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Os Quartéis e os Palácios: uma Simbiose Brasileira
Por Jorge Alexandre Alves

Imagem: de redebrasilatual Preocupação com sua má relação com o Congresso motivou Bolsonaro a se cercar de ministros militares

A questão que envolve os militares e suas relações com o poder civil não é nova. Desde Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, temos a interferência militar em funções civis no Estado. Isso se intensificou na República, aliás resultante de uma conspiração liderada por um marechal que, até uma semana antes, era monarquista convicto.

Antes de mais nada, precisamos ter clareza que Bolsonaro é um projeto militar. Esse apoio se deu fundamentado na DSN (doutrina de Segurança Nacional), fundamento pedagógico da formação dos candidatos a oficiais-generais na Escola Superior de Guerra e similares.

A maior parte das cúpulas militares em 2018 acreditavam existir um esforço internacional em desestabilizar o Brasil e estavam convencidos que a esquerda brasileira participava desse esforço. Ficava fácil, neste caso, identificar o inimigo interno e combatê-lo. Ao mesmo tempo havia subliminarmente os projetos pessoais de poder e de recursos – para os líderes e seus pajens.

Bolsonaro foi visto como o cavalo selado que tornava possível essa articulação entre visão de mundo e interesses privativos da cúpula militar. Acreditava-se também que a hierarquia faria o capitão ter algum respeito por generais, almirantes e brigadeiros. E que seria possível tutelá-lo.

Militares são moralistas. Vale a máxima que prescreve que não basta ser honesto, precisa parecer honesto. Por isso o discurso legalista. Mourão, Heleno (antes dele Etchegoyen), Villas-Boas, Azevedo e outros fazem política há muito.

Certamente, alguns de vocês devem se lembrar do Gen. Heleno – Comandante Militar da Amazônia – tecendo considerações sobre as demarcações indígenas na Amazônia. Ou sobre a questão (que foi ao STF) referentes às disputas entre arrozeiros e o povo Ianomâmi na Reserva Raposa Serra do Sol, mais de uma década atrás. Isso custou a Heleno a quarta estrela (posto de General-de-Exército, o mais alto da força).

Da mesma forma, Villas-Boas, Pujol (O próprio Heleno) foram comandantes daquela desastrosa missão dos capacetes azuis da ONU no Haiti (MINUSTAH). Generais escalados para esses postos o são por razões políticas. Aqui cabe sinalizar, todos eles nomeados para essa missão nos tempos em que a esquerda mandava(sic!) no país.

Fernando Azevedo tem inserções na vida civil há muito tempo. Ele foi ajudante-de-ordem de Fernando Collor nos anos 1990. E foi preposto do Comando do Exército no STF presidido por Dias Toffoli.

Ou seja, há pelo menos uma década presenciamos essa promiscuidade de militares na política. São sinais péssimos transmitidos por quem está na cúpula dessas corporações militares. A questão do legalismo e de uma defesa estrita do papel profissional da caserna até existe, mas nenhum desses protagonistas militares na política podem ser considerados exemplos de tais princípios.

Por isso, carecem de fundamentos as teses até agora ventiladas pela grande imprensa. O que temos é uma orquestração muito bem articulada de militares participando plenamente na política. Engana-se quem pensa que as FFAA estão divididas. O que ocorreu essa semana nada tem a ver com respeito à Constituição ou com legalismo militar.

Azevedo e seus comandantes podem ter se dado conta de algum prejuízo institucional junto à “opinião pública” que o vínculo com Bolsonaro pode representar. Talvez tenha uma questão do orgulho pessoal, afinal deve ser duro a um general ter que ceder às ordens de um capitão.

Mas isso não significa que a “tropa” não aceitará ser politizada. Aliás, a tropa já está politizada. Os generais estão muito bem articulados e não há nenhum movimento que indique que os quase 12 mil militares que hoje estão no Poder Executivo retornarão aos quartéis, ou se os que estão na reserva irão para suas casas botar o pijama.

Por outro lado, existem duas questões que merecem nossa atenção. Primeiro, podemos até admitir que nem todos os generais e oficiais superiores (coronéis e tenentes-coronéis no Exército e seus correspondentes nas outras forças) sejam bolsonaristas ou que concordem com essa presença militar em segmentos civis do Estado Brasileiro. Mas não é o que acontece nas bases militares, sobretudo quem veste uniforme verde-oliva.

Bolsonaro frequentou por mais de quinze anos formaturas de cadetes na AMAN e nas outras escolas militares. E com o beneplácito dos comandantes de força e das autoridades civis. Isso o tornou muito popular junto aos oficiais inferiores (tenentes) e oficiais intermediários (capitães e majores). Da mesma forma que é muito popular entre sargentos e praças.

Quando Bolsonaro exige que oficiais-generais tornem as FFAA sua guarda pretoriana, ele acena para suas bases militares, emparedando o alto-comando militar. Por um lado, aparenta instaurar a quebra da hierarquia e da disciplina na corporação. Isso pode ter acendido algum sinal de alerta nestes generais exonerados – apenas por uma questão de formalidade militar.

Por outro lado, há um jargão militar que afirma a palavra convence, o exemplo arrasta. Que exemplos os generais que, mesmo na ativa, acumulam funções civis dão aos jovens oficiais? Ou seja, o presidente aposta na desordem militar dentro de uma promiscuidade com funções civis inaugurada por uma geração inteira de oficiais.

Disso deriva a segunda questão. Daqui a dez, quinze anos, sairão dos capitães e majores de hoje (a maioria bolsonarista) os oficiais-generais das três forças. Ou seja, temos uma bomba de efeito retardado plantada no Estado Brasileiro. Como esperar reverter a atual situação diante dessa possibilidade?

Finalmente, é preciso reconhecer que muito pouco sabemos a respeito do ethos militar e do cotidiano nos quarteis. Essa geração que hoje lidera as FFAA não ascendeu ao generalato pelas mãos de Bolsonaro ou mesmo de Temer. A maior parte deles chegou ao topo da hierarquia militar quando tínhamos governos progressistas.

Precisamos saber as razões destas escolhas. Se eram os melhores de sua geração, havia um grave problema que não foi detectado. Se não, é necessário reconhecer que, neste aspecto, a esquerda no poder não foi feliz em escolhas tão delicadas e estratégicas.

Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Atua no Movimento Nacional Fé e Política.

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