Artigo

  • Roberto Malvezzi (Gogó)
     Não é seca,
    é a devastação da Amazônia

    Imagem: publicado por FIA – no blog/desmatamento-da-amazonia

    Por que a velha mídia e os cientistas se mostram surpresos com o vazio de nossos reservatórios e com a maior seca dos últimos 91 anos?

    Quando cheguei pela primeira vez no município de SINOP, Mato Grosso, me perguntei o que isso significava. Então, me disseram que era uma sigla: Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná. O próprio site da prefeitura diz que a cidade se originou na década de 70 do século passado, pela política de ocupação da Amazônia Legal pelo Regime Militar.

    Quando estive lá, a cidade era uma serraria atrás da outra, mas também me disseram que já tinha diminuído o número, já que a madeira estava acabando. Então, viria a soja para ocupar os espaços desmatados. Depois viria o gado. Por fim, terras abandonadas, imprestáveis para qualquer uso. Números dizem que o agronegócio deixou para trás cerca de 80 milhões de hectares de terras imprestáveis no território brasileiro.

    Mas, o que o pessoal do Paraná foi fazer em SINOP? Foi levar o modelo de desenvolvimento que eles aplicaram no próprio estado décadas atrás. E o modelo, que sempre foi predador, continua predador. É o modelo que sulistas e sudestinos espalham também no Oeste Baiano.

    Agora, com o licenciamento ambiental pornograficamente liberado, a grilagem das terras públicas liberada, então o avanço sobre a Amazônia tende a se acelerar e devastar o bioma como nunca na história desse país. No último mês de abril o desmatamento foi de 810 km2, o maior da série dos últimos dez anos (Imazon).

    Então, acontece uma seca nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Aí vem a mídia, a Agência Nacional de Águas etc., para dizerem que passamos pela maior seca dos últimos “91 anos”. Se você destrói a floresta amazônica, fundamental no ciclo das águas que abastece o Brasil pelos Rios Voadores, como você vai querer que continue chovendo no Sul e no Sudeste? É como matar as árvores dos ovos de ouro. E matam.

    Os cientistas já alertaram que, nessa latitude, no Chile há o deserto do Atacama, na África o deserto da Namíbia e na Austrália o deserto Australiano. Mas, mistério, chove à cântaros no Centro-Oeste brasileiro, nas regiões Sul e Sudeste, chegando até Uruguai, Paraguai e Argentina. Hoje se fala que a Amazônia chega até à Patagônia.

    Então, matemática simples, como ligar lâmpada e interruptor, se o agronegócio continuar destruindo a Amazônia como está fazendo, a região Sul do Brasil, incluindo o norte da Argentina, viram deserto como o é em outras latitudes da Terra.

    É uma escolha. E esses homens que dominam o Brasil escolheram o pior cenário. Novas secas virão, sempre mais terríveis e o deserto aguarda a todos ali na frente.

    [Artigo publicado no site do autor]
  • Roberto Malvezzi (Gogó) – Paulo Guedes é o ícone da “economia que mata”

    http://www.nanihumor.com/2013/11/papa-critica-economia-que-mata.html

    Se existe alguma virtude no atual governo é que ele é absolutamente transparente nos seus propósitos, ainda que seja uma perversa transparência. Como diz Jesus sobre os mercenários em uma de suas falas: “O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10,10).

    Bolsonaro avisou na campanha que viria para destruir (voltar 50 anos na história) e que gostaria de ver mortos ao menos os 30 mil que a “ditadura torturou, mas não matou”. Esse propósito se materializa com os fatos, como os 400 mil mortos pela Covid19, mas também a fala expressa do ministro Paulo Guedes: “De acordo com o ministro, não foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas sim ‘o avanço na medicina’ e ‘o direito à vida’ (Globo Economia). O ministro não tem pudores de dizer que a vida de muitas pessoas é um problema para a concepção que ele tem economia.  

    Para o ministro as únicas vidas que valem é a dos mercadores. O resto das vidas têm que ser sacrificadas no altar dos deuses do mercado. Pensadores como Jung Mo Sung e Franz Hincklammert já devassaram a alma sanguinária e sacrificial desses deuses. Mas, esses deuses têm uma característica pavorosa, isto é, são insaciáveis.

    Mas, assim como Bolsonaro não fala sozinho, mas tem milhões de pessoas ainda sustentando suas práticas e seu discurso, Paulo Guedes também não fala sozinho. Ele é o ícone da “economia que mata” segundo o dizer do Papa Francisco: “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiroDigamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”. (FRANCISCO, Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 09-07-2015).

    Além de Guedes, agora a Câmara dos Deputados deleta a licença ambiental e quer instalar a grilagem aberta nas terras públicas. Bolsonaro não está só, ele é o ícone dessa direita extrema e implacável.

    A mídia corporativa brasileira já nem fala em mercado, mas na Faria Lima. Além do personagem histórico, o que é a Faria Lima? Uma avenida em São Paulo, que junto com a Paulista, a Rebouças e a Nove de Julho fazem o quadrado dos Jardins na capital paulista. Isso quer dizer que Paulo Guedes representa uma avenida no Brasil, os mercadores da Faria Lima, onde estão estabelecidos os escritórios do mundo financeiro e as startups. É o Brasil pensado para uma avenida.

    Podemos acusar Bolsonaro, Guedes e Sales de tudo, menos de que são enganosos em seus propósitos e em suas práticas. Eles são convictos no processo de destruição que promovem. Dizem abertamente a quem servem e o que fazem. E fazem.

  • Dom Mol: Ditadura nunca mais

    “Defender ditadura, isso está fora de qualquer possibilidade de quem quer ser discípulo de Jesus”, afirma Dom Mol, em nome da CNBB.

    Nesta terça-feira, a coletiva de imprensa da 58ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que acontece de 12 a 16 de março, abordou a Análise de Conjuntura e a 6ª Semana Social Brasileira. Ao longo da semana, esses momentos são mediados por Dom Joaquim Mol, bispo auxiliar de Belo Horizonte – MG e presidente da Comissão Episcopal para a comunicação da CNBB.

    Diante de uma pergunta em referência à democracia, num contexto social em que muitos cristãos pedem a volta da ditadura e pregam a violência como mudança para o país, Dom Joaquim Mol, afirmava que “de maneira completamente inesperada começaram aparecer pessoas no Brasil, inclusive governantes brasileiros, apoiando a ditadura em detrimento da democracia”. Segundo o presidente da Comissão Episcopal para a Comunicação da CNBB, “só consegue apoiar e pedir a volta da ditadura quem nunca passou por isso”. Ele dizia que “querer a ditadura de volta, qualquer tipo de ditadura em nosso país, significa apontar uma espécie de anomalia na cabeça da pessoa, ela não pensa adequadamente, como também não sente adequadamente”.

    O bispo auxiliar de Belo Horizonte definia a ditadura como “a intolerância total a tudo o que é diferente, a toda e qualquer diferença, de qualquer tipo. A ditadura e a imposição de um modo de governar, de envolver a cultura, a economia, de fazer política com um máximo de intolerância a quem faz, sente e pensa diferente”. O bispo insistia em que “é por isso que a ditadura mata. Por isso a ditadura não tem nenhum escrúpulo em matar quem quer que seja, se estiver pensando diferente”.

    “Pedir a ditadura de volta é uma insanidade mental, uma insanidade dos sentimentos, é um total embrutecimento do ser desejar a ditadura”, enfatizava o bispo. Frente a isso, definia a democracia como a alegria, a importância, a valorização da diversidade pacífica entre nós”. Junto com isso, Dom Mol definia a democracia como “a expansão de direitos individuais e coletivos a todos, não só a um pedacinho”. Ele fazia referência à profunda desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, o que ele vê como “falta de democracia, porque democracia significa escola de qualidade para todo mundo, alimentação para todo mundo, teto para todo mundo, trabalho para todo mundo, terra para todos os que precisam de terra”.

    Segundo Dom Mol, não há como entender “a busca, a propaganda, a defesa de toda e qualquer ditadura”. Ele diz que não podemos permitir que a ditadura que aconteceu no Brasil durante 20 anos “seja chamado com outro nome que não ditadura militar e civil”, quando “alguém sem voto, foi e tomou o poder a passou a exercer esse poder com mão de ferro, quem pensa diferente, morre, inclusive com tortura”. Ele dizia que “um cristão, jamais pode, nem pensar em defender ditadura, isso está fora de qualquer possibilidade de quem quer ser discípulo de Jesus”.

