Artigo

  • As 100 melhores frases do Papa Francisco na FRATELLI TUTTI

    FRASES PROFUNDAS E SÁBIAS DO PAPA FRANCISCO NA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI
    Por Ivo Pedro Oro, na sua página no FB, 26 fev 2021.

    1. Cuidar do mundo que nos rodeia e nos sustenta significa cuidar de nós mesmos. (17
    2. Empanturramo-nos de conexões e perdemos o gosto da fraternidade. (33)
    3. O princípio do ‘salve-se quem puder’ traduz-se rapidamente no ‘todos contra todos’, e isso será pior que uma pandemia. (36)
    4. Às vezes, na comunicação digital quer-se mostrar tudo e esvai-se o respeito pelo outro. (42)
    5. A conexão digital não é suficiente para construir pontes, não é capaz de unir a humanidade. (43)
    6. A verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade. (47)
    7. Criou-se um novo estilo de vida, em que cada qual constrói o que deseja ter à sua frente. (49)
    8. A acumulação esmagadora de informações que nos inundam não significa maior sabedoria. (50)
    9. Uma maneira fácil de dominar alguém é destruir sua autoestima. (52)
    10. Não há alienação pior do que experimentar que não se tem raízes, não se pertence a ninguém. (53)
    11. Cerca-nos a tentação de nos desinteressar pelos outros, especialmente pelos mais frágeis. (64)
    12. Estamos numa sociedade enferma, que procura construir-se de costas para o sofrimento alheio. (65)
    13. A vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro. (66)
    14. É preciso indignar-nos e descer da nossa serenidade, alterando-nos com o sofrimento humano. Isso é dignidade. (68)
    15. Existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo. (70)
    16. O fato de crer em Deus e adorá-lo não é garantia de viver como agrada a Deus. (74)
    17. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer, mas não o façamos sozinhos, individualmente. (78)
    18. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos nossos delitos, desmazelos e mentiras. (78)
    19. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. (79)
    20. É importante que a catequese e pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade e a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa humana. (86)
    21. Não posso reduzir a minha vida à relação com um pequeno grupo, nem mesmo com minha própria família. (89)
    22. Os grupos fechados são formas idealizadas de egoísmo e mera autoproteção. (89)
    23. O amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar. (92)
    24. Aqueles que são capazes apenas de ser sócios criam mundos fechados. (104).
    25. O individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. (105)
    26. Se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflito e violência.(111)
    27. As famílias constituem o primeiro lugar onde se vivem e se transmitem os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado pelo outro. (114).
    28. O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados. (120)
    29. Ninguém pode ser excluído, não importa onde tenha nascido. (121)
    30. É possível desejar e sonhar um planeta que garante terra, teto e trabalho para todos. (127)
    31. “Nossos esforços a favor das pessoas migrantes podem resumir-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.” (129)
    32. “As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas para que o muno não fique mais pobre.” (134)
    33. “Hoje, ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém.” (137)
    34. “É preciso que exista o fator da ‘gratuidade’: a capacidade de fazer algumas coisas simplesmente porque são boas em si mesmas, sem preocupação com ganhos e recompensas pessoais.” (139)
    35. “Quem não vive a gratuidade fraterna transforma a sua existência em um comércio cheio de ansiedade: está sempre medindo aquilo que dá e o que recebe em troca.” (140)
    36. “Só poderá ter futuro uma cultura sociopolítica que inclua o acolhimento gratuito.” (141)
    37. “Sentido positivo do direito de propriedade: guardo e cultivo algo que possuo, a fim de que possa ser uma contribuição para o bem de todos.” (143).
    38. “Sem o relacionamento e o confronto com quem é diferente, torna-se difícil ter um conhecimento claro e completo de si mesmo e de sua terra.” (147)
    39. “A própria identidade cultural aprofunda-se e enriquece-se no diálogo com os que são diferentes.” (148)
    40. “O risco de viver protegendo-nos uns dos outros, vendo os outros como concorrente ou inimigos perigosos, é transferido para o relacionamento com os povos da região. Talvez tenhamos sido educados nesse medo e nessa desconfiança.” (152)
    41. “Para se tornar possível o desenvolvimento de uma comunidade mundial (…) é necessária a política melhor, a política colocada a serviço do verdadeiro bem comum.” (154)
    42. “Degenera em um populismo insano, quando se transforma na habilidade de alguém de atrair consensos a fim de instrumentalizar politicamente a cultura do povo, sob qualquer sinal ideológico, a serviço do seu projeto pessoal e da sua permanência no poder.” (159)
    43. O trabalho “não é só um modo de ganhar o pão, mas também um meio para o crescimento pessoal, para estabelecer relações sadias, expressar a si mesmo, partilhar dons, sentir-se corresponsável no desenvolvimento do mundo e, finalmente, viver como povo.” (162)
    44. A caridade “implica um caminho eficaz de transformação da história que exige incorporar tudo: instituições, direito, técnica, experiência, contribuições pessoas, etc…” (164)
    45. “O perigo maior não está nas coisas, nas realidades materiais, nas organizações, mas no modo como as pessoas se servem delas.” (166)
    46. “A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos.” (168)
    47. Os movimentos populares “são semeadores de mudança, promotores de um processo para o qual convergem milhões de pequenas e grandes ações interligadas de modo criativo, como uma poesia.” (169)
    48. “Nenhum indivíduo ou grupo humano pode-se considerar onipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais.” (171)
    49. “A justiça e um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade universal.” (173)
    50. “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia.” (177)
    51. “A terra é um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte.” (178)
    52. “Um individuo pode ajudar uma pessoa necessitada, mas quando se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos, entre no campo da caridade mais ampla, da caridade política.” (180)
    53. “É caridade também tudo o que se realiza – mesmo sem ter contato direto com a pessoa – para modificar as condições sociais que provocam os eu sofrimento.” (186)
    54. “Cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade, no meio de um modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à cultura o descarte.” (188)
    55. “Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando==o como uma mercadoria qualquer, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome.” (189)
    56. “Comprometamo-nos a viver e ensinar o valor do respeito, amor capaz de aceitar as várias diferenças, a prioridade da dignidade de todo ser humano sobre quaisquer ideias, sentimentos, atividades e até pecados que possa ter.” (191)
    57. “Não nos acostumemos a viver fechados em um fragmento de realidade.” (191)
    58. “A ternura é o caminho que percorrem os homens e as mulheres mais corajosos e fortes.” (194)
    59. “Se consigo ajudar uma pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida.”(195).
    60. “As perguntas, talvez dolorosas, serão: Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade?” (197)
    61. “Muitas vezes confunde-se diálogo com algo muito diferente: uma troca de opiniões exaltadas nas redes sociais, muitas vezes causada por uma informação da mídia nem sempre confiável.” (200)
    62. “Predomina o costume de difamar rapidamente o adversário, com adjetivos humilhantes, em vez de promover um diálogo aberto e respeitoso.” (201)
    63. O diálogo “impede que os vários setores se instalem, cômodos e autossuficientes, na sua maneira de ver as coisas e nos seus interesses limitados.” (203)
    64. “O relativismo não é a solução…, acaba-se por deixar que os valores morais sejam interpretados pelos poderosos segundo as conveniências de momento.” (206)
    65. Uma sociedade é nobre e respeitável porque cultiva a busca da verdade e seu apego às verdades fundamentais.” (207)
    66. “Temos que ter prática de desmascarar as várias formas de manipulação, distorção e ocultação da verdade nas esferas pública e privada.” (208)
    67. “Que todo ser humano possui uma dignidade inalienável é uma verdade que corresponde à natureza humana.” (213)
    68. “Quem vive nas periferias tem outro ponto de vista, vê aspectos da realidade que não se descobre a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões determinantes.” (215).
    69. “Integrar as realidades diferentes é muito mais difícil e lento, embora seja a garantia de uma paz real e sólida.” (217)
    70. “Armemos nossos filhos com as armas do diálogo! Vamos ensinar-lhes o bom combate do encontro!” (217)
    71. “Os povos nativos não são contra o progresso, eles têm uma ideia diferente de progressos. (…) Não é uma cultura orientada para o bem daqueles que detêm o poder.” (220)
    72. Um pacto social exige que se respeite a diversidade, oferecendo-lhe caminhos de promoção e integração social.” (220)
    73. No diálogo, “Ser fiel a seus princípios, mas reconhecendo que o outro também tem o direito de procurar ser fiel aos dele.” (221)
    74. O exercício da amabilidade “facilita a busca de consensos e abre caminhos onde a exasperação destrói todas as pontes.” (224)
    75. “Cada ato de violência cometido contra um ser humano é uma ferida na carne da humanidade.” (227)
    76. A cultura do encontro “exige que, no centro e toda ação política, social e econômica, se coloque a pessoa humana, a sua sublime dignidade e o respeito pelo bem comum.” (232)
    77. “Jesus Cristo nunca convidou a fomentar a viol6encia u a intolerância.” ((238).
    78. “Amar um opressor não significa consentir que continue a oprimir, nem o levar a pensar que é aceitável o que faz.(…) É procurar que deixe de oprimir, tirar-lhe o poder que não sabe usar e que o desfigura como ser humano.” (241).
    79. “O rancor só me faz mal, é um pedaço de guerra dentro de mim, é um fogo no coração que deve ser apagado a fim de não irromper em um incêndio.” (243).
    80. “Toda guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. É um fracasso da política e da humanidade.” (261)
    81. As várias religiões “oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e da defesa da justiça na sociedade.” (271)
    82. “O objetivo do diálogo é estabelecer amizade, paz, harmonia e partilhar valores e experiências morais e espirituais em espírito de verdade e amor.” (271)
    83. “Se não se reconhece a verdade transcendente, triunfa a força do doer, e cada um tende a aproveitar-se ao máximo dos meios à sua disposição para impor o próprio interesse ou opinião, sem atender aos direitos dos outros.” (273)
    84. “Buscar a Deus com o coração sincero, desde que não o ofusquemos com os nossos interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda a reconhecer-nos como companheiros de estrada, verdadeiramente irmãos.” (274)
    85. “Entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos.” (275)
    86. “Embora a Igreja respeite a autonomia da política, não relega a sua missão para a esfera do privado.” (276)
    87. Do Evangelho de Cristo “brota (…) o primado reservado à relação, ao encontro com o mistério sagrado do outro, à comunhão universal com a humanidade inteira, como vocação de todos.” (277)
    88. “As coisas que temos em comum (entre as religiões) são tantas e tão importantes que é possível identificar um caminho de convivência serena, na aceitação das diferenças e na alegria de sermos iramos porque somos filhos de um único Deus.” (279)
    89. “No processo de globalização falta ainda a contribuição profética e espiritual da unidade entre todos os cristãos.” (280)
    90. “Temos o dever de oferecer um testemunho comum do amor de Deus por todas as pessoas, trabalhando em conjunto a serviço da humanidade.” (280)
    91. “Deus não olha com os olhos, olha com o coração.” (281)
    92. “A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações.” (282)
    93. “Somos desafiados a retornar às nossas fontes para nos concentrarmos no essencial: a adoração a Deus e o amor ao próximo.”
    94. “O culto sincero e humilde a Deus ‘leva não à discriminação, ao ódio e à viol6encia, mas ao respeito pela sacralidade da vida, pela dignidade e pela liberdade dos outros e a um solícito compromisso em prol do bem-estar de todos.” (283)
    95. “O terror e o pessimismo não se devem à religião (…), mas têm origem em interpretações erradas de textos religiosos, nas politicas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão, e arrogância.” (283)
    96. “Às vezes, a viol6encia fundamentalista desencadeia-se em alguns grupos de qualquer religião pela imprudência dos seus líderes.” (284)
    97. “Cada um de nós é chamado a ser artífice da paz, unindo e não dividindo, extinguindo o ódio em vez de conservá-lo, abrindo caminhos de diálogo em vez de erguer novos muros.” (284)
    98. Sentimentos e atitudes de hostilidade “são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens.” (285)
    99. “Deus, o Todo-Poderoso, não precisa ser defendido por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.” (285)
    100. “Somente identificando-se com os últimos é que se chega a ser irmão de todos.” (287).
  • A incompatibilidade do atual modelo econômico com a sustentabilidade do planeta Terra

     

    A incompatibilidade do atual modelo econômico com a sustentabilidade do planeta Terra*
    Por Antonio Salustiano Filho**

    No contexto do sistema econômico atual, vivemos obcecados com a ideia de progresso e com o aperfeiçoamento da humanidade, numa ótica de crescimento econômico ilimitado e a qualquer custo e, assim, acreditamos no “vale tudo” para atingir essa meta ambiciosa do ser humano condicionado à cultura do sistema vigente. Daí quase nada do que fazemos, dentro dessa ótica, é sustentável.

