Artigo

  • Quando a economia faz pacto com o diabo: dá nisso!

    Depois de ter privatizado tudo, e extinto o direito a ter direitos, o Chile enfrenta uma rebelião popular. A gota d’água foi um aumento da passagem. Não obstante, em editorial de 22.10.2019 o Globo afirma, no título, que na origem da revolta está “a ineficiência estatal”.
    Publicamos artigo de Flávio Aguiar – Rede Brasil Atual – 23/10/2019

    Foto: Cleber de Oliveira/Futura Press/folhapress) em RBA.

    Neoliberalismo é religião. E da pior espécie, a messiânica

    O neoliberalismo faz água e pega fogo (milagre!) no mundo inteiro, mas nada disto demove seus sacerdotes em seus mantras e mandingas que só produzem desgraças.

    Em matéria de movimentos religiosos há dois movimentos tectônicos, isto é, profundos, que de vez em quando afloram: o profético e o messiânico.

    O movimento profético, em geral, é mais progressista: olha para o futuro. Os profetas bíblicos não praticavam as artes da adivinhação. Mais corretamente, praticavam a advertência e a previsão. Pode-se resumir muito de seus escritos (a eles atribuídos) a uma fórmula mais ou menos assim: “olhem para o mal que estão fazendo; e se assim continuarem, vejam no que vai dar”. São reformadores sociais, Isaías à frente, que condena aquele que não ouve o pranto e a queixa do órfão ou da viúva, símbolos do abandono.

    Já o movimento messiânico olha para o futuro mirando um espelho retrovisor. Quer reinstalar um paraíso perdido e, ao não conseguir seu intento, atribui a falha à falta de fé suficiente por parte dos praticantes, vendo no fracasso o sinal de que novas tentativas são necessárias para trazer de volta o reino de Deus. Os poderes da restauração se concentram num enviado que, de fracasso em fracasso, vai se reencarnando em novas versões que protagonizam estas novas tentativas.

    O neoliberalismo e seus crentes agem desta segunda forma. Só que neste mundo laico da política moderna, a tradicional figura do messias é substituída ou pelo menos acompanhada pelos sacerdotes – economistas – que repetem à exaustão as fórmulas fracassadas. E fazem seus crentes carentes acreditarem que estão no rumo certo, graças à fé que têm em suas fórmulas cabalísticas.

    O neoliberalismo faz água e pega fogo (milagre!) no mundo inteiro. Afogou e incendiou o Chile, o Equador, o Haiti, está incendiando o Líbano, devastou grande parte da África, mergulhou o México e a Argentina em crise após crise e vai imbecilizando os Estados Unidos do Alaska ao Rio Grande (Bravo, para os mexicanos), além de ter fraturado a Europa, levado o Reino Unido ao impasse do Brexit e a este “buraco sem fundo” chamado Boris Johnson.

    Mas nada disto demove os sacerdotes da fé neoliberal em seus mantras e suas mandingas que só produzem desgraças. Permanecem eles surdos – confirmando o anátema de Isaías – aos queixumes do povo que vão torturando com suas austeridades que não levam a lugar nenhum, somente ao arrocho das vidas dos cidadãos e cidadãs comuns, abrindo a ferro e fogo suas mentes para os algoritmos da enganação.

    Há assim um traço profundo de união entre neoliberalismo e este neo-pentecostalismo que grassa no Brasil e nos Estados Unidos, além de alhures, estas religiões do sucesso barato e imediato das rezas repetidas à exaustão mental dos que nelas crêem. Ninguém reproduz melhor esta imagem do que a trindade que tomou conta do espaço federal brasileiro: Messias – Guedes – Moro, com sua corte de apóstolos que reúne desde o maçônico Mourão ao prestidigitador da destruição do meio ambiente, o ministro Salles, e a milagreira Damares, a menina da goiabeira ardente. E muitos e muitas outras.

    Nunca um governo foi tão inepto, nunca um governo produziu tão pouco – ou tão nada – em matéria de medidas efetivas e eficazes para combater a crise que vivemos. Nem na República Velha, nem na Ditadura de 64, nem mesmo nas Capitanias Hereditárias.

    Apontem-me algo de bom que este governo tenha produzido nestes dez meses de desastres e perversidade contínuas que eu fecharei este blogue para sempre.

    Messianicamente o governo vive numa bolha passadista, requentando imagens da Guerra Fria para alimentar a fé de seus correligionários mais empedernidos; ou fica repetindo a reza da Reforma da Previdência, enquanto estende uma cortina de fumaça (o termo é adequado) sobre o que acontece no vizinho Chile e na vizinha Argentina.

    Ao mesmo tempo, assopra as velas de réquiem, pensando que são brasas, da finada Operação Lava-Jato que, como um zumbi, vai continuar a nos aterrorizar com suas assombrações por muito tempo, mas já é letra-morta.

    Atenção: como costuma acontecer com os movimentos messiânicos, eles só se consumam e se consomem pelo desastre catastrófico a que levam. Teremos, depois, de reerguer o país das cinzas. Literalmente.

  • A ESCALADA DO EXTREMISMO CATÓLICO: O ÚLTIMO SUSPIRO?

     

    Muito já foi dito e escrito sobre a oposição ao Papa Francisco e as tentativas de sabotagem de seu pontificado. Na Europa, nos Estados Unidos e mesmo aqui no Brasil temos variadas análises. O antagonismo ao pontífice e a seu magistério talvez ocorra em níveis inéditos na história contemporânea da Igreja.

    O estilo, as opções e as críticas daquele que veio “fim do mundo” causaram grande impacto internacional desde que o cardeal Jorge Mario Bergoglio foi eleito para a sé petrina. Simplicidade no vestir-se, contundente crítica ao clericalismo, coragem ao enfrentar os problemas da Igreja. O próprio nome adotado – Francisco – traduz um projeto eclesial, que dentre muitas novidades, se conecta direta com o magistério de João XXIII e com o Concílio Vaticano II.

    O Bispo de Roma recolocou de forma positiva o catolicismo na cena pública por causa dos seus posicionamentos sobre o meio-ambiente, a questão da imigração e os efeitos perversos do capital em escala global. Isso não apagou os pecados católicos – sobretudo na questão dos abusos sexuais. Contudo, ressignificou a presença do catolicismo que, através da voz do sucessor de Pedro, voltou a ser considerado um interlocutor relevante.

    Dessa forma, a postura corajosa de Francisco causou muito mais do que incômodos. Uma oposição agressiva e desonesta se formou, dentro e fora dos muros eclesiais. Aqueles atingidos pelas críticas de Bergoglio, que inicialmentefaziam uma oposição velada, partiram para o confronto explícito, atacando publicamente o Papa.

    Na medida em que Francisco foi implementando a sua agenda de reformas para a Igreja, tais setores foram se tornando cada vez mais ostensivos. Ameaçados em seu status, presos a formalismos canônicos e muito preocupados com rigorismos litúrgicos, estes segmentos entendem a Igreja como um castelo com altas muralhas, isolado de tudo o que o cerca. No caso, as grandes questões humanas atuais.

    Ao mesmo tempo, cinicamente fazem questão de ignorar as mazelas socioambientais causadas pelo grande capital. Candidamente ignoram de forma consciente os efeitos desastrosos do avanço ultraliberal nos dias atuais que desumaniza milhões pelo mundo afora. Ao contrário, se unem aos grandes donos do poder financeiro mundial no esforço de desestabilização do pontificado de Francisco.

    Dessa forma, o que temos é o descompasso entre um Papa que está no século XXI atento às dores e sofrimentos do mundo atual; e frações católicas cada vez mais presas a um passado triunfalista e distante da pregação evangélica de Jesus de Nazaré sobre o Reino de Deus. É desse nicho eclesial que saem as hordas que compõem o fundamentalismo católico.

    Trata-se de um contingente quese porta como se a Barca de Pedro ainda fosse conduzida por Ratzinger ou Wojtyla. Alguns extremistas mais exaltados misturam o uso ágil das redes sociais com uma mentalidade reacionária e desconectada da realidade. Nutrem uma visão de mundo equivalente a uma época anterior ao Concílio Vaticano II, situada quem sabe no século XIX ou talvezaté no período do Concílio de Trento.

    Para eles, a necessidade de um aggiornamento proposta mais de 50 anos atrás por São João XXIII seria herética ou “coisa de comunista”. A Igreja, para estes, não é Povo Deus, mas sim uma entidade autorreferencial preocupada em manter seu prestígio social. Assim, vivem fechados em si mesmos e em seu mundanismo espiritual.

    Por isso, lutam com a ferocidade de um cruzado medieval contra mudanças fundamentais e necessárias para a vida da Igreja. Agem contra o Papa em nome de um triunfalismo estéril imerso no extremismo que alimenta a doença do clericalismo. E se aproxima dos poderosos, ignorando os pequenos.

    Isso explica porque o extremismo católico hoje se une carnalmente à extrema-direita em toda a parte. O magistério de Francisco representa um enorme perigo a essa gente, temerosa em perder seus privilégios. Dentro e fora da Igreja, aqueles que desejam manter seu status quo sabem que o Papa que veio do fim do mundo ameaça seus interesses.

