O texto a seguir é a primeira parte de um longo artigo que se propõe a refletir sobre as escolhas dos futuros arcebispos de quatro das principais sedes eclesiásticas da Igreja do Brasil. Nas linhas que se seguem, colocaremos em perspectiva as possibilidades de mudanças no perfil do episcopado brasileiro que a nomeação para Aparecida parece indicar. No segunda parte desse artigo, na próxima semana, serão discutidos perfis e padrões nas escolhas dos bispos brasileiros.
Semanas atrás, vários órgãos da imprensa brasileira deram destaque a sucessão episcopal que ocorrerá em lugares considerados emblemáticos para a Igreja no Brasil. Aparecida, São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus são sedes arquiepiscopais muito importantes. Os novos titulares destas arquidioceses, diziam as matérias, poderá indicar o perfil de liderança que Leão XIV deseja para o catolicismo no Brasil.
A indicação de Dom Mário Antônio para Aparecida, sucedendo a Dom Orlando Brandes foi muito bem recebida pelos segmentos católicos mais identificados com a proposta de uma Igreja em Saída. Entretanto, apesar de ampliar esperanças de mudanças significativas, ainda é muito cedo para que se enxergue nessa nomeação uma mudança no padrão das escolhas dos bispos para as dioceses brasileiras.
No pontificado anterior, a despeito do grande Bispo de Roma que Francisco foi, no Brasil havia uma máquina muito bem azeitada em escolher candidatos ao episcopado que, na prática, não eram muito identificados com as principais intuições e com o projeto de Igreja que Bergoglio queria imprimir. Precisamos levar em conta que havia um clima de guerra civil interna durante a maior parte do papado anterior, conforme sinalizou em inúmeras oportunidades o vaticanista Marco Políti.
Em países como Espanha, na Itália e, de forma mais ostensiva, nos Estados Unidos, desafios e desrespeitos à autoridade de Bergoglio ganharam proporções nunca antes vistas na história contemporânea do papado. No Brasil não tivemos algo nessa proporção, salvo nas redes digitais – em que grupos e influenciadores com muitos seguidores mas pouco numerosos na prática reproduziram alguns desses absurdos – onde houve muitos incômodos com o pontífice argentino.
Mas isso não significa que o pontificado de Bergoglio teve adesão irrestrita pelo catolicismo em nosso país. Ao contrário, na Igreja do Brasil se estabeleceu uma tenaz resistência ao magistério de Francisco. No episcopado, essa resistência nunca foi explícita e nem ostensiva, mas foi eficiente atuando nas sombras.
Por um lado, foram “empurrando com barriga” as grandes intuições do predecessor de Leão XIV, na esperança (frustrada) de um breve pontificado e um retorno ao inverno eclesial que caracterizou papados anteriores. Esse empurrar com a barriga se traduziu em certo silenciamento dos grandes temas do Magistério de Francisco. Também houve o empobrecimento dos debates locais acerca dos sínodos convocados por Bergoglio, com a marginalização de iniciativas que se conectavam ao projeto de uma Igreja em Saída, como as Campanhas da Fraternidade.
Por outro lado, opositores às reformas da Igreja estabeleceram uma articulação sofisticada, cujos elos perpassam por eminentes purpurados, a Nunciatura Apostólica (não é novidade, como já assinalava Pedro Casaldáliga nos anos 1980) e segmentos do Dicastério dos Bispos, curiais que se opunham à Francisco. Ainda assim, tivemos boas nomeações episcopais nesse período, mas pairava a sensação de prevalecer a lógica de se “dar uma no cravo e outra na ferradura”.
Mas a estratégia dessa oposição não se limitava a seleção de candidatos ao episcopado com perfil menos alinhado à Bergoglio. Em movimento digno de jogo de xadrez, uma série de grandes nomes do episcopado brasileiro, muito identificados com o antecessor de Leão, foram transferidos entre 2023 e 2025 para novas dioceses. E em alguns regionais, os que são elevados ao episcopado ou transferidos para novas dioceses poderiam estar acometidos daquelas 15 doenças da Cúria Romana a que Francisco se referiu certa vez.
Com a eleição de Leão XIV, após um conclave cheio de reviravoltas, como descrito por Gerard O’Connell em sua mais recente publicação (The Election of Pope Leo XIV: The Last Surprise of Pope Francis, ainda sem edição em português), muitos acreditavam que o novo pontífice trouxesse a Barca de Pedro para outras direções. No entanto, Leão XIV tem se mostrado muito sintonizado com as principais intuições de seu antecessor.
Ainda que seja mais reservado e de estilo diferente de Bergoglio, o Papa Prevost começou 2026 dando muitos sinais de que continuará e completará a agenda iniciada por Francisco, mesmo com um perfil mais discreto. Sem romper com certos símbolos do papado, fazendo fortes apelos à unidade interna da Igreja, Leão XIV passou seu primeiro ano tentando sustar o ambiente de guerra desencadeado pelos opositores de Bergoglio.
O Pontífice integrou a Cúria Romana no dois últimos anos do pontificado anterior. Portanto, foi testemunha ocular desse ambiente de guerra civil e da resistência de segmentos da Cúria às mudanças propostas por Francisco. Ele próprio talvez tenha sido vítima de quem resistia encarniçadamente às transformações em curso na Igreja.
Possivelmente Bergoglio já tivesse Robert Prevost em seu radar para secedê-lo. Embora norte-americano, sua trajetória foi na maior parte do tempo vivida na América do Sul, fora os anos em que foi Superior Provincial de sua Congregação. Sob certa perspectiva, Leão XIV também pode ser lido como mais um Papa do fim do Mundo. Mais até que Bergoglio, que era arcebispo de Buenos Aires, já que o Pontífice agostiniano foi bispo de uma diocese periférica do norte peruano antes de ir para a Cúria Romana.
Os dois anos como Prefeito do Dicastério dos Bispos certamente lhe possibilitaram fazer um acurado diagnóstico da Cúria Romana e observar de um lugar privilegiado os principais problemas da Igreja. Ganhou a experiência necessária para fazer o que fosse preciso caso fosse conduzido à Cátedra de Pedro, como de fato ocorreu. A última surpresa de Francisco?
Neste começo de papado, O ministério petrino de Leão continua na mesma linha de Francisco, no que diz respeito ao papel da Igreja no Mundo, sobretudo em tempos de guerra. O Papa demonstra ter visão de mundo antagônica a de seu conterrâneo Trump. E tem alertado a seus interlocutores dos perigos da Extrema-Direita no mundo.
A questão ideológica também preocupa o Pontífice no plano interno da Igreja. Aos bispos espanhóis, em fevereiro afirmou que sua maior preocupação é o avanço da ultradireita porque ela tenta instrumentalizar a Igreja e o Cristianismo em geral. É um fenômeno que ocorre em outros lugares, como nos EUA e no Brasil.
Diante de situação tão grave, Leão continua a apelar para a unidade da Igreja, mas tem escolhido figuras de perfil progressista para funções-chaves no episcopado das igrejas nacionais. Têm sido assim na América do Norte e na Itália. Um episcopado mais alinhado com as reformas da Igreja pode ser o caminho escolhido por Prevost para reconstituir a unidade da Igreja Universal.
No caso brasileiro, a sua primeira grande nomeação pode significar alguma coisa semelhante. As nomeações para Rio, São Paulo e Manaus, caso os indicados tenham o mesmo perfil do novo arcebispo de Aparecida, indicarão efetivamente essa mudança de orientação.
Mais, significará uma efetiva derrota dos operadores da máquina conservadora de fazer bispos conservadores brasileiros, sejam eles purpurados da antiga oposição a Francisco, agentes na Nunciatura Apostólica e curiais do Dicastério dos Bispos. Se isso realmente vai acontecer, saberemos nos próximos meses. A conferir.
Resta saber se Leão XIV, tendo ele mesmo sendo testemunha ocular do estado de guerra civil instaurado contra Francisco na Cúria Romana, terá as condições necessárias e a coragem para desmontar o dispositivo conservador que atua na composição do episcopado brasileiro. Nesse sentido, é necessário tratar de perfis e candidatos, ainda que isso não seja hábito nas análises eclesiais sobre o catolicismo brasileiro.
Aliás, muito se sentem incomodados com esse tipo de abordagem. Todavia, cabe destacar que na Itália ou na América do Norte isso é feito costumeiramente, sem causar tantos pruridos.
Talvez isso ocorra porque parte dos analistas no Brasil estejam vinculados a entidades religiosas como as universidades, ou a carreira eclesiástica. Com efeito, romper certos limites pode levar a consequências indesejáveis mais adiante. Neste caso, é compressível, sobretudo para quem sobrevive de estudar e pensar a Igreja do Brasil, manter certa reserva nesse assunto. Afinal, a tolerância com o pensamento crítico e a análise independente pode ser baixa em determinados ambientes e sobre certos temas. Teólogos leigos que o digam…
Se o padrão das nomeações episcopais na Igreja do Brasil nesta década se mantiver, prevalecerá a lógica de “uma no cravo, outra na ferradura”. Neste caso, poderíamos arriscar que, tendo a sucessão em Aparecida ocorrido em uma direção, das três grandes sucessões que restam, mais uma acompanharia a que nomeou Dom Mário Antônio para o lugar de Dom Orlando Brandes. Outras duas seguiriam uma orientação diferente.
Nesse sentido, temos Manaus, no coração da Amazônia Brasileira, com maior visibilidade internacional. O perfil do sucessor do franciscano Leonardo Steiner indicaria uma mensagem clara de continuidade com o magistério de Francisco nas questões ambientais, garantindo a enorme credibilidade da Igreja no tema. Nem os conservadores forçariam uma guinada de 180 graus nesse perfil.
Além disso, Leão XIV indica com solidez que seu Ministério Petrino está em sintonia e continuidade com o Magistério de Francisco. Provavelmente o futuro arcebispo da capital amazonense será um experimentado bispo da região, quem sabe um religioso de mesmo carisma do único cardeal da região norte.
Se Manaus sinaliza uma mensagem para o mundo, São Paulo e Rio de Janeiro indicam tendências para a Igreja no Brasil. A capital do estado mais rico da federação é a grande megalópole brasileira, sua importância em todos os sentidos é indiscutível. Seu atual arcebispo foi apontado pelos vaticanistas como o Candidato da Cúria Romana no Conclave de 2013, que elegeu o Cardeal Jorge Bergoglio para a Sé de Roma.
As especulações sobre seu sucessor indicam um importante prelado do sul do Brasil, visto como moderado pela grande imprensa. Mas em ambientes eclesiais, há outra percepção, a qual este eclesiástico seria conservador, mas aberto ao diálogo.
O Rio de Janeiro é a segunda maior cidade brasileira. Sua arquidiocese é a única no país cuja extensão é exatamente a mesma área do município onde está instalada. A arquidiocese possui um grande seminário maior, que acolhe candidatos ao presbiterato oriundos de várias dioceses brasileiras.
A sucessão do atual cardeal-arcebispo do Rio talvez seja a mais estratégica de todas. A linha teologico-pastoral do futuro arcebispo indicará o quanto Prevost conhece a Igreja do Brasil e em qual rumo ele pretende colocar o episcopado brasileiro. Há quem avalie que Francisco, talvez por ser argentino, delegou as nomeações para o Brasil para seus auxiliares brasileiros na Cúria, incluindo diretamente apenas pontualmente.
O caso do Rio de Janeiro é bastante complexo. Trata-se da outra megalópole brasileira, cidade historicamente vista como capital cultural do país, principal destino turístico brasileiro e vanguarda de muitos movimentos que protagonizaram a vida nacional. Hoje, a Cidade Maravilhosa se vê assolada pela violência das facções do tráfico de drogas e das milícias, pela falência do seu transporte público e pelo esfacelamento do poder político em nível estadual.
O Rio de Janeiro também é sede do maior grupo midiático do Brasil, que muitas vezes se coloca publicamente como uma voz católica, uma vez que sua principal concorrente pertence a uma confissão evangélica. Portanto, a tarefa do arcebispo da capital fluminense implica em lidar diariamente com vários aspectos de uma realidade extremamente desafiadora, e exercer certo protagonismo na vida da cidade, sendo uma voz relevante no debate público sobre as grandes questões locais.
Além disso, pesa o fato de historicamente ser uma arquidiocese profundamente conservadora. O reacionarismo político e uma estrutura eclesial mais preocupada com a devoção dos fiéis e as questões internas do catolicismo é uma marca do Rio de Janeiro desde Dom Sebastião Leme, há mais de um século. Ou seja, trata-se de uma marca que atravessou pontificados sem se modificar significativamente.
Portanto, a sucessão episcopal no Rio de Janeiro assume grande importância. Um novo arcebispo cuja orientação indique uma vontade de Leão XIV em transformar esse histórico conservador encontraria grandes resistências e teria muitas dificuldades em mexer com estruturas há décadas cristalizadas. Entretanto, se o Papa está preocupado com a influência nefasta da extrema-direita no catolicismo, alterar a conjuntura local seria tarefa urgente.
Nos últimos 40 anos, o Rio de Janeiro se tornou pólo irradiador do conservadorismo católico no Brasil, e exerceu enorme protagonismo na busca da “Volta a Grande Disciplina”, que caracterizou o pontificado de João Paulo II para a Igreja no Brasil. Diante desse histórico, será que existe um candidato com personalidade decidida, resiliente o suficiente para fazer os enfrentamentos e exercer o profetismo necessário para tamanhas mudanças, caso seja essa a vontade de Leão?
Dessa forma, considerando a tendência das nomeações episcopais realizadas nesta década, a lógica seria manter uma certa continuidade no Rio de Janeiro, como em São Paulo. Até porque Aparecida e provavelmente Manaus indicam um determinado perfil na sucessão destas circunscrições eclesiásticas.
No caso da capital fluminense, faziam-se especulações sobre dois nomes, ambos do Planalto Central e com experiência pregressa no “purgatório da beleza e do caos” que se tornou a outrora Cidade Maravilhosa. O primeiro deles perdeu força na medida em que o Papa prorrogou por mais um período a permanência do atual arcebispo à frente de sua arquidiocese. Além de rumores sobre seus predicados como administrador, pesa a idade também. Seria uma surpresa se o próximo arcebispo do Rio de Janeiro vier para exercer uma espécie de episcopado tampão como foi na sucessão de Dom Eugênio Sales.
O outro candidato, purpurado, tem buscado exercer com avidez certo protagonismo vinculado à sua posição eclesiástica. Não são poucos os que, reservadamente, entendem que seja o principal candidato à sucessão na arquidiocese carioca e que estaria ele próprio fazendo gestões para que fosse o escolhido do Papa.
Contudo, tanto este quanto o prelado que especulam para a sucessão na capital paulista já são cardeais da Igreja. Como os atuais arcebispos de Rio e São Paulo também são cardeais da Igreja, os nomes especulados só teriam alguma chance caso os resignatários já tivessem 80 anos, por deixariam de ser eleitores em um conclave. Não há precedente recente na história da Igreja em que uma (arqui)diocese tivessem dois cardeais eleitores ao mesmo tempo. Uma vez que os atuais titulares não ficarão até os 80 anos à frente de suas arquidioceses, é pouco provável que os nomes ventilados sejam, de fato, os sucessores. Mas não podemos subestimar as articulações ocultas do grande público que são feitas neste momento.
Mas, em uma linha de continuidade com o atual estado de coisas, quais perfis despontam na sucessão das duas maiores metrópoles brasileiras? O caso de São Paulo tem alguns elementos a serem levados em conta.
Desde que Dom Carlos Vasconcelos Motta foi transferido de São Luiz para São Paulo, nenhum outro arcebispo de São Paulo veio de fora do próprio Estado. Roma, talvez pela importância e pela complexidade da capital paulista, tem nomeado prelados da própria região. Dom Agnello Rossi era arcebispo de Campinas antes de ir a São Paulo. Dom Paulo Evaristo Arns e o atual titular da Arquidiocese de São Paulo eram bispos-auxiliares na cidade antes de assumirem a direção desta igreja particular.
Considerando esse histórico, é pouco provável que o sucessor de Dom Odilo Scherer seja alguém de fora do Estado de São Paulo. Possivelmente pode ser até mesmo um bispo-auxiliar. Mas poderia ser também não alguém que atuou em dioceses paulistas, mas alguém nascido no Estado. Consequentemente, até poderia ser um importante curial brasileiro, com quem Prevost inclusive atuou antes de se tornar Sucessor de Pedro.
Neste caso, seria um episcopado que duraria aproximadamente uma década e que talvez resolvesse um problema para Leão XIV. O papa desmontaria a partir da Cúria a máquina conservadora de produzir bispos para o Brasil, e formalmente daria um “prêmio por bons serviços prestados” a quem serviu por três pontificados em Roma. Seria mais uma vez aplicado o princípio muito usado no Vaticano: _Promoveatur ut amoveatur_.
Já para terras cariocas, um importante prelado de destaque nacional seria uma possibilidade real, talvez o principal candidato, a partir do que vem sendo as nomeações episcopais para o Brasil nos últimos anos. Com a experiência adquirida no cotidiano da conferência episcopal, se apresenta como uma continuidade conservadora para a complexidade de um ambiente eclesial como o do Rio de Janeiro.
Porém, outro nome corre por fora. Trata-se de um bispo do próprio regional, formado como sacerdote no ambiente muito conservador de uma cidade serrana do estado e depois pós-graduado em uma instituição muito identificada com segmentos católicos ultraconservadores. Como bispo em uma diocese marcada pela pobreza e pela violência urbana, imprime aspectos conservadores inerentes à sua própria trajetória. Ao mesmo tempo, tem demonstrado alguma sensibilidade pastoral e dialogado com quem atua na área social.
Na capital, não mexeria com estruturas conservadoras há muito tempo constituídas. Mas talvez se posicionasse de forma um pouco mais crítica as graves questões que hoje atravessam o Rio de Janeiro.
A análise feita até aqui está baseada em certo padrão identificado ao longo dos últimos anos na Igreja do Brasil, no que se refere às nomeações episcopais. Entretanto, se Leão XIV fizer no Brasil as mudanças que está realizando nos EUA, por exemplo, teremos um outro panorama.
O melhores candidatos a essas sucessões, dentro do espirito de mudanças e reformas propostos pelo Papa Bergoglio e que Prevost parece solidamente continuar, foram estrategicamente transferidos para novas circunscrições eclesiásticas recentemente. Transferí-los em tão pouco tempo seria algo sem precedentes desde o Vaticano II.
Finalizando, se o Bispo de Roma estiver decidido a modificar o perfil do episcopado brasileiro, novos desafios se apresentarão. O perfil dos candidatos assumiria outros contornos. Nomes existem, mas pensar a respeito seria tema de um outro artigo.
* sociólogo, professor do IFRJ e integrante do movimento Fé e Politica.
Imagem gerada por Inteligência Artificial (Gemini)
Por Jorge Alexandre Alves*
Traduzindo os fatos:
O ataque militar realizado pelos Estados Unidos em solo venezuelano no último sábado, culminando com o rapto do presidente Nicolás Maduro, inaugura um novo momento nas relações internacionais. A ordem mundial estabelecida após a II Guerra Mundial acabou. O que se testemunhamos na Venezuela é a concretização material das novas diretrizes americanas para a América Latina e Caribe, chamada por Donald Trump de “Doutrina Donroe, onde “D” do termo é uma autorreferência do presidente norte-americano.
Na verdade se trata da ressurreição da Doutrina Monroe em sua versão 2.0: a América para os [norte]americanos. A Marreta de Trump golpeou com força simultaneamente certa ordem global baseadas em regras multilaterais, o direito internacional e a autonomia do países latinoamericanos em relação aos EUA. A maior independência dos países da região em relação aos norte-americanos, experimentada desde começo do século XXI, se explica parcialmente por alguns fatores.
A relativa retração de arroubos imperialistas (pelo menos de forma escancarada) pelas potências ocidentais, potencializada pela luta contra o terror a partir dos ataques de onze de setembro de 2002 é um deles. A formidável expansão econômica e tecnológica da China, que se tornou o principal parceiro comercial na região, superando os Estados Unidos é outro elemento importante nesta equação.
O terceiro elemento foi a onda progressista que tomou conta da América Latina duas décadas atrás, com a eleição de lideranças de esquerda em vários países da região. Dentre eles, a Venezuela, com sua Revolução Bolivariana, foi a nação latinoamericana que mais desafiou o império americano. Não foi por acaso que a “Pátria de Bolívar” se tornou alvo direto dos EUA.
Mas a hedionda ação militar na capital venezuelana não pode ser explicada apenas por uma suposta tentativa estadunidense de voltar a exercer hegemonia política na região. Ao reeditarem a Doutrina Monroe, é óbvio que os americanos desejam tornar novamente o controle da América Latina e o Caribe.
