Artigo

  • Sobre a Lava Jato como operação política

    Nós pensávamos que a operação Lava Jato era um vasto empreendimento contra a corrupção no Brasil.
    Mas, pouco a pouco – muito antes das revelações do The Intercept Brasil -, fomos surpreendidos por várias irregularidades e ilegalidades cometidas pelos procuradores de Curitiba, chefiados por Deltan Dallagnol, e pelo juiz Sérgio Moro. Tais irregularidades foram denunciadas pelas vítimas, por seus advogados e por setores da sociedade civil defensores dos direitos humanos, mas foram ignoradas por juiz e procuradores e por outras instâncias da Justiça.

    1. A prisão preventiva de vários suspeitos, antes mesmo de haver provas de seu envolvimento com atividades criminosas. A prisão foi utilizada como um meio de pressão sobre os acusados para obter delações. Se o acusado recusava a delatar, a prisão era estendida – com a ameaça de tornar-se duradoura – para levá-lo a ceder.
    2. A condução coercitiva dos suspeitos. Os suspeitos eram alvo de condução coercitiva, com forte presença policial, antes de haver qualquer intimação – que é o procedimento legal. Pela lei, primeiro a pessoa é intimada a comparecer para depoimento; não comparecendo, sem justificativa, a pessoa pode ser levada através de condução coercitiva. Foram feitas mais de 200 conduções coercitivas. A condução coercitiva foi feita como uma forma de intimidar a pessoa e, ao mesmo tempo, graças à presença da mídia – avisada com antecedência -, como uma forma de humilhá-la publicamente, para manipular a opinião pública contra a pessoa.
    3. O papel da grande mídia: a operação Lava Jato articulou-se com a grande mídia, vazando depoimentos, vazando delações sistematicamente, como forma de colocar a opinião pública em favor de suas iniciativas. As delações não eram vazadas na íntegra, apenas naqueles trechos que interessava divulgar para obter a indignação da opinião pública contra os suspeitos designados pela Lava Jato.
    4. A parcialidade da operação foi denunciada inúmeras vezes pela defesa das vítimas, mas foi sistematicamente negada: o principal partido acusado pela Lava Jato foi o PT e suas lideranças, a presidente da República, Dilma Rousseff e Lula, ex-presidente; outros partidos foram acusados, outras lideranças foram denunciadas, mas rapidamente saíram do noticiário ou foram poupados pela operação. O partido mais favorecido por esta proteção foi o PSDB. A grande mídia transformava os fatos denunciados em relação a políticos do PT como a “maior história da corrupção na história do Brasil”. Criou-se na opinião pública a ideia de que a corrupção começou no Brasil com o PT e que seus membros eram uma espécie diferente de todos os demais políticos.
    5. As delações foram o principal instrumento da operação Lava Jato: eram oferecidas como único meio de a pessoa recuperar a liberdade (ou obter prisão domiciliar). Os envolvidos ou suspeitos eram pressionados até incriminarem alguém do PT (ou o alvo designado na ocasião). O caso emblemático foi o diretor da OAS, que teve a delação negada até incluir o nome de Lula: só então, a delação foi aceita.
      No decorrer do tempo, inúmeros suspeitos denunciados e/ou presos foram inocentados ou absolvidos em segunda instância. Mas sua reputação já estava manchada definitivamente. A grande mídia, que contribuiu para condená-los, jamais contribuiu para limpar seu nome. Nunca os operadores da Lava Jato fizeram autocrítica ou pediram desculpas publicamente pelo erro de acusarem pessoas inocentes. A opinião pública, já convencida de sua culpabilidade, ajudou a “lavar” estes “efeitos colaterais”, considerado o “preço a pagar” para acabar com a corrupção.
      Aqui a regra da presunção de inocência nunca funcionou e o direito dos acusados à defesa foi atropelado sistematicamente.
    1. As delações foram tratadas pela operação Lava Jato e pela grande mídia não como indícios, passíveis de serem comprovados ou não, mas como provas. O que aparecia numa delação era apresentado como verdade definitiva e os citados numa delação eram condenados pela mídia antes de qualquer julgamento.

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    As trocas de mensagens reveladas agora pelo The Intercept Brasil confirmam o fundamental das denúncias que foram feitas durante anos e que foram ignoradas tanto por outras instâncias ou pela maioria dos membros de órgãos superiores da Justiça como pela grande mídia.

    O grande objetivo desta operação foi a destruição do PT – o afastamento da presidente Dilma do poder, a condenação do ex-presidente Lula e sua prisão, com o consequente impedimento de sua candidatura (para impedir a volta do PT ao poder).

    As mensagens trocadas entre o juiz Sérgio Moro e os procuradores confirmam a parcialidade do juiz e dos procuradores, que não tinham como objetivo acabar com a corrupção no Brasil, mas fundamentalmente aquela que podia ser ligada ao PT. Uma troca de mensagens mostra que o juiz interfere diretamente para impedir que o ex-presidente FHC, líder do PSDB, fosse investigado, de modo a não prejudicar a condenação do PT. Era preciso que não se percebesse a semelhança entre a forma de financiamento do Instituto Lula e a do Instituto FHC.

    O processo contra Lula é eivado de irregularidades. As mensagens reveladas confirmam que os procuradores não tinham provas contra o ex-presidente, tinham apenas “convicções”, e que tiveram de fazer malabarismos – como o famoso power point de Deltan Dallagnol – para vincular o processo do tríplex ao processo sobre a Petrobras, como forma de transferir o processo de São Paulo para Curitiba (juiz Moro). Aumentaram artificialmente as denúncias para convencer a opinião pública da culpa de Lula. Em outras palavras, juiz e procuradores mentiram.

    Ao condenar Lula e levá-lo à prisão, a operação Lava Jato foi elemento determinante para viabilizar a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais. Isto fica claro nas medidas tomadas para impedir que Lula fosse entrevistado durante a campanha eleitoral: juiz e procuradores explicitam que queriam evitar que isto pudesse ajudar a vitória do candidato do PT. A medida proibitiva não tinha fundamento jurídico, mas político-partidário.

    E, graças à eleição de Bolsonaro, o juiz Sérgio Moro – aquele mesmo que tirou Lula da disputa eleitoral – foi elevado ao Ministério da Justiça.

    O que ocorreu foi uma aliança entre procurador e juiz para praticar um crime, a condenação de alguém de quem se sabe que não há provas. Os sucessivos vazamentos realizados pela operação Lava Jato para a grande mídia, especialmente para a Globo, antes de haver investigação para verificar a veracidade das delações, criaram um clima de execração pública de pessoas, de um governo e de um partido (da presidente Dilma, de Lula, do PT). O ódio ao PT, o antipetismo, tem sua raiz nesta campanha.

    Este mesmo método, usado por Moro, nós vimos ocorrer na investigação ocorrida na UFSC, onde Reitor e vários diretores foram denunciados e presos por ordem de uma delegada, por um suposto crime de improbidade administrativa (o qual não foi provado até hoje). Mas Reitor e diretores foram expostos à condenação pública sem processo prévio. O resultado da humilhação pública foi o suicídio do Reitor. Até hoje ninguém foi processado e responsabilizado por esta morte. É como se qualquer iniciativa fosse justificável quando se trata de combate à corrupção.

    Toda a operação Lava Jato foi exaltada como um empreendimento de justiça e de direito, mas foi realizada com sistemática parcialidade e sistemática violação de direitos das pessoas consideradas suspeitas (prisões preventivas sem justificativa, conduções coercitivas, vazamentos, divulgação de conversa com presidente em exercício, monitoramento de escritórios de advocacia), com evidentes fins políticos.

    A partir das denúncias da Lava Jato, a mídia apoiou com todo o seu poder uma campanha para derrubar a presidente eleita. E conseguiu. O principal líder do PT, Lula, foi processado, condenado e preso. Em consequência deste impedimento, um candidato antidemocrático, defensor da tortura e da ditadura, foi eleito. É preciso dizer que as instâncias superiores da Justiça, em particular o STF – não todos os ministros, mas a maioria – se omitiram frente às ilegalidades cometidas pelo juiz Sérgio Moro ou mesmo contribuíram ativamente para proteger as irregularidades e ilegalidades da Lava Jato.

