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2020: um ano que não foi… 2021 será?
Por Jorge Alexandre Alves

 

Já estamos em um novo ano, mas parece que o velho ainda não acabou. 2021 começa dando a impressão que continuaremos vivendo as tragédias de 2020. Na iminência de alcançarmos 200 mil mortes nesta pandemia, parece que a dor de tantas famílias continua a ser solenemente ignoradas. Para estes, 2020 representou uma profunda marca causada pelas dolorosas perdas.

A economia arruinada, um governo que destrói o Estado brasileiro dia após dia e a pandemia de COVID-19 avança sem dar sinais de retrocesso. Boa parte da população parece ter se cansado das medidas de proteção contra o vírus e se jogou de cabeça em confraternizações, festas e aglomerações. Parece que os laços sociais se dissolveram por completo, o que talvez explique o comportamento de tantos.

No plano pessoal, mais e mais pessoas próximas e queridas foram contaminadas pelo coronavírus. Referências e figuras importantes morrem e nos deixam órfãos. Entes queridos de amigos e companheiros de luta perdem suas pessoas amadas. Olhar para frente e fazer planos para o ano que começa se torna um exercício de fantasia.

Ao mesmo tempo parece que o fundamentalismo religioso avança e reforça a negação e a oposição às medidas de saúde necessárias nesse momento. Falsos demônios são exorcizados em nome de um deus que se alimenta da morte e do caos social. Até o Papa Francisco – o único estadista em escala mundial – sofre ataques diuturnamente.

Não temos o menor sinal de que a economia será reorganizada em função das necessidades dos mais pobres e dos que mais precisam. O presidente da República se apequena cada vez mais no cargo e parece sabotar qualquer possibilidade do Brasil vencer a pandemia. Mais que isso, foi capaz de afirmar que o país está quebrado e nada pode fazer.

Aliás, uma coisa ele faz: transfere suas responsabilidades para terceiros, subterfúgio para disfarçar a inércia do governo no combate da pandemia. Fica-se com a impressão que uma verdadeira campanha de vacinação somente ocorrerá se beneficiar politicamente apenas o sujeito que hoje ocupa o Palácio do Planalto. Ele comete crimes de responsabilidade cotidianamente, mas as instituições brasileiras estão de joelhos, fingindo que nada acontece diante do descalabro que hoje desgraça este país.

Hoje a população assiste o mundo começar a se vacinar, enquanto ficamos na incerteza. Pior que assistir nossos vizinhos – com economias menos poderosas que a nossa – adquirir vacinas e começar a imunizar seus cidadãos, é sequer saber quando começaremos de fato a ser vacinados. A verdade é que hoje não há como sequer garantir que a nossa gente brasileira será imunizada contra a Covid-19 em 2021.

Para tornar o cenário mais trágico ainda, a ANVISA acena com a possibilidade de autorizar a importação das vacinas pelas clínicas particulares de imunização antes mesmo da campanha pública de vacinação. Essa iniciativa, se concretizada, pode ser reveladora das intenções do governo. Evidentemente, esse tipo de medida, com um governo que pouco se importa com a classe trabalhadora, não deveria causar surpresa.

Entretanto, tal possibilidade é muito sórdida, para dizer o mínimo. Quando a sociedade brasileira começou a discutir a questão da vacinação, certamente muitos de nós tivemos dificuldades em imaginar indivíduos oriundos das famílias mais ricas em uma fila de imunização em um posto de saúde. Temos uma história escravocrata que nos levou a uma das maiores desigualdades sociais do mundo, produziu o racismo estrutural e uma elite que se vê como uma aristocracia.

Nesse contexto, é realmente difícil pensar que os do “andar de cima” iriam sequer cogitar se misturar com o povão do qual essa gente se acha dona. Se ter pessoas mais humildes frequentando aeroportos para andar de avião causou reclamações em rede social, que dirá a possibilidade de reunir alguém que mora em uma cobertura em Ipanema ou nos Jardins na mesma fila de um morador de uma favela? Mas a sordidez da venda de vacinas não está apenas no elitismo de nossa classe dirigente.

Além de imunizar a classe A de forma asséptica, sem causar o incômodo de misturá-los com os demais estratos sociais, a vacinação dos ricos (que podem pagar caro pelo imunizante) poderá beneficiar o governo. Ora, a elite brasileira vacinada significa uma pressão muito menor sobre o presidente brasileiro. Se os donos do poder e do dinheiro não correm mais riscos, a saúde do restante da população vira tema secundário, como tem sido regra nos últimos anos.

Os miseráveis, pobres e parcela dos segmentos médios já vêm sendo oprimidos de diversas formas há tempos e não se vislumbra mudanças nesse cenário. Se os que detém o capital puderem pagar pela sua vacinação, em breve pressionarão o país para que a economia volte a funcionar de forma irrestrita. Neste cenário, pouco importará se as condições sanitárias serão ou não boas e se trabalhadores e trabalhadoras estarão mais ou menos expostos ao vírus.

Parte dessa mesma elite foi às ruas em apoio ao presidente e exigir a reabertura do comércio, oito meses atrás. Foi constrangedor ver aqueles automóveis luxuosos e caros nas carretas em várias cidades do país, exigindo a volta das atividades comerciais. Chantagearam os trabalhadores: ou perderiam seus empregos ou arriscariam a vida nas aglomerações do transporte público.

De certa forma, foi o que vimos durante toda a pandemia, em nome da salvação da economia. Fingiu-se que os tão falados protocolos funcionavam quando apenas valiam no papel. E testemunhamos como as autoridades capitularam diante das mais variadas formas de aglomeração. Em muitos lugares, viveu-se uma quarentena de araque.

Barbaridades foram cometidas em nome da economia e da suposta saúde mental de parcela da população. Expusemos professores em nome de salvar o ano letivo de crianças e jovens. Qual foi o resultado? Teremos condições seguras para retomar as aulas presenciais ao final do mês?

Enfim, a sensação que se tem é de total abandono. Ao que parece, mais do que nunca estamos por nossa própria conta. Temos a difícil missão de espalhar solidariedade e empatia em cenário tão adverso e com tanta gente pouco se importando com a sociedade.

Como fazer isso? Achar essa resposta será crucial para que 2021 não seja outro ano que não foi, como ocorreu com 2020. Ao mesmo tempo, embora não tenha sido, as vezes parece que 2020 ainda não acabou…

*Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor e faz parte do Movimento Fé e Política.

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