Consequentemente, são motivações econômicas que estão por detrás do ataque contra esta nação sul-americana. Pela lógica do Tio Sam, é o que importa neste momento. Na Venezuela estão as maiores reservas de petróleo do mundo, sem falar em outras riquezas minerais, como ouro, ferro, alumínio e o acesso ao bioma amazônico Nisso reside o principal interesse americano.
Ocorre que a Venezuela se tornou o país latinoamericano que mais se aproximou de países historicamente rivais dos EUA. Através de sua empresa estatal de Petróleo, a PDVSA, boa parte do petróleo do país é vendido para China, Rússia e Irã. Sem falar nas relações com Cuba, para quem as remessas de recursos materiais e econômicos venezuelanos para a ilha caribenha colaboram decisivamente para que a situação atual do povo cubano não seja ainda mais grave, diante da crise econômica que enfrentam.
Mudar o governo sediado Caracas por outro mais simpático aos norte-americanos significa não apenas subordinar um país rico em recursos naturais, mas acessar recursos naturais fundamentais para atravancar o declínio derradeiro do império americano. Do ponto de vista interno, acessar o petróleo venezuelano significa reduzir a inflação americana causada pelo preço interno dos combustíveis.
Um governo venezuelano alinhado aos interesses norteamericanos retiraria a ajuda material a Cuba. Nos EUA, o atual Secretário de Estado, Marco Rubio, descende de uma família cubana de elite exilada na Flórida após a Revolução de 1959. Atingir do governo cubano traria grandes dividendos políticos a um potencial candidato à sucessão de Trump.
Neoimperialismo: Um breve rearranjo internacional
Ao aplicar um golpe de força contra a Venezuela, com as autoridades americanas dizendo com assustadora franqueza suas motivações para tanto, os Estados Unidos procuram estabelecer uma espécie de neoimperialismo. Políticas imperialistas nunca foram interrompidas de fato. Entretanto, Após 1945 o imperialismo das potências ocidentais se travestiam de defesa da democracia, combate a tirania e ao comunismo, ou pelas chamadas razões de Estado.
Agora, os norteamericanos mandaram às favas quaisquer subterfúgios para legitimar suas ações. Trump e a extrema-direita estadunidense não precisam mais legitimar suas ações diante da opinião pública internacional. Por isso, não escondem seus reais interesses. É um perigoso esperneio do império diante de mudanças globais que parece ser cada vez mais inevitáveis.
Para retardar, ao menos, a perda definitiva da supremacia global do Atlântico Norte, os americanos começaram a dar sua maior cartada em Caracas. Apesar da decadência de sua hegemonia, os EUA ainda há espaço nova ordem mundial que lhes favoreça. Nesta nova configuração internacional, Washington tenta reestabelecer uma versão século XXI da Conferência de Ialta, que deu as bases iniciais para a correlação de forças que se consolidou após a II Guerra Mundial, com a criação da ONU e os acordos financeiros de Bretton Woods.
Novamente, os Estados Unidos tentam impor uma ordem a qual os “global players” terão zonas de influência. O poderio militar russo e o desenvolvimento tecnológico chinês são irreversíveis, os americanos sabem disso. A Rússia pode não ter as pretensões globais da China, mas não é um país qualquer. Com a China, a disputa não é apenas militar. Com o novo sistema de pagamentos desenvolvidos por chineses e russos, é possível desdolarizar o comércio internacional, com efeitos severos nas contas publicas dos EUA.
Por isso, a ação americana na Venezuela é um esperneio. A nova configuração global desejada pelos EUA terá curta duração. O perigo é que se trata de uma potência decadente, cujos dirigentes serão capazes de tudo para resistir a mundo multipolar que cada vez mais sem impõe nesta quadra histórica. O grande risco para a América Latina e o Caribe reside exatamente nisso. Os americanos, em nome dos seus interesses, farão o que tiverem que ser feito. Mesmo que isso custe a ruína de sociedades inteiras e morte de milhares de pessoas. Gaza pode ter sido uma amostra grátis do que pode ocorrer no “quintal” do Tio Sam.
Para se contrapor à China, os americanos precisam ter um espaço vital (América Latina e Caribe) no mundo, rico em recursos naturais ao alcance de suas mãos. Necessitam de minerais usados na alta tecnologia (as chamadas terras raras) para terem alguma alternativa diante do poderio chinês na produção de processadores digitais e de semicondutores. Também precisam impedir a conclusão da transição energética em escala global. A manutenção de algum poder do império norteamericano passa pela manutenção da matriz energética baseada em combustíveis fósseis e da imposição do uso de petróleo e gás aos seus aliados.
Não podemos descartar algum tipo de acordo entre americanos, chineses e russos a respeito de um rearranjo internacional dessa natureza. Seria uma antessala para um inevitável confronto direto por acontecer neste século? Isso lembra as sucessivas concessões feitas a Hitler pelas potências ocidentais nos anos 1930. Se o tempo comprovar essa hipótese, a situação da América Latina é ainda mais crítica.
Nessa lógica, da mesma forma que a OTAN incluirá a Ucrânia, ninguém socorrerá Caracas, desde que, por hora, as remessas de petróleo da Venezuela para Rússia e China não sejam interrompidas. Não foi por acaso que as instalações petrolíferas da PDVSA (a Petrobras deles) não foram atingidas pela ação das tropas de elite norteamericanas. Resta a China resolver submeter sua província rebelde, Taiwan. Qual será a reação dos EUA quando isso correr? Após o sequestro de Maduro, os americanos perderam sua narrativa na defesa das liberdades e da soberania nacional no extremo-oriente.
A ação em Caracas deu aos americanos uma vitória tática neste momento. Na perspectiva dos Estados Unidos, a perda de Taiwan talvez seja o preço a ser pago para garantir momentaneamente sua hegemonia na América Latina e Caribe. Talvez isso explique o fato de, apesar das condenações da Rússia e da China, elas serem meramente protocolares. Pode não ter sido por acaso a visita de um emissário chinês a Nicolás Maduro, poucos dias antes de seu sequestro pelos militares americanos.
A Venezuela e suas contradições:
Conhecer a fundo a conjuntura política venezuelana não é tarefa das mais simples no Brasil. Após Hugo Chaves não ter renovado a concessão de televisão da maior empresa de comunicação local (a RCTV) em 2007, que participou ativamente de um golpe de estado contra o então mandatário, saber o que de fato acontece na Terra de Bolívar se tornou ainda mais complicado.
A mídia corporativa brasileira, historicamente conservadora, nunca foi simpática a governos minimamente progressistas. Basta recordarmos o que aconteceu aqui em 1964. Após as reformas que lá fizeram no sistema de concessões na comunicação, isso apenas piorou. Chaves e seu sucessor, Maduro, são odiados pelos donos da Grande Mídia brasileira e por muitos de seus jornalistas. Não por acaso, sempre se referiram aos dois como ditadores. Por outro lado, a Revolução Bolivariana também tem suas contradições, como ocorre em todos os processos políticos.
Contudo, vale dizer que o petróleo é a principal riqueza venezuelana desde os anos 50 do século XX, quando as primeiras reservas do chamado “Ouro Negro” são descobertas. Nessa época, a América Latina, era varrida por uma onda de golpes militares e pela interferência dos EUA em governos legítimos, como aconteceu na Guatemala.
No entanto, a Venezuela manteve uma estabilidade política invejável durante todo o século passado, com suas instituições jurídico-políticas aparentemente funcionando e eleições regulares sem contestações. Era um país muito longe de ser visto como uma típica “República de Bananas” latinoamericana ou caribenha do período.
A indústria do petróleo tornou a Venezuela um país rico em termos de PIB. A renda per capita venezuelana foi disparadamente a maior da América Latina. Mas o que poderia ter levado o país a ser um campeão de bem-estar social na região o tornou um dos mais desiguais do continente. As favelas em suas principais cidades não são em nada diferentes das brasileiras ou das “villas misérias” argentinas.
Ou seja, o petróleo, ao invés de ser bênção e prosperidade, foi sendo convertido em desgraça e pobreza. Vinte anos antes da chegada do bolivarianismo ao poder – ainda nos ano 1970 – o Estado Venezuelano nacionalizou a exploração de petróleo com sua estatal, a PDVSA, removendo as empresa petrolíferas norteamericanas do país. Ainda eram tempos de Guerra Fria e os EUA usavam a narrativa da defesa dos direitos humanos como estratégia de combate aos soviéticos.
Como a maioria dos petróleo refinado pela Venezuela ia para a América do Norte, e o Oriente Médio vivia tempos de enorme instabilidade, os americanos resolveram não agir diretamente contra a Venezuela. Afinal, ainda era um aliado, onde as esquerdas não tinha relevância política e o país era uma democracia liberal. Intervir nesse contexto não pegaria bem.
O vice-presidente americano, J. D. Vance tentou justificar a ação militar em Caracas. Para um dos possíveis sucessores de Donald Trump, com o sequestro de Maduro, os americanos iriam compensar as perdas que tiveram causadas pelo petróleo roubado (sic!) das empresas americanas. Ora, quando a Venezuela nacionalizou a exploração de petróleo, Chaves e muito menos Maduro sonhavam em chegar ao poder.
No final do século XX, Hugo Chaves vence as eleições, pouco tempo depois de liderar uma tentativa de golpe de estado. É um período de fortalecimento dos movimentos sociais locais e de reinvindicações populares. A estabilidade política do século XX não se traduziu em igualdade e prosperidade para o povo venezuelano.
A população havia se cansado da democracia liberal. Por isso, colocaram no poder um coronel nacionalista, representante de uma nova geração de militares. Com um programa de nacionalizações e amplas reformas sociais, Chaves, que já havia tido certo apoio das organizações populares de viés progressista, tem enorme prestígio popular.
Trata-se de um raríssimo caso de tentativa de implementação do Socialismo que ocorre a partir de um processo eleitoral. Embora a plataforma eleitoral fosse mais nacionalista, os novos dirigentes venezuelanos chamaram suas políticas de Socialismo do Século XXI, e sua implementação se tornou a Revolução Bolivariana.
Em entrevista recente a Breno Altman, a ex-presidente Dilma Roussef afirmou, em tom crítico, que o bolivarianismo se organizou primeiro a partir do Exército da Venezuela. De fato, os militares se tornaram atores políticos relevantes, com presença em áreas civis, inclusive na PDVSA e na indústria local de petróleo e gás.
Alguns aspectos da condução de governo venezuelano já eram discutíveis nos primeiros anos dessa nova configuração política. Vinte anos atrás, Hugo Chaves poderia ser visto emissora estatal, a TeleSur, em uma mesa numa praça atendendo a telefonemas da população em um programa de rádio. Nesse programa, ouvintes reclamavam de suas carências e o então presidente dava ordens a ministros e assessores a fim de atender as demandas apresentadas. Não se faz política pública séria por rádio, da mesma forma que, trocando radicalmente o acento ideológico, não se faz política com lives, como presenciamos aqui.
Com Maduro, a gestão econômica piorou as condições de vida média da população, neutralizando avanços em saúde e educação. Críticas feitas por aliados da Revolução Bolivariana foram tratadas como se tivessem vindo da extrema-direita e fossem uma traição ao país. Nesses aspectos, o chavismo por vezes mais lembrava o mais o caudilhismo político latino-americano do século XX do que uma experiência socialista clássica.
Ainda assim, nos primeiros anos da Revolução Bolivariana reverteram um gigantesco déficit habitacional, garantindo moradia digna para quase dez milhões de famílias. Com o chavismo, a pobreza foi reduzida de 70% para menos de dez por cento da população. Todavia, a dependência da Venezuela em relação ao petróleo se acentuou.
Em mais de 1/4 de século, não se desenvolveu outros segmentos da atividade produtiva e a escassez de gêneros primários é enorme. Para além dos avanços em saúde e educação, as experiências do Socialismo real, por mais que se critiquem aspectos ideológicos, se notabilizaram por garantir a população algum grau de soberania alimentar, coisa que não podemos afirmar no caso da Venezuela. Vinte e cinco anos é tempo suficiente para que uma nação fosse capaz de reduzir a dependência do país a um só recurso natural. O bolivarianismo deixou uma lacuna na gestão econômica.
Ao mesmo tempo, a escassez de insumos básicos e o estado de insegurança alimentar de boa parte da população venezuelano se deve ao papel odioso das burguesia local. Trata-se de uma elite econômica que, obviamente insatisfeita com os rumos populares do bolivarianismo, faz a Faria Lima parecer um bando de escoteiros.
Uma das formas da burguesia local de se opor ao governo foi causar uma enorme crise de escassez de produtos do cotidiano, como papel higiênico e sabonete. Para efeito de comparação, o Vietnã, por exemplo, saiu devastado de uma guerra sangrenta há 50 anos. Mas seus dirigentes foram perspicazes em reconstruir o país, e seu povo hoje vive muito melhor do que vivia nos anos 1970.
Todavia, nem os EUA e nem uma outra potência podem se arvorar a fazer o papel de polícia do mundo. O direito internacional não poderia ser violado dessa forma. As Forças Armadas de um país não podem sequestrar um chefe de estado de uma outra nação soberana.
Se Maduro era ou não um ditador e como isso se resolverá é um problema que somente o povo Venezuela pode resolver. É o básico do princípio da autodeterminação dos povos. Nessa perspectiva, os EUA sequestraram um presidente constituído (se as eleições foram ou não limpas é uma outra questão) de um país soberano.
Quando lemos os relatos sobre a ação criminosa das FFAA americanas, é muito estranho que um Exército dito tão preparado e forte quanto o venezuelano não tenha mobilizado seus recursos diante de uma invasão ao seu território. Trump está ameaçando a Venezuela e seu presidente há meses e as forças militares não tinham um plano de defesa nacional, tampouco um protocolo de emergência em caso de invasão?
Tudo parece estranho e ao mesmo tempo, incerto. Sobretudo quando a presidente interino da Venezuela, Delcy Rodríguez, em uma guinada, dá declarações propondo atuar em cooperação com os Estados Unidos.
Os impactos sobre o Brasil:
O que aconteceu em Caracas no último final de semana carrega uma gravidade ímpar. É a primeira vez na história que há uma intervenção militar direta em território sulamericano. O recado dado às forças progressistas latino-americanas é claro. Além disso, a ação dos EUA fortalece a extrema direita na região, quando teremos eleições presidenciais no Brasil, no Peru e na Colômbia.
Diferente da Venezuela, a economia brasileira é muito mais complexa e diversificada. Uma operação militar norteamericana contra uma autoridade brasileira que represente ameaça aos interesses ianques seria muito difícil. Somos membros fundadores dos Brics, o que obrigaria outros gigantes, como China, Rússia e Índia a agirem concretamente em caso de uma agressão em solo pátrio.
O Brasil é uma potência regional, um ataque ao território brasileiro similar ao que aconteceu na Venezuela seria improvável. No máximo, seria um último recurso dos americanos. O nosso país tem dimensões continentais. Soma-se a isso o fato da capital brasileira ficar no coração do interior, muito distante de nossas fronteiras e do litoral.
Tal configuração constitui um grande obstáculo para ações como a que os americanos deflagraram em Caracas. Uma agressão dessa magnitude exigiria de uma força estrangeira percorrer mais de 2000 Km dentro do território nacional. Somente com apoio ou omissão de forças internas seria possível o sequestro de um mandatário no Brasil, estando o Chefe de Estado na capital federal.
Portanto, a estratégia americana para subjugar a sociedade brasileira passa pelo chamado “Soft Power”. Trata-se de aprofundar a influência ideológica no país através da grande mídia, da indústria cultural, como aliás sempre foi feito desde que Walt Disney criou o Zé Carioca e Carmem Miranda virou a Brazilian Bombshell, dentro da estratégia da “política da boa vizinhança” quando o nazifascismo assolava o mundo há 90 anos.
Neste quadrante da história, onde a boa vizinhança deixou de ser política diplomática, os interesses norteamericanos no Brasil e em outros países do continente ocorrerá com muita agressividade, mas ataques militares não estão na ordem do dia. Desinformação, disputas culturais, instrumentalização da religião e mecanismos de guerra híbrida serão as armas do nem tão “Soft Power” assim. E evidentemente, muito dinheiro nas mãos da extrema-direita.
O objetivo consiste em vencer a guerra cultural. Mas o que poderiam fazer se isso não funcionar? Em 2027, caso a extrema-direita não volte ao poder, saberemos…
* Jorge Alexandre Alves é Sociólogo, Professor do IFRJ e integra o Movimento Fé e Política no RJ.
Muitas pessoas perguntam como se explica que, em nossos dias, no Brasil e em outros países, a maioria das paróquias católicas tenta reproduzir um Catolicismo devocional, da época das nossas avós. Em paróquias e dioceses, nas quais, há algumas décadas, se realizavam encontros de comunidades eclesiais de base e círculos bíblicos, atualmente, só se fazem novenas de santos e santas, sucedidas por terço dos homens e adoração ao Santíssimo Sacramento. Muitos padres, na maioria, jovens, dão mais importância a vestes litúrgicas romanas do que ao serviço do povo. Para celebrar missa, precisam da corte de dez ou doze coroinhas, paramentados com túnicas vermelhas. Também no mundo evangélico, o devocionismo toma conta das Igrejas.
No âmbito católico, há quem atribua aos papas João Paulo II e Bento XVI a responsabilidade por isso. De fato, eles fizeram tudo para promover uma volta à Cristandade, ou a organização de uma espécie de Neocristandade.
Comumente costuma-se chamar de “Cristandade” o sistema social e político, no qual a cultura e a sociedade eram ou são fortemente influenciadas pela Igreja Cristã[1]. Do mesmo modo, tem se denominado Neocristandade a tentativa da Igreja Católica recuperar seu poder político, assim como o projeto de alguns grupos de instituir um Brasil pentecostal.
Hoje, novamente, se cruzam movimentos políticos e religiosos, sempre em busca da influência social e controle do poder. Voltam à lógica dos tempos coloniais. Só que, dessa vez, instrumentalizam a fé, de forma menos ingênua e mais brutal do que nos tempos da Cristandade clássica.
Atribuir o retrocesso eclesiológico que vivemos aos papas anteriores a Francisco podeeximir dessa responsabilidade atores bem mais próximos e diretos. Se bispos, padres e grupos católicos, mesmo alguns de postura pastoral considerada aberta, não estivessem imbuídos de uma cultura religiosa tributária da Cristandade, dificilmente, as autoridades romanas e seus embaixadores teriam tido tanto êxito em sua missão de dar ao mundo a impressão de que o Concílio Vaticano II nunca existiu.
Atualmente, mesmo em dioceses, nas quais até 40 ou 30 anos, a missão era na linha do Cristianismo de Libertação, mesmo quando os bispos se mostram abertos e solidários ao serviço do povo, são padres, diáconos e grupos de fieis que optam por um Catolicismo puramente devocional e cada vez mais romanocêntrico. No campo ecumênico, o próprio Conselho Ecumênico de Igrejas Cristãs (CONIC) parece inclinar-se para um ecumenismo eclesiástico e clerical que demite a secretária geral por ter tido coragem de assumir as causas feministas e inserir a atividade ecumênica no mundo real dos oprimidos e das oprimidas desse mundo.
Convido vocês para tentarmos compreender esse fenômeno que é complexo em suas motivações e em suas expressões, mas se caracteriza por ensaiar o que seria uma volta à eclesiologia de Cristandade.
Ao propor essa reflexão, me coloco como “irmão e companheiro de vocês na tribulação, (no momento atual do mundo é o que não nos falta), no reino (esperança de vermos se realizar o projeto divino no mundo) e na perseverança em Jesus” (Apoc 1, 9)
1 – A Cristandade morreu, mas continua referência eclesial
Em julho de 2025, se realizou na PUC, em Belo Horizonte, o 40º Congresso da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Na manhã do penúltimo dia, dom Joaquim Mol, bispo coadjutor da diocese de Santos e a querida professora Maria Clara Bingemer falaram sobre os 60 anos do Concílio Vaticano II e sua herança para a teologia de nossos dias. Dom Mol e Maria Clara mostraram as imensas transformações que os documentos do Vaticano II e suas intuições teológicas e pastorais trouxeram para a Igreja Católica e outras Igrejas.
Logo no início de sua fala, o bispo citou o papa Francisco, ao afirmar: “Não estamos mais na cristandade. Não mais!”[2]. Dom Mol prosseguiu: “A Cristandade terminou, mesmo que alguns insistam, amarga e desnorteadamente, em reavivá-la, como se tenta reanimar um defunto em putrefação”[3].