    Não se trata de negar que tenha havido falhas nos governos do PT, que devem ser investigadas como aquelas de qualquer governo. Mas o antipetismo que existe hoje em parte da sociedade é resultado direto da associação das denúncias da Lava Jato com a divulgação de vazamentos seletivos e pela interpretação sistemática dada pela grande mídia de que se tratava da “maior história de corrupção da história do Brasil”. Dilma que, ao ser derrubada, era considerada a maior corrupta, até hoje não foi condenada em nenhum processo. Lula foi condenado em primeira e segunda instância num processo em que – segundo inúmeros juristas brasileiros e do exterior que o examinaram – não aparecem provas.

    É preciso que se faça Justiça no Brasil, que os erros cometidos por setores do poder Judiciário sejam investigados e corrigidos. Que os julgamentos presididos por um juiz parcial sejam anulados. Que as atividades ilegais deste juiz e destes procuradores sejam condenadas. E que o sofrimento infligido a inúmeras vítimas de difamação pública seja reparado.

  • A Igreja é contra essa Reforma da Previdência

    O bispo de Londrina, Dom Geremias, tem recebido inúmeros ataques por ter publicado uma Cartilha, elaborada por um corpo técnico da diocese, de Orientação Contra essa Reforma da Previdência.

    A Arquidiocese de Londrina, através de uma equipe composta por agentes das pastorais sociais e de advogados, constituiu uma Cartilha de orientação sobre a Reforma da Previdência. Por causa disso tem recebido inúmeros ataques à postura evangélica da arquidiocese, e principalmente, ao seu pastor Dom Geremias, legítimo sucessor dos apóstolos, por oportunismo e falta de conhecimento da missão da Igreja no mundo, que é defender os mais pobres.

    A Igreja, quando fala em distribuição justa de bens econômicos, materiais, financeiros e também da garantia dos direitos sociais, conquistados a duras penas, ela é acusada, por algumas pessoas desinformadas e mal intencionadas, de pregar o comunismo e o socialismo.

    Como dizia Dom Helder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”.

    Publicamos a seguir artigo de José Cristiano Bento dos Santos, padre da Arquidiocese de Londrina, publicado hoje por IHU, que esclarece o posicionamento da Igreja contra a proposta de Reforma da Previdência.

    Segue o artigo.

     

    Estamos passando por momentos de debates sobre a Reforma da Previdência que tramita no Congresso Nacional e de ataques violentos à Igreja, porque a mesma é contra essa reforma que ameaça destruir direitos sociais dos pobres, conquistados em 1988 com a promulgação da Constituição Federal.

    A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), no dia 28 de março de 2019, divulgou uma nota sobre a Reforma da Previdência, na qual os bispos elencam alguns pontos da Proposta de Emenda à Constituição, PEC 06/2019, considerando que a mesma escolhe o caminho da exclusão social e, diante desta constatação, convocam os cristãos e pessoas de boa vontade “a participarem ativamente desse debate para que, no diálogo, defendam os direitos constitucionais que garantem a cidadania para todos”.

    Ainda, durante a 57ª Assembleia Geral da CNBB, em maio de 2019, (acesse o link aqui), conscientes dos possíveis danos sociais que a Reforma poderá causar aos pobres, profetizam os bispos: “Nenhuma reforma será eticamente aceitável se lesar os mais pobres. Daí a importância de se constituírem em autênticas sentinelas do povo as Igrejas, os movimentos sociais, as organizações populares e demais instituições e grupos comprometidos com a defesa dos direitos humanos e do Estado Democrático de Direito.”

    Em comunhão com a CNBB, a Arquidiocese de Londrina, através de uma equipe composta por agentes das pastorais sociais e de advogados, constituiu uma cartilha de orientação sobre a Reforma da Previdência. Mas, infelizmente, há inúmeros ataques injustos, violentos à postura evangélica da arquidiocese, e principalmente, ao seu pastor Dom Geremias, legítimo sucessor dos apóstolos, por oportunismo e falta de conhecimento da missão da Igreja no mundo, que é defender os mais pobres.

    A Igreja, quando fala em distribuição justa de bens econômicos, materiais, financeiros e também da garantia dos direitos sociais, conquistados a duras penas, ela é acusada, por algumas pessoas, de pregar o comunismo e o socialismo. Isso, sem a Igreja anunciar com radicalidade o comportamento do cristianismo primitivo: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas” (At 4, 32-34). Todavia, isso revela a falta de conhecimento e indiferentismo, sobre os princípios da Instituição católica, que estão fundamentados na Doutrina Social da Igreja: “com o seu ensinamento social a Igreja entende anunciar e atualizar o Evangelho na complexa rede de relações sociais” […] “A doutrina social tem o seu fundamento essencial na Revelação bíblica e na Tradição da Igreja” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, números 62 e 74).

    Há sempre aquela justificativa que “padre e bispo, os pastores do povo, têm que cuidar da alma das ovelhas”. No entanto, o próprio Catecismo, compêndio da doutrina católica afirma: “A Igreja emite um juízo moral, em matéria econômica e social, quando o exigem os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas. A Igreja se preocupa com aspectos temporais do bem comum em razão de sua ordenação ao Sumo Bem, nosso fim último. Procura inspirar as atitudes justas na relação com os bens terrenos e nas relações socioeconômicas” (Catecismo da Igreja Católica, nº 2420).

    O Brasil é um país considerado cristão, por causa dos 75.000 milhões de católicos e evangélicos, que supostamente aderiram essa profissão de fé tradicional. No entanto, é um país contraditório: com uma grande riqueza, ao mesmo tempo abriga dezenas de milhões de pessoas pobres e mesmo famintas, sem casa, sem terra, sem renda justa e sem trabalho. Percebe-se, assim, que é um Brasil de cristãos sem Cristo.

    Para o economista Celso Furtado, o Estado é o instrumento privilegiado para enfrentar os problemas estruturais como, concentração de terra, concentração de poder, concentração de renda, exclusão social e desigualdades abissais. E segundo ainda, a CNBB (57ª Assembleia Geral): “A opção por um liberalismo exacerbado e perverso, que desidrata o Estado quase ao ponto de eliminá-lo, ignorando as políticas sociais de vital importância para a maioria da população, favorece o aumento das desigualdades e a concentração de renda em níveis intoleráveis, tornando os ricos mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres, conforme já lembrava o Papa João Paulo II na Conferência de Puebla” (1979).

    Nas palavras evangélicas do Papa Francisco, “Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata”, e seus efeitos são sentidos por nós brasileiros nesta atual conjuntura do país e serão agravados com a possível aprovação da Reforma da Previdência.

    Neste momento, em que o Brasil atravessa uma fase tão complexa de ameaça da retirada dos direitos sociais, faz-se necessário intensificar e consolidar o diálogo entre a sociedade civil e seus representantes, ao mesmo tempo alinhar os interesses e o comprometimento com os direitos dos pobres, que são os mais prejudicados com a aprovação da Previdência. A reposta da Igreja para este impasse nacional encontra-se na abertura de canais de reflexão e participação popular, valorizando as formas de organização do povo, daí a importância e a necessidade dos cristãos se posicionarem em defesa da vida.

    Portanto, a Igreja como sinal do Reino aqui na terra e fiel esposa de Cristo, morto pelo sistema religioso, político e econômico, por ter defendido os direitos dos empobrecidos, deixa bem claro em sua prática cristã: nenhum direito a menos, não à Reforma da Previdência. Acesse aqui a Cartilha.

     

  • Instrumentum Laboris do Sínodo para a Amazônia, um novo passo de “um kairos para a Igreja e o mundo”

     

    Um fruto de uma longo percurso, isso poderia definir o Instrumentum Laboris do Sínodo para a Amazônia que esta segunda-feira, 17 de junho, foi apresentado no Vaticano. Nele, como indicado na conclusão do documento, “tem se escutado a voz da Amazônia à luz da fé (Parte I) e tem se tentado responder ao clamor do povo e do território amazônico por uma ecologia integral (Parte II) e pelos novos caminhos para uma profética na Amazônia (III Parte)”.
    Acesse o Documento de Trabalho.