    Importa dizer que essa concepção de crescimento econômico a qualquer custo é fruto da ideologia da chamada civilização ocidental de caráter patriarcal e viés produtivista, consumista e depredador da natureza, tendo o ser humano (enquanto espécie) como centro do universo e em torno do qual circulam – em condições de subalternos e subjugados – os demais seres da natureza. É a ideologia desse modelo de desenvolvimento que nos faz acreditar que o bem-estar dos seres humanos está nessa aventura do crescimento ilimitado da produção sem nos ocupar com a depredação do patrimônio comum da humanidade, o Planeta.

    Essa ideologia “é a significação imaginária social mais importante forjada pela burguesia, produzindo e difundindo a ideia de que o crescimento ilimitado da produção e das forças produtivas é a norma natural e é, de fato, o objetivo central da vida humana.” (CASTORIADIS, 1982).

    Vivemos alienados a essa ideia de desenvolvimento com a promessa de felicidade no nosso desejo de consumo e nosso senhorio sobre a natureza.

    A utopia desse modelo econômico prometeu que o desenvolvimento das forças produtivas e a expansão da esfera econômica libertariam a humanidade da escassez, da injustiça e do mal estar. Dominando a natureza, a humanidade teria poderes soberanos sobre si própria (RIST, 1996).

    Crescimento/desenvolvimento são termos oriundos da economia que entre nós é capitalista, regulada pelos mercados mundialmente articulados. Sua lógica interna é fundamentada na exploração sistemática e ilimitada da natureza, tirando desta os recursos naturais até a exaustão e devolvendo-lhe seus rejeitos (lixos) altamente nocivos.  Nessa relação economia/natureza verificamos a destruição dos ecossistemas com toda a biodiversidade e espécies. Trata-se de um sistema competitivo que com a voracidade que lhe é peculiar está deixando a Terra completamente devastada, imprópria para a vida, especialmente para o ser humano.

    A velha concepção de sociedade, sedimentada na ideia cega, surda e insensível é que “tempo é dinheiro” e “tudo é mercadoria” fez com que se montasse essa máquina industrialista que, de forma sistemática e agressiva ao meio ambiente, tira da natureza até o seu esgotamento total, tudo o que ela pode dar, pois o que importa é o máximo de lucro como o menor custo possível num tempo curto.

    “Tendo na economia seu valor maior, as sociedades contemporâneas têm ignorado as irreversibilidades ambientais decorrentes de suas ações. A intensa utilização de elementos não-renováveis e a contínua e generalizada degradação e transformação ambiental evidenciam esta desconsideração.” (TIEZZI, 1988).

    Esquecemos, ou nunca soubemos – dada nossa condição de homo sapiens e demens – que

    “a dinâmica da natureza é regida por leis diferentes das que regem a economia, e quanto mais rápido consumirmos os recursos materiais e energéticos, menos tempo estará disponível para nossa sobrevivência. Os limites dos recursos e os limites da resistência de nosso planeta indicam claramente que, se acelerarmos os fluxos de energia e matéria no sistema Terra, estaremos encurtando o tempo real disponível para a espécie humana. Um organismo que consome seus meios de subsistência mais rápido do que o ambiente os produz, não tem possibilidade de sobreviver”. (TIEZZI, 1988)

    A dimensão ecológica nunca foi parte do desenvolvimento preconizado pelo atual sistema econômico. Trata-se de um sistema em que a tecnologia é tida como impulsionadora da produção e da produtividade. A natureza é vista apenas como fator passivo de exploração (MONTIBELLER-FILHO, 2008) e não é contabilizada no custo da produção.

    Assim essa sociedade, onde tudo é mercadoria e alguns indivíduos (seus mentores) têm uma fome voraz de lucro, não terá a resposta para os problemas da Terra, pois ela (a sociedade) é a geradora do problema. A ideia de uma economia verde, ou ecológica, é um subterfúgio. Um discurso para cooptar o movimento ambientalista/ecológico em prol da sustentabilidade discursiva e antropocêntrica forjada pelos depredadores da natrureza.

    Para os mentores dessa sociedade econômica não dá para abrir mão do lucro em favor de um modelo econômico que reverta o processo de extinção de toda a vida na terra. Em nome da acumulação desenfreada de riqueza milhões de vidas humanas e milhares de espécie da biodiversidade são sacrificadas no altar do mercado. Tudo em nome do deus dinheiro.

    Bibliografia Citada

    CASTORIADIS, Cornelius.  A Instituição imaginária da sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 1982, pp. 418.

    MONTIBELLER-FILHO, Gilberto. O Mito do desenvolvimento sustentável: meio ambiente e custos sociais no moderno sistema produtor de mercadorias. 3. Ed. rev. e atual. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2008, pp.326.

    RIST, Gilbert. Le développement, Histoire d’une croyance occidentale, Paris: Presses de Sciences Po, 1996.

     TIEZZI, Enzo. Tempos históricos, tempos biológicos. A terra ou morte: os problemas da nova ecologia. São Paulo: Nobel, 1988, pp. 279.

     

    * O presente artigo é parte de um texto maior, o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de pós-graduação em Direito Ambiental (Latu Sensu), na UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba. Publicado originalmente no Diário de Santa Bárbara. Santa Bárbara do Oeste-SP, 25/02/2021.

    **ANTONIO SALUSTIANO FILHO, Advogado, ambientalista e membro das CEBs do Regional Sul-1 (estado de São Paulo).

  • Nota da Rede Brasileira de Fé e Política

    “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”.

    As entidades e organismos que compõem a Rede Brasileira de Fé e Política (REFEP), vêm manifestar total apoio a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021, liderada pelo Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC).

    Ademais, manifestam apoio integral e solidariedade à pastora Romi Bencke, atacada por setores religiosos ultraconservadores.

    A Rede Brasileira de Fé e Política entende que a Campanha da Fraternidade Ecumênica é um avanço importante para a unidade dos cristãos e cristãs no Brasil.

    Em sintonia com a Campanha da Fraternidade Ecumênica defendemos que os pobres, os povos indígenas, a comunidade afrodescendente e os segmentos vulneráveis da sociedade, entre os quais a população LGBTQI+, são o fundamento da práxis cristã. Neste sentido, a Campanha da Fraternidade Ecumênica é passo importante para se refletir sobre as mazelas históricas que fazem do Brasil, profundamente cristão, um dos países mais violentos, desiguais e injustos do mundo.

    Que a Campanha seja instrumento da unidade de todas as pessoas que buscam no diálogo e na paz a construção de um país onde “todas e todos tenham vida e vida em abundância”.

    “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Efésios, capítulo 2, versículo 14).

    O Iser Assessoria faz parte da Rede Brasileira de Fé e Política
    https://fepolitica.org.br/secao-de-publicacoes/conjuntura/

  • Erika Gloria Rocha dos Santos
    O BBB e a tentativa de redução das lutas negras

     

    As mídias sociais protagonizadas pelas comunidades negras, com uma forte presença artística, estão, há mais ou menos duas semanas, envolvidas no dia a dia de tudo que acontece no BBB. Todo esse envolvimento se dá porque qualquer mano ou mana que sofra, nós sentimos na carne esse sofrimento. Faz parte da nossa história de dor e luta.

    Embora eu esteja acompanhando, até com participação em grupo de específico de Whats App, pouco tenho me pronunciado sobre essa bomba que explodiu no nosso colo, e sem opção de escolha estamos envolvides.

    Mas ontem duas provocações me fizeram discorrer algumas palavras para ajudar na reflexão. Uma amiga da faculdade, estranhando o silêncio, me procurou para saber minha opinião. E uma mana das antigas reagiu a um storie com a seguinte frase: “Amiga, esse BBB fudeu com nossa militância. Tô passada!”. Essa última foi um soco direto no meu estômago…

    Hoje acordamos com a notícia que @lucas havia saído do programa. Após mais uma vez ser indagado, de forma violenta e desonesta pelas “proprietárias” das certezas do que consideram certo ideologica e politicamente. Lucas, em um ato corajoso, apresentou para o mundo sua orientação bissexual. Como pode uma pessoa considerar esse ato um jogo de cena?  Vivemos em um país moralmente preconceituoso em que a população LGBTQIA+ sofre os mais altos índices de violação dos direitos e diversas violências. O ato de Lucas deve ser considerado uma rebeldia libertadora! Um amigo hoje dizia: “Lucas não pediu para sair, ele foi expulso. Pois todo o seu processo de saída foi antecedido por muita violência psicológica”.

    Está sendo muito pesado para nós pertencentes às comunidades negras, onde protagonizamos o combate ao racismo estrutural diariamente, ver nossos manos e manas pretos promoverem um show de horrores! Sim, estamos decepcionades. Sonhamos com um lindo Quilombo num reality show, onde a lógica capitalista nos impulsiona mais uma vez para uma disputa, muitas vezes desonrosa e antiética.  Está dito, e essas pessoas terão enormes desafios aqui fora, tendo que se retratar com fãs, seguidores, amiges e etc.. Mas quero relembrar uma das primeiras publicações da @TiaMá, que nos alertava para não criarmos muitas expectativas quanto ao número de pretos e pretas no BBB. Somos diferentes, nem todo mundo tem a propriedade das discussões raciais e muito menos as práticas antiracistas.

    Mas aqui quero me ater a algo mais sério. Provocar alguns desafios postos a todes nós, a partir de um programa que deveria ser de entretenimento mas que, no momento, só nos causa dor… uma dor coletiva e alimentada propositalmente.

    A Rede Globo estrategicamente colocou um número considerável de pretos e pretas no jogo, com a intenção de nos fragilizar e dividir. Não digo isso para reduzir todo o processo violento cometido contra o Lucas, mas precisamos nos questionar sobre quem sai perdendo com tudo isso. Todos esses dias de audiência serviram para reforçar o auto-ódio, a divisão entre nós, a criminalização dos movimentos raciais, e os estereótipos do tipo: “Tá vendo? O preto violenta o próprio preto. Eles são os primeiros racistas.” Destaco ainda a lógica perversa que sobressairá sobre nós, mulheres pretas militantes. Nos enganamos quando achamos que somente Lumena e Karol perderão com o que elas cometeram na casa!

    Infelizmente o mundo aqui fora segue, e a perversidade do racismo continua nos matando. Meninos como o Lucas estão por aí, nas periferias e quebradas, precisando de auxílio e acolhimento. Não nos esqueçamos, enquanto essa bomba rola: três meninos pretos de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, continuam desaparecidos.