A Cristandade como religião civil pode estar superada, embora no Brasil, a própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se engaja em defender documentos como a Concordata[4], conforme o qual, a hierarquia católicase sente com o direito de gozar de alguns privilégios, em áreas importantes como educação, isenção de impostos e outras regalias.
Antes do Concílio Vaticano II, o teólogo Yves Congar afirmava que, na vigência da Cristandade, a Eclesiologia tinha sido reduzida à hierarcologia[5]. Na prática, Igreja seria sinônimo de hierarquia. É uma pirâmide, no vértice da qual está o papa. Nesse modelo eclesiástico, se confunde ministério com hierarquia e se aceita sinodalidade, desde que se mantenha intocável o poder hierárquico do papa, dos bispos e dos padres.
Assim, o Clericalismo[6] persiste necessariamente, não como abuso do sistema, abuso frequentemente denunciado pelo papa Francisco e sim, infelizmente, como expressão normal do próprio sistema[7].
Em 1975, aconteceu em Vitória, ES, o 1º Encontro Intereclesial de CEBs. O tema do encontro foi “Igreja que nasce do povo, pela força do Espírito”. Em 1975, esse encontro foi ecumênico. Contou com a presença de quatro evangélicos, não como observadores e sim como participantes normais: dois pastores presbiterianos (IPU), um irmão de Taizé (luterano) e a esposa de um dos pastores.
Agora, depois de 50 anos, quem vê a realidade da Igreja Católica e de outras Igrejas, no Brasil e no mundo, pode pensar que aquilo não passou de um projeto utópico, ensaiado por minorias abraâmicas, que talvez não tenham sido tão abraâmicas assim, já que esse projeto parece não ter sobrevivido ao inverno eclesial de décadas mais recentes. No entanto, de fato, esse novo modo de ser Igreja resiste teimosa e profeticamente, em pequenos cenáculos de resistência, praticamente ignorados pela maioria do clero e da hierarquia, justamente, nas brechas e frestas da reconstrução atual da Cristandade. Embora frágil, como uma flor em meio a campo seco, esse projeto aponta para a profecia de um novo modo de ser Igreja.
Na década de 1990, tornou-se público, um debate eclesiológico entre o cardeal Joseph Ratzinger e o cardeal Walter Kasper. Ratzinger defendia que a Igreja Universal é anterior e precede as Igrejas locais e estas dependem dela. O Cardeal Kasper sustentava a posição eclesiológica mais fiel ao Concílio Vaticano II: a Igreja é fundamentalmente local. A Igreja Universal é a comunhão das Igrejas locais e, portanto, depende das Igrejas locais. A Igreja de Roma é a primaz dessa comunhão e deve exercer um primado não de poder e sim de serviço à unidade de todas as Igrejas[8].
Nesse diálogo entre os dois cardeais, se revelavam duas visões conflitantes de Igreja: o Cardeal Ratzinger defendia um modo de ser Igreja que continua o modelo da Cristandade, não mais para refazer o regime teocrático da Cristandade, mas para organizar internamente a Igreja, a sua missão e a sua espiritualidade, a partir desse modelo.
O Cardeal Walter Kasper sabe que a visão de Igreja que defende é ainda projeto e esperança, vivida somente em pequenos grupos eclesiais e por minorias abraâmicas. O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como povo de Deus e aceitou os ministérios ordenados como serviços a esse conjunto. No entanto, a cultura não muda porque a teologia mudou.
O papa Francisco conseguiu oferecer ao mundo uma perspectiva nova para a missão das Igrejas. Retomou a centralidade da opção pelos pobres, no que deve ser a missão das Igrejas cristãs. Foi o primeiro papa a condenar claramente o Capitalismo. Dizia: “esse sistema mata!”. Ao se colocar, antes de tudo, como bispo de Roma, Francisco valorizou as Igrejas locais e respeitou o direito de cada diocese ser Igreja com rosto próprio. Alertou o mundo para a prioridade da questão ecológica e propôs a Ecologia Integral como elemento essencial da missão da Igreja. No entanto, no que diz respeito à organização interna da Igreja, principalmente, aos bispos, padres e movimentos religiosos, não parece ter conseguido quase nada.
A primeira dificuldade para isso foi que a maioria das instituições eclesiásticas, às quais estamos ligados, continuam organizadas, a partir da lógica da Cristandade. Hoje, em quase todo o mundo, qualquer pessoa pode tomar um transporte público e, em pouco tempo, se dirigir ao outro lado da cidade e participar da paróquia ou comunidade na qual se insere melhor. No entanto, enquanto a ordem não vier de Roma, as paróquias católicas continuarão a ser territoriais. As congregações e ordens religiosas, às quais muitos e muitas de nós pertencemos, são organizadas a partir da lógica e da teologia da Cristandade, com governo geral e com legislações que são aprovadas pelo Vaticano e dependem do Papa e da Cúria Romana. Muitas congregações mantêm colégios com nomes de seus santos e santas fundadores. Apostam em uma educação religiosa, baseada no pressuposto de que fazer missas em colégio, promover primeira comunhão e festas de padroeiro (a) provocarão conversão e conduzirão alunos e alunas à fé cristã.
Teólogos e teólogas convivem diariamente com universidades que se chamam PUC: Pontifícia Universidade Católica. Como compreender isso, a não ser em uma lógica de Cristandade?
É a mesma mentalidade que explica o fato de que, em maio de 2025, em pleno século XXI, através da televisão e da internet, boa parte da humanidade retornou à Idade Média para acompanhar o conclave, por ocasião da eleição do papa Leão XIV. Cardeais vindos de todo o mundo revitalizaram as pompas do consulado romano do velho império pagão. Sem constrangimento, repetiram o ritual do fechamento das portas da Capela Sixtina e o Extra omnes, (todos para fora), inócuo no mundo atual, com todos os recursos de comunicação virtual e oposto ao evangelho de Jesus e a tudo o que o papa Francisco ensinava sobre a natureza e a missão da Igreja que deve ser aberta a todos e não fechada e excludente.
Procurados pelos meios de comunicação, alguns companheiros e companheiras, ligados ao Cristianismo de libertação. foram chamados por programas de televisão e internet a traduzir para o mundo do século XXI, os rituais medievais do Conclave, o sentido da fumaça branca e fumaça preta. Assim, tentaram ajudar as pessoas a crer que, apesar das portas fechadas, o Espírito Santo também era convidado ao Conclave.
Em Roma, as cerimônias de sepultamento do papa Francisco e do novo conclave pareciam nos fazer voltar ao século XI, quando o mundo católico era a Europa ocidental e o papa era escolhido para ser soberano dos Estados Pontifícios e coroar o imperador do Sacro Império Romano Germânico. E nós, que amamos a Igreja, tínhamos de nos conformar que fosse essa a imagem da Igreja Católica, transmitida à humanidade de hoje.
Tudo isso me recorda que, em 1966, portanto, imediatamente depois do Concílio Vaticano II, dom Helder Camara, então arcebispo de Olinda e Recife, propôs ao papa Paulo VI, que ele renunciasse a ser chefe de Estado, entregasse o Vaticano à ONU e, para sinalizar mais profundamente que era o bispo de Roma, fosse morar na Igreja de São João de Latrão, antigo palácio do bispo de Roma. O Dom nunca recebeu resposta do papa, mas houve a confirmação de que este recebeu a carta. Isso se deu através de uma carta oficial do Cardeal Villot, secretário de Estado, que afirmava:
“Excelência, o Santo Padre recebeu e agradece a sua carta, mas recorda à Vossa Excelência que não vivemos mais nos tempos do Evangelho”[9].
O que movia Helder Camara e, recentemente, o papa Francisco não era a volta aos tempos do Evangelho e sim o esforço para retomar o seu Espírito.
2 – E o sonho de um Brasil protestante ou pentecostal?
Isso que é assim na Igreja Católica, poderia também se aplicar a Igrejas e instituições do protestantismo histórico.
Como na Igreja Católica, há um grupo (minoritário) de extrema direita, que torce para recompor a Cristandade, dessa vez, protestante ou pentecostal. No entanto, há uma grande quantidade de evangélicos (as) que não são de extrema-direita, nem optam pelo fundamentalismo bíblico puro e simples. No entanto, também eles e elas se movem em instituições pensadas e mantidas a partir de uma teologia de seus fundadores nos séculos XVI e XVII e, portanto, mantêm a eclesiologia de Cristandade.
O grupo evangélico e pentecostal “de direita” é muito claro e, diariamente, aparece nas mídias. De fato, por todo o Brasil, algumas figuras políticas continuam a insistir que tal cidade, ou tal estado é de Cristo. Vereadores (as) propõem que municípios distribuam Bíblias para escolas públicas. Em nome da fé cristã, grupos fundamentalistas atacam e agridem comunidades de cultos afrodescendentes e indígenas.
No Congresso Nacional, católicos e evangélicos tradicionalistas, assim como pentecostais “terrivelmente evangélicos”, usam o pretexto de defesa dos valores da família para impor regras morais de suas Igrejas, como se fossem do próprio Deus. A maioria forma a bancada da Bíblia, ao mesmo tempo que também participa das bancadas do boi eda bala.
Nas periferias e bairros mais pobres de nossas cidades, onde faltam os mais básicos serviços sociais, se erguem templos ricos, com todos os recursos da técnica e da eletrônica. Não falta dinheiro e relação com o poder.
Em 2017, baseado nessa realidade, o cineasta Cláudio Assis fez o filme Divino Amor, parábola, conforme a qual, em 2027, o Brasil será pentecostal e a festa do Carnaval, substituída pela festa do Divino Amor.
Existiria o que se costumou chamar de teologia da prosperidade e depois teologia do domínio, sem se basear em uma ideologia de Cristandade?
Sem dúvida, essa tentativa de reanimar a Cristandade contou também com a mudança sociocultural, pela qual a sociedade internacional passou a partir dos anos 1990, depois da queda da cortina de ferro e o fim da União Soviética, com movimentos como o neoliberalismo e a chamada globalização. Mesmo na sociedade civil, desde o final do século XX, ocorre o estranho fenômeno de que, frequentemente, a geração dos filhos seja mais conservadora do que a de seus pais.
Desde os anos 1970, o governo dos Estados Unidos descobria que, na América Latina, deveria apoiar grupos pentecostais e carismáticos para contrabalançar no meio do povo a influência do Cristianismo da Libertação. Agora, em nossos dias, ressoa a notícia de que, nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump anunciou a criação de um Escritório de Fé da Casa Branca, liderado pela reverenda Paula White, apresentada como “conselheira religiosa” do presidente e “tele-evangelista”[10].
O Bispo Edir Macedo reconstruiu o que ele considera ter sido o templo de Salomão. Ali, parece pretender reconstruir alguns elementos da religião do templo em um Cristianismo que lê a Bíblia judaica de forma literal e, ao mesmo tempo, rejeita a tradição judaica dos profetas e profetizas.
Silas Malafaia aparece nas pesquisas como um dos brasileiros mais ricos do mundo. Exerce o papel de guru espiritual da direita política, até o ponto em que seja oportuno para o seu bolso e suas ambições.
É importante sublinhar que, por mais ruído que façam, é claro que esses grupos são dominantes em alguns grupos neopentecostais e pentecostais, mas é minoritário nas Igrejas históricas.
É fundamental valorizar os grupos e movimentos de militantes ativos vindos das Igrejas evangélicas históricas e de algumas Igrejas pentecostais que formam coletivos como “evangélicos progressistas”. Esses irmãos e irmãs se formam em escolas de teologia abertas à contemporaneidade. É gente com consciência críticaque dialoga com a melhor parte da humanidade e se coloca solidária com as grandes causas do povo. No entanto, nas suas Igrejas e ministérios, vivem como em brechas e frestas da lógica de Cristandade. São obrigados (as) a conviver comestruturas de Cristandade, tal qual vemos na Igreja Católica. Nas confissões evangélicas, embora essas estruturas sejam mais leves do que as católicas, ainda são intrinsecamente autorreferentes e contra a profecia.
Se não fosse assim, como explicar a opção atual da maioria dos pastores metodistas brasileiros por uma Igreja mais ritual e carismática e, consequentemente, menos ecumênica e menos profética?
Como explicar o gosto da maioria de bispos (as) e reverendos (as) anglicanos por paramentos medievais, ainda oriundos da cultura inglesa ou até romana do antigo império?
Só a cultura religiosa de Cristandade pode explicar que as novas edições dos livros litúrgicos contenham uma linguagem sempre mais sacral e mais separada da vida cotidiana e da cultura da humanidade de hoje. Na Igreja Católica, a nova edição do Missal Romano tem uma teologia e subtende uma espiritualidade mais alienada e menos evangélica do que as edições anteriores. Em outras Igrejas, como o Livro da oração comum da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) e da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), as novas edições dos livros litúrgicos procuraram eliminar as expressões patriarcais, o que já foi uma conquista. O Missal Romano nem isso fez. Cada vez, que os textos litúrgicos falavam em “homens”, modificaram para “homens e mulheres”. No entanto, quando, nas orações, se referem a Deus, a linguagem continua a ser clerical, dualista e separada da vida concreta, o que só reforça a cultura de Cristandade.
Nessas Igrejas, infelizmente, a abertura dos ministérios para as mulheres ainda ocorre dentro da perspectiva da Cristandade clerical. Abrem-se os ministérios ordenados para as mulheres, mas mantem-se a diferença essencial entre clero e laicato. E mulheres ordenadas usam insígnias e vestes masculinas. Esse modo de se apresentar como clero e hierarquia modela a mente e corações. Dá ao mundo o testemunho de uma Igreja que continua fiel à Cristandade de outros séculos, no lugar de escutar “o que o Espírito diz hoje às Igrejas” (Ap. 2, 7).
Tanto em algumas Igrejas evangélicas, como na Igreja Católica, ministros que se distinguem por paramentos e vestes clericais dão ao mundo o testemunho de uma religião colonial, resquício do velho Império Romano e não do Cristianismo do evangelho, o qual pastores como Helder Camara, José Maria Pires, Antônio Fragoso, Tomás Balduíno, Pedro Casaldáliga e outros viviam como profetas.
3 – Cristandade como modelo de Igreja e de pastoral
Na década de 1990, tornou-se público, um debate eclesiológico entre o cardeal Joseph Ratzinger e o cardeal Walter Kasper. Ratzinger defendia que a Igreja Universal é anterior e precede as Igrejas locais e estas dependem dela. O Cardeal Kasper sustentava a posição eclesiológica mais fiel ao Concílio Vaticano II: a Igreja é fundamentalmente local. A Igreja Universal é a comunhão das Igrejas locais e, portanto, depende das Igrejas locais. A Igreja de Roma é a primaz dessa comunhão e deve exercer um primado não de poder e sim de serviço à unidade de todas as Igrejas[11].
Nesse diálogo entre os dois cardeais, se revelavam duas visões conflitantes de Igreja: o Cardeal Ratzinger defendia um modo de ser Igreja que continua o modelo da Cristandade, não mais para refazer o regime teocrático da Cristandade, mas para organizar internamente a Igreja, a sua missão e a sua espiritualidade, a partir desse modelo.
O Cardeal Walter Kasper sabe que a visão de Igreja que defende é ainda projeto e esperança, vivida somente em pequenos grupos eclesiais e por minorias abraâmicas. O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como povo de Deus e aceitou os ministérios ordenados como serviços a esse conjunto. No entanto, a cultura não muda porque a teologia mudou.
Em meados deste agosto de 2025, alguns canais de comunicação, ligados a grupos católicos tradicionalistas, celebraram o fato de que o Papa Leão XIV escreveu aos bispos católicos da Amazônia que a missão da Igreja é anunciar Jesus Cristo e não devemos adorar a Mãe-Terra. De fato, por ocasião de um encontro dos bispos da região amazônica em Bogotá (de 17 a 22 de agosto), o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, dirigiu ao cardeal Pedro Barreto Jimeno, presidente da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), um telegrama de Leão XIV, no qual o papa agradece aos bispos por “seus esforços para promover o bem maior da Igreja para os fiéis do amado território amazônico“. Nessa mensagem, o papa afirma: “É necessário que Jesus Cristo, em quem se recapitulam todas as coisas, seja anunciado com clareza e imensa caridade entre os habitantes da Amazônia”.E elenca três elementos, ou dimensões da missão da Igreja: 1 – o anúncio do evangelho, 2 – a solidariedade aos povos da região 3 – o cuidado com a Casa Comum.Ainda acrescenta: O cuidado com a terra e a natureza se baseia no fato de que toda criação é feita para louvar ao Criador “[12].
As mesmas redes sociais que festejaram esse telegrama do papa também aplaudiam o fato de que Dom João Santos Cardoso, arcebispo de Natal, publicou no site da CNBB uma síntese crítica do livro A Crise da Igreja Católica e a Teologia da Libertação, do frei Clodovis Boff e do padre Leandro Adorno. Em seu ensaio, o arcebispo ressalta que, ao examinar o “declínio atual da Igreja Católica, a obra de Clodovis Boff e Leandro Adorno afirmam que a Igreja perde fiéis porque, em muitos contextos, deixou de comunicar de forma viva o mistério de Deus, oferecendo respostas mais sociológicas que espirituais. (…)“A gravidade está no deslocamento do centro da Igreja de Cristo para o mundo, priorizando demandas sociais em detrimento da experiência teologal”[13].
O livro de Clodovis Boff e do padre descreve e critica a proposta de Igreja que, durante esses 50 anos, nos deram muitos irmãos e irmãs mártires. Essa acusação que hoje esse livro faz é a mesma que os militares e senhores que matavam nossos mártires faziam em outras décadas.
No fundo, em 2025, essa discussão volta aos conflitos internos nas pastorais e na organização missionária da Igreja do começo dos anos 1970. Motivados pela conferência eclesial de Medellín (1968) e de suas conclusões, em 1972, um grupo de missionários da Amazônia criam o Conselho Indigenista Missionário. A orientação é que as missões indígenas nas aldeias não iriam mais pretender converter as comunidades indígenas à religião e sim iriam inserir-se amorosamente e apoiar a caminhada dos povos indígenas na reconquista de suas terras, na revalorização de suas culturas e no direito de viverem suas espiritualidades originárias. Três anos depois, a assembleia que fundou a Comissão Pastoral da Terra (CPT) propunha trocar o modelo de missão da Pastoral Rural (evangelização do homem do campo) pela inserção amorosa e apoio às causas do povo do campo: Reforma Agrária, agricultura ecológica, etc. É claro que, naquela época, o maior embate era dentro da própria Igreja: reclamavam o P da CPT, ou seja, não reconheciam que o martírio de pessoas como o Padre Josimo Tavares, Margarida Alves, Ezequiel Ramín e a Irmã Dorothy Stang foi fruto de sua doação pastoral e espiritual e não era apenas consequência da posição política desses irmãos e irmãs.
Agora, tantos anos depois desse batismo de sangue, esses irmãos tentam de novo nos fazer retomar à Cristandade, como se essa fosse mais de acordo com o evangelho de Jesus e a sua proposta de testemunha do reinado divino no mundo.
Seria muito bom que esses críticos das demandas sociais pudessem nos mostrar em quais as dioceses e Igrejas hoje sobrevive o modelo de Igreja da caminhada que, em 1975, o 1º Encontro intereclesial de Cebs chamou de “Igreja que nasce do povo, sob a força do Espírito”. Agora, 50 anos depois, os autores do livro e os que os apoiam dizem que temos de retomar o modelo de Cristandade. É claro que a linguagem é o anúncio explícito de Jesus Cristo. É a mesma linguagem dos missionários coloniais de Portugal e de Espanha nos tempos da conquista e da colonização. O melhor modo de continuar o modelo colonial do Cristianismo de Cristandade é insistir em separar Deus e o mundo, o espiritual e o social, o Cristo e os pobres.
Infelizmente, o desafio para viver um estilo eclesial novo, libertado do modelo de Cristandade, não vem principalmente de padres e pastores, ligados a centros de extrema-direita. Esses são minoria e o seu projeto de Igreja e de mundo é claro. Não permite confusão.
O desafio maior está em uma estrutura eclesial que parece mais aberta e, entretanto, continua incapaz de superar a cultura religiosa da Cristandade. Nesse modelo, hoje, hegemônico, é impossível colocar em prática as propostas de viver uma Igreja em saída, a partir das periferias do mundo ese organizar a partir da Sinodalidade.