    Portanto, não medem esforços em desacreditar o Pontífice Romano diante da opinião pública internacional. E, desencadeando uma campanha odiosa para silenciar o único estadista de nossa época, pretendem bloquear a agenda de reformas do Papa. Pretendem inviabilizar este pontificado, e conforme muitos vaticanistas e religiosos vêm denunciando, desejam pautar a eleição do sucessor de Francisco

    Aqui no Brasil, não é diferente. Basta acompanhar o estilo violento e inquisitorial que norteia a conduta desses fundamentalistas nas redes digitais e no submundo da blogosfera. Recentemente, alguns eventos retratam a escalada do extremismo desses grupos, seja na comunicação, na devoção ou na liturgia. Vejamos três cenas:

    Cena 1:Numa grande diocese brasileira, em um bairro de periferia, um sacerdote católico (que usa barrete, batina e sotaina), durante a oração eucarística, na oração pela Igreja, pede pelo bispo titular, pelo clero, mas ao se referir ao Papa, menciona… Bento XVI!. Ao ser inquirido por um fiel, responda que não acolhe Francisco. Imaginem o escândalo que seria se um padre ligado a Teologia da Libertação fizesse isso com João Paulo II 25 anos atrás?

    Cena 2: Uma senhora acompanha a reza do terço por uma emissora católica na televisão. Na jaculatória em que se pede proteção ao pontífice, o padre responsável pelo programa reza por… Bento! Francisco não foi citado, gerando revolta do filho da senhora em questão, que questiona por que não se reza pelo atual pontífice.

    Cena 3: Na catedral da maior arquidiocese brasileira, um evento inter-religioso de oração pelo Sínodo da Amazônia é virulentamente atacado por um bando de extremista. Ignorando ser um ato civil, espalharam mentiras pelas redes e atacaram o próprio arcebispo que sempre dialogou com tais segmentos. Uma boa nota explicativa foi escrita denunciando as mentiras e reestabelecendo a verdade dos fatos.

    A última cena carrega um elemento até então inédito. Os catolibãsestariam agora se voltando até para os seus protetores… Entretanto, esse gesto extremado produziu algo inusitado em tratando de quem foi atacado: uma não manifestação pública de oposição ao sínodo e ao Papa, muito pelo contrário. O que pode estar por trás disso?

    Por outro lado, essa radicalização contrária ao Sínodo dos extremistas é preocupante. Como já foi escrito em outras oportunidades, trata-se de um último esperneio, um “bater o pezinho” qual criança mimada em relação a possibilidade real de mudanças na vida da Igreja. Mudanças que, esperamos todos os que estão “cum et sub Pedro”, sejam inexoráveis.

    Essa radicalização também pode significar que os opositores mais Ratzingerianos ou Wojtylianos de Francisco estão começando a perder o controle sobre as hordas fundamentalistas. Ou estão secretamente apoiando isso tudo, colocando “bois de piranha” na linha de frente? De qualquer forma, ainda mantém um silêncio condescendente determinado prelados responsáveis por alguns clérigos que, tal como os fariseus, fazem questão de ostentar sua pseudodevoção em nome de uma pretensa defesa da fé.

    Por muito menos, apenas por um apoio político pontual, outros sacerdotes foram chamados as falas para dar explicações em uma cúria diocesana.  E religiosos foram transferidos sumariamente por suas posições proféticas. Ou seja, temos em certas realidades aquela ambiguidade que se revela na postura e usar de dois pesos e duas medidas.

    Ao que parece, posições conservadoras (mas não extremistas) começa a se distanciar do fundamentalismo católico.  Porém, isso não indica uma conversão de posicionamento em relação aos grandes temas da Igreja. Devemos estar atentos aos próximos movimentos.

    Portanto, todo esse frenesi em torno do Sínodo para a Amazônia é revelador. Sua realização entrou na agenda local e na pauta internacional de debates.   Aqueles comprometidos com o “Ancient Regime” Católico contra-conciliar estão exaltados e preocupados. Eles sabem que as mudanças propostas pelos padres sinodais poderão colocar a Igreja em outro patamar, rompendo de vez com o mofo tridentino que ainda insiste em sobreviver na s sacristias.

    Por isso apelam para a necropolítica e promovem uma necrorreligião. Que tais movimentos extremistas sejam um último ato de desespero diante da aurora da primavera que se aproxima. A noite escura dá seus últimos suspiros. O raiar do dia se aproxima para o catolicismo e nós já escutamos seus sinais.

    A serenidade de Francisco diante disso tudo impressiona. Ele segue seu rumo obstinadamente, como bom Jesuíta que é. Não teme seus detratores. O Papa do “fim do mundo” carrega em seu magistério a semente da novidade. A Igreja, sob sua liderança, conseguirá trilhar no florescer de inesperada primavera da mesma forma que João XXIII fez com o Concílio?

    Dessa forma, fica cada vez mais evidente que este Sínodo para a Amazônia é o grande momento deste pontificado. Seremos testemunhas do maior acontecimento católico do começo deste século. Francisco sabe que este será o grande legado de seu ministério. Estamos na iminência de um momento crucial para os seguidores de Jesus de Nazaré, que definirá o futuro da Igreja.

    A história estará se fazendo diante de nossos olhos nos próximos dias. Olhemos os sinais dos tempos.Sob a proteção do Irmão de Assis, rezemos pelo ministério do Irmão de Roma, o Papa Francisco. Que a Igreja seja sinal de esperança em mundo marcado pelo ódio e pela mentira.

    *Jorge Alexandre Alves é Sociólogo e Professor do IFRJ. Possui mestrado em Educação pela UFRJ. Foi catequista do Crisma e da Pastoral da Juventude e hoje atua no Movimento Fé e Política.

  • Dom Evaristo: A Igreja nunca foi a favor da internacionalização da Amazônia. Quem está chamando estrangeiros para explorá-la não é a Igreja

    Dom Evaristo Spengler, franciscano como dom Paulo Evaristo Arns, concedeu uma entrevista para a Revista Época, falando sobre o Sínodo, a partir dos referencias da dignidade da vida, da justiça social e da responsabilidade que cabe a todos na defesa da Casa Comum. A entrevista é uma boa conversa entre pessoas inteligentes, sobre os assuntos importantes da região amazônica que estarão em discussão no Sínodo. Vale conferir

    Veja a matéria publicada POR RODRIGO CASTRO 03/10/19 – para Revista Época

    ‘Garimpo destrói floresta, polui água e causa doenças’, diz bispo confirmado em sínodo sobre a Amazônia

    Dom Evaristo Spengler critica ‘desenvolvimento predatório’, em referência indireta à agenda ambiental do governo: ‘Temos de aprender com os povos indígenas’

    POR RODRIGO CASTRO 03/10/19 – para Revista Época

    Às vésperas do Sínodo para a Amazônia, o bispo dom Evaristo Spengler, da prelazia de Marajó, no Pará, afirmou que a Igreja não está preocupada com o governo. Para ele, ocorre o contrário: é o governo quem está apreensivo com o encontro que acontece no Vaticano, entre 6 e 27 de outubro, para debater formas de proteger o bioma e a evangelização. Spengler é um dos 58 bispos e padres brasileiros que estarão no evento, junto a outros 113 representantes da Região Pan-amazônica.

    Leia a entrevista completa:

    A comitiva brasileira chegou a um consenso do que vai passar ao papa?

    O consenso até aqui foi o processo de escuta que aconteceu do início ao fim de 2018, nos nove países amazônicos. Foram ouvidas 82 mil pessoas pelas dioceses, pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil). Esse processo desencadeou num instrumento de trabalho que agora está na base do início do sínodo. Ali está o consenso da escuta. A partir dali, o que vai desencadear a gente não pode prever neste momento.

    Mas qual o posicionamento acerca da política ambiental do governo brasileiro?

    O sínodo não trata da política ambiental de um governo. A Igreja se posiciona a partir de uma visão de fé. Uma visão que o mundo é criado por Deus, que colocou o ser humano aqui para preservar esse planeta, que o papa chama de Casa Comum e não pertence só a nossa geração. Temos de deixar um projeto de vida para as vidas futuras, não só vida humana, mas também da fauna e da flora. Conservar é um dever de fé, não é um posicionamento a favor ou contra esse ou aquele governo.

    Em audiência pública, o senhor cobrou a suspensão de megaprojetos que agridem a Amazônia. Quais seriam?

    O papa colocou muito claro quando veio a Porto Maldonado, no Peru, que a Amazônia, hoje, é um território de disputa. Existem dois modelos de desenvolvimento da Amazônia. Um é o predador. Há cinco áreas em que esse modelo atua: extração da madeira, pecuária extensiva, mineração, monocultura e a energia, que são as hidrelétricas. Esses megaprojetos afetam demais o bioma amazônico. Outra forma de desenvolvimento é o socioambiental. As populações que vivem na Amazônia — indígenas, quilombolas ou ribeirinhos — convivem com a natureza sem destruí-la. Não é que a Amazônia não seja economicamente viável. Ela é. Produz açaí, castanha-do-pará, cacau, muitos óleos. Um hectare de açaí está produzindo US$ 6.712 por ano, enquanto um de soja está produzindo US$ 819. A floresta de pé é muito rentável. E a gente pode usá-la preservando o meio ambiente sem derrubar a mata, sem destruir, sem queimadas. É essa nossa proposta.

    O presidente, por exemplo, tem se mostrado em acordo com os garimpeiros…

    É uma das formas que se coloca nesse desenvolvimento predatório. O garimpo é algo que está destruindo a floresta e poluindo a água. Quem bebe depois essa água poluída são as crianças, as pessoas que moram no entorno do rio. E as doenças estão aumentando lá também em função da poluição que vem da mineração. Um exemplo é o Amapá. Mineradoras exploraram o minério por muitos anos, deixaram grandes crateras e foram embora. Para onde foi essa riqueza? Para fora do Brasil. O povo de lá continuou como estava antes, com o lixo que eles deixaram, com as grandes crateras, com esse dano ambiental que ficou para trás.