    Com uma quantia considerável, Bolsonaro ganhou à presidência da Câmara e do Senado. O pacote de maldades seguirá sem interferências;

    A Juventude negra é exterminada em proporção muito superior à dos jovens brancos. A fome e o desemprego nos assolam ainda mais nesse período de pandemia. O Brasil lidera o triste ranking de ser o país que mais mata transexuais e travestis no mundo!

    Diante desse cenário, gostaria de apontar alguns desafios:

    O acolhimento ao Lucas já está sendo feito pela comunidade artista e por grande parte da sociedade, que se identificou com a dor dele. A solidariedade sempre foi nosso mote. Mas insisto que a situação do Lucas deve ser um alerta para olharmos com carinho para outras juventudes adoecidas emocionalmente;

    Outras pautas raciais seríssimas estão em jogo, não podemos permitir nos perdermos por conta da promoção intencional das nossas fragilidades;

    Nós militantes pretos e pretas devemos nos atentar para a relação entre discurso e prática. Muitos de nós não falamos e nem defendemos mais quem verdadeiramente é nosso público. A arrogância há tempos nos assombra e nós temos uma dificuldade enorme de autoavaliação;

    Sei que vou apanhar nessa: até para exigirmos de KarolcomKa, Nego Di, Lumena e Projota, devemos ser fraternos. O discurso punitivo a esses não mudará o mal que esse programa nos causou. O sistema já cumpre esse papel punitivo de forma bem orquestrada.

    Enquanto refletia sobre os acontecimentos do BBB, as dores, angústias e brigas causadas entre nós, maratonei a 2ª temporada da série Pose. Uma narrativa das décadas de 80 e 90, que permeia a vida de gays e da população trans preta e periférica de Nova Iorque, vivendo à margem e numa luta contra o vírus da AIDS. Por mais disputas que houvesse entre as “Casas” nos bailes, a série nos provoca: quando um irmão ou irmã sofre, toda a comunidade vai à defesa, simplesmente por saber que o racismo e a LGTBfobia atingem a todes.

    Segue uma boa dica de como é desafioso para nós não permitirmos que esse jogo enfraqueça nossa militância e história. Li na internet que estão ameaçando o filho da CarolComka, um menino de 15 anos. O que ele tem a ver com os erros da mãe? Defendemos o Lucas, mas fazemos violência com outro jovem?

    Já temos dores demais, a cada corpo preto tombado e massacrado cotidianamente. Não podemos nos permitir a mais esse massacre orquestrado. Eles lucram e nós perdemos.

    Por fim, se eu pudesse dizer algo aos companheiros e companheiras que lá estão, traria um pouco da minha experiência profissional como educadora social. É muito fácil condenar, apontar o dedo, questionar um jovem negro periférico. Difícil e desafioso é estender a mão, num gesto concreto de fraternidade e acolhimento. É mais fácil desistir do que ter o trabalho de resgatar. Acredito que Lumena entendeu bem o recado nessa noite de domingo…

    Não permitamos que o BBB seja para nós mais um instrumento de massacre!

  • Magali Cunha
    Brasil 2021: Precisa-se de exorcistas!

     

    Brasil 2021: Precisa-se de exorcistas!

    Por Magali Cunha, membro da Igreja Metodista, para Carta Capital – 10 fev 2021.

    Dias atrás, participei de um curso com convidados para uma troca de experiências e aprendizados, sobre o livro de Marcos, da Bíblia cristã. Foi selecionado como texto motivador a narrativa em que Jesus chega à próspera cidade de Gérasa, sob dominação do Império Romano (Marcos 5). Lá, Jesus se encontra com um jovem “possesso de um espírito imundo”, que, por conta desta degradação, andava noite e dia entre túmulos de um cemitério e em montes, depois de ter sido, sem sucesso, acorrentado. O rapaz tinha o corpo muito ferido pois se automutilava com pedras.

    A narrativa do episódio é incrível! Quando Jesus ordena que o “espírito imundo” saia do corpo do jovem, ele pergunta o nome dele e a resposta foi “Legião”, denominação de uma das estruturas militares do Império Romano.

    Legião aceita a ordem de Jesus e pede que seja enviado aos porcos que pastavam ali perto. Porcos eram animais sagrados para os romanos e um dos símbolos do poder deste povo, tendo sido, precisamente, o símbolo da décima legião romana, a que controlava a região palestina a partir da Síria.

    Ao receber o “espírito imundo” a manada se joga no mar. Na cultura judaica da época, o mar era símbolo do mal, lugar das forças ocultas, sinal de caos, justamente o espaço de onde chegavam os invasores romanos. O rapaz é libertado e moradores da cidade, ao invés de se alegrarem com ele e com o feito, não gostam do ocorrido e pedem que Jesus vá embora dali.

    Quem lê este texto pode imaginar o quanto de reflexão rendeu à roda de conversa (quem quiser pode assistir à aula no Youtube https://www.youtube.com/playlist?list=PL60UuXuf5PlFdE_MTwfnsr1_wIFGkoPd8)!

    Eu contribuí com minhas experiências e impressões. Expressei o incômodo sobre a cidade ter preferido a degradação do jovem, “um endemoniado útil”, bode expiatório. Vejo como isto ocorre hoje com o sistema político-econômico, sustentado por religiões, que, para se manter, produz e alimenta desgraça e sofrimento dos seus integrantes.

    Também me instruí com a aula. Aprendi com o facilitador do curso, monge Marcelo Barros, que para as culturas antigas, o mal vem de uma entidade ou espírito. Várias religiões doutrinavam sobre um Deus do bem e um deus do mal. Profetas da Bíblia faziam uso da noção de espírito mau, uma energia negativa. No original grego do livro de Marcos, os textos falam de “pessoa com sopro mau” e não tanto de “espírito imundo”, como acabou sendo traduzido. Ao registrar o nome Legião e a opção pelos porcos e pelo mar, o texto dá o recado bem forte sobre quem soprava o mal. Por isso era importante perguntar o nome para se saber quem causava a degradação das pessoas, tirando delas sua consciência, sua dignidade e sua vida.

    Saí do curso pensando no Brasil de hoje e como nosso país está possesso do mal. Muita gente soprando o mal na política, na economia, na cultura, no meio ambiente e, o que soa pior, na religião.

    Assistimos, por exemplo, nestes dias, um vídeo produzido por um centro católico do Rio de Janeiro, com cenas maldosamente editadas de outros vídeos, com recortes fora do contexto original. Isto para que o advogado (!!) da organização acusasse a “Santa Igreja Católica” de se juntar a líderes da “demoníaca revolução protestante de 1517 que colocou o continente europeu a caminho do inferno”. Ele se refere à Campanha da Fraternidade, que será iniciada no próximo 17 de fevereiro, que terá a quarta edição em versão ecumênica (CFE 2021), uma parceria da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), com o tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz, do que era dividido, fez uma unidade”. https://diocese-sjc.org.br/wp-content/uploads/2021/01/Livreto-CEBs-CF-2021.pdf

    No vídeo, com uso indevido de imagens de outras organizações, o advogado sopra palavras de ódio contra a CFE 2021 e seus coordenadores (inclusive católicos), especialmente contra a pastora luterana Romi Bencke, secretária-geral do CONIC (que é enfatizada pelo advogado como “pastora entre aspas”), a quem ele alega estar, com a campanha, inserindo na “Santa Igreja Católica” pautas da “extrema esquerda revolucionária”. https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/solidariedade-a-pastora-romi-bencke-e-ao-conic/

    O homem, que não se identifica no vídeo, lista os “termos revolucionários” que considera ameaçadores no texto-base da CFE 2021: o enfrentamento por todas as igrejas do feminicídio, do racismo, da homofobia, da intolerância religiosa, da violência, especialmente a policial, do etnocídio indígena; o cuidado com o meio ambiente e a superação do aquecimento global; as medidas restritivas de prevenção à covid-19; e (pasme-se!) práticas de humanização das relações humanas pelo amor.

    O leigo católico chama a campanha de criminosa, de tragédia para a “Santa Igreja Católica” por conta de tratar estes temas listados acima (!!) e convoca a legião de seguidores do centro a que está ligado a boicotarem a campanha. De fato, há quem crie demônios para se alimentar deles, como na cidade de Gérasa.

    O vídeo maldoso acabou suscitando uma rede de apoio à CFE 2021 e uma série de pronunciamentos oficiais e ações de suporte e solidariedade ao CONIC e à pastora Romi Bencke. De fato, seguindo os passos de Jesus, há quem esteja sempre pronto a atuar no exorcismo de quem promove um “sopro do mal”.

    Lamentavelmente, este episódio, que envolve segmentos cristãos no Brasil, é um entre tantos. Há pessoas que conhecemos atacadas e ameaçadas por gente do próprio Estado por assumirem publicamente críticas ao sistema de degradação e de morte. O noticiário torna público o conluio entre juiz e procuradores que deveriam agir pela justiça, mas acabam promovendo linchamentos públicos de líderes políticos, seus bodes expiatórios, para tirarem vantagens e manterem o sistema injusto e indigno. Quem lê este texto deve estar lembrando de várias outras situações.

    Sim, precisamos de exorcistas deste sopro do mal que nos circunda e atinge! Precisamos também das redes de apoio e solidariedade para criar ações humanizadoras que promovam pessoas libertas, ou seja, conscientes, abertas, críticas diante das ideologias da morte.

  • Solidariedade à pastora Romi Bencke e ao CONIC

     

    Vimos a público manifestar nossa solidariedade à pastora luterana Romi Bencke e ao CONIC, que vêm sendo difamados nas redes sociais por grupos neoconservadores católicos. Nos últimos dias, fomos surpreendidos por vídeos em que a pastora Romi e o CONIC foram atacados por seu papel na concepção da Campanha da Fraternidade ecumênica deste ano, cujo lema é justamente a promoção do diálogo (“Fraternidade e diálogo: Compromisso de Amor”).

    A Campanha da Fraternidade ocorre no cerne da Igreja Católica do Brasil há mais de 50 anos e, a cada cinco anos, é elaborada pelo CONIC. Neste ano, foi pensada por um grupo de oito representantes de igrejas e movimentos cristãos brasileiros, entre eles: Igreja Católica Apostólica Romana, por meio da CNBB; Aliança de Batistas no Brasil; Igreja Episcopal Anglicana; Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; Presbiteriana Unida; Sirian Ortodoxa de Antioquia; Igreja Betesda (igreja convidada); e CESEEP, organismo ecumênico.
    A campanha tem como objetivos: denunciar as violências contra pessoas, povos e a Criação, em especial, as violências cometidas em nome de Jesus; encorajar a justiça para a restauração da dignidade das pessoas, para a superação de conflitos e para alcançar a reconciliação social; animar o engajamento em ações concretas de amor à pessoa próxima; promover a conversão para a cultura do amor em lugar da cultura do ódio; e fortalecer e celebrar a convivência ecumênica e inter-religiosa. A campanha repudia o racismo, a misoginia e outras formas de violência que aprofundam a cultura de ódio, e, por isso, vem sendo chamada de “revolucionária” por seus detratores.

    O CONIC, que nasceu em 1982, em Porto Alegre, é um órgão que congrega igrejas cristãs de várias denominações. Um dos seus principais objetivos é fomentar um diálogo ecumênico que favoreça uma interlocução com organizações da sociedade civil e governo em prol de políticas públicas que viabilizem a paz e a justiça. O CONIC também possui forte atuação na defesa do Estado laico, entendendo que só um Estado que respeite a pluralidade e a diversidade religiosa é capaz de promover a paz em seu território.

    A pastora Romi Bencke, secretária-geral do CONIC, é a primeira mulher a assumir esse cargo no Brasil. Sua trajetória e seu serviço pastoral culminam nos valores que cremos e defendemos: a promoção do diálogo ecumênico/religioso e a defesa dos Direitos Humanos.

