não seria o caminho pretexto.

    Todos os corpos merecem respeito.
    E não devem ser lançados ao mangue, lançados a sorte, como queima de arquivo, aparente. Com possíveis marcas de tortura.

    Tudo a ser investigado.
    O Brasil é isso.
    Uma grande chacina do povo preto.
    Do povo índio, do povo-gueto.

    Com tudo a ser investigado.
    Com tudo muito suspeito.
    E as operações estavam suspensas menos para o povo preto.
    Quem manda ser gueto.
    Quem manda não subir na escala social meritocrática e não se dar o respeito, não sabe votar, e não fazer direito\Direito.

    Todos os corpos merecem respeito, a emboscada ao policial porquê?
    Isso não é justo.
    É malfeito.

    Só alimenta guerra.
    E faz do povo inimigo do Estado e vice-versa.
    O caveirão foi feito porque falhamos em sociabilidade e igualdade social e racial.
    Todos os corpos merecem respeito, nem a emboscada e muito menos o mangue.

    Oxalá estanque a dor de nosso povo.
    Por trás de cada corpo caído da polícia, do bandido, do povo atingido por ‘balas acidentalmente perdidas’ existe uma história, uma família, uma dor, um coração, e não apenas os corações ávidos por justiçamento.

    Ao olho por olho, e dente por dente, devolvamos a dignidade dos corpos.
    Que possamos superar a cultura da violência e do ‘Jesus de arminha’ o que é um defeito.
    E abracemos a cultura da paz, pois todo corpo merece respeito.

     

     

     

     

  • Leonardo Boff – Oito coisas para saber sobre o aquecimento global e a Cúpula de Glasgow

    Caros amigos,
    Achei este texto o melhor resumo já lido sobre o aquecimento global e suas consequências dramáticas para o nosso futuro próximo. Não dramatiza pois os fatos falam por si. Achei por bem divulgar os dados mais seguros sobre o tema e os enfrentamentos  que temos que assumir.
    Com esperança esperante (Sartre) de que poderemos sair de deste drama
    Lboff

    Oito coisas para saber sobre o aquecimento global e a Cúpula de Glasgow

    Além do sofrimento humano, o custo da inação climática é impressionante – estimado em US $ 600 trilhões até o final do século. Em outras palavras, as perdas devido à degradação do clima superam em muito os investimentos necessários para evitá-la.
    Marc Vandepitte – 12/11/2021

    1. Quais são as principais causas do aquecimento global?

    O aquecimento é uma consequência da quantidade de dióxido de carbono, ou CO2, que entra em nossa atmosfera. Desde a revolução industrial, o nível de CO2 é o mais alto dos últimos 4 milhões de anos.

    Existem três razões principais para este alto nível. O mais importante é a queima de combustíveis fósseis: carvão, óleo e gás. Nós os queimamos para gerar a enorme quantidade de energia em que se baseia toda a nossa civilização industrial e moderna. Praticamente toda a nossa prosperidade e tecnologia são baseadas na energia de combustíveis fósseis. Isso libera milhares de toneladas de CO2 na atmosfera a cada ano.

    Uma segunda causa é o desmatamento, porque conforme as árvores crescem, elas removem o dióxido de carbono da atmosfera. Portanto, o corte de florestas para madeira, agricultura ou indústria aumenta as emissões de carbono. Desde 2010, a floresta amazônica emitiu mais CO2 do que armazena.

    Uma terceira causa são as emissões de metano. O metano é um poderoso gás de efeito estufa que tem efeito de aquecimento até 80 vezes mais do que o CO2 no curto prazo. Pecuária, extração de combustível fóssil e aterros são os principais culpados pelas emissões de metano. Desde o início das medições em 1983, o nível de metano na atmosfera aumentou mais rápido do que nunca. Este também é um fato preocupante para o planeta.

    1. Quem são os maiores emissores?

    O dióxido de carbono permanece na atmosfera por séculos. O efeito é cumulativo. As emissões estão distribuídas de forma muito desigual, tanto hoje como no passado.

    Apenas 90 grandes empresas são historicamente responsáveis ​​por quase dois terços das emissões de gases de efeito estufa nos últimos 200 anos. São quase exclusivamente empresas dos países do Norte.

    Se você olhar para os próprios países, os países ricos e industrializados juntos respondem por 64% das emissões cumulativas de dióxido de carbono. Por outro lado, os 54 países africanos respondem por apenas 4% das emissões globais de carbono, mas hoje são responsáveis ​​por cerca de 80% do impacto das mudanças climáticas.

    Mas também há uma grande diferença dentro dos próprios países. Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, os 10% mais ricos causam pelo menos cinco vezes mais emissões do que os 50% mais pobres. Os 10% mais ricos do planeta emitem até 175 vezes mais do que os 10% mais pobres.

    Em termos absolutos, a China é hoje o maior emissor de CO2. Mas se você olhar para a figura per capita, o país está apenas na 42ª posição, precedido por muitos países europeus. São principalmente os Estados do Golfo e países como Canadá, Estados Unidos e Austrália os principais culpados.