Mesmo em canais de comunicação de padres da caminhada, alguns companheiros manifestam o seu apreço pelo Direito Canônico, refeito em 1983, mas ainda a partir de uma teologia da Cristandade. Mesmo padres amigos, críticos em relação ao tradicionalismo, sentem-se bem em tirar fotografias com paramentos romanos, ou celebrando com cálice e hóstia nas mãos. Não elaboram uma crítica profunda a esse modelo de ministério presbiteral sacerdotalizado, na perspectiva sacrificial, como na época da Cristandade. Vários deles, quando se sentem agredidos por alguém de direita, expressam o desejo de que “o superior” reprima e castigue esses infiéis. Isso revela que continuam pensando a Igreja no velho modelo de Cristandade. Nos tempos do Concílio Vaticano II, o papa João XXIII, afirmava que nunca mais a Igreja deveria voltar a ser Igreja de anátemas e sanções canônicas. Somos nós, adeptos de uma eclesiologia de comunhão que vamos, agora, propor isso?
A CNBB tem em sua organização de Pastoral as pastorais da ação social transformadora. Isso supõe que haveria pastorais não organizadas na perspectiva da ação social transformadora. Ao contrário, ao menos, em princípio, para ser evangélica, qualquer pastoral deveria ser social e transformadora. A Liturgia, a Catequese, o esforço de colocar em comum os organismos de Igreja, tudo isso pode ser visto em uma perspectiva social transformadora. No entanto, esse não é o horizonte de uma pastoral construída a partir da teologia e da espiritualidade da Cristandade.
É direito da CNBB precisar melhor que as chamadas pastorais sociais se especializam na ação social transformadora. Mas, se a própria eclesialidade e a missão são ainda vistas dentro da cultura de neocristandade, então essa diferença se torna divisão. Por isso, no dia a dia das paróquias e dioceses, muitas vezes, as pastorais sociais ainda aparecem como algo externo e menos importante na vida e na missão da Igreja. Concretamente, ficam submetidas ao juízo do padre, que permitirá ou não reuniões de estudo e celebrações nas casas.
As pastorais sociais procuram se inserir em romarias tradicionais e nas práticas do Catolicismo popular. No entanto, até aqui, agimos como se, pelo fato de que o discurso se torna social e politicamente ligado ao Cristianismo de Libertação, essas manifestações de Cristandade tradicional pudessem continuar, tranquilamente, clericais, patriarcais e mesmo coloniais. Muitos companheiros e companheiras pensam que, seja como for, no imediato, isso faz bem ao povo. Assim, a Cristandade é não somente apoiada, mas realimentada mesmo por grupos identificados com o Cristianismo da Libertação. Não podemos nos enganar: pensar uma Cristandade libertadora é como pensar em círculo quadrado.
4 – Cristandade como modelo de espiritualidade
Não é fácil caracterizar o que constitui a cultura ou eclesiologia de Cristandade ou de Neocristandade[14]. Aqui já ficou claro que a identificação da Igreja com clero e hierarquia é um elemento fundamental. É também claro que nesse modelo, a Igreja se caracteriza pelo culto e, de preferência, culto hierárquico, sacerdotal e sacrificial.
O Concílio Vaticano II tinha toda razão ao afirmar que a Eucaristia e, portanto, “a Liturgia, é fonte e cume de toda a vida e ação da Igreja” (LG 11). No entanto, evidentemente, a liturgia é fonte e cume da vida e da ação da Igreja como sinal – sacramento. Na realidade, a fonte e o cume da vida e da ação da Igreja é o amor (a caridade) e a fé que se expressa por esse caminho de amor. A liturgia e a eucaristia expressam isso sacramentalmente.
Em um contexto de Cristandade, esses planos se confundem e o sacramentalismo faz com que o que deveria ser sinal (sacramento) se torne a única realidade. Em geral, as pessoas confundem o Reino de Deus com a Igreja e, concretamente, a Igreja Católica. A nova evangelização, proposta por João Paulo II e que seguia sua doutrina em encíclicas como “Redemptor Hominis” (1979) e Redemptoris Missio (1990) tem como objetivo “o anúncio explícito de Jesus Cristo”, mas, concretamente, confunde isso com a adesão ao modelo de Igreja Cristandade. A linguagem continua sendo “anunciar Jesus Cristo”, mas o que, de fato, propõem é a estrutura sacramental católica.
Mesmo se superamos os tempos de intolerância e de condenação das outras Igrejas e religiões, a Igreja Católica mantém uma espécie de autossuficiência espiritual que não a ajuda a se abrir a uma forma de viver a fé na qual o outro, o diferente, é essencial e eu o procuro, não porque sou bonzinho e aberto, mas porque sem ele e ela, não posso viver o caminho do Evangelho.
Onde o Catolicismo de Cristandade mais se expressa no dia a dia é na espiritualidade das devoções e na celebração diária e dominical da Missa, conforme o Ritual Romano.
As devoções, novenas e toda a espiritualidade que é proposta pela maioria das paróquias e dioceses têm como fundamento e horizonte uma visão espiritual que separa céu e terra. A separação do sagrado e do profano impede que a proposta de Jesus do reinado divino como proposta para o mundo tenha importância. Nessa perspectiva, as pastorais sociais são aceitas como instrumentos de caridade que a Igreja pratica, mas são sempre algo externo à sua missão essencial que seria de caráter espiritualista.
É lamentável que padres busquem clericalizar devoções que nasceram laicas através de rezadeiras e benzedores e as usem como cara de uma Igreja autorreferente e alienada. Esse tipo de populismo espiritual, usado por alguns ministros para agradar às massas, pode parecer muito espiritual, mas é pura prostituição da fé e da espiritualidade.
No caso da espiritualidade de Cristandade, o centro é a Missa, como ela é celebrada. Sem dúvida, a Ceia de Jesus é a proposta mais radical e revolucionária que os evangelhos contêm. Nunca poderemos valorizar suficientemente o fato de que Jesus fez da partilha do alimento sacramento da nova aliança e sinal permanente de sua presença entre nós. A sua ceia é profecia da comunhão divina e memorial da doação do Cristo à humanidade.
Mesmo com todas as mudanças positivas e felizes, propostas pela Reforma Litúrgica depois do Concílio Vaticano II, o Rito da Missa ainda decorre da longa história da tradição litúrgica no Ocidente e da síntese feita pelos que elaboraram o Rito da Missa, como era celebrada na capela da Cúria Romana, no século XI[15]. Na segunda metade da década de 1960, em Roma, o Conselho para pôr em prática a Constituição do Concílio Vaticano II para a Liturgia reelaborou o ritual. Valorizou a dimensão comunitária e celebrativa. Entretanto, não conseguiu superar a mentalidade sacrificial, comum às antigas religiões pagãs e manteve o caráter de culto sacerdotal da Missa, já desde séculos, transformada de ceia fraterna e sororal em sacrifício do altar.
O ritual da Missa, como é celebrado no Rito Romano e também em outras Igrejas, só se pode compreender no quadro da Cristandade clerical. O estilo hierático e os gestos realçam o poder do padre que preside a celebração, as funções próprias do diácono e os graus que dividem os demais ministros e ministras no altar.
Tomemos como exemplo os textos traduzidos e as modificações dessa nova tradução do Missal Romano que parece ainda separar mais do que antes, liturgia e vida, sagrado e profano, relação com Deus e compromisso social. Só para dar um exemplo: em todas as orações, pede-se ao Pai “por Jesus Cristo, que é Deus, convosco e com o Espírito Santo”. Não se menciona que Jesus é também e sempre quis ser sobretudo humano. Isso se dá por acaso, ou teria alguma intencionalidade no plano da fé e da vida?
Já desde algum tempo, em encontros de CEBs e de pastorais sociais, para evitar esse divórcio entre liturgia e vida, as comunidades desenvolveram o costume de celebrar ágapes eucarísticos, nos quais se voltam a valorizar a partilha e a comunhão e todas as pessoas se sentem em círculo de amor ao redor da mesa.
Em julho de 2022, na abertura do XV Encontro intereclesial de CEBs em Rondonópolis, três mulheres presidiram o ágape. Refizeram a memória da ceia de Jesus, cantaram a oração eucarística e deram graças a Deus pelo pão, pelo vinho e outros alimentos que todos e todas partilharam na alegria. Estavam presentes muitos bispos e padres e parece que todos se sentiram participantes e igualmente acolhidos.
Os assessores e assessoras podem ajudar as comunidades a recuperar o direito de toda pessoa batizada viver na alegria da fé e na comunhão do discipulado de iguais o memorial da ceia de Jesus, sem cair no clericalismo e no caráter sacrificial da Missa Romana[16].
5 – Como ficamos nós depois,ou para além da Cristandade
Precisamos reler o Concílio Vaticano II e a Conferência Episcopal de Medellín que o atualizou e o inseriu na América Latina, a partir de uma Igreja que seja comunhão de comunidades, organizadas de forma sinodal e que se compreendam como minorias abraâmicas proféticas na diáspora de um mundo laical. Para isso, temos de superar os esquemas e visões eclesiais de Cristandade que ainda moram dentro de nós…
Em um documento de 1969, a CNBB fazia a distinção entre ecumenismo e ecumenicidade[17]. Enquanto o ecumenismo diz respeito à atividade intereclesial ou interreligiosa, a ecumenicidade é mais uma dimensão da fé e deve estar presente transversalmente em todo o nosso modo de ser e de agir. Corresponde profundamente ao conceito antigo de catolicidade em um sentido que vai além do eclesiasticismo[18].
A preocupação permanente, radical e profunda de ecumenicidade está ligada ao caráter laical da fé e ao reinocentrismo da nossa espiritualidade. Sem ela não há como superar o eclesiocentrismo católico-romano, evangélico e pentecostal.
É essa abertura e convívio com o Princípio Pluralista[19], com o Diálogo interreligioso, como é proposto por mestres como Faustino Teixeira[20] e com a espiritualidade macro-ecumênica, proposta por Pedro Casaldáliga[21], que ajuda a própria Igreja a se renovar e a se parecer mais com o movimento de Jesus no qual, na hora de escolher sinais distintivos, próprios da sua cultura religiosa, optou pelo batismo, ritual que não vinha da religião oficial e sim da cultura popular e teria proposto o Pai Nosso não em hebraico, mas em aramaico…
Em um mundo cada vez mais polarizado social e politicamente, só podemos ser fieis ao testemunho do Evangelho de Jesus, se formos capazes de ir além da Cristandade nossa de cada dia, mesmo daquela com linguagem e alguns sinais ligados à caminhada libertadora. É preciso retomarmos a preocupação com a interculturalidade que foi vivida por muitos de nossos pastores e comunidades até a década de 1980.
O que está em jogo é a construção de uma eclesialidade que retome a dimensão político-libertadora e ecológica que é própria da fé evangélica, a partir dos movimentos populares e das comunidades de periferia. Só superaremos o eclesiocentrismo, se formos capazes de um passo a mais, no caminho da laicidade e da inserção social e política, assim como também na compreensão e em uma forma de viver a fé cristã que não separe e sim integre o intercultural e o interespiritual.
Atualmente, nas dioceses e comunidades católicas, têm se multiplicado encontros e debates interessantes sobre o tema do Sínodo e da Sinodalidade. Esses encontros são bons e devem ser feitos. No entanto, para terem efeito real, precisam ser precedidos de uma reflexão que nos leve a descobrir a cultura religiosa de Cristandade que ainda existe em nós e na nossa forma de compreender a fé, assim como visibilizar mais as pequenas experiências eclesiais que surgem e se desenvolvem em direção nova e profética.
De fato, mesmo dentro dessa realidade eclesial, cada vez mais complexa e difícil, muitos irmãos e irmãs fazem trabalhos maravilhosos. Aproveitam frestas e brechas dentro do sistema fechado. Mantêm-se dentro da estrutura e, ao mesmo tempo, abrem caminhos novos. Possibilitam processos que ajudam pastorais sociais e movimentos populares a avançarem. Precisamos apoiar e fortalecer cada vez mais esses cenáculos de resistência, essas experiências eclesiais que vão além da Cristandade, ou seja, na construção de novo estilo de Igreja e de missão.
Estou me referindo ao ministério de padres e agentes de pastoral porque, nas bases, o povo já caminha assim, de forma mais autônoma. Apesar de conviver séculos com a velha Cristandade, muitos irmãos e irmãs católicos e evangélicos de comunidades negras e indígenas sempre souberam viver a fé dentro dessa ecumenicidade que vai além dos parâmetros da Cristandade. Mas, agentes de pastoral clericais e mesmo leigos clericalizados têm dificuldade de compreender essas vivências.
Em 1992, aconteceu em Santa Maria, o 8º Encontro Intereclesial de CEBs com o tema: “Povo de Deus renascendo das culturas oprimidas”, com foco em grupos como negros, indígenas, mulheres, trabalhadores e migrantes. No meio do encontro, o Bispo local convidou os bispos e pastores para subirem ao palco e se apresentarem ao povo. (Naquele tempo, os intereclesiais ainda convidavam vários pastores e pastoras evangélicos e em Santa Maria eram quase 20). Ocorreu que, na fila dos bispos e pastores que se apresentaram para subir ao palco, apareceram umas quatro ou cinco mães de santo e um ou dois pajés indígenas. Ao vê-los, o bispo impediu que subissem com o argumento de que o encontro era ecumênico, mas não era interreligioso. Não adiantou que as mães de santo dissessem: somos ao mesmo tempo mães de santo do Candomblé e representantes das CEBs das quais participamos. Os pajés insistiam: Somos pajés como cristãos e cristãos como pajés. Não subiram. Todos os assessores e assessoras do intereclesial presentes se solidarizaram com as pessoas de espiritualidades afro e indígenas que não foram reconhecidas como cristãs.
Pessoalmente, perguntei ao bispo que era amigo:
– Se fosse o Dalai Lama, o senhor convidaria para subir e se apresentar ao povo nesse palco?
Mais de trinta anos depois, talvez não sejam muitos os atuais assessores dos intereclesiais que continuam fieis a essa linha que os assessores do 8º encontro e lideranças das CEBs de todo o país defenderam, naquela época, divergindo claramente do bispo que, repito, era um dos nossos. Em si, as religiões indígenas e negras não precisam de nós ou da nossa pastoral para viverem os seus valores e manterem suas riquezas espirituais. Nós é que precisamos aprender deles e delas para viver a nossa fé cristã, a partir da ecumenicidade[23] e do Princípio Pluralista. Eles podem nos ajudar a ir além da velha cultura religiosa da Cristandade.
Essa Igreja da Cristandade tem produzido entre nós um grupo significativo de cristãos e cristãs desigrejados ou “desigrejadas”. Sem dúvida, há quem, por convicção interior, não se liga a nenhuma Igreja e é o seu direito. No entanto, há muita gente, principalmente, jovem que se insere em grupos, ou pastorais sociais e não conseguem suportar o peso das instituições eclesiásticas. Algumas saem, agredidas pelo autoritarismo de padres, ou pela hipocrisia que percebem nos ambientes eclesiásticos, ou ainda pelo fato de que a rotina de missas, bênçãos e novenas não conseguem mais nutrir sua necessidade espiritual.
A cultura religiosa de Cristandade não permite que a maioria dos eclesiásticos percebam isso e busquem corrigir esses desvios. Algumas pessoas que se colocam nas brechas e frestas do sistema religioso dominante formam grupos de antigos militantes e até lideranças históricas de pastorais e grupos na busca de como viver a fé e a espiritualidade na comunhão das pessoas e comunidades que optam por testemunhar o reinado divino, mas sem ligação institucional com o clero e com grupos oficiais de Igreja.
Retomar o diálogo com esses grupos pode significar um novo alento para o conjunto da Igreja. Como sempre nos ensinou a teologia, a salvação sempre vem, como que “de fora”. As Igrejas cristãs precisam sempre alargar suas fronteiras, não de forma proselitista e na linha da conquista e da adesão, mas do diálogo humilde e da ecumenicidade vivida na espiritualidade macroecumênica e intercultural.
De fato, na História da Igreja, os grandes e históricos movimentos de espiritualidade laical, na época, surgidos à margem da Igreja oficial, ajudaram a arejá-la, até que fossem também cooptados por ela, tais como o monaquismo de Antão, Pacômio e mesmo de Bento de Núrcia, os mendicantes de Francisco de Assis e outros.
Certamente, alguém pode perguntar: nessa realidade eclesial tão árida, por que continuamos a manter o amor à Igreja e o nosso pertencimento a ela. Como gostava de dizer Dom Helder Camara, há mil razões para crer e esperar. Há muitas pessoas que se doam à causa do projeto divino no mundo e fazem isso como Igreja. Há trabalhos lindos e maravilhosos que nos animam na caminhada eclesial.
Lembro-me de que, em 1998, eu morava em Goiás e, passando em Recife, visitei Dom Helder Camara, com o qual trabalhei na minha juventude e pastor que, em 1969, tinha me ordenado presbítero. Ele já tinha seus 89 anos e se mantinha em sua casa, na sacristia da Igreja das Fronteiras, frágil e mais silencioso. Quase não falava. Mas, me contaram que, antes da minha visita, ele tinha recebido um jornalista que lhe perguntou:
– Dom Helder, desde jovem, o senhor se dedica ao serviço dos pobres e da renovação da Igreja. Agora, depois de tantos anos, quanto o senhor pensa ter conseguido? Olhando para trás, calcula que teve mais vitórias do que fracassos, ou mais fracassos do que vitórias?
A resposta de Dom Helder foi imediata e límpida:
– Meu filho, Deus não me mandou quantificar o que consegui ou não consegui. O apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem faz crescer” (1 Cor 3, 6). O que posso lhe garantir é que vou até o último suspiro de minha vida por Aquele no qual acredito e por sua causa no mundo”[24]. Que seja essa a nossa esperança e nossa alegria!
[1] – Cristandade è o termo que designa o sistema no qual a cultura e a sociedade eram fortemente influenciadas pela Igreja Cristã, especialmente na Europa Ocidental durante a Idade Média e o Renascimento. Historicamente, a cristandade é vista como uma espécie de teocracia cristã, onde a Igreja e o Estado estavam interligados, e os valores cristãos eram centrais na vida social e política. Em geral, a Cristandade teve o domínio da hierarquia católica. No entanto, com a reforma anglicana, no século XVI, o rei da Inglaterra se tornou chefe da Igreja, enquanto o arcebispo de Cantuária, automaticamente, faz parte da Câmara dos Lordes. Do mesmo modo, em Genebra, quando Calvino implantou a Reforma, instalou um tipo de Cristandade Calvinista.
Sobre a história da Cristandade, ver: AZZI, Riolando. A Cristandade Colonial: um projeto autoritário. São Paulo: Paulinas, 1987.
[3] – GUIMARÃES, Dom Joaquim Mol. Prospectivas abertas pelo pontificado do Papa Francisco. In PERETTI, Clélia e PEREIRA, André Philipe (Organizadores). As religiões frente às crises mundiais contemporâneas: construindo esperanças.São Paulo:SOTER/ Paulinas, 2025, pp. 125- 126.
[4] – Concordata é um tratado internacional que o Vaticano propõe aos países, segundo o qual, mesmo o país sendo laical, concede certos direitos e prerrogativas à hierarquia e ao clero católico.
[5] – A concepção da Igreja, predominante na teologia católica até o Vaticano II era caracterizada pela expressão de Congar: “eclesiologia hierarcológica”: significando uma valorização a respeito do aspecto hierárquico, visível e piramidal da realidade eclesial: a Igreja é vista como uma instituição histórica autossuficiente (societas perfecta), com leis próprias, seus ritos e seus chefes. Cf CONGAR, Y. Cette église que j’aime. Paris: Les Editions duCerf, 1968, pp. 16- 17. .
[6] – Quem quiser compreender melhor o que é o Clericalismo e a sua história na Igreja, veja no site de Eduardo Hoornaert o seu texto: “O modelo diocesano está passando?”.
[7] – Nessa visão eclesiológica de Cristandade, a mediação hierárquica é considerada tão essencial que, no século XIX, provocou a afirmação de J. A Mohler, um dos mais importantes teólogos da época: “Deus criou a hierarquia e assim providenciou mais do que o suficiente para as necessidades da Igreja até o fim do mundo” Maior aprofundamento ver: FORTE, Bruno. A missão dos leigos. São Paulo: Paulinas, 1987.
[8] – Quem quiser aprofundar o debate, ver: KASPER, Walter. Uma resposta amigável ao Cardeal Ratzinger sobre a Igreja. In Revista de Cultura Teológica, número 37 (2001), pp. 103- 114.
[9] – Cf. MARCELO BARROS, Não deixe cair a Profecia. (A herança de Dom Helder Camara para a humanidade do século XXI). Recife: CEPE, 2022, p. 149.
Ver outra versão: MARCOS DE CASTRO, Dom Helder: misticismo e santidade. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002, pp. 202 – 206.