    Bolsonaro também disse que o interesse estrangeiro na Amazônia não é no índio nem na árvore, mas no minério. Faz sentido?

    Falo pela Igreja, não pelos estrangeiros. Não me compete analisar, mas a Igreja busca a preservação do bioma, como um cuidado da criação que Deus nos deixou e também o cuidado dos povos nativos. O papa Francisco também tem dito que, se esse povo conseguiu conviver com a Amazônia tanto tempo preservando-a, temos que aprender com eles. Não é viver como os indígenas, mas viver nessa harmonia com o meio ambiente como eles conservaram até hoje. Pelas imagens de satélites, você vê que a floresta está muito mais preservada onde existe terra indígena demarcada. No mundo inteiro, populações indígenas preservam 82% do bioma que temos na Terra. Se eles dão esse exemplo, é ali o caminho. Quem produziu o problema das queimadas, a destruição da Amazônia, quem tem esse modelo não vai ter a solução. A gente tem que buscar uma alternativa. E os povos indígenas têm essa alternativa para nos ensinar.

    O senhor mencionou que o governo vê a Igreja como inimiga da Pátria. A Igreja é a favor da internacionalização?

    Igreja nunca foi a favor da internacionalização. A soberania compete a cada país. A Igreja está defendendo as populações locais para que possam preservar o meio ambiente. Quem está chamando estrangeiros para ocupar a base de Alcântara, para desenvolver a Amazônia não é a Igreja. Tem que perguntar a quem está fazendo isso se eles querem internacionalizar.

    E como avalia essa aproximação do Brasil com os EUA?

    Temos que preservar a soberania. Onde os EUA chegaram e implantaram uma base, não saíram mais. Há algum exemplo de algum lugar onde eles chegaram e saíram?

    Mas para o presidente o sínodo que é uma “ameaça à soberania”…

    O Sínodo não é um encontro de Estados, é um encontro interno da Igreja. Já é histórico. O papa tem nos bispos um colegiado para aprofundar, rezar, refletir e buscar caminhos para aspectos da evangelização, assim como houve para a juventude, para a família, para a África, Europa e tantos outros Sínodos. Hoje o papa está preocupado em evangelizar melhor, como a Igreja pode ter mais presença na Amazônia, onde tem poucos padres, missionários, religiosos. O povo fica sozinho nas comunidades do interior, muitas vezes, mais de um ano. O segundo enfoque é esse do meio ambiente, da Casa Comum. E o Sínodo tem que ser entendido como uma continuação, uma consequência da Encíclica do papa, de 2015, chamada Laudato Si.

    A Igreja não está se posicionando a favor ou contra o governo, mas tem toda uma caminhada. A Igreja está presente na Amazônia há mais de quatro séculos. O papa vem falando do cuidado com os povos indígenas desde sempre. O papa Paulo III, na Bula Veritas Ipsa, já defendia os indígenas. O papa Pio X, no início desse século, também tinha essa preocupação. Os bispos da Amazônia vêm se reunindo desde 1952, antes mesmo de existir a CNBB. Essa preocupação da evangelização, da presença da Igreja na Amazônia não é uma coisa de agora. Tem toda uma história. E o sínodo é uma consequência dela.

    Qual tem sido a percepção internacional sobre as ações do governo dentro da Igreja?

    A Igreja não tem se preocupado com posições do governo, mas com o caminho que ela está tomando a partir das orientações do papa, da Encíclica. Não somos nós que estamos nos preocupando com o governo; é o governo que está se preocupando com o Sínodo.

    Apesar de interno, o encontro terá repercussões externas. Quais podem ser?

    O Sínodo quer ser uma luz em dois caminhos. Um seria o da evangelização. Como a Igreja ser mais presente, que esteja junto ao povo durante todo o ano… A maior talvez, para fora, seja essa rede que surge de cuidado da Amazônia. Isso deveria ser uma preocupação de todos os habitantes do planeta.

    Parece que o mundo vinha crescendo nessa preocupação e, de repente, voltamos à estaca zero. As pessoas não veem mais o meio ambiente como algo sério a ser preservado. Já é sabido que a temperatura do mundo está subindo. Isso é comprovado cientificamente. Teme-se que nas próximas décadas a temperatura possa se alterar em mais três graus, e isso provocaria danos seríssimos, como o degelo das calotas polares, elevando o nível do mar. A Igreja tem essa responsabilidade com aquilo que é criação de Deus. Eu sou franciscano, essa é minha herança. São Francisco tinha a preocupação de cuidar do meio ambiente e ver em tudo a presença de Deus. É essa visão que vamos aprofundar mais no sínodo.

    O senhor falou na audiência em proteger defensores de direitos humanos, que sofrem ameaças de morte constantes…

    O Pará talvez seja hoje o estado onde mais se mata pessoas que lutam pelo direito à terra, à vida. Existe uma perseguição muito grande. De cada 10 mortes no campo no Brasil, nove acontecem na Amazônia. De 1995 até 2018, foram libertados 55 mil trabalhadores escravizados no Brasil. Metade estava na Amazônia. Quando os missionários se colocam tentando dar dignidade aos nativos da Amazônia, perseguições estão ocorrendo. Em vez dos missionários e lideranças leigas serem vistos como defensores da vida humana, estão sendo criminalizados. É uma inversão total de valores.

    Já escutou relatos dessas ameaças?

    Convivo com pessoas que sofrem ameaças. À minha volta, existem muitas pessoas que são ameaçadas de morte, sim.

    Em sua fala, afirmou que os missionários chegam onde o Estado não chega. Como atuam?

    Muitos lugares aqui de Marajó são exemplos bem concretos. Os municípios não têm condições de dar segurança às populações ribeirinhas. Se a Polícia Civil ou Militar é avisada de um crime que acontece no interior, para o deslocamento de uma lancha, ela cobra em torno de R$1.500. Se alguém foi roubado ou ferido, prefere não fazer denúncia porque sabe que ele gastaria mais dinheiro ainda. Muitas escolas do interior de Marajó não têm transporte. Posto de saúde, às vezes, não tem enfermeiro, não tem medicação, não tem médico. Os missionários tentam ajudar e sofrem com os locais, pois o Estado não está lá presente, não atende as necessidades do povo.

    O senhor propôs políticas de financiamento público. Como imagina isso?

    Para onde vão os financiamentos hoje? Para fazendeiros, para quem extrai madeira, vão para mineradoras, para quem está praticando a monocultura. Esses sempre são predadores e estão recebendo financiamento público. Já o pequeno agricultor, que coloca 70% da alimentação no prato do brasileiro, sofre com a escassez de financiamento. Queremos que haja financiamento público para esses projetos que possam deixar a floresta de pé. O cultivo da castanha, de peixe, do açaí. A floresta pode permanecer de pé, as pessoas vão ter uma fonte de renda, mas, sozinhas, sem uma política pública que as incentive e as auxilie, fica difícil. Sofremos um grande problema de deslocamento do produto. Poderíamos formar, talvez, cooperativas, associações que pudessem enfrentar junto esse drama de produzir, de transportar, vender. Hoje cada um está se virando sozinho sem nenhuma política pública para auxiliá-lo.

     

     

  • Bolsonaro tem um lado nessa disputa da Amazônia: o dos que vão destruindo a Amazônia, defende dom Evaristo

    Em entrevista para a Rádio Brasil Atual, 25/09/2019, o bispo da Prelazia de Marajó, Dom Evaristo, repercute discurso de Bolsonaro na ONU, aonde defendeu exploração de terras preservadas.

    Segue reportagem e o vídeo da entrevista.

     Bolsonaro ataca índios porque tem compromisso com o sistema financeiro, defende bispo

    São Paulo – O bispo da Prelazia de Marajó, no Pará, Dom Frei Evaristo Pascoal Spengler, repercutiu hoje (25), na Rádio Brasil Atual, os ataques do presidente, Jair Bolsonaro (PSL), aos povos indígenas. Em seu discurso na abertura da Assembleia-Geral da ONU ontem (24), em Nova York, o presidente de extrema-direita defendeu a exploração econômica de áreas indígenas e criticou lideres reconhecidos, especialmente o cacique caiapó Raoni.

    Bolsonaro disse que Raoni seria uma “peça de manobra”. O cacique é um forte nome para o Prêmio Nobel da Paz. “Bolsonaro tem um compromisso com o sistema financeiro internacional e não com os povos indígenas tradicionais da Amazônia. Não tem compromisso ambiental. Tudo que ele fala é para transmitir uma imagem de governo que ele não tem. Neste sentido, o governo é esquizofrênico. Ele afirma que quer preservar a Amazônia mas sua prática é de colocar as piores pessoas para cuidar dos ministérios, do Ibama”, resumiu dom Evaristo.

    O bispo afirmou à rádio que a Amazônia está sob disputa. Ele defende que dois modelos estão em conflito. “Um, dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos que usam a floresta em harmonia, usufruem do meio ambiente e a conservam. O outro é o predatório, que chega a partir do monocultivo, das madeireiras e mineradoras que destroem a Amazônia”. Bolsonaro apontou diretamente para esses setores. Disse, inclusive, que as grandes reservas indígenas Raposa Serra do Sol e Yanomami deveriam ser destinadas para a exploração.