    E mesmo essas figuras dão uma imagem distorcida. A maioria dos países altamente industrializados consome mais emissões do que produzem. Em países como a China, é apenas o contrário. As exportações chinesas representam cerca de 5% das emissões globais de combustíveis fósseis. Dois terços dessas exportações de emissões vão para os países da OCDE (o clube dos 38 países ricos).

    1. Quais são os principais impactos?

    Dois séculos atrás, a temperatura média começou a aumentar continuamente. Mas, desde a Segunda Guerra Mundial, o aumento foi exponencial. Isso causa uma série de efeitos prejudiciais.

    Condições climáticas extremas

    Primeiro, as condições climáticas extremas. Ondas de calor e secas extremas serão 4 a 9 vezes mais frequentes do que no passado. Se nos aproximarmos de 3 ° C, quase toda a América do Norte e Europa terão um risco maior de incêndios florestais. Os rios da França e, portanto, do resto da Europa, podem perder até 40% de seu fluxo e se tornar em grande parte não navegáveis.

    As chuvas extremas, que causaram inundações fatais na Alemanha e na Bélgica no verão passado, serão até nove vezes mais frequentes. O número de eventos climáticos excepcionais que causam inundações, como tempestades e tsunamis, pode ser multiplicado por dez.

    Uma média de cinco milhões de pessoas já morrem a cada ano como resultado de eventos climáticos extremos. Somente as condições climáticas extremas adicionaram uma média de 25,3 milhões de deslocados anualmente desde 2008. Em 2060, cerca de 1,4 bilhão de pessoas poderiam ser refugiados do clima.

    Descongelar e aumentar o nível do mar

    Uma segunda consequência importante do aquecimento do clima é o degelo. O Pólo Norte, o Pólo Sul e a Groenlândia contêm quantidades gigantescas de gelo, que agora está derretendo lentamente. O Ártico está se aquecendo quase três vezes mais rápido do que a Terra como um todo. A Groenlândia perdeu mais gelo na última década do que no século passado.

    Isso, por sua vez, está causando vários efeitos. O gelo dá lugar a águas mais escuras, que absorvem mais calor solar do que o gelo, aquecendo ainda mais o planeta. Além disso, o permafrost (uma área cujo subsolo nunca degela completamente) do Ártico contém metano suficiente para aquecer o planeta em 20ºC. Já está sendo lançado em grandes quantidades no norte da Rússia. Nem todo esse metano pode ser liberado no curto prazo, mas devemos pelo menos evitá-lo no longo prazo.

    Um último mas não menos importante efeito é o aumento do nível do mar. Os cientistas estimam que, no melhor dos casos, o nível do mar subirá entre 1 e 2 metros até o ano 2100. Mas essa elevação continuará por milênios e pode produzir oceanos até 6 metros mais altos do que hoje. Megacidades como Londres, Jacarta, Nova York e Xangai não podem sobreviver a tal aumento no nível do mar. Em 2100, um quinto da população mundial poderá ser deslocada pelo aumento do nível do mar.

    Não é apenas o gelo marinho que está derretendo. As geleiras também são afetadas. Eles são os reservatórios de 95% da água doce do planeta. Atualmente, 2% de sua massa derrete a cada ano. Espera-se que mais da metade das grandes geleiras do mundo tenham desaparecido até o final deste século.

    Pontos de virada e efeitos de auto-reforço

    Até agora, o aquecimento global tem sido bastante previsível e em uma taxa bastante uniforme. Mas isso pode mudar uma vez que certos limites sejam excedidos ou devido a efeitos de auto-reforço.

    Um exemplo desse efeito de auto-reforço: a queima de combustíveis fósseis causa temperaturas mais altas e longos períodos sem chuva. Isso leva a mais incêndios, liberando mais carbono na atmosfera, o que por sua vez leva a condições ainda mais quentes e secas, e mais incêndios.

    Os cientistas já apontaram vários desses efeitos de auto-reforço. Eles apontam que o aquecimento global é muito complexo e que mudanças graduais no clima podem repentinamente causar consequências drásticas quando um certo limite é excedido. Esses limiares não são necessariamente predeterminados e um ponto de inflexão climático pode fazer com que outro caia, assim como os dominós.

    1. Qual é a diferença entre 1,5 ° C e 2 ° C?

    A cúpula do clima em Paris tinha como objetivo principal um aquecimento de 2 ° C, agora o consenso está cada vez mais caminhando para 1,5 ° C. A diferença não parece grande, mas as consequências são.

    Os riscos das mudanças climáticas e sua irreversibilidade aumentam rapidamente entre 1,5 ° C e 2 ° C de aquecimento. Isso é o que mostram os modelos científicos. Nos últimos anos já vimos – também no nosso próprio país – as consequências de um mundo entre 1,1 e 1,2 ° C mais quente. Eles não são muito reconfortantes.