  • Os Quartéis e os Palácios: uma Simbiose Brasileira
    Por Jorge Alexandre Alves

    Imagem: de redebrasilatual Preocupação com sua má relação com o Congresso motivou Bolsonaro a se cercar de ministros militares

    A questão que envolve os militares e suas relações com o poder civil não é nova. Desde Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, temos a interferência militar em funções civis no Estado. Isso se intensificou na República, aliás resultante de uma conspiração liderada por um marechal que, até uma semana antes, era monarquista convicto.

    Antes de mais nada, precisamos ter clareza que Bolsonaro é um projeto militar. Esse apoio se deu fundamentado na DSN (doutrina de Segurança Nacional), fundamento pedagógico da formação dos candidatos a oficiais-generais na Escola Superior de Guerra e similares.

    A maior parte das cúpulas militares em 2018 acreditavam existir um esforço internacional em desestabilizar o Brasil e estavam convencidos que a esquerda brasileira participava desse esforço. Ficava fácil, neste caso, identificar o inimigo interno e combatê-lo. Ao mesmo tempo havia subliminarmente os projetos pessoais de poder e de recursos – para os líderes e seus pajens.

    Bolsonaro foi visto como o cavalo selado que tornava possível essa articulação entre visão de mundo e interesses privativos da cúpula militar. Acreditava-se também que a hierarquia faria o capitão ter algum respeito por generais, almirantes e brigadeiros. E que seria possível tutelá-lo.

    Militares são moralistas. Vale a máxima que prescreve que não basta ser honesto, precisa parecer honesto. Por isso o discurso legalista. Mourão, Heleno (antes dele Etchegoyen), Villas-Boas, Azevedo e outros fazem política há muito.

    Certamente, alguns de vocês devem se lembrar do Gen. Heleno – Comandante Militar da Amazônia – tecendo considerações sobre as demarcações indígenas na Amazônia. Ou sobre a questão (que foi ao STF) referentes às disputas entre arrozeiros e o povo Ianomâmi na Reserva Raposa Serra do Sol, mais de uma década atrás. Isso custou a Heleno a quarta estrela (posto de General-de-Exército, o mais alto da força).

    Da mesma forma, Villas-Boas, Pujol (O próprio Heleno) foram comandantes daquela desastrosa missão dos capacetes azuis da ONU no Haiti (MINUSTAH). Generais escalados para esses postos o são por razões políticas. Aqui cabe sinalizar, todos eles nomeados para essa missão nos tempos em que a esquerda mandava(sic!) no país.

    Fernando Azevedo tem inserções na vida civil há muito tempo. Ele foi ajudante-de-ordem de Fernando Collor nos anos 1990. E foi preposto do Comando do Exército no STF presidido por Dias Toffoli.

    Ou seja, há pelo menos uma década presenciamos essa promiscuidade de militares na política. São sinais péssimos transmitidos por quem está na cúpula dessas corporações militares. A questão do legalismo e de uma defesa estrita do papel profissional da caserna até existe, mas nenhum desses protagonistas militares na política podem ser considerados exemplos de tais princípios.

    Por isso, carecem de fundamentos as teses até agora ventiladas pela grande imprensa. O que temos é uma orquestração muito bem articulada de militares participando plenamente na política. Engana-se quem pensa que as FFAA estão divididas. O que ocorreu essa semana nada tem a ver com respeito à Constituição ou com legalismo militar.

    Azevedo e seus comandantes podem ter se dado conta de algum prejuízo institucional junto à “opinião pública” que o vínculo com Bolsonaro pode representar. Talvez tenha uma questão do orgulho pessoal, afinal deve ser duro a um general ter que ceder às ordens de um capitão.

    Mas isso não significa que a “tropa” não aceitará ser politizada. Aliás, a tropa já está politizada. Os generais estão muito bem articulados e não há nenhum movimento que indique que os quase 12 mil militares que hoje estão no Poder Executivo retornarão aos quartéis, ou se os que estão na reserva irão para suas casas botar o pijama.

    Por outro lado, existem duas questões que merecem nossa atenção. Primeiro, podemos até admitir que nem todos os generais e oficiais superiores (coronéis e tenentes-coronéis no Exército e seus correspondentes nas outras forças) sejam bolsonaristas ou que concordem com essa presença militar em segmentos civis do Estado Brasileiro. Mas não é o que acontece nas bases militares, sobretudo quem veste uniforme verde-oliva.

    Bolsonaro frequentou por mais de quinze anos formaturas de cadetes na AMAN e nas outras escolas militares. E com o beneplácito dos comandantes de força e das autoridades civis. Isso o tornou muito popular junto aos oficiais inferiores (tenentes) e oficiais intermediários (capitães e majores). Da mesma forma que é muito popular entre sargentos e praças.

    Quando Bolsonaro exige que oficiais-generais tornem as FFAA sua guarda pretoriana, ele acena para suas bases militares, emparedando o alto-comando militar. Por um lado, aparenta instaurar a quebra da hierarquia e da disciplina na corporação. Isso pode ter acendido algum sinal de alerta nestes generais exonerados – apenas por uma questão de formalidade militar.

    Por outro lado, há um jargão militar que afirma a palavra convence, o exemplo arrasta. Que exemplos os generais que, mesmo na ativa, acumulam funções civis dão aos jovens oficiais? Ou seja, o presidente aposta na desordem militar dentro de uma promiscuidade com funções civis inaugurada por uma geração inteira de oficiais.

    Disso deriva a segunda questão. Daqui a dez, quinze anos, sairão dos capitães e majores de hoje (a maioria bolsonarista) os oficiais-generais das três forças. Ou seja, temos uma bomba de efeito retardado plantada no Estado Brasileiro. Como esperar reverter a atual situação diante dessa possibilidade?

    Finalmente, é preciso reconhecer que muito pouco sabemos a respeito do ethos militar e do cotidiano nos quarteis. Essa geração que hoje lidera as FFAA não ascendeu ao generalato pelas mãos de Bolsonaro ou mesmo de Temer. A maior parte deles chegou ao topo da hierarquia militar quando tínhamos governos progressistas.

    Precisamos saber as razões destas escolhas. Se eram os melhores de sua geração, havia um grave problema que não foi detectado. Se não, é necessário reconhecer que, neste aspecto, a esquerda no poder não foi feliz em escolhas tão delicadas e estratégicas.

    Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Atua no Movimento Nacional Fé e Política.

  • Roberto Malvezzi (Gogó): Tendências da Humanidade e da Terra

    Foto: iStock – Imagem publicada pelo site terra.como.br em “Planeta estourou recursos naturais capazes de regeneração”

     

    A Conjuntura a partir do pensamento complexo

    Roberto Malvezzi (Gogó)