    “Bolsonaro tem um lado nessa disputa: o dos que vão destruindo a Amazônia”, completou o bispo.

    Especialmente sobre Raoni, que esteve hoje na Câmara dos Deputados para prosseguir em sua defesa dos povos da floresta, Dom Evaristo afirmou que “ele tem uma prática histórica de defesa do meio ambiente. Ele sim tem uma história e uma legitimidade, uma defesa da floresta, como teve Chico Mendes. Pessoas que têm história e respeito internacional”. Bolsonaro vociferou que “acabou o monopólio do senhor Raoni”.

    Assista à entrevista completa de Dom Evaristo para a Rádio Brasil Atual:
    https://youtu.be/nmqQZsgPBUM

     

  • Desprivatizar Deus e a Eucaristia

    Roberto Malvezzi é agente de pastoral a serviços das Pastorais Sociais do Nordeste. Atualmente, integra Equipe CPP/CPT do São Francisco, e foi convidado para assessoDesprivatizar Deus e a Eucaristiarar o processo do Sínodo para a Amazônia.

    Segue o artigo:

    É cena comum um templo católico rodeado de carros aos domingos. Quem precisa tomar um transporte público, ou não tem condição de saúde, não estará naquela celebração dominical da Eucaristia. Eventualmente sim, frequentemente não.

    Há alguns anos fui convidado pela articulação dos Pastores Batistas do Nordeste para conversarmos sobre a questão ecológica na Bíblia. Fiquei hospedado na casa de família do Pastor Wellington Santos, em Maceió. Ele tem ligação permanente com os Movimentos Sociais e as Pastorais Sociais da Igreja Católica, particularmente a CPT. Então ele me contou uma história bem ilustrativa.

    Uma velha Senhora veio do interior de Alagoas e começou a frequentar a comunidade Batista em Maceió, da qual ele é pastor. Um dia ela precisou fazer uma mudança. A comunidade foi ajudá-la. Então, Wellington reparou que havia um quarto fechado e aquela Senhora não queria que ninguém entrasse no quarto. Cuidadosamente, ele pediu que ela abrisse o quarto, já que ela não teria como fazer a mudança sozinha. Meio constrangida, ela abriu a porta. O que havia ali era um oratório típico das casas do interior do Nordeste, com imagens de santos, um crucifixo, um rosário e outros adereços da piedade popular católica. Então ele disse a ela: “não se preocupe, vamos ajeitar tudo numa caixa e lá na nova casa a senhora arruma como quiser”.

    Nunca esqueci essa história por dois motivos: primeiro, a sensibilidade do Pastor Wellington respeitando aquela Senhora. Segundo, como deve ser confuso o mundo de tanta gente que migra, troca de comunidade religiosa, tantas vezes porque essa é a comunidade mais próxima, aquela que está de portas abertas e é acessível a quem não tem recursos ou saúde para se deslocar a grandes distâncias.

    Nesse mundo capitalista privatizaram as terras, as fábricas, a biodiversidade e até o sol e os ventos para geração de energia solar e eólica. Se tudo é propriedade privada, por que Deus não o seria?

    Dessa forma, o acesso à Eucaristia há séculos é privilégio de alguns que tem alguma Igreja próxima ou tem recursos para se deslocar e frequentar o templo que quiser. Além do mais, muitas igrejas e seitas se julgam proprietárias de Deus. Não que Ele se deixe privatizar, mas a intenção de muitos é clara. Portanto, o acesso frequente a Eucaristia em países como o Brasil, particularmente nas grandes periferias e nas comunidades isoladas da Amazônia e do Nordeste, é um bem privado de alguns.

    Em outras palavras, um dos objetivos do Sínodo para a Amazônia com a criação de novos ministérios como os padres comunitários, padres indígenas, diáconas, liturgia inculturada, equipe ministeriais etc., é a desprivatização de Deus e da Eucaristia.

  • Amazônia: alvo estratégico do capitalismo; é preciso amazonizar o mundo

    O sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, em artigo publicado no site brasil247, em 09.09.2019, nos alerta que as discussões a respeito da Amazônia são “uma nova batalha da guerra de 4ª geração entre as grandes corporações mundiais e a parcela do Humanidade que se define como responsável pela vida da Terra e se coloca em defesa dos seus Direitos”. Ele propõe uma saída para o falso dilema da “internacionalização versus soberania”. “Não internacionalizar a Amazônia: amazonizar o mundo”.

    Dia-da-Amazonia-foto de RENOVA Mídia
    Segue o artigo:

    Os incêndios florestais do mês de agosto representaram um sinal de alarme: a principal reserva ecológica da Terra sendo consumida pelas bordas, sem que o governo brasileiro tomasse providências. Declarações estapafúrdias do Presidente da República deixam transparecer que esse desastre não é fruto de descaso com a Amazônia e seus povos, mas um evento inserido no processo global de apropriação privada de bens-comuns: água, minérios, biodiversidade e terras para a agropecuária.

    Na Análise de conjuntura publicada no site do Fé e Política em abril passado usei o conceito de guerra de 4ª geração ou guerra híbrida – aquela que emprega estrategicamente a informação como arma de combate a um poder definido como “hostil” – para explicar o impeachment de Dilma como fruto da aliança entre corporações petroleiras e financeiras dos EUA e os muito ricos brasileiros. A queda daquele governo definido como “hostil” abriu as portas ao capitalismo ultraliberal, com as privatizações na área do petróleo, e em seguida a radicalização anarcocapitalista de Bolsonaro-Paulo Guedes, que visa suprimir todo constrangimento imposto pelo Estado republicano e democrático ao mercado.

    Devo reconhecer, porém, que me surpreende a improvisação na execução desse projeto, pois o governo de Dilma Rousseff já vinha buscando a integração da Amazônia ao sistema capitalista e bastaria implementá-lo sem truculência para em médio prazo fazer da Amazônia grande fonte de lucros para o capital, sem o risco de uma catástrofe ambiental. Vejamos então mais de perto o que está em curso hoje no Brasil, tendo presente que aqui está apenas uma parte do bioma amazônico.

    O desmantelamento da FUNAI e a nomeação de Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente foram um recado de que seriam suspensos os entraves fiscais e administrativos à exploração das chamadas riquezas naturais. Para bom entendedor, meia-palavra basta: se não há fiscalização nem repressão, a apropriação privada de bens-comuns os transforma em mercadorias valiosas. Afrouxada a fiscalização, especuladores, madeireiros, garimpeiros, grileiros e outros transgressores sentem-se liberados para invadir territórios indígenas, reservas ambientais ou promoverem queimadas em suas terras e terras vizinhas.

    Outro passo, em continuidade com iniciativas ensaiadas durante o governo Temer será a privatização – ao menos parcial – de reservas ambientais, especialmente aquelas que se mostrem ricas em reservas minerais ou com potencial para a biotecnologia. Paralelamente, abrir concessões para exploração mineral em territórios de povos originários, mesmo que ameace sua sobrevivência enquanto povos. Passo de grande crueldade, que esperamos não venha a ser dado, seria a extinção de Povos Isolados, seja por estrangulamento ambiental, seja por massacre, porque um território não habitado não teria motivo legal para ser preservado.

    Enfim, o passo decisivo será o favorecimento à implantação de grandes empresas em toda a Amazônia, especialmente em territórios de Povos Originários, com o estímulo a seus chefes para se tornarem empresários. Combinando-se tal incentivo com a atração de grandes capitais do Exterior, em pouco tempo a Amazônia estaria loteada entre empresas capitalistas. Com sede no Brasil, é claro, mas com grande aporte de capitais externos.

    Esse exercício de futurologia tem por base a doutrina do choque, formulada por Naomi Klein: desastres – naturais ou provocados – interessam ao mercado capitalista porque ele se apresenta como o remédio mais eficaz para sua recuperação social e econômica. O raciocínio é de tipo “já que a floresta está queimada, vamos aproveitar a terra para produzir de modo mais moderno”. Para legitimá-lo bastaria uma eficiente campanha de informações pela grande mídia e pelas redes virtuais em favor do “desenvolvimento sustentável” de Povos Originários que se transformem em gerentes da produção mineral ou agropecuária em seus territórios.

    Seria esta uma guerra de 4ª geração entre o capitalismo globalizado e os defensores e defensoras da Amazônia. Nela não há invasão armada, como nas guerras do passado, nem agentes infiltrados entre Povos Originários para declarar sua independência e formar uma nação soberana, como parecem temer nossos militares. Ao contrário, as grandes empresas seriam formadas com todo apoio do governo brasileiro e de suas Forças Armadas, garantindo a propriedade privada. E o aumento da exportação de commodities seria a melhor prova do acerto dessa política de crescimento econômico anarcocapitalista.

    Contra esse projeto alinham-se diferentes organizações de defesa dos Direitos Ambientais e Humanos, hoje contando com a decidida participação do Papa Francisco, cuja intuição de fazer da Amazônia tema do próximo sínodo da Igreja Católica revelou-se genial. À primeira vista, o capital financeiro em busca de aplicação segura é disparadamente mais forte do que essa parcela da Humanidade que não abre mão de sua humanidade e de sua solidariedade com a Terra e seus Povos; um olhar atento, porém, revela que a força dos fracos é bem maior do que parece.

