Artigo

  • “O Sínodo é uma provocação do Papa Francisco por maior atenção à Amazônia”

    Por Luis Miguel Modino.

    Um dos desafios que enfrenta a reflexão teológica é ter uma base na experiência da fé cristã do Povo de Deus, e ser enriquecida por essas vivencias, porque nelas encontra-se claramente a presença das Sementes do Verbo.

    O Sínodo para a Amazônia, com a colaboração da Rede Eclesial Pan Amazônica – REPAM, está tentando trazer essa reflexão para o campo acadêmico. Nos últimos meses, foram organizados diferentes eventos em universidades ao redor do mundo. Nesta quinta-feira, 16 de maio, que a reflexão vai se dar na Universidade Gregoriana de Roma, considerado por muitos o grande centro teológico da Companhia de Jesus, que por outro lado, tem sempre dedicado grandes esforços nesta dimensão essencial vida da Igreja.

    Padre Adelson Araújo dos Santos é professor de Teologia Espiritual na Universidade Gregoriana, ao que se acrescenta o fato de ter nascido e trabalhado na Amazônia. O jesuíta acredita que é necessário buscar um diálogo entre a espiritualidade cristã e as espiritualidades dos povos da Amazônia, superando tempos passados, quando a Igreja veio e impôs o que ela estava carregando, buscando o enriquecimento mútuo, levando à igreja a amazonizar-se, uma atitude que vê mais viável por ocasião do Sínodo para a Amazônia, que considera uma provocação do Papa Francisco para a Igreja e para o mundo girar seu olhar para a região amazônica.

    A Igreja da Amazônia pode ajudar a Igreja universal para compreender como se faz realidade uma Igreja laical, feminina, uma Igreja que quer viver a Eucaristia como algo que pode ser celebrado sem a presença do sacerdote, que em muitas comunidades está presente apenas uma vez por ano.

    Para alguém que nasceu na Amazônia, é jesuíta, a mesma ordem do Papa, professor na Gregoriana, próximo do ambiente vaticano. Desde essa conjuntura, o que significa o Sínodo para a Amazônia?

    Eu também acrescentaria que também trago a minha experiência, não só de ter nascido na Amazônia e de ser da Companhia de Jesus, a mesma ordem do Papa, mas também ter vivido aqui na Amazônia, já depois de ter entrado na Companhia, e ter trabalhado aqui, como padre, como jesuíta, e por tanto ter feito uma caminhada também com a Igreja da Amazônia. É isso que estando hoje tão geograficamente distante da nossa Amazônia, me faz sentir muito comprometido com a nossa região, estando hoje ali perto do Papa e perto de toda a iniciativa que ele teve de convocar o Sínodo como uma forma de chamar a atenção do mundo inteiro, de Igreja também, para a realidade aqui da Amazônia.

    Isso, naturalmente, me motiva, estando lá, a desejar de alguma forma contribuir para que haja mais pontes entre mundos que aparentemente estão tão distantes, não só geograficamente, mas também de culturas, de perspectivas. Eu vivo hoje num mundo eminentemente acadêmico e fico me perguntando como eu posso, sendo alguém daqui da Amazônia, contribuir para que um evento como o Sínodo desperte também o interesse de nossa comunidade estudantil, acadêmica, também dos professores que estão voltados para outros campos de interesse, da teologia, da filosofia, de outras áreas.

    Mas com que a Amazônia possa despertar o interesse deles, para a gente ampliar essa discussão, essa reflexão, naquele sentir, naquela consciência de que o que acontece na Amazônia, depois tem reflexo no mundo inteiro. Vivemos cada vez mais essa consciência da Casa Comum, que o Papa nos lembra. É uma globalização não só da economia, não só das políticas, mas uma globalização também dos efeitos que a natureza sofre e acarreta também, pela mudança drástica que ocorra nela também.

    O Papa Francisco fala muito de escutar os povos, sobretudo escutar os povos indígenas. Como professor de espiritualidade, sabendo que no mundo indígena a espiritualidade é uma questão que marca a vida cotidiana, como é possível levar essa espiritualidade dos povos da Amazônia para um dimensão universal? O que essa espiritualidade pode aportar para a espiritualidade cristã?

    Eu acredito que essa pergunta, ela ainda não tem encontrado todas as respostas, porque nós temos um campo muito rico e aberto à nossa frente para colher mais frutos desse diálogo e desse encontro, ou de um reencontro, no sentido de que agora é um encontro com uma nova postura, com essas espiritualidades, que se encontram nas populações tradicionais, nos povos originários da Amazônia. Já houve um primeiro encontro no passado, na primeira evangelização, que veio junto com a colonização, trazida pelos espanhóis e portugueses. Acho que foi numa visão totalmente diferente da visão que nós temos oportunidade de ter hoje.

    Lá, outrora, tudo o que era visto como uma tábula rasa, um ambiente onde você vinha para oferecer e dar tudo, inclusive a espiritualidade, a visão de Deus, a vivência religiosa. Hoje essa situação mudou a nossa forma de pensar como Igreja, muito no sentido de um diálogo, de um enriquecimento mutuo, de um respeito mútuo pelas culturas e pelas tradições religiosas. Elas também, as espiritualidades, já são vivenciadas aqui na região por milênios, se nós formos atrás das origens das populações amazônicas que estão aqui presentes muito antes da chegada dos primeiros europeus.

    Nesse sentido, acho que há um campo muito rico a ser explorado, no sentido de conhecermos e de percebermos que tem a nos ensinar também, na linguagem do Concilio Vaticano II, das sementes do Verbo que já estão presentes aqui e aonde o missionário que chega para fazer contato e diálogo com essas espiritualidades, ele não vem trazendo, ele vem também para receber. Com o exemplo assim, eu acho que o pouco contato que nós temos com algumas experiências ou algumas espiritualidades com populações indígenas daqui da Amazônia, mas não só, a própria população ribeirinha, os descendentes dos próprios indígenas que já se inculturaram no mundo urbano e que vão dando o tom também do homem amazônico e da mulher amazônica.

    Eu vejo que tem coisas que dão para a gente elencar como caraterísticas. Por exemplo, uma espiritualidade, um profundo respeito, integração com a Mãe natureza, uma harmonia com essa Criação, que se nós formos fazer um paralelo, e eu sendo jesuíta não posso deixar de recordar os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, quando lá no Princípio e Fundamento é dito que o homem é criado para usar de tudo isso que Deus colocou como criação no mundo, mas em vista da construção da sua vocação originária. Tem que ser uma relação de harmonia com essa criação. Isso a gente aprende muito aqui na Amazônia, basta ver que aonde estão presentes as populações indígenas, ela é conservada, preservada, porque eles a vem como uma entidade mística, como um ente que precisa ser respeitado.

    Então, acho que só, digamos assim, acenar para algo que eu acho que a nossa civilização ocidental, a nossa cultura e a nossa também espiritualidade cristã pode encontrar muitos pontos de contato em comum e de enriquecimento. Meu papel, acredito, como professor hoje de teologia espiritual, mas sendo nativo da Amazônia, é de buscar favorecer, construir pontes entre esses dois mundos, entre duas experiências, porque a espiritualidade ela parte sempre de experiências, e não somente de conceitos abstratos. Conhecer mais a experiência de nossos irmãos indígenas e buscar o que isso tem a dizer para a experiência cristã também, de Deus, e da experiência espiritual que nós fazemos.

    Até que ponto, a reflexão em torno ao Sínodo para Amazônia pode ajudar a levar esses conceitos para o mundo acadêmico?

    O grande desejo do Papa Francisco, imagino, quando ele pensou na convocação do Sínodo, entre outras coisas, era uma provocação, no sentido de que, mesmo na universidade, na Europa, tradicionalmente voltada para a formação clerical, presbiteral, para a vida religiosa, também se veja praticamente na obrigação de se questionar, mas o que é que nós, como universidade eclesiástica, pontifícia, temos também a aprender, e eventualmente  contribuir, com a reflexão sobre a Amazônia, com a situação da Amazônia, no sentido da situação ambiental, mas também a situação dos povos que lá vivem, e o que é que nós temos também num diálogo recíproco a transmitir, e receber também, daquelas culturas, daquelas formas de experiência de Deus.

    Também nós, e é o que a gente tenta fazer, e temos que admitir que nós fazemos isso porque fomos provocados pelo Sínodo, porque se não houvesse sido convocado um Sínodo sobre a Amazônia, possivelmente, não posso afirmar mas dificilmente alguém poderia ter a ideia de pensar em organizar um seminário ou um ciclo de debate sobre esse tema, e numa universidade que se encontra tão longe, tão distante da Amazônia.Mas o Sínodo provocou isso, fez com que todos nós, Igreja universal e comunidade acadêmica, também tivesse que se debruçar sobre esse assunto e ir atrás de se informar. É isso que eu vejo, que eu experimento diariamente, de pessoas, até professores e também alunos, que se aproximam de nós perguntando, mas qual é a finalidade do Sínodo, qual a motivação desse Sínodo? Você vê que o Sínodo já está provocando um resultado no sentido de suscitar maior interesse pela região da Amazônia, pelos temas que estão girando em torno da convocação do Sínodo.

    Disse que a teologia espiritual parte da experiência, nem só dos conceitos. Como seria possível levar essas experiências dos pajés, das benzedeiras, de tantos personagens espirituais presentes nas comunidades indígenas, para uma reflexão acadêmica e isso ter um aporte mais significativo para a teologia espiritual cristã e católica?

    O fundamental de tudo é dar oportunidade a essas próprias pessoas, aos agentes, que vivenciam essas outras espiritualidades, dar oportunidade a eles de nos falarem de sua experiência. Acredito que o Sínodo, ele tem estado atento a isso, ao menos aquilo que eu tenho ouvido nas colocações, não só do Papa Francisco, mas dos organizadores do Sínodo.Se tem dito que haverá essa preocupação de dar voz também, não só falar das populações indígenas, deixar que as populações indígenas mesmas possam falar, e ao falar, que falem também das suas espiritualidades, das suas experiências místicas, das suas experiências religiosas, das suas experiências de contato com o divino.

    Como é que elas expressam isso, como é que elas vivenciam isso e, como eu dizia antes, numa atitude de diálogo, de construção, de pontos comuns, estabelecer uns paralelos com a nossa espiritualidade, que tem uma raiz bíblica, que tem uma fé abraâmica, lá na história da Aliança, e que com certeza, havendo essa oportunidade, nós vamos a encontrarmos pontos em comum e vamos também ter um enriquecimento mútuo. Tenho a impressão que o ponto de partida dá voz, dá oportunidade de conhecer. Senão todos nós temos oportunidade de vir à Amazônia e viver aqui por um tempo, e de se inculturar, é de dar oportunidade, por exemplo, a que algumas pessoas daqui, especialmente dessas lideranças que vem dessas culturas, dessas populações, possam também nos falar, possam, seja no Sínodo, seja em outros espaços, comunicar a experiência que eles vivem.

    Aí nossa postura, acredito, é a postura do teólogo, para falar enquanto alguém que vem da área da teologia e de uma área acadêmica, o teólogo que busca ver qual é a linguagem que Deus está passando ali. Deus que já está presente naquela cultura, naquela expressão religiosa, naquela forma de culto, de liturgia, e de se admirar com isso tudo, de ver como é belo essa multiplicidade, essa variedade de expressões que não se anulam, nem concorrem uma com a outra, mas no final das contas a gente vê que todas convergem para a busca de um mundo mais em harmonia, e que provoque também efeitos, reflexo numa sociedade também.