[10] – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/02/06/trump-anuncia-investigacao-contra-ataques-aos-cristaos-nos-eua.htm?cmpid=copiaecola
[11] – Quem quiser aprofundar o debate, ver: KASPER, Walter. Uma resposta amigável ao Cardeal Ratzinger sobre a Igreja. In Revista de Cultura Teológica, número 37 (2001), pp. 103- 114.
[15] – Sobre a história da Missa no Rito Romano, ver: JUNGMANN, J. A. Missaram Sollemnia. São Paulo: Paulus, 2009, pp 60 a 182.
[16]– Para ajudar nessa compreensão, veja: FERNANDES, Rosemary e BARROS, Marcelo. A proposta revolucionária da Ceia de Jesus.(Encher o mundo de ágapes de amor). Rio de Janeiro: Editora Metanoia, 2025.
[17] – Cf. WOLFF, Elias. Caminhos do Ecumenismo no Brasil. São Paulo: Paulus, 2002.
[19] – RIBEIRO, Cláudio de Oliveira. O Princípio Pluralista. São Paulo: Loyola, 2020.
Ver também: TOSTES, Angélica e RIBEIRO, Cláudio de Oliveira. Organizadores: Religião, Diálogo e Múltiplas Pertenças. São Paulo: Annablume, 2019.
[20] – Cf. TEIXEIRA, Faustino. (organizador) No limiar do Mistério: Mística e Religião. São Paulo: Paulus, 2004. (junto com J. B. Libânio) Teologia e Pluralismo Religioso. São Paulo: Ed. Nhanduti, 2012. Religiões e Espiritualidade. Ideias e Letras, 2014. Ver como artigo: https://fteixeira-dialogos.blogspot.com/2010/04/teologia-e-dialogo-inter-religioso.html
[21] – Cf. CASALDÁLIGA, Pedro e VIGIL, José Maria. Espiritualidade da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1996.
[22]– Quem quiser aprofundar esse assunto, veja: LIBÂNIO, João Batista. VIII Encontro Intereclesial de CEBs (Evento no Evento),. In Revista Eclesiástica Brasileira Vol 52. No 208, dez 1992. pp 785- 800.
[23]– BARROS, Marcelo. Os segredos do nosso Encanto. (O que a Fé Cristã pode aprender das espiritualidades indígenas e negras). São Paulo: Editora Recriar, 2024.
[24]– conto isso na versão mais atualizada do livro: BARROS, Marcelo. Não deixe cair a Profecia. (A herança de Dom Helder Camara para a humanidade do século XXI). Recife: CEPE Editora, 2022. p. 172.
No momento presente, classificar pessoas ou grupos rapidamente têm sido quase uma obsessão das pessoas. Ainda mais nas redes digitais. É o que está acontecendo com Leão XIV, desde quando apareceu pela primeira vez na sacada da Basílica de São Pedro. Não é por acaso, considerando o papel geopolítico da Igreja Católica.
Neste começo de pontificado, a direita católica está dividida. Aliás, engana-se quem pensa que o catolicismo é algo uniforme. Consequentemente, o campo conservador também.
Nele estão extremistas pentecostais-católicos, defensores de suposto purismo ritual de séculos passados, “viúvas” da cristandade medieval ou do Concílio de Trento, fundamentalistas bíblicos, (ultra)tradicionalistas, intolerantes religiosos e grupos que entendem que o papel da religião no mundo é exclusivamente espiritual. E, não tão raro, tudo isso junto e misturado.
Hoje, o que une quase todos esses grupos é a política. Tais laços ideológicos também os vinculam, por hora, com segmentos do campo evangélico os quais detestavam poucas décadas atrás. É o fenômeno da necrorreligião, um dos pilares de sustentação da necropolítica vigente em nosso tempo.
Independente da fragmentação do conservadorismo católico, há certa divisão entre os também chamados ultracatólicos quanto ao Papa Leão XIV. Segmentos norteamericanos já chamaram Prevost de “woke” e de “marxista”. E estão escandalizados por ele já ter criticado ou corrigido publicamente Trump e seu vice, Vance.
No Brasil, há “influencers” e grupos ultraconservadores que adotaram postura distinta. Essa fração do conservadorismo tenta convencer a opinião pública católica, pedindo um “voto de confiança” a Leão porque ele, em tese, não seria tão progressista quanto Bergoglio. Em outras palavras, “querem ganhar a narrativa” sobre os fatos.
O atual pontificado está ainda no começo. Quem se arriscar em vaticinar algo em definitivo sobre Leão e seu ministério papal neste momento, corre sério risco de precipitação e perder credibilidade.
A Igreja Católica é um enorme transatlântico. Alguns, mais ácidos, diriam que ela mais se parece com um gigantesco paquiderme. Seja lá qual for a analogia, trata-se de uma instituição que não costuma dar “cavalos-de-pau” ou guinadas bruscas em sua história milenar.
Até agora, temos o passado de Prevost como religioso e bispo, que indica uma simplicidade no cotidiano e uma presença junto do Povo de Deus. Após sua eleição como Bispo de Roma, surgem aqui e ali alguns sinais sobre como será este pontificado.
Certos analistas estão apontando contradições nestes simbolismos. Mas é preciso esperar as primeiras ações deste Papa no governo do rebanho católico para avaliar com mais propriedade e consistência. De concreto neste momento, temos o reiterado chamamento de Leão XIV à construção da paz no mundo e suas preocupações com o mundo do trabalho na era digital.
Além disso, vale ressaltar que o nome escolhido por um pontífice revela suas intenções de governo. Desse modo, se Prevost desejasse dar uma guinada de 180 ⁰C na condução da “Barca de Pedro”, teria adotado outro nome, como Gregório XVII, Pio XIII, João Paulo III ou Bento XVII.
É necessário pontuar que existem uma série de elementos “ad intra” que não são perceptíveis para o grande público não católico. Questões como a configuração dos ritos litúrgicos católicos, a formação dos padres, a vida das ordens religiosas e a escolha dos bispos são temáticas que podem indicar qual caminho o novo Pontífice tomará. Entretanto, somente quem vive o cotidiano do catolicismo, os pesquisadores e conhecedores dos meandros da Igreja perceberá tais movimentos. A imprensa em geral costuma falar “groselha” (como diriam estudantes do Ensino Médio) sobre esses aspectos.
Se Leão XIV estivesse substituindo Ratzinger ou Wojtyla, ninguém teria dúvidas em dizer que ele é progressista. Acontece que Francisco aumentou muito o “sarrafo”. Devolveu credibilidade a um catolicismo combalido e desacreditado no mundo globalizado por causa de uma sucessão de escândalos. A Igreja havia deixado de ser uma voz relevante no cenário internacional. Bergoglio não apenas devolveu à Igreja sua credibilidade, como foi considerado por muitos a única liderança global de fato nesta primeira quadra do século XXI. Um estadista.
Francisco, dentro e fora do catolicismo, elevou demais as expectativas sobre a figura do Papa. O papado mudou de patamar e o “sarrafo” está em lugar bem mais alto. Leão XIV terá que lidar com a ingrata situação de estar sob o escrutínio público tendo Francisco como régua.
Não apenas o Bispo de Roma será avaliado pelos parâmetros estabelecidos pelo antecessor argentino. Católicos e quem tem algum interesse no tema também estarão observando o novo pontificado tendo Bergoglio como parâmetro.
Por outro lado, entender para onde vai o catolicismo é fundamental neste momento histórico. É uma época de ressurgimento do ultranacionalismo, de profundos antagonismos que produzem divisão política. Esse contexto permite que a religião cada vez mais ocupe espaço na esfera pública, muitas vezes atacando a laicidade do Estado.
Em razão de todas essas particularidades, Leão XIV ainda é uma esfinge. Na era digital, marcada pela velocidade da informação, pela primazia da imagem e pela superficialidade, é preciso ter cautela.
O tempo é o senhor da razão. Juízos precipitados e superficiais podem até ganhar visibilidade nas redes. Todavia, quem se propor a isso está sob o risco de, na pressa em decifrar Leão, ser devorado pela esfinge…
* Jorge Alexandre Alves é Sociólogo, Professor do IFRJ e integra o Movimento Fé e Política no RJ.
Os extremistas católicos nunca foram maioria na Igreja. Décadas atrás, era um nicho de radicais que orbitavam em torno de si mesmos. Viúvas de um passado que nunca viveram, em seus delírios de revisionismo histórico, desejavam que o catolicismo retornasse a ser aquela típica instituição total da Idade Média.
Sonhavam com aquela Igreja que integrava a elite política, que dominava todos os aspectos da vida social, ditando o comportamento individual e vigiando moralmente todas as pessoas. Queriam voltar ao passado tridentino de um catolicismo que rezava em latim, com mentalidade religiosa triunfante, e uma liturgia que refletisse o caráter majestático de um cristianismo elitista e reacionário, descolado da vida concreta das pessoas.
Com a chegada da internet e das redes digitais, passaram a ter mais visibilidade. Com grande volume de recursos financeiros, sua mensagem fundamentalista ecoou e, desde o começo do século XXI, realizaram sua revolução cultural às avessas, usando os meios de comunicação.
Esse caldo de cultura conservador também serviu de cortina de fumaça, mascarando modos de vida e posturas em nada identificadas com a mensagem dos Evangelhos. Os abusos sexuais, a vida dupla de ministros ordenados, o clericalismo, o fausto da vida de membros do alto clero católico e a aproximação com segmentos políticos ligados ao extremismo e a discursos de ódio são alguns dos esqueletos no armário deste catolicismo intolerante.
Por quase 35 anos, este modo de ser católico e uma configuração eclesial se tornou hegemônico. Não em termos numéricos. Até porque um dos efeitos do clericalismo característico desse período foi a infantilização do laicato. Desse modo, o fundamentalismo avançou no interior do catolicismo, mas no campo das mentalidades e da vida cotidiana das comunidades católicas. São poucos, mas com muitos recursos financeiros e capacidade técnica, sua agenda ganhou presença pública e força.
Todavia, em 2013 a Igreja havia chegado a um impasse, emparedada por escândalos, constrangida pelos desvios de não poucos membros do clero, com as finanças em frangalhos. O inverno eclesial tinha exaurido o frescor do Concílio Vaticano II, dissolvido sua credibilidade pública e diluído o protagonismo internacional da pessoa do papa. Havia sério risco do catolicismo perder relevância no cenário geopolítico global.
Foi nesse contexto que se deu a renúncia de Bento XVI. Em gesto de grande humildade, o pontífice alemão sai de cena e sua atitude significou a falência daquele modelo de Igreja. O inverno eclesial também havia se esgotado. Vindo do fim do mundo na perspectiva dos centros de poder global, Bergoglio assume a sé de Pedro. E não se omite diante da crise em que se encontrava o catolicismo e o papado.
Em uma pregação de final de ano, lista 15 doenças da Cúria Romana e propõe reformas na burocracia vaticana. Deseja uma Igreja pobre para os pobres, em saída, rumo às periferias existenciais. Muda protocolos para punir abusadores e predadores sexuais na Igreja.
Rompe com poderes encastelados intramuros, sofre com uma oposição agressiva, desrespeitosa a ponto de acusá-lo de heresia e de comunismo. Recuperando o espírito do Concílio, propõe uma Igreja Sinodal, participativa, com abertura às mulheres e aos jovens.
Com o Papa Bergoglio, a Igreja ampliou sua presença na África e na Ásia e devolveu a credibilidade da instituição católica. Universalizou o Colégio Cardinalício, aumentou o número de cardeais eleitores para o conclave que o sucederá e reduziu a influência europeia na sua sucessão.
Extramuros, Francisco escreveu uma encíclica sobre questões ambientais com muita repercussão, elogiada por estudiosos da área. Apoiou movimentos sociais, defendeu terra, teto e trabalho para o povo. Corajosamente, afirmou que o sistema econômico mata.
O primeiro papa do Sul Global se tornou a grande liderança mundial de nosso tempo. Restaurou a credibilidade da Igreja, devolvendo ao papado, ressignificado, sua autoridade moral e popularidade. Bergoglio entrou para a história como um pontífice humilde, próximo do povo, pastoral. Porém, ele também foi o grande estadista do planeta neste primeiro quarto de século.
Com a Páscoa de Francisco, a Igreja se vê na iminência de um novo conclave. A escolha de um novo Pontífice sempre é um momento histórico. Neste momento específico, a importância da escolha do Bispo de Roma impacta para além do catolicismo. Hoje, a escolha do sucessor de Pedro virou questão geopolítica.
Os debates entre os cardeais estão inseridos nesse contexto. Embora tenha criado a maioria dos eleitores no conclave de sua sucessão, não necessariamente escolheu homens alinhados com sua visão e suas reformas. Os conservadores são minoria, mas dispõem de apoio midiático, recursos financeiros e visibilidade na redes a ponto de fazer muito barulho. E formar opiniões.
Segmentos contrários as reformas de Francisco há tempos se articulam na expectativa de um novo conclave. Em Fevereiro, se reuniram em um complexo hoteleiro de luxo, em Sintra, Portugal. Ao menos um bispo brasileiro esteve nesse encontro. Organizado por entidades ligadas à extrema-direita planetária, o evento contou com a assessoria do mago das eleições do campo conservador, responsável pela eleição de Trump em 2016.
Na véspera se sua morte, Francisco não teve como se livrar da incômoda visita do vice-presidente americano, em pleno domingo de Páscoa. A diplomacia do Vaticano teve a presença de espírito de não permitir uma audiência privada com o pontífice convalescente, dando apenas 10 minutos de visita pública com a autoridade norte-americana.
Não foi apenas uma audiência de um católico devoto para desejar feliz Páscoa ao seu líder religioso. Fora da agenda pública de J. D Vance, com quais segmentos católicos da Itália e da Cúria Romana o preposto de Trump se reuniu? Com qual objetivo? Estava o vice-presidente estadunidense em Roma a fim de preparar o terreno para a sucessão de Bergoglio e a partida do Papa precipitou as coisas?
Ao longo do funeral de Francisco, dos novendiales (os nove dias de luto oficial pela morte do Pontífice Romano) e das Congregações Gerais, foi possível identificar a estratégia conservadora para um conclave tão decisivo para a Igreja e para o mundo. O que está em jogo é a continuidade da primavera na Igreja iniciada pelas reformas de Francisco ou a volta aos tempos do inverno que assolou a Barca de Pedro por tantos anos.
O resultado de um conclave pode ser imprevisível, mas a maioria dos analistas não creem que haja grandes retrocessos na condução dos destinos da Igreja. Todavia, os tradicionalistas têm usado todos os recursos disponíveis para frear ímpetos reformistas. Na impossibilidade de tornar viável um candidato conservador, ao menos garantir a reversão da reforma da Cúria Romana e da abertura da Igreja nas pautas da diversidade e da moral.
Para tanto, a facção anti-Francisco tem operado em três níveis diferentes. Primeiro, através de certa narrativa disseminada através da Grande Imprensa. Seja no Brasil, na Itália, na França ou na Espanha, os principais meios de comunicação têm insistido que o próximo pontífice deverá unir uma Igreja supostamente dividida.
Pela voz dos jornalistas, as “fontes” do campo conservador ventilam que o futuro Papa deverá ter um perfil conciliador. Ele deveria estender a mão para setores da Igreja contrariados pelo pontificado de Bergoglio. Trata-se do mesmo discurso dos meios de comunicação no Brasil sobre o perfil do sucessor de Francisco.
Acontece que exatamente esses setores foram, sob Bento XVI, parte diretamente envolvida nos problemas e na crise da Igreja. Agora se precisa negociar e dialogar justamente com quem causou tanto sofrimento em nome de interesses pouco evangélicos?
Ao reproduzir essa lógica, de forma consciente ou não, a imprensa colabora com a estratégia conservadora de produzir um fato político. Dessa forma, se tenta convencer a opinião pública e o laicato católico acerca da necessidade, para o bem da Igreja, que o próximo Papa deve ter um perfil moderado. No caso brasileiro, esse discurso ainda é reforçados pela visibilidade dada a prelados locais de viés conservador, que são apresentados como moderados ou progressistas
A segundo eixo da estratégia conservadora reside nos chamados Kingmakers (fazedores de reis) ou Popemakers. São cardeais muito respeitados entre seus pares ideológicos. Geralmente ou não são eleitores ou sabem que dificilmente terão força política suficiente para alcançar os 2/3 dos votos necessários no conclave para eles próprios serem eleitos. Mas por sua influência, podem indicar nomes a serem seguidos pelos demais cardeais.
No campo conservador, dois desses nomes se mostraram bastante ativos na imprensa. Um deles é o Cardeal alemão Gerard Müller. Opositor dos mais ferrenhos ao papado de Bergoglio, deu duas declarações em momentos diferentes neste pré-Conclave. Disse que o conclave marcaria “o fim de uma era”, a de Francisco. Posteriormente, afirmara que o grande conflito neste conclave não seria entre conservadores e progressistas, mas sim entre ortodoxia e heresia.
O Outro é um veterano representante do inverno eclesial. Trata-se de Camilo Ruini, Cardeal Vigário Emérito da Diocese de Roma. Muito identificado com João Paulo II, Ruini foi os olhos em defesa da ortodoxia e do magistério do papa polonês na Cidade Eterna. Na semana passada declarou. que Francisco foi até às fronteiras, fez um papado para o público externo, mas era hora da Igreja voltar a pertencer aos católicos…
Ambos são representantes do Ancient Regime. Porta-vozes dos arautos do retrocesso. Dão um tom mais crítico e ácido às suas falas porque sabem que é bem difícil que saia um papa dentre os opositores públicos de Francisco. Mas em tempos de crise de identidade, sabem bem que o discurso de defesa da “Sã Doutrina da Fé” podem atrair cardeais moderados.
Ao apelarem para a Tradição (muito mais tridentina que evangélica, diga-se), esperam “furar a própria bolha”. Pretendem emplacar um nome que, mesmo não fazendo uma contrarrevolução anti-Francisco, ao menos congele as mudanças ocorridas até aqui. Atrairão moderados, mas será em número suficiente para fazer um novo Bispo de Roma?
É fácil identificar os cardeais desse campo tradicionalista porque a maioria deles se sentam em torno de Müller nas audiências das Congregações Gerais. Em imagem de alguns dias atrás, um prelado brasileiro até apontado como progressista por sites ultraconservadores estava nesse grupo. E talvez não seja à toa.
Nas listas de papabili publicadas pela imprensa italiana aparece um cardeal húngaro vinculado a esse campo conservador. Próximo ao governo autocrata de seu país, seria uma surpresa se eleito fosse. Mais nenhum cardeal desse campo tomou para si a condição de papabile.
Fora os popemakers, mais ninguém deste grupo dá declarações polêmicas ou se manifesta de forma veemente para a imprensa. A disciplina e o espírito de corpo fazem parte da tática dos ultracatólicos no conclave, como têm sido em processos eleitorais mundo afora. Mas não só.
Possivelmente, avaliaram que dificilmente emplacarão um pontífice que seja a antítese completa de Francisco. Tentarão de tudo até o final, mas se movimentam em torno de uma alternativa que, mesmo identificada com o pontífice argentino para fora dos muros católicos, seja teologicamente conservador.
É um movimento que pode ser bem sucedido, desde que consigam plantar um Cavalo-de-Tróia. Um nome que, possa alcançar 2/3 dos votos, angariando apoios de parcela dos cardeais conservadores o suficiente para sua eleição. Alguém de discurso humanitário forte, com entrada no mundo oriental e respeitado pelos ortodoxos. Mas, ao mesmo tempo, alguém conservador no campo da moral, que não fosse mexer mais com a Cúria Romana. Um purpurado que, por exemplo, desfizesse as restrições da missa em Latim decretadas no pontificado que se encerrou..
Considerando a universalização do colégio de cardeais, agora presentes em lugares remotos como a Mongólia ou ilhas da Oceania, é difícil acreditar que eles se conheçam bem. A menos que boa parcelas destes prelados tivessem alguma comunicação por aplicativos de mensagens ou por chamadas de vídeo, articulados sob alguém muito identificado com Francisco. Não é o que parece até agora.
Isso torna mais plausível a possibilidade de um Cavalo-de-Tróia. Não seria novidade. Karol Wojtyla foi, de certa forma, uma virada em relação a João Paulo I. E os cardeais latinoamericanos caíram nessa mesma narrativa. Em 1978, diziam que o polonês apoiaria a Igreja Latinoamericana porque tinha conhecimento de causa (a versão antiga do hoje “lugar de fala”) sobre como lidar com regimes autoritários. Foi eleito, a primavera conciliar foi congelada e o resto virou história.
