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Reunião da Rede Oikosnet América Latina

O Iser Assessoria faz parte de Oikosnet AL, rede regional para a América Latina, mas que tem também uma dimensão internacional. É uma rede ecumênica de centros de formação e educação, que se coloca como “um espaço de encontro, articulação e intercâmbio, contribuindo para a construção de sociedades fundadas em relações de justiça, solidariedade, participação e inclusão das diversidades na América Latina e Caribe”.

O Encontro que se realiza a cada dois anos é um momento rico de reflexão e de intercâmbio. O XV Encontro/Assembléia da Rede acaba de realizar-se em Lima, Peru, de 13 a 17 de outubro, com o tema “Ecumenismo, Espiritualidade e Práticas”. Como representante do Iser Assessoria, gostaria de partilhar alguns dos temas debatidos.

O encontro iniciou-se com a questão da espiritualidade, entendida como experiência de Deus ou, nas palavras de Maria José Coran – religiosa que vive perto do Lago Titicaca, em uma aldeia quéchua – como vida aberta ao Espírito / Ruah ou ainda como consciência de estar na presença do Mistério, segundo Luis Dietricht. Esta espiritualidade é algo que se vive no cotidiano, na busca de construir a própria identidade, de descobrir-se como ser humano. A busca se amplia quando se coloca também na perspectiva ecumênica, no descobrimento solidário com o/a outro/a. Na América indígena, isto significa pensar a relação com a Mãe-Terra , Pacha-Mama, que é um projeto de fraternidade. A terra não é Deus, é uma criatura, mas é também criadora de Vida. E esta concepção da terra como a Grande Mãe nos irmana, e pode ser incluída no projeto de construção do Reino, como dom e como graça no meio de nós.

Em um segundo momento, discutimos a questão dos “povos originários”, que já habitam estas terras há 5.000 anos e cuja cultura hoje começa a ser valorizada – depois de longos séculos de discriminação – no reconhecimento de uma realidade pluricultural. É este um processo longo e complexo, sobretudo quando o conceito de territorialidade – defendido pelos movimentos indígenas, incluindo não só a posse da terra mas também as formas culturais de apropriar-se da mesma – se confronta, como vem sucedendo hoje na região amazônica, com projetos de desenvolvimento e de aproveitamento de recursos naturais (petróleo, minérios, água – as hidrelétricas!). Neste contexto, a (difícil) construção de consensos é um processo permanente…

O reconhecimento e o respeito pelo outro estão na base também do debate sobre ecumenismo, que constituiu o tema seguinte. Este supõe resgatar a memória histórica e reconhecer a contribuição das gerações anteriores, mas sem perder o enfoque crítico: diante de certo “refluxo” do ecumenismo hoje, há uma tendência a compará-lo com o que foi nos anos 70 e 80, em circunstâncias diversas e focar-se em uma dimensão institucional; hoje talvez seja mais importante ver o que sucede nas bases, avaliando o que é realmente “resgatável” do modelo anterior, diante de um contexto de mudanças extremamente rápido.

Neste sentido, a presença de vários jovens, na reunião, contribuiu para criar um clima de diálogo inter-geracional muito rico. Além disso, contribuindo para afirmar a diversidade, estava a riqueza de uma rede que é latino-americana. Havia 19 centros representados, significando a presença de uma dezena de países: Peru, Cuba, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Colômbia, Equador, Argentina, Chile e Brasil. (Não se chegou à diversidade de idiomas – o espanhol era absolutamente dominante – mas conseguimos, em um dos devocionais, cantar uma música das CEBs em português…) Enfim, o encontro foi uma experiência rica e aberta a novos desdobramentos.
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Lucia Ribeiro

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