    Desde a Rede Eclesial Pan-Amazônica está se falando da necessidade de amazonizar o mundo, e também poderíamos falar da necessidade de amazonizar a Igreja. Desde esse campo da teologia espiritual, o que poderia significar, quais sãos os desafios que a espiritualidade nos coloca em nossa em frente para amazonizar a Igreja católica?

    É uma expressão interessante, inquietante, que eu também acredito que não temos ainda a resposta ou a compreensão total do que significa amazonizar a Igreja. Mas alguns sinais nos ajudam, quem tem a oportunidade de morar na Amazônia, de passar um tempo, de caminhar com as Igrejas da Amazônia, que tem características muito próprias, quanto ao tamanho das nossas paróquias, quanto a extensão dos nossos rios, quanto ao tempo que se leva para chegar numa comunidade, numa capelinha no interior para assistir a uma missa que às vezes é uma vez por ano, e que você não vai de barco, nem de bicicleta, mas vai numa canoa. Quanto que tudo isso deixa marca na nossa experiência religiosa, na nossa experiência de Deus, e na nossa espiritualidade.

    O tempo não é o tempo das estradas, é o tempo das águas, a liturgia que a gente vive é uma liturgia que ela é muito mais integrada com elementos da nossa própria natureza local, regional. Amazonizar a Igreja é talvez a gente ver tudo isso com olhares de riquezas e não olhares de ameaças para nossa fé, para nossa tradição, porque é o olhar dos primeiros apóstolos, no final das contas, porque se as primeiras comunidades cristãs não tivessem sido abertas a outra manifestações de fé que elas foram encontrando, o cristianismo não teria chegado a ser uma religião tão grande como é hoje, teria ficado reduzido a um grupo de expressão judaica.

    Acho que a Amazônia tem muito a oferecer como riqueza à Igreja desde que seja vista assim, e que nós tenhamos essa abertura de conservar a nossa essência, mas nos deixando amazonizar pelas expressões que são típicas daqui, também nos cantos, nos costumes, em tantas outras formas que os povos da Amazônia expressam sua espiritualidade.

    A Igreja da Amazônia está muito marcada pelos leigos e especialmente pelas mulheres, pelas próprias circunstancias geográficas da região. Essas são ideias que aparecem no Vaticano II e que o Papa Francisco está tentando levar para frente, mesmo com as dificuldades e o enfrentamento com muitos setores da Igreja. O Sínodo quer procurar novos caminhos para a Igreja a partir da realidade amazônica, como fundamentar espiritualmente essa necessidade da Igreja católica se abrir e reconhecer o valor e o protagonismo dos leigos, e especialmente das mulheres, nem só na Amazônia como na Igreja universal?

    Esse é um dos grandes desafios, um desafio que talvez o Sínodo vai propiciar que se volte sobre essa questão, que não é uma questão que se reduz somente à região amazônica, mas que é uma questão que tem a ver com toda Igreja, mas que aqui sobressai, pela própria carência de um número maior de sacerdotes, de presbíteros, e que faz com que a própria necessidade nos leva a aprender a valorizar os diferentes carismas dentro da Igreja, valorizar a presença feminina.Porque mesmo dentro da vida consagrada, a Amazônia é uma região aonde a Igreja se faz presente muito mais pelas religiosas, pelas irmãs de diferentes congregações, que são em geral as primeiras a chegarem nesses lugares mais longínquos, antes mesmo que os padres.

    No campo pastoral, quanto que são as mulheres que estão à frente das pastorais e das comunidades espalhadas por essa imensa Amazônia, porque não há figura ali de um pároco, de um vigário, e são as nossas donas Marias, aquelas mães de família, donas de casa, que também exercem esse papel. Acredito que isso mostra, talvez sinalize soluções que nós podemos encontrar, que vão muito na linha daquilo que já o Concilio Vaticano II nos convidava a implementar na Igreja, uma Igreja de protagonismo dos leigos, uma Igreja onde todos os carismas são valorizados e uma Igreja menos clerical.

    Acho que para isso é preciso toda uma revisão da nossa própria formação presbiteral. E me refiro mesmo àquilo que nós recebermos nos nossos seminários, nas nossas casas de formação.Como que desde o início, um jovem que pensa no caminho sacerdotal, que vê nisso um chamado de Deus, ele tem que ser ajudado a respeitar e a ver como vocação igual e tão importante e rica como a sua também, outros carismas, outros chamados, para que depois ele possa ser enviado a uma comunidade como quer o Papa Francisco, mas na verdade como quer o Evangelho, como um servidor e não como um príncipe, que vai chegar ali para centralizar todo o poder nas suas mãos.

    Isso passa por uma formação, isso passa por um aprendizado que se começa já no período em que o jovem está ainda estudando, se preparando, e que para isso não basta ser dito dentro de uma sala de aula, precisa vivenciar isso em experiências concretas junto com o povo, nas comunidades, porque a formação não se dá só dentro do seminário, ela se dá também no contato direto, aonde o jovem, futuro presbítero, aprende a caminhar ao lado do povo, e não distante e muito menos acima desse Povo de Deus.

    Antes falava de uma realidade que está presente em muitas comunidades da Amazônia, que é a celebração da Eucaristia uma vez por ano. Dom Erwin Kräutler, bispo emérito da Prelazia do Xingú, que está na Amazônia desde 1965, no mês de março, na lição inaugural da Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte, ele fazia algumas propostas de cara ao Sínodo. Uma delas era sobre a celebração da Eucaristia, repetindo uma ideia que ele mesmo colocou para o Papa Francisco em 2014. Ele diz que é preciso encontrar o caminho através de ministérios, que podem ser assumidos inclusive pelas mulheres, para que a celebração da Eucaristia nas comunidades seja algo comum, e não uma coisa que depende da chegada do padre.Como sustentar essa possibilidade desde um ponto de vista teológico e espiritual?

    Sem dúvida que isso aí vai ser matéria de discussão, de reflexão, de debate, e que precisa amadurecer, precisa ouvir e conversar, não só entre os próprios padres, presbíteros, mas ouvir outras vozes, como as próprias lideranças leigas dessas comunidades até chegarmos a um denominar comum que preserve o valor teológico do sacramento da Eucaristia, que é o centro da vida cristã, que é a principal expressão desse encontro sacramental com o Corpo e o Sangue de Jesus. Mas ao mesmo tempo isso possa ser conciliado com a necessidade de abrirmos mais para a participação, especialmente olhando aquelas comunidades sem a possibilidade de poder ter um presbítero, um ministro ordenado, ali com eles.

    Esse é um desafio pastoral para nossa Igreja, como de um lado assegurar os fundamentos da nossa teologia sacramental, que não pode de modo nenhum banalizar o sacramento da Eucaristia, que para nós tem todo um significado, que está muito longe de ser somente um simbolismo, trazer a presença real de Cristo, e como também encontrar nessa presença real de Cristo, um modo que ela também consiga ser presença real no meio dessas comunidades longínquas, perdidas no meio da floresta, nas cabeceiras dos rios, aonde Jesus, com certeza, quer chegar e quer estar como presença real ali. A Igreja tem a missão de descobrir novos ministérios, novas formas de como fazer esse pão da vida chegar também a essas pessoas, que elas não sejam privadas disso.

  • CPT, em MG, 40 anos de luta por justiça agrária ao lado dos/as camponeses/sas

    Por frei Gilvander Moreira[i]

    No Brasil, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) nasceu em junho de 1975, em plena ditadura militar-civil-empresarial. Em Minas Gerais, a CPT foi criada em 1979. Em 2019, a CPT-MG celebra 40 anos de luta por justiça agrária ao lado dos camponeses e das camponesas. Segundo Ivo Poletto, o primeiro secretário da CPT, “os verdadeiros pais e mães da CPT são os peões, os posseiros, os índios, os migrantes, as mulheres e homens que lutam pela sua liberdade e dignidade em uma terra livre da dominação da propriedade capitalista” (POLETTO, 2015)[ii]. A CPT iniciou sua atuação na Amazônia acompanhando pastoralmente a luta dos camponeses posseiros. O fato de estar vinculada à CNBB[iii] contribuiu para a CPT defender as/oscamponesas/es da repressão imposta pela ditadura militar. Já nos primeiros anos, a CPT se tornou ecumênica, porque dela participavam camponesas/es de várias igrejas e também porque incorporou agentes de outras igrejas cristãs. Ao longo de quatro décadas, a atuação da CPT ampliou dos posseiros para muitas outras expressões do campesinato. A CPT mantém uma Campanha Permanente contra o Trabalho Escravo lutando pela libertação dos “peões”, submetidos, muitas vezes, a condições análogas à da escravidão.

    O objetivo maior da existência da CPT é ser um serviço pastoral à causa dos/as camponeses/as, sendo um suporte para a sua organização. A CPT os acompanha, não cegamente, mas com espírito crítico e com compromisso eclesial e político (CPT, 1990).[iv] A defesa dos direitos humanos dos camponeses permeia toda a atuação da CPT. Por isso, a CPT é também uma entidade de defesa dos Direitos Humanos: uma Pastoral dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras da terra.[v]A CPT está organizada em todo o Brasil em 21 regionais e contribuiu na criação de muitos movimentos sociais camponeses. As lideranças históricas do MST são unânimes em reconhecer a importância da CPT na criação do MST enquanto movimento em nível nacional, conforme asseverou João Pedro Stédile em reiteradas ocasiões. Bernardo Mançano Fernandes registrou uma dessas falas de Stédile no livro Brava gente: A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil: “O surgimento da CPT, em 1975, em Goiânia (GO), foi muito importante para a reorganização das lutas camponesas. Num primeiro momento ela reuniu os bispos da região amazônica, que percebiam o altíssimo grau de violência cometida contra os posseiros das regiões Norte e Centro-Oeste do país. […] Outro aspecto importante, com o surgimento da CPT, é o pastoral. […] A CPT foi a aplicação da Teologia da Libertação na prática, o que trouxe uma contribuição importante para a luta dos camponeses pelo prisma ideológico. Os padres, agentes pastorais, religiosos e pastores discutiam com os camponeses a necessidade de eles se organizarem. A Igreja parou de fazer um trabalho messiânico e de dizer para o camponês: “Espera que tu terás terra no céu”. Pelo contrário, passou a dizer: “Tu precisas te organizar para lutar e resolver os teus problemas aqui na Terra”. A CPT fez um trabalho muito importante de conscientização dos camponeses. Há ainda mais um aspecto que também julgo importante do trabalho da CPT na gênese do MST. Ela teve uma vocação ecumênica ao aglutinar ao seu redor o setor luterano, principalmente nos estados do Paraná e de Santa Catarina. Por que isso foi importante para o surgimento do MST? Porque se ela não fosse ecumênica, e se não tivesse essa visão maior, teriam surgido vários movimentos. A luta teria se fracionado em várias organizações. […] A CPT foi uma força que contribuiu para a construção de um único movimento, de caráter nacional” (STEDILE; FERNANDES, 2005, p. 19-21)[vi].

    A vinculação do MST com a CPT é histórica. O trabalho de base feito pela CPT de 1975 a 1984 foi imprescindível para a criação do MST. Em Minas Gerais, a CPT fez o trabalho de base que viabilizou a 1ª Ocupação do MST em MG, em fevereiro de 1988: Aruega em Novo Cruzeiro. Para Stédile, “A CPT, lá nos primórdios de 1975 a 1984, ia para o interior fazer o trabalho de base e dizia assim: Deus só ajuda a quem se organiza, não pensem que Deus vai ajudar vocês se ficarem só rezando” (STÉDILE, 1997, p. 87-88)[vii].

