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JUNTANDO OS CACOS E APRENDENDO DURAS LIÇÕES

Por Jorge Alexandre Alves

À primeira parcial da apuração dos votos do segundo turno se seguiu uma estrondosa comemoração dos eleitores de Bolsonaro. Quando veio a confirmação da vitória, outra explosão de comemoração. Maior e mais intensa até do que as da Copa do Mundo.

Eu fiquei estático diante daquele espetáculo indescritível. Imóvel, não me vinham forças que me fizessem chorar ou sentir raiva. Chocado, me vi impávido acerca do que acontecia.

A cabeça fervilhava. Pesava. Acho que tive outro pico de pressão alta. Comecei a olhar as reações das pessoas nas redes sociais e na internet. Em casa, o ambiente era muito triste. Até Isabel veio me abraçar, aflita. Cláudia estava desolada. Mais do que eu, acho que ela tinha grande esperança na vitória de Haddad.

Recorri às palavras para acalentar o coração e confortar os meus. Vi coisas muito bonitas. Uma solidariedade comovente. “Ninguém larga a mão e ninguém”. A esperança não veio nem virou alegria e alívio. Mas o fio de esperança por dias melhores estava lá.

Os discursos apenas confirmaram algo que eu mesmo disse durante todo esse ano: Que eles fariam tudo que estavam dizendo, para nosso espanto. A presença da bíblia e da constituição revelavam que aquele primeiro pronunciamento era uma grande farsa. Nos anúncios de hoje, a farsa se confirma.

A oração de um senador evangélico e da bancada da bala (Magno Malta) que até recentemente aparecia abraçado com Lula e com Dilma reforçava a sensação de estar vendo um picadeiro pelo computador. Ainda mais com aquela gente bizarra ao fundo. Aquele era um cenário digno de um circo dos horrores.

Depois começam a pipocar, imagens, prints, vídeos não dos políticos vencedores, mas de eleitores. Toda a sorte de barbaridades. A partir de então o que se sucedeu não foi a legítima comemoração de quem vê na vitória de seu candidato a chance de tornar seu país melhor.

Longe disso, o que tivemos foi a manifestação do pior que nós somos como povo. Foi uma sucessão de ameaças, provocações e ataques. Grupos nas ruas ameaçando gays, declarando morte aos negros e comunistas. Em Copacabana a população de rua foi ameaçada por grupos de valentões. Ou desaparecem do bairro, ou serão “desaparecidas” a partir de Janeiro.

Na segunda, os ataques continuaram. Pelas redes sociais, por vídeos. Um colega meu foi agredido em Vila Isabel por causa de sua opção afetiva. Isso sem contar as piadas de mau-gosto e os absurdos ditos na van, no ônibus, no metrô, no trem…

O que tivemos foi um acerto de contas, uma vingança. Esse lado arrivista de nosso povo eu desconhecia. Um sentimento de revanche que ajudou a retirar todos os esqueletos mais perversos dos armários. Triste, muito triste.

Passada meia semana da eleição, eu ainda não consegui chorar. E acho que nem vou mais. Estou seco, chapado, morgado diante desse cenário triste. Eu não tenho medo do que virá, nem sinto ódio pelas pessoas que fizeram isso. Mas sinto uma profunda tristeza.

Estou muito triste por perceber o quanto o ódio pode cegar as pessoas. E por constatar o quanto somos capazes de ser selvagens e intolerantes. Dói saber que – apesar de nem todo eleitor de Bolsonaro ser fascista, muito pelo contrário – existe tanto ressentimento gratuito, tanto desprezo pelas vidas de pessoas como nós. De nossa própria gente.

Os recalcados têm sangue nos olhos. E estão ao nosso lado. Pode ser um parente, um vizinho, a mãe de um coleguinha de nossas crianças, um docente que acusa seus pares de doutrinar alunos, um colega que acha que tudo que tem é somente fruto de esforço pessoal. Quem garante que o ressentimento deles não se voltará diretamente para mim ou para alguém como eu? O ódio desse povo os tornou capazes de qualquer atrocidade…

Também estou muito preocupado com o futuro. Quando tudo parecia se encaminhar para uma vida tranquila e próspera, vem uma hecatombe e torna tudo nebuloso e indefinido. Meu projeto de vida parece se desmoronar na minha frente. E sem que eu tivesse culpa alguma nisso.

Haverá carreira no magistério para mim? Nesse Brasil de Bolsonaro terá espaço para aulas de Sociologia na escola básica? Além do chicote em nossas garantias básicas, haverá liberdade em sala de aula? Tenho a sensação de que seremos sufocados, silenciados, isolados. Devastador, não?

E as condições de aposentadoria? Como será a vida de nossos filhos? Entrarão em um mercado de trabalho sem nenhum direito? Aliás, terão empregos de fato para eles? O que se desenha em economia é desalentador para mim. Fico imaginando quando os mais pobres se derem conta disso… Não tenho medo, mas estou muito preocupado.

Mas estranhamente eu me mantenho sereno. Sem medo nem desespero. Não são boas companhias nesse momento em que a lucidez é artigo raro e bem precioso. Acho que é a perspectiva do inevitável que precisa, deve ser enfrentado.

Claro que vamos resistir. Claro que precisamos ser fortes, estarmos de mãos dadas. Façamos a resistência por amor ao Brasil e por solidariedade aos nossos. Isso tudo é fundamental. A luta será dura, a vitória é algo distante.

Afinal, “verás que um filho teu não foge a luta”, não é mesmo? Mas isso tudo dói. Dói demais saber que estamos entrando em um novo mundo em que a solidariedade e a empatia foram tragados pelo fundamentalismo religioso, pela fé no mercado e pela mediocridade de tantos.

Que as mãos dadas de vocês, os ideais que nos unem e a solidariedade forjada na dor deste momento me ajudem a caminhar, guiado pelo fio que se mantém contra toda desesperança. Seguimos!

*Jorge Alexandre Alves é um vivente agarrado a um fio de esperança

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