    Os grupos e organizações da sociedade civil que assinam essa nota atestam o compromisso da pastora Romi e do CONIC com os valores da paz, da justiça, do diálogo e do respeito às diversas crenças, e repudiam qualquer tipo de violência e difamação contra a pastora, os coordenadores da Campanha da Fraternidade, ou a Campanha em si.

    ABONG
    Católicas pelo Direito de Decidir
    Conectas Direitos Humanos
    Iser Asssessoria

    Para assinar:
    https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdqcutzz2tpRugSTeXEp7F0sn2CFbPKRlNSFXCF0PLyda7RPA/viewform

    Para ver quem já assinou: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/solidariedade-a-pastora-romi-bencke-e-ao-conic/

     

  • Dom Evaristo Spengler – O Tráfico de Pessoas é uma chaga aberta em uma sociedade sem empatia

    08 de fevereiro – Dia Internacional de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas

    Dom Evaristo é Presidente da Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano

    Dom Evaristo Spengler comenta data contra o Tráfico de Pessoas

    Dom Evaristo Spengler, presidente da Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH) da CNBB

    Dom Evaristo Spengler / Foto: Franciscanos

    Nesta segunda-feira, 8, celebra-se o Dia Internacional de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas. O Papa Francisco, em uma mensagem em vídeo, reforçou o caráter desta data junto à sociedade contemporânea: dar um fim a este crime e promover uma economia que não use as pessoas com fins mercadológicos.

    “O tráfico de pessoas é uma chaga aberta em uma sociedade sem empatia, que deixa o lucro nortear todas as suas ações”, critica Dom Evaristo Pascoal Spengler, que responde pela Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Nessa visão de mundo, movida pelo lucro, o ser humano é um mero objeto, do qual pessoas ou grupos podem se apropriar para gerar lucro”, reitera.

    A Igreja, segundo Dom Evaristo, sempre se postou veementemente contra este fenômeno. No entanto, de acordo com o religioso, foi em 2008 que a CNBB, após um seminário em caráter nacional, com a participação dos Regionais de todo o país, resolveu articular esta luta de maneira mais organizada. “Em 2009, avançou-se com a criação de um Grupo de Trabalho (GT) específico para articular o enfrentamento ao tráfico de pessoas. Um dos grandes frutos do trabalho desse GT foi a Campanha da Fraternidade de 2014 com o tema ‘Fraternidade e Tráfico Humano’, que despertou a Igreja do Brasil a abraçar essa causa. Em 2016, deu-se um novo passo com a criação da Comissão Episcopal Pastoral para o Enfrentamento ao Tráfico Humano”, explicou.

    Os aliados da Igreja

    São diversos grupos dentro da Igreja que trabalham para pôr fim ao tráfico humano. Existe a Rede ‘Um Grito Pela Vida’, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), a Cáritas Brasileira, O serviço Pastoral do Migrante, o Setor da Mobilidade Humana da CNBB entre outros.

    “É importante frisar que a Igreja não faz o combate ao tráfico, isso pertence às forças de segurança do Estado. O trabalho do Estado compreende a prevenção, a repressão e a punição. A Igreja faz o enfrentamento. As principais ações da Igreja, nesse sentido, são a articulação com as diversas forças da sociedade; a capacitação de lideranças para atuarem no enfrentamento ao tráfico de pessoas; e atuar na prevenção, na incidência política e na denúncia. Muitos grupos da Igreja Católica fazem um belíssimo trabalho de acompanhamento às vítimas do tráfico”, advertiu Dom Evaristo.

    Além desses esforços, a CNBB publicou um manual, “Orientações Pastorais sobre o Tráfico de Pessoas”, no qual disseca todo o assunto e o posicionamento cristão nesta batalha contra o tráfico humano. “Convido a todos os cristãos que ainda não sabem como se engajar na luta contra o tráfico de pessoas a conhecerem esse texto. Ele ilumina a ação pastoral da Igreja que se posiciona a favor da liberdade e da vida, com preciosas orientações práticas que podem ser aproveitadas pelos diversos grupos pastorais”, disse Dom Evaristo.

    Mais igualdade social

    Os órgãos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e mesmo a Igreja reconhecem que a desigualdade social é um dos principais fatores que propiciam o tráfico humano. “Com certeza, o alvo preferencial dos traficantes são os mais vulneráveis, entre eles migrantes e pessoas desempregadas”, alerta o religioso. “Sem dúvida, um país e um mundo com maior justiça social, com menos desigualdades, com pessoas estabilizadas, com direito a estudo, trabalho, moradia e renda, faria diminuir esse problema”, reitera.

    Dom Evaristo, porém, afirma que a raiz deste mal é uma só: a busca pelo lucro exacerbado. “Enquanto o mundo deixar-se guiar pelo princípio do lucro e considerar a pessoa humana pelo que possui, sempre haverá aliciadores prometendo vida fácil, riqueza e fama a vítimas inocentes que confiam cegamente em promessas enganadoras. É tempo de a humanidade doente pelo lucro deixar-se curar pela fraternidade e pela solidariedade”, pondera.

    O tráfico humano durante a pandemia

    Ainda não há dados certos a respeito, mas é provável que a pandemia pode ter piorado o tráfico humano. “Ainda não temos os números finais do ano 2020, mas estudos preliminares apontam que com a pandemia do Coronavírus, ao invés de diminuir, aumentou a situação do tráfico no Brasil e no mundo”, lamenta Dom Evaristo. “Muitos países entraram em recessão, milhares de pessoas no mundo estão sem trabalho, fora da escola e sem apoio social. Isso é um indicador de que a situação do tráfico venha piorar ainda mais”.

    O presidente da Comissão Contra o Tráfico assegura que os cuidados da Igreja, especialmente nestes dias pandêmicos, foram redobrados. “A Igreja no Brasil está sendo incansável, durante a pandemia, em apoiar grupos vulneráveis, especialmente contribuindo na segurança alimentar. Contudo é visível em todo o país o aumento da fome, da exploração do trabalho infantil e da exploração sexual. Esses crimes estão naturalizados em nossa sociedade. Fechar os olhos para essa realidade é fechar os olhos para o tráfico humano que decorre deles e persiste como uma atividade crescente e invisível em nosso meio”, finaliza.

    Fonte: Thiago Coutinho para notícias.cancaonova – 8 de fevereiro de 2021.

  • CARTA DO MST AO POVO BRASILEIRO:
    Por mudanças urgentes! Em defesa da vida e da esperança!


    MST aponta lutas para próximo período em defesa da vida e dos direitos do povo brasileiro. Para isso, fora Bolsonaro é urgente e necessário

    Ancoradas e ancorados pela mística rebelde e cultivada com a cultura camponesa, a Coordenação Nacional do MST, no marco dos nossos 37 anos, reuniu-se de forma remota no período de 28 a 30 de janeiro de 2021, contando com cerca de 1000 delegadas e delegados de todo país, com o objetivo de analisar a conjuntura nacional, internacional, nos aprofundar no estudo da questão agrária, projetar a Resistência Ativa e a construção permanente da Reforma Agrária Popular.

    “Sonhamos para além de nós próprios” e dedicamos a nossa formulação e disposição de luta em solidariedade aos familiares das 222.666 pessoas mortas (oficialmente) na pandemia no Brasil. Entendemos, que essas mortes não são apenas causadas pelo vírus, mas é resultado da lógica de um mundo regido pelo neoliberalismo, onde o lucro está acima da vida. E, em meio a corpos em gritos de asfixia, cerca de 2 mil bilionários aumentaram suas fortunas para 12 trilhões de dólares. Apenas com o lucro, em 2020, das dez pessoas mais ricas no mundo, seria possível comprar vacina para toda população mundial.

    Mas, para os povos, a crise do capitalismo tem se agravado. E tem cobrado em destruição da natureza, em empregos e renda, e sobretudo em vidas humanas!  No Brasil, esse cenário se aprofunda sob o comando do governo Bolsonaro, que tem a pior gestão da pandemia no mundo. Chegamos a um cenário onde dos 100 milhões de brasileiros economicamente ativos, 14 milhões estão desempregados, 6 milhões desalentados e 40 milhões de pessoas vivem de “bicos”. São 60 milhões de brasileiros e brasileiras abandonados pelo Estado, expostos à violência e à fome, agravada pelo fim do auxílio emergencial e pela alta no preço dos alimentos. Volta Auxílio Emergencial!!

    A vacinação não está garantida para todos. E isso não é só incompetência, é projeto de morte, de quem despreza a vida do povo brasileiro! A situação de Manaus e de outros estados, sem oxigênio, sem médicos e insumos, é um crime de Estado. Queremos respirar! Vacinação já!! Para todos e todas, gratuita e garantida pelo SUS! Portanto é urgente a revogação da Emenda Constitucional 95, que impôs cortes para a saúde pública e a educação.

    Contudo, sabemos que não será garantido pelo projeto de morte, e o povo brasileiro tem se manifestado em resistência. Já são 66 pedidos de impeachment protocolados no Congresso. Exigimos que o presidente da Câmara respeite a vontade popular e coloque o Impeachment em votação. Jamais esqueceremos os nomes de todas as autoridades que silenciam ou colaboram com o assassino que está no poder. Estamos atentos e exigimos a restituição dos direitos políticos de Lula. E não recuaremos diante das ameaças de rompimento com a democracia.

    O Fora Bolsonaro é urgente e necessário! Não podemos esperar! Chegou a vez do povo! 2021 trouxe um novo clima político protagonizado pelas forças populares e de esquerda, reunidas pela Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, demonstrando que é possível combinar cuidados sanitários com ações simbólicas. Daqui pra frente, não daremos trégua, voltaremos às ruas com nossos carros, bicicletas, carroças e muita indignação. Seguiremos em luta no mês de fevereiro e em março seremos tomados pelos aromas das lutas do 8 de março.

    Portanto, convocamos toda a classe trabalhadora a construir as bandeiras de lutas:
    A luta pela Vacinação Já!  Volta Auxílio Emergencial!  Fora Bolsonaro!

    Exigimos a derrubada dos vetos presidenciais ao auxílio aos povos do campo!
    Denunciarmos que a volta às aulas é crime. Aulas se recuperam, vidas não!
    Defender o SUS e revogar a Emenda Constitucional 95!

    Nesse sentido, nos comprometemos em organizar o Fora Bolsonaro em todos os municípios que temos acampamentos e assentamentos, dialogando com o povo e defendendo a vida, produzindo alimentos saudáveis para amenizar os efeitos da crise junto ao povo, como 4 milhões de quilos de alimentos doados em 2020.

    Seguiremos inspirados no exemplo de Paulo Freire em seu centenário e seguiremos firmes com o seu legado, produzindo alimentos saudáveis, plantando árvores, fazendo formação política, organizando nossa Jornada de Formação e Trabalho de Base e contribuindo com as ações de solidariedade nas periferias urbanas junto com outros movimentos populares e parceiros da nossa luta.

    Reafirmamos a nossa solidariedade com todos os povos em luta no mundo e que estão resistindo à políticas de neocolonialismo, do imperialismo e de aumento da exclusão e da migração forçada. Nos solidarizamos com os povos do campo, das águas e das florestas em luta! Nos somamos à luta contra o racismo, contra a LGBTfobia e contra o patriarcalismo em todo mundo! Prestamos nossa solidariedade aos camponeses e camponesas da Índia que estão em luta há diversas semanas.

    Seguimos na Resistência Ativa, nos nossos territórios enfrentando as políticas de desmonte da reforma agrária e as tentativas de privatização das terras, contra a entrega de 25% de cada município para o capital estrangeiro, a regularização da grilagem e a apropriação dos bens naturais. Denunciamos o modelo do agronegócio e da mineração como grandes culpados da eclosão das pandemias, por seu modelo de destruição das florestas e da biodiversidade, e da produção animal em escala industrial. “Porque lutar para nós é fazer aquilo que o povo quer ver realizado”.