    Ao longo de sua história, a CPT realizou quatro congressos nacionais. O I aconteceu em Bom Jesus da Lapa, BA, em 2001 com otema: “Terra, água, direitos: eis o tempo jubilar”. Foi definida a terra como espaço de vida, não simplesmente como área de produção; a água como direito natural e inalienável que não pode ser reduzida a mercadoria; e a pessoa humana como sujeito de direitos e como necessárias e legitimas as várias formas de luta para garantir estes direitos.[viii] Em 1977, cerca de 120 camponeses da Bahia foram até o Santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, pedir forças espirituais ao Bom Jesus e denunciar sua luta desesperada contra a grilagem de suas terras. Assim se deu a origem das Romarias da Terra no Brasil. Em julho de 2018, em Bom Jesus da Lapa, BA, aconteceu a 41ª Romaria da Terra e das Águas do Estado da Bahia. Em Minas Gerais, em 2018, realizamos a 21ª Romaria das Águas e da Terra do Estado de Minas Gerais, na cidade de Lagoa da Prata, no centro-oeste de Minas, na Diocese de Luz.

    Nos 30 anos da CPT, o II Congresso Nacional da CPT foi realizado em 2005, na Cidade de Goiás, GO, com o lemaFidelidade ao Deus dos Pobres, a serviço dos povos da terra”. “Podemos afirmar, com todas as letras, que, em muitos casos, as terras do agronegócio intensivo e extensivo, não cumprem a necessária e obrigatória função social, exigida pelo art. 186 da Constituição Federal” (CARTA FINAL do II CONGRESSO DA CPT, 2006, p. 15).Na Plenária do II Congresso da CPT, o Sr. Sebastião, camponês cearense, 67 anos, gritou com entusiasmo: “Novos céus e nova terra a gente é quem faz, com a nossa prática!” (CARTA FINAL, 2006, p. 17). Foi acordado no II Congresso da CPT que “a reforma agrária que ainda faz sentido, e pela qual não abrimos mão de continuar lutando, é a que, além de democratizar a propriedade da terra, reestruture ecologicamente o território, para potencializar os benefícios civilizatórios do campesinato atual” (II CONGRESSO DA CPT, 2006, p. 26). O agronegócio, enquanto braço da fase atual do capitalismo no campo, “afeta duplamente os assalariados rurais. Primeiro, tira-lhes a terra, ao tomar-lhes a que têm ou ao dificultar-lhes o acesso à terra que eles nunca tiveram. Segundo, superexplora (destaque nosso) o seu trabalho “livre”, em condições de crescente precarização, até a escravidão” (II CONGRESSO DA CPT, 2006, p. 28).

    O III Congresso Nacional da CPT aconteceu em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, em 2010, com o tema: “Biomas, Territórios e Diversidade Camponesa” e o lema: “No Clamor dos Povos da terra, a Memória e a Resistência em Defesa da Vida.” No III Congresso da CPT enfatizou-se uma cosmovisão ecológica integral sobre a Terra, que afirma: “O planeta no qual vivemos se comporta como ser vivo, tem sua alteridade em relação ao ser humano, precisa de sua própria cobertura vegetal para respirar, de uma determinada média de temperatura para abrigar a atual comunidade da vida, de seu ciclo de águas, enfim, tem seu próprio metabolismo, e que o ser humano é parte deste metabolismo, como tudo que existe. Pensar que temos o controle sobre a Terra é uma ilusão da arrogância humana. Nós dependemos da Terra e das condições que ela nos oferece para viver. Somos parte integrante desta imensa vida e temos que aprender que nosso existir é fruto do gigantesco milagre da evolução e da interação de todos os elementos que vêm acontecendo há bilhões de anos” (III CONGRESSO DA CPT, 2010, p. 20).

    O IV Congresso Nacional da CPT foi realizado, em Porto Velho, RO, em 2015 com o tema/lema: “Faz escuro, mas eu canto: memória, rebeldia e esperança dos pobres do campo.” Celebramos os 40 anos de atuação da CPT no Brasil e assim nos expressamos na Carta Final: “Com as mãos cheias de esperança, convocamos os povos originários e o campesinato em suas mais diversas expressões: quilombolas, pescadores e pescadoras artesanais, ribeirinhos, retireiros, geraizeiros, vazanteiros, camponeses de fecho e fundo de pasto, extrativistas, seringueiros, castanheiros, barranqueiros, faxinalenses, pantaneiros, quebradeiras de coco-de-babaçu, assentados, acampados, peões e assalariados, sem-terra, junto com favelados e sem-teto, para fortalecer estratégias de aliança e de mobilizações unitárias.Convocamos também igrejas, instituições e organizações para reassumirmos um processo urgente de MOBILIZAÇÃO REBELDE E UNITÁRIA pela vida, que inclua a defesa do planeta TERRA, nossa casa comum, suas águas e sua biodiversidade.Com o Papa Francisco reafirmamos que queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, na nossa realidade mais próxima, uma mudança estrutural que toque também o mundo inteiro.Se no passado a escuridão não nos calou, mas acendeu em nós a esperançosa rebeldia profética, hoje também ela nos impulsiona a continuar a luta ao lado dos povos e comunidades do campo, das águas e das florestas, em busca de uma terra sem males e do bem viver” (CARTA FINAL do IV Congresso da CPT).

    Em Minas Gerais, ao longo de 40 anos, a CPT contribuiu para a conquista de 412 assentamentos de reforma agrária para cerca de 20 mil famílias em cerca de 900 mil hectares;animou a criação de Sindicatos de Trabalhadores Rurais autênticos;estimulou oposição sindical quando necessário; combateu trabalho escravo; animou a criação e o fortalecimento de grupos de base, de associações e de cooperativas de pequenos produtores na linha da agroecologia e nos últimos 15 anos está também atuando na resistência diante dos grandes projetos do capital e priorizando a organização e a luta dos Povos e Comunidades Tradicionais. Porém, celebrar 40 anos da CPT-MG, em 2019, em plena ascensão do fascismo, dos militares e de falsos pastores ao poder deve ser tempo de resgatar todas as lutas de 1979 a 2019 para lutarmos de modo emancipatório nos próximos 40 anos, de forma profética e revolucionária.

    Belo Horizonte, MG, 14 de maio de 2019.

    Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.

    1 – Vem aí os 40 anos da CPT-MG (1979 a 2019): Tributo a Alvimar e Tiãozinho, da CPT/MG. 21/11/2018https://www.youtube.com/watch?v=y7_pi5MAHXY

    2 – CPT/MG: 40 ANOS, 1979 a 2019 – Joaquim Nicolau: Luta que mudou vidas. 1ª Parte – 07/3/2018. https://www.youtube.com/watch?v=67luedDCNHc

    3 – CPT/MG: 40 ANOS, 1979 a 2019 – Joaquim Nicolau: Uma vida de luta por direitos/2ª Parte/ 07/3/2018. https://www.youtube.com/watch?v=29Iddb-pfxg

    4 – CPT/MG: 40 anos, 1979 a 2019. Celso: Uma vida de luta e resistência. 1ª Parte. 10/3/2018.
    https://www.youtube.com/watch?v=jGxDgZVKYLY

    5 – CPT/MG: 40 anos de luta – 1979 a 2019 – Celso fez história na CPT – 2ª Parte – 10/3/2018.
    https://www.youtube.com/watch?v=EvTd8yXk5QY#7s8d6f87

    NOTAS:

    [i] Padre, doutor em Educação, bacharel em Filosofia e Teologia, mestre em Ciências Bíblicas; agente da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III

    [ii] Cf. “CPT – 40 anos caminhando com o povo da terra” no link http://cptnacional.org.br/index.php/publicacoes/noticias/cpt-40-anos/2645-cpt-40-anos-caminhando-com-o-povo-da-terra.

    [iii] Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

    [iv] Cf. COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Compromisso Eclesial e Político da Comissão Pastoral da Terra. 4ª Ed. São Paulo: Loyola, 1990.

    [v] Cf. http://www.cptnacional.org.br/index.php/quem-somos/-historico .

    [vi] STÉDILE, João Pedro; FERNANDES, Bernardo Mançano. Brava gente. A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. 3ª edição. Editora Fundação Perseu Abramo, 2005.

    [vii] Entrevista com João Pedro Stédile. In: ESTUDOS AVANÇADOS. O MST e a questão agrária. São Paulo: IEA, v. 11, n. 31: 69-97, 1997.

    [viii] Cf. http://www.cptnacional.org.br/index.php/acoes/congressos/i-congresso-da-cpt/2424-i-congresso-nacional-da-cpt .

     

     

  • Os opositores de Francisco também estão no Brasil?

    São dias difíceis para a Igreja Católica. Além de graves problemas internos, como os escândalos relacionados aos abusos sexuais e a pedofilia, envolvendo até padres e bispos, temos hoje poderosas forças contrárias à sua missão fundamental – O seguimento de Jesus de Nazaré, a fidelidade ao Evangelho e o anúncio do Reino de Deus. Estes grupos estão cada vez mais ousados, explícitos, acessando recursos financeiros abundantes. Os que desejam ver o catolicismo distante das grandes questões de nossa época e omisso em relação as mazelas de nosso mundo estão cada vez mais inquietas, dentro e fora das sacristias e dos salões paroquiais.

    Em escala internacional voltam-se contra aquele que, liderando a “Barca de Pedro”, aponta seu leme para outra direção. Hoje são muitas vozes dissonantes e descontentes que se voltam contra Francisco. Vozes estas que não se conformam com o protagonismo do Papa em escala global numa época de apequenamento das lideranças mundiais.Atualmente, temos um mundo em crise multifacetada, e parte dela é provocada pelos que gostariam de ver Bergoglio morto ou recluso em um convento na Patagônia, bem no fim do mundo.

    Nestes tempos de gravíssimos problemas humanitários em todo mundo, crise migratória sem precedentes (busquem informações sobre o campo de Moria, na ilha de Lesbos – Grécia, por exemplo), severos danos ambientais e problemas econômicos globais, o Bispo de Roma, o Papa das periferias desponta como um gigante em meio a presidentes e ministros de baixíssima estatura moral, que politicamente se comportam como ratos. Em condições normais, Bergoglio já seria grande. Na atual conjuntura, parece ser a único a se portar comoum verdadeiro estadista.

    Por causa da ênfase que coloca na misericórdia, por servir aos pobres, por se colocar em posição de diálogo e escuta, Francisco incomoda segmentos no interior da Igreja. Cheios de si, consideram-se arautos da moralidade cristã, cruzados da contemporaneidade, inquisidores da fé alheia. Publicamente se comportam como ressentidos cheios de recalque. Destilando seu veneno que nada tem a ver com o Evangelho, parecem queestão acertando as contas contra todos os que não adotam seu estilo de vida hipócrita e nem a sua moral de sepulcros caiados. Vociferam contra os que rejeitam suas liturgias pesadas e escravas de uma hipertrofia de formalismos rituais,de adereços, de panos e tecidos.

    Dentro da Igreja também resistem ao magistério do Papa aqueles que entendem a fé como catarse emocional. Preocupam-se apenas com melosas melodias, com louvores intimistas, parecendo muitas vezes negar o sentido mais profundo da cruz. Preferem esperar do céu um poder mágico de cura imediata para os males do corpo e as carências da alma.

    Em ambos os casos, são saudosos de tempos passados nos quais se entendia o Cristianismo como cristandade. Onde autoridades religiosas determinavam a vida civil. Ou radicalizam elementos do pentecostalismo ou se agarram a uma visão tridentina de Igreja, quando não sincretizam contraditoriamente essas coisas. São integristas, tridentinos ou pentecostais-tridentinos. Flertam com a intolerância religiosa e com o fanatismo cego. São fundamentalistas católicos (infelizmente eles existem…), catholichaters, ou catolibãs. Foi desse meio que saiu um manifesto com 1500 signatários pedindo aos bispos que declarem o Papa Francisco como herege e que ele seja destituído de suas funções. Usam a cruz como arma e desejam poder reinstaurar o tribunal da Santa Inquisição.