    Primeiramente, é preciso considerar que os segredos da guerra de 4ª geração começam a ser desvendados e seus instrumentos em breve poderão ser utilizados também pelos grupos que defendem a Ecologia Integral e os Povos da Amazônia. As redes informáticas da internet, que até pouco tempo estavam inteiramente a serviço das grandes corporações, começam a ser usadas também no sentido oposto: em lugar da propaganda baseada no manejo de emoções, elas podem ser veículo de informações que têm ao mesmo tempo fundamento real e apelo simbólico, como são as mensagens emitidas por pessoas de grande autoridade moral. Nesse embate, a probabilidade de vitória da verdade sobre a propaganda não é mero desejo piedoso.

    Finalmente, é preciso considerar que a ameaça à Amazônia traz à tona duas forças sociais de forte poder mobilizador: Povos Originários e a juventude. A primeira já está na cena política há pelo menos quatro décadas, mas agora vem ganhando vulto a coordenação entre diferentes Povos, inclusive do Exterior. Novidade é a mobilização da juventude, agora puxada pela adolescente sueca Greta Thunberg. Seu apelo aos adultos é contundente: “assumam sua responsabilidade! Adolescentes somos nós, não vocês!”. É preciso levar em conta a força moral desses dois novos atores no cenário político, sobretudo num conflito de informações, quando a credibilidade de quem fala é crucial.

    Se esta análise é correta, estamos diante de uma nova batalha da guerra de 4ª geração entre as grandes corporações mundiais e a parcela do Humanidade que se define como responsável pela vida da Terra e se coloca em defesa dos seus Direitos. Dessa batalha pode resultar uma novidade inesperada, muito bem formulada por uma pesquisadora nativa da Amazônia: Não internacionalizar a Amazônia: amazonizar o mundo.

  • O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA E A IGREJA DO BRASIL: ENTRE SILÊNCIOS E OPOSIÇÕES

    Na medida em que o Sínodo para a Amazônia se aproxima, fazem cada vez mais barulho as vozes dissonantes ao Instrumentum laboris, e a todo processo de preparação deste momento da vida da Igreja. Tivemos dois sínodos onde possibilidades de mudanças concretas na vida da Igreja foram sorrateiramente silenciadas.Em não poucos lugares, poucas medidas práticas foram tomadas a partir das proposições sinodais e dos documentos papais nestas oportunidades.

    Assim, nos vemos às vésperas de um terceiro sínodo em apenas 6 anos de pontificado de Francisco. Por si só, é muito significativo esse dado. Indica disposição para tornar a Igreja mais aberta a decisões tomadas de forma colegiada. Francisco atua como umPrimus Inter Pares, o primeiro entre iguais no episcopado. Ele não se enxerga como uma espécie de Pároco do Mundo, onde os bispos seriam seus meros vigários.Ao aprofundar os mecanismos de participação e consulta na vida eclesial, Bergoglio sinaliza que os resultados pastorais poderão ser muito diferentes em relação ao que se via anteriormente.

    Mais do que apenas questões relativas a ação da Igreja em uma região tão significativa, o sínodo que se avizinha trata de questões urgentes.  Hoje vivemos um dramático causado por um modelo econômico que coloca em risco toda a obra da criação. A mensagem que o padres sinodais darão ao mundo em outubro próximo está diretamente relacionada não apenas ao futuro da Igreja e do cristianismo como grande tradição religiosa. Os ecos do Sínodo para a Amazônia estarão relacionados diretamente à sobrevivência da própria civilização humana e da vida da Terra enquanto organismo vivo.

    Dessa forma, o provavelmente mais importante evento eclesial sob Francisco é estratégico para humanidade e decisivo na história contemporânea da Igreja. A preparação para o sínodo vem causando furor e reações destemperadas de seus detratores exatamente por causa da agenda que as comunidades amazônicas trouxeram durante o processo de consulta. Esses elementos estão expressos no instrumentum laboris, documento de consulta que pautará o debate dos padres sinodais, daqui a algumas semanas.

    Este Sínodo do Bispos é resultado de um amplo percurso, meticulosamente concebido para ser o mais inclusivo, popular e democrático possível. Fruto de uma trajetória pré-sinodal de três anos. O documento de trabalho que servirá de base para os trabalhos sinodais é seu maior fruto até o presente momento. Por isso, aqueles que sempre afirmaram que A Igreja não é uma democracia torcem o nariz para a sua realização, desqualificando a participação de mais de 85 mil pessoas nesse caminho rumo a Outubro.

    Evidente que, como todo texto preparatório, o instrumento de trabalho é sujeito a ajustes e sofre críticas. Mas estas deveriam ser muito mais sobre ausências no texto, temáticas pouco discutidas, conceitos ou sobre abordagens pastorais. Acusar o documento de herético como fazem os já conhecidos opositores do Bispo de Roma, e insistir que as sugestões apresentadas não estão em sintonia com a sã doutrina da fé e contrários à tradição, é pressupor que o Papa e o secretariado do sínodo não são católicos. Em outras palavras, trata-se de um verdadeiro absurdo.

    Reduzir a condição de ideologia a inculturação da fé no ethos dos povos ameríndios, das populações ribeirinhas e das comunidades extrativistas é ignorar que o catolicismo europeu atual é uma forma inculturada da piedade popular medieval do Velho Continente. Porque nós, latino-americanos, devemos ser receptores passivos de uma suposta tradição vinda da alta Idade Média ou quiçá de tempos tridentinos? Essa tradição, colonialmente nos foi imposta por mais de três séculos e transmitida de forma muitas vezes autoritária e castradora, não pode ser posta em perspectiva, a partir do diálogo e da escuta?

    Causa estranheza e perplexidade que, exatamente quando o diálogo e a escuta se tornam a pedra angular da preparação de um sínodo dos bispos, apareçam supostos paladinos da fé cristã denunciando heresias. Por que exatamente neste momento? Possivelmente alguns o fazem com alguma sinceridade, preocupados com o futuro da Igreja. Mas considerar que a Amazônia será salva por meio do proselitismo católico, combatendo o neopentecostalismo evangélico e sem nenhuma crítica socioambiental soa ingênuo, no mínimo. E o que dizer da desonestidade intelectual e moraldaqueles que, saindo pela floresta afora coletando assinaturas e pedindo dinheiro às comunidades amazônicas, orquestram uma campanha de desmoralização contra um legítimo Sínodo dos Bispos à CNBB e ao Sumo Pontífice?

    Outros importantes prelados criticam o Sínodo porque seu alvo verdadeiro é o Papa em pessoa. Não se trata de salvaguardar a fé, mas sim de atacar o sucessor de Pedro, continuando uma insidiosa campanha contra o magistério petrino exercido por Francisco que nenhum papa contemporâneo jamais experimentou. Em comum a todos esses descontentes, pode-se constatar certo desespero diante das inexoráveis mudanças em curso coordenadas por Francisco. Será o último esperneio diante da inevitável mudança que se vislumbra nesta nova primavera católica?

    O documento de trabalho contém muitas sugestões questionadoras da atual ordem eclesial. Maior poder aos leigos, inculturação da fé, liturgia, o desafio das grandes distâncias, a formação de um clero autóctone e sobretudo a questão dos ministérios ordenados. Nesse campo, o instrumento de trabalho apontou possibilidades para o diaconato feminino e para a ordenação de homens mais velhos, coordenadores das comunidades e casados (os viriprobati). São temas que, sob Francisco, se debate de forma livre, sem que nenhuma temática seja retirada de discussão, diferentemente de outrora. E isso vem causando arrepios nas viúvas do inverno eclesial que congelou a Igreja por 35 anos.

    Por mais que se explique que a centralidade do Sínodo é a Amazônia em si e os seus problemas, é a possibilidade da discussão acerca das questões já mencionadas – ainda que perifericamente – que realmente incomoda e assusta os detratores de Bergoglio. Ficaram inquietos por lerem no documento vários elementos que atacam o clericalismo e o caráter principesco dos ministérios ordenados, bem como as iniciativas que visam tornar a Igreja mais colegial por empoderar as comunidades e o laicato. Assim, o que está em jogo para os inimigos do Sínodo é o status e o prestígio religioso que lhes conferem alguma posição de poder.

    Além da oposição intra-eclesial, o Sínodo para a Amazônia incomoda os poderes constituídos, sobretudo no Brasil. Da mesma forma que Francisco incomoda o “mercado” por denunciar os riscos de uma iminente catástrofe ambiental e por sua crítica contundente ao grande capital, à xenofobia e à desigualdade social. O governo brasileiro espiona a atividade de agentes pastorais e de clérigos envolvidos na preparação do evento eclesial. Tiveram a pachorra de solicitar que pudessem enviar delegados a um encontro de bispos (sic!).

    Por conta de uma “não-política” ambiental, cujos efeitos perversos (assassinato de lideranças locais, queimadas, intimidação e morte dos povos indígenas, grilagem de terras, extração de madeiras) produzem morte e destruição. Parece que o governo, ao negar dados indiscutíveis, deu uma autorização tácita para que as frações mais selvagens do capital nacional atuante na Amazônia promovessem o ódio e a devastação. E nem cabe aqui mencionar as sandices ditas a respeito dos bispos e do Papa Francisco.

    Enquanto isso, fora dos canais formais da CNBB, tem-se a impressão de que o Sínodo nem existe. Por todo o Brasil, os relatos reforçam essa percepção. Quase nada faz referência ao mais importante evento eclesial do ano. Fora da região amazônica, a repercussão é bem pequena.  Nas paróquias pouco se menciona o assunto. Relatos de quem acompanha de alguma forma as escolas católicas, em partes distintas do país (DF e RS) afirmam que não se tem feito nenhuma abordagem sobre o Sínodo para a Amazônia. Ao contrário, é uma temática que provoca divisão. Tem sido diferente em outras partes do Brasil? Possivelmente não, infelizmente.