    Seguiremos nos articulando no Brasil e em nível internacional com todas as forças sociais e populares que querem construir uma sociedade baseada na solidariedade, na igualdade e na justiça social. Uma sociedade socialista!

    Vamos à luta com nossas bandeiras!
    Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!

  • A centralidade da pessoa na Economia de Francisco

    Artigo de Fabio Antunes do Nascimento para IHU   27 Janeiro 2021

    O presente trabalho procura reunir elementos acentuados no Magistério do Papa Francisco, em suas intervenções em relação a economia, a política, ao trabalho e aos seres humanos. Consideramos relevante demonstrar como Papa Francisco tem se destacado como líder mundial na perspectiva propositiva, pois em várias áreas científicas temos expoentes que elaboram diagnósticos da realidade econômica mundial, assim como que caracterizam um quadro sempre mais agudo das desigualdades, da pobreza e da exclusão. Contudo, poucos sinalizam propostas alternativas para o modelo vigente, como, por exemplo, as propostas do Papa Francisco que superam o âmbito da Igreja e inspiram toda a humanidade.

    Ao relacionar alguns elementos da economia mundial, a realidade do trabalho e a maneira como a política tem se orientado para o capital, caracterizamos a emergência de repensar a economia, trazendo o ser humano para o centro, como sugere Francisco: dar uma alma para a economia. De modo que esse movimento consistiria em novas relações, novas preocupações e novos valores, nos quais a vida das pessoas e a do planeta são prioridades.

    O presente trabalho quer ajudar a difundir os impulsos inovadores de Francisco, que sonha com a fraternidade universal, com o protagonismo dos jovens, com uma Igreja pobre com e para os pobres e com uma economia a serviço da vida. Daí a iniciativa do encontro em Assis com os jovens do mundo todo:

    É por isso que desejo encontrar-me convosco em Assis: para promover juntos, através de um “pacto” comum, um processo de mudança global que veja em comunhão de intenções não apenas quantos têm o dom da fé, mas todos os homens de boa vontade, para além das diferenças de credo e de nacionalidade, unidos por um ideal de fraternidade atento, acima de tudo, aos pobres e aos excluídos. Convido cada um de vós a ser protagonista deste pacto, assumindo um compromisso individual e coletivo para cultivarmos juntos o sinal de um novo humanismo que corresponda às expectativas do homem e ao desígnio de Deus (Francisco, 2020).

    O lugar do ser humano na economia e no mundo do trabalho

    As mazelas dos sistemas econômicos vigentes no mundo são temas de intermináveis reflexões, bem como, suas origens, seus desenvolvimentos e, de forma especial, suas consequências. Não é a intencionalidade do presente trabalho assomar-se a essa reflexão, já desenvolvida de forma aprofundada e científica por vários teóricos. A intenção é contribuir na difusão do sonho do Papa Francisco de uma nova economia mundial. Trata-se de um sonho, porque mais do que uma teoria, um projeto ou um conjunto de conceitos pré-concebidos, a “Economia de Francisco” [1]é um chamado a toda a humanidade.

    A iniciativa do Papa Francisco não tem um ponto de chegada, mas tem um caminho escolhido: o caminho da inclusão de todos, dos valores da vida e do meio ambiente. Por isso, o convite do Papa para repensar a economia reflete diretamente nas relações de trabalho, ao passo que é, justamente, nesse contexto que devem ser tratadas, bem como assumidas as novidades que têm transformado positivamente o mundo do trabalho. Nesse intuito a abordagem é teológica pastoral do serviço da Igreja no mundo, como serva, luz dos povos.

    Os números sobre o modelo econômico mundial mostram que o abismo entre ricos e pobres é cada vez maior. No Brasil, por exemplo, 06 famílias concentram mais riqueza que a metade da população do país, enquanto que, no mundo 26 famílias concentram mais riquezas que a metade da população mundial mais pobre. Estudiosos como Thomas Piketty [2], demonstram em suas publicações como as grandes fortunas se mantiveram nas mãos de algumas famílias nos últimos séculos e como os que detêm o capital ficam cada vez mais ricos, especialmente, nesse período da pandemia [3]. O desenvolvimento industrial, tecnológico e científico alardeados como motores da superação da desigualdade econômica não cumpriram suas promessas:

    Há regras econômicas que foram eficazes para o crescimento, mas não de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e assim “nascem novas pobrezas”. Quando dizem que o mundo moderno reduziu a pobreza, fazem-no medindo-a com critérios doutros tempos não comparáveis à realidade atual. Pois noutros tempos, por exemplo, não ter acesso à energia elétrica não era considerado um sinal de pobreza nem causava grave incômodo. A pobreza sempre se analisa e compreende no contexto das possibilidades reais dum momento histórico concreto (FRANCISCO 2020, 21).

    era digital tem criado formas de trabalho: umas sofisticadas e rentáveis, que lidam essencialmente com a informação, enquanto que outras são rudimentares e desprovidas de proteção estatal e institucional, por exemplo, os trabalhadores das plataformas de serviços, que conectam consumidores ávidos de produtos, quase que instantâneos, a milhares de trabalhadores que criam uma rede de logística complexa e exigente, desprovidos de proteção legal, com baixíssima remuneração, além de nem considerados trabalhadores formais.

    Segundo Otávio Augusto Cunha, há ainda, um movimento apresentado como empreendedorismo, propagandeado como caminho de oportunidades, que é, na verdade, outro artifício fabricado pelo sistema para potencializar a equação – custo x produção –, diminuindo sempre da parcela de ganho do trabalhador e obtendo lucros maiores. Esse movimento tem colocado mais e mais trabalhadores na informalidade, com o utópico horizonte da riqueza. Porém, estruturalmente, essas ideias vão moldando um modelo de sociedade e de relações que exaltam a competitividade, e a produção, ao mesmo tempo em que alienam no tocante a realidade social e a outras dimensões da vida, como descreve Cunha:

    A exaltação da lógica do empreendedorismo na sociedade atual busca afirmar que, ao exercer essa função, o sujeito está acima das relações das classes sociais. É um discurso perigoso, que se apoia no caráter funcional que esse tipo de exaltação tem para a manutenção da sociedade capitalista e de suas contradições estruturais e irreparáveis. Para os adeptos da solução através do “empreendedorismo”, não importa que se trate de um trabalhador assalariado ou de um capitalista, todos têm que ser educados para exercer a função empreendedora. Para isso, basta ter “força de vontade”, “determinação”, “flexibilidade”, “resiliência”, “proatividade”, “persistência”, “iniciativa” etc. Pois é o sujeito em sua singularidade o único responsável pelo seu sucesso ou o seu fracasso econômico (CUNHA, 2020).

    A propaganda do sistema que gera esses elementos – subempregos e empreendedores– está colapsando, na perspectiva de trabalho e renda para todas as pessoas. A iniciativa da Economia de Francisco, mais do que propor modelos ou programas de renda, apresenta novos princípios. Com efeito, um princípio fundamental é de todos terem acesso a uma renda universal, não como a recompensa por uma tarefa executada, mas por se tratar de um direito básico. Assim, a perspectiva de uma nova economia daria ao trabalho uma nova razão de existir, deixando de ser uma simples engrenagem de manutenção do sistema, para assumir o caráter de direito que a sociedade possibilitaria a todas as pessoas, havendo ou não a remuneração como uma finalidade.

    trabalho é uma engrenagem do sistema econômico, um universo complexo que se move num sentido concêntrico, a semelhança de um buraco negro, que engole tudo ao seu redor. Esse movimento sustenta a pirâmide do capitalismo, no qual ricos tornam-se cada vez mais ricos, sustentados por uma grande base de trabalhadores. É verdade, que a modernidade e as tecnologias trouxeram a impressão de uma certa melhoria nas condições de trabalho, como também, alguns casos, apresentados como símbolos das possibilidades de prosperidade oferecidas no sistema, em que alguns poucos felizardos fazem fortunas, como esportistas, artistas e inventores de APPs.

    Essa revolução anuncia efeitos devastadores sobre o mundo do trabalho, particularmente sobre a estrutura ocupacional. Por ora, percebem-se duas posições em debate: Aqueles que acreditam num final feliz (trabalhadores deslocados pela tecnologia encontrarão novos empregos desencadeados pelas novas tecnologias) e aqueles que veem um processo crescente de destruição de empregos (SANSON, 2020).

    exploração do trabalho não é uma invenção do sistema capitalista. Na história de várias culturas existiram formas de exploração e, até mesmo, de escravidão do trabalho humano. O que acontece no sistema capitalista é que, justamente, a exploração do trabalho como gerador de riqueza é um princípio estruturante do sistema. Especialmente, em nosso tempo se tem percebido que:

    Estão aqui também os autores nacionais como o próprio Ricardo Antunes, Marcio Pochmann, Márcia Paula Leite, Dari Krein, Giovanni AlvesJosé Ricardo RamalhoMarco Aurélio Santana, Roberto Véras, entre outros. Todos eles acentuam a ofensiva do capital frente ao trabalho, manifesta no trinômio flexilibilização, terceirização e precarização chancelada pelo Estado subordinado aos interesses do capital (SANSON, 2017).

    Do modo que se dão as relações de trabalho no mundo vemos uma política orientada para lógica econômica, na qual a geração do lucro para os que detêm o capital é a prioridade. Por sua vez, o Papa Francisco tem exortado a humanidade à superação do paradigma tecnocrático e capitalista:

    Gostaria de insistir que “a política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia”. Embora se deva rejeitar o mau uso do poder, a corrupção, a falta de respeito das leis e a ineficiência, “não se pode justificar uma economia sem política, porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspectos da crise atual”. Pelo contrário, “precisamos duma política que pense com visão ampla e leve por diante uma reformulação integral, abrangendo num diálogo interdisciplinar os vários aspectos da crise”. Penso numa “política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, que permitam superar pressões e inércias viciosas”. Não se pode pedir isto à economia, nem aceitar que ela assuma o poder real do Estado (FRANCISCO, 2020, 177).

    Nessa perspectiva, Papa Francisco convoca o mundo a um pacto por uma nova economia, isto é, uma economia orientada pela política da promoção e do cuidado da vida em todo o planeta. Na concepção do Papa “é necessário fazer crescer não só uma espiritualidade da fraternidade, mas também, e ao mesmo tempo, uma organização mundial mais eficiente para ajudar a resolver os problemas prementes dos abandonados que sofrem e morrem nos países pobres” (FRANCISCO, 2020, 165). A nova economia é uma resposta de fé que encarna o Evangelho nas estruturas sociais do mundo e vê no rosto dos pobres o rosto de Cristo.

    Destarte, no mundo do trabalho vive-se um desencanto porque as promessas da modernidade de que os desenvolvimentos tecnológicos e econômicos trariam o bem estar social para todas as pessoas não se comprovaram. A modernidade sinalizava trabalhos que fossem mais leves e melhores remunerados. Todavia, o que se vive e/ou se assiste na prática é um abismo crescente nas condições de trabalho no mundo. Por um lado, enquanto cresce a realidade do trabalho em tarefas cada vez mais especializadas e técnicas com remunerações exorbitantes, por outro aumenta a precarização dos trabalhos mais elementares, marginalizados e excluídos do sistema, da técnica e da informação, ou seja, elementos básicos da chamada quarta revolução industrial, como aponta a Organização Internacional do Trabalho (OIT):

    No final do século XVIII a primeira revolução industrial marcou a transição da produção manual para a mecanizada com o uso da energia a vapor. A segunda, em meados do século XIX, trouxe a eletricidade e com ela, a manufatura em massa. A terceira ocorreu em meados do século XX com a chegada da eletrônica e da tecnologia da informação. Atualmente a chamada “quarta revolução industrial” é marcada pela automação, robotização e produção das fábricas com grande independência do trabalho humano combinadas com a utilização de serviços através de aplicativos, softwares, plataformas digitais e armazenamentos de dados em massa (OIT, ?, 19).