    Com efeito, aqueles que preferem uma Igreja pentecostal-tridentina não parecem muito preocupados com o fundamento central da mensagem dos Evangelhos, a Boa-Nova do Reino de Deus. Mais importante para estes são os formalismos, as normas, os artigos do Direito Canônico, as rubricas na liturgia ou o apelo ao êxtase e à catarse emocional. Escolhem o conforto das sacristias e das casas paroquiais ao calor das periferias e do contato humano. Estão mais preocupados em condenar e em caçar hereges do que com a acolhida, o diálogo, a escuta e a misericórdia. Preferem se parecer com cruzados medievais do que ser como os “Franciscos”: o de Assis, no passado; e o de Roma, hoje em dia. Desprezam o conhecimento da Fé e idolatram a ignorância vazia dos fundamentalistas.

    Na esfera política, a oposição a Francisco é cada vez mais explícita e articulada. Os que se opõem eclesialmente ao Bispo de Roma ou financiam ou estão cada vez mais próximos dos inimigos políticos do Pontífice e da Igreja. Um largo espectro político que vai de ultraliberais a neofascistas, passando por conservadores de todas as colorações, se antepõe ao magistério do Sucessor de Pedro.

    Nesse ambiente, movimentando-se por detrás desse conservadorismo, articulando vozes, ideias e financiamento contra a liderança do Sucessor de Pedro, está a nefasta figura de Steve Bannon. O mesmo operador que, por detrás da manipulação de ideias via aplicativo de mensagens, e usando mentiras escandalosas (as “fake news”), provocou a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos.Importando para a política sofisticados mecanismos capazes de analisar grande quantidade de dados no mercado financeiro, Bannon percebeu que essa tecnologia poderia traçar perfis psicológicos das pessoas. Com tais informações, seria possível construir um determinado tipo de mensagem, capaz de provocar uma certa forma de histeria coletiva e de hipnose política, induzindo a população a apoiar determinado perfil político. Esse tipo de mecanismo perverso também foi usado nas eleições brasileiras de 2018 (lembram-se do kit gay?), beneficiando o atual Presidente da República, Jair Bolsonaro.

    Recentemente, a imprensa italiana noticiou que Bannon consideravaFrancisco um inimigo, e que orientou autoridades do governo da Itália a criticarem o Papa. Não por acaso, Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro italiano, apareceu em público dizendo que as posições papais sobre os imigrantes eramequivocadas, e vestiu uma camisa na qual estava escrito “Meu Papa é Bento”. Cardeais (como o “esvoaçante” Raymond Burke) e membros da Cúria Romana também hoje cerram fileiras nas ideias e no dinheiro de Steve Bannon. Considerando as relações muito próximas dessa figura sombria com o grupo que hoje governa o Brasil, nada impede de acreditarmos que a “primeira família” esteja inscrita nesse esforço anti-Bergoglio.

    Se considerarmos que muitos católicos apoiaram Bolsonaro, estes avalizaram uma figura que adota posturas extremamente opostas as posições de Francisco. Além disso, é aliado de indivíduos e setores que fazem oposição ao Papa. Dentro e fora da Igreja. Isso nos coloca diante de uma enorme contradição: Aquelas pessoas e grupos que se consideram mais católicos do que a média, mais fiéis aos ensinamentos da Igreja, mais devotos ajudaram a eleger alguém que é aliado a quem mais se opõe ao Bispo de Roma. Exatamente porque ele age com fidelidade ao Evangelho. E também porque Francisco tenta retomar o caminho de São João XXIII e Paulo VI, que se perdeu após um longo inverno de 35 anos…

    Hoje nos encontramos em uma conjuntura politicamente complicada e muito desfavorável para o povo de Deus em geral, sobretudo para os mais pobres e esquecidos. Neste contexto, tais bloqueios ao magistério papal constituem um gravíssimo empecilho para que a Igreja se lance em direção às periferias existenciais. Mais que isso, aqueles que “torcem o nariz” para o Pontífice impedem, neste momento grave da vida nacional, o exercício da missão profética da Igreja, a de denunciar as injustiças e anunciar o Reino de Deus.

    No contexto brasileiro, silenciar os ensinamentos de Francisco representa contribuir (ainda que indiretamente) para o ódio como arma política, para a violência como prática social e para aumentar a dor daqueles que mais sofrem neste momento. Em outras palavras, trata-se de negar a essência fundamental do seguimento de Jesus: O Amor que se traduz na construção da Paz enquanto fruto da Justiça, a partir do clamor dos pobres.

    É nesse momento dramático para o mundo, para o Brasil e para a Igreja que acontece as eleições para a CNBB, dentro da sua assembleia anual. Aqueles que dirigirão a mais antiga e pioneira conferência episcopal terão a responsabilidade de conduzir o rebanho católico em meio a turbulências e crises pelos próximos 4 anos. Até agora os bispos ainda não se manifestaram sobre a gravíssima acusação feita ao Papa. Como a reunião do episcopado ainda não acabou, ainda podemos contar que alguma manifestação de apoio há de ser feita. Contudo, não podemos deixar de nos perguntar se, caso estivéssemos na época de Wojtyla ou Ratzinger, esse silêncio estaria acontecendo? Será que as vozes dissidentes em relação ao Bispo de Roma resolveram “sair do armário”?

    A oposição à Francisco na Igreja do Brasil até há pouco se movimentou silenciosamente. Se olhássemos superficialmente, “por alto”, nãoseria possível perceber a sutileza de seus passos. Mas ela já estava presente, embora atuasse se esgueirando pelas sombras. Ela agia lentamente, mas com força o suficiente para represar a correnteza das mudanças propostas pelo bispo de Roma em terras brasileiras.

    Não nos cabe apontar nomes, mas podemos indicar onde se fazem presentes e como estão embarreirando o magistério de Francisco no Brasil.  Aqui podemos levantar alguns eventos recentes que, para quem entende um pouco dos sutis jogos de poder eclesiásticos, soa constrangedor para a Igreja do Brasil. Segmentos conservadores da Igreja foram responsáveis por trazer um dos maiores opositores do Papa ao Brasil nesses dias. Gerhard Müller, cardeal alemão, veio ao Brasil a pretexto de participar de debates acadêmicos e de lançar coletâneas das obras do Bispo Emérito de Roma.Com apoio de alguns dos prelados das maiores dioceses brasileiras, o Cardeal Müller esteve em eventos supostamente acadêmicos em 4 cidades brasileiras, sem contar missas e encontros com padres e bispos.

    O ex-prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé havia publicado em janeiro um “manifesto de fé”, no qual ataca frontalmente o magistério de Francisco, sobremaneira a exortação papal AmorisLaetitia. Ora, aqueles que trazem esse cardeal ao Brasil, custeando suas despesas, recebendo-o em cúrias e centros pastorais universitários, resolveram expor publicamente seu desagrado com o Bispo de Roma? Será que essa articulação de oposição ao Sucessor de Pedro já não está em curso, interferindo até em algumas nomeações episcopais recentes? Vale ressaltar que a divulgação de obras teológicas não é crime e nem pecado. Mas diante da atual conjuntura eclesial e de uma assembleia episcopal tão importante, esse momento é o mais adequado?

    Houve cardeal brasileiro escrevendo a todos os padres de sua diocese, “convidando-os” a assistirem as preleções de dom Müller. Isso às vésperas da assembleia da CNBB!!!! Aliás, o bispo alemão esteve no Santuário Nacional de Aparecida na noite anterior ao começo da reunião anual dos bispos. Embora o prelado alemão não tenha se pronunciado em público sobre a cúpula da Igreja, o que pode ter sido dito em conversas de bastidores? Qual o simbolismo de se fazer um evento sobre a teologia do Bispo Emérito de Roma as vésperas de um encontro importante, que definirá os rumos do catolicismo brasileiro para os próximos quatros anos? Seria infundado suspeitar que todo esse jogo de cena com o cardeal Müller não quis indicar outro caminho à CNBB, na contramão do Bispo de Roma? Será que já não começaram as articulações para o conclave que elegerá o sucessor de Francisco? Estarão os inimigos do Papa articulando um futuro Pio XIII, Bento XVII ou João Paulo III? Se isso estiver de fato ocorrendo, quem estará garantindo os recursos desse lobby?

    Mesmo nos piores momentos das relações entre a Santa Sé e a CNBB nos anos 1980, bispos como Paulo Evaristo Arns, Aloísio Lorscheider, Waldir Calheiros, Luciano Mendes de Almeida, verdadeiros homens de Igreja, tiverem esse tipo de comportamento. Outros tempos… Por isso, soa ostensivo demais dar voz ao magistério de um Papa Emérito – ainda que tenha sido eminente teólogo – mas que prometeu se retirar para uma vida monástica e silenciar sobre os assuntos da Igreja. Aliás, Ratzinger quebrou seu juramento e publicou um artigo em uma revista clerical alemã culpando a teologia moral do Concílio Vaticano II pelos escândalos sexuais na Igreja. Acusa injustamente os religiosos homossexuais e as mudanças de costumes do final da década de 60 do século XX pela pedofilia na Igreja. O Bispo Emérito de Roma comete grave erro histórico, uma vez que crimes sexuais infelizmente já eram cometidos na Igreja no século muito tempo antes do Concílio.

    Existem questões muito sérias que envolvem essas eleições para a direção da CNBB. Bispos pouco afeitos ao magistério de Francisco podem desautorizar a ação pastoral de entidades importantes na defesa dos direitos humanos. Sabemos que isso agradaria bastante ao governo federal. Portanto, sabendo do histórico de Steve Bannon de sua influência em eleições e de suas articulações político-eclesiais, resta-nos confiar que, as vésperas da mais importante eleição para a direção da CNBB na história recente, mensagens subliminares, conteúdos falsos e inverdades enviadas por aplicativos de mensagens não influenciem equivocadamente nosso episcopado. Da mesma forma, apesar do grande receio que preenche muitos corações, que as fake news dos catolibãs não interfiram no próximo conclave.

    Que Francisco continue a frente da Igreja por muito tempo. Que seja tempo suficiente para terminar sua missão e reformar a Igreja. Vida longa ao Papa!

    * Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor do IFRJ e participante do Movimento Fé e Política.

  • O Voo da Primavera

    Apresentação publicada por IHU em 30 Abril 2019:

    luta pela terra e pelo território representam um capítulo longo e violento da história brasileira. Essa história, que passa pelo avanço do capitalismo no campo, esteve permeada pela expropriação material e simbólica dos povos indígenas, das populações tradicionais e comunidades camponesas, além de ter resultado em milhares assassinatos durantes os conflitos no campo. Em contrapartida, o povo organizado em movimentos sociais com apoio de diferentes organizações tem construído dialeticamente uma base sólida de luta e resistência. Nesse processo estiveram imersos, direta ou indiretamente, vários sujeitos e instituições. Alguns setores da Igreja, a partir de grupos ligados à concepção da Teologia da Libertação, compuseram a raiz da luta a terra, pelo território, pelo povo do campo e da floresta.

    Dom Tomás Balduino, que atuou como Bispo na Cidade de Goiás entre 1967 e 1998, foi um personagem importante da resistência com o povo. Defendeu durante toda a vida que “Direitos não se pedem de joelhos, mas se exigem de pé”. O longa “O Voo da Primavera” representa um fragmento da luta pela terra e pelo território no país, revelando a resistência indígena, quilombola, camponesa e tendo como linha condutora o trabalho de Dom Tomás Balduino.