    1. O pensamento complexo é um desafio, não uma resposta (Edgar Morin).
    2. O mundo jamais voltará a ser como era antes da pandemia. A pandemia indica a mudança do mundo. Como já se diz, passamos não por uma época cheia de mudanças, mas por uma mudança de época. Não são várias crises, mas uma crise civilizacional que se expressa em múltiplas dimensões (Papa Francisco).
    3. Para alguns, uma mudança de Era Geológica. Essa é a tendência posta, é dela que falaremos. Entretanto, é sempre bom considerar a possibilidade das mudanças históricas imprevisíveis, como já dizia Bento XVI, como foi a queda do Terceiro Reich e da União Soviética. Como dizia Casaldáliga: “a humanidade tem o DNA de Deus e não é suicida”. Portanto, falamos de tendências, não de afirmações absolutas. A humanidade pode reagir, porém, a gravidade das tendências é real e factual: “Se tardar mais, tarde demais” (Papa Francisco).
    4. O mundo das tecnologias avança, o mundo e o número das populações descartadas também (Papa Francisco). Avança o “apartheid tecnológico”.
    5. Cresce o confronto geopolítico dos Estados Unidos e Europa em relação à China e aos BRICs. O Brasil atual optou por ser servo dos Estados Unidos.
    6. Avança a disputa pelos bens naturais como minérios, petróleo, gás, água e biodiversidade. Países como o Brasil optam pelo enjaulamento nos bens primários, como grãos, minérios e carne in natura.
    7. A tendência de expandir o “mercado” de bens primários para além da Terra, para o espaço, a Lua, Marte e asteroides vai se intensificar, inclusive de forma privada (Helon Musk). Um asteroide de ouro massivo valeria mais que toda riqueza da Terra. As descobertas cosmológicas tendem a se desenvolver com maior velocidade. Objetos não identificados, como os tic-tacs encontrados pela Marinha dos Estados Unidos, deverão ter sua origem decifrada e publicada. Emirados Árabes, China e Estados Unidos chegaram a Marte quase no mesmo dia.
    8. Intensifica-se a guerra híbrida pela disputa das consciências e o controle das pessoas, também a internet das coisas.
    9. O trabalho em casa chegou para ficar, para alguns, mas o maior empregador continuará sendo o de aplicativos, aonde se vai de carro, moto, bicicleta e a pé. Enfim, a precarização do mundo do trabalho tende a ser definitiva.
    10. A mudança no mundo trabalho e a destruição da legislação trabalhista tendem a ser permanentes, mas os prejudicados tenderão a se organizar diante dessas novas formas de exploração do trabalho.
    11. As privatizações acontecidas tendem a ser definitivas. No Brasil, o Estado construído por Guedes permanecerá como permaneceu no Chile após Pinochet. E Guedes foi colaborador íntimo de Pinochet.
    12. A destruição da saúde pública tende a ser permanente, da Universidade Pública, da Educação Pública.
    13. O fosso social entre bilionários e povo pobre se aprofundará.
    14. O apartheid social já é visível nas cidades através dos condomínios e das favelas enjauladas nos morros, beiras de rio e lugares insalubres.
    15. A alma brasileira estará dividida por longo tempo. Os construtores da cultura da paz terão um longo e sombrio tempo pela frente.
    16. Num Brasil estruturalmente injusto só o Estado policialesco, militarizado, milicianizado, com a elite armada privadamente, será possível sufocar e reprimir revoltas populares. A democracia e o Estado tendem mínimos cada vez mais. O capitalismo pode amenizar as revoltas com políticas tipo “renda mínima”.
    17. Nas periferias o povo continuará com suas artimanhas de sobrevivência, nos corações justos o desejo e o empenho por mudanças continuarão.
    18. O ódio permanecerá, porque ele se baseia na divisão social real da sociedade, entre quem têm riquezas e quem vive na miséria. Muitos pobres continuarão adorando pessoas como Bolsonaro, seguindo como rebanho pastores e lideranças religiosas, mas os ricos continuarão odiando gente pobre, índios, pretos, nordestinos, LGBTs etc. A classe dominante jamais erra na sua “luta de classes”.
    19. O fundamentalismo religioso – incluindo o propósito da Teocracia Evangélica – permanecerá como aliado dos nazifascistas, até como fundamentação teológica, porque todo fundamentalismo se identifica com outros fundamentalismos semelhantes, mesmo que tenham outros matizes de origem. As igrejas não terão mais unidade, fora as exceções honrosas de sempre, mas o comportamento de “manada”, de “rebanho” tende a permanecer pela busca de alguma segurança das pessoas jogadas nas agruras de um mundo inseguro.
    20. A mudança nos costumes, que tem por mãe a revolução dos costumes de 1968, tende a avançar, mas as forças reacionárias se tornarão cada vez mais belicosas na área dos costumes. Os liberais e neoliberais são a favor dessas mudanças, vide Rede Globo.
    21. O cristianismo originário da justiça, misericórdia, fraternidade, partilha, permanecerá nas periferias da humanidade e do cristianismo, com poucas adesões, as “minorias abraâmicas” das quais falava Dom Hélder. De resto será o poder, a prosperidade, a hipocrisia, as aparências, as vestes, as mídias, com predomínio do “deusnheiro”. Nos países mais abastados e com bom nível de educação devem crescer o ateísmo e a indiferença religiosa, sobretudo a indiferença eclesial.
    22. A destruição da Amazônia indica não ter mais volta e, sem ela, muda o território brasileiro, com a diminuição drástica de chuvas do Centro-Oeste para baixo, indo até Argentina, Uruguai e Paraguai.
    23. A proposta dos povos originários, do “Bem Viver”, com seu comunismo primitivo, que não aceita a privatização da terra, da água, da biodiversidade, do ar, do sol, resiste subalternamente – como sempre resistiu -, porém, sem a força para tornar-se hegemônica.
    24. Sem Amazônia, com enfraquecimento dos rios voadores, enfraquecem os aquíferos do Cerrado que alimentam as bacias brasileiras, inclusive a do São Francisco.
    25. Com a diminuição da biodiversidade vegetal, habitat dos animais, novas pandemias e endemias vão surgir, sempre com maior velocidade, com eliminação massiva de seres humanos, como acontece agora no Brasil e no mundo.
    26. Com o agravamento das mudanças climáticas, o território brasileiro, em grande parte, se torna inóspito para a vida, particularmente a humana (Lovelock).
    27. A temperatura elevada permitirá vidas somente em alguns pontos do território e da Terra. A elevação dos oceanos mudará a geografia física e humana dos litorais, particularmente no Brasil.
    28. Enfim, a vitória total do capitalismo significará uma Terra hostil e uma humanidade reduzida, altamente tecnificada, mas depois, nem os capitalistas sabem o que será.
    29. Parcela riquíssima da humanidade prepara bunkers para sobreviver caso venha a catástrofe. Os sobrevivencialistas têm seus motivos (UOL). Porém, tendem a sobreviver aqueles que sempre sobreviveram nas condições mais adversas e hostis.
    30. Até o final desse século a Terra e a humanidade serão completamente diferentes do que são hoje.Publicado originalmente no site do autor //robertomalvezzi.com.br
  • O Conservadorismo Católico de 1964 recorrente nos ataques à Campanha da Fraternidade de 2021

    O Conservadorismo Católico de 1964 recorrente nos ataques à Campanha da Fraternidade de 2021 

    José Cristiano Bento dos Santos[1]

    O atual acirramento de divergências políticas na Igreja Católica do Brasil é materializado nos ataques contra a realização da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021. Os acontecimentos do momento representam uma ruptura no catolicismo, por causa da visão de bispos, padres e leigos que resistem à atuação da instituição religiosa, na adesão aos Direitos Humanos, base fundamental da dignidade de todo homem e de toda mulher, principalmente, de grupos marginalizados, como a população negra, os indígenas, as mulheres, a comunidade LGBTQI+.

    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) articula há cinquenta anos, a Campanha da Fraternidade (CF), como ação sociorreligiosa que propõe temáticas que apontam para o compromisso dos cristãos com a sociedade, com debates e enfrentamento dos problemas que afetam a população pobre: precariedade da saúde, do trabalho, da educação, de moradia, falta de políticas públicas, etc..

    Nesta perspectiva, explica a própria CNBB, “a Campanha da Fraternidade é uma verdadeira iniciação à fé e à sua prática […]. A Campanha da Fraternidade quer ajudar a construir uma cultura de fraternidade, apontando os princípios de justiça, denunciando ameaças e violações da dignidade e dos direitos, abrindo caminhos de solidariedade” (CNBB, 2017, p. 19).

    O atual cenário de tensão na Igreja Católica é promovido por grupos resistentes às mudanças estruturais da Igreja, propostas pelo Concílio Vaticano II, de um catolicismo aberto às realidades do mundo moderno, no que se refere aos avanços da ciência e da tecnologia, das configurações dos processos políticos e culturais, principalmente, de uma vivência cristã atenta às demandas sociais dos mais empobrecidos. Essa mentalidade religiosa e politicamente retrógrada, produziu materiais que circulam nas redes sociais contra a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021, com narrativas de desinformação sobre as ações sociais da pastoral católica, a partir de acusações infundadas sobre os bispos do Brasil, ausência de dados sobre a violência e genocídio praticados contra as minorias sociais, distorcendo o objetivo da Campanha da Fraternidade que é a unidade dos cristãos, a partir da solidariedade. O próprio tema da CFE ressalta esse objetivo, “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, como também o seu o lema, “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2, 14a).