    Com um aumento de temperatura de mais de 1,5 ° C, o Ártico provavelmente perderá seu gelo de verão, com consequências terríveis para o resto do clima (veja acima). A camada de gelo da Groenlândia também pode entrar em um estado de declínio irreversível.

    Um aumento de mais de 1,5 ° C pode alterar irreparavelmente a Corrente do Golfo, com consequências desastrosas para a agricultura e a biodiversidade. A 2 ° C, pequenas ilhas e áreas costeiras baixas em todo o mundo seriam inundadas.

    “A 1,5 ° C, 700 milhões de pessoas estariam em risco de ondas de calor extremas. A 2 ° C, haveria 2 bilhões. A 1,5 ° C, 70% dos recifes de coral do mundo morrerão. A 2 ° C, todos eles desapareceram. ” Diz Alok Sharma, presidente da cúpula do clima de Glasgow.

    Podemos considerar que 1,5 ° C é um daqueles limiares de aquecimento global mencionados anteriormente. O último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) afirma que cada fração de um grau conta. Cada décimo de grau Celsius de aquecimento que podemos evitar tornará o planeta muito mais habitável para as gerações futuras.

    1. É tarde demais para interromper o aquecimento global?

    Depois de cada relatório do IPCC, ouve-se que quase não resta tempo para evitar uma crise climática. Em agosto, o secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou o último relatório do IPCC de “código vermelho para a humanidade”.

    Ainda não é tarde, mas o tempo que resta é muito curto. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há 40% de chance de que em cinco anos já tenhamos uma média anual de mais de 1,5 ° C acima dos níveis pré-industriais.

    Para ter a chance de limitar o aquecimento global a 1,5ºC, temos “oito anos para cortar as emissões de gases de efeito estufa quase pela metade”, de acordo com Inger Andersen, Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). “Oito anos para desenvolver planos, adotar políticas, implementá-las e, em última instância, reduzir as emissões. O tempo corre.”

    Não é de surpreender que cientistas e políticos considerem a década de 2020 a década crucial para o clima.

    Em outras palavras, coloque toda a carne na grelha e acelere os esforços atuais. Para ficar abaixo de 1,5 ° C, o carvão, por exemplo, terá que ser removido cinco vezes mais rápido do que hoje. O reflorestamento precisa acontecer três vezes mais rápido, o financiamento do clima precisa crescer 13 vezes mais rápido e a intensidade energética dos edifícios precisa diminuir quase três vezes mais rápido do que agora. Em países prósperos, o consumo de carne bovina deve cair uma vez e meia mais rápido do que agora. E assim por diante.

    Não é uma questão de falta de recursos ou tecnologia para evitar uma crise climática. Segundo o Papa, “a humanidade nunca teve tantos meios à sua disposição para atingir este objetivo”. É antes uma questão de vontade política e de muita coragem. Greta Thunberg afirma com veemência: “Para que o Glasgow Cop26 seja um sucesso, é preciso muito. Mas acima de tudo, é preciso honestidade, solidariedade e coragem ”.

    1. O que deve ser feito para evitar uma crise climática?

    De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), sabemos exatamente o que fazer. O desafio nunca foi visto, uma vez que nada menos do que uma revolução em nosso sistema de energia foi necessária. No entanto, de acordo com a IEA, essa revolução é tecnicamente viável e acessível (veja abaixo).

    Lembre-se de que, entre 1850 e 2000, o consumo de energia da humanidade se multiplicou por 15. Nos próximos 30 anos, 90% ou mais da energia mundial atualmente produzida a partir de combustíveis fósseis terá que ser fornecida por fontes alternativas. Esta é, sem dúvida, uma tarefa gigantesca.

    De acordo com a IEA, a eletrificação baseada em fontes renováveis ​​de energia está no centro do novo sistema energético. Para transporte e certas aplicações industriais, outras fontes de energia também são necessárias, como hidrogênio, bioenergia ou usinas de combustível fóssil que enterram seus resíduos em vez de emiti-los. A energia nuclear também é recomendada por alguns, mas não é recomendada.

    A eliminação do carvão é urgente e essencial. As emissões de metano devem ser reduzidas substancialmente no curto prazo. Isso significa, entre outras coisas, que a agricultura e o consumo de alimentos precisam de um sério reajuste. A revolução energética também significa que a grande maioria das reservas de combustível fóssil deve permanecer no subsolo. Este será um dos desafios mais difíceis, mas é crucial. Além da revolução energética, o reflorestamento também será importante para desacelerar o aquecimento do clima.

    A revolução energética terá que ser global. O que acontecer nos países em desenvolvimento será decisivo. É aqui que a população cresce mais rápido e onde a demanda por energia é maior. Isso significa que os países ricos devem disponibilizar recursos financeiros e know-how tecnológico para que também dêem o salto para uma economia sustentável.

    1. É acessível e quem deve pagar?

    Para atingir emissões zero, a Agência Internacional de Energia (IEA) estima que US $ 4 trilhões serão necessários anualmente até 2030, em comparação com os atuais trilhões. Esses altos investimentos serão parcialmente compensados ​​por custos operacionais mais baixos e, em alguns casos, podem até gerar benefícios líquidos significativos.