    Tomás Balduíno, nasceu em 31 de dezembro de 1922, em Posse, Goiás e faleceu e 02 de maio de 2014. Pertenceu à Ordem dominicana.
    Segue o vídeo (duração: 1:37:26)

     

  • De como destruir um país em pouco tempo

    “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer”.
    (Bolsonaro, em visita aos EUA, 17/03/2019). 

    O Brasil é um país rico, mas profundamente injusto. Temos recursos suficientes para atender às necessidades de toda a população, mas eles estão distribuídos de forma muito desigual: muito para poucos e pouco para muitos.

    A construção de um país é um processo longo, de décadas, de séculos. Destruí-lo, porém, é bem mais rápido. Basta tomar uma série de medidas.

    Comece por cortar progressivamente os recursos para a saúde e a educação públicas (EC do Teto dos Gastos), sem mexer nos gastos públicos para o sistema financeiro (que beneficiam apenas os mais ricos).

    Retire os direitos trabalhistas conquistados nos últimos cem anos – especialmente a partir da década de 1940 – e aumente ao mesmo tempo os direitos para os empregadores (os patrões) (a assim chamada “Reforma Trabalhista”). Ofereça aos milhões de desempregados a seguinte opção: ou emprego ou direitos – as duas coisas não podem andar juntas.

    Num país em que a universidade pública é responsável por 95% da produção científica em nível internacional, corte 30% dos recursos para a universidade pública, reduza o investimento para a ciência e a pesquisa, e ataque sistematicamente os professores, colocando-os sob suspeição e estimulando alunos a denunciá-los.

    Promova a destituição dos direitos que foram conquistados depois de muitas décadas de luta: reduza ou inviabilize a aposentadoria dos mais pobres e transfira estes recursos para os cuidados de Fundos de Pensão privados (a assim chamada “capitalização”). Acabe com o Sistema de Previdência, mas chame-o de Reforma.

    As empresas estatais, inclusive as de serviço público, levam décadas para se firmar, se expandir e gerar lucro (a serviço de todos). Em 2018, cinco grandes estatais brasileiras lucraram 70 bilhões de reais (em um ano). Segundo o chefe da economia do governo, as privatizações gerariam em 2019 algo como 75 bilhões (uma única vez). Pois bem, privatize tudo o que for público, inclusive as estatais mais lucrativas. Assim, o lucro deixará de vir para o público e irá apenas para o privilegiado comprador privado.

    Esqueça a política externa desenvolvida durante anos pela diplomacia brasileira (o Itamarati) e passe a estimular a subserviência e a submissão ao “Grande Irmão do Norte” e a se solidarizar com regimes pouco ou nada democráticos (Hungria, Turquia, Filipinas…).

    Lance sistematicamente ataques ou suspeitas sobre os meios de comunicação formais e estimule versões falsas (fake news), negue os fatos e afirme inverdades como se fossem realidade, divulgue vídeos falsos, coloque em dúvida a verdade e desestimule a investigação sobre o que de fato aconteceu.

    Promova difamações, desmoralize seus adversários, impulsione ataques digitais àqueles de quem você discorda, coloque estas pessoas sob ameaça de seus correligionários.

    Num país que tem mais de 60 mil homicídios por ano (matança superior à de países em guerra), estimule o assassinato como meio de solução de conflitos: proteja as milícias urbanas armadas (máfias privadas que lucram sobre a população de áreas que elas controlam), desresponsabilize policiais que eventualmente matem e estimule grandes proprietários rurais a matarem aqueles que eles considerarem “invasor” (ou seja, qualquer pessoa ou grupo que eles não apreciem ou cujas terras – indígenas, pequenos agricultores – queiram tomar).

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    Agora, verifique se a indústria está produzindo mais, se o comércio está em expansão, se a economia está indo bem, se o salário está aumentando, se o emprego está crescendo, e a população de rua nas cidades está diminuindo.

    Se nada disto estiver ocorrendo, é sinal de que o processo de destruição do país está dando certo.

    Não podemos permitir que esta destruição continue.

     

  • Filme derruba mitos que opõem preservação e agropecuária

    Observatório do Clima produziu um documentário, Fatos Florestais, que a partir de dados científicos sólidos derruba uma série de mitos propagados pela mídia comercial e pelo agronegócio. A seguir a publicação do Observatório do Clima de 29.04.2019 e o vídeo (13 min)

    Fatos Florestais: vídeo desfaz mitos que opõem produção à conservação no país

    • Com participação de Tasso Azevedo e Camila Pitanga, filme cruza duas bases de dados para mostrar que país tem espaço para ampliar a proteção às florestas e a agropecuária

    “O Brasil é o país do mundo que mais preserva.” “As áreas protegidas e terras indígenas são tantas que não sobra espaço para expandir a agropecuária.” Essas afirmações vêm ganhando espaço no discurso público no Brasil, em especial depois que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência. No entanto, elas se baseiam em uma série de distorções de dados e equívocos propositais, típicos de fake news. Um vídeo lançado nesta segunda-feira (29) busca esclarecer o público e desfazer esses mitos.

    Em formato de conversa entre o engenheiro florestal Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, e a atriz Camila Pitanga, o filme Fatos Florestais resulta de uma parceria entre o OC, a Produtora Imaginária e o cineasta Fernando Meirelles, da O2 Filmes. Em 13 minutos, ele expõe dados sobre uso da terra e conservação no Brasil a partir do cruzamento de duas grandes bases públicas de informações: o projeto MapBiomas, que mapeou todas as alterações da cobertura vegetal no Brasil nos últimos 35 anos, e o Atlas da Agropecuária Brasileira, criado pela Esalq-USP e pelo Imaflora, que mapeou a situação fundiária do país inteiro. Além disso, recorre a dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), da Embrapa e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

    O espectador descobrirá, por exemplo, que o Brasil está longe de ser o país do mundo com maior área de florestas (esse título é da Rússia), com maior proporção de seu território sob florestas (há 20 países com mais floresta que o Brasil proporcionalmente) ou com maior proporção de áreas protegidas (o país está na média mundial e tem menos área protegida que a Alemanha e vários países sul-americanos). Além disso, quando se exclui a Amazônia – que abriga apenas 10% da produção agrícola do país – a fração do território nacional protegida não chega a 5%.

    Outro mito desfeito é o de que falta terra para produzir no Brasil. O país tem a terceira maior área de produção do mundo, 245 milhões de hectares, perdendo apenas para China e Estados Unidos, e mais área agrícola por habitante que ambos. A afirmação de que o agricultor brasileiro é um grande conservador de florestas tampouco se sustenta: os dados mostram que o desmatamento em propriedades agrícolas nos últimos 35 anos foi de 20%, contra 0,5% em áreas protegidas.

    “Em tempos difíceis de distorções de dados sobre a questão agrária, sentimos urgência em reagir e contribuir com dados científicos. É preciso preservar e utilizar com inteligência os imensos potenciais do Brasil”, disse a diretora do filme, Gisela Moreau, da Imaginária.

    “Espero que esse vídeo ajude a despertar olhares para que tenhamos uma pauta progressista para o meio ambiente”, disse Camila Pitanga.

    Tasso Azevedo afirma que a principal mensagem do vídeo é mostrar que não existe oposição entre produção de alimentos e conservação. Ele cita o exemplo do Estado de São Paulo, onde a área agrícola cresceu sobre pastagens nas últimas décadas, sem desmatamento adicional – na verdade, a área de florestas no Estado sofreu um ligeiro aumento. “Há uma área imensa de pastos mal aproveitados ou abandonados no país que podem ser usados para mais do que dobrar a nossa produção de alimentos”, diz. “É preciso usar o território com inteligência e aumentar a produtividade. E nisso nossos agricultores são muito bons.”

    Para Fernando Meirelles, que coproduziu o vídeo, faz sentido a busca por rentabilidade na enorme área do Brasil aberta para a produção, mas, seja qual for o projeto para o setor rural, ele precisa partir da ideia de que as florestas precisam ser preservadas. “Está na hora de o Brasil investir seriamente em tecnologia para a economia da floresta”, afirmou. “A diversidade de produtos é imensa e a mão-de-obra que sabe lidar com eles, como ribeirinhos, quilombolas, assentados e indígenas já está lá. Basta vontade de fazer direito.”

    O filme está disponível Youtube:

     

    FICHA TÉCNICA

    • Produção:Fernando Meirelles, Observatório do Clima e Produtora Imaginária
    • com Tasso Azevedo e participação de Camila Pitanga
    • Direção:Gisela Moreau
    • Roteiro:Oswaldo Braga de Souza, Claudio Angelo, Tasso Azevedo e Fernando Meirelles
    • Assistentes de direção:Fred Rahal Mauro e Danila Bustamante
    • Animação:Marina Quintanilha
    • Ilustrações:Marina Quintanilha e Gisela Moreau
    • Câmera:Tiago Laires
    • Edição:Fred Rahal Mauro e Danila Bustamente
    • Musica, sound design e finalização de áudio:Quincas Moreira
    • Assistentes de estúdio:Lucca Carvalho e Heitor Peres
    • Agradecimentos:O2 Filmes, ISA, Luiz Bolognese, Carlos Rittl e Raul Telles do Valle
  • Bolsonaro: eu não vim para construir nada, estou aqui para destruir

    por Evilázio Gonzaga, especial para o site Viomundo – 28/04/2019

    O anúncio do fim de investimentos em ciências sociais revela que o bolsonarismo pretende transformar as universidades em escolas técnicas, formadoras de mão de obra barata para empresas exportadoras de commodities minerais e do agronegócio.
    O objetivo é voltar ao padrão econômico da era colonial.

    O anúncio de Bolsonaro sobre os planos de reduzir ou eliminar os investimentos nas faculdades de ciências humanos, além do espanto que provoca, também indica que há um método por trás dos bastidores, orientando as ações do governo.

    Para a maioria da plateia é mais uma decisão desastrada, formulada por um governo de ignorantes. Porém, a decisão tem sentido, quando o quebra-cabeças é montado.

    Uma peça central no tabuleiro foi a visita de Bolsonaro, acompanhado de Sérgio Moro – o ex-juiz, que, por suas reiteradas demonstrações de analfabetismo cultural, levanta sérias dúvidas sobre a lisura ou a qualidade dos concursos para a magistratura no Brasil – à sede da CIA, nos Estados Unidos.

    Foi uma atitude inédita, pois nenhum outro chefe de estado, no cumprimento de suas funções, fez uma visita à agência estadunidense, responsável exatamente responsável por espionar outros países.

    A visita, somada às cenas mais vergonhosas de subserviência, puxa-saquismo e degradação, que se tem notícia em uma viagem oficial de uma delegação governamental a Washington, revela sem sombra de dúvida que o governo bolsonarista fez a opção de colocar o Brasil como um estado subalterno aos Estados Unidos.

    Todos os outros exemplos que ocorreram fartamente, como:

    *as continências prestadas por Bolsonaro à bandeira dos EUA ou a John Bolton, um funcionário de segundo escalão;
    *o apoio ao muro da vergonha;
    *as ameaças de participar da guerra estadunidense contra a Venezuela;
    *a entrega de Alcântara;
    *a venda da Embraer;
    *a paralisação de projetos militares de ponta, substituídos pela compra de material obsoleto dos EUA;
    *o descaso com a rápida extinção da indústria brasileira;
    *o alinhamento indecente da diplomacia do Itamarati ao departamento de estado.

    E vários outros fatos comprovam que há um método orientando o governo bolsonarista.

    O que os formuladores dessas políticas pretendem pode ser compreendido nas teses do estudioso da geopolítica estadunidense de origem polonesa, Zbigniew Brzezinski.