    Os conteúdos produzidos por esses grupos, estão estruturados em inverdades que têm por meta destruir as ações de uma Igreja comprometida com as propostas de um cristianismo voltado aos dramas da humanidade, como é registrado na biografia de santos(as), mártires e de Papas preocupados com a justiça social. Percebe-se, ainda, que a narrativa que foi difundida nas redes sociais contra a Campanha, usa da fé de pessoas simples que se apoiam em indivíduos que instrumentalizam a religião para a manutenção de projetos políticos que utilizam o Estado para manter o povo na submissão e exploração sociais.

    Tensão no catolicismo brasileiro: um problema histórico

    A tensão no catolicismo brasileiro é um problema histórico, visto que a Igreja está imersa na realidade social que a condiciona, com os conflitos sócio-políticos que a atravessam estruturalmente e provocam divisões de interesses de classes, dentro da própria instituição. Esses interesses orientam as relações de poder e o jogo de forças entre grupos dominantes e dominados, na implementação de suas ideologias específicas, em apoio e na contraposição dos elementos hegemônicos do contexto histórico vivido (SOUZA, 1996).

    O apoio dos católicos conservadores ao Golpe Militar de 1964, ano de fundação da Campanha da Fraternidade, pode ajudar a compreender a manutenção de projetos políticos de opressão e exclusão, principalmente, a resistência à atuação de uma parcela da Igreja comprometida com as minorias sociais.

    Depois que as classes dominantes, representadas pela burguesia e pelas camadas médias, assumiram o poder por meio de um golpe de Estado, os militares consolidaram um regime político ditatorial que reprimiu violentamente os movimentos trabalhistas e os grupos de oposição. A sociedade brasileira foi submetida ao terror de um Estado autoritário, que usava a tortura, largamente empregada pelos órgãos policiais, contra os cidadãos oponentes para extrair confissões daqueles considerados suspeitos pelo sistema (SOUZA, Luiz, 2014).

    Nesse período ditatorial, a Igreja como um dos organismos pertencentes ao corpo social (Durkheim, 1987), se dividiu politicamente como a sociedade secular, entre católicos conservadores e progressistas, dentro da mesma instituição religiosa, isso desde a hierarquia eclesiástica, até os leigos. Nesta perspectiva, afirma Alberto Luiz Gómez de Souza:

    Uma parte significativa de cristãos e membros da estrutura eclesiástica católica ajudara a preparar o golpe de estado. Este não foi uma ação circunscrita aos militares, como algumas quarteladas na América Latina, mas um amplo movimento de setores da população e do exército (Souza, Luiz, 2014, p. 50).

    Os católicos apoiadores do Golpe Militar, considerados de direita, promoveram uma sistemática perseguição aos religiosos contrários ao Estado Ditatorial. De acordo com Herbert de Souza (1996), os conservadores causaram escândalo e lançaram uma campanha de acusação de infiltração ideológica do marxismo no interior da Igreja Católica, e alguns membros estavam proibidos de pronunciarem a palavra socialismo.

    Esquerda católica e Marcha da Família com Deus pela Liberdade

    Nesse período, no qual o país estava submetido ao terror ditatorial, uma esquerda católica, representada pela juventude, orientada politicamente pelos religiosos progressistas, se juntara à esquerda tanto universitária quanto operária, demonstrando uma participação mais profunda de católicos, nos movimentos libertários.

    Segundo Herbert de Souza (1996), a década de 1960 revela uma juventude com consciência social que ocupa o cenário político, através das organizações católicas, formadas em sua grande maioria por esses jovens no interno da Igreja, como a Juventude Universitária Católica (JUC), a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Operária Católica (JOC), a Ação Católica Operária (ACO) e a Ação Popular (AP). Esses grupos surgiram dentro da Ação Católica Brasileira (ACB) e do Movimento de Educação de Base (MEB). Afirma Souza: “Descobri um mundo de reencontros e o universo da militância: a JEC (Juventude Estudantil Católica) e, depois, a JUC (Juventude Universitário Católica), os dois braços estudantis da Ação Católica” (SOUZA, Herbert, 1996, p. 14).

    O envolvimento político dos jovens inclinou-se cada vez mais para a pobreza e a desigualdade social, para a luta dos trabalhadores por direitos e enfrentamento contra o autoritarismo do poder militar. Os grupos juvenis tornaram-se setores politizados da esquerda brasileira, com uma forte presença revolucionária na Igreja e na sociedade. Todavia, os grupos progressistas foram perseguidos pelos movimentos conservadores, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que acusava a Igreja de sofrer a ameaça do “fantasma do comunismo”, o terror dos conservadores.

    De acordo com Alberto Luiz Gómez de Souza (2014), os grupos conservadores da Igreja Católica, constituído por bispos, padres e leigos, utilizaram a bandeira dos bons costumes, para expandir a luta contra o comunismo, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, evento político amparado por elementos religiosos, que facilitavam a manipulação dos católicos e da sociedade conservadora.

    Esta articulação religiosa cooptada por um projeto político, articulado pelas classes dominantes, utilizou a reza do terço, devoção católica transformada em instrumento racional de dominação espiritual a serviço do Golpe Militar. Esse mecanismo foi idealizado pelo Padre Patrick Peyton, cidadão norte-americano e representante das forças reacionárias do catolicismo. Afirma Luiz Alberto Gómez de Souza:

    Uma campanha do rosário do Padre Patrick Peyton, em meses anteriores, com o lema “uma família que reza unida permanece unida”, preparara o terreno para, em São Paulo, dia 19 de março de 1964, a primeira Marcha da Família, com Deus, pela liberdade, uma resposta ao comício da Central, dia 13 de março, em que João Goulart anunciou a concretização das reformas de base. O presidente dissera ali: “O cristianismo nunca foi o escudo para privilégios condenados pelo santo padre, nem também os rosários podem ser erguidos contra a vontade do povo… Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena minoria”. Já o Padre Peyton defendera antes que o rosário seria “a mais poderosa alavanca que eleva o mundo do deprimente materialismo em que se encontra” (SOUZA, Luiz, 2014, p. 50-51).

    Diante desse conflito exposto, o autor deixa explícito que houve sim uma participação de setores importantes da sociedade civil, como o apoio dado pela Igreja Católica na deposição do presidente João Goulart e na entrega do país para os militares. Por isso o movimento Marcha da Família com Deus pela Liberdade ganhou uma amplitude nacional com a mesma pauta religiosa-política de protesto, através do incentivo de manifestações religiosas de cunho político em várias regiões do país e nas principais capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, nos fins de 1963 até meados de março de 1964, ano da concretização do Golpe Militar (SOUZA, Luiz, 2014).

    Eventos religiosos, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, articulam as frentes dominantes da sociedade, como uma parcela significativa da imprensa, a classe produtora de informação e ideologias que dão forma ao inconsciente coletivo e que ordenam o caos disfarçado de “manifestações espontâneas” dos setores conservadores pertencentes ao catolicismo. Nesta perspectiva, foram esses movimentos de caráter religioso, que apoiaram abertamente o golpe de 1964.

    Esse tipo de atuação política da Igreja Católica pode ser interpretado, numa visão gramsciana, como “aparelhamento do poder”. Afirma Antonio Gramsci que “a Igreja, em sua estrutura, já está aparelhada para este trabalho” (GRAMSCI, 2007, p. 46). Uma visão que ajuda a compreender o papel que a instituição religiosa desempenhou para a efetivação da Ditadura Militar.

    Na história do catolicismo, quando se trata da relação envolvendo a alta hierarquia romana e o clero de modo geral, com a burguesia e o Estado, o que está em jogo são ações políticas da instituição católica em defesa e manutenção dos seus interesses corporativos (GRAMSCI, 2007), de seu poder e de seus privilégios, enquanto segmento religioso, majoritária na sociedade. Isso gera conflito de grupos dentro da própria instituição religiosa.

    No catolicismo brasileiro, pode-se observar que a Igreja como qualquer instituição, tem autonomia e poder de reação e por isso desenvolve um papel protagonista e não simplesmente reativo. Nesse sentido, como ator social, ela chega a ser responsável por mudanças estruturais na organização de uma nova sociedade, como afirma Luiz Alberto Gómez de Souza: “No momento das invasões bárbaras dos primeiros séculos, as Igrejas ajudaram a plasmar uma nova sociedade e o mundo feudal mais adiante” (SOUZA, Luiz, 2014, p. 35).