    A partir deste momento, a Igreja, especialmente os Padres Sinodais, são desafiados “a dar uma nova resposta às diferentes situações e a buscar novos caminhos que possibilitem um kairós para a Igreja e para o mundo”. Temos um pouco menos de quatro meses para o início da assembleia sinodal, que se reunirá no Vaticano de 6 a 27 de outubro. Neste momento, cabe aos Padres sinodais, especialmente os bispos das jurisdições eclesiásticas da Pan Amazônia, sempre chamados a conhecer a realidade local e a vida das pessoas que lhes são confiadas, a sentir o cheiro das ovelhas, para ver até onde o documento recolhe as necessidades de sua Igreja local.

    Não podemos esquecer que este documento, que segue o método da Igreja latino-americana, ver / escutar, julgar, agir, ainda é um instrumento a serviço de um processo mais amplo, que dará passos sucessivos nos próximos meses. Nesta perspectiva, devemos entender que, no Instrumentum Laboris, não encontraremos todos e cada um dos anseios pessoais. Como disse algumas semanas atrás Dom Mário Antônio da Silva, Bispo de Roraima e vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil segunda – CNBB, “que o Sínodo possa vir ao encontro, não de expectativas, mas de necessidades das comunidades da Amazônia”, algo que também pode ser dito sobre o Instrumento de Trabalho.

    Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho – RO, e membro do Conselho Presinodal, afirma que o Instrumentum Laboris, “ele vai nos dando algumas possibilidades para também nos prepararmos com nossos grupos de sacerdotes, religiosos, religiosas, catequistas, ministros, e o Povo de Deus em geral, para algumas perspectivas”. Ele reconhece que “evidentemente que o documento, ele vai nos provocar para passos possíveis de concretiza-los logo com a conclusão do Sínodo, outros passos que vamos fazer processos e coisas que serão um horizonte para onde nós queremos caminhar como Igreja, Povo de Deus, como Igreja Pan-Amazônica”.

    Segundo o arcebispo de Porto Velho, “evidentemente que o Sínodo não vai atrás de curiosidades, mas tenta responder coisas concretas que nós precisamos enfrentar aqui na nossa região”. Desde sua condição de presidente do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, ele diz que “o Sínodo, desde a sua convocação, o Papa nos interpela por uma relação diferenciada com os povos indígenas, com os povos originários”. É por isso que “nós temos que nos perguntar que passos nós estamos dando em nossas Igrejas para que verdadeiramente, os primeiros habitantes destas terras, sejam ouvidos, respeitados e acompanhados na sua luta por dignidade, por justiça e, sobretudo, respeito a suas culturas, a suas espiritualidades, a seus ritos, a suas línguas. Há o direito deles ser indígenas em sua integridade”, afirma Dom Roque.

    Dom Rafael Cob, também membro do Conselho Presinodal, e bispo do Vicariato Apostólico de Puyo, Equador, destaca no documento quatro eixos estruturais: escuta, diálogo, inculturação e profecia, em torno do eixo central, que é o rosto amazônico e mergulhado na ecologia integral. O bispo de Puyo destaca no Instrumentum Laboris o pano de fundo da Evangelii Gaudium, que nos chama a uma conversão pastoral, da Laudato Sí, que nos convida a uma conversão ecológica, e da Episcopalis Conmunio, fazendo uma Igreja samaritana com seus desafios e esperanças.

    Cada uma das partes é dividida em capítulos, quatro na primeira, que apresenta “a realidade do território e de seus povos”, nove na segunda, que inclui “a problemática ecológica e pastoral”, e oito na terceira parte, que aborda “a problemática eclesiológica e pastoral”. Na segunda e terceira partes, ao final de cada um dos capítulos, são oferecidas sugestões, todas colhidas da escuta do território e do povo de Deus, chamadas a influenciar não só a vida da Igreja, mas também a própria sociedade amazônica, tendo sempre como atitude fundamental a defesa profética da Amazônia e de seus povos.

    O Instrumentum Laboris tem como ponto de partida a necessidade da Igreja ser ouvinte, que escute, algo que “não é fácil”, mas que deve gerar “uma resposta concreta e reconciliadora”, que a Amazônia implora. Não nos esqueçamos de que esta é uma “realidade contrastante” que é “cheia de vida e sabedoria”, mas que sofre as consequências do “desmatamento e destruição extrativa que exige uma conversão ecológica integral”. Tudo isto deve levar a um “encontro com as culturas que inspiram os novos caminhos, desafios e esperanças de uma Igreja que quer ser samaritana e profética através de uma conversão pastoral”.

    A vida é a base do Sínodo para a Amazônia, que nesta região é identificada com a água. Uma vida em abundância, expressa no “bem viver”, mas que “está ameaçada pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos”, que exige uma defesa e um cuidado, que “se opõe à cultura do descarte, da mentira, da exploração e da opressão”. Não se pode esquecer que “na Amazônia, a vida está inserida, ligada e integrada ao território”, onde tudo está interligado e se descobre “a obra-prima da criação do Deus da Vida”.

    O Sínodo é um tempo de graça, de inculturação e interculturalidade, de desafios sérios e urgentes, mas também de esperança. Ao mesmo tempo, esse evento eclesial quer gerar espaços de diálogo “que nos ajudem a sair do caminho da autodestruição da atual crise socioambiental”. Um diálogo que seja um ponto de partida para a missão e que tenha como interlocutores os povos amazônicos, que provoque uma dinâmica de aprendizado e resistência.

    O clamor da Terra é o clamor dos pobres, que são os que sofrem as consequências da destruição extrativista. Um clamor que vem dos povos da Amazônia, que não são reconhecidos seus territórios e são afetados pelos projetos de “desenvolvimento” e a poluição, que exige urgentemente uma ecologia integral que paralise a destruição da Amazônia, algo que afeta especialmente os povos em isolamento voluntário.

    Na Amazônia, o fenômeno global da migração também está muito presente, o que “tem contribuído para a desestabilização social nas comunidades amazônicas”. Isso fez com que a população amazônica se reunisse nas cidades, onde vive entre 70 e 80%, o que requer cuidados eclesiais, também das famílias e comunidades, cada vez mais vulneráveis. Em muitos casos, esse é o resultado da corrupção que está presente na região, “a que existe fora da lei e a que se protege numa legislação que trai o bem comum”, a tal ponto que “grandes empresas e os governos organizaram sistemas de corrupção”. Tudo isso afeta a “saúde integral” dos povos, “que supõe uma harmonia com o que a Mãe Terra nos oferece”, fonte da medicina tradicional. São conhecimentos que devem ser abordados por uma educação integral, que gera um encontro e aborda um maior conhecimento sobre o que é a ecologia integral, para a qual é necessária uma conversão ecológica.

    A terceira parte do documento de trabalho aborda os desafios e as esperanças de uma Igreja profética na Amazônia, chamada a ter um rosto amazônico e missionário, “que saiba discernir e assumir sem medo as diversas manifestações culturais dos povos”, uma Igreja participativa, acolhedora, criativa e harmoniosa, com rosto amazônico e indígena, que reconhece as “sementes do Verbo” e busca “um enriquecimento mútuo das culturas em diálogo”. Que se expressa em uma liturgia inculturada, que assume no ritual litúrgico e sacramental “os ritos, símbolos e estilos celebrativos das culturas indígenas”, tornando possível para os sacramentos serem “fonte de vida e remédio acessível a todos (cf. EG 47), especialmente os pobres (cf. EG 200)”.

    Para isso, ele sugere que “em vez de deixar as comunidades sem a Eucaristia, sejam alterados os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la”. O documento, sem questionar o celibato a qualquer momento, argumenta que “para as áreas mais remotas da região, estude-se a possibilidade de ordenação sacerdotal de pessoas idosas, preferencialmente indígenas, respeitados e aceitos por sua comunidade, mesmo que já tenham família constituída e estável, a fim de garantir os sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”. Ao mesmo tempo, é necessário” identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, tendo em conta o papel central que desempenham hoje na Igreja Amazônica”, aspectos que realmente abrem a possibilidade de encontrar novos caminhos para a Igreja.