    O polaco-estadunidense foi assessor de Jimmy Carter no período imediatamente após a Guerra do Vietnam, quando o país sofreu a sua maior humilhação na história.

    A partir da derrota, Brzezinski e outros estudiosos da geopolítica sugeriram que os Estados Unidos deveriam adotar várias estratégias novas, para manter e expandir a sua hegemonia mundial.

    Entre elas, o cinturão sanitário, para conter a União Soviética, no sul da Ásia – o que levou à intervenção secreta da CIA no Afeganistão, financiando, recrutando, organizando, treinando e armando os grupos islâmicos que combateram o governo pró-Moscou; o conceito de bloqueios econômicos, inaugurado contra o Irã, e o descarte da prática tradicional de invasão e ocupação de países, como havia ocorrido no Vietnam e resultou em desastre.

    As ideias do polonês incluem outras ideias, mas o que interessa agora é a mudança no conceito de submissão ou neutralização de países recalcitrantes ao alinhamento automático com as diretrizes de Washington.

    A partir da tese de que invadir militarmente deveria ser evitado, porque é muito oneroso em termos de vidas de jovens estadunidenses e dinheiro, Brzezinski e outros estrategistas sugeriram duas vertentes principais que poderiam ser utilizadas em cada caso particular, em algumas situações combinadas.

    A primeira é atuar para desorganizar os países insubordinados às diretrizes dos EUA.

    A desorganização é feita com bloqueios econômicos, articulação de oposição interna e ataques militares limitados para afetar a economia desses países.

    Podem ser incluídos nesse caso o Iraque, o Irã e a Iugoslávia – que após a queda da União Soviética avançava para ser um dos países mais poderosos da Europa e do mundo.

    Esses exemplos e outros são países desorganizados, que não possuem limitada energia para contestar o poderio estadunidense. E, em alguns casos não podem resistir à exploração dos seus recursos naturais pelas empresas do difuso “ocidente” (é o caso do Iraque, Líbia e Síria, onde a construção de um oleoduto ligando os poços de petróleo iraniano ao Mar Mediterrâneo foi inviabilizada).

    Em outros locais, basta a cooptação da elite endinheirada, para dobrar determinados países. É o padrão utilizado na América Latina e, também, na Europa.

    Aparentemente apoiando os interesses de setores das classes altas e dirigentes de alguns países, o governo estadunidense, suas agências de inteligência e espionagem, ONGs ligadas a bilionários conservadores e os braços do sistema financeiro mundial (na verdade, do difuso “ocidente”) atuam para impor, na verdade, a geoestratégia do governo estadunidense.

    O país é a potência hegemônica mundial e como todo império quer preservar o seu status planetário.

    Isso é natural, qualquer potência na história demonstrou o mesmo propósito de manter ou expandir seu peso no tabuleiro geopolítico.

    A União Europeia tem imenso potencial graças ao seu estágio civilizatório, o nível científico de seus países, o padrão educacional de sua população, a força da sua indústria, além de outras vantagens para avançar e ameaçar a hegemonia dos Estados Unidos.

    Então, não será estranha a descoberta em algum ponto no futuro que os movimentos que buscam a dissolução da comunidade têm dedos externos.

    O melhor exemplo a ser estudado é o Brexit, que nenhuma vantagem traz para o Reino Unido.

    Na América Latina, há um terreno fértil, para ações de desestabilização, devido à tibieza da elite.

    Os casos trágicos da Argentina, Equador e Peru são reveladores.

    No Chile, foi descoberto que instituições internacionais, como o Banco Mundial, operaram, falsificando dados sobre a economia do país, para facilitar a vitória de Piñera, o candidato da extrema direita.

    No Brasil, Fernando Henrique Cardoso, o presidente intelectual, se tornou conhecido nos meios acadêmicos por uma teoria, para justificar a subordinação do país aos Estados Unidos: a Teoria da Dependência.

    A teoria defende que os países em desenvolvimento devem se alinhar a potências hegemônicas e assumir um papel econômico e social dentro da ordem estabelecida pelo país líder.

    No caso, o Brasil deveria se concentrar na exportação de commodities minerais e do agronegócio, abrindo mão da industrialização – ou seja, retornando a uma situação semicolonial.

    O bolsonarismo leva esta proposição de absoluta subserviência geopolítica aos EUA à sua máxima potência.

    Mesmo concordando com esses princípios e operando para a sua viabilização, FHC manteve o lustro da democracia e da civilização, mantendo o Brasil relativamente organizado.

    Bolsonaro manda às favas as aparências. Atua para manter o país desorganizado e em estado de tensão permanente.

    Paulatinamente, o bolsonarismo vai destruindo uma a uma das conquistas civilizatórias do país.

    Suas falas e atitudes revelam muito mais do que ignorância ou loucura: um método de destruição programado, conforme ele combinou em Washington.

    O objetivo é demolir o país, para assegurar sua dependência e incapacidade de avançar.

    Nesse projeto de demolição, não há espaço para coisas como desenvolvimento, industrialização, inovação, ciência.

    Um país dependente não precisa disso. Basta formar a mão de obra barata, para trabalhar sem direitos básicos nas empresas, que irão saquear as riquezas naturais do Brasil e exportar comida envenenada para africanos e asiáticos.

    Compreendendo o objetivo, é possível perceber o motivo pelo qual bolsonarismo quer extinguir o estudo de ciências humanas: simplesmente porque eles não querem que o Brasil seja um país.

    Aliás, Bolsonaro havia anunciado com muita clareza o seu propósito nos Estados Unidos: eu não vim para construir nada, estou aqui para destruir e há muita coisa para ser destruída do Brasil”.

    *Evilázio Gonzaga é jornalista, publicitário e desenvolvedor de marketing digital.

  • A política externa brasileira desmoraliza o Brasil

    A política externa executada pelo Governo de Jair Bolsonaro contraria todos os princípios que devem orientar a política externa brasileira para que esta pudesse contribuir para alcançar os objetivos nacionais, isto é, da maioria do povo brasileiro, de democracia, desenvolvimento, justiça social e soberania“.

    Artigo publicado originalmente em Portal Vermelho Dia: 08/04/2019

    Alinhamento com Israel rompe tradição da política externa do Brasil

    “A geografia é a política das Nações”(Napoleão, 1769-1821).

    “O Brasil está fadado a ser, por tempo indefinido, um satélite dos Estados Unidos”(Chanceler Raul Fernandes, 26/08/1954 a 12/11/1955).

    “Eu sempre sonhei em libertar o Brasil da ideologia nefasta de esquerda (…). O Brasil não é um terreno onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer”(Jair Bolsonaro, em Washington, 17/03/2019).

    O Governo do Presidente Jair Bolsonaro, de seu mentor espiritual e político, o Professor Olavo de Carvalho, de seu Ministro do Exterior, Ernesto Araújo, do Super Ministro Paulo Guedes, economista ultra neoliberal, de sua Eminência Parda, o Deputado Eduardo Bolsonaro, está disposto, entre outras reformas, a reorientar radicalmente toda a política externa brasileira.

    Essa reorientação se daria pelo alinhamento de toda a política externa brasileira à política do Governo de Donald Trump, a começar pelo apoio a Israel.

    Segundo esses protagonistas, a política dos governos brasileiros anteriores teria:

    1. sido ideológica e privilegiado as relações com governos de “esquerda”, não democráticos;
    2. negligenciado e hostilizado os países desenvolvidos, em especial os Estados Unidos;
    3. envolvido o Brasil em temas nos quais não teria interesse direto nem poder para influir;
    4. dado pouca atenção aos interesses comerciais e econômicos do Brasil;
    5. contrariado e afrontado interesses americanos na América do Sul;
    6. criado um ambiente hostil aos capitais multinacionais.

    A política exterior de Jair Bolsonaro, com excessos verbais, atitudes subservientes e “interpretações” inéditas da História, retoma a política de certos governos anteriores que entre si se diferenciam devido às circunstâncias de cada período, mas com a mesma orientação geral de alinhamento com a política exterior norte-americana.

    Com o Presidente Bolsonaro, o Brasil passou a ter não apenas uma política exterior, mas uma política geral de governo que procura atender antecipadamente e, sem qualquer reciprocidade, às reivindicações históricas dos Estados Unidos:

    • redução da União ao mínimo, em termos de funcionários e organismos;
    • transferência de competências da União para Estados e Municípios;
    • privatização geral;
    • desregulamentação geral e auto fiscalização pelas empresas;
    • abertura radical da economia e do setor financeiro;
    • redução da Petrobrás, maior empresa brasileira, a uma pequena empresa, não integrada, de petróleo;
    • enfraquecimento da chancelaria brasileira, pela quebra de hierarquia e pela inexperiência;
    • privatização de todos os bancos estatais;
    • autonomia do Banco Central;
    • concessão da base militar de Alcântara.

    * * *

    Devido às características do Brasil e às suas vulnerabilidades, as ações concretas de política externa deveriam sempre procurar:

    1. manter as melhores e imparciais relações com todos os Estados da América do Sul;
    2. criar e fortalecer um sistema de segurança político/militar na América do Sul e no Atlântico Sul;
    3. criar e fortalecer um sistema dissuasório de defesa nacional;
    4. estabelecer programas de cooperação com grandes Estados, como os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Índia, a França e a Alemanha;
    5. contribuir, ativa, discreta e imparcialmente, para a solução de crises;
    6. participar ativamente de conferências sobre temas universais, como meio ambiente, pobreza, raça, gênero, etc.
    7. cooperar com países subdesenvolvidos em projetos de desenvolvimento, sem impor “condicionalidades”;
    8. diversificar, quanto a produtos, destinos e origens, seu comércio internacional;
    9. abrir novos territórios para a ação das empresas brasileiras;
    10. promover a revisão dos sistemas de decisão dos organismos internacionais para obter condições de melhor participação do Brasil;
    11. conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

    * * *

    O Governo de Jair Bolsonaro tem contrariado frontalmente e feito justamente o contrário de tais ações concretas.

    O Brasil participa da Aliança do Pacífico e do Grupo de Lima contra a Venezuela, infringindo os princípios de autodeterminação e de não intervenção, com ameaças militares, gerando ressentimentos, no esforço de agradar aos Estados Unidos em sua campanha para derrubar o governo da Venezuela.

    O Brasil está promovendo o Pro-Sul, que articula governos de direita, e o fim da UNASUL e passou a privilegiar a OEA, organização onde a influência americana é tradicional.

    Bolsonaro tem reduzido os recursos para os programas estratégicos militares (cibernética, espacial, nuclear) além de promover a exploração de urânio por empresas estrangeiras, a venda da Embraer à Boeing, assistir ao esvaziamento do Centro de Estudos de Defesa, da UNASUL, em Quito.

    O Brasil tem participado de forma discreta de reuniões e conferências mundiais, com perfil baixo e sem apresentar propostas importantes, e considera as Nações Unidas um instrumento nefasto do que chama “globalismo” e de interferência externa nos assuntos nacionais, através da ação do que chamam de “marxismo cultural”.

    O Mercosul tem sido desprestigiado e advogada sua transformação (dissolução) em uma Zona de Livre Comércio para poder o Brasil negociar acordos bilaterais com os EUA e outros países desenvolvidos. O Brasil não se interessa em fortalecer a cooperação com a Argentina, nem mesmo quando seu Governo é simpático ao Brasil, nem com a África.

    O Brasil tem se afastado deliberadamente de qualquer política de cooperação com os Estados subdesenvolvidos, do que chamam Cooperação Sul-Sul que, a seu juízo, nenhum benefício trouxe ao Brasil.