    Nas palavras de uma importante liderança leiga, que atua como agente de pastoral radicado no sul do país, mas que conhece bem a realidade nacional e possui vínculos com a Amazônia: “O Sínodo para a Amazônia no Brasil foi abraçado somente pelos bispos da Amazônia”… Ele também confirma a percepção de que, fora da Amazônia, pouca coisa a respeito do sínodo ecoa no restante do Brasil. Mesmo entre as pastorais sociais, nas Comunidades Eclesiais de Base, CPT, na Pastoral da Juventude pouco se fala a respeito do sínodo fora da região de interesse.

    Não é a primeira vez. No Sínodo para a Juventude, apesar do conhecimento que a Igreja adquiriu sobre a evangelização da juventude, sobretudo por causa das experiências de mais de 40 anos da Pastoral da Juventude no Brasil, poucas foram as efetivas contribuições dadas na preparação daquele momento sinodal. E pouco foi o seu impacto de suas conclusões no país. Será que os opositores de Francisco também não estão adotando a mesma estratégia em relação ao Sínodo para a Amazônia?

    Na home-page oficial de uma das maiores dioceses brasileiras nem se faz menção ao Sínodo para a Amazônia. Em outro sítio de uma importante diocese, até bem pouco tempo as informações sobre o sínodo estavam na seção de notícias, sem grande destaque. Hojeao menos estão destacando um link com o vídeo da campanha da CNBB de apoio ao Sínodo e ao Papa.  Este vídeo constitui uma resposta do episcopado aos ataques originados de setores ligados ao governo federal contra os bispos – sobretudo os da Amazônia.

    Uma missa foi interrompida na catedral de Goiânia porque uma carta da conferência dos bispos brasileiros foi vista como comunista por uma mulher. Por qual motivo ela se sentiu autorizada a interromper o mais importante culto católico por causa de um texto que, entre outras coisas, defendia o episcopado, o sínodo e denunciava a crise ambiental na Amazônia? Quem são os novos cruzados que atiçam o Povo de Deus contra sua própria Igreja? Será que são realmente cristãos? Defendem a fé a partir do anúncio do Reino de Deus, tal qual Jesus de Nazaré? Ou são portadores de uma mensagem religiosa produzida a partir do ódio e da morte, difusores de uma necrorreligião?

    Para completar o panorama dessa complexa conjuntura religiosa brasileira, dois fatos recentes nesta semana que podem dizer algo a Igreja do Brasil. Há poucos dias, o presidente esteve na Igreja Universal do Reino de Deus. O supremo mandatário da nação se colocou de joelhos diante do líder dessa confissão cristã, Edir Macedo. E foi abençoado com a imposição das mãos (gesto de forte simbolismo cristão), um fato inédito em nossa história republicana.

    O discurso de Macedo, totalmente em sintonia com o bolsonarismo, é diametralmente oposto ao magistério de Francisco. Portanto, se o Sínodo dos bispos fizer críticas as políticas socioambientais dos países da Amazônia, o líder da IURD estará a postos, junto com outros representantes do fundamentalismo protestante para defender Bolsonaro. Com discurso religioso antagônico à teologia do Sínodo. Esse episódio é revelador do quanto Edir Macedo está se cacifando para ser uma espécie de antítese teológica de Bergoglio. Paradoxalmente, é possível constatar que leigos católicos de viés ultraconservador defenderam esse gesto do Chefe de Estado nas redes digitais.

    Nas entrelinhas do que ocorreu na Igreja Universal, podemos supor que a aliança tácita entre o neopentecostalismo evangélicos e os chamados “catolibãs” pode estar com os dias contados. Os neotridentinos e pentecostais-católicos radicais ficarão contra o Pontífice Romano em nome de uma aliança de ocasião que se fortaleceu em torno do bolsonarismo? Esses segmentos católicos tomarão uma rasteira de seus pares do campo protestante? Não temos como prever.  Mas podemos indicar que, em breve, os evangélicos de extrema-direita não precisarão mais do conservadorismo católico para se locupletarem do Estado brasileiro.

    Finalmente, o Papa anunciou dez novos cardeais. E vai configurando o Colégio Cardinalício com pessoas que estão em sintonia com seu pontificado. Os novos cardeais, que tomarão posse na véspera do começo do Sínodo para a Amazônia, estão alinhados com as grandes linhas de atuação de Bergoglio frente ao Sólio de Pedro. São nomes de primeira linha na promoção do diálogo com o Islã, com a questão da migração e com os povos indígenas.

    Embora tenhamos alguns excelentes bispos, dotados de grande coragem pessoal e alinhados com Francisco, nenhum dos novos cardeais é brasileiro. Nem ao menos algum prelado da Amazônia brasileira, nas portas do sínodo. Essa ausência pode ser lida em suas entrelinhas, gerando algumas importantes questões:Que recado o papa manda ao conjunto dos bispos brasileiros? O silêncio em relação ao Sínodo e a resistência ao magistério deste papa na Igrejado Brasil não estaria tornando o episcopado brasileiro menos protagonista no Colégio dos Cardeais, diferente do que já foi um dia?

    Pelo visto, Bergoglio crê que a arquitetura de sua sucessão não passa, pelo menos por hora, por “Pindorama”. Será que nos tornamos um catolicismo defasado em relação aos desafios impostos pela modernidade líquida, pela vida urbana, por uma economia do descarte e nas questões ambientais? Uma Igreja cujo modelo se estrutura na grande paróquia católica responde efetivamente a esses desafios urgentes? Oxalá o Sínodo para a Amazônia nos apresente importantes pistas pastorais para toda a Igreja do Brasil, e nos ajude a responder essas questões.

    *Jorge Alexandre Alves é Sociólogo e Professor do IFRJ. Possui mestrado em Educação pela UFRJ. Foi catequista do Crisma e da Pastoral da Juventude e hoje atua no Movimento Fé e Política.

    Referências:

    BINGEMER, Maria Clara. A Igreja ante os desafios do presente. Disponível em: https://domtotal.com/direito/pagina/detalhe/31958/a-igreja-ante-os-desafios-do-presente.

    CODINA, Victor. Os opositores da Igreja de Francisco. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591343-os-opositores-da-igreja-de-francisco-artigo-de-victor-codina

    DALL’OSTO, Antonio. Amazônia: um Sínodo contestado. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591271-amazonia-um-sinodo-contestado

    GUIMARÂES.Edward Neves Monteiro de Barros.Dois cardeais criticam o Sínodo para a Amazônia, mas o alvo é atacar o projeto de Igreja do papa Francisco. Disponível em: https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2019/08/13/dois-cardeais-criticam-o-sinodo-para-a-amazonia-mas-o-alvo-e-atacar-o-projeto-de-igreja-do-papa-francisco/

    GODOY, Manoel (Pe.). Notas sobre o pontificado de Francisco, com a palavra Pe. Manoel Godoy. Disponível em: https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2019/08/19/notas-sobre-o-pontificado-de-francisco-com-a-palavra-pe-manoel-godoy/

    MALVEZZI, Roberto (Gogó). As vozes isoladas contra o Sínodo. Disponível em: https://robertomalvezzi.com.br/2019/09/03/as-vozes-isoladas-contra-o-sinodo/

    McDONAGH, Francis. Por que o Sínodo para a Amazônia “poderia mudar a Igreja para sempre”. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/589069-porque-o-sinodo-da-amazonia-poderia-mudar-a-igreja-para-sempre

    OBSERVATÓRIO DA EVANGELIZAÇÃO. Quem critica o Sínodo para a Amazônia tem ‘interesses ameaçados’, diz cardeal brasileiro. Disponível em: https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2019/08/30/quem-critica-o-sinodo-da-amazonia-tem-interesses-ameacados-diz-cardeal-brasileiro/

    De 28 a 30 de agosto, em Belém (PA) Encontro de Bispos da Amazônia Brasileira para estudo do Instrumento de Trabalho do Sínodo 

  • Carta da 18ª Jornada de Agroecologia

    Feira que ocorreu ao longo do evento comercializou aproximadamente 15 toneladas de produtos agroecológicos. Por Lu Sudré, do Brasil de Fato

    Quatro dias de oficinas, seminários, debates, trocas e reflexões sobre a importância da produção de uma alimentação saudável. Assim foi a 18ª Jornada de Agroecologia, que se iniciou no dia 29 de agosto e terminou neste domingo (1º).

    Mais de cem agricultores de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco e, principalmente, dos assentamentos e cooperativas do estado do Paraná, participaram da Feira da Agrobiodiversidade que ocupou a praça Santos Andrade, no centro da capital paranaense.

    A estimativa é que mais de dez mil pessoas tenham participado do evento como um todo. Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foram comercializados aproximadamente 15 toneladas de alimentos agroecológicos como hortaliças, raízes, frutas, legumes e laticínios.