    Ao abordar a questão da organização das comunidades, o documento questiona que “seria oportuno reconsiderar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder do governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial, administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem”, elemento decisivo que permite superar o clericalismo como instrumento de poder. Por isso, apela a “promover vocações autóctones de varões e mulheres” buscando “indígenas que preguem aos indígenas a partir de um profundo conhecimento de sua cultura e sua língua, capaz de comunicar a mensagem do evangelho com a força ea eficácia de quem tem seu bagagem cultural”. Ao mesmo tempo, ele insiste em passar de uma “Igreja que visita” para uma “Igreja que permanece”.

    Os últimos capítulos abordam o tema da evangelização nas cidades, procurando incluir nela os indígenas urbanos, fomentando o diálogo ecumênico e inter-religioso. Como em qualquer outro lugar, o papel da mídia na Amazônia é fundamental. Portanto, “é importante que o empoderamento da mídia atinja os mesmos nativos”, criando uma ressonância que ajuda “a conversão ecológica da Igreja e do planeta”, que “a realidade amazônica supere a Amazônia e tenha repercussão planetária”, a amazonizar o mundo e a Igreja. O Sínodo pode ajudar a aumentar o papel profético da Igreja, que gera uma promoção humana integral. Por essa razão, é proposta uma Igreja em saída, na escuta, que se coloca a serviço daqueles que questionam o poder, mesmo que isso leve seus membros a arriscarem suas vidas, ao martírio.

    Não nos esqueçamos de que o que deve mover o Sínodo para a Amazónia é ser “uma expressão concreta da sinodalidade de uma Igreja em saída, para que a vida plena que Jesus veio trazer ao mundo (cf. Jo 10, 10) chegue a todos, especialmente aos pobres”. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lembrar o que já disse o Documento Preparatório, onde ele insistiu que “as reflexões do Sínodo Especial superam o âmbito estritamente eclesial amazônico, por serem relevantes para a Igreja universal e para o futuro de todo o planeta”. Estamos diante de um evento universal, que muitos consideram decisivo no futuro da Igreja e da humanidade.

    Como afirma Dom Roque Paloschi, “vamos pedir que o Espírito Santo nos conduza e que a nossa Igreja viva a alegria de buscar esses novos caminhos e que nós possamos, no final desse Sínodo, concluir como os seguidores e seguidoras de Jesus naquele concilio de Jerusalém, o Espírito Santo e nós decidimos. Que seja o Espírito Santo que conduza e que nossas respostas e nossos empenhos sejam verdadeiramente voltados para responder aos desafios da evangelização desta porção do Povo de Deus”.

     

  • A Amazônia pede que a Igreja seja sua aliada

    Foi apresentado nesta segunda-feira, 17 de junho, o Documento de Trabalho do Sínodo para a Amazônia. O desafio proposto é passar de uma “Igreja que visita” para uma “Igreja que permanece”, que possa oferecer a Eucaristia para suas comunidades. A matéria é de Cristiane Murray, publicada no Vatican News.
    Acesse o Documento de Trabalho

    O mundo amazônico pede à Igreja que seja sua aliada: esta é a alma do Documento publicado na manhã desta segunda-feira (17 de junho) pela Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos e apresentado à imprensa.

    O Documento é fruto de um processo de escuta que teve início com a visita do Papa Francisco a Puerto Maldonado (Peru) em janeiro de 2018, prosseguiu com a consulta ao Povo de Deus em toda a Região Amazônica por todo o ano e se concluiu com a II Reunião do Conselho Pré-Sinodal, em maio passado.

    Ouvir com Deus o grito do povo; até respirar nele a vontade a que Deus nos chama

    O território da Amazônia abrange uma parte do Brasil, da Bolívia, do Peru, do Equador, da Colômbia, da Venezuela, da Guiana, do Suriname e da Guiana Francesa, em uma extensão de 7,8 milhões de quilômetros quadrados, no coração da América do Sul. Suas florestas cobrem aproximadamente 5,3 milhões de km2, o que representa 40% da área de florestas tropicais do globo.
    A primeira parte do Documento, “A voz da Amazônia”, apresenta a realidade do território e de seus povos. E começa pela vida e sua relação com a água e os grandes rios, que fluem como veias da flora e fauna do território, como manancial de seus povos, de suas culturas e de suas expressões espirituais, alimentando a natureza, a vida e as culturas das comunidades indígenas, camponesas, afrodescendentes, ribeirinhas e urbanas.

    Vida ameaçada, ameaça integral

    A vida na Amazônia está ameaçada pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos elementares de sua população. De modo especial a violação dos direitos dos povos originários, como o direito ao território, à autodeterminação, à demarcação dos territórios e à consulta e ao consentimento prévios.

    Rios, manancial de povos, culturas e expressões espirituais na Amazônia

    Segundo as comunidades participantes nesta escuta sinodal, a ameaça à vida deriva de interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade atual, de maneira especial de empresas extrativistas. Atualmente, a mudança climática e o aumento da intervenção humana (desmatamento, incêndios e alteração no uso do solo) estão levando a Amazônia rumo a um ponto de não-retorno, com altas taxas de desflorestação, deslocamento forçado da população e contaminação, pondo em perigo seus ecossistemas e exercendo pressão sobre as culturas locais.

    O clamor da terra e dos pobres

    Na segunda parte, o Documento examina e oferece sugestões às questões relativas à ecologia integral. Hoje, a Amazônia constitui uma formosura ferida e deformada, um lugar de dor e violência, como o indicam de maneira eloquente os relatórios das Igrejas locais recebidos pela Secretaria Geral do Sínodo. Reinam a violência, o caos e a corrupção.

    “ O território se transformou em um espaço de desencontros e de extermínio de povos, culturas e gerações. ”

    Há quem se sente forçado a sair de sua terra; muitas vezes cai nas redes das máfias, do narcotráfico e do tráfico de pessoas (em sua maioria mulheres), do trabalho e da prostituição infantil. Trata-se de uma realidade trágica e complexa, que se encontra à margem da lei e do direito.

    Território de esperança e do “bem viver”

    Os povos amazônicos originários têm muito a ensinar-nos. Reconhecemos que desde há milhares de anos eles cuidam de sua terra, da água e da floresta, e conseguiram preservá-las até hoje a fim de que a humanidade possa beneficiar-se do usufruto dos dons gratuitos da criação de Deus. Os novos caminhos de evangelização devem ser construídos em diálogo com estas sabedorias ancestrais em que se manifestam as sementes do Verbo.

    Povos nas periferias

    O Documento de Trabalho analisa também a situação dos Povos Indígenas em Isolamento Voluntário (PIAV). Segundo dados de instituições especializadas da Igreja (por ex., CIMI) e outras, no território da Amazônia existem de 110 a 130 diferentes “povos livres”, que vivem à margem da sociedade, ou em contato esporádico com ela. São vulneráveis perante as ameaças… do narcotráfico, de megaprojetos de infraestrutura, e de atividades ilegais vinculadas ao modelo de desenvolvimento extrativista.

    Pará, comunidade ribeirinha do Rio Tapajós
    Pará, comunidade ribeirinha do Rio Tapajós

    Povos amazônicos em saída

    A Amazônia se encontra entre as regiões com maior mobilidade interna e internacional na América Latina. De acordo com as estatísticas, a população urbana da Amazônia aumentou de modo exponencial; atualmente, de 70 a 80% da população reside nas cidades, que recebem permanentemente um elevado número de pessoas e não conseguem proporcionar os serviços básicos dos quais os migrantes necessitam. Não obstante tenha acompanhado este fluxo migratório, a Igreja deixou no interior da Amazônia vazios pastorais que devem ser preenchidos.

    Igreja profética na Amazônia: desafios e esperanças

    Enfim, a última parte do Documento de Trabalho chama os Padres Sinodais da Pan-amazônia a discutirem o segundo binário do tema proposto pelo Papa: os novos caminhos para a Igreja na região.