    Na gestão Guedes/Bolsonaro/Araújo não há nenhuma preocupação com a perda de participação percentual das manufaturas no total das exportações, com o acentuado processo de desindustrialização, resultado de uma política cambial de valorização do real e controle da inflação, nem com a diversificação do comércio exterior.

    O apoio à internacionalização das empresas de capital brasileiro, em competição com megaempresas multinacionais, não somente na África e América Latina, mas inclusive nos Estados Unidos e na Europa, tem sido considerado como “criminoso”. O Governo tem permitido a desorganização e destruição de grandes empresas brasileiras, o que não ocorreu em outros países, onde os empresários culpados por corrupção foram punidos e as empresas preservadas.

    A luta pela redistribuição de quotas e de poder de voto no FMI e no Banco Mundial foi abandonada devido à oposição americana e ao desejo de Bolsonaro de alinhamento incondicional com os interesses americanos.

    O Presidente Bolsonaro nem o chanceler Araújo não atribuem qualquer importância ao objetivo histórico da política exterior brasileira, e são até contrários, ao Brasil vir a ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e à coordenação com o Japão, a Alemanha e a Índia, para atingir este objetivo.

    * * *

    Ao contrário da “política” externa de Bolsonaro/Araújo, que parece se fundar em visões religiosas de luta entre o Bem e o Mal, entre o Ocidente e o Oriente, entre valores cristãos e de outras (religiões?) e onde Trump é o Salvador do Ocidente, uma política externa realista para o Brasil deve levar em conta:

    • sua localização geográfica;
    • suas características como sociedade, economia e Estado;
    • suas vulnerabilidades e
    • seu potencial.

    * * *

    O Brasil se encontra na América do Sul e em frente ao Atlântico Sul e a 23 Estados da África Ocidental. Essa é a sua localização e não qualquer outra utópica.

    Por esta razão, o centro principal de sua política externa deve ser a América do Sul, o Atlântico e a África Ocidental, mas a essas áreas não devem se limitar, de forma alguma, suas ações de política externa.

    A América Central e o norte da América do Sul constituem área de influência dos Estados Unidos, sua zona mais estratégica, reconhecida, desde quando a declarou, pelas Potências de então, e onde se encontra o Canal do Panamá, ligação vital militar e comercial do país.

    É objetivo estratégico permanente americano evitar, de forma ativa e enfática, a emergência, em qualquer região do mundo, de um Estado, ou associação de Estados, que desafie sua hegemonia e sua influência política, militar e econômica.

    Esta prioridade americana é ainda mais aguda e sensível em relação ao Caribe, à América Central e ao Norte da América do Sul, como revelam as declarações americanas sobre a presença russa na área.

    A política brasileira na América do Sul (e ainda mais na América Central e Caribe) deve ser em consequência prudente, mas firme e ativa sem se deixar envolver e sem se alinhar com os interesses hegemônicos dos Estados Unidos, centro do Império Americano.

    * * *

    O Brasil apresenta enorme disparidade de território, de população, de recursos e de potencial em relação a seus dez vizinhos de fronteira, cujo desenvolvimento, prosperidade, estabilidade e cooperação são, todavia, de extremo interesse para os objetivos nacionais brasileiros.

    As dificuldades de natureza econômica nos vizinhos podem se transformar em instabilidade social, esta em instabilidade política com eventual transbordamento para o Brasil, sob a forma de migração ou de atividade de grupos irregulares, inclusive militar.

    * * *

    Os objetivos nacionais brasileiros, isto é, da enorme maioria do povo brasileiro, não necessariamente das classes hegemônicas e das elites dirigentes que governam em seu nome, são:

    • aperfeiçoar a democracia;
    • promover o desenvolvimento econômico;
    • reduzir as injustiças sociais e
    • defender a soberania.

    * * *

    A democracia brasileira é frágil e a participação popular, declarada soberana pela Constituição de 1988, é articulada (manipulada) em seus procedimentos pelos interesses das classes hegemônicas econômicas e políticas, através de seus instrumentos de ação e da elite dirigente (ministros, altos funcionários, políticos etc.) que trabalha em seu nome.

    A influência dos interesses políticos e econômicos dos Impérios e de Potências sobre estes processos políticos, exercida através dos tempos, foi e é notável, realizada muitas vezes através de agentes internos e de seus vínculos com as classes hegemônicas do Império Americano.

    O número de vizinhos, e a disparidade de dimensões são de tal ordem, assim como os ressentimentos históricos do processo de formação do território brasileiro, e entre os Estados vizinhos, que afloram no presente, fazem com que o Brasil nunca deva interferir nos processos políticos dos Estados vizinhos.

    Cada Estado vizinho teve uma evolução política, econômica e social própria, decorrente das inter-relações de forças internas e externas e não cabe ao Brasil julgar os seus méritos nem tomar partido, sob pena de criar ressentimentos desnecessários e de difícil superação.

    O Brasil (suas elites dirigentes e suas classes hegemônicas) se ressentiria profundamente de qualquer interferência dos Estados vizinhos em sua política interna. Aliás, o “espantalho” de interferência (cubana, venezuelana, chinesa) é agitado periodicamente por certos grupos para advogar ações de política externa. É verdade que as classes hegemônicas brasileiras (e sua elite dirigente) não se ressentem de interferência do Império na política e economia brasileira até por serem muitas vezes aliados.

    Cabe à política externa estar atenta a qualquer iniciativa de interferência externa (que são permanentes) em seus processos políticos internos e de iniciativas “multilaterais” neste sentido para contra-arrestá-las.

    * * *

    O Brasil é uma economia subdesenvolvida, caracterizada por extraordinárias disparidades de renda e de riqueza; pelo atraso relativo de seu parque industrial; pela grande penetração das megaempresas multinacionais; pela reduzida diversificação de seu comércio exterior; por um setor financeiro superdimensionado; pelo mercado de capitais subdesenvolvido; pelo pequeno conhecimento dos recursos naturais; pelo fraco dinamismo tecnológico.

    Muitas dessas características da economia brasileira são compartilhadas pelos Estados vizinhos da América do Sul, em maior ou menor grau. A América do Sul é um continente subdesenvolvido, com enorme concentração de renda, exportador de produtos primários e importador de produtos industriais, com enormes disparidades sociais.

    As características atuais da economia brasileira decorrem da longa permanência e da evolução histórica do regime da escravidão; da grande propriedade agrícola senhorial; dos vínculos das classes hegemônicas internas (e de suas elites dirigentes) com os sucessivos Impérios; com a aceitação das elites dirigentes da ideologia do sistema colonial sobre o que deve ser a “correta” divisão internacional do trabalho; da ideologia e da prática conservadora da Igreja Católica e de suas políticas de superioridade racial e de gênero e de obscurantismo científico.

    Estes fatores históricos foram se transformando ao longo do tempo e assumindo novas formas, mas permanecem até hoje, em novo contexto internacional, em que se verifica e age a política externa.

    Essa situação de subdesenvolvimento é agravada pelas tentativas permanentes de Estados desenvolvidos e do Império Americano de imporem políticas econômicas de natureza conservadora, como tem sido as advogadas pelo defensores dos princípios do Consenso de Washington (1989) e as “propostas” de política econômica dele derivadas.

    Essas “propostas” defendem que o Brasil deve ter uma política econômica de total integração no comércio e no sistema financeiro mundial, com a abolição de qualquer barreira ao comércio (acordos de livre comércio etc.), de liberdade total para os fluxos de capital; de total liberdade para investimentos estrangeiros; de equilíbrio fiscal absoluto; de redução do Estado ao mínimo como se estas tivessem sido as políticas que tivessem levado os Estados, hoje desenvolvidos, a seu estágio de desenvolvimento atual ou que eles as praticassem no momento.

    O denominado “tripé macroeconômico” é a âncora do subdesenvolvimento brasileiro, ao impor limitações ao desenvolvimento e mesmo ao crescimento econômico.

    * * *

    O principal objetivo da política externa no âmbito de promoção do desenvolvimento econômico deve ser a negativa (hábil) de participar de qualquer acordo que limite as possibilidades de ação econômica do Estado em prol do desenvolvimento e a ação para limitar os efeitos dos acordos restritivos de que o Brasil já participa.

    Exemplos de situações restritivas do chamado policy space são os acordos de livre comércio (sempre desiguais) com países altamente desenvolvidos; os acordos de promoção e proteção de investimentos estrangeiros; a OCDE e seus códigos etc.

    O segundo objetivo econômico da política externa deve ser a diversificação da pauta exportadora do Brasil em termos de produtos e de mercados de destino. Assim como a diversificação de sua pauta de fornecedores, em termos de empréstimos, de investimento de capital e de transferência (e absorção) de tecnologia.

    Este objetivo é essencial para evitar os efeitos da flutuação especulativa dos preços de produtos primários, enfrentar o surgimento de concorrentes, de substitutos etc. e as pressões políticas externas a que estão sujeitos países que tem suas relações externas concentradas em poucos produtos e parceiros.

    * * *

    O objetivo nacional de reduzir as injustiças sociais deve receber o apoio da política externa pela defesa de políticas sociais inclusivas, patrocinadas por organismos das Nações Unidas, pela condenação, na Assembleia Geral da ONU, de práticas discriminatórias contra minorias, de defesa do não uso político dos direitos humanos, pelos direitos dos imigrantes e dos refugiados.

    O objetivo de reduzir as injustiças sociais não deve em nenhum momento levar a julgamentos unilaterais pelo Brasil dessas injustiças em outros países que, muitas vezes como o Brasil, lutam contra elas com pequeno êxito. O princípio da autodeterminação e de não intervenção devem guiar sempre a política externa brasileira no que diz respeito a situações de injustiças sociais e de direitos humanos em terceiros Estados, tema muitas vezes manipulado pelos interesses das Grandes Potências e do Império Americano.

    Assim, o Brasil deve rejeitar e condenar a aplicação de sanções unilaterais de Grandes Potências contra Estados subdesenvolvidos a pretexto de corrigir situações humanitárias, mas que, às vezes, as agravam e levam a justificar “intervenções humanitárias”, justamente das Potências e do Império que provocam aquelas crises humanitárias.

    * * *

    O objetivo nacional de defender a soberania deve ser procurado em duas esferas de ação da política externa.

    A primeira esfera é a de ação nos organismos internacionais, a começar pelas Nações Unidas e seu Conselho de Segurança, que detêm o monopólio da força na esfera internacional e que, sozinho, pode autorizar o uso de qualquer medida de força (embargos, sanções, força etc.) contra qualquer Estado que não seja membro permanente do Conselho.

    As dimensões de território, de população, de economia e de seu potencial, de seus problemas internos, fazem com que seja de extremo interesse a participação do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança para defender seus interesses e para impedir ações contra sua soberania.

    A reforma da Carta da ONU, para permitir a ampliação do Conselho, depende do voto de 129 membros (2/3 dos 194 membros) e da aprovação dos cinco membros permanentes atuais. Este resultado depende de uma ação permanente e presença política do Brasil em todos os Estados para obter seu apoio.

    Esta presença brasileira será de extrema importância para obter apoio para as teses e as propostas apresentadas pelo Brasil nas discussões em conferências e reuniões internacionais, regionais, multilaterais ou temáticas (clima, floresta, etc.).

    A segunda esfera de defesa da soberania é a construção de uma capacidade de defesa dissuasória de qualquer agressão, do desenvolvimento de uma indústria bélica autônoma; do desenvolvimento de uma doutrina estratégica de caráter brasileiro; do aperfeiçoamento e diversificação dos centros de treinamento de oficiais, do adestramento da tropa para combate de resistência a qualquer invasão.

    Essas políticas são de longo prazo, dependem de permanência para ter êxito e não podem estar sujeitas a flutuações anuais de constrangimento orçamentário que se revelaram no passado a forma política mais eficaz de “matá-las”.