    O autoritarismo que ressurge contra a atuação social da Igreja

    A ruptura ideológica, atualmente, no catolicismo brasileiro, provocada por grupos conservadores, é continuidade dos mesmos conflitos de interesses apontados na implementação da Ditadura Militar. O discurso ideológico que apoiou o Golpe Militar de 1964, com a justificativa de a Igreja sofrer a ameaça do “fantasma do comunismo”, é recorrente nos dias atuais, e sustentado com mais vigor político e religioso do que no período ditatorial. Essa mentalidade ressurge nos momentos de intervenção social da Igreja contra propostas políticas que possibilitam o extermínio de direitos, historicamente conquistados pelos movimentos populares, classe trabalhadora, movimentos sociais, partidos de esquerda e pela própria instituição católica.

    De fato, para os grupos conservadores, quando a Igreja fala em distribuição justa de bens econômicos, materiais, financeiros e também da garantia de direitos sociais, conquistados a duras penas, ela é classificada, como comunista, esquerdista, petista, marxista, dentre outros, por esses cristãos, juízes de um “tribunal religioso”, capazes de julgar e condenar seres humanos ao “fogo do inferno”, simplesmente por defender direitos iguais para todos. Para estes “algozes” da Igreja, direitos iguais e bem comum são o mesmo que comunismo.

    Esses mesmos “juízes” defenderam a Reforma Trabalhista que aumentou o desemprego, a precarização do trabalho e o trabalho informal. Não contentes com este apoio que comprometeu de forma trágica a vida do trabalhador, sustentaram a Reforma da Previdência e atacaram de forma violenta, a Igreja, porque esta se posicionou contra essas reformas que destruíram os direitos sociais dos pobres, defendidos pela Constituição Federal.

    Como narrativa de sustentação para a sua militância no seio do catolicismo, estes fiéis que se autodenominam legítimos católicos defensores da Igreja, elegeram o Partido dos Trabalhadores (PT), como suposto inimigo, o demônio atuando em algumas pastorais da mesma instituição religiosa. Porém, outros partidos políticos circulam, livremente, no mesmo espaço, sem serem incomodados. Para esses outros, o silêncio é o passaporte da legitimidade.

    Os ataques à Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 ajudaram a perceber que estes grupos reacionários não se sentem intimidados em mostrar que são contra os Direitos Humanos, a distribuição de terra e de renda, o diálogo inter-religioso, a comunidade LGBTQI+ e outras minorias, mas a favor do armamento, da pena de morte, do racismo, do machismo, da xenofobia e do encarceramento em massa.

    Com quase trezentos mil óbitos confirmados pela Covid-19 e milhões de pessoas infectadas pelo vírus, num Brasil que se tornou o epicentro da pandemia, esses religiosos, em nome de Deus, preferiram fortalecer uma política negacionista da pandemia, minimizando seus efeitos, forçando a saída do isolamento social, promovendo aglomerações, recusando o uso da máscara e de outros cuidados básicos, e espalhando mentiras contra a vacina, meio fundamental para a proteção da vida.

    Outro fator grave é uma enorme apologia ao ódio visível nas redes sociais, principalmente, nos grupos de WhatsApp de membros de pastorais e movimentos. É estarrecedor o número de católicos que, no intuito de defenderem suas opiniões, muitas vezes infundadas no Evangelho, nos documentos da Igreja e do Papa Francisco, expressam todo tipo de acusações, mentiras, rancores e desrespeito contra seus líderes religiosos, neste caso, alguns bispos, que segundo a Tradição da Igreja, são sucessores legítimos dos Apóstolos.

    Esse tipo de comportamento revela um perfil de fiel mal-intencionado, proporcionando perseguição de católico contra católico dentro do mesmo credo religioso. Essa tensão parece ser consequência de um projeto contraditório de país, ou seja, um Brasil de “religiosos” sem Deus, que trocou o amor pelo ódio.  Por isso, é preciso conhecer a história de cada ação social da Igreja Católica, para não dividir “o corpo de Cristo” (1 Coríntios 12,27), que é uma construção de amor e união e não de divisão.

    Os ataques à Campanha da Fraternidade Ecumênica enfraquecem e descontroem toda luta contra a injustiça e opressão estruturais sofridas pelas minorias sociais, negando a violência simbólica, material e religiosa contra elas.

    Diante de tanta violência no mundo, respaldada pela religião, principalmente no Brasil, de modo particular no período do Regime Militar de 1964, é urgente perceber que este momento de realização da Campanha da Fraternidade de 2021, oportuniza meios para o(a) cristão(ã) refletir, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual.

    A Campanha da Fraternidade Ecumênica fala de união entre os cristãos católicos e evangélicos para superar as divisões que enfraquecem o sonho de Jesus de Nazaré: “Para que todos sejam um […]. Que eles sejam levados à plena unidade” (João 17, 22-23). Porém, é visível a resistência destes cristãos que não querem concretizar este sonho do Cristo, o que se percebe pelas atitudes de oradores que gritam contra as ações ecumênicas da Igreja. Seus discursos disseminados nas redes sociais revelam religiosos que não aceitam ou desconhecem a história da Campanha da Fraternidade, uma iniciativa eclesial privilegiada, pela qual a Igreja no Brasil, vivencia a Quaresma como meio de inserção e transformação das relações sociais.

     

    REFERÊCIAS

    CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2017: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2016. Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da visa.

    CONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2021. Fraternidade e Diálogo: Compromisso de amor.

    GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Volume 4. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

    SOUZA, Herbert de. Revoluções da minha geração: Depoimento a François Bougon. São Paulo: Moderna, 1996.

    SOUZA, Luiz Alberto Gómez de. Contradições das religiões nos anos de chumbo: do apoio à profecia. In: PANASIEWICZ, Roberlei; VITÓRIO, Jaldemir (org). Espiritualidades e dinâmicas sociais: Memória – Prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2014.

    [1] Doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina – UEL e padre da Arquidiocese de Londrina – PR.

  • Migrantes barrados entre o Brasil e o Peru vivem uma situação que se agrava a cada dia

    Imagem G1

    Migrantes barrados entre o Brasil e o Peru vivem uma situação que se agrava a cada dia – Por Luis Miguel Modino

    Uma situação muito difícil, muito tensa. Assim define a irmã Joaninha Honório Madeira o que está acontecendo na fronteira entre o Brasil e o Peru, no Estado do Acre, do lado brasileiro, e no Departamento de Madre de Dios, do lado peruano. Ali está, há várias semanas, um grupo que já está próximo de 500 pessoas. A cada dia chegam mais 20, 30 pessoas, de diferentes países, esperando continuar sua viagem para o Peru, que mantem a fronteira fechada.

    Do lado brasileiro, a cidade de “Assis Brasil não comporta mais tanta gente, a estrutura é pequena”, afirma a irmã da Imaculada Conceição. Ela relata o acontecido no dia 14 de fevereiro, algo que pode se repetir em qualquer momento. Diante do anúncio das autoridades peruanas que iriam abrir a fronteira, eles foram de madrugada para a ponte que une os dois países, onde esperaram para poder passar.

    Depois de três dias de espera, eles romperam a segurança do Peru e entraram em Iñapari, cidade do lado peruano. A polícia peruana, segundo a religiosa que faz parte da Rede Itinerante da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, “reagiu com violência, com gás lacrimogênio, com tudo o que você pode imaginar”. Uma situação muito difícil, segundo ela. Todos foram devolvidos para o lado brasileiro, alguns deles com muita violência. A irmã Joaninha relata que “houve 11 feridos, inclusive mulheres gestantes e uma criança pequena que recebeu um golpe da cabeça”.

    A religiosa afirma que “a sociedade civil de Iñapari reagiu fortemente diante dessa violência”. Enquanto isso, do lado brasileiro, os migrantes estão acolhidos em três albergues públicos. Alguns deles estão fazendo guarda na ponte, não deixando passar uma longa fila de caminhões, tanto do lado do Brasil como do Peru. Os caminhoneiros estão pressionando o prefeito de Assis Brasil, que já ameaçou com tirar o pessoal da ponte e dos albergues públicos com força, segundo a religiosa, algo que fere as leis migratórias. A situação está sendo acompanhada desde o início pela Equipe Itinerante, da qual faz parte a irmã Joaninha, que insiste em que “é algo que nos desborda totalmente”.

