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Enfrentando o dilema: Interromper ou não a gravidez?

Lucia Ribeiro

Os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres sempre foram abordados de forma “partidarizada” e marginalizando-os, sobretudo a temática de aborto.  Neste ano em que tivemos eleições presidenciais e o pleito teve como eleito Jair Bolsonaro, extremamente conservador e com postura preconceituosa, o tema voltou a ser assunto. Somou-se ao cenário político eleitoral, a audiência no Supremo Tribunal Federal, realizada no dia 06 de agosto, sobre a descriminalização das mulheres até os três meses de gestação. A ação foi movida pelo PSOL.

O Avanço religioso neopetencostal na política tem influenciado drasticamente as políticas de direitos humanos. A sociedade insiste em debater o tema do aborto pelo viés religioso, e não pela saúde pública. Enquanto isso, milhares de mulheres morrem no país, em especial mulheres negras e de periferias vítimas de abortos realizados em clínicas clandestinas. Num país onde os abortos (abandonos) paternos acontecem com uma frequência enorme, é necessário debater a questão do aborto com mais respeito às mulheres e menos interferência religiosa, respeitando a democracia e o estado laico.

Lúcia Ribeiro nos proporciona uma bela reflexão sobre essa temática. Leia o texto na íntegra:

Interromper ou não a gravidez?
“Preciso demais conversar com você; pode ser ainda hoje?” A voz de Madalena, angustiada, no telefone, não pressagiava nada tranquilo. E não admitia recusas. Nos encontramos à noite, em casa;apesar de toda a tensão do período pós-golpe no Chile, nos anos 70,  havia um clima de  tranquilidade e aconchego, só nós duas na sala, os meninos  assistindo TV no quarto de cima.

Madalena estava nervosa, e despejou tudo de uma vez:

Fui ao meu ginecologista para uma consulta de rotina, e ele garantiu que eu não estava no período fértil. Com um ciclo tão irregular como o meu e nos tempos complicados que estamos vivendo andávamos em pleno deserto, meu companheiro e eu; desde o golpe, por mais de 2 meses, a gente não conseguiu ter relações. E aí, quando o ginecologista deu luz verde, é claro que aproveitamos…Só  que acabo de averiguar, hoje, que foi um erro médico.

– Como assim? Erro médico?

É, o diagnóstico dele estava errado. Minhas regras atrasaram e acabei tomando coragem e indo fazer o exame. Acabo de receber o resultado: estou grávida!

– Grávida? Não é possível…

Nos abraçamos, chorando, as duas, por um longo momento. Só depois, mais calma, consegui formular a pergunta inevitável:

E aí o que é que você vai fazer?

– Ainda não sei. Mas quero que você me ajude a pensar.

Na realidade, desde o golpe militar, que não fazíamos outra coisa, sem saber como seria o futuro.  Não tínhamos, nenhuma das duas, condições de voltar ao Brasil naquele momento e ainda não sabíamos para onde ir. Ela e seu companheiro tinham contatos na França e estavam tentando articular algo por lá, mas ainda não havia nada certo. Além disto, tinham dois filhos pequenos – 2 e 5 anos – que ainda exigiam muito. Neste contexto, pensar em uma gravidez parecia loucura…

E foi então que ela me surpreendeu:

– O que é que você acha da gente interromper o processo?

Custei a acreditar: será que ela realmente estava pensando nesta alternativa?

Como interromper?

– E como continuar?

Só então conseguimos, as duas, enfrentar  concretamente  a questão da interrupção da gravidez. Por que já vínhamos discutindo muito a própria maternidade: era claro, para nós, que esta não podia ser encarada como uma mera imposição fisiológica; tinha que ser uma opção livre, que admitisse as duas possibilidades: querer ou não querer ter mais um filho. Optar por qualquer das duas era um direito, garantindo nossa liberdade. Isto, para nós, justificava plenamente o uso da contracepção.

A diferença é que esta se dava antes da fecundação. Será que depois do processo iniciado, ainda teríamos este direito?