    * * *

    Os quatro objetivos da política externa tem de ser alcançados em um ambiente internacional dominado pelo Império Americano, pelas Grandes Potências auxiliares, e pela luta entre o Império e seus dois Adversários, a República Popular da China e a República Federativa Russa.

    Ademais, essa disputa se verifica em um momento em que o Império Americano empreende uma verdadeira política de “reorganização” em grande escala do sistema internacional que criou após a Segunda Guerra Mundial e em que se verificam fenômenos transnacionais, como prolongada estagnação econômica, degradação do meio ambiente, transformação tecnológica na economia civil e na guerra, a financerização da economia mundial e nacionais, as ações de organizações criminosas internacionais, as migrações em grande escala.

    Neste quadro se torna de grande importância a aproximação e a cooperação do Brasil com os Estados que participam das negociações de acordos internacionais para enfrentar estes desafios e que tem interesses semelhantes, a começar pelos Estados da América do Sul e os Estados subdesenvolvidos em geral, inclusive para evitar que os custos de políticas “imaginadas” para enfrentar questões “transnacionais” venham a recair sobre os países periféricos, subdesenvolvidos, mais frágeis e com menos recursos, grupo em que se encontra o Brasil.

    O alinhamento da política externa brasileira com os objetivos seja do Império Americano, seja com os objetivos dos Estados Adversários do Império será extremamente prejudicial ao Brasil.

    As relações do Brasil com a China e a Rússia, Estados que o Governo dos Estados Unidos classifica como “malignos” e “inimigos” devem ser cautelosas, mas diversificadas e firmes assim como com Estados como o Irã, classificados de “rebeldes” e “párias”.

    * * *

    A política externa executada pelo Governo de Jair Bolsonaro contraria todos os princípios que devem orientar a política externa brasileira para que esta pudesse contribuir para alcançar os objetivos nacionais, isto é, da maioria do povo brasileiro, de democracia, desenvolvimento, justiça social e soberania.

    Assim, o alinhamento declarado, ostensivo, unilateral, sem reciprocidade da política externa brasileira com os Estados Unidos e com Israel, não só não obtém o reconhecimento americano, que despreza os subservientes, como desmoraliza o Brasil como interlocutor face aos demais Estados.

    Por outro lado, as declarações de ultra-direita do Governo Bolsonaro sobre certos temas provocam o repúdio de Governos de Direita, como os do Chile e da Argentina, como de líderes de extrema direita, como Marine Le Pen, na França.

    * * *

    As declarações do Presidente Jair Messias Bolsonaro, do Deputado Eduardo Bolsonaro, do Embaixador Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores, e de Ministros como Paulo Guedes, revelam desconhecimento e uma visão peculiar e simplista da política internacional e dos objetivos que devem orientar a política exterior brasileira para reduzir as vulnerabilidades do país e defender seus interesses de curto, médio e longo prazo.

    As contradições internas que geram e o ridículo das declarações torna cada vez mais ineficaz a ação externa e cada vez maior o desprestígio do Governo do Brasil no mundo.

    Parece que a realidade não consegue se impor às visões de fundo religioso e de Cruzada que imbuem a alma e inebriam o cérebro desses personagens.

    *Samuel Pinheiro Guimarães é embaixador de carreira, foi Secretário Geral do Itamaraty (2003-2009) e Ministro de Assuntos Estratégicos (2009-2010.

  • Pastorais do Campo: país caminha para condições de vida piores

    “Nossa constatação sobre os primeiros cem dias do novo governo acena que os próximos anos podem ser muito piores e que o caminho traçado é de uma crueldade sem precedente contra os povos do campo”.
    Segue a Carta:

    Carta aberta das Pastorais Sociais do Campo ao Governo e à sociedade brasileira

    As Pastorais do Campo (CPT, CIMI, SPM, Cáritas, CPP e PJR) divulga Carta Pública à sociedade sobre as diversas reformas do atual governo, de cunho neoliberal e que vão acabar por entregar “os bens naturais existentes nas diferentes regiões, em especial na Amazônia, o governo submete os interesses do Brasil e dos brasileiros a outros países, especialmente aos Estados Unidos da América, e de grandes conglomerados financeiros e empresariais multinacionais”. Confira o documento na íntegra:

     “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27) – CF 2019.

    As Pastorais Sociais do Campo, da Igreja Católica, estamos convencidas que a realidade no Brasil está caminhando, a passos acelerados, para a eliminação de direitos e o agravamento das condições de vida de seus cidadãos.  Com as diversas reformas de cunho neoliberal executadas e propostas e, ao mesmo tempo, com negociatas que entregam os bens naturais existentes nas diferentes regiões, em especial na Amazônia, o governo submete os interesses do Brasil e dos brasileiros a outros países, especialmente aos Estados Unidos da América, e de grandes conglomerados financeiros e empresariais multinacionais.

    É verdade que o ataque aos direitos trabalhistas e previdenciários já vêm ocorrendo, na forma de “minirreformas” há algum tempo, mas o que assistimos agora é uma tentativa de “golpe final” aos direitos dos mais explorados em nosso país. Após enfraquecer ainda mais os sindicatos, eliminar direitos e fragilizar os trabalhadores na relação com os empregadores, a reforma trabalhista, realizada sob a justificativa de que geraria milhões de empregos e até acabaria com o desemprego no país, tem seus resultados efetivos revelados nos últimos levantamentos que demonstram a existência de mais de 13 milhões de desempregados, sem contar aqueles que nem mais procuram emprego e as pessoas que fazem trabalhos informais.

    Com a mesma propaganda e discursos falaciosos de salvar o Brasil, está sendo “negociada” a Reforma da Previdência. Para nós é evidente que o objetivo, mais uma vez, é prejudicar os trabalhadores e as trabalhadoras da cidade e do campo. Além de favorecer fortemente os interesses de grupos financistas com o incentivo à previdência privada, o golpe contra os direitos dos assegurados especiais do campo, sendo as mulheres as mais prejudicadas, provocaria um enorme empobrecimento e esvaziamento do mundo rural, com o aumento da migração forçada. Frequentemente essas populações são deslocadas forçosamente de territórios onde secularmente viveram e de onde não desejariam sair. Milhares de pessoas são reassentadas em locais sem condições de sustentabilidade, submetidas à precarização do trabalho e, não raro, a condições análogas ao trabalho escravo, devido também a carência de políticas públicas eficazes.

    Isto é tudo o que os ruralistas e as grandes corporações internacionais do agronegócio almejam, a fim de estender ainda mais seu domínio e hegemonia no setor, aumentando assim seus já estratosféricos lucros e afetando radicalmente a soberania territorial e alimentar de nosso país.

    São inúmeras as tentativas de efetivação da ocupação dos espaços amazônicos e da rapina dos bens naturais neles existentes. O recente anúncio das intenções do governo brasileiro de explorar a Amazônia em conjunto com o governo estadunidense revela, no entanto, o interesse e a articulação arquitetada para avançar na empreitada exploratória, no saque das riquezas naturais e das populações locais de forma ainda mais acelerada, submissa e entreguista.

    A postura governamental de atacar os direitos territoriais dos povos indígenas, quilombolas e demais grupos tradicionais, facilita a entrega do território brasileiro aos interesses do capital nacional e internacional. As declarações recorrentes do presidente Bolsonaro de que pretende não demarcar sequer um centímetro de terra e rever todas as demarcações possíveis situam-se nesse contexto e intencionalidade.  A transferência da responsabilidade de demarcação de terras indígenas do Ministério da Justiça para o Ministério da Agricultura, que historicamente defende os interesses do latifúndio, é uma medida concreta para efetivar estas agressões à Constituição brasileira.

    Não satisfeitos em ameaçar o direito constitucional de homologar e regularizar territórios indígenas e comunidades tradicionais, o governo investe fortemente na perspectiva do extermínio cultural e dos modos próprios de vida destes povos. O incentivo político-ideológico e financeiro a métodos do agronegócio de produção em larga escala de commoditiesagrícolas para exportação, com uso intensivo de agrotóxicos, sementes transgênicas e adubação química nas terras da agricultura familiar e territórios dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, além de favorecer os interesses das empresas fornecedoras, acelera o etnocídio colonizador presente no Brasil há séculos. Além disso, com esta iniciativa, o governo enfraquece radicalmente a múltipla variedade de alimentos saudáveis e ataca fortemente a soberania alimentar dos povos do Brasil, tornando-os dependentes da aquisição e consumo de produtos “enlatados” e carregados de veneno, provocando prejuízos financeiros e à saúde destas populações.

    O projeto armamentista do atual governo potencializa a grilagem de terras e a ação criminosa contra o ambiente. Dentre os reflexos destes primeiros três meses de governo, o aumento da violência e do desmatamento no campo são evidentes. Os dados da CPT, na sua publicação Conflitos no Campo Brasil 2018, registram que foram afetadas por violência, no ano passado, quase um milhão de pessoas, enquanto o território em disputa soma pelo menos 39,4 milhões de hectares, dos quais 92% estão na Amazônia.

    Nossa constatação sobre os primeiros cem dias do novo governo acena que os próximos anos podem ser muito piores e que o caminho traçado é de uma crueldade sem precedente contra os povos do campo, seus territórios e os bens naturais.

    Na véspera da celebração do Massacre de Eldorado do Carajás, no Pará (17 de abril de 1996),  e do dia Internacional da Luta Campesina, lembramos as palavras do Papa Francisco em sua Exortação Evangelii Gaudium, ao afirmar que “assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata.”

    Por isso, repudiamos esta postura devastadora do atual governo, geradora de morte. Conclamamos a todos os povos do campo, suas organizações, as Igrejas e a sociedade em geral a somar na resistência contra as diversas ameaças orquestradas contra o povo brasileiro.

    Brasília (DF), 16 de abril de 2019.

    Comissão Pastoral da Terra – CPT
    Conselho Indigenista Missionário – CIMI
    Serviço Pastoral dos Migrantes – SPM
    Cáritas Brasileira
    Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP
    Pastoral da Juventude Rural – PJR

     

  • Religiões & Antropoceno: O Caso do Catolicismo

    Esse foi o tema de uma mesa coordenada pelo professor José Eli da Veiga do Instituto de Estudos Avançados dos USP para discutir o cenário traçado pela Encíclica Laudato Sí frente às mudanças climáticas.

    Como as religiões têm reagido diante da escalada dos impactos ambientais negativos do processo civilizador? Ou melhor: como têm adaptado suas doutrinas ao que os historiadores ambientais denominam “A Grande Aceleração”, desencadeada em meados do século passado, justamente o que tende a definir – sob o prisma científico – o Antropoceno?

    Um claro posicionamento surgiu com a Encíclica Laudato Sí, que está no centro da apresentação do sociólogo Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam/IEE/USP). Para ele, a principal virtude dessa Encíclica reside no esforço de colocar em questão os modelos de produção e consumo em torno dos quais a vida econômica contemporânea está organizada. Ela não aponta o dedo apenas contra os gigantes fósseis. É uma peça de acusação contra o poder das corporações globais, seus objetivos e os meios que usam para atingi-los. Também contribui muito para o diálogo entre ciência e religião ao postular que mudanças da magnitude necessária deverão se apoiar em redefinição dos próprios objetivos da oferta de bens e serviços, sob o ângulo da ética e da espiritualidade.

    Para comentar e debater tais proposições a conversa contará com a especialista Paula Montero, professora titular do departamento de antropologia da FFCLH/USP, pesquisadora do Cebrap e coordenadora adjunta da Fapesp.
    Assista ao vídeo (1.58 min).

     

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