    Na fronteira, que alguns estão passando clandestinamente, “além da pandemia existe racismo e preconceito, especialmente com os haitianos e africanos”, insiste a irmã Joaninha Honório Madeira. Mesmo com a ponte fechada, o fluxo Brasil-Peru está se dando pelo rio de canoa, algo que não faz sentido, segundo ela. Essa situação está provocando a exploração dos migrantes que pagam quantidades absurdas para atravessar o rio e mais tarde para continuar sua viagem. Uma travessia que custa um dólar para quem mora lá, estão cobrando de 40 a 50 dólares para atravessar um haitiano, denuncia a religiosa. Uma vez atravessado, de Iñapari para Puerto Maldonado, que são 3 horas de viagem, que o custo é de mais ou menos 10 dólares, deles se cobra de 200 a 300 dólares por pessoas, afirma a irmã Joaninha.

    Segundo ela, “isso significa tráfico de pessoas. A fronteira está lucrando com essa situação de pandemia e de fronteira fechada”. Nos últimos dias surgiram rumores que o Peru, até agora irredutível, pode abrir a fronteira nos próximos dias, o que está fazendo com que os migrantes se organizem, dado que “a situação está insustentável”, insiste a religiosa. “Quem não tem filhos estão conseguindo passar, mas alguns estão sendo trazidos de volta para a ponte. Brasil está poiando aqueles que querem voltar para o local de onde vieram, São Paulo, Rio de Janeiro…, mas eles não querem voltar, querem seguir adiante”, segundo a irmã Joaninha, que denuncia a grave situação que vivem os migrantes.

  • O Grito da Floresta: Vozes da Amazônia

    Por Luis Miguel Modino

    A situação que a região Pan-Amazônica está vivendo como consequência da segunda onda da Covid-19 na região, provocou o posicionamento de diferentes organizações: Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica – COICA, Fórum Social Pan-Amazônico – FOSPA, Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, e a Assembleia Mundial pela Amazônia. Juntos organizaram o evento “O Grito da Floresta: Vozes da Amazônia“, que reuniu virtualmente, nos dias 26 e 27 de fevereiro participantes de diferentes países da região, bem como de outros países do mundo.

    No seu discurso, o vice-presidente da REPAM pediu a Deus “que nos desse a força e sabedoria para defender os direitos destas terras amazônicas“. Dom Rafael Cob, que afirmou que “sabemos que cada um de nós não pode fazê-lo sozinho“, sublinhou que “unidos alcançaremos os objetivos que propomos para criar uma fraternidade onde todos nos sentimos irmãos, onde Deus Criador, que nos deu este maravilhoso Planeta, sabe como cuidar dele, como defendê-lo e como amá-lo“.

    O bispo do Vicariato de Puyo, na Amazônia equatoriana, recordou o que foi dito no Sínodo Amazônico, onde ele foi padre sinodal. Aí se afirmou que “a Igreja quer ser aliada dos povos amazônicos, acompanhá-los e também estar com eles na defesa dos direitos da nossa natureza e dos povos que vivem na Amazônia“.

    O bispo pediu “que o Senhor possa continuar a abençoar-nos e a dar-nos a sua força e que todos nós, unidos também ao Papa Francisco, que nos ilumina com a sua palavra e o seu exemplo, possamos deixar pegadas para que aqueles que vierem depois de nós possam verdadeiramente construir um mundo melhor, um mundo onde reine a paz, onde reine a justiça, onde se faça progresso global com aquela ecologia integral de que o nosso planeta precisa hoje“.

    Dom Rafael Cob concluiu o seu discurso dizendo “que Deus Pai, Criador deste universo e das nossas vidas, continue a ajudar-nos com o sopro do seu poder e que cada um de nós viva essa comunhão e essa harmonia que Deus Criador nos deu para vivermos como povos fraternos“.

    O evento foi um momento para “exigir que a humanidade ouça a nossa voz“, segundo José Gregório Díaz Mirabal. O coordenador da COICA pediu que, face à crise estrutural que o planeta atravessa, “nos ajudem a exigir os direitos da natureza, dos povos“. Nas suas palavras denunciou as invasões que os territórios dos povos originários e comunidades tradicionais estão sofrendo e exigiu soluções para a crise de saúde que a Amazônia está atravessando neste momento.

    Estas palavras foram endossadas por German Niño, que disse que “sentimos o nosso apelo a preservar a vida natural e as diversas culturas da Amazônia”. O representante do FOSPA insistiu que “o bater do coração da Amazônia é o bater do coração da civilização atual”, apelando para “poder falar de forma integral na diversidade”. Niño apelou ao mundo para “abrir os seus ouvidos, olhos e portas para poder sentir a importância deste processo”. Em sua opinião, “a Amazônia tem que ser defendida em todo o planeta, deve deixar de ser vista como um reservatório de matérias-primas para o mundo”.

    No encontro virtual, foram apresentadas diferentes realidades, tais como o trabalho que a REPAM vem realizando no monitoramento dos casos e mortes como consequência do Covid-19 na Pan-Amazônia há quase um ano, apesar das dificuldades encontradas nos organismos públicos, que nem sempre são claros nas suas informações. Também o trabalho que a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia BrasileiraCOIAB tem feito no mesmo sentido, denunciando a grave realidade que se vive no país com mais casos e mortes na região.

    A pandemia também demonstrou a falta de infraestruturas na Amazônia, os conflitos e ameaças, que não pararam na pandemia, algo que se manifesta em diferentes realidades que ameaçam a vida na região. De fato, o tratamento da pandemia em alguns países da região, especialmente no Brasil, pode ser considerado um genocídio, como afirmou o cientista Antônio Nóbrega, que denunciou “a falta de humanidade e perversidade na situação atual“. Muitas pessoas começam a perceber a realidade, disse ele, defendendo a necessidade de estudar com os sábios indígenas, reconhecendo a importância da sua sabedoria milenar.

    Diferentes líderes indígenas mostraram a realidade que se vive na Amazônia, denunciando o impacto do agronegócio e dos incêndios, estradas, petróleo, infraestruturas, barragens hidroelétricas, algo que afeta especialmente os povos em isolamento voluntário, e que está custando a vida de muitas pessoas, incluindo defensores e defensoras dos direitos humanos, cada vez mais ameaçados numa região onde os efeitos das mudanças climáticas estão a levá-la a um ponto sem retorno. Diferentes elementos e situações que foram recolhidos num manifesto que o coordenador geral da COICA deu a conhecer.

  • As 100 melhores frases do Papa Francisco na FRATELLI TUTTI

    FRASES PROFUNDAS E SÁBIAS DO PAPA FRANCISCO NA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI
    Por Ivo Pedro Oro, na sua página no FB, 26 fev 2021.