    Para ouvir e compartilhar:

    Por falta de sacerdotes, as comunidades têm dificuldade de celebrar com frequência a Eucaristia. “A Igreja vive da Eucaristia” e a Eucaristia edifica a Igreja. Por isso, pede-se que, em vez de deixar as comunidades sem a Eucaristia, se alterem os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la. As comunidades pedem ainda maiores apreciação, acompanhamento e promoção da piedade com a qual o povo pobre e simples expressa sua fé, mediante imagens, símbolos, tradições, ritos e outros sacramentais. Trata-se da manifestação de uma sabedoria e espiritualidade que constitui um autêntico lugar teológico, dotado de um enorme potencial evangelizador. Seria oportuno voltar a considerar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder de governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial e administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem.

    Novos ministérios

    Para além da pluralidade de culturas no interior da Amazônia, as distâncias causam um problema pastoral grave, que não se pode resolver unicamente com instrumentos mecânicos e tecnológicos. É necessário promover vocações autóctones de homens e mulheres, como resposta às necessidades de atenção pastoral-sacramental. Trata-se de indígenas que apregoem a indígenas a partir de um profundo conhecimento de sua cultura e de sua língua, capazes de comunicar a mensagem do Evangelho com a força e a eficácia de quem dispõe de uma bagagem cultural.

    “ É necessário passar de uma “Igreja que visita” para uma “Igreja que permanece”, acompanha e está presente através de ministros provenientes de seus próprios habitantes. ”

    Afirmando que o celibato é uma dádiva para a Igreja, pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã.

    Papel da mulher

    É pedido que se identifique o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazônica. Reclama-se o reconhecimento das mulheres a partir de seus carismas e talentos. Elas pedem para recuperar o espaço que Jesus reservou às mulheres, “onde todos/todas cabemos”. Propõe-se inclusive que às mulheres seja garantido sua liderança, assim como espaços cada vez mais abrangentes e relevantes na área da formação: teologia, catequese, liturgia e escolas de fé e de política.

    A vida consagrada

    Propõe-se promover uma vida consagrada alternativa e profética, intercongregacional, interinstitucional, com um sentido de disposição para estar onde ninguém quer estar e com quantos ninguém quer estar. Aconselha-se que a formação para a vida religiosa inclua processos formativos focados a partir da interculturalidade, inculturação e diálogo entre espiritualidades e cosmovisões amazônicas.

    Ecumenismo

    O Documento não deixa de relevar o importante fenômeno importante a ter em consideração é o vertiginoso crescimento das recentes Igrejas evangélicas de origem pentecostal, especialmente nas periferias: “Elas nos mostram outro modo de ser Igreja, onde o povo se sente protagonista, onde os fiéis podem expressar-se livremente, sem censuras, dogmatismos, nem disciplinas rituais”.

    Igreja e poder: caminho de cruz e martírio de muitos

    Ser Igreja na Amazônia de maneira realista significa levantar profeticamente o problema do poder, porque nesta região o povo não tem possibilidade de fazer valer seus direitos face às grandes corporações econômicas e instituições políticas. Atualmente, questionar o poder na defesa do território e dos direitos humanos significa arriscar a vida, abrindo um caminho de cruz e martírio. O número de mártires na Amazônia é alarmante (por ex., somente no Brasil, de 2003 a 2017, foram assassinados 1.119 indígenas por terem defendido seus territórios).

    “ A Igreja não pode permanecer indiferente mas, pelo contrário, deve contribuir para a proteção das/dos defensores de direitos humanos, e fazer memória de seus mártires, entre elas mulheres líderes como a Irmã Dorothy Stang. ”

    Durante o percurso de construção do Instrumentum Laboris, ouviu-se a voz da Amazônia à luz da fé com a intenção de responder ao clamor do povo e do território amazônico por uma ecologia integral e por novos caminhos para uma Igreja profética na Amazônia. Estas vozes amazônicas exortam o Sínodo dos Bispos a dar uma resposta renovada às diferentes situações e a procurar novos caminhos que possibilitam um kairós para a Igreja e o mundo.

  • Paulo Guedes: quebrando o país, para aprovar a sua Reforma da Previdência

    Nós percebíamos que a economia estava mal, agora está confirmado pelo IBGE. Também ficamos sabendo que o principal responsável pela queda da atividade econômica é o governo, que reduziu o investimento. Sem investimento, não há como gerar emprego. Traduzindo: não é apenas que o governo nada fez, o governo está produzindo a queda, está, conscientemente, promovendo o desemprego.

    Com que objetivo? Só para conseguir a aprovação da sua Reforma da Previdência. O Ministro da Economia explicita publicamente de que se trata de uma chantagem: o governo tem meios de ativar a economia – com a liberação do FGTS -, mas só vai fazê-lo depois de aprovada a reforma!

    Traduzindo: “Nós podemos melhorar a vida de vocês, caríssimo povo brasileiro, mas não vamos fazer nada enquanto vocês não aprovarem a minha reforma, talkey?”

    A reportagem do jornal O Globo é clara: “O ajuste fiscal ainda em curso impede o aumento do gasto público para estimular a economia” (31/05/2019). Quem decidiu continuar com o ajuste fiscal, apesar de a economia estar mal das pernas? O governo.

    Todo mundo sabe que, com ajuste fiscal, não há crescimento. Portanto, estamos indo para o “fundo do poço” por decisão de cima, das principais autoridades do país. Autoridades – que foram eleitas para tirar o país da crise e melhorar as condições de vida – estão quebrando o país.

    Em segundo lugar, é verdade que a reforma da previdência de Paulo Guedes vai alavancar a economia? Mesmo que seja aprovada rapidamente e implementada a partir de 2020, os gastos na previdência continuarão os mesmos por três anos. Só então começará a aparecer alguma mudança, mas para pior. Se for aprovada como foi proposta, significará redução de aposentadorias e pensões para a maioria. Portanto, menos dinheiro nas mãos das pessoas, isto é, menos mercado interno e, consequentemente, menos emprego.

    Além disso, há algo mais grave. A tal reforma pretende nos tirar do regime de repartição (que tem financiamento garantido, trabalhadores, empregadores e Estado) para o regime de capitalização (onde só o trabalhador contribui). Ela terá um altíssimo custo de transição: segundo cálculos do próprio governo, gastos de 1 trilhão nos próximos 20 anos (na maioria dos países que adotaram a capitalização, estes custos foram duas a três vezes o que havia sido previsto). Então, ganharemos 1 trilhão em 10 anos e perderemos 1 trilhão em 20 anos. Sobrará algum ganho, mas não é nada significativo como quiseram nos fazer crer.

    A quem beneficiará tal reforma? Já sabemos, pela experiência do Chile: aos bancos, às administradoras de fundos de pensão, que ganharão bilhões, enquanto os aposentados perderão.

    E, finalmente, pergunta que não quer calar: por que uma reforma que muda a Constituição e mexe com a vida de todos os 210 milhões de brasileiros tem de ser aprovada a toque de caixa (inclusive com compra de votos de parlamentares), sem debate amplo com a sociedade?

    Por que não temos acesso aos cálculos utilizados pelo governo para propor esta reforma?

    Por que não podemos ouvir o(s) outro(s) lado(s) para poder comparar com a reforma proposta?

    Quem sabe não haveria proposta(s) muito melhor(es) do que aquela que o governo apresentou?


     

  • Desemprego: o governo Bolsonaro nada fez

    Quando o governo começou, o desemprego já era alto: 12,2 milhões de desempregados. Os subutilizados, isto é, o conjunto dos desempregados, subocupados e desalentados (que desistiram de procurar emprego), eram 27 milhões (IBGE).

    Tínhamos, portanto, uma situação social grave, que deveria ser uma prioridade.

    O que fez o governo para gerar emprego? Nada.

    O Congresso atravancou o governo? Não, porque nem recebeu proposta neste sentido.

    Como primeiro projeto econômico importante, o ministro da Fazenda propôs uma Reforma da Previdência, apresentada como condição absolutamente necessária para resolver a crise e deslanchar a economia e que deveria ser a base para haver mais emprego.

