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Erika Gloria Rocha dos Santos
O BBB e a tentativa de redução das lutas negras

 

As mídias sociais protagonizadas pelas comunidades negras, com uma forte presença artística, estão, há mais ou menos duas semanas, envolvidas no dia a dia de tudo que acontece no BBB. Todo esse envolvimento se dá porque qualquer mano ou mana que sofra, nós sentimos na carne esse sofrimento. Faz parte da nossa história de dor e luta.

Embora eu esteja acompanhando, até com participação em grupo de específico de Whats App, pouco tenho me pronunciado sobre essa bomba que explodiu no nosso colo, e sem opção de escolha estamos envolvides.

Mas ontem duas provocações me fizeram discorrer algumas palavras para ajudar na reflexão. Uma amiga da faculdade, estranhando o silêncio, me procurou para saber minha opinião. E uma mana das antigas reagiu a um storie com a seguinte frase: “Amiga, esse BBB fudeu com nossa militância. Tô passada!”. Essa última foi um soco direto no meu estômago…

Hoje acordamos com a notícia que @lucas havia saído do programa. Após mais uma vez ser indagado, de forma violenta e desonesta pelas “proprietárias” das certezas do que consideram certo ideologica e politicamente. Lucas, em um ato corajoso, apresentou para o mundo sua orientação bissexual. Como pode uma pessoa considerar esse ato um jogo de cena?  Vivemos em um país moralmente preconceituoso em que a população LGBTQIA+ sofre os mais altos índices de violação dos direitos e diversas violências. O ato de Lucas deve ser considerado uma rebeldia libertadora! Um amigo hoje dizia: “Lucas não pediu para sair, ele foi expulso. Pois todo o seu processo de saída foi antecedido por muita violência psicológica”.

Está sendo muito pesado para nós pertencentes às comunidades negras, onde protagonizamos o combate ao racismo estrutural diariamente, ver nossos manos e manas pretos promoverem um show de horrores! Sim, estamos decepcionades. Sonhamos com um lindo Quilombo num reality show, onde a lógica capitalista nos impulsiona mais uma vez para uma disputa, muitas vezes desonrosa e antiética.  Está dito, e essas pessoas terão enormes desafios aqui fora, tendo que se retratar com fãs, seguidores, amiges e etc.. Mas quero relembrar uma das primeiras publicações da @TiaMá, que nos alertava para não criarmos muitas expectativas quanto ao número de pretos e pretas no BBB. Somos diferentes, nem todo mundo tem a propriedade das discussões raciais e muito menos as práticas antiracistas.

Mas aqui quero me ater a algo mais sério. Provocar alguns desafios postos a todes nós, a partir de um programa que deveria ser de entretenimento mas que, no momento, só nos causa dor… uma dor coletiva e alimentada propositalmente.

A Rede Globo estrategicamente colocou um número considerável de pretos e pretas no jogo, com a intenção de nos fragilizar e dividir. Não digo isso para reduzir todo o processo violento cometido contra o Lucas, mas precisamos nos questionar sobre quem sai perdendo com tudo isso. Todos esses dias de audiência serviram para reforçar o auto-ódio, a divisão entre nós, a criminalização dos movimentos raciais, e os estereótipos do tipo: “Tá vendo? O preto violenta o próprio preto. Eles são os primeiros racistas.” Destaco ainda a lógica perversa que sobressairá sobre nós, mulheres pretas militantes. Nos enganamos quando achamos que somente Lumena e Karol perderão com o que elas cometeram na casa!

Infelizmente o mundo aqui fora segue, e a perversidade do racismo continua nos matando. Meninos como o Lucas estão por aí, nas periferias e quebradas, precisando de auxílio e acolhimento. Não nos esqueçamos, enquanto essa bomba rola: três meninos pretos de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, continuam desaparecidos.

Com uma quantia considerável, Bolsonaro ganhou à presidência da Câmara e do Senado. O pacote de maldades seguirá sem interferências;

A Juventude negra é exterminada em proporção muito superior à dos jovens brancos. A fome e o desemprego nos assolam ainda mais nesse período de pandemia. O Brasil lidera o triste ranking de ser o país que mais mata transexuais e travestis no mundo!

Diante desse cenário, gostaria de apontar alguns desafios:

O acolhimento ao Lucas já está sendo feito pela comunidade artista e por grande parte da sociedade, que se identificou com a dor dele. A solidariedade sempre foi nosso mote. Mas insisto que a situação do Lucas deve ser um alerta para olharmos com carinho para outras juventudes adoecidas emocionalmente;

Outras pautas raciais seríssimas estão em jogo, não podemos permitir nos perdermos por conta da promoção intencional das nossas fragilidades;

Nós militantes pretos e pretas devemos nos atentar para a relação entre discurso e prática. Muitos de nós não falamos e nem defendemos mais quem verdadeiramente é nosso público. A arrogância há tempos nos assombra e nós temos uma dificuldade enorme de autoavaliação;

Sei que vou apanhar nessa: até para exigirmos de KarolcomKa, Nego Di, Lumena e Projota, devemos ser fraternos. O discurso punitivo a esses não mudará o mal que esse programa nos causou. O sistema já cumpre esse papel punitivo de forma bem orquestrada.

Enquanto refletia sobre os acontecimentos do BBB, as dores, angústias e brigas causadas entre nós, maratonei a 2ª temporada da série Pose. Uma narrativa das décadas de 80 e 90, que permeia a vida de gays e da população trans preta e periférica de Nova Iorque, vivendo à margem e numa luta contra o vírus da AIDS. Por mais disputas que houvesse entre as “Casas” nos bailes, a série nos provoca: quando um irmão ou irmã sofre, toda a comunidade vai à defesa, simplesmente por saber que o racismo e a LGTBfobia atingem a todes.

Segue uma boa dica de como é desafioso para nós não permitirmos que esse jogo enfraqueça nossa militância e história. Li na internet que estão ameaçando o filho da CarolComka, um menino de 15 anos. O que ele tem a ver com os erros da mãe? Defendemos o Lucas, mas fazemos violência com outro jovem?

Já temos dores demais, a cada corpo preto tombado e massacrado cotidianamente. Não podemos nos permitir a mais esse massacre orquestrado. Eles lucram e nós perdemos.

Por fim, se eu pudesse dizer algo aos companheiros e companheiras que lá estão, traria um pouco da minha experiência profissional como educadora social. É muito fácil condenar, apontar o dedo, questionar um jovem negro periférico. Difícil e desafioso é estender a mão, num gesto concreto de fraternidade e acolhimento. É mais fácil desistir do que ter o trabalho de resgatar. Acredito que Lumena entendeu bem o recado nessa noite de domingo…

Não permitamos que o BBB seja para nós mais um instrumento de massacre!

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