    Com informações do site jornadadeagroecologia.org.br
    Veja aqui a carta na íntegra

    Carta da 18ª Jornada de Agroecologia

    Nós, povos do campo, das águas, das florestas e da cidade, representados por 24 caravanas oriundas do Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e do Paraguai, construímos a 18ª Jornada de Agroecologia, na capital paranaense. Transformamos Curitiba num espaço democrático de resistência, de luta popular e de alimentação saudável. Ocupamos as praças e ruas com 69 entidades, movimentos sociais e organizações, 100 coletivos de produtores participantes da feira da agrobiodiversidade, 12 coletivos no espaço Culinária da Terra com alimentos típicos do nosso chão.  As 25 apresentações culturais abrilhantaram a Jornada, que contou também com a Marcha dos 30 anos de luto e luta da educação pública paranaense, apresentações de pesquisas, oficinas e seminários e o Túnel do Tempo, com visitação de 2700 pessoas.

    No mais adverso momento de crise política, social, econômica e ambiental depois da ditadura militar no Brasil, a Jornada de Agroecologia inscreve-se nas marchas da resistência popular. Manifestações de contestação se alastraram pelo país já durante a festa popular do Carnaval e especialmente na Vigília Lula Livre, no acampamento indígena Terra Livre, nas ocupações e levantes estudantis, na Greve Geral, na Marcha das Mulheres Indígenas e na Marcha das Margaridas.

    O conluio dos poderes judiciário, executivo e legislativo, com o sistema financeiro e a mídia empresarial produziu o golpe institucional que culminou na prisão do presidente Lula e na vitória  de um projeto fascista marcado por sua extrema violência com a eleição fraudulenta de Jair Bolsonaro,  arquitetado com o imperialismo dos Estados Unidos e suas empresas transnacionais na implantação de um projeto que desmonta a soberania nacional, a democracia e os direitos assegurados pela Constituição de 1988.

    Vivemos numa época de totalitarismo global, em que o capitalismo ultraliberal na economia, com altíssima concentração de riqueza, opera sem democracia e fecha os espaços de participação e controle social. No mundo, a renda dos 26 mais ricos equivale a renda dos 3,8 bilhões mais pobres. No Brasil, cinco bilionários mais ricos têm a mesma renda de 105 milhões dos mais pobres. São 13 milhões de desempregados, 60 milhões de endividados e o país voltando ao mapa da fome.

    O agronegócio, as mineradoras e grandes empreendimentos hidrelétricos e de infraestrutura avançam sobre todos os biomas depredando a biodiversidade, contaminando a água, invadindo com violência os territórios dos camponeses e camponesas, indígenas, quilombolas e das populações tradicionais. O bioma Cerrado, pela devastação acelerada, já ultrapassou sua capacidade de auto-regeneração.  A floresta amazônica está em chamas onde latifundiários do agronegócio, no dia 10 de agosto de 2019, realizaram o “dia do fogo” dando início a um grande incêndio que alarmou a humanidade. Os rios sendo mortos com a contaminação por agrotóxicos e por graves crimes ambientais como o rompimento da Barragem da Vale, em Brumadinho e outras situações de verdadeiro ecocídio, sob ameaça ou em andamento.

    Sofremos a destruição dos órgãos de vigilância e fiscalização ambiental, com flexibilizações do licenciamento ambiental, permissivo para grandes empreendimentos e o agronegócio. O discurso das mais altas autoridades é estimulador do desmatamento, na contramão dos compromissos do país com o combate ao aquecimento global. O agronegócio é um agente ativo no desequilíbrio dos ecossistemas e principal responsável pelas mudanças climáticas.

    A agroecologia assegura alimentos saudáveis e água pura. Para o agronegócio somente neste ano houve a liberação de 290 agrotóxicos. Em 326 cidades do Paraná, foram encontrados 27 agrotóxicos obrigatoriamente monitorados na água para consumo humano. Já são 90 transgênicos liberados comercialmente no Brasil, sendo que 70 são modificados para tolerar venenos. É o domínio das corporações do veneno e das sementes transgênicas, protagonizadas pela Bayer/Monsanto, ChemChina/Syngenta, DuPont/Dow e Basf. Estão sendo exterminadas bilhões de abelhas e outros polinizadores essenciais para a agricultura.

    Na implantação do Estado mínimo para o povo e máximo para o capital, o governo Bolsonaro desmonta as políticas públicas com: paralisação da reforma agrária e reconcentração fundiária, redução de áreas de unidades de conservação, oposição  frontal à demarcação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas e desmonte dos programas de fortalecimento da agricultura familiar. Retira direitos previdenciários, trabalhistas e cria facilidades aos empresários na ampliação da exploração da classe trabalhadora.

    Os cortes na educação brasileira, especialmente nas universidades públicas, podem, no curto prazo, inviabilizar o ensino regular, a pesquisa e extensão e o próprio desenvolvimento nacional. Há o esvaziamento do Programa Nacional de Educação para a Reforma Agrária (PRONERA) e o abandono da educação do campo. Ainda, o projeto “Future-se”, proposto pelo Ministério da Educação, é o desmonte da universidade pública e a afronta da autonomia universitária, constitucionalmente garantida. Para nós a educação é direito e não mercadoria, com acesso universal garantido pelo Estado.

    O Brasil está à venda. A entrega de nossas estatais e de nossos bens comuns é a principal oferta do Ministro Paulo Guedes. As privatizações acirram nossa dependência tecnológica e econômica. A nossa defesa central é da soberania nacional e do patrimônio público à serviço do povo brasileiro.

    O discurso público de Bolsonaro, de Wilson Witzel, de Sérgio Moro e outras autoridades defende o uso da violência contra a população a partir de um Estado policialesco, militarizado, combinado com o cerceamento dos espaços civis de manifestação, fechamento de conselhos de participação social e a criminalização de movimentos sociais populares, defensores e defensoras de direitos e opositores. A liberalização do porte de armas de elevado calibre e automáticas consta das prioridades do governo. Pairam várias ameaças no Congresso Nacional com a tramitação de projetos de leis para transformar em crime de terrorismo as manifestações populares.

    A Força Tarefa da Lava-Jato, com suas combinações entre Ministério Público, Polícia e Justiça Federal, transformou-se num verdadeiro partido político, se valendo do sistema de justiça de forma seletiva, criminosa e corrupta para perseguir inimigos políticos, proteger aliados com a conivência do Supremo Tribunal Federal.

    Nós, do movimento camponês agroecológico, sempre tivemos como pressuposto o combate à corrupção e defesa da democracia, mas esse conluio recaiu nas mesmas práticas que visava combater. Todo esse quadro de ilegalidades já era denunciado. As revelações do Intercept Brasilescancaram que a Operação Lava-Jato atuou como uma organização criminosa dentro do sistema de justiça.

    Além disso, grupos aliados a milícias privadas manipulam os anseios do povo com notícias falsas, desde o momento pré-eleitoral e durante esses oito meses de governo. Nunca foi tão urgente e necessário defender a verdade e a ciência.

    A superação e o enfrentamento dessa cruzada de ódio social e de violência só se dará com aglutinação na resistência, na unidade e na diversidade. Não nos deixemos governar pelo medo e pessimismo. Avancemos em luta com esperança e perseverança!

    Agroecologia é um caminho de comunhão e pertencimento à nossa casa comum. É a defesa da Mãe Terra. Costuramos com as mãos dos povos o tecido vivo de nossa biodiversidade que também representa nossa memória, nossas culturas, para um projeto de agricultura camponesa em defesa da vida. Com as nossas práticas garantimos o respeito aos ciclos da natureza, o bem estar animal, a valorização da cultura e dos saberes locais e tradicionais, a continuidade da vida no planeta.

    A Jornada de Agroecologia é o anúncio da luta pela liberdade, por alimento saudável, por paz, por justiça e por direitos.

    Durante os quatros dias, o centro da capital paranaense foi o palco de manifestação política, técnica, cultural e da feira de alimentos e de sementes e mudas da agrobiodiversidade camponesa. Reuniu milhares de pessoas oriundas de povos indígenas, quilombolas e de terreiros, camponesas e camponeses e juventude de assentamentos e acampamentos dos Sem Terra, de comunidades tradicionais, pescadores artesanais, da agricultura familiar, estudantes, professores, técnicos e trabalhadoras e trabalhadores urbanos.

    A Jornada é um processo permanente e contínuo de trocas de saberes: no cultivo da terra, no semear da agrobiodiversidade e no cuidar da água, na colheita da soberania alimentar, no uso das plantas medicinais e terapias naturais, nas escolas do campo, nos conhecimentos dos guardiões e guardiãs das sementes e na ciência cidadã. É uma construção de projeto popular soberano, com arte, cor, sabor, amor, cultura, poesia e alimento saudável.

    Esta mobilização se soma às lutas da classe trabalhadora por uma Terra livre do latifúndio, livre da miséria e da fome, livre do trabalho escravo e da exploração do trabalho, livre das violências e assassinatos no campo, livre do racismo, do patriarcado e do machismo, livre da misoginia e LGBTQIfobia, livre da depredação da natureza, livre do autoritarismo e fascismo, livre do agronegócio, livre de transgênicos e sem agrotóxicos.

    Por um projeto de país soberano e livre com o povo e o Lula nas ruas!
    Viva a luta e a esperança dos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade!
    Viva a 18ª Jornada de Agroecologia!

    Plenária Final da 18ª Jornada de Agroecologia
    Curitiba, 01 de setembro de 2019

  • Frei Betto: Amazônia, o rosto ecológico de Deus

    Frei Betto, em artigo publicado em O Globo, 31/08/2019, apresenta de maneira simples, clara e profunda o significado do Sínodo para a Amazônia.