    1. Cuidar do mundo que nos rodeia e nos sustenta significa cuidar de nós mesmos. (17
    2. Empanturramo-nos de conexões e perdemos o gosto da fraternidade. (33)
    3. O princípio do ‘salve-se quem puder’ traduz-se rapidamente no ‘todos contra todos’, e isso será pior que uma pandemia. (36)
    4. Às vezes, na comunicação digital quer-se mostrar tudo e esvai-se o respeito pelo outro. (42)
    5. A conexão digital não é suficiente para construir pontes, não é capaz de unir a humanidade. (43)
    6. A verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade. (47)
    7. Criou-se um novo estilo de vida, em que cada qual constrói o que deseja ter à sua frente. (49)
    8. A acumulação esmagadora de informações que nos inundam não significa maior sabedoria. (50)
    9. Uma maneira fácil de dominar alguém é destruir sua autoestima. (52)
    10. Não há alienação pior do que experimentar que não se tem raízes, não se pertence a ninguém. (53)
    11. Cerca-nos a tentação de nos desinteressar pelos outros, especialmente pelos mais frágeis. (64)
    12. Estamos numa sociedade enferma, que procura construir-se de costas para o sofrimento alheio. (65)
    13. A vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro. (66)
    14. É preciso indignar-nos e descer da nossa serenidade, alterando-nos com o sofrimento humano. Isso é dignidade. (68)
    15. Existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo. (70)
    16. O fato de crer em Deus e adorá-lo não é garantia de viver como agrada a Deus. (74)
    17. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer, mas não o façamos sozinhos, individualmente. (78)
    18. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos nossos delitos, desmazelos e mentiras. (78)
    19. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. (79)
    20. É importante que a catequese e pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade e a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa humana. (86)
    21. Não posso reduzir a minha vida à relação com um pequeno grupo, nem mesmo com minha própria família. (89)
    22. Os grupos fechados são formas idealizadas de egoísmo e mera autoproteção. (89)
    23. O amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar. (92)
    24. Aqueles que são capazes apenas de ser sócios criam mundos fechados. (104).
    25. O individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. (105)
    26. Se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflito e violência.(111)
    27. As famílias constituem o primeiro lugar onde se vivem e se transmitem os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado pelo outro. (114).
    28. O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados. (120)
    29. Ninguém pode ser excluído, não importa onde tenha nascido. (121)
    30. É possível desejar e sonhar um planeta que garante terra, teto e trabalho para todos. (127)
    31. “Nossos esforços a favor das pessoas migrantes podem resumir-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.” (129)
    32. “As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas para que o muno não fique mais pobre.” (134)
    33. “Hoje, ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém.” (137)
    34. “É preciso que exista o fator da ‘gratuidade’: a capacidade de fazer algumas coisas simplesmente porque são boas em si mesmas, sem preocupação com ganhos e recompensas pessoais.” (139)
    35. “Quem não vive a gratuidade fraterna transforma a sua existência em um comércio cheio de ansiedade: está sempre medindo aquilo que dá e o que recebe em troca.” (140)
    36. “Só poderá ter futuro uma cultura sociopolítica que inclua o acolhimento gratuito.” (141)
    37. “Sentido positivo do direito de propriedade: guardo e cultivo algo que possuo, a fim de que possa ser uma contribuição para o bem de todos.” (143).
    38. “Sem o relacionamento e o confronto com quem é diferente, torna-se difícil ter um conhecimento claro e completo de si mesmo e de sua terra.” (147)
    39. “A própria identidade cultural aprofunda-se e enriquece-se no diálogo com os que são diferentes.” (148)
    40. “O risco de viver protegendo-nos uns dos outros, vendo os outros como concorrente ou inimigos perigosos, é transferido para o relacionamento com os povos da região. Talvez tenhamos sido educados nesse medo e nessa desconfiança.” (152)
    41. “Para se tornar possível o desenvolvimento de uma comunidade mundial (…) é necessária a política melhor, a política colocada a serviço do verdadeiro bem comum.” (154)
    42. “Degenera em um populismo insano, quando se transforma na habilidade de alguém de atrair consensos a fim de instrumentalizar politicamente a cultura do povo, sob qualquer sinal ideológico, a serviço do seu projeto pessoal e da sua permanência no poder.” (159)
    43. O trabalho “não é só um modo de ganhar o pão, mas também um meio para o crescimento pessoal, para estabelecer relações sadias, expressar a si mesmo, partilhar dons, sentir-se corresponsável no desenvolvimento do mundo e, finalmente, viver como povo.” (162)
    44. A caridade “implica um caminho eficaz de transformação da história que exige incorporar tudo: instituições, direito, técnica, experiência, contribuições pessoas, etc…” (164)
    45. “O perigo maior não está nas coisas, nas realidades materiais, nas organizações, mas no modo como as pessoas se servem delas.” (166)
    46. “A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos.” (168)
    47. Os movimentos populares “são semeadores de mudança, promotores de um processo para o qual convergem milhões de pequenas e grandes ações interligadas de modo criativo, como uma poesia.” (169)
    48. “Nenhum indivíduo ou grupo humano pode-se considerar onipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais.” (171)
    49. “A justiça e um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade universal.” (173)
    50. “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia.” (177)
    51. “A terra é um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte.” (178)
    52. “Um individuo pode ajudar uma pessoa necessitada, mas quando se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos, entre no campo da caridade mais ampla, da caridade política.” (180)
    53. “É caridade também tudo o que se realiza – mesmo sem ter contato direto com a pessoa – para modificar as condições sociais que provocam os eu sofrimento.” (186)
    54. “Cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade, no meio de um modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à cultura o descarte.” (188)
    55. “Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando==o como uma mercadoria qualquer, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome.” (189)
    56. “Comprometamo-nos a viver e ensinar o valor do respeito, amor capaz de aceitar as várias diferenças, a prioridade da dignidade de todo ser humano sobre quaisquer ideias, sentimentos, atividades e até pecados que possa ter.” (191)
    57. “Não nos acostumemos a viver fechados em um fragmento de realidade.” (191)
    58. “A ternura é o caminho que percorrem os homens e as mulheres mais corajosos e fortes.” (194)
    59. “Se consigo ajudar uma pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida.”(195).
    60. “As perguntas, talvez dolorosas, serão: Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade?” (197)
    61. “Muitas vezes confunde-se diálogo com algo muito diferente: uma troca de opiniões exaltadas nas redes sociais, muitas vezes causada por uma informação da mídia nem sempre confiável.” (200)
    62. “Predomina o costume de difamar rapidamente o adversário, com adjetivos humilhantes, em vez de promover um diálogo aberto e respeitoso.” (201)
    63. O diálogo “impede que os vários setores se instalem, cômodos e autossuficientes, na sua maneira de ver as coisas e nos seus interesses limitados.” (203)
    64. “O relativismo não é a solução…, acaba-se por deixar que os valores morais sejam interpretados pelos poderosos segundo as conveniências de momento.” (206)
    65. Uma sociedade é nobre e respeitável porque cultiva a busca da verdade e seu apego às verdades fundamentais.” (207)
    66. “Temos que ter prática de desmascarar as várias formas de manipulação, distorção e ocultação da verdade nas esferas pública e privada.” (208)
    67. “Que todo ser humano possui uma dignidade inalienável é uma verdade que corresponde à natureza humana.” (213)
    68. “Quem vive nas periferias tem outro ponto de vista, vê aspectos da realidade que não se descobre a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões determinantes.” (215).
    69. “Integrar as realidades diferentes é muito mais difícil e lento, embora seja a garantia de uma paz real e sólida.” (217)
    70. “Armemos nossos filhos com as armas do diálogo! Vamos ensinar-lhes o bom combate do encontro!” (217)
    71. “Os povos nativos não são contra o progresso, eles têm uma ideia diferente de progressos. (…) Não é uma cultura orientada para o bem daqueles que detêm o poder.” (220)
    72. Um pacto social exige que se respeite a diversidade, oferecendo-lhe caminhos de promoção e integração social.” (220)
    73. No diálogo, “Ser fiel a seus princípios, mas reconhecendo que o outro também tem o direito de procurar ser fiel aos dele.” (221)
    74. O exercício da amabilidade “facilita a busca de consensos e abre caminhos onde a exasperação destrói todas as pontes.” (224)
    75. “Cada ato de violência cometido contra um ser humano é uma ferida na carne da humanidade.” (227)
    76. A cultura do encontro “exige que, no centro e toda ação política, social e econômica, se coloque a pessoa humana, a sua sublime dignidade e o respeito pelo bem comum.” (232)
    77. “Jesus Cristo nunca convidou a fomentar a viol6encia u a intolerância.” ((238).
    78. “Amar um opressor não significa consentir que continue a oprimir, nem o levar a pensar que é aceitável o que faz.(…) É procurar que deixe de oprimir, tirar-lhe o poder que não sabe usar e que o desfigura como ser humano.” (241).
    79. “O rancor só me faz mal, é um pedaço de guerra dentro de mim, é um fogo no coração que deve ser apagado a fim de não irromper em um incêndio.” (243).
    80. “Toda guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. É um fracasso da política e da humanidade.” (261)
    81. As várias religiões “oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e da defesa da justiça na sociedade.” (271)
    82. “O objetivo do diálogo é estabelecer amizade, paz, harmonia e partilhar valores e experiências morais e espirituais em espírito de verdade e amor.” (271)
    83. “Se não se reconhece a verdade transcendente, triunfa a força do doer, e cada um tende a aproveitar-se ao máximo dos meios à sua disposição para impor o próprio interesse ou opinião, sem atender aos direitos dos outros.” (273)
    84. “Buscar a Deus com o coração sincero, desde que não o ofusquemos com os nossos interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda a reconhecer-nos como companheiros de estrada, verdadeiramente irmãos.” (274)
    85. “Entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos.” (275)
    86. “Embora a Igreja respeite a autonomia da política, não relega a sua missão para a esfera do privado.” (276)
    87. Do Evangelho de Cristo “brota (…) o primado reservado à relação, ao encontro com o mistério sagrado do outro, à comunhão universal com a humanidade inteira, como vocação de todos.” (277)
    88. “As coisas que temos em comum (entre as religiões) são tantas e tão importantes que é possível identificar um caminho de convivência serena, na aceitação das diferenças e na alegria de sermos iramos porque somos filhos de um único Deus.” (279)
    89. “No processo de globalização falta ainda a contribuição profética e espiritual da unidade entre todos os cristãos.” (280)
    90. “Temos o dever de oferecer um testemunho comum do amor de Deus por todas as pessoas, trabalhando em conjunto a serviço da humanidade.” (280)
    91. “Deus não olha com os olhos, olha com o coração.” (281)
    92. “A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações.” (282)
    93. “Somos desafiados a retornar às nossas fontes para nos concentrarmos no essencial: a adoração a Deus e o amor ao próximo.”
    94. “O culto sincero e humilde a Deus ‘leva não à discriminação, ao ódio e à viol6encia, mas ao respeito pela sacralidade da vida, pela dignidade e pela liberdade dos outros e a um solícito compromisso em prol do bem-estar de todos.” (283)
    95. “O terror e o pessimismo não se devem à religião (…), mas têm origem em interpretações erradas de textos religiosos, nas politicas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão, e arrogância.” (283)
    96. “Às vezes, a viol6encia fundamentalista desencadeia-se em alguns grupos de qualquer religião pela imprudência dos seus líderes.” (284)
    97. “Cada um de nós é chamado a ser artífice da paz, unindo e não dividindo, extinguindo o ódio em vez de conservá-lo, abrindo caminhos de diálogo em vez de erguer novos muros.” (284)
    98. Sentimentos e atitudes de hostilidade “são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens.” (285)
    99. “Deus, o Todo-Poderoso, não precisa ser defendido por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.” (285)
    100. “Somente identificando-se com os últimos é que se chega a ser irmão de todos.” (287).
  • A incompatibilidade do atual modelo econômico com a sustentabilidade do planeta Terra