    O avanço tecnológico e as riquezas produzidas na sociedade não significam necessariamente a superação das desigualdades, em especial ao que se refere a trabalho e renda. “O mundo avançava implacavelmente para uma economia que, utilizando os progressos tecnológicos, procurava reduzir os “custos humanos” (FRANCISCO,2020, 33). A superação do paradigma tecnocrático e do capital exige que a vida de todas as pessoas e de todo o planeta sejam a prioridade para qual se ordena a política e a economia. Construir uma nova ordem econômica é, antes de tudo, garantir a maior riqueza possível: que todos “tenham vida e, vida em abundância” (cf. Jo 10,10).

    mercantilização do trabalho gera o que o marxismo denomina alienação, que não deve ser compreendida na dimensão social e política, mas, em última instância, como alienação humana. Não obstante, no modelo econômico atual a renda é compreendida como uma recompensa pela produção que a pessoa é capaz de gerar, de modo que, o conceito conhecido como o “sonho americano” ilustra a ideia do sistema capitalista no qual todos têm a mesma oportunidade de prosperar, de construir patrimônio e de enriquecer. Mas, na realidade, a simples competição não garante a justiça e a igualdade, pois a competição pelas melhores recompensas nem sempre parte das mesmas condições para todas as pessoas. São muitas as condicionantes que determinam o sucesso econômico de uma seleta quantidade de pessoas e a grande maioria da população que luta pela simples subsistência.

    Nesse sentido, esse modelo, além de valorar de forma muito seletiva o trabalho de uns poucos e depreciar o trabalho da grande maioria dos trabalhadores, é insuficiente para oferecer trabalho para todas as pessoas, já que um dos pressupostos do sistema é a competitividade pelos postos de trabalho e a massa sobrante de trabalhadores, que alimenta a competitividade, e que, sobretudo, assegura a oferta que barateia a mão de obra. Somada a chamada revolução 4.0 o horizonte do trabalho tende a agravar sensivelmente a precarização, e, por conseguinte, os trabalhadores conseguirão cada vez menos ingressar no modelo de trabalho formal. Logo, menos pessoas poderão contar com uma remuneração estável.

    A proposta de Francisco

    O Papa Francisco nesses sete anos de pontificado conquistou um posto de liderança mundial. Num contexto de nações que se aproximaram de regimes de extrema direita, nacionalismospreconceitos, migrações, conflitos violentos e crises sanitárias e econômicas o Papa tem se destacado como o líder capaz de dar voz aos sensatos. Assim, bem mais que reformas eclesiais, Francisco tem protagonizado iniciativas de reformas culturais e políticas em âmbito global, ao passo que e é nesse contexto que se insere o evento “Economia de Francisco” cuja proposta é criar um pacto global, em vista de uma nova economia, como conclamou o Papa:

    Escrevo-vos a fim de vos convidar para uma iniciativa que desejei muito: um evento que me permita encontrar-me com quantos estão a formar-se e começam a estudar e a pôr em prática uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta. Um acontecimento que nos ajude a estar unidos, a conhecer-nos uns aos outros, e que nos leve a estabelecer um “pacto” para mudar a economia atual e atribuir uma alma à economia de amanhã (FRANCISCO, 2020).

    Dar uma alma para a economia é o desejo do Papa ao provocar os jovens do mundo todo a construir um pacto por uma nova economia. Segundo Francisco “é preciso corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, e equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das gerações vindouras” (FRANCISCO, 2020). A consciência planetária de Francisco reconhece que o modelo da economia mundial agride esses valores fundamentais. Em sua concepção a economia deve estar a serviço da política que promove a vida e o planeta.

    Igreja, ao longo da história, participou de momentos decisivos da humanidade, tais como, as grandes revoluções e o desenvolvimento cultural, intelectual e político, mesmo que, algumas vezes, essa participação tenha sido de oposição e contestação. Destarte, o fato é que o pensamento social da Igreja alcança repercussão na sociedade. E, é nesse sentido, que a proposta do Papa Francisco para construir um novo modelo econômico sugere uma alternativa ao sistema atual. Na perspectiva da sinodalidade, que Francisco busca para a Igreja, ele propõe o debate sobre a economia sem apresentar, ele mesmo, uma proposta pronta, ao contrário, expõe princípios sobre os quais tal economia deve ser construída, especialmente, pelos jovens.

    Assim sendo, a convocação do Papa Francisco aos jovens do mundo inteiro, em Assis, Itália, começa a ganhar a atenção, não só da Igreja e nem só dos jovens, mas também de grandes líderes, países, empresas e religiões. Tal iniciativa do Papa trata-se de uma porta que se abre. Mais que apresentar respostas, a iniciativa do Papa parece ter a força de catalisar a insatisfação de muitos seguimentos da sociedade, que não acreditam que simples reparos ou reformas, no modelo econômico atual, sejam suficientes para superar a crescente desigualdade entre ricos e pobres. De Assis, o Papa Francisco sonha em impulsionar uma economia, baseada na sobriedade, na integração com o meio ambiente, que promova os pobres e que seja geradora de vida a todas as pessoas e ao planeta.

    Francisco não propõe um novo modelo econômico, mas propõe que um novo modelo econômico seja construído pelos jovens, com o objetivo de promover a vida e a casa comum, ao invés do lucro e do capital. Já existem várias iniciativas de grupos no mundo, associações, cooperativas e pessoas que apresentam novas formas de trabalho, voltadas à realização da vida, à produção orgânica, ao extrativismo, à produção sustentável e às novas formas de consumo, de produção e de remuneração. Compartilhar essas experiências, conectar ações, promover trocas, priorizar a partilha e a diversidade sinalizam, sem dúvidas, uma alternativa para o capitalismo globalizante, que padroniza, massifica e produz o círculo vicioso do consumo.

    Já na encíclica “Laudato Si” o Papa aponta a necessidade de uma nova maneira de se relacionar com a criação que, consequentemente, também ser refere às relações de trabalho. A perspectiva do Papa é a do valor da vida e da criação sobre a do capital, “a realidade social do mundo atual exige que, acima dos limitados interesses das empresas e duma discutível racionalidade econômica, “se continue a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos” (Francisco, 2015, 127). O trabalho é concebido como participação humanas nos projetos de Deus da criação e de salvação.

    O modelo econômico capitalista tem gerado inúmeras consequências destrutivas para a vida humana e a todas as formas de vida do planeta. A revolução 4.0 [4] diminui as possibilidades de empregos formais, os detentores do capital militam junto aos governos dos países pela flexibilização e extinção dos direitos dos trabalhadores a pretextos de gerar mais empregos, milhares de trabalhadores são empurrados para a informalidade e a propaganda oficial do sistema enaltece o empreendedorismo e a criatividade competitiva como caminhos para prosperidade, gerando precarização e novas formas de escravidão no trabalho.

    Em diversas partes do mundo surgem iniciativas reivindicando uma nova orientação para o trabalho e para a economia como, por exemplo, a mobilização global que questiona o modelo das plataformas digitais dos aplicativos de serviços. Como a ação de “milhares de trabalhadores organizados nessas associações vão sair às ruas para realizar manifestações, reuniões e paralisações de trabalho exigindo o fim da exploração da economia de plataforma e que os direitos básicos dos trabalhadores sejam protegidos” (El SALTO, 2020).

    O Papa aponta para um estilo de vida mais sóbrio, para superar a cultura do consumo e do descartável. Francisco, de quem se espera uma reforma da Cúria Romana e no interior da Igreja, tem se destacado com líder mundial capaz de apresentar pautas importantes para a humanidade, não apenas para a Igreja. Denunciando, dialogando e propondo caminhos o Papa tem tocado em temas sensíveis a todos os habitantes do planeta: sobre os refugiados, as vítimas dos conflitos, os pobres, a fome entre outros. Sempre indo ao encontro de todos. Além disso, tem dialogado com líderes políticos e religiosos. Ele tem proposto, especialmente, pelo exemplo, uma fraternidade mundial, um Pacto Global pela Educação, o Dia Mundial do Pobre, o Sínodo da Amazônia e a iniciativa da Economia de Francisco e Clara.

    Ao propor o encontro de Assis, Francisco sugere a busca de uma alternativa, jovial e criativa, para superar o que ele tem qualificado de economia sem alma. O sistema econômico predominante no mundo tem fragilizado cada vez mais a condição dos trabalhadores, com empregos com remuneração cada vez menor, a extinção de postos de trabalho e o empobrecimento dos trabalhadores em detrimentos dos detentores do capital. O Papa defende que a humanidade precisa mudar a finalidade da economia, colocando o ser humano e o planeta no centro da economia. Francisco acredita que isso pode dar alma a economia.

    O vida e o trabalho sempre estiveram no centro das preocupações da Igreja, daí a preocupação de Francisco com os rumos da economia mundial que instrumentaliza e exclui as pessoas em detrimento aos lucros e ao capital:

    Somos chamados ao trabalho desde a nossa criação. Não se deve procurar que o progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo assim, a humanidade prejudicar-se-ia a si mesma. O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal. Neste sentido, ajudar os pobres com o dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho. Mas a orientação da economia favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas. É mais um exemplo de como a ação do homem se pode voltar contra si mesmo. A diminuição dos postos de trabalho “tem também um impacto negativo no plano económico com a progressiva corrosão do ‘capital social’, isto é, daquele conjunto de relações de confiança, de credibilidade, de respeito das regras, indispensável em qualquer convivência civil”. Em suma, “os custos humanos são sempre também custos económicos, e as disfunções econômicas acarretam sempre também custos humanos”. Renunciar a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade (FRANCISCO, 2015, 128).

    O Papa Francisco sugere que a humanidade assuma o compromisso de uma renda universal. Não é uma ideia originalmente do papa, mas em muitos lugares do mundo alguns teóricos já propuseram projetos dessa conotação. No Brasil há décadas o líder político e social, Eduardo Suplicy, milita defendendo o projeto por ele intitulado renda mínima. Vários países já esboçaram projetos de transferência de renda como o bolsa família no Brasil, porém é a Finlândia o primeiro país a adotar um compromisso de uma renda universal para todos os seus cidadãos.

    Nesse sentido, o Papa tem procurado sensibilizar os líderes políticos e econômicos mundiais da necessidade de um programa de renda universal, para que todas as pessoas tenham acesso aos serviços essenciais, não como uma recompensa, mas como um direito. Esse fundamento não se baseia na recompensa do trabalho de alguém para a geração de riquezas, mas de que todos dispomos das riquezas naturais, dom de Deus, e temos o mesmo direito de usufruir desse dom. É uma profunda inversão do conceito de remuneração reconhecendo que a intervenção do homem na natureza pelo trabalho gera riquezas, mas existe uma riqueza natural, suficiente e patrimônio universal, que todas as pessoas do planeta deveriam ter o direito de usufruir.

    Considerações Finais

    Como no sínodo da Amazônia, em que o Papa Francisco propõe sonhos para a Casa Comum, o movimento por uma nova economia é um sonho que vai se materializando à medida em que mais pessoas vão assumindo os valores da vida e do Evangelho. As mudanças começam por iniciativas e, sem dúvidas, o que faz Francisco é um passo que congrega várias iniciativas alternativas pelo mundo e impulsionadora de muitas outras.