    Leia o artigo:

    O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco para outubro, terá lugar em Roma, numa decisão equivocada do Vaticano, pois fora agendado, de início, para ocorrer no coração da selva. Ali se debaterá mais do que a presença da Igreja Católica naquela região interconectada e cada vez mais violenta e desigual.

    O bioma amazônico engloba nove países e ocupa mais de 7 milhões de km² habitados por 34 milhões de pessoas, das quais 3 milhões são indígenas, que dominam 340 diferentes idiomas. Ali, cada metro quadrado tem mais diversidade do que qualquer outro lugar do planeta. O bioma possui três tipos de rios: os de superfície; o subterrâneo, conhecido como “alter do chão”; e os “rios voadores”, assim chamados por acumular vapor na atmosfera e distribuí-lo em forma de chuva em toda a América do Sul.

    A Amazônia exerce forte relevância no ciclo do carbono, ao absorvê-lo em bilhões de árvores e impedir sua liberação na atmosfera em forma de gás. Reduz, assim, o aquecimento da Terra.

    As quatro dádivas da região são: povos que sabem viver da selva e na selva, sem ameaçá-la; o ciclo das águas e do carbono; a biodiversidade; e a regulação do clima.

    Segundo o papa Francisco, “os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora”. Em sua sabedoria ancestral, eles nos ensinam a se relacionar com a natureza, os demais seres humanos e Deus. No entanto, agora são vítimas de assassinatos, expulsões de suas terras, ação de grileiros e mineradoras, desmatamento, e proibição de se reunir e organizar.

    A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, pela qual há tantos mártires, por outro lado ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado. O Sínodo busca justamente implantar uma Igreja pós-colonial e solidária, com rosto amazônico e indígena. Para a Igreja, a região é muito mais do que um lugar geográfico; é também um lugar teológico, no qual transparece a face de Deus criador.

    Não há como manter a floresta de pé sem a sabedoria dos povos que a habitam. O “capitalismo verde” não convém, pois se rege pelas leis do mercado e busca patentear princípios e essências, privatizar a água e promover a pirataria dos saberes populares.

    Os povos indígenas guardam ainda uma sintonia holística com o Cosmo. Seus sentidos aguçados estabelecem um diálogo permanente com a natureza. Conhecem cada ruído, prenunciam a chegada da chuva ou da seca, identificam os recursos medicinais das ervas. O índio não é um indivíduo na natureza. Seu corpo, o território no qual habita e a natureza formam uma unidade.

    Os indígenas respiram uma cultura que se traduz, de fato, em espiritualidade da reciprocidade. Através de ritos e festas, celebram a exuberância da natureza e exorcizam os espíritos malignos. Sem recorrer à escrita, passam de geração a geração a cultura do cuidado da floresta e do respeito a todos os seres vivos.

    Para eles, a terra não é um bem econômico, e sim dom gratuito de Deus no qual descansam seus antepassados, e espaço sagrado com o qual interagem para preservar sua identidade e valores.

    Sofrem, no entanto, sérias ameaças de uma equivocada concepção de desenvolvimento e riqueza que lhes cobiçam as terras para implantar projetos extrativos e agropecuários, indiferentes à degradação da natureza e à destruição de suas culturas.

    Cinco grandes sintomas da crise planetária se manifestam na Amazônia: 1) mudança climática; 2) envenenamento da água; 3) perda da biodiversidade; 4) degradação da qualidade de vida humana e da natureza; 5) conflitos sociais marcados por violência e assassinatos.

    A convocação do Sínodo Panamazônico pelo papa Francisco é uma boa nova para toda a humanidade.

    Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

  • Bispos da Amazônia divulgam Carta em defesa dos povos e da floresta

     

    Na carta elaborada pelos 120 participantes do Encontro e Estudo do Instrumento de Trabalho do Sínodo para a Amazônia realizado em Belém, de 28 a 30 de agosto, os bispos reafirmaram o compromisso com a defesa e cuidado com a vida dos povos e de toda a floresta amazônica.

    Dizem os bispos que “a soberania brasileira sobre essa parte da Amazônia é para nós inquestionável. Entendemos, no entanto, e apoiamos a preocupação do mundo inteiro a respeito deste macro-bioma que desempenha uma importantíssima função reguladora do clima planetário.”

    “Junto com o Papa Francisco, defendemos de modo intransigente a Amazônia e exigimos medidas urgentes dos Governos frente à agressão violenta e irracional à natureza, à destruição inescrupulosa da floresta que mata a flora e a fauna milenares com incêndios criminosamente provocados.”

    Segue a Carta na íntegra:

    Carta do Encontro de Estudo do Instrumento de Trabalho do Sínodo da Amazônia

    Cristo aponta para a Amazônia
    (Paulo VI)

    Reunidos em Belém do Pará, com o objetivo de estudar o Instrumento de Trabalho do Sínodo da Amazônia, nós, bispos, padres, religiosas e religiosos, leigas e leigos das Igrejas amazônicas, como também irmãs e irmãos que compartilham a caminhada ecumênica, queremos manifestar nossas preocupações com a “Casa Comum” e uma missão evangelizadora encarnada, samaritana e ecológica.

    Desde 1952, os bispos da Amazônia se reúnem periodicamente para se posicionar sobre a missão da Igreja na realidade peculiar da Amazônia. “Cristo aponta para a Amazônia” é a expressão profética e programática do Papa São Paulo VI que em 1972 repercutiu no Encontro de Santarém. A nossa Igreja assumiu, então, o compromisso de se “encarnar, na simplicidade”, na realidade dos povos e de empenhar-se para que por meio da ação evangelizadora se tornasse cada vez mais nítido o rosto de uma Igreja amazônica, comprometida com a realidade dos povos e da terra. No encontro de 1990, em Belém-Icoaraci, os bispos da Amazônia foram os primeiros a advertir o mundo para um iminente desastre ecológico com “consequências catastróficas para todo o ecossistema (que) ultrapassam, sem dúvida, as fronteiras do Brasil e do Continente” (Documento “Em defesa da Vida na Amazônia”).

    Novamente reunidos em Icoaraci, Pará em 2016, os bispos da Amazônia dirigiram uma carta ao Papa Francisco pedindo um Sínodo para a Amazônia. Acolhendo o desejo da Igreja nos nove países amazônicos, o Papa convocou em 15 de outubro de 2017 a “Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia”, com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

    A Igreja Católica desde o século XVII está presente na Amazônia preocupando-se com a evangelização e a promoção humana ao mesmo tempo. Quantas escolas, hospitais, oficinas, obras sociais se construíram e foram mantidas durante séculos em todos os rincões da Amazônia. Vilas e cidades se edificaram a partir das “missões” da nossa Igreja. Quanto sangue, suor e lágrimas foram derramados na defesa dos direitos humanos e da dignidade, especialmente dos mais pobres e excluídos da sociedade, dos povos originários e do meio ambiente tão ameaçados. Lamentamos imensamente que hoje, em vez de serem apoiadas e incentivadas, nossas lideranças são criminalizadas como inimigos da Pátria.

    Junto com o Papa Francisco, defendemos de modo intransigente a Amazônia e exigimos medidas urgentes dos Governos frente à agressão violenta e irracional à natureza, à destruição inescrupulosa da floresta que mata a flora e a fauna milenares com incêndios criminosamente provocados.

    Ficamos angustiados e denunciamos o envenenamento de rios e lagos, a poluição do ar pela fumaça que causa perigosa intoxicação, especialmente das crianças, a pesca predatória, a invasão de terras indígenas por mineradoras, garimpos e madeireiras, o comércio ilegal de produtos da biodiversidade.

    A violência, que ultimamente cresceu de maneira assustadora, nos causa horrores e exige também o engajamento da nossa Igreja para que a paz e o respeito, a fraternidade e o amor prevaleçam.

    Defendemos vigorosamente a Amazônia, que abrange quase 60% do nosso Brasil. A soberania brasileira sobre essa parte da Amazônia é para nós inquestionável. Entendemos, no entanto, e apoiamos a preocupação do mundo inteiro a respeito deste macro-bioma que desempenha uma importantíssima função reguladora do clima planetário. Todas as nações são chamadas a colaborar com os países amazônicos e com as organizações locais que se empenham na preservação da Amazônia, porque desta macrorregião depende a sobrevivência dos povos e do ecossistema em outras partes do Brasil e do continente.

    O Sínodo, convocado pelo Papa Francisco, chega num momento crucial de nossa história. Queremos identificar novos caminhos para a evangelização dos povos que habitam a Amazônia. Ao mesmo tempo, a Igreja se compromete com a defesa desse chão sagrado que Deus criou em sua generosidade e que devemos zelar e cultivar para as presentes e futuras gerações.

    Cabe um agradecimento especial à Rede Eclesial Pan-Amazônica/REPAM por todo o esforço dedicado no importante processo de ESCUTA das comunidades e no envolvimento dos diversos segmentos do Povo de Deus, especialmente mulheres e com forte participação das juventudes e dos povos originários.

    Pedimos que rezem por nós, irmãs e irmãos, para que a caminhada sinodal reflita “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (GS 1).

    Que Maria de Nazaré, expressão da face materna de Deus no meio de nosso povo, por sua intercessão, acompanhe os passos da Igreja de seu Filho nas terras e águas amazônicas para que ela seja sinal e presença do Reino de Deus. Que ajude, com sua missão evangelizadora e humanizadora, a dignificar cada vez mais a vida em nossa região.

    Participantes do Encontro de Estudo do Instrumento de Trabalho do Sínodo da Amazônia

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