Eu sabia perfeitamente o que significava uma gravidez não-planejada : tendo vivido esta experiência mais de uma vez, tinha uma consciência crescentemente clara da violência que implicava aceitar em seu próprio corpo, contra a sua vontade, um processo vital que teria consequências para o resto da vida. Mas confesso que na hora levei um susto com a proposta de Madalena: na época o tema ainda era cercado de tabus e preconceitos. Por mais que eu tentasse me liberar, sentia que tentáculos e cordões me atavam, em uma rede de silêncios e temores.

Madalena estava muito insegura: via claro que não tinha condições, naquele momento, de assumir mais um filho; mas não ousava – ainda não! – interromper a gravidez. Felizmente, contava com um companheiro que, surpreendentemente, desde o início, a apoiou. Mas era ela que, em ultima análise, tinha que tomar a decisão. E para tanto era indispensável digerir e amadurecer a questão.

Isto representou horas e horas de conversas entre nós, vivendo a cumplicidade da condição feminina. Não nos sentíamos em condições de conversar abertamente sobre o tema com mais ninguém. Pouco a pouco, Madalena foi identificando seu espaço de liberdade e seu direito a escolher /construir o próprio caminho: anteriormente, já tinha aberto mão de muita coisa, para assumir os dois  filhos. Agora, não era apenas sua vida pessoal que estava em jogo: vivia um momento de extrema insegurança, sem poder esperar nada da situação social e política no Chile e sem saber ainda para onde ir e o que fazer. Percebeu, finalmente, que não tinha força nem condições para assumir tudo.

Entretanto, antes de tomar a decisão definitiva, foi conversar com um sacerdote amigo. E este – felizmente! – ajudou-a a ver claro, reconhecendo, nesta etapa inicial da gravidez e dentro do seu contexto específico, seu espaço de liberdade e seu direito a decidir. Foi então que Madalena optou por interromper a gravidez.

A decisão representou um enorme sofrimento e uma inevitável sensação de perda. Mas ao mesmo tempo ela estava serena, certa de que era o que lhe tocava fazer, naquele momento, por mais obscuro e difícil que o quadro pudesse se apresentar. Tenho certeza de que não se arrependeu.Vivenciou como nunca antes a possibilidade de assumir integralmente sua liberdade como pessoa humana, para decidir, sem pré-condições, se queria ou não aceitar a maternidade.

Acompanhar a experiência de Madalena representou, para mim, um processo de amadurecimento pessoal e de repensar posições. É verdade que este foi também condicionado por um contexto de profundas mudanças sociais e culturais. Não por acaso, aconteceu logo depois dos eventos de 68. Do ponto de vista do comportamento sexual, tenho a sensação de que, para mim, seus efeitos chegaram tarde, “perdi o trem”; mas já no campo dos direitos reprodutivos, havia um clima difuso de questionamento e de abertura que me ajudou a apoiar a decisão de Madalena, compreendendo melhor a complexidade da temática. Porque são duas vidas que estão em jogo e ninguém pode afirmar se, antes da formação do córtex cerebral, o embrião pode ser considerado integralmente uma pessoa humana. Neste sentido, a interrupção voluntária da gravidez, mesmo sendo um mal, pode, em certas situações extremas, considerar-se um “mal menor”. E,portanto, pode ser legitimamente escolhida.

Reconheço, entretanto, que, até hoje, ainda há um muro de silêncio e de preconceito que impede as mulheres não só de tomar esta decisão mas até mesmo de falar a respeito: ao passar por este dilema dilacerante, raramente encontram espaço para ouvi-las. Abrir este espaço me parece talvez a necessidade mais urgente, e daí a relevância de uma descriminalização imediata. Porque é indispensável discutir e analisar cada caso, com suas especificidades, para poder optar livre e conscientemente pela interrupção – ou não!- da gravidez.

 

 

 

                                         Rio, setembro de 2018

 

 

 

 

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