    Alguns temas são basilares para a alma da nova economia sonhada por Francisco, a saber: centralidade da vida e da casa comum; a inclusão de todos no mundo do trabalho; renda universal. Em todo caso, quando afirma que a economia está em função da política, Francisco aponta que a política é arte do cuidado da vida e do planeta. Portanto, uma autêntica economia é aquela que está a serviço dessas prioridades.

    Ademais, a inclusão de todos é outra perspectiva elementar. Na lógica capitalista só há lugar para os melhores, aos mais produtivos e aos mais lucrativos. Entretanto, esse paradigma precisa ser superado por um modelo que inclua a todos, ou seja, no qual o trabalho não seja, exclusivamente, uma engrenagem do sistema, mas um direito de todas as pessoas. Somos chamados a compreender esse direito ao trabalho como algo construtivo do ser humano, assim como, também da espiritualidade cristã:

    Qualquer forma de trabalho pressupõe uma concepção sobre a relação que o ser humano pode ou deve estabelecer com o outro diverso de si mesmo. A espiritualidade cristã, a par da admiração contemplativa das criaturas que encontramos em São Francisco de Assis, desenvolveu também uma rica e sadia compreensão do trabalho, como podemos encontrar, por exemplo, na vida do Beato Carlos de Foucauld e seus discípulos (FRANCISCO, 2015, 125).

    Outra ideia clara no pensamento do Papa Francisco é o direito de uma renda universal, no sentido oposto da lógica da economia mundial, em que o salário é uma recompensa pela produtividade. Por fim, uma economia com alma deve fazer com que todas as conquistas da economia e das ciências possam ser acessíveis a todas as pessoas: “Talvez seja a hora de pensar em um salário universal que reconheça e dignifique as tarefas nobres e insubstituíveis que vocês realizam; capaz de garantir e tornar realidade esse slogan tão humano e cristão: nenhum trabalhador sem direitos” (FRANCISCO, 2020).

    Notas

    [1] Economia de Francisco: O Papa Francisco lançou esse convite aos jovens empreendedores do mundo todo para pensarem modelos alternativos de economia. O encontro foi inicialmente marcado para março de 2020, mas no contexto da pandemia, foi adiado para novembro do mesmo ano. A carta convocatória pode ser acessada, em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2019/documents/papa-francesco_20190501_giovani-imprenditori.html >. Acesso em 01 de maio 2019.
    [2] Thomas Piketty é um economista francês que se tornou figura de destaque internacional com seu livro “O Capital no século XXI” (2013). Sua obra mostra que, nos países desenvolvidos, a taxa de acumulação de renda é maior do que as taxas de crescimento econômico. Segundo Piketty, tal tendência é uma ameaça à democracia e deve ser combatida através da taxação de fortunas. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Piketty>. Acesso em 13 de nov. 2020.
    [3] Carta Capital: “A desigualdade já estava aumentando e a Covid acelerou um processo que já vinha acontecendo no mundo todo. Os bilionários ficaram mais ricos ainda e, do outro lado, temos uma parcela da população que estava relativamente sob controle – embora sempre estivesse sob o risco de exclusão social – e agora, efetivamente, caiu”, comenta. “São pessoas que entraram em uma situação de altíssima vulnerabilidade”. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/por-que-ricos-ficaram-mais-ricos-e-pobreza-explodiu-na-pandemia/ . Acesso em 13 de nov. 2020.
    [4] Indústria 4.0 ou Quarta Revolução Industrial é uma expressão que engloba algumas tecnologias para automação e troca de dados e utiliza conceitos de Sistemas ciber-físicos, Internet das Coisas e Computação em Nuvem. A Indústria 4.0 facilita a visão e execução de “Fábricas Inteligentes” com as suas estruturas modulares, os sistemas ciber-físicos monitoram os processos físicos, criam uma cópia virtual do mundo físico e tomam decisões descentralizadas. Com a internet das coisas, os sistemas ciber-físicos comunicam e cooperam entre si e com os humanos em tempo real, e através da computação em nuvem, ambos os serviços internos e intraorganizacionais são oferecidos e utilizados pelos participantes da cadeia de valor. Estas novas tecnologias trazem inúmeras oportunidades para a agregação de valor aos clientes e aumento de produtividade de processos, mas sem o enfoque adequado podem desperdiçar grandes investimentos, com poucos resultados. Em: Wikipédia enciclopédia livrept <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%BAstria_4.0#:~:text=Ind%C3%BAstria%204.0%20ou%20Quarta%20Revolu%C3%A7%C3%A3o,Coisas%20e%20Computa%C3%A7%C3%A3o%20em%20Nuvem.> Acesso em 1 dez. 2020.

    Referências

    CUNHA, Otávio Augusto. Sujeito empreendedor, alienado e servil. Disponível em:< http://www.ihu.unisinos.br/603564-sujeito-empreendedor-alienado-e-servil >. Acesso 14 out. 2020.
    CUNHA, Otávio Augusto. Sujeito empreendedor, alienado e servil. Disponível em: < http://www.ihu.unisinos.br/603564-sujeito-empreendedor-alienado-e-servil>. Acesso 27 out. 2020.
    FRANCISCO, Papa. CARTA DO PAPA FRANCISCO AOS MOVIMENTOS POPULARES. Disponível em:< http://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2020/documents/papa-francesco_20200412_lettera-movimentipopolari.html>. Acesso 19 nov. 2020.
    FRANCISCO, Papa. CARTA DO PAPA FRANCISCO PARA O EVENTO “ECONOMY OF FRANCESCO”. Disponível em:< http://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2019/documents/papa-francesco_20190501_giovani-imprenditori.html>. Acesso 19 nov. 2020.
    FRANCISCO, Papa. FRATELLI TUTTI: CARTA ENCÍCLICA SOBRE A FRATERNIDADE E A AMIZADE SOCIAL. Disponível em: <http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html>. Acesso 26 out. 2020.
    FRANCISCO, Papa. LAUDATO SI, SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM. Disponível em: <http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html >. Acesso 19 nov. 2020.
    ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Futuro do trabalho no Brasil. Perspectivas e diálogos tripartites. Disponível em: https://www.ilo.org/brasilia/publicacoes/WCMS_626908/lang–pt/index.htm. Acesso 14 out. 2020.
    RÊGO BARRETO, Helena Martins do. Uma política de renda justa é necessária para enfrentar os efeitos da reestruturação produtiva. Disponível em: < http://www.ihu.unisinos.br/603301-uma-politica-de-renda-justa-e-necessaria-para-enfrentar-os-efeitos-da-reestruturacao-produtiva-entrevista-especial-com-helena-martins>. Acesso 26 out. 2020.
    SANSON, Cesar. A revolução 4.0 e a uberização anunciam efeitos devastadores no mundo do trabalho. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/603353-a-revolucao-4-0-e-a-uberizacao-anunciam-efeitos-devastadores-no-mundo-do-trabalho>. Acesso 26 out. 2020.
    SANSON, Cesar. Debate teórico sobre o lugar do trabalho na sociedade contemporânea. Disponível em: < http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/570888-debate-teorico-sobre-o-lugar-do-trabalho-na-sociedade-contemporanea-em-edicao >. Acesso 27 out. 2020.

    Notas

    [1] Arruda, Marcos, 2009, “Educação para uma Economia do Amor”, Editora Ideias e Letras, São Paulo: 164;
    [2] http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/589076-economia-de-francisco-assis-26-28-de-marco-de-2020-mensagem-do-papa-francisco-para-o-evento
    [3] Arruda, Marcos, 2019, “Vivendo o Futuro no Presente: Notas de Viagem ao Butão, Laos e Vietnã”, http://pacs.org.br/?p=6842 (e-livro).
    [4] Razeto, Luis M., 2018 – La Crisis de la Civilización Moderna y la Creación de una Nueva Civilización, monografia, Santiago, Chile.
    [5] Fernando Huanacuni, 2015, “Vivir Bien/Buen Vivir – Filosofía, Políticas, Estrategias y Experiencias de los Pueblos Ancestrales”, CAOI, Coordinadora Andina de Organizaciones Indígenas. La Paz, Bolivia.
    [6] Euclides Mance, 2017, “Buen Vivir y Economía Solidaria”, monografia, IFIL.

     

    Fabio Antunes do Nascimento é professor da Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande, MS, graduado em Teologia pelo Instituto Teológico João Paulo II, possui Mestrado em Teologia Pastoral pelo CEBITEPAL – Bogotá, Colombia e é doutorando em Teologia pelo CEBITEPAL – Bogotá, Colombia.

     

  • Stédile analisa a conjuntura e convoca uma grande Frente Popular em defesa das bandeiras populares

    João Pedro Stédile, em artigo publicado no site Poder 360, faz um balanço do ano 2020 e convoca uma grande Frente Popular reunindo as forças sociais na luta por bandeiras prioritárias como: vacina já, pública e para todos. Auxílio Emergencial até o final da pandemia. Exigir um plano nacional de emprego. Lutar pelo “Fora Bolsonaro”. Aprovar a taxação dos mais ricos. Lutar contra as privatizações. Lutar contra o racismo e a violência contra as mulheres.

    Protesto do Coletivo Alvorada de BH, da Frente Brasil Popular, no Rio de Janeiro, em outubro de 2020. Imagem publicada por Poder360

    Em defesa da frente popular contra crise e efeitos da pandemia, por Stedile

    Por João Pedro Stédile – 10.jan.2021 – in: https://www.poder360.com.br/opiniao/brasil

    O ano de 2020 ficou marcado por 3 fatos principais que trouxeram enormes consequências para a vida de nosso povo: a crise econômica capitalista, a disseminação da covid-19 e o impacto sobre a sociedade e o comportamento de um governo insano e genocida, com seus métodos fascistas de governar para uma minoria de apoiadores fanáticos.

    A crise capitalista instalada em todo mundo desde 2008 se agravou no Brasil a partir de 2014. Desde então, o quadro tem deteriorado ainda mais com as medidas neoliberais que só protegem o capital financeiro e as corporações internacionais.

    No ano passado, o PIB brasileiro caiu 5%; a taxa de investimentos produtivos para alavancar o crescimento da economia caiu para 15,4% (já tivemos 21% em 2013 e, nos anos dourados, chegou a 30%).

    Até o capital estrangeiro se deu conta. A fuga de investidores estrangeiros da bolsa de valores brasileira representou R$ 87,5 bilhões, quase o dobro da saída de 2019, que foi de R$ 45 bilhões. E os indicadores da indústria assustam ainda mais, com a queda para 11% do PIB (em 2004, representava 18%). Nenhum país se desenvolve sem uma indústria forte.

    Na agricultura, o modelo do agronegócio se mantém predominante e crescente, porém produz apenas commodities para exportação, deixando em segundo plano a garantia de alimentos de qualidade e a preço justo para o mercado interno. Hoje 80% de nossas terras e forças produtivas agrícolas estão voltadas apenas para produzir soja, milho, cana, algodão e pecuária extensiva.

    As corporações transnacionais que controlam os insumos e os grandes proprietários de terra ganham muito dinheiro. Mas a sociedade e a economia como um todo, não. Sem contar que ainda estamos em uma etapa pré-Estado moderno. Os ruralistas se negam a pagar impostos sobre exportação (protegidos pela Lei Kandir, aprovada pelo governo FHC) e se negam a pagar ICMS sobre os agrotóxicos e outros produtos, como se viu agora em São Paulo. Ou seja, é o rentismo agrícola, utilizando nossos recursos naturais, a infraestrutura e a logística sem dar contribuição para o Estado, para os serviços públicos e para o conjunto da sociedade.

    Na Argentina, para dar uma dimensão, soja paga 35% de impostos sobre exportações, e os recursos vão direto para programas sociais de distribuição de renda. Ou seja, a renda extraordinária do boom dos preços internacionais das commodities e da alta do dólar é repartida entre todos os cidadãos.