     

    A incompatibilidade do atual modelo econômico com a sustentabilidade do planeta Terra*
    Por Antonio Salustiano Filho**

    No contexto do sistema econômico atual, vivemos obcecados com a ideia de progresso e com o aperfeiçoamento da humanidade, numa ótica de crescimento econômico ilimitado e a qualquer custo e, assim, acreditamos no “vale tudo” para atingir essa meta ambiciosa do ser humano condicionado à cultura do sistema vigente. Daí quase nada do que fazemos, dentro dessa ótica, é sustentável.

    Importa dizer que essa concepção de crescimento econômico a qualquer custo é fruto da ideologia da chamada civilização ocidental de caráter patriarcal e viés produtivista, consumista e depredador da natureza, tendo o ser humano (enquanto espécie) como centro do universo e em torno do qual circulam – em condições de subalternos e subjugados – os demais seres da natureza. É a ideologia desse modelo de desenvolvimento que nos faz acreditar que o bem-estar dos seres humanos está nessa aventura do crescimento ilimitado da produção sem nos ocupar com a depredação do patrimônio comum da humanidade, o Planeta.

    Essa ideologia “é a significação imaginária social mais importante forjada pela burguesia, produzindo e difundindo a ideia de que o crescimento ilimitado da produção e das forças produtivas é a norma natural e é, de fato, o objetivo central da vida humana.” (CASTORIADIS, 1982).

    Vivemos alienados a essa ideia de desenvolvimento com a promessa de felicidade no nosso desejo de consumo e nosso senhorio sobre a natureza.

    A utopia desse modelo econômico prometeu que o desenvolvimento das forças produtivas e a expansão da esfera econômica libertariam a humanidade da escassez, da injustiça e do mal estar. Dominando a natureza, a humanidade teria poderes soberanos sobre si própria (RIST, 1996).

    Crescimento/desenvolvimento são termos oriundos da economia que entre nós é capitalista, regulada pelos mercados mundialmente articulados. Sua lógica interna é fundamentada na exploração sistemática e ilimitada da natureza, tirando desta os recursos naturais até a exaustão e devolvendo-lhe seus rejeitos (lixos) altamente nocivos.  Nessa relação economia/natureza verificamos a destruição dos ecossistemas com toda a biodiversidade e espécies. Trata-se de um sistema competitivo que com a voracidade que lhe é peculiar está deixando a Terra completamente devastada, imprópria para a vida, especialmente para o ser humano.

    A velha concepção de sociedade, sedimentada na ideia cega, surda e insensível é que “tempo é dinheiro” e “tudo é mercadoria” fez com que se montasse essa máquina industrialista que, de forma sistemática e agressiva ao meio ambiente, tira da natureza até o seu esgotamento total, tudo o que ela pode dar, pois o que importa é o máximo de lucro como o menor custo possível num tempo curto.

    “Tendo na economia seu valor maior, as sociedades contemporâneas têm ignorado as irreversibilidades ambientais decorrentes de suas ações. A intensa utilização de elementos não-renováveis e a contínua e generalizada degradação e transformação ambiental evidenciam esta desconsideração.” (TIEZZI, 1988).

    Esquecemos, ou nunca soubemos – dada nossa condição de homo sapiens e demens – que

    “a dinâmica da natureza é regida por leis diferentes das que regem a economia, e quanto mais rápido consumirmos os recursos materiais e energéticos, menos tempo estará disponível para nossa sobrevivência. Os limites dos recursos e os limites da resistência de nosso planeta indicam claramente que, se acelerarmos os fluxos de energia e matéria no sistema Terra, estaremos encurtando o tempo real disponível para a espécie humana. Um organismo que consome seus meios de subsistência mais rápido do que o ambiente os produz, não tem possibilidade de sobreviver”. (TIEZZI, 1988)

    A dimensão ecológica nunca foi parte do desenvolvimento preconizado pelo atual sistema econômico. Trata-se de um sistema em que a tecnologia é tida como impulsionadora da produção e da produtividade. A natureza é vista apenas como fator passivo de exploração (MONTIBELLER-FILHO, 2008) e não é contabilizada no custo da produção.

    Assim essa sociedade, onde tudo é mercadoria e alguns indivíduos (seus mentores) têm uma fome voraz de lucro, não terá a resposta para os problemas da Terra, pois ela (a sociedade) é a geradora do problema. A ideia de uma economia verde, ou ecológica, é um subterfúgio. Um discurso para cooptar o movimento ambientalista/ecológico em prol da sustentabilidade discursiva e antropocêntrica forjada pelos depredadores da natrureza.

    Para os mentores dessa sociedade econômica não dá para abrir mão do lucro em favor de um modelo econômico que reverta o processo de extinção de toda a vida na terra. Em nome da acumulação desenfreada de riqueza milhões de vidas humanas e milhares de espécie da biodiversidade são sacrificadas no altar do mercado. Tudo em nome do deus dinheiro.

    Bibliografia Citada

    CASTORIADIS, Cornelius.  A Instituição imaginária da sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 1982, pp. 418.

    MONTIBELLER-FILHO, Gilberto. O Mito do desenvolvimento sustentável: meio ambiente e custos sociais no moderno sistema produtor de mercadorias. 3. Ed. rev. e atual. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2008, pp.326.

    RIST, Gilbert. Le développement, Histoire d’une croyance occidentale, Paris: Presses de Sciences Po, 1996.

     TIEZZI, Enzo. Tempos históricos, tempos biológicos. A terra ou morte: os problemas da nova ecologia. São Paulo: Nobel, 1988, pp. 279.

     

    * O presente artigo é parte de um texto maior, o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de pós-graduação em Direito Ambiental (Latu Sensu), na UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba. Publicado originalmente no Diário de Santa Bárbara. Santa Bárbara do Oeste-SP, 25/02/2021.

    **ANTONIO SALUSTIANO FILHO, Advogado, ambientalista e membro das CEBs do Regional Sul-1 (estado de São Paulo).

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