    Além da miséria humana, o custo da inação é impressionante: haverá cerca de US $ 600 trilhões até o final do século. Em outras palavras, as perdas devido à degradação do clima superam em muito os investimentos necessários para evitá-las.

    Na cerimônia de abertura da cúpula do clima, o primeiro-ministro de Barbados observou que os bancos centrais injetaram US $ 25 trilhões nos mercados financeiros desde a crise financeira, incluindo US $ 9 trilhões nos últimos 18 meses para combater a Covid -19. Ele se pergunta por que isso não pode ser repetido para combater o aquecimento global.

    “Si hubiéramos utilizado esos 25 billones de dólares para comprar bonos para financiar la transición energética, para la transición de la forma en que comemos o cómo nos movemos en el transporte, ahora estaríamos alcanzando ese límite de 1,5°C que es tan vital para nós.”

    Mas você nem precisa procurar tão longe. Hoje, US $ 5 trilhões são gastos anualmente em subsídios aos combustíveis fósseis. Se direcionarmos esse dinheiro para a tão necessária transição energética, o trabalho estará feito.

    Uma questão importante é quem deve pagar a conta. O movimento do colete amarelo deixou claro que um plano climático só pode ser bem-sucedido se for feito de maneira justa. Os vulneráveis ​​devem ser protegidos e os mais responsáveis ​​arcam com a maior parte do fardo. Para Thomas Piketty, “não há outra solução para o problema do clima do que uma redução muito forte da desigualdade”.

    De acordo com Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos, a crise climática e a desigualdade na sociedade devem ser enfrentadas em conjunto e os ricos podem ser visados: “Para fechar a lacuna de emissões até 2030, os governos devem concentrar suas ações nos poluidores mais ricos. (…) Isso inclui medidas para conter o consumo de carbono de luxo, como megaiates, jatos particulares e viagens espaciais, bem como investimentos intensivos em clima, como participação acionária na indústria de combustíveis fósseis ”.

    Em escala global, isso significa que os países do Norte terão que ajudar os do Sul. A IEA estima que cerca de 70% dos US $ 4 trilhões de investimentos anuais devam ir para países emergentes e em desenvolvimento. A cifra chega a US $ 2,8 trilhões e está muito longe da prometida ajuda anual de US $ 100 bilhões, que ainda não foi alcançada. Portanto, uma reviravolta completa nesta área será necessária.

    1. Quão importante é a Cúpula de Glasgow?

    As expectativas de uma cúpula do clima costumam ser altas. E com razão, porque nada menos do que o futuro do nosso planeta está em jogo. No entanto, essas cúpulas geralmente não levam aos avanços esperados.

    Em parte, isso se deve ao fato de o processo de tomada de decisão em tal cúpula do clima ser muito complexo. Os contrastes entre os diferentes atores às vezes são muito grandes e, na ausência de um governo mundial, não há forma de executoriedade. Além disso, muitos governantes negociam dentro das possibilidades impostas pelos grandes grupos de capitais em seus países. Por exemplo, os Estados Unidos não assinam o pacto do carvão porque Biden precisa do apoio no Congresso de um senador patrocinado pela indústria do carvão.

    Nestas circunstâncias, é típico destas cimeiras que se façam grandes promessas retóricas, mas faltem medidas concretas para as cumprir, quanto mais para as cumprir. Infelizmente, não é incomum que uma cúpula do clima seja usada para fazer uma lavagem verde.

    Este encontro não é exceção. A promessa de parar o desmatamento até 2030 é um bom exemplo. Essa bela promessa não é obrigatória nem transparente e carece de um plano de financiamento. Além disso, o registro nesse meio tempo pode continuar rapidamente.

    Algo semelhante pode ser visto nas promessas de grandes grupos financeiros de investir o capital necessário na transição energética. Se os signatários não apresentam planos verossímeis e concretos no curto prazo, isso cheira mais a lavagem verde. Segundo um investidor, compromissos voluntários não resolvem o problema. O que é necessário é regulamentação. Exatamente o que esses grupos financeiros não querem, é claro.

    O importante em uma cúpula desse tipo é que algum tipo de consenso seja alcançado. Que sejam evitadas divisões ou recriminações, como em Copenhague em 2009. Para esta cúpula, é muito importante estabelecer um roteiro claro que possa impedir de maneira confiável que o mundo ultrapasse 1,5 ° C.

    A questão então é como garantir que esse roteiro se torne uma realidade. A verdadeira luta nesse sentido não será travada nesta cúpula. Enquanto os governantes seguirem o caminho dos grandes grupos do capital, essas cúpulas continuarão a se limitar a promessas vagas e não obrigatórias e nosso planeta estará condenado.

    Cabe a nós construir um equilíbrio de poder diferente e forçar os líderes governamentais e a elite econômica a seguir um curso diferente. Uma ação que não garante os benefícios dos grandes grupos de capitais, mas sim do planeta. Um curso que evita que a conta seja paga por nós, gente comum.