    O agronegócio exerceu sua força e influência no governo e tratou de tirar proveito. Liberaram mais de 300 novos tipos de agrotóxicos, que matam a biodiversidade, contaminam as águas e os alimentos e provocam doenças, enfermidades e até câncer, de acordo com estudos científicos. Tudo isso vai no caminho inverso do progresso. A Europa proíbe a prática da pulverização aérea de venenos e deu prazo de tempo para tirar o mercado a substância do glifosato. No México, o governo acaba de decretar que em 3 anos deve eliminar os agrotóxicos e as sementes transgênicas da sua agricultura.

    Não bastasse o modelo concentrador de renda do agronegócio, o latifúndio atrasado, predador e que não produz nada voltou com toda força e apoio do governo.

    Os latifundiários, atrasados na sua forma de acumulação primitiva, são alavancados pelo capital financeiro e, com isso, buscam se apropriar dos bens da natureza (terras públicas, minérios, biodiversidade, florestas, água e até o oxigênio das florestas) para vendê-los como crédito de carbono.

    Essa sanha de acumulação máxima com os bens da natureza acontece em detrimento das necessidades de todo o povo. Essa política ficou famosa na expressão “É hora de passar a boiada!”, ou seja, se apropriar de tudo o que puderem, em quanto der tempo…

    O resultado escancarou as consequências para toda a sociedade. Nunca tivemos tantas queimadas. Não apenas no bioma da Amazônia, mas também no Pantanal e no Cerrado. As alterações climáticas são perceptíveis a qualquer cidadão. Até em São paulo, nossa maior metrópole, a população sofre com chuvas irregulares e com a noite no meio do dia causada pela fumaça das queimadas no centro-oeste e no norte do país.

    Nenhuma área indígena e quilombola foi regularizada nos últimos quatro anos. Nunca tivemos tantas invasões de fazendeiros em suas áreas. Mais de 20 mil garimpeiros foram estimulados e estão protegidos explorando minérios em áreas indígenas. A violência contra esses brasileiros tem alcançado índices inaceitáveis.

    O Estado e o governo abandonaram também todas as políticas de estímulo à produção de alimentos e de atenção à chamada agricultura familiar e camponesa, que produz para o abastecimento do mercado interno. Não há mais assistência técnica, programas de habitação rural nem programa de compra de alimentos.

    Os ruralistas que ocupam o governo se orgulham de dizer que enterraram a reforma agrária, uma política de Estado prevista na Constituição de 1988 como forma de garantir o direito ao trabalho nas terras. Foi justamente para isso que o latifúndio e o agronegócio elegeram esse governo. Faz sentido!

    PANDEMIA E CONDIÇÕES DE VIDA

    Não bastasse os resultados na economia, provocadas pela crise capitalista e por uma política econômica ultraneoliberal, tivemos então a pandemia do coronavírus. Um inimigo invisível e mortal atingiu a mais de 8 milhões de brasileiros e levou para o cemitério ao redor de 200 mil pessoas, de todas as idades e classes sociais. Até médicos, enfermeiros e pessoas que atuavam ajudando os outros pagaram esse alto preço.

    Esse inimigo comum não foi contido pela falta de um governo federal com representatividade, capacidade e moral para coordenar as ações contra a expansão da pandemia. Ficou aquém também a compreensão da sociedade em relação à necessidade de atuar de forma coletiva para enfrentar essa guerra.

    Outros países organizaram a sociedade de forma diferente, priorizaram o combate unitário ao inimigo e obtiveram resultados mais positivos. No Vietnã, por exemplo, morreram menos de 100 pessoas. Na Indonésia, país com mais de 280 milhões de habitantes, três mil pessoas perderam a vida.

    Aqui, o Estado e o governo se aliaram ao inimigo. Dentro da sociedade, lamentavelmente, prevaleceram atitudes oportunistas que mantiveram em circulação vetores de contaminação do vírus.

    O povo trabalhador jogado à sua própria sorte tem que abandonar os cuidados e buscar formas de sobrevivência na rua. O auxílio emergencial de R$ 600, proposto pela oposição e efetivado por iniciativa do Congresso Nacional, agora está encerrado. Os resultados dessa politica insana e genocida não aparecem só nos mortos, mas também em todos indicadores sociais das condições de vida da população.

    O Brasil está entre os 83 países com piores condições de vida da população, mesmo sendo a 13ª economia do mundo. Somos junto com a  África do Sul o pior país em desigualdade social. Terminamos o ano com 14% de desemprego, que mede apenas quem procura trabalho. Temos 60 milhões de trabalhadores adultos, à margem da economia e dos direitos sociais. É um Brasil rejeitado, mantido à margem pelo Estado excludente e por uma burguesia burra e estúpida que não pensa a Nação.

    Nunca tivemos tanta violência urbana. Nunca tivemos tanto ódio e racismo. A violência contra as mulheres, dentro de casa. Os casos de feminicídio chegaram a um patamar alarmante, praticados também por senhores brancos “de bem”, endinheirados, que roubaram a vida de suas ex-companheiras em todas as classes sociais.

    A fome afeta 12 milhões de brasileiros; outros 20% se alimentam aquém das necessidades. A inflação dos alimentos varia entre 20% e 80% de acordo com o produto, afetando os mais pobres. O programa Minha Casa Minha Vida foi interrompido.

    Cerca de 60 países já estão vacinando sua população, enquanto por aqui o ministro da Saúde deve estar estudando geografia para descobrir aonde passa a linha do Equador…

    UM GOVERNO INSANO E GENOCIDA

    A cada dia fica mais evidente a natureza do governo Bolsonaro, que se converteu em insano e genocida, nefasto ao povo brasileiro e para a democracia. A opinião de alguns ex-ministros como o General Santos Cruz, o dr. Henrique Mandetta e o consultor Sérgio Moro, que conhecem bem a casa por dentro, é suficiente para entender de que gente se trata essa que está mandando no Brasil.

    É positivo que mais vozes agora se levantem contra o governo nos jornais e tevês, que antes o apoiaram, e até entre intelectuais que haviam pedido voto. A pergunta que todos estão se fazendo é de onde vem a força política que sustenta Bolsonaro.

    Não se pode simplificar à tutela militar, pois apesar dos 6.157 oficiais das três armas estarem presentes no governo, parece se tratar de oportunismos pessoais para abocanhar pequenos privilégios e melhorar a carreira.

    O ministro da Defesa não se cansa de alertar que as Forças Armadas não participam do governo, que são apenas instrumentos de Estado. O desempenho profissional pífio nas funções administrativas dos militares, inclusive, deve envergonhar todos, em especial o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. Espero que algum dia o general Villas Boas peça desculpas de público pela arapuca que armou contra todo o povo, que só ele e o capitão sabem…

    É certo que parte da burguesia, com seus banqueiros e corporações transnacionais, continua apostando no plano de Paulo Guedes, sedentos por mais privatizações, como da Eletrobras, Correios e Caixa.

    O governo não tem projeto de nação e não tem hegemonia ideológica e política na sociedade. Teve um resultado negativo nas eleições municipais, nas quais todos os que se identificaram com o bolsonarismo perderam.

    Não há nada que demonstre que as ideias neofascistas sejam majoritárias na sociedade. Ao contrário, seus discursos, teses e exemplos são defendidos apenas por fanáticos, que não devem ser mais que 10%, como existem em toda a sociedade.

    Então, os fatos mais recentes nos fazem mudar a pergunta e, em vez de perguntar quem o sustenta, devemos nos questionar até quando aguentaremos tamanha incompetência e insanidade…

    PERSPECTIVAS PARA 2021

    Diante dessa realidade tão dura, que tem custado tantas vidas, tanto sacrifício e levado ao desânimo o nosso povo, as saídas não são simples e não se resumem ao curto prazo.

    Há uma missão permanente da natureza de nosso trabalho, nos movimentos populares, que nos impõe a tarefa de organizar de todas as formas possíveis a classe trabalhadora. Sobretudo, aquele contingente do “Brasil rejeitado” de 60 milhões de adultos abandonados à sua própria sorte, sem emprego, renda e futuro.

    Sabemos que sua maioria é de mulheres, chefes de família, jovens, negros e que moram nas periferias das cidades. Precisamos organizá-los para que lutem na defesa de seus direitos e conquistem soluções para seus problemas.

    Defendemos a construção imediata de uma Frente Popular, que reúna os movimentos populares que integram a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, centrais sindicais, partidos políticos, movimento interreligiosos, as entidades civis, coletivos de juventude, os artistas e os intelectuais.

    A construção dessa frente em torno da defesa de medidas urgentes e dos interesses populares deve girar em torno de uma pauta unitária, que está em debate em diversos espaços com os seguintes pontos:

    1. Lutar pela vacina já, pública e para todos os brasileiros, de forma urgente e prioritária, fortalecendo o SUS com os recursos necessários.
    2. Garantir a manutenção do Auxílio Emergencial até o final da crise da pandemia do coronavírus.
    3. Garantir o abastecimento e o acesso a alimentos saudáveis, com preços controlados.
    4. Exigir um plano nacional de emprego para enfrentar a pandemia do desemprego.
    5. Lutar pelo “Fora Bolsonaro”. Esse governo não tem as mínimas condições para enfrentar os problemas nacionais. Há mais de 50 pedidos de impedimento dormindo na Câmara dos Deputados.
    6. Aprovar a taxação dos mais ricos, começando pelos 88 bilionários que enriqueceram na pandemia. Regulamentação da taxação de lucros e dividendos, grandes fortunas, heranças e movimentações dos bancos. Revogar a Lei Kandir. Acabar com a isenção fiscal que desviou R$ 457 bilhões dos cofres públicos em 2020, segundo a Unafisco.
    7. Lutar contra as privatizações e defender a Eletrobras, os Correios, a Caixa, o Serpro, a Petrobras e as terras (que o governo e ruralistas querem entregar 25% de cada município ao capital estrangeiro).
    8. Lutar contra o racismo e qualquer violência contra as mulheres.

    Esse programa mínimo é um ponto de partida para que os movimentos populares, centrais sindicais, entidades da sociedade, partidos e as diferentes formas de organização da sociedade façam o debate para que possamos construir a unidade mais ampla em torno de uma plataforma popular.

    A consolidação dessa unidade depende da luta social de massas em torno dessa plataforma, o que só vira depois da vacina. Mas virá. E o aumento dos problemas sociais aumentarão as contradições e os conflitos sociais, que eclodirão em algum momento, queiram os governantes ou não.

    É evidente que a recomposição democrática das nossas instituições implica também passar a limpo as falcatruas que vem desde golpe ilegítimo contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016.

    Os direitos sociais, trabalhistas e previdenciários assegurados na Constituinte devem ser recompostos, assim como a politica externa soberana. A perseguição ao presidente Lula pela quadrilha de Curitiba, o assassinato da vereadora Marielle Franco e o esquema de desvio de recursos públicos das “rachadinhas” precisam de resposta.

    No médio prazo, precisamos construir um novo projeto de pais. Um projeto de Nação, que reorganize a nossa economia com base na produção na  indústria e na agricultura para garantir os bens, o trabalho e a renda para todo o povo brasileiro.

    Um projeto fundado na universalização dos direitos a educação, saúde, terra, moradia digna e de cultura. Só um projeto que combata a desigualdade social poderá construir uma sociedade mais  justa, com igualdade e harmonia.

    As eleições de 2022 são uma etapa nesse processo para congregar as forças políticas em torno desse novo projeto, que precisa construir uma maioria popular nas instâncias do Estado. Por isso, o debate não pode se limitar a disputas menores de nomes e partidos. Se não construirmos essas alternativas, certamente a crise se aprofundará e terá um custo cada vez maior para o nosso povo.

     

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