    Como os debates posteriores revelaram, e vários economistas ortodoxos confirmaram, esta reforma não é a única nem a primeira possibilidade para conseguir recursos, nem tampouco gerará emprego. Ao contrário, se aprovada como está, reduzirá os ganhos das pessoas mais pobres, portanto, reduzirá o mercado interno (menos consumo = menos emprego).

    Não cansamos de repetir que há outras fontes de recursos (economista Eduardo Fagnani) – mas o governo não quer usar:

    O pagamento de juros da dívida pública: 300 a 500 bilhões por ano;

    As isenções fiscais (para empresas, etc.): 350 a 400 bilhões por ano;

    A sonegação fiscal: cerca de 500 bilhões por ano.

    São, portanto, no mínimo, 1 trilhão e 150 bilhões por ano, que poderiam ser recolhidos se o governo tomasse providências nestas três áreas. Em um ano, não em 10 anos!

    Neste meio tempo, em cinco meses, em razão da inação do governo para gerar emprego, o desemprego subiu de 12,2 para 13,4 milhões e o número de subutilizados aumentou de 27 para 28,3 milhões.

    Os economistas apontam para o baixo crescimento e o risco de nova recessão no país. Todos sabem que a economia vai mal e que as perspectivas não são boas. Não por causa do Congresso ou do STF e, sim, porque o governo não enfrenta a questão.

    Os relatórios sobre desigualdade social produzidos pela OXFAM do Brasil (2017 e 2018) revelam que, desde 2015, o processo de redução das desigualdades – que vinha ocorrendo nos últimos 20 anos – estagnou ou regrediu. As medidas de ajuste fiscal (iniciado no 2º governo Dilma e aprofundado por Temer), sobretudo a Emenda Constitucional do Teto dos Gastos e a Reforma Trabalhista (ambas produto do governo Temer), significaram uma enorme perda para os pobres. O investimento em saúde e educação públicas representa um aumento indireto da renda das famílias mais pobres: a redução progressiva destes investimentos está fazendo com que elas se tornem ainda mais pobres.

    O governo Bolsonaro manteve o ajuste fiscal e as medidas que tomou foram no sentido de redução de direitos, de corte de gastos sociais, de redução de verbas para a educação, de reajuste do salário mínimo inferior ao que era feito anteriormente, de privatização de empresas estatais ou de setores destas empresas, de entrega de nosso petróleo para empresas estrangeiras. Estas últimas medidas interrompem a receita anual de lucros produzidos por estas empresas para o Brasil.

    Se os trabalhadores ganham menos, se a maioria dos que conseguem emprego ficam na informalidade, se muitos não conseguem emprego nenhum – nem mesmo precário -, se os gastos sociais estão diminuindo (educação, saúde, assistência…), é inevitável um forte empobrecimento da população (visível inclusive a olho nu). A economia está em câmara lenta e o Brasil está mais pobre. E o governo, que nada fez quanto a isso, acusa os outros.

  • Acolhida aos migrantes, “uma ação profética”, afirma Dom Mário, bispo de Roraima

    Uma corrente de xenofobia parece ter se instalado na sociedade mundial. Os discursos de alguns políticos cada vez têm mais repercussão numa sociedade que vai endurecendo seu coração. Frente a essa atitude o Papa Francisco nos diz, “que o medo não nos impeça de acolher”.

    Esse chamado tem encontrado uma resposta clara na diocese de Roraima, que tem se tornado mãe para os milhares de refugiados que tem chegado desde a vizinha Venezuela. Só na paróquia de Pacaraima, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, chegam cada dia 1.500 venezuelanos esperando receber o café da manhã, para muitos seu único alimento ao longo da jornada.

    Podemos dizer que o contexto migratório faz da sociedade uma realidade diferente, como reconhece Dom Mário Antônio da Silva. Diante desse fenômeno, o bispo de Roraima faz um chamado a “disseminar o verdadeiro amor, que nos move e vai ao encontro das pessoas”. A Igreja católica em Roraima tem se tornado “uma ação profética para nosso estado”, afirma Dom Mário Antônio. Essa atitude encontra rejeição em boa parte da classe política local, assim como dentro da própria Igreja católica, onde tem gente que não compreende essa atitude da diocese e mostra resistência.

    O trabalho desenvolvido por pastorais, organismos, congregações religiosas que trabalham na diocese de Roraima lhes mostra como “líderes de uma ação eclesial”, afirma seu bispo, reconhecendo nesse trabalho “uma ação com incidência política y social”, que faz de todos os envolvidos e da própria diocese, sal, luz e fermento, revelando “verdadeiras páginas vivas do Evangelho”, insiste Dom Mário Antônio. Ele, seguindo a mensagem do Papa Francisco, diz que deve ser garantido o direito de migrar com liberdade, uma realidade cada vez mais difícil numa sociedade onde o próprio sistema prende os migrantes, lhes impedindo se libertar das correntes que os amarram.

    Algumas das pessoas que trabalham na acolhida aos migrantes e refugiados na diocese de Roraima, reconhecem que os migrantes os ajudaram a se abrir como Igreja, a sair dos templos, das próprias estruturas. Isso se traduz em um atendimento que se diversifica de múltiplas formas e que tem como objetivo final a interiorização dos migrantes venezuelanos no Brasil, a través do projeto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, “Caminhos de Solidariedade”, que tem ajudado a milhares de pessoas nos últimos meses.

    Falar de migrantes tem que nos levar a descobrir a história de pessoas, de rostos concretos, de vidas, muitas vezes machucadas, exploradas por gente sem escrúpulo que se aproveita da necessidade alheia. Cada pessoa que consegue se estabelecer, representa uma vitória de todos os envolvidos, de tantos voluntários e voluntárias que tenderam sua mão ao irmão migrante.

    Como reconhece Dom Mário Antônio da Silva, o trabalho com os migrantes apresenta desafios para a igreja de Roraima. Um deles é a articulação entre os diferentes atores desse trabalho, mas que é difícil, pois “a cada dia surge uma nova emergência, é difícil estabelecer um processo”. 

    No trabalho de conscientização eclesial e social, a Semana do Migrante tem um papel em destaque. Em 2019, na sua 34ª edição, que vai ser celebrada de 16 a 23 de junho, tem como tema, em relação com a Campanha da Fraternidade, “Migração e Políticas Públicas”. Lembrando as palavras do Papa Francisco, faz um chamado a “Acolher, proteger, promover, integrar e celebrar. A luta é todo dia!”. A Semana tem como propósito refletir a partir do rosto, raiz, rotas e respostas. Os migrantes são pessoas concretas, que passam por essa situação a partir de causas comuns, que entram num esquema que segue suas rotas.

    Tudo isso precisa de respostas da sociedade e da própria Igreja. É por isso, que podemos dizer que a diocese de Roraima tem se tornado uma referência no trabalho com os migrantes, mostrando que acima do medo, as incompreensões e resistências, a misericórdia tem que ser a atitude a seguir, fazendo assim realidade o Evangelho da vida, sempre atento ao excluído, àquele que a sociedade descarta.

  • Madeira na Amazônia, fonte de lucro e destruição

    Os ciclos de destruição na Amazônia seguem uma série de passos, que tem como consequência a destruição de um bioma de extrema importância na sobrevivência do Planeta. Os efeitos são cada vez mais visíveis, mesmo que muitos, inclusive com cargos de relevância em organismos que deveriam garantir o cuidado da região, se empenhem em negar as evidências.

    Frente a essa realidade o Sínodo para a Amazônia nos faz um chamado a procurar novos caminhos para uma ecologia integral. O Papa Francisco, em seu encontro com os povos originários em Puerto Maldonado, disse que “é justo reconhecer que existem iniciativas encorajadoras que surgem de suas bases e de suas organizações, e incentivam os próprios povos indígenas e comunidades a serem os guardiões das florestas”.

    Os povos indígenas nos mostram uma visão diferente daquela capitalista que “considera a Amazônia como uma despensa inesgotável dos Estados sem ter em conta seus habitantes”, como disse o Papa Francisco. Ele insistia em Puerto Maldonado que “a Amazônia é terra disputada desde várias frentes”, enumerando diferentes realidades de neo-extrativismo, dentre elas a madeira.

