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Quem tem medo das eleições

Por: Ivo Lesbaupin, sociólogo, Iser Assessoria - 19/09/2018

Primeiro, o incêndio no Museu Nacional, depois o atentado contra o candidato Jair Bolsonaro, em seguida as falas dos generais ameaçando uma intervenção militar, o grupo “Mulheres unidas contra Bolsonaro” no facebook atingindo 2 milhões e 500 mil seguidoras, o ataque contra o grupo chegando até a tirá-lo do ar e as ameaças contra as organizadoras do grupo.

Estamos a vinte dias do primeiro turno das eleições e há quem queira determinar o resultado eleitoral em lugar do voto popular. Como Lula está fora da disputa, o candidato que lidera as pesquisas é o capitão, seguido pelo indicado por Lula e os demais. A partir do seu leito no hospital, o candidato ameaça não reconhecer a legitimidade das eleições se não vencer. O comandante do Exército, Villas Boas, afirma que o reconhecimento do resultado depende de quem for eleito. O general Mourão, vice na chapa do capitão, levanta a possibilidade de um “autogolpe” e não denunciou o ataque ao grupo do facebook como um atentado à democracia, ao contrário.

O que se pode dizer neste momento é que a crença na democracia não é unânime por parte de algumas lideranças políticas e autoridades. O receio destes setores é o voto livre das cidadãs e cidadãos: a maioria dos eleitores pode não votar como “deveria”, pode escolher o candidato “errado”. O medo destes setores são as eleições. Até agora, para estes setores, ia tudo bem: com a contribuição de parte do Judiciário e do Congresso, a presidente (do PT) foi afastada por impeachment, o ex-presidente Lula (do PT) foi condenado, preso e proibido de se candidatar. Mas o pleito eleitoral pode levar o indicado por Lula ao governo. Isto não estava previsto – por eles. Afinal, o golpe de 2016 visava afastar o PT do poder, de uma vez por todas.

Se a maioria da população quer Lula é porque não aceitou o golpe, não aceitou o afastamento da presidente, não aceitou a condenação e prisão de seu líder, não aceitou a narrativa que a grande mídia quis impor. As pessoas que querem votar em Lula ou em seu indicado não acham que o governo Lula foi isento de erros, acham que provavelmente houve algum tipo de corrupção, mas não acham que isso é suficiente para impedi-lo de se candidatar. Afinal, há inúmeros corruptos soltos: Temer, Aécio, Romero Jucá, para citar apenas alguns. Sobre estes, há provas concretas, gravações. No entanto, a Justiça não impede Aécio de se candidatar. Por que só Lula? Há quatro anos a mídia diz que Lula é culpado e a maioria não engoliu este discurso. Também no exterior: jornais renomados de outros países questionam a prisão de Lula. Muitos juristas, do Brasil e de outros países, colocam em dúvida a regularidade do processo.

Na democracia, é assim: as decisões são tomadas pelos cidadãos e cidadãs, observando-se a regra da maioria e respeitando os direitos da minoria. O voto popular é sagrado. A condição para qualquer democracia funcionar é o respeito ao resultado eleitoral. Ele tem de ser respeitado ao fim, mas também durante o processo: para a eleição ser legítima, os candidatos devem se respeitar uns aos outros e a disputa deve ser limpa, sem golpes baixos, sem destruição do material de propaganda dos adversários, sem mentiras (agora chamadas de notícias falsas, fake news). Se um candidato necessita de divulgar notícias falsas, é porque tem medo da verdade e não acredita na sua capacidade de convencer os eleitores.

 

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