    Os jovens acertaram com suas greves climáticas. É fundamental que os trabalhadores busquem também formas de luta que garantam a sobrevivência do nosso planeta e o façam de forma social.

    Fonte: https: //www.dewereldmorgen.be/artikel/2021/11/05/acht-zaken-die-je-moet -…

    https://www.alainet.org/es/articulo/214343

     

  • Solange Rodrigues descansou no Senhor

    Solange Rodrigues nos deixou, prematuramente, aos 63 anos. Ela fez uma cirurgia há quatro dias para a retirada de um pequeno tumor no pâncreas e, depois, não voltou à consciência. Faleceu na noite do dia 15 de agosto.

    Solange entrou na Equipe de Assessoria em 1985, seu primeiro trabalho importante foi na Grande Avaliação da Arquidiocese de Vitória (GRAVA, 1986) e, desde então, sempre se dedicou às CEBs. Foi tema de sua dissertação de mestrado, orientada pela antropóloga Regina Novaes, amiga de sempre. Escreveu inúmeros artigos, colaborou em vários livros – inclusive Textos-Base de encontros intereclesiais -, contribuiu em diferentes cartilhas. A mais recente foi “CEBs: caminhando com Jesus de Nazaré” (2021), produção do GT de Formação da Ampliada Nacional das CEBs. Alguns dias antes de se internar, publicou um artigo no Portal das CEBs, “A articulação de CEBs na atualidade”. Nos últimos anos, na parceria do Iser Assessoria com o Setor CEBs da CNBB, foi fundamental na organização de vários seminários de assessores e publicações. A outra dedicação de sua vida foi aos jovens, ela própria vinda da Pastoral de Juventude. Participou de uma grande pesquisa (Retratos da Juventude Brasileira, 2005) e de outras pesquisas, publicou diversos textos, assessorou em muitas ocasiões a Pastoral da Juventude. Era uma referência para esta temática.

    Solange era uma pessoa incansável na equipe do Iser Assessoria, é muito difícil imaginar nossa equipe sem a sua presença. Que descanse na Paz do Senhor.

    Iser Assessoria

  • Leonardo Boff – É preferível um ateu ético que um cristão indiferente diante dos sofredores das periferias

    “É possível ainda crer em Deus num mundo que manipula Deus para atender a interesses perversos do poder?”, pergunta Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, em artigo publicado em seu site, 30-07-2021.

    É preferível um ateu ético que um cristão indiferente diante dos sofredores das periferias“. Essa frase não é minha. É repetida várias vezes pelo Papa Francisco ao assistir como cristãos rejeitam refugiados famélicos e desesperados buscando na Europa salvar suas vidas. Quem tem Deus nos lábios e está longe da sensibilidade humana e da justiça mínima, está longe de Deus e seu Deus é antes um ídolo do que o Deus amante da vida e da ternura dos oprimidos.

    Quem vive os valores da justiça, da solidariedade, da compaixão e do cuidado de uns para com os outros incluindo a natureza está mais próximo de Deus do que aquele piedoso que frequenta a igreja, faz suas rezas e comunga mas que passa ao largo dos pobres que encontra na rua.

    O presidente norte-americano Bush Jr usava frequentemente Deus bem como Bin Laden. Em nome de seu Deus fizeram guerras e promoveram atentados aterradores. Era um Deus belicoso, inimigo da vida e impiedoso destruidor de inteiras cidades com inumeráveis vítimas, particularmente inocentes crianças.

    Entre nós o presidente Jair Bolsonaro coloca Deus acima de tudo, mas nega-o praticamente a todo momento com ódio aos negros, aos quilombolas aos indígenas, aos homoafetivos e a seus adversários políticos que os transforma não em adversários mas em inimigos a quem se deve perseguir e difamar. Acostumou-se à mentira direta, às fake news, a ponto de nunca sabermos quando diz a verdade ou simplesmente diz mais uma mentira.

    O mais grave, entretanto, que o Deus que continuamente tem em seus lábios não o moveu a um gesto de solidariedade às milhares de famílias que choram seus entes queridos, parentes e amigos. Nunca visitou um hospital para ver a dramática situação da falta de oxigênio e a morte por sufocamento de centenas de pessoas como ocorreu em Amazonas. Se pelo menos fizesse uma obra de misericórdia que é visitar os enfermos. Sua prática nega Deus e o torna um ateu prático, antiético e perverso.

    ódio que destila, a falta de qualquer respeito e veneração face à sacralidade da vida incorpora traços que as Escrituras atribuem ao anti-Cristo. É próprio do anti-Cristo usar o nome de Deus e de Jesus para enganar e seduzir as pessoas para o caminho da perversidade. Marca do anti-Cristo é seu desprezo pela vida e sua pulsão pela morte.

    Mas esse Deus é um ídolo porque não é possível que o Deus vivo e verdadeiro queira o que ele quer. O ateísmo ético tem razão ao negar esse tipo de religião com o seu Deus que justificou outrora as cruzadas, a caça às bruxas, a inquisição, o colonialismo, a Shoah judaica e atualmente o genocídio provocado pela Covid-19, particularmente entre os indígenas e os pobres sem proteção nas grandes periferias das cidades.