Finalmente, a estratégia conservadora também fala por finanças e comunicação nas rede e na internet. Um grupo católico ultraconservador criou um site com os perfis de cada cardeal. Aqueles considerados mais progressistas têm sempre algo que coloca em dúvida sua fidelidade a doutrina cristã. Os do campo conservador são mais bem detalhados, sendo retratados como campões da fé católica.
No último final de semana, a imprensa repercutiu a informação dada por um jornal italiano sobre um dossiê secreto sobre 20 cardeais que circulava entre os prelados nas Congregações Gerais. Um outro jornal de Roma, com perfil conservador noticiou que um forte candidato ligado a Francisco havia desmaiado na semana passada e se encontrava doente. Há desinformação se tornou arma dos conservadores para influenciar o Conclave.
Para além do colégio cardinalício, há uma mudança de algoritmo nas redes digitais. Leigos católicos começaram a ser mais bombardeados de informações sobre o conclave geradas perfis de grupos ultraconservadores. Isso tem acontecido mesmo com pessoas identificadas com a Teologia da Libertação.
Esse esquema de convencimento quer atingir o fiéis para que estes sejam mais dóceis caso tenhamos um papa comprometido com uma agenda menos progressista. Aqui vale também a tática de plantar um Cavalo-de-Tróia na opinião pública. Afinal, nem mesmo todos os cardeais conhecem o perfil teológico dos principais candidatos ao sólio pontifício.
Sob o disfarce da “Semana da América”, um grupo empresários muito ricos estiveram em Roma na semana anterior, para uma peregrinação religiosa anual, organizada por uma entidade católica norteamericana. Em meio aos dias de luto pela morte de Francisco, promoveram jantares em palacetes da cidade, com vinhos caros e comida sofisticada.
Além disso, houve reuniões secretas no melhor estilo lobby de corporações na capital do país. Um dos presentes afirmou que, de uma reunião como aquela, seria possível arrecadar mais de U$ 750 milhões “desde que tenhamos o papa certo”. Tentador, se considerarmos verdadeiras as notícias sobre o Vaticano estar com problemas financeiros.
A estratégia conservadora para a eleição do próximo sucessor de Pedro está lançada. Mesmo que haja mais barulho, desinformação e tentativa que possibilidades concretas, a imprevisibilidade de um conclave não nos podem fazer descartar nenhuma hipótese. Se sairão vitoriosos ou não, somente saberemos uma hora após a fumaça branca sair da chaminé…
*Jorge Alexandre Alves é Sociólogo, Professor do IFRJ e integra o Movimento Fé e Política no estado do Rio de Janeiro.
Imagem gerada por inteligência artifical em https://www.shakker.ai/aigenerator
Com mais de três mil dioceses em todo mundo e cinco mil bispos, esperar que o Bispo de Roma pessoalmente nomeie os bispos de todo mundo seria ingenuidade. É preciso delegar essa tarefa. Essa percepção exige que se discutam as últimas nomeações episcopais no Brasil. Sobretudo quando feitas nesse contexto de internação do Papa.
Embora seja ele quem formalmente nomeia os bispos, é de se estranhar que tantas escolhas para a Igreja do Brasil sejam feitas quando os boletins médicos indicam que seu estado de saúde é crítico. As indicações desta semana, em seu conjunto, indicam mais claramente a ação de um determinado segmento do episcopado brasileiro.
No grande xadrez que as nomeações episcopais representam para a Igreja Universal, a escolha de um bispo indica a linha pastoral a ser seguida em uma diocese. Um conjunto de bispos com o mesmo perfil indicam uma diretriz, no que diz respeito aos grandes temas do catolicismo.
Portanto, a escolha de um determinado candidato ao episcopado sinaliza o quanto esse processo está alinhado com o magistério de um Papa. Trocando em miúdos, o perfil de um bispo pode mudar o rosto do catolicismo de um país como o Brasil.
Essa foi uma das estratégias usada nos tempos de João Paulo II para reconfigurar o catolicismo brasileiro há 40 anos. Bispos próximos das posições mais progressistas no Concílio Vaticano II e das grandes intuições teológico-pastorais da Igreja Latinoamericana daquele período foram sendo substituídos por figuras mais conservadoras e menos afeitas as inovações conciliares no campo pastoral, na formação do clero e na Liturgia.
Consequentemente, candidatos ao episcopado sobre os quais surgissem quaisquer suspeitas de adesão ou simpatia à Teologia da Libertação eram descartados, na maioria dos casos. Em muitas dioceses, tal estratégia causou cisões, dores, traumas e contribuiu significativamente para o esvaziamento do catolicismo, sua perda de capilaridade social e para o quadro religioso atual, onde a sangria de fiéis católicos para outras confissões não cessou.
O estímulo ao tradicionalismo e adesão desmedida ao pentecostalismo católico foram, desde os anos 1990, justificadas como estratégias mais “modernas” para “trazer de volta as pessoas para a Igreja”. Os resultados demográficos indicam o contrário, porque atualmente o catolicismo brasileiro representa parcelas cada vez menores da população.
Mais, esses grupos que se afirmaram no lugar do modelo pastoral das Comunidades Eclesiais de Base foram solo fértil para o fundamentalismo católico que assola a Igreja do Brasil. Sua face visível revela o pior do cristianismo, com vínculos íntimos com a extrema-direita, o golpismo inveterado, a produção/disseminação de fakes news e as escandalosas manifestações de segmentos católicos desejando a morte do Papa Francisco nas redes digitais.
Portanto, a escolha dos bispos também deveria ser um indicativo da implementação de uma linha teológico-pastoral advinda do Bispo de Roma, como foi nos papados que antecederam ao atual, certo? Nem tanto… Francisco talvez seja o Pontífice mais reformista da história recente da Igreja. Em muitos aspectos, sua coragem nos remete ao grande João XXIII que, ao convocar o Vaticano II, colocou a Barca de Pedro em diálogo com a modernidade.
Mas, já com Paulo VI – que foi fiel ao espírito do Concílio – uma oposição inicialmente dissimulada começa a pôr freios no que foi decidido pelos padres conciliares. A partir de Wojtyla, muito do que se propôs no Concílio foi ressignificado, reinterpretado na direção oposta das aspirações conciliares, a ponto de Bento XVI defender publicamente tal posição, já no ocaso de seu pontificado.
Bergoglio, eleito Bispo de Roma a partir de certo clamor por mudanças, iniciou uma série de reformas na Igreja e no exercício do papado que rapidamente passaram do encantamento para uma oposição que era inicialmente velada, mas hoje é cada vez mais explícita. O projeto eclesial deste Pontífice atingiu em cheio os curiais romanos, os tradicionalistas de diferentes matrizes e aqueles que se sentiam herdeiros do legado dos dois pontificados anteriores. Por isso, Francisco talvez tenha sido o papa mais atacado da era da comunicação em massa por parcela da própria comunidade católica, em níveis de desrespeito poucas vezes vistas para com um líder religioso.
A oposição a Francisco e a resistência às suas reformas ficaram raízes na Cúria Romana, a despeito dos esforços do Papa em reduzir seu poder e sua influência. Dentre os dicastérios romanos (equivalentes a um ministério de um governo civil), aquele que se encarrega da escolha dos bispos tem um papel crucial em qualquer reforma eclesial.
Nas condições normais de temperatura e pressão, seria de se esperar que um corpo burocrático como a Cúria Romana fosse totalmente alinhado ao ministério petrino do Papa. Logo, o departamento responsável em nomear aqueles que seriam, no atual modelo eclesial, responsáveis pela implantação das reformas da Igreja, deveria escolher dentre os candidatos ao episcopado exatamente os que se identificam com a linha do atual Pontífice.
Contudo, são muitas as resistências que Francisco encontra entre os curiais do Vaticano. E isso se reflete em boa parte das escolhas dos bispos e na seleção de cardeais, particularmente para a Igreja do Brasil. Ao mesmo tempo, Bergoglio enfrenta uma resistência que se tornou muito tenaz no país. Diferente do enfrentamento público que bispos fizeram nos Estados Unidos ou na Itália, a oposição ao Sucessor de Pedro no território brasileiro não é pública. São remotas as chances de vermos um bispo brasileiro – mesmo emérito – atacar o sucessor de Pedro.
Suas orientações pastorais, suas exortações e encíclicas são formalmente acolhidas, mas “empurradas com a barriga” no dia-a-dia das comunidades católicas. Basta ir a uma matriz paroquial qualquer de uma grande arquidiocese brasileira e verificar se catequistas e agentes de pastoral conhecem, de fato, os documentos finais da série de sínodos realizados por Francisco ao longo de seu pontificado.
Ora, na Igreja do Brasil, as disputas pelas nomeações episcopais fazem parte da estratégia de oposição ao Papa em território nacional. Em que pese os muitos bons bispos nomeados por Francisco em seu papado, são muitas as insatisfações de toda ordem por certas nomeações. Muitas indicações causam estranheza pelo perfil do indicado. Como esse processo de escolha ocorre em sigilo, é difícil saber os reais critérios que apontaram pela escolha de um e a não indicação de outro.
Aqui entra a estratégia de oposição ao Papa no que se refere à escolha dos bispos. Entre 2013 e 2019 foi mais nítido que o perfil dos escolhidos para bispo se aproximava mais do magistério de Francisco. Porém, na medida em que os anos passaram e a resistência a Bergoglio cresceu, aumentaram as nomeações de prelados oriundos de grupos e dioceses muito distantes das intuições teológicas e das reformas propostas pelo pontífice.
Como ninguém assume publicamente fazer oposição ao Papa, salvo grupos mais sectários, a respeito dos quais alguns bispos afirmam nada poder fazer por serem associações civis de fiéis. Dessa forma, fica mais complicado identificar as verdadeiras lideranças da oposição a Bergoglio na Igreja do Brasil.
Todavia, olhando o perfil das nomeações episcopais para determinadas regiões do Brasil, é possível detectar de onde vêm as articulações que promovem candidatos com determinado perfil, bem como as transferências de bispos de uma diocese para outra. Mesmo quando o escolhido é identificado com a agenda de Bergoglio, não são poucas as vezes em que o nomeado é retirado de uma determinada realidade sócio eclesial para ser bispo em uma região com a qual nunca teve o menor contato.
Foi o que aconteceu há algum tempo com um religioso com destacada atuação junto à periferia de uma megalópole brasileira, em área profundamente urbanizada de uma diocese marcada pela violência urbana. Foi feito bispo, mas para atuar em outra região, em outro bioma em uma realidade bem distinta daquela onde atuava até sua nomeação.
No jogo de poder que envolve as indicações de bispos, a sucessão episcopal nas maiores dioceses se torna elemento chave para a afirmação ou não da força da oposição a Francisco. No caso brasileiro, as duas maiores arquidioceses do país estão em vias de ter mudanças em sua direção.
A burocracia referente à nomeação de um bispo passa pela diplomacia do Vaticano, através de um embaixador papal, o núncio. A Nunciatura Apostólica é quem recebe as indicações, faz escutas e fornece as informações necessárias para que o Dicastério dos Bispos elabore uma lista tríplice, da qual sairá o escolhido para uma diocese.
Para o Brasil já vieram núncios que deram grande contribuição à Igreja. Armando Lombardi e Sebastiano Baggio foram dois núncios notáveis, porque tiveram participação direta na formação de uma geração luminosa de bispos brasileiros nos anos 1960 e 1970.
Atualmente, constata-se que, após a chegada do atual representante diplomático papal no Brasil, tornaram-se mais frequentes nomeações episcopais que não estavam em sintonia com a linha de Francisco. Soma-se a isso o fato do secretário do Dicastério dos Bispos ser brasileiro. Nesse contexto, não seria tão complicado que os novos bispos fossem, não apenas da boca para fora, mais alinhados pastoralmente com Bergoglio.
Contudo, se isso não está acontecendo, podemos inferir que a oposição a Francisco atua para que a escolha dos bispos e as transferências episcopais dificulte a implementação do magistério petrino no Brasil. Se considerarmos algumas nomeações e transferências ocorridas nos últimos anos, não podemos descartar que a resistência a Francisco no Brasil se tornou mais forte, capaz de se articular com a diplomacia papal e setores do Dicastério dos Bispos que não são tão entusiasmados com o papa, a fim de operar uma máquina muito bem azeitada, de fazer bispos conservadores.
Essa articulação, mais do que apenas fazer bispos wojtylianos e ratzingerianos, está de olho na sucessão das duas maiores arquidioceses do Brasil. Estamos falando das maiores metrópoles brasileiras, de cidades cuja população ultrapassa 19 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 10 milhões são católicas.
A importância aumenta mais ainda quando se constata a perda atual da capilaridade social de outrora do catolicismo, efeito de uma pastoral urbana que não oferece respostas aos desafios da evangelização, que optou por ações de massa de cunho devocional. Em uma dessas metrópoles, a Igreja tem se omitido nas graves questões sociais – como a chaga da violência urbana – e parece mais preocupada com as sacristias do que com a vida concreta do Povo de Deus, tornando-se uma das capitais com menor percentual de católicos do Brasil.
Todavia, o futuro da Igreja do Brasil passa por essas duas metrópoles. Para o bem ou para o mal, o que o catolicismo produzir nessas grandes cidades ditará os rumos do rebanho católico em escala nacional.
Se a Igreja for capaz de ser novamente voz relevante nesses ambientes urbanos, dará enorme contribuição à sociedade brasileira e ao Cristianismo. Mas se optar pela sacristia, sua face visível será a do fundamentalismo, da intolerância e do conluio com forças políticas que desprezam a democracia, os direitos e a dignidade humana.
Por isso, os próximos arcebispos dessas cidades, além de prováveis cardeais da Igreja, terão papel fundamental e estratégico nos rumos do catolicismo brasileiro. A oposição a Francisco, no Brasil e em Roma, sabe disso. E tem se movido.
O magistério de Francisco representa o futuro da Igreja. Ainda que esteja em seu ocaso, o pontificado do Papa Bergoglio foi a única lufada de ar fresco na Igreja capaz de tirá-la do atraso de 200 anos, como dizia o saudoso arcebispo de Milão, Carlo Maria Martini. Jesuíta como o atual Pontífice, o Cardeal Martini foi uma das vozes mais lúcidas em um tempo de inverno eclesial.
A oposição a Francisco representa o retorno a esse inverno, a um passado clerical e triunfalista, sem ao menos ter se completado a primavera deste pontificado. E, no Brasil, sua tenaz articulação passa pela Nunciatura e pelo Dicastério dos bispos.
As recentes mudanças no episcopado brasileiro – inclusive as que ocorrem quando o Papa convalesce na cama de um hospital – são parte da estratégia dos segmentos anti-Francisco. Quando se analisa as possibilidades de sucessão das maiores arquidioceses brasileiras, fica nítido o desenho tático da resistência ao magistério do Bispo de Roma.
Nos últimos dois anos, prelados de destaque por suas posições a favor de Francisco, na perspectiva de uma Igreja sinodal e em saída foram transferidos de suas dioceses de origem para outras circunscrições eclesiásticas. Todos eles passaram boa parte de suas trajetórias em grandes metrópoles, nas regiões metropolitanas ou nas periferias. Tiveram presença destacada junto aos mais pobres, na defesa dos direitos humanos e no mundo da educação, além de publicamente manifestaram seu entusiasmo com as reformas de Francisco.
Ou seja, reuniam todas as condições necessárias para assumirem o desafio de conduzir o catolicismo em uma grande metrópole. Por que foram transferidos recentemente para o interior ou regiões demograficamente pequenas? Evidentemente, as igrejas locais para onde eles foram ganharam muito com seus novos bispos. E eles mesmos continuam a serviço do Reino de Deus, sem ambições maiores, caminhando com o cheiro de suas ovelhas como pastores que são.
Só que as suas transferências, por serem muito recentes, os retiram das listas de sucessão nos grandes centros urbanos. Nisso reside a estratégia dos opositores do Papa nas transferências episcopais: Afastar das grandes metrópoles quem poderia ser a voz de Francisco na realidade urbano brasileiro. A máquina de fazer bispos não alinhados com Francisco opera mesmo quando não se trata de um novo bispo. E age articuladamente com segmentos da nunciatura e do Dicastério dos bispos.
Roraima, Livramento, Petrolina e, mais recentemente, Santos e Itapetininga ganharam e ganham muito com suas nomeações recentes. Mas e a Igreja do Brasil? Além de Brasília e Roma, quais outros centros do poder católico no país constituem o eixo da articulação anti-Francisco em território brasileiro?
*Jorge Alexandre Alves é sociólogo católico, professor do IFRJ e integrante do Movimento Fé e Política no Rio de Janeiro.
O primeiro semestre de 2024 apresenta uma conjuntura desfavorável aos interesses da população mais empobrecida, daqueles e daquelas que vivem de sua força de trabalho e das esquerdas em geral. No Brasil e no mundo somos impactados pelo crescimento e fortalecimento da extrema-direita e pelas alterações climáticas causadas por séculos de descaso com as questões ambientais.
As previsões ambientais viraram realidade. A emergência climática agora é rotina:
Fato é que a catástrofe climática é uma realidade e pouco parece ser feito para reverter seus efeitos – se é que isso e possível – em curto prazo. A crise do sistema-mundo reconfigurou o clima do planeta e sentimos seus efeitos desastrosos. Estamos na terceira década do século XXI. Encurtamos distâncias com as tecnologias da informação e do mundo digital, a inteligência artificial é uma realidade e os telefones celulares viraram computadores de mão. Mas em termos ambientais, parece que a civilização humana se voltou contra seu próprio lar maior.
O ser humano virou inimigo de Gaia (Terra). Sua ação causa impactos em escala planetária, impactando mais que o espaço geográfico, modificando biomas e alterando o clima. Deixamos o holoceno, época geológica marcada pelos principais eventos da cultura humana: agricultura, escrita, surgimento do estado, da filosofia e da ciência.
Hoje, tamanha é a interferência humana em Gaia, que Paul Crutzen – Prêmio Nobel de Química em 1995, defendeu o surgimento, com a Revolução Industrial, de uma nova época geológica: o Antropoceno, intensificado ao longo do século XX. A humanidade impacta o planeta e o adoece, da mesma forma que faz um vírus em um organismo vivo.
Mas há quem diga que, na verdade, a globalização do capitalismo fez com que a forças do grande capital inaugurassem o Capitaloceno. Os interesses econômicos e a mercantilização de todas as formas de vida, na selvagem busca da reprodução de capital, esgotaram a capacidade do planeta em repor o que havia sido rapinado em termos de recursos naturais não renováveis.
Independente do nome do culpado, fato é que nos encaminhamos para o colapso global da experiência humana que fundou a modernidade. O eventos climáticos extremos viraram realidade em toda parte. É a catástrofe do Rio Grande Sul, as grandes tempestades de verão no Sudeste brasileiro e os incêndios do Pantanal que se somam a grandes chuvas no Texas, a quase ausência de outono no Brasil e as temperaturas acima de 50°C na primavera da Índia.
Ainda assim, a ação política de governantes e o zelo de gestores sociais poderiam ter prevenido que o pior acontecesse, salvando vidas e mitigando prejuízos. Mas não foi o que ocorreu até agora. Aliás, medidas de prevenção raramente acontecem cada vez que uma grande emergência climática atinge o Brasil. Que a população do sul do país saiba identificar os responsáveis pelo tamanho da desgraça que os abateu com seu voto nas próximas eleições.
A Extrema-Direita avança no mundo:
Neste mesmo quadrante histórico presenciamos o esgarçamento da noção de Democracia, na sua forma representativa. Os sistemas de governos, os organismos de justiça e os partidos políticos criaram um ambiente apartado do conjunto da população. Os Estados-Nação se tornaram incapazes de garantir direitos básicos, fazer justiça social e preservar o patrimônio ambiental do planeta.
Exatamente em meio da descrença generalizada que emergem as forças extremistas de direita. A reinvenção de ideias que se acreditavam derrotadas e relegadas ao lixo da História desde o final da Segunda Guerra Mundial parecem ter conquistado corações e mentes em diversas partes do mundo.
Em outras palavras, as contradições sociais do capitalismo produziram o caldo de cultura oportuno para que a xenofobia, o racismo, a aversão a toda forma de diferença e o fundamentalismo religioso ganhassem força. A velhas ideias fascistas voltaram a ser defendidas sem qualquer constrangimento da parte dos seus apoiadores.
As tecnologias da informação se tornaram poderosos meios de disseminação dessas ideias, permitindo a articulação mundial da extrema-direita, através das redes digitais, canais de vídeos e dos aplicativos de mensagens. A luta política saiu de seu lugar tradicional e se instaurou no ambiente virtual da internet, conquistando um número cada vez maior de adeptos.