    Como acontece em muitas regiões da Pan-Amazônia, a fronteira entre o Peru e o Brasil, na região da cabeceira do Rio Acre está sendo devastada pela ação das madeireiras, que estão arrasando o território peruano. Além de povos em isolamento voluntário, especialmente os mashcopiros, a região é habitada tradicionalmente pelos povos yaminawa e manchineri.

    Essa prática dos madeireiros do lado peruano não é nova, como reconhecem lideranças indígenas do lado brasileiro, afirmando que “desde há muito tempo atrás os madeireiros peruanos vem retirando a madeira do lado do Peru”. Naquela região a divisa é o rio, que está sendo utilizado pelos madeireiros como via de comunicação, subindo e descendo, levando o material e os alimentos para eles, segundo essas lideranças.

    Junto com isso, está acontecendo desde o início de 2019 uma situação que agrava ainda mais o problema, que é que “tem se aberto caminhos por onde as máquinas estão passando, já passaram em frente da nossa comunidade”, denunciam com preocupação os indígenas. Eles reconhecem que os mais atingidos por essa situação são sobretudo os indígenas não contatados. É por issoque os próprios indígenas afirmam que “um dia eles podem vir e nos atacar, esse é o problema”.

    O fato de ter aberto ramais, que facilitam a entrada e saída, pode trazer outras consequências negativas para os indígenas que moram na Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre. Eles afirmam, “quem sabe com o tempo, como já tem ramal, possam entrar os mineiros, eles vão começar trabalhar tirando ouro e outras coisas, e aí o rio vai estar poluído, e nós consumimos o peixe do rio”. Junto com isso, os indígenas denunciam que o ramal pode facilitar a chegada de “muitas pessoas que não trabalham e gostam de pegar as coisas dos outros, desconhecidos que podem invadir uma casa e levar o que nós temos, o sustento da nossa família”.

    A situação é vista com grande preocupação pelos indígenas, que afirmam que para eles é difícil se defender, “a gente não tem essa força, são empresas grandes”. De fato, eles dizem que “já denunciamos, elaboramos um documento, mas a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), a Polícia Federal, eles têm conhecimento, eles sabem muito bem que as madeireiras estão lá, mas nunca foram ainda”. Tempo atrás, o único órgão de fiscalização que se fazia presente era o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), “eles iam lá, sempre tínhamos contato, quando estavam em Assis Brasil, mas eles saíram e foram para Brasiléia (distante 111 quilómetros de Assis Brasil), está difícil agora para eles fazer essas viagens de fiscalização”, reconhecem os indígenas.

    Os próprios indígenas assumem que “quem faz essa fiscalização somos nós, quando estamos indo para pescar, para caçar, sempre estamos olhando se tem alguma invasão nas nossas terras”. Segundo eles,“no momento não tem, mas na nossa frente já estão os madeireiros, isso é muito preocupante”.

    A madeira é processada na região e de lá, seguindo a rota interoceânica, chega nos portos peruanos do Oceano Pacífico, desde onde é exportada, tendo como destinos principais a China e o México. O tráfego de carretas é constante, sem fiscalização do governo peruano, que pode ser considerado responsável final de uma situação que pode ter como consequência que, no ritmo atual, em quatro ou cinco anos a madeira da região vai ficar extinta.

    O que resta da madeira é destinado às carvoarias de Iñapari, pequena cidade na fronteira com o Brasil, onde migrantes chegados de outras regiões do Peru, e alguns venezuelanos,trabalham em condições degradantes, um trabalho do qual participam homens, mulheres e inclusive crianças, com um lucro muito pequeno, pois por um saco de cem quilos de carvão ganham mais o menos 25 soles, aproximadamente 35 reais. Eles mesmos reconhecem que sentem-se escravos, mas estar lá é visto na maioria dos casos como a única fonte de renda que faça possível a sobrevivência.

    Não podemos esquecer que muitas das pessoas que trabalham nas carvoarias procedem de realidades onde a extrema necessidade os leva a fazer parte de um esquema que inclusive é visto como “melhoria de vida”. Isso deve nos levar a nos perguntarmos sobre as causas dessa situação, que tem sua raiz na falta de políticas públicas, uma realidade muito presente em diferentes regiões da Amazônia, onde a exploração, disfarçada de possibilidade de sobrevivência, tem se tornado presente em todos os cantos.

  • OUTRO CICLONE AMEAÇA MOÇAMBIQUE

    O país africano, que foi notícia por duas vezes recentemente por causa dos ciclones Idai e Kenneth, terá Eleições Gerais neste ano, no dia 15 de outubro. O país está realizando um recenseamento dos eleitores. Já se prevê que as Províncias dominadas pela Frelimo, partido que governa o país há 43 anos, vão ganhar alguns deputados extras, por conta desse processo.

    O recenseamento continua a decorrer até 30 de Maio e a justiça eleitoral prevê recensear 6 milhões de eleitores, além das 6.8 milhões de pessoas que foram recenseadas no ano passado para as eleições locais.

    O total previsto é de 12.9 milhões de eleitores, equivale a 91% da população adulta (ou que completem 18 anos até à data das eleições).

    Gaza e Cabo Delgado, zonas da Frelimo, são províncias que já registram mais eleitores do que estava previsto e isso vai permitir que elejam mais 12 deputados para a Assembleia da República. Gaza deverá ter mais 10 deputados e Cabo Delgado mais 2. Em Gaza, particularmente, os partidos da oposição nunca conseguiram eleger algum deputado para a Assembleia da República.

    A estimativa do número de eleitores em idade adulta em cada província e distrito teve como base os dados do censo de 2017. Entretanto a estimativa de eleitores inscritos tanto em Gaza (108%) como em Cabo Delgado (104%) superam os números de eleitores que o Censo de 2017 previa para aquelas províncias. Estas foram as duas províncias onde, em 2014, a Frelimo venceu com maioria mais elevada.

    Oposição denuncia irregularidades em Sofala e fala de sabotagem da Frelimo. O recenseamento eleitoral está marcado por ameaças aos fiscais da oposição, inscrição de eleitores inexistentes nos cadernos eleitorais, avarias premeditadas dos equipamentos, segundo a oposição em Sofala.

    “Há muita gente com vontade de recensear, mas não pode porque há problemas de máquinas, falta de toner, painéis solares e baterias”, disse o porta-voz da Bancada da Renamo na Assembleia Provincial de Sofala, Sebastião Mortal. “Há distritos onde não temos fiscais porque

    estes estão com medo”, disse por sua vez a portavoz do MDM na Assembleia Provincial de Sofala,Rosalina Macate, que fala de intimidações aos seus fiscais. A Renamo acusa o partido no poder de estar alegadamente a inviabilizar o recenseamento naquela província que é historicamente sua zona de influência. “A Frelimo nunca ganhou nesta província desde as primeiras eleições, julgamos que este partido já está a começar com manobras”, disse Mortal.

    Resta a dúvida: No final da apuração dos votos qual dos ciclones terá sido pior?

     

    Informações obtida do Boletim sobre o Processo Político em Moçambique, publicado por CIP, Centro de Integridade Pública, em  https://macua.blogs.com/files/eleicoes_gerais_26_21-05-19.pdf

  • “Este Sínodo, pode ter a magnitude vulcânica do Vaticano II”, afirma Presidente da Família Franciscana do Brasil

    O Sínodo para a Amazônia está levando às congregações religiosas a uma reflexão em torno das problemáticas que esse momento está apresentando para a vida da Igreja. Têm acontecido muitos encontros em volta dessa temática, o que mostra que, além de documentos, o Sínodo está provocando novos caminhos, novos modelos de evangelização, de enfrentar os desafios da missão, especialmente na região amazônica.

    A Família Franciscana do Brasil tem organizado o Fórum Franciscano para o Sínodo Pan-Amazônico, que vai acontecer em Manaus, a maior cidade da Amazônia, de 4 a 6 de julho. No evento são convidados todos aqueles que são envolvidos no carisma franciscano, frades, religiosas, leigas e leigos, tendo como propósito o estudo, debate, aprofundamento e celebração.