    É possível ainda crer em Deus num mundo que manipula Deus para atender a interesses perversos do poder? Sim, é possível, à condição de sermos ateus de muitas imagens de Deus que conflitam com o Deus da experiência dos praticantes religiosos sinceros e consequentes e dos puros de coração.

    Então a questão hoje é: Como falar de Deus, sem passar pela religião? Porque falar religiosamente como Jair Bolsonaro e antes Bin Laden e Bush falaram é blasfemar Deus.

    Mas podemos falar secularmente de Deus sem referir seu nome. Como bem dizia o grande profeta já falecido Dom Casaldáliga: se um opressor diz Deus eu lhe digo justiça, paz e amor, pois estes são os verdadeiros nomes de Deus que ele nega. Se o opressor disser justiça, paz e amor eu lhe digo Deus pois sua justiça, paz e amor são falsos.

    Podemos falar secularmente de Deus a partir de um fenômeno humano que, analisado, remete à experiência daquilo que chamamos Deus. Penso no entusiasmo. Em grego, de onde se deriva entusiasmo é enthusiasmós. Ela se compõe de três partes: en (em) thu (abreviação de theós=Deus), e mos (terminação de substantivos). Entusiasmo significa, pois, ter um Deus dentro, ser tomado por uma Energia singular que nos faz lutar pela vida, pelos direitos e pelos empobrecidos.

    É uma força misteriosa que está em nós mas que é também maior que nós. Nós não a possuímos, é ela que nos possui. Estamos à mercê dela. O entusiasmo é isso, o Deus interior. Vivendo o entusiasmo, neste sentido radical, estamos vivenciando a realidade daquilo que chamamos Deus.

    Essa representação é aceitável porque Deus se tornou íntimo e dentro de nós, embora também sempre para além de nós. Bem dizia Rumi, o maior místico do Islã: “Quem ama a Deus, não tem nenhuma religião, a não ser Deus mesmo”. Deus mesmo não tem religião.

    Nestes tempos de idolatria oficial há que se resgatar este sentido originário e existencial de Deus. Seu nome é amor, é justiça, é solidariedade, é gratuidade, é capacidade de renunciar para o bem do outro, é ter compaixão e infinita misericórdia. Quem vive nesta atmosfera de valores, está mergulhado em Deus. Somos habitados pelo Deus interior através do entusiasmo que confere sentido às nossas lutas.

    Sem pronunciar-lhe o nome, o acolhemos reverentemente com o entusiasmo que nos faz viver e que nos permite a alegre celebração da vida.

  • O Planeta também necessita de uma UTI

    O IHU traduziu e publicou importante artigo que indica que os sinais vitais do planeta se aproximam dos pontos de não retorno. É o que indica um novo estudo que alerta que a crise climática se acentua, sem que haja ações suficientes. Segue o artigo:

    Sinais vitais do planeta: A ciência pede “mudanças transformadoras do sistema”

    A reportagem é de Eduardo Robaina, publicada por La Marea-Climática, 29-07-2021. A tradução é do Cepat para o IHU de 30 Julho 2021.

    Ano 2019. A humanidade vive alheia às máscaras, distância física, toques de recolher e álcool em gel. Naquele momento, a COVID-19 ainda não havia desestabilizado o mundo e os olhos da comunidade científica estavam sobre uma grande crise que não era nova, mas que começava a receber uma atenção como nunca antes: a climática.

    A gravidade era tamanha (e ainda é) que uma coalizão de mais de 11.000 cientistas, de 153 países, assinou um artigo em que declaravam uma emergência climática (com o acréscimo de quase 3.000 a mais, posteriormente), ao mesmo tempo em que estabeleciam um conjunto de sinais vitais para a Terra com a finalidade de medir a ação climática efetiva. Desde então, passaram-se 20 meses, com uma pandemia no meio que ainda continua. Em que ponto está o planeta e, por conseguinte, os seres que o habitam?

    Um novo estudo revisado por pares e publicado nesta semana na revista científica BioScience conclui, para surpresa de (quase) ninguém, que tudo segue igual em relação à ação climática, enquanto a emergência climática é ainda mais evidente. O trabalho, liderado por uma equipe de pesquisa da Universidade do Estado do Oregan, constata que não foram tomadas as medidas necessárias para enfrentar a crise climática, sendo que esta, a cada dia, dá demonstrações de sua capacidade de destruição e de piorar a vida das pessoas, sobretudo a das mais vulneráveis.

    Dois anos após aquele artigo no qual se declarava a emergência climática, “houve um aumento sem precedentes dos desastres relacionados ao clima, incluindo inundações devastadoras na América do Sul e no sudeste da Ásia, ondas de calor e incêndios florestais que bateram recordes na Austrália e no oeste dos Estados Unidos, uma extraordinária temporada de furacões no Atlântico e ciclones devastadores na África, no sul da Ásia e no Pacífico ocidental”, destaca o estudo.