Os últimos anos são marcados por um ambiente social de incertezas econômicas, de catástrofes climáticas e de desgaste da democracia representativa. Neste cenário, parcela dos que perderam parte dos seus privilégios históricos de gênero, raça e classe – as vezes em nome de avanços relativos como no caso brasileiro – viram no extremismo político e no fanatismo religioso (de matriz cristã em nosso caso) suas únicas alternativas para existirem em um mundo cada vez mais ameaçador.
Os culpados de sua derrocada eram exatamente aqueles historicamente invisibilizados. Simplesmente porque tiveram uma pequena parte de suas demandas atendidas, e passaram a ter maior liberdade na esfera pública e visibilidade midiática. Mesmo assim, essa presença se tornou insuportável em diversas partes do mundo. Para eles, a extrema-direita foi uma tábua de salvação. Os neofascistas do século XXI usam eficientemente a internet como meio de canalizar insatisfações e medos, gerando engajamento e articulando seus apoiadores.
Mobilizando poderosos algoritmos matemáticos usados inicialmente no mercado financeiro, desenvolveram técnicas capazes de identificar nas redes virtuais perfis psicológicos de pessoas que poderiam se identificar com sua ideologia. Com efeito, a ultradireita se tornou popular, e eleitoralmente forte.
Em alguns países como Hungria, Turquia, Ucrânia, Itália e Polônia se tornou hegemônica. Em outros está ou esteve recentemente no poder e se mantém ativa e influente, como no Brasil, na Índia e nos Estados Unidos. Ela cresce de forma consistente como demonstraram as eleições recentes para o Parlamento Europeu em países como Espanha, França e Alemanha. Ou começa se tornar politicamente relevante, como em Portugal.
A vitória da extrema-direita nas eleições para o parlamento europeu acendeu o sinal de alerta no mundo. Do Outro lado do Atlântico, o primeiro dos debates entre os candidatos a presidente dos Estados Unidos mostrou fraqueza de Joe Biden e sua enorme dificuldade em enfrentar a enxurrada de mentiras de seu adversário.
O mandatário norteamericano não representa as esquerdas em plano internacional. Historicamente, o que é bom para os americanos quase nunca foi bom para o Brasil. Ao longo do século XX, o Partido Democrata foi mais intervencionista na América Latina, como aconteceu na instalação da ditadura brasileira. Mais recentemente, foi no governo do democrata Obama, tão celebrado pela questão racial, que agentes da CIA roubaram HD’s da Petrobrás, grampearam o telefone presidencial de Dilma Roussef.
A situação mudou a partir de 2016 quando o Partido Republicano passou a ser liderado por uma figura identificada com a extrema-direita, influindo em eleições por toda parte e mobilizando seus pares a redor do planeta. Ao tentar retornar à Casa Branca, o candidato republicano é o principal articulador internacional da explosiva aliança entre fundamentalistas, extremistas políticos e protofascistas.
Uma eventual vitória de Trump no final do ano teria efeitos deletérios sobre a democracia, dentro e fora de seu país. Por isso, os democratas se vêm obrigados a apoiar candidatos à esquerda que vençam democraticamente as eleições e renunciam, por hora, a sua política externa intervencionista, sobretudo na América Latina. Continuar a fazer o que se fazia nos tempos da Guerra Fria fortaleceria Trump e a extrema-direita.
Todavia, as vitórias do Partido Trabalhista no Reino Unido e da grande coalização de esquerda no segundo turno das eleições para a Assembleia Nacional Francesa (equivalente no Brasil à Câmara dos Deputados) indicam uma luz em meio a escuridão destes tempos difíceis. O Reino Unido, anos de neoliberalismo desgastaram o capital eleitoral da direita conservadora britânica. Agora, os trabalhistas foram eleitos com grande maioria para pôr ordem na casa, restabelecendo as políticas de bem estar social.
A vitória as esquerdas na França foi uma enorme surpresa. Pela primeira vez, a rede de fake news e o uso de algoritmos em processos eleitorais pela ultra direita foram derrotadas. Uma ampla aliança contra os fascistas franceses, contando com o decisivo engajamento de artistas, intelectuais e até os principais jogadores da seleção francesa de futebol, conseguiu furar a bolha das esquerdas e conseguiu falar à população. Ainda assim, a extrema-direita francesa aumentou sua representação parlamentar na Assembleia Nacional.
Ainda não sabemos como ficará a política na França e no Reino Unido, mas os resultados eleitorais destes dias acendem sinais de esperança. A questão é saber se, no Brasil e em outras partes do mundo, conseguiremos tirar lições valiosas, sobretudo com a experiência francesa.
O complexo cenário político no Brasil:
Apesar das boas novas vindas da Europa, tanto a temática ambiental quanto o extremismo político compõem um cenário bastante complicado para as forças democráticas em geral. No Brasil, vivemos uma conjuntura adversa para o mais empobrecidos, os movimentos sociais e as esquerdas em particular. Soma-se a esses fatores o fanatismo religioso e uma direita fisiológica – também conhecida por Centrão – que, mesmo não sendo radical, busca ocupar espaços na estrutura do Estado para se locupletar financeiramente.
O atual governo recebeu um cenário de terra arrasada ao ocupar o Planalto. A transição de governo foi muito complicada, totalmente diferente daquela ocorrida em 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição presidencial. Na Educação, as sinalizações já não eram muito promissoras, havia a pressão do Centrão e na área da Defesa sequer houve equipe de transição.
A candidatura Lula se formou no espectro de uma frente ampla, com a perspectiva de vencer ainda no primeiro turno. Mas, além de ter que encarar um segundo turno, as esquerdas foram derrotadas nas eleições parlamentares, o que poderia dificultar e muito um eventual governo de centro-esquerda. A nova legislatura não seria apenas a mais conservadora a ser eleita desde o final da ditadura militar, mas também pouco republicana e a mais incivilizada da história da República.
A situação inicial deste novo governo foi marcada pela sensação de terra arrasada na administração pública federal, sobretudo no campo das políticas sociais, e na área ambiental. Lula assumiu o governo após anos de desmonte da máquina estatal, fruto das políticas de Estado Mínimo praticada pelos governos anteriores.
Havia ainda uma forte presença de militares na estrutura de alguns ministérios. Se após as eleições de 2018, o vencedor dizia que era necessário “despetizar” o Estado, em 2023 caberia a um governo mais progressista, mesmo de frente ampla, “desbolsonarizar” o aparato de governo.
Com menos de 10 dias tivemos a invasão das sedes dos poderes da República. Após 17 meses da tentativa de golpe de Estado, os mentores daquela ação tresloucada continuam soltos, sejam civis ou militares. Muita gente foi presa e condenada com justiça. Porém, os verdadeiros inimigos da democracia continuam soltos.
A força simbólica do retorno ao poder do maior líder popular dos últimos 50 anos, à frente de um extenso leque de alianças para defender a democracia conferiu a Lula um capital político inicial que rapidamente sofreu erosão. A fatura do apoio dado por setores historicamente antagônicos aos movimentos sociais e às esquerdas logo começou a ser cobrada, sobretudo daqueles segmentos da alta burguesia, do capital financeiro e da grande mídia.
Em poucos meses, a oposição extremista, juntamente com o Centrão, produziram uma rápida deterioração das relações do governo com o Parlamento. Os primeiros tentam instabilizar o governos e acuá-lo. A bancada fisiológica chantageia o governo, liderados pelo presidente da Câmara dos Deputados, ávidos por ministérios, sobretudo os de orçamento, como Educação e Saúde.
Pouco a pouco se processa certa degradação do patrimônio político de Lula. As soluções encontradas nos dois primeiro mandatos petistas, em conjuntura histórico-social muito diferente da atual, não poderiam ser adotadas novamente. Os desafios são outros.
Parece que o Poder Executivo tem certa dificuldade em entender com precisão os tempos presentes. Aposta-se demais no carisma pessoal do Presidente da República. Falta coordenação política em uma “Frente Ampla” que se corrói a cada dia. Este não é um governo politicamente forte. Ao contrário, falta às boas inciativas do governo federal articulação entre si para ajudar a sociedade perceber a diferença qualitativa quando comparadas aos dois governos anteriores.
As contradições de um governo de reconstrução democrática:
Há entraves na política ambiental. A situação no Vale do Javari e o avanço dos garimpo ilegal em áreas indígenas não foi reduzido a contento. A reforma agrária não anda. João Pedro Stédile classificou como “uma vergonha” as ações do governo neste campo. A agenda da Educação é pautada pelos interesses as fundações do empresariado na área.
O Brasil não possui uma política de defesa nacional. Não houve sequer transição na área. A linha de ação dos militares brasileiros segue ainda os pressupostos da Doutrina de Segurança Nacional, constituída nos anos 1930, potencializada pela Guerra Fria, que se encerrou há 35 anos.
Há uma enorme demora na restauração das políticas públicas fundamentais para a população no campo da assistência social e do combate á fome. O preço dos alimentos ainda sangram o bolso dos mais pobres e de frações da classe média. Ainda que se possa responsabilizar certa herança maldita e perversa advinda do bolsonarismo no poder, falta celeridade ao Executivo Federal em recuperar medidas de bem-estar social naquilo que ele pode fazer.
Muitas vezes se tem a impressão de que o governo está sequestrado pelas pautas do grande capital, pela agenda das corporações da mídia brasileira ou pela voracidade do Centrão sobre verbas públicas federais. Isso é reforçada por medidas de ajuste fiscal anunciadas pelo Ministérios da Fazenda.
Vendo-se obrigado a ceder às chantagens praticadas pelos financistas do capitalismo de rapina que se pratica no Brasil e pelo presidente do Banco Central, impõe-se mais uma vez um custo social insuportável à classe trabalhadora brasileira. Os mais vulneráveis pagam a conta de uma fatura que permite ao governo se sustentar precariamente em uma situação profundamente adversa.
Estes 19 meses são fortemente marcados pela dificuldade em concretizar promessas de campanha. O anúncio de medidas de bem estar social e de aprofundamento da democracia perdeu o simbolismo inicial a força dos primeiros meses de governo. Isso reforça a sensação de redução das políticas públicas a uma agenda de eventos e anúncios de políticas públicas que possuem dificuldades em sair do papel.
A capacidade dos ministros palacianos em dar conta das articulações políticas do governo e das relações com o Congresso Nacional tem se mostrado discutível. Diferentemente dos mandatos anteriores de Lula, os atuais ministros passaram a maior parte de sua vida política em cargo de gestão no Poder Executivo em estados e municípios. Ou na burocracia partidária.
Isso explicaria em parte a falta de traquejo político nas relações com a sociedade civil. Nomes como José Dirceu, Luiz Gushiken e Gilberto Carvalho acumularam anos de militância nos movimentos sociais, nos sindicatos e na luta contra o Regime Militar. Lula possuía mais interlocutores que possuíam coragem para interpelá-lo. Hoje, quem faz esse papel?
Não é por acaso que se acumulam uma sucessão de equívocos no governo federal. A maneira como o Ministério da Educação e o Ministério da Gestão se portou durante a greve dos servidores das universidades e institutos federais é um deles. Há entre professores, após quase três meses de greve, grande sensação de ingratidão com um governo que ajudamos a eleger pelo tratamento dispensado a uma categoria profissional que foi vítima de toda sorte de ataques e mentiras durante quase uma década.
Há ainda o pequeno orçamento dado a ministérios da área social, vitais para descontruir as narrativas da extrema-direita como Mulheres, Cultura e Direitos Humanos. A comunicação social do governo continua patinando, incapaz de disputar corações e mentes nas redes digitais. Fala apenas aos convertidos.
No que diz respeito à organização popular, repete-se como mantra a necessidade de voltar às bases. Todavia, a iniciativa petista mais inovadora que se produziu em 2022 nessa direção, os Comitês Populares de Luta, foram quase todos desmobilizados após as eleições.
Inimigos do governo ou do povo brasileiro?
Stédile afirmou a necessidade de se defender o governo Lula contra seus grandes inimigos, capital burguês e o grande latifúndio e seus prepostos, como a mídia empresarial. Esta deseja “retucanizar” o país, e já pensa em alternativas para tal. Mesmo que estas sejam uma versão com bons modos do neofascismo bolsonarista, como Zema ou Tarcísio de Freitas.
A estes grupos poderíamos acrescentar a maioria no Congresso Nacional que parece disposta a inviabilizar a todo custo o governo federal. Atuam nesse sentido através do orçamento, da intimidação violenta e da incivilidade no trato institucional. Trata-se da necropolítica em estado puro.
A ainda temos o fundamentalismo cristão, católico e evangélico, promovendo sua intolerância religiosa. Distorcem temas caros à moral cristã, como neste malfadado projeto de lei que pune com mais rigor mulheres vítimas de estupro que estupradores. É a quintessência da necrorreligião com o objetivo imediato de colocar esse tema na agenda das eleições municipais deste ano.
Foi da necrorreligião que saiu a última tentativa desestabilizar o governo, o Projeto de Lei 1904/24, que pretendia punir as vítimas de estupro com mais rigor que os autores de abusos sexuais. O autor, um pastor de extrema-direita do Rio de Janeiro, foi explícito em dizer que pretendia testar Lula. O presidente da câmara, Arthur Lira colocou esse projeto em regime de urgência para ter mais uma carta na manga para continuar a chantagear o Poder Executivo e obter mais nacos do orçamento federal em nome do Centrão.
Debaixo da hipocrisia presente na questão está uma tentativa de pautar as eleições municipais de outubro com um tema da agenda moral. Mas a corajosa e decidida reação das mulheres em todo o país foi decisiva para que Lira retirasse o projeto de pauta e o engavetasse.
A estratégia usada, combinando ações nas redes digitais e protestos de rua, assustou muitos políticos de direita. Foi a primeira vez que se conseguiu furar a bolha e reagir à máquina de desinformação da direita religiosa fundamentalista. Será possível produzir reação semelhante de maneira sistêmica em processos eleitorais?
Cabe refletir sobre o que significa, em meio há tantas contradições, defender o governo Lula, usando a palavra de Stédile. Não se pode ter apenas a postura de torcida organizada em estádio de futebol. A melhor defesa consiste em ser intelectualmente honesto com os fatos.
Finalmente…
Trata-se de uma conjuntura adversa, com uma correlação de forças muito desfavorável aos movimentos sociais e às esquerdas. Por isso mesmo, a melhor defesa é insistir em uma agenda de direitos básicos. É preciso fazer pressão sobre o governo, como lembra Frei Betto ao dizer que política é como feijão, só funciona na pressão.
Por isso, é urgente e necessário ter a coragem para apontar as contradições de um governo eleito em nome da democracia e dos direitos sociais da população brasileira. Não se pode renunciar a essa dimensão, sob pena de pagarmos todos um preço muito caro nas próximas eleições.
Boa parte da população brasileira se encontra muito vulnerável pela fome, pela falta de trabalho e pela desesperança de dias melhores. São vitimados pelo racismo das instituições e pelo sexismo das relações sociais. Nos maiores centros urbanos, como no Rio de Janeiro, os mais empobrecidos são reféns do fanatismo religioso, da violência policial, das milícias e do tráfico varejista de drogas.
É preciso que o Presidente da República saia da redoma em que está. Que escute interlocutores da sociedade civil. É necessário que Lula saia do Planalto para ver de perto como estão os que vivem na planície.
* Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor do IFRJ e do Movimento Fé e Política
A Igreja do Brasil foi voz relevante em vários momentos na história recente da Igreja e no Mundo. Desde o Concílio Vaticano II, passando por momentos cruciais da história recente do país, não foram poucas a vezes em que o episcopado brasileiro foi “voz dos sem voz”, se colocando sempre em “diálogos pelo Reino”.
Sua conferência episcopal data dos anos 1950.A inspiração de Dom Hélder Câmara, então bispo auxiliar da arquidiocese do Rio de Janeiro e primeiro secretário-geral da nova entidade, foi fundamental para que esta inovação do exercício da colegialidade dos bispos se desse ainda sob o pontificado de Pio XII, antecipando uma das intuições do Concílio. E contou com apoio do então subsecretário de estado do Vaticano,Monsenhor Giovanni Batista Montini, que futuramente se tornaria o Papa Paulo VI.
Esse pioneirismo foi fundamental para que os bispos do Brasil tenham sido protagonistas na defesa do Povo de Deus e na promoção dos direitos fundamentais do ser humano em nossa terra. A CNBB foi inspiração e suporte para movimentos sociais no campo e na cidade. Esteve sempre em sintonia com o aggionarmento da Igreja, para recordar a feliz expressão do Papa João XXIII.
Mas isso não se deu sem incompreensões, dentro e fora dos ambientes eclesiais. Nos períodos mais duros dos últimos sessenta anos, ataques tentaram macular a vida ilibada de alguns de seus mais ilustres homens como Hélder Câmara e Paulo Evaristo Arns.
Em meio à repressão da Ditadura Militar, a primeira sede da CNBB foi alvo de pichações.Otitular de Nova Iguaçu, dom Adriano Hypólito sequestrado e abandonado nu com o corpo todo pintado de vermelho. O fusca do bispo foi explodido na sede da conferência, ainda no Rio de Janeiro naquele momento.
Como no passado, o colegiado dos bispos brasileiros sofre com ataques. Da mesma forma que ocorreu com dom Hélder e dom Adriano, alguns dos expoentes do episcopado brasileiro hoje também é acusada de comunismo. Ressuscitam fantasmas para mascarar autoritarismo, intolerância e fundamentalismo religioso.
Para além da intimidação física, hoje se praticam formas virtuais de violência. Pela terra sem lei da internet e das redes digitais, é perpetrado um verdadeiro massacre a partir de narrativas baseadas em difamações e mentiras veiculadas por aplicativos de mensagens. Nem mesmo a CNBB escapa de tentativas de assassinato virtual de sua reputação.
A nota triste é que grupos e movimentos que se dizem católicos fazem parte dessa guerrilha digital há algum tempo. Sites e perfis pessoais constantemente atacam a conferência episcopal e bispos que ocupam sua estrutura de organização. No anonimato da internet, contando com robusto aporte financeiro e sob a proteção velada de proeminentes figuras da Igreja do Brasil, tais grupos tiveram destacada atuação na promoção do grande medo que possibilitou a ascensão da extrema-direita ao poder no Brasil.
Ao mesmo tempo, estão na linha de frente dos ataques ao Papa Francisco. Quando não atacam pessoalmente o Pontífice, são incansáveis em desqualificar seu magistério e as reformas em cursos que ele dirige. Tanto no plano ideológico quanto no plano eclesial estão articulados em nível internacional com forças que atuam da mesma forma na Europa e na América do Norte.
Trata-se de um “combo” que mistura falso apego a uma suposta tradição de matriz tridentina e neofascismo que se tornou base de sustentação de extremismo político em nosso país e pelo mundo afora.Eainda disseminam fanatismo religioso através de movimentos, canais digitais, influindo nas paróquias brasileiras.
Não é à toa que, em muitas dioceses, parcela do clero entende a conferência episcopal como um organismo meramente burocrático, quando não “político”. Nada teriam a acrescentar ao exercício de sua missão presbiteral. Ora, se isso ocorre é porque, mesmo dentro do episcopado, há essa visão a respeito da entidade. Consequentemente, de forma particular entre jovens candidatos ao ministério ordenado, não poucos “torcem o nariz” para o Bispo de Roma, sobretudo quando ele critica o clericalismo e se propõe a colocar a “Igreja em Saída”.
Trata-se de um contexto que fere de morte o futuro da ação pastoral da Igreja do Brasil. As últimas três décadas mostraram que opções centradas na catarse emocional, em modelos intimistas de espiritualidade, em liturgias centradas nas “rendas da vovó” esvaziaram as maiores inovações pastorais que se produziram após o Concílio. O resultado é percebido no esvaziamento das igrejas e no distanciamento das juventudes, sobretudo nos maiores centros urbanos.
Isso sem falar no espinhoso tema dos abusos sexuais dentro de nossos ambientes eclesiais. Estamos muito distantes da coragem da Igreja em Portugal, onde um relatório recente indicou quase cinco mil casos de abusos. Basta comparar o tamanho dos dois países e de sua população católica para imaginarmos o tamanho do estrago em potencial que pode estar em curso aqui do outro lado do Atlântico.
É em meio à essa conturbada realidade eclesial, a delicada situação política brasileira e à oposição intelectualmente desonesta ao magistério do Papa Francisco que se encontram as eleições para a CNBB. Dependendo de quem ocupe as funções-chaves da conferência, neste momento se decide o rumo desta importante instituição católica.