    Francisco de Assis e Francisco de Roma são personagens em quem muitos vem paralelismos que nos levam a descobrir no bispo de Roma uma atualização da mensagem a as práticas do santo que viveu há oito séculos. A Laudato Si recolhe muitos elementos do Cântico das Criaturas, uma atitude que também se percebe no chamado ao cuidado da Casa Comum e o desejo de uma Igreja pobre e para os pobres.

    Na região amazônica, a presença da família franciscana é uma das mais destacadas. É por isso que a reflexão em volta do Sínodo pode beneficiar nem só as diferentes congregações que fazem parte dessa família como as muitas Igrejas locais onde desenvolvem seu trabalho evangelizador. Na programação do encontro aparece uma reflexão em torno do Instrumento de Trabalho do Sínodo, que está sendo ultimado depois dos aportes do Conselho Presinodal, reunido em Roma na semana passada, e que deve ser apresentado no mês de junho.

    Junto com isso, vai acontecer uma reflexão sobre cosmovisões amazônicas, onde está anunciada a presença do Padre Justino Sarmento Rezende, salesiano indígena do povo tuyuka, assessor do Sínodo para a Amazônia, e uma pessoas que melhor tem sabido estabelecer pontes entre o a visão indígena do mundoe a espiritualidade cristã. Também faz parte do programa a reflexão sobre os desafios do Sínodo para a Família Franciscana do Brasil, com a assessoria de Frei Luiz Carlos Susin, OFMCap, a dimensão mística e profética dos franciscanos e o Sínodo, com a presença de Frei Atílio Battistuz, OFM, e a Ecologia Integral Franciscana em relação ao Sínodo, com as contribuições de Frei Florêncio Vaz, OFM.

    Segundo Frei Éderson Queiroz OFMCap, Presidente da Conferência da Família Franciscana do Brasil – CFFB, “a Conferência da Família Franciscana do Brasil, recebeu com apreço a convocação pelo Papa Francisco, do Sínodo Panamazônico. O Sínodo em si mesmo, diz de uma realidade muito próxima do movimento franciscano: caminhar juntos!”. O frei encontra a justificativa a suas palavras no próprio fundador, pois “São Francisco de Assis, intuiu o “caminhar juntos” como expressão da Fraternidade Minorítica, pois exige escuta, olhar na perspectiva do outro, diálogo que aproxima a compreensão e passos numa mesma direção, como consequente obediência ao Espírito, que se manifesta na comunidade reunida”.

    Ao falar concretamente do Sínodo para a Amazônia, o Presidente da CFFB, diz que “este Sínodo tem um objetivo especial, a realidade humana, eclesial, ambiental da grande Amazônia. Falar da Amazônia, é tocar nas cordas mais finas da Espiritualidade Franciscana, sua gente, seu modus vivendi, sua cultura, religiosidade, costumes, ecossistemas, desafios, ameaças, exploração. Tudo isso move nosso ser Franciscano”. Ele insiste em que “o Sínodo é um acontecimento eclesial. Isto deveria ser profundamente interpelativo ao franciscano e franciscana. Herdamos de São Francisco, a consciência da catolicidade. Aliás, está foi uma das condições, por ele estabelecida, para acolher alguém como membro da Fraternidade”.

    Dada a presença dos diferentes membros da família franciscana em todos os cantos do país, o fórum que vai acontecer em Manaus, de 4 a 6 de julho, pretende, segundo Frei Éderson Queiroz, “despertar a consciência dos irmãos e irmãs, espalhados pelo Brasil a fora, de que o Sínodo Pan-Amazônico, não diz respeito somente aos que vivem na Amazônia”. Ele insiste em que “as questões que hoje dificultam o exercício da vivência eclesial, a inculturação da fé, o sujeito eclesial, os ministérios, os múltiplos desafios para a Vida Religiosa Consagrada, de matriz europeia, branca e urbana, podem a partir do Sínodo, encontrar respostas e projetar caminhos novos”.

    Entre os novos caminhos, o frei diz que “por outro lado, temos toda a questão ambiental. A Amazônia, é vista pelo grande capital como uma mina a ser explorada. Baseando no modelo exploratório dos grandes grupos internacionais, a Amazônia é uma terra a ser devastada. Já temos indícios disso”. Fazendo referência aos origens do franciscanismo, “no espírito das origens do movimento Franciscano, tudo que diz respeito ao ecossistema, deve ser amado, não porque serve a vida humana, mas, porque é nosso irmão, nossa irmã. A vida em si mesma, palpita na água, no sol, nas plantas e nos milhões de seres vivos, ali presentes. Portanto, falarmos da Amazônia, em sua multiplicidade de vida, é falarmos da Fraternidade Franciscana, coração do nosso carisma”, aspectos que condizem comas cosmovisões dos povos originários da Amazônia.

    Desde a visão franciscana, ninguém pode esquecer que “para São Francisco, não é apenas os humanos, que devem ser vistos e tratados na perspectiva da irmandade, mas também todo o criado que está a sua volta. O mesmo Francisco que diz: irmã Clara, irmã Jacoba, Irmão Leão, irmão Rufino, irmão Bernardo, irmão Pedro, diz também: irmã água, irmã cotovia, irmã lua, irmão sol, irmão lobo. Até a morte, foi acolhida na perspectiva da fraternidade: irmã morte!”, enfatiza o Presidente da CFFB.

    Dentro da família franciscana do Brasil, seu Presidente reconhece que “a reflexão sinodal tem tocado mais de perto a vida das irmãs e dia irmãos que vivem na região amazônica”. Isso se constata no fato de que “muitos estão engajados nos diversos grupos da REPAM, CRB, Arquidioceses, Dioceses, Prelazias. Criaram grupos nas frentes de trabalho para estudar, aprofundar e colaborar nas sugestões enviadas a Secretaria Geral do Sínodo. Muitas festas de padroeiros tomaram o tema e lema do sínodo. Retiros Espirituais, assembleias de estudo, seminários e outras atividades foram ricamente desenvolvidas, pelas Fraternidades da região amazônica”.

    Nesse sentido, o frei reconhece com pesar que “tristemente, ainda sentimos, a região centro-sul do Brasil, um tanto silenciosa quanto ao Sínodo. Tenho impressão, que muitos ainda estão na lógica: isto não diz respeito a minha vida. Será uma coisa para a Amazônia”. Por isso, ele insiste em que “acredito que muita gente ainda não percebeu, que este Sínodo, pode ter a “magnitude vulcânica” do Concílio Vaticano II”. Sua afirmação tem como base o fato de que “é impossível tratarmos da presença da Igreja, naquela grande região, a qual está intimamente ligada a vida e o futuro do planeta, sem tratarmos da vida e cultura dos povos originários, da diversidade cultural, linguística, simbólica, religiosa, daquela gente”.

    Isso também atinge à Vida Religiosa, pois em sua opinião, “o modelo de Vida Religiosa Consagrada, que usualmente encontramos mundo a fora, para a Amazônia precisa de uma recriação. A prática ministerial usualmente centrada nos sacramentos e para isso a necessidade de homens celibatários, ou seja revista, ou perderemos de vez, nossa interlocução com a realidade amazônica”, mostrando assim alternativas de novos caminhos para a Igreja. Na perspectiva da ecologia integral, ele afirma que “criamos frentes organizadas e articuladas entre si, para a defesa da Amazônia, sua gente, cultura e meio ambiente ou então, assistiremos o assalto, que já está ocorrendo, devastando matas, poluindo rios, matando espécies nativas, sacrificando gentes”.

    O Fórum Franciscano sobre o Sínodo Pan-Amazônico, que acontecerá em Manaus, de 4 a 6 de julho, pretende ser um despertar a todas essas questões, segundo o Presidente da CFFB. Nesse sentido, ele diz que “logo no mês de agosto, teremos nossa Assembleia Geral Ordinária, o nosso desejo, é que juntos, possamos abraçar com renovado empenho, toda questão amazônica e que estejamos abertos aos caminhos apontados pelo Santo Padre, depois da Assembleia Sinodal. Vislumbramos um caminho muito bonito, intenso e não menos empenhativo para toda a Família Franciscana do Brasil”.

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