    Além disso, os autores alertam que “há cada vez mais provas de que estamos nos aproximando ou já cruzamos pontos de inflexão associados a partes críticas do sistema terrestre, como as camadas de gelo da Antártida Ocidental e Groenlândia, os recifes de coral de águas quentes e a mata amazônica”. Basta rever as imagens devastadoras do mês de julho para constatar esta realidade apontada pela comunidade científica.

    Uma situação insustentável

    “Os fenômenos e padrões climáticos extremos que presenciamos nos últimos anos – para não falar das últimas semanas – manifestam a necessária e grande urgência em abordar a crise climática”, afirma o doutor Philip Duffy, coautor do relatório e diretor executivo do Centro de Pesquisa Climática Woodwell. Em seu estudo, foram pesquisadas as mudanças recentes nos sinais vitais planetários desde a publicação do artigo anterior que declarava a emergência climática. Das 31 variáveis analisadas, os autores descobriram que 18 estão em novos mínimos ou máximos históricos.

    Em referência aos gases do efeito estufa – responsáveis pelo aquecimento que impulsiona a mudança climática -, os três mais importantes – o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso – chegaram a novos recordes de concentrações atmosféricas até este momento do ano, tanto em 2020 como em 2021. Em abril deste ano, a concentração de CO2 atingiu 416 partes por milhão (ppm), a maior concentração média mensal mundial, jamais registrada. O nível seguro, segundo a ciência, gira em torno de 350 ppm.

    Essas altas concentrações fizeram com que 2020 fosse o ano mais quente na Espanha e na Europa desde que há registros, ao passo que o nível mundial empata com 2016. Além disso, os cinco anos mais quentes, já registrados, ocorreram a partir de 2015.

    Outro dos sinais vitais cruciais destacados pelos autores é o fato de que a superfície total queimada nos Estados Unidos aumentou em 2020, alcançando os 4,1 milhões de hectares, a segunda maior quantidade já registrada. Atualmente, o país norte-americano acumula ao menos 86 incêndios florestais em sua parte oeste.

    Também preocupam, e muito, as taxas de perda anual de matas na Amazônia brasileira, que aumentaram tanto em 2019 como em 2020, alcançando 1,11 milhão de hectares desmatados, a maior nos últimos 12 anos. Este aumento, segundo os pesquisadores, deve-se provavelmente ao enfraquecimento na aplicação da lei sobre o desmatamento, o que desencadeou um forte aumento na utilização ilegal de terras para a pecuária e a soja. “A degradação das matas devido a incêndios, seca, corte e fragmentação fez com que esta região atue como fonte de carbono em vez de sumidouro”, aponta o estudo.

    Mesma situação de alarme com as camadas de gelo da Groenlândia e a Antártida. Ambas continuam com sua precipitada perda de massa, enquanto a extensão do gelo marinho do Ártico segue diminuindo até atingir mínimos históricos a cada verão. As geleiras estão derretendo muito mais rápido do que se acreditava, perdendo 31% a mais de neve e gelo por ano do que há apenas 15 anos.

    Em relação aos oceanos, a acidificação de suas águas está próxima do recorde. Junto com o estresse térmico, ameaça os recifes de coral dos quais mais de 500 milhões de pessoas dependem para obter alimentos, além de ser um grande recurso para o turismo e de oferecer proteção contra tempestades.

    O artigo também menciona que, “pela primeira vez, o número de ruminantes (uma importante fonte de gases do efeito estufa) no mundo ultrapassou os 4 bilhões”, o que representa uma massa muito maior “que a de todos os humanos e mamíferos selvagens juntos”. Um dado que contrasta, segundo o documento, com o fato de que a produção recente de carne per capita diminuiu em aproximadamente 5,7% (2,9 quilos por pessoa), entre 2018 e 2020.

    “As futuras quedas no consumo e a produção de carne provavelmente não ocorrerão até que haja uma mudança generalizada para dietas baseadas em plantas ou que aumente o uso de análogos (substitutos) da carne, cujas popularidade está crescendo e se prevê que alcancem um valor de 3,5 bilhões de dólares em todo o mundo até 2026”, citam os autores.

    Apesar dos indicadores ruins, o estudo tenta lançar algo de esperança. Por exemplo, comemora que houve um forte aumento no desinvestimento em combustíveis fósseis: os subsídios foram reduzidos para um mínimo histórico de 181 bilhões de dólares em 2020, uma queda de 42% em relação aos níveis de 2019.

    O que fazer diante da emergência

    Em resposta a essas descobertas sem precedentes e à atual crise climática, o estudo pede que os combustíveis fósseis sejam progressivamente eliminados, que sejam criadas reservas climáticas estratégicas para o armazenamento de carbono e a proteção da biodiversidade e que se fixe um preço mundial do carbono suficientemente alto para induzir à “descarbonização” em todo o espectro industrial e de consumo.