É provável que a presidência e a secretária-geral da entidade seja disputada por duas importantes movimentos no interior do episcopado. O primeiro seria formado por grupos que gostariam de assumir a conferência para fazer da CNBB um bastião da “volta à grande disciplina”, parafraseando o grande teólogo João Batista Libânio.
No Brasil não há membro do episcopado que faça oposição pública e explícita ao Papa Francisco, como acontece na Alemanha, na Itália ou nos Estados Unidos. Entretanto, sabe-se que há uma “relutante aceitação” das principais inspirações de seu magistério pontifício. Basta verificar a repercussão dada em nível diocesano aos documentos pontifícios e à questão da sinodalidade da Igreja.
Se não constituem abertamente um movimento “contra Francisco”, estariam muito mais próximos de uma visão ratzingeriana ou wojtyliana da Igreja. Esses pontificados tiveram seu papel histórico, mas os tempos são outros. Ficar preso ao passado pode fazer a Igreja do Brasil perder o trem da História. São tempos que exigem aprofundar inspirações do Concílio Vaticano II que ainda não ecoaram junto ao Povo de Deus.
Ao mesmo tempo, fariam da conferência episcopal espaço de oposição ao atual governo federal. Um ensaio já foi feito quando um grupo de prelados fez gestões para que a CNBB emitisse a nota cobrando pela revogação de normativa sobre direitos reprodutivos instituída pelo governo anterior.
Aqui se misturam o processo eleitoral na entidade dos bispos com ou outros elementos. Um deles reside na cosmovisão de uma rica e poderosa organização católica. Surgida no tenebroso ambiente do fascismo europeu, deu suporte a regimes autoritários que perduraram por décadas na Europa, bem como a golpes de estado na América do Sul. Já teve mais espaço e gozou de status privilegiado em pontificados anteriores. Recentemente perdeu espaço em outra conferência nacional ligada à Igreja.
Outro elemento reside nas sucessões episcopais de importantíssimas dioceses brasileiras que avizinham nos próximos anos. Alguns prelados têm procurado maior protagonismo nos ambientes episcopais, assumindo a bandeira dos “valores inegociáveis”, pressionando a CNBB nesse sentido. Dessa forma, se tornariam fortes candidatos para as futuras sedes vacantes que virão.
Há uma candidatura em pleno vapor deste movimento “mais wojtyliano e menos franciscano”. Inclusive, há informes afirmando que o candidato faz o chamado “corpo a corpo” com outros bispos. Sua trajetória, embora marcada por uma ascensão meteórica na hierarquia católica, é marcada por fatos obscuros neste percurso, como uma acusação de racismo religioso quando ainda era bispo-auxiliar.
Por outro lado, há um outro movimento que entende que é necessário resgatar elementos do Vaticano II que ainda não foram totalmente implementados na Igreja. Tem a mesma urgência histórica em desencadear reformas na Igreja e estão totalmente em sintonia com o magistério de Francisco sua proposta de uma “Igreja em Saída” a partir de uma perspectiva sinodal.
É constituída por um grupo de bispos que tenta manter a chama acesa da profecia. Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga são exemplos de bispos que lhe servem de inspiração. Procuram se manter longe de afetações e clericalismos, procurando construir uma Igreja pobre para os pobres.
Seria simbolicamente significativo que uma figura como Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus pudesse estar à frente da CNBB pelo próximo quadriênio. Mas há um impedimento por causa da idade do cardeal da Amazônia, que faria 75 anos no meio do seu mandato. Isso poderia ser contornado, mas ao que parece, forças contrárias atuaram no “tapetão” para que Roma não autorizasse uma exceção.
A secretaria geral é uma função estratégica na estrutura da CNBB, porque a conduz em seu cotidiano. Há um bispo experiente nessa função, porque já a executou com propriedade em Moçambique. Foi bispo no norte do país, na região mais pobre daquela nação.
Desempenhou seu ministério entre a solidariedade e a promoção aos marginalizados e aos excluídos. Com coragem e profecia, não se intimidou diante das ameaças dos extremistas islâmicos do Boko Haram e suas ações terroristas, colocando a própria vida em risco. Francisco, temendo por sua vida, o transferiu para uma diocese brasileira.
Talvez seja o nome certo para a hora. A CNBB precisaria de um secretário geral com essa coragem. Para quem já lidou com jihadistas, não seria tão complicado para ele lidar com “catolibãs” em território nacional. Neste quadrante da história, a experiência de quem foi missionário e bispo na África acrescentaria muito a conferência episcopal brasileira.
Contudo, as eleições na CNBB será, como sempre foi, decidida por uma maioria de bispos que poderíamos chamar de moderados. Em décadas passadas, a vida de verdadeiros pastores(como Luciano Mendes de Almeida, Fernado Gomes, José Gomes, Mauro Morelli, AngélicoBernardino, Waldir Calheiros, Vital Wilderink, Antônio Fragoso, Ivo Lorscheiter, José Maria Pires, Jayme Chemello, Marcelo Pinto Carvalheira, Aloísio Lorscheider, Moacyr Grechi, Adriano Hypólito, Paulo Evaristo Arns, Cláudio Hummes, Tomás Balduíno, ErwinKräutler entre tantos outros) foi decisivo para a bela trajetória que a CNBB construiu.
Hoje, neste imbricado xadrez episcopal, se começa a decidir o futuro da Igreja do Brasil. Que o testemunho destes verdadeiros homens de igreja do passado seja inspiração na hora de eleger os futuros responsáveis pela CNBB. E que seu legado conduza a assembleia episcopal reunida em Aparecida nos caminhos do diálogo pelo Reino de Deus.
*Jorge Alexandre Alves é sociólogo católico e membro no Movimento Nacional Fé e Política.
“No quadro de perda de importância da Igreja na sociedade, muitos clérigos aderem ao ideário neofascista e assumem uma postura reacionária tanto nas questões da sociedade quanto da religião. Embora essa adesão seja mais visível entre os padres e mais discreta entre os bispos, aí reside o risco de ruptura da comunidade católica: quando um lado não reconhece o outro como legitimamente católico. Não há mais como costurar o tecido religioso rasgado. Tudo que se consegue fazer hoje é colocar remendos, que cedo ou tarde esgarçarão mais ainda o tecido”, analisa Pedro A. Ribeiro de Oliveira, sociólogo, publicado originalmente em IHU, 11 nov. 2022. .
Eis o artigo.
Entre os muitos estragos causados pelo recente processo eleitoral está o agravamento do dissenso no interior da Igreja Católica. É como se os remendos que já há algum tempo vinham sendo colocados sobre um tecido esgarçado revelassem de uma hora para outra sua inutilidade. Não há mais como esconder: a Igreja Católica está dividida e essa divisão não pode mais ser disfarçada.
Quero aqui sugerir uma explicação sociológica para esse fato e apontar um caminho para quem quer se manter dentro da Igreja sem precisar fazer de conta que está num ambiente de irmãs e irmãos na fé.
Bem sabemos bem que a Igreja Católica se distingue entre as Igrejas cristãs por sua enorme capacidade de conviver com as diferenças religiosas. Desde que tenha sido batizada e não renegue publicamente a fé ou a igreja, a pessoa é católica – pouco importando o que crê ou sua maneira de relacionar-se com o sagrado. O fato novo, agora, é que o avanço neofascista na Igreja trouxe divergências de ordem moral e política incompatíveis entre si, tornando praticamente impossível uma verdadeira comunhão eclesial. Sinal disso é a crescente disseminação de rituais do tempo de Pio XII, como se o concílio Vaticano II não tivesse existido.
Mais do que uma afinidade afetiva entre a postura política neofascista e os ritos anteriores à reforma litúrgica, existe uma afinidade estrutural entre eles. O que os une estruturalmente é a rejeição à última inovação da modernidade: o ascenso social das mulheres minando o sistema familiar fundado no patriarcado. É o próprio sistema de poder masculino – chefe de família ou chefe de igreja – que se esvai, obrigando todos os demais componentes a redefinirem seu papel.
Como se isso fosse pouco, vem à tona toda a questão da sexualidade, agora vista sob o prisma das teorias de gênero e assumida pela bioética que não se deixa reger por normas religiosas. O ideário patriarcal, que sustentou tanto a organização familiar quanto a principal Igreja do Ocidente, encontra-se agora sob ataque não só do feminismo, mas também de outros movimentos libertários, decoloniais e contra o supremacismo.
Diante desse ataque, o elo entre o neofascismo e o enrijecimento da liturgia tridentina cria um movimento propriamente reacionário: ambos se colocam em defesa de um sistema de poder cujas bases estão irremediavelmente abaladas. Aí reside sua afinidade estrutural. Nem um nem outro apresenta algum projeto de futuro: ambos idealizam um passado que nunca existiu e infundem o medo ao futuro assombrado por um fantasma comunista. O período eleitoral e os movimentos golpistas posteriores ao resultado do 2º turno mostraram o quanto esse medo foi difundido em diferentes segmentos da população brasileira, entre os quais destaco os católicos que migraram do movimento carismático para o tradicionalismo.
No campo católico, esse movimento reacionário veio aprofundar o dissenso que já estava em curso numa Igreja em processo de encolhimento, como mostram as celebrações dominicais cada vez mais esvaziadas de fiéis. O censo demográfico certamente mostrará o decréscimo da população católica com menos de 40 anos de idade, seguindo a tendência apontada pelo censo de 2010.
A Igreja Católica ainda se mantém como espaço de sociabilidade da população acima de 50 anos, mas esta diminui com o tempo. Mas, em vez de criar novos espaços de sociabilidade – como são as Comunidades Eclesiais de Base e as Pastorais Sociais –, o clero aposta em celebrações-espetáculo, em programas religiosos na TV, em turismo religioso e em programas radiofônicos de autoajuda. Mantida essa tendência, dentro de mais algum tempo a Igreja Católica brasileira, confinada aos santuários, templos e sacristias, terá perdido a incidência na vida da população em geral.
Nesse quadro de perda de importância da Igreja na sociedade, muitos clérigos aderem ao ideário neofascista e assumem uma postura reacionária tanto nas questões da sociedade quanto da religião. Embora essa adesão seja mais visível entre os padres e mais discreta entre os bispos, aí reside o risco de ruptura da comunidade católica: quando um lado não reconhece o outro como legitimamente católico. Não há mais como costurar o tecido religioso rasgado. Tudo que se consegue fazer hoje é colocar remendos, que cedo ou tarde esgarçarão mais ainda o tecido.
Posso ter pintado esse quadro com tintas fortes, mas ele é real. O apoio explícito de padres ao governo agora derrotado e o silêncio da maioria do episcopado diante das barbaridades por ele cometidas só confirmam a tendência de ruptura no interior da comunidade católica. Isso não significa que estamos às vésperas de um cisma – com a institucionalização de duas igrejas de confissão católico-romana –, mas caminhamos rapidamente para um quadro de desinteresse de um lado em participar da mesma Igreja que o outro. Se o movimento tradicionalista continuar crescendo, os católicos que não o aceitam se afastarão e a Igreja Católica poderá viver o pior dos cenários: sua redução a um conjunto de seitas tradicionalistas.
Diante desse quadro, é preciso elevar o teor profético da Igreja. Tivemos bispos como Helder Camara, Paulo Evaristo, Pedro Casaldáliga, Tomás Balduino e outros que ousaram quebrar a unanimidade de um episcopado silencioso diante de violações aos direitos humanos. Eles devem ser sempre lembrados, para que os bispos e padres que hoje seguem seu exemplo não se sintam como destoantes do conjunto, mas hoje a Igreja Católica já não se entende mais apenas como um espaço de bispos e padres. O movimento histórico de superação do patriarcado entrou também no campo católico onde, desde a segunda metade do século passado, religiosas, leigas e leigos ocupam progressivamente posição de liderança nas comunidades de base, tendo sua autoridade reconhecida pelos fiéis, independentemente de seu reconhecimento canônico. Existe aí um potencial profético que poderá em breve tornar-se a principal fonte de vitalidade pastoral na Igreja Católica brasileira.
Não é necessário que os/as profetas sejam muitos/as. Basta que sejam pessoas admiradas e respeitadas por sua fidelidade ao Evangelho, por sua prática pastoral e por sua adesão às orientações de Francisco. Serão essas as vozes proféticas que suscitarão novas forças ao Povo de Deus que está no Brasil. Essas vozes proféticas não impedirão a inevitável redução numérica da Igreja Católica no país, mas poderão dar realidade ao antigo sonho das Comunidades Eclesiais de Base, animadas pela Teologia da Libertação e pela leitura popular da Palavra de Deus, como ensina Frei Carlos Mesters. Assim será gerado um novo jeito de ser Igreja: uma igreja libertadora que favoreça a superação do patriarcado e lance as raízes de uma sociedade justa, fraterna e respeitosa da Casa Comum.
Se assim for, este momento doloroso de divisão eclesiástica pode tornar-se também o momento germinal de uma Igreja atualizada para assumir o projeto de Jesus na história do século XXI.
Havia uma enorme expectativa em cima das eleições no último domingo. A maioria da população deu uma vitória consagradora ao Luiz Inácio Lula da Silva. Era para ter sido uma noite de festa pelos mais de 57 milhões de votos dados ao candidato do Partido dos Trabalhadores.
Mas o que se seguiu uma espécie de depressão coletiva que tomou conta dos eleitores do ex-presidente mais popular da história. Houve uma grande frustração, causada pela inesperada quantidade de votos dados ao atual presidente. Os 51 milhões de votos dados a Jair Bolsonaro provocou um inesperado segundo turno.
O medo se seguiu à depressão. A possibilidade de mais 4 anos deste governo representaria uma espécie de inferno na Terra. Muitas pessoas ficam apavoradas com essa possibilidade. Mas o que foi que provocou esse resultado?
Ao analisarmos as pesquisas de intenção de voto, Lula teve a votação dentro do possível. É o jogo jogado. Na maioria dos casos, o candidato do PT esteve dentro da margem de erro ou pouca coisa abaixo dela. No caso de Ciro Gomes e Simone Tebet, o resultado correspondeu ao que apontava as pesquisas.
As maiores disparidades ocorreram nas medições estaduais. Nos três maiores colégios eleitorais do Brasil, esperava-se uma vitória petista para presidente, o que não aconteceu.
Em São Paulo, Bolsonaro ficou à frente de Lula. No Rio de Janeiro, a vitória do presidente foi muito expressiva. Em Minas Gerais, Lula venceu, mas com uma vantagem menor do que era.
O candidato bolsonarista ao governo fluminense venceu em primeiro turno, inesperadamente. E no caso paulista, outra surpresa, em dose dupla: O candidato a governador apoiado por Bolsonaro chegou na frente de Fernando Haddad, que liderava as pesquisas e no senado, um ex-ministro do atual governo se elegeu senador, contrariando todas as previsões.
Ainda assim, a disparidade foi maior no Rio de Janeiro. Se o estado fosse um país, Bolsonaro teria vencido no primeiro turno. Mas o que explica tamanha disparidade nas pesquisas estaduais?
Preliminarmente podemos dizer algumas coisas: Primeiro, pessoas mais à direita se recusam a participar das medições e isso afeta significativamente a amostragem estatística. Neste caso, é preciso modificar o método.
A segunda hipótese é algo puramente subjetivo e difícil de mensurar empiricamente: o voto envergonhado. A pessoa declarava voto em um candidato mais por vergonha ou medo de admitir seu candidato in pectore.
A terceira seria uma onda conservadora que se deu após o debate na televisão. Neste caso, a direita foi muito assertiva em reduzir a quantidade de votos nulos. Ao que parece, nesta reta final houve voto útil para Bolsonaro. Será que isso não indica que o presidente alcançou o seu teto de votos?
Ainda existe uma última possibilidade. Os eleitores bolsonaristas estariam deliberadamente se recusando a responder as pesquisas. Consequentemente, as pesquisas eleitorais não estariam conseguindo medir a real intenção de votos em Bolsonaro.
Além disso, a eleição para os legislativos estaduais e a composição do Congresso Nacional não foi boa para o campo popular. Há uma piora ideológica no parlamento. A extrema-direita passou a ser bem representada no parlamento brasileiro.
Também se previu o derretimento do Centrão, que aconteceu parcialmente. Mas a centro-direita fisiológica perdeu espaço para a extrema-direita. As esquerdas todas somadas têm 125 deputados. É uma bancada um pouco menor que a da atual legislatura.
O caso do Rio de Janeiro é mais complexo. Talvez em território fluminense tenha ocorrido a tempestade perfeita para a direita. E ela pode ter sido decisiva para que a eleição para presidente não tenha se resolvido no último domingo.
Neste caso funcionou com maestria a combinação de três elementos perversos. O primeiro deles foi o fundamentalismo religioso. Em termos sociológicos, trata-se da necrorreligião que oferece sustentação à necropolítica.
Na prática, foi a força do púlpito nos cultos evangélicos e nas missas dominicais nas periferias do Rio de Janeiro e na Região Metropolitana. Há relatos de campanha eleitoral feita abertamente nas portas de algumas paróquias situadas na Zona Oeste da capital fluminense.
O segundo elemento é a presença intimidadora de milícias e de traficantes evangélicos nas favelas, morros e conjuntos de residência populares. Não sabemos que “meios de conscientização” podem ter sido usados para persuadir as pessoas que vivem nestes territórios.
Campanhas de esquerda foram praticamente banidas da Baixada Fluminense e das periferias da Região Metropolitana. Houve uma grande queda nos votos nulos e a abstenção se reduziu um pouco. Terá relação com uma possível intimidação eleitoral nestas regiões? Mais uma vez, a máquina de fakes news foi eficiente. Áudios e vídeos afirmando que Lula e as esquerdas querem acabar com o Cristianismo viralizaram pelos grupos de aplicativos de mensagens.
Além disso, houve um vídeo que vinculava Lula a uma facção do tráfico de drogas. O TSE suspendeu o material no YouTube, mas ao que parece, o estrago foi inevitável em plataformas como Telegram e WhatsApp, mais difíceis de serem fiscalizadas pela justiça.
Mesmo considerando que Lula será vitorioso no segundo turno, algumas coisas estão muito evidentes. Os movimentos populares e as esquerdas desenvolveram novas formas de militância nos centros urbanos (pautas identitárias, por exemplo), mas perderam capilaridade social nas periferias das periferias.
Essas eleições reforçam a sensação de implosão dos marcos estabelecidos na CF-1988 e pela Nova República. Da chamada modernização conservadora que caracterizou a redemocratização brasileira, ficou o conservadorismo.
A modernização liberal no campo dos costumes e no avanço dos direitos humanos sofreu grande revés, sobretudo junto aos mais pobres e nas periferias. A direita ideológica se consolida no extremismo, sobretudo no campo dos costumes. Movimentos sociais e partidos de esquerda falam aos convertidos, dentro de sua própria bolha.
A extrema-direita atua politicamente como se estivesse em guerra. São os neocruzados do Século XXI. E eles têm clareza disso. Sentem-se soldados de uma guerra contra o mal. Por isso são capazes de tudo em nome do que defendem. Por isso são tão perigosos.
Neste momento conseguiram provocar aquela ressaca política no eleitorado de esquerda com o resultado das eleições. Cabe refletir se isso não foi intencional. Durante o ano todo, o presidente, seus ministros, parcela da cúpula militar e os seus seguidores questionaram as urnas eletrônicas.
Às vésperas, os questionamentos desapareceram como que por magia. O Exército não detectou nenhuma anormalidade e sequer pediu explicações ao Tribunal Superior Eleitoral. No dia da eleição, algumas redes bolsonaristas propagavam vitória no primeiro turno.
Com os resultados, passaram a questionar as pesquisas. Mas será que todo esse quiproquó não foi proposital? Parece um movimento típico da guerra híbrida. Uma tática militar de atacar em pinça para deixar o inimigo vulnerável. Atacar as urnas para forçar as esquerdas a posicionar-se contrariamente.
Depois, questionar as pesquisas para deixar o campo popular cambaleante e de ressaca com o resultado eleitoral. Em seguida, fazer todo mundo duvidar da efetividade das pesquisas e perder a referência em relação às estratégias de campanha. Fiquemos atentos. Esta disputa eleitoral pode ser comparada a várias coisas. Mas é também um jogo de xadrez.
Portanto, o primeiro turno das eleições nos mostra que o fenômeno que ficou visível no processo eleitoral de 2018 não terminou. A extrema direita não desaparecerá com uma provável derrota de Bolsonaro.
Mas, apesar da grande importância dos grandes apoios, quem decidirá essa eleição serão as pessoas comuns, como você ou o autor destas linhas. O ditado afirma que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Em tempos onde a cadela do fascismo está a solta, fiquemos vigilantes.
*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor do IFRJ. Faz parte do Movimento Nacional Fé e Política.