    “Temos que mudar rapidamente a maneira como estamos fazendo as coisas, e as novas políticas climáticas deveriam fazer parte dos planos de recuperação da COVID-19, sempre que possível. É hora de nos unirmos como comunidades global, em um sentido compartilhado de cooperação, urgência e equidade”, pede William Ripple, principal autor do estudo e reconhecido professor de ecologia da Universidade do Estado do Oregan.

    O artigo insiste em que uma das principais lições surgidas do coronavírus é que nem sequer uma diminuição colossal do transporte e o consumo é o suficiente e que, ao contrário, “são necessárias mudanças transformadoras do sistema, que devem estar acima da política”. “Considerando os impactos que estão sendo observados no planeta, com um aquecimento de aproximadamente 1,25 grau, junto com os inúmeros processos de retroalimentação que se reforçam e os possíveis pontos de inflexão, é necessário urgentemente uma ação climática em grande escala”, lê-se no estudo, onde denunciam que, em 5 de março de 2021, “só 17% de tais fundos [pós-COVID-19] haviam sido destinados para uma recuperação ecológica”.

    E encerram lançando um apelo pela igualdade e a importância da educação: “Toda ação climática transformadora deve se centrar na justiça social para todos, dando prioridade às necessidades humanas básicas e reduzindo a desigualdade”. Nesse sentido, “como requisito prévio a esta ação, a educação sobre a mudança climática deveria ser incluída nos planos de estudo das escolas do mundo todo. Em geral, isto traria uma maior conscientização sobre a emergência climática, ao mesmo tempo em que capacitaria os alunos para passar à ação”.

     

  • Roberto Malvezzi (Gogó)
     Quando a paróquia vira um inferno!

    Padre Lino Allegri

    Um dos demônios alimentados pelos fundamentalistas religiosos é que nos países comunistas não há liberdade religiosa. Lá seriam proibidas missas, celebrações, procissões, assim por diante. Aqui, no Brasil, muito pelo contrário, a liberdade religiosa é total e completa.
    Talvez, se fôssemos perguntar aos terreiros de candomblé e outras expressões religiosas de origem africana, eles nos diriam que nem sempre têm liberdade religiosa. Antigamente a Igreja Católica se sentia no direito de perseguir os cultos afros no Brasil, até pichados como coisas do demônio. Na verdade, foi um comunista chamado Jorge Amado que introduziu na Constituição Brasileira de 1946 a liberdade religiosa para os cultos afros. Hoje, muitos pastores e igrejas evangélicas se sentem no direito de perseguir os cultos afros.
    O mesmo com os povos indígenas. Como me dizia um jovem indígena num dos preparativos do Sínodo para a Amazônia: “o pastor vai lá na tribo, a gente o acolhe bem, ele diz que nossa religião é coisa do demônio. A gente escuta, quando ele vai embora, a gente faz os nossos ritos”.
    Mas, alguma coisa de pior está acontecendo. A Paróquia da Paz, em Fortaleza, está sendo invadida por “católicos” durante as celebrações, que se sentem no direito de berrar, atacar o padre, criar confusão e divisão durante a própria celebração da Eucaristia. Não são os perseguidores dos cultos afros e nem dos índios, são católicos, os que se julgam verdadeiros intérpretes do Evangelho e da doutrina da Igreja Católica. Não são comunistas, muito ao contrário, são militares, defensores da pátria, da família, dos “Deus acima de todos”, inclusive da liberdade religiosa. Enfim, são os bolsonaristas, os fascistas de estilo brasileiro.
    Assim será se permitirmos que se instale no Brasil uma ditadura religiosa, uma teocracia, sempre a pior de todas as ditaduras, porque feitas em nome de Deus, ou o tal do “cristofascismo”. Sei lá o que quer dizer “terrivelmente evangélico”, ou “terrivelmente católico”, o certo é que que estas pessoas se sentem no direito de infernizar a vida dos outros, de ofender o Papa Francisco, ofender padres, bispos e leigos que tem um mínimo de fidelidade ao Evangelho. Enfim, querem impor suas ideias religiosas ao resto do país na estupidez e brutalidade.
    Ou esse país acorda, ou até nossas paróquias e comunidades vão se tornar um inferno.
    Toda solidariedade aos padres Lino, Ermanno e Luís Sartorel, italianos no Brasil, nossos amigos desde a década de 80, que saíram do conforto do primeiro mundo para estar a serviço dos setores mais descartados da sociedade brasileira.

    P.S. Apoiadores de Bolsonaro hostilizam padre que fez críticas ao presidente

    Após manifestar posição contrária ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante missa celebrada neste domingo, 4, o padre Lino Allegri, 82, da Paróquia da Paz, em Fortaleza, foi hostilizado por um grupo de fiéis apoiadores do atual presidente. Insatisfeitas com as declarações do sacerdote — que durante a homilia criticou as mais de 500 mil mortes por Covid-19 no Brasil —, cerca de oito pessoas entraram sem autorização na sacristia e o repreenderam pela sua fala. O fato ocorreu minutos após a celebração da missa, quando a maioria dos fiéis já havia deixado o local.

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