Artigo

  • Análise de conjuntura: novo ensaio

    Nota prévia

    Análise de conjuntura não é o mesmo que análise dos acontecimentos, porque supõe o prévio conhecimento – sempre hipotético – da estrutura que fornece a lógica dos processos históricos. Sem uma definição do que é estrutural, não é possível avaliar o impacto dos acontecimentos nas bases de um conjunto social. Por isso a análise de conjuntura deve situar os fatos (visíveis) no plano das estruturas (invisíveis). É o que tento fazer aqui, para decifrar o sentido profundo dos resultados das eleições deste ano.

    Distingo três planos estruturais: o sistema de vida da Terra, o sistema-mundo com seu modo de produção e consumo capitalista, e o sistema (social, político, cultural e econômico) brasileiro. É claro que nos interessa especificamente o último sistema, mas não podemos esquecer que ele está subordinadamente integrado nos dois outros. Por isso, farei breve menção das mudanças conjunturais em cada um deles. Na conclusão indico algumas implicações práticas para quem se identifica com as lutas das classes trabalhadoras, dos povos originários e dos grupos socialmente discriminados.

    1. O sistema de vida Terra

      Tornaram-se frequentes os sinais de mudanças estruturais no sistema Terra. Ao abrir a reunião da COP-24, em Katowice, Polônia, disse o secretário-geral da ONU:“Estamos em apuros. Estamos em grandes apuros com as mudanças climáticas”. Porque ele tem uma visão global, sabe avaliar o significado de uma catástrofe climático-ambiental. E sabe que ela poderá acontecer ainda antes de 2050, caso não sejam tomadas as medidas recomendadas pela comunidade científica internacional – medidas que as megacorporações não aceitam porque prejudicam seus lucros. A situação se agrava porque os Estados nacionais dão mais prioridade aos lucros das empresas do que ao equilíbrio climático e ecológico. O caso do presidente dos EUA é emblemático, mas muitos outros governantes se submetem às megacorporações embora se declarem defensores do meio ambiente.

      Ainda não nos habituamos a entender a questão ambiental como uma questão política, e isso reduz muito nosso campo de visão. É preciso ampliar nossas categorias de pensamento para incluir a Terra – ou, pelo menos, sua comunidade de vida – como sujeito da história, e não mais como coisa. Ela está sofrendo e esse sofrimento atinge a espécie humana, embora as categorias científicas de que disponho não consigam desvendar essa conexão. Tudo se passa como se espécie homo sapiens esteja a pressentir sua extinção e por isso dá vazão a comportamentos irracionais como ódio aos semelhantes, voracidade do consumo, aceitação da pós-verdade, refúgio no mundo virtual e outras práticas que destroem a tessitura social. No polo oposto, esse mesmo pressentimento favorece a emergência de uma outra consciência na relação com a Terra, a qual começa a ser percebida como sujeito de direitos e ser vivo do qual a espécie humana faz parte. Essa consciência se expressou na Carta da Terra, publicada em 2000 e desde então tem se expandido por toda parte, inclusive recuperando concepções ancestrais de povos originários como o Sumak Kawsay (Bem-Viver).

      Atenção: Essa realidade de âmbito planetário precisa ser seriamente considerada não só porque ela pode ajudar a explicar fenômenos aparentemente absurdos, como porque ainda é possível ao menos amenizar a catástrofe ambiental que se anuncia. No mínimo, ela precisa ser considerada como um obstáculo intransponível ao crescimento econômico de médio e longo prazo. Isso inclui o projeto chinês da nova rota da seda, que prevê investimento de US$5 trilhões até 2049, poderá fracassar se desconsiderar os estragos advindos da catástrofe ambiental.

    2. O sistema-mundo do capitalismo

      Seu polo dinâmico está passando dos EUA para a China (ou Chíndia?) e essa transição é marcada pela (1) financeirização do capital e (2) clima de guerra. A crise de 2008 ainda não terminou e a situação econômica mundial continuará conturbada enquanto o dólar US for a moeda das transações internacionais. Esse conflito econômico entre as potências emergentes e as decadentes já adquiriu a forma de guerra: atualmente são guerras localizadas, étnicas, contra drogas ou terrorismo, mas podem tornar-se guerra direta entre as grandes potências. A China provavelmente será vencedora e modelará outra forma de capitalismo – a economia verde – conquistando a hegemonia mundial no século 21. Nesse contexto, o Brasil do novo governo se alinhará subservientemente com o provável perdedor (EUA).

      Atenção: Essa inserção do Brasil como parceiro subalterno dos EUA decorre da crise de 2008: a classe dominante rompeu o pacto de não-agressão oferecido pelo PT e trocou o projeto desenvolvimentista dos governos Lula e Dilma pela política de Temer e Bolsonaro de subordinação ao governo dos EUA. Ela é determinante na explicação do golpe de 2016 e da vitória eleitoral da direita. Por sua posição geopolítica e econômica, o Brasil é um país chave na América do Sul, onde só falta dobrar a Bolívia e a Venezuela aos interesses estadunidenses.

    3. O sistema Brasil

      O resultado das eleições deixou evidente a mudança na correlação de forças entre as classes sociais. A classe dominante (composta por cerca de 40 mil famílias que se beneficiam da financeirização do capital, o que não impede de também controlar o processo produtivo) aproveitou-se do descontentamento popular manifestado em 2013 para romper o pacto de não-agressão proposto pelo PT de Lula (em nome das classes trabalhadoras). Desde então recorre à agressividade para eliminar – ou ao menos afastar do campo político – os grupos por meio dos quais as classes trabalhadoras e setores subalternos se expressam ou se organizam (como o PT e seus aliados, Movimentos como MST, MTST, Indígenas, negros, mulheres, LGBT e outros), ou que as apoiam (como setores de Igrejas, universidades, intelectualidade etc). Talvez caiba o rótulo de fascista a essa proposta por não ceder espaço à luta de classes dentro da institucionalidade democrática, mas visar sua eliminação enquanto agente político.

      Atenção: Essa mudança da conjuntura tem forte incidência estrutural porque afeta diretamente a correlação de forças da luta de classes. A classe dominante – com seus distintos setores (financeiro, agronegócio, minerador, industrial, comercial) – optou por submeter-se às grandes corporações transnacionais, abandonando o projeto nacional-desenvolvimentista proposto pelo PT em 2002 como base do pacto que baseou os governos petistas. Pelo menos temporariamente, a classe dominante conseguiu a adesão das classes médias e os votos da massa popular. Para isso conta com a habitual colaboração da mídia e o apoio das Igrejas neopentecostais e de setores conservadores das Igrejas Evangélicas e Católica. Embora seu ideário político-social dependa de pensadores do quilate de Olavo Carvalho, isso parece bastar para conquistar a adesão da grande massa de insatisfeitos com o sistema atual, que atiça o desejo de consumo mas não o satisfaz.

      O resultado foi a derrota das classes trabalhadoras. Em três anos de luta suas forças foram exauridas. Mas não se acabaram. (1) No campo político, contam ainda com uma bancada relativamente forte na Câmara (se for feito um bom arco de alianças, ela será suficiente para evitar aprovação de PECs), alguns senadores e governos estaduais. (2) No campo social, os Movimentos Sociais organizados e os Povos Indígenas dão mostras de resiliência, bem como o que resta dos sindicatos. (3) No campo do pensamento, a maior parte da população universitária resiste à proposta fascista; as CEBs e Pastorais sociais, bem como um número crescente de bispos católicos e pastores, embora minoritários, não deixam morrer o Cristianismo da Libertação; os e as artistas animam a resistência popular, e seria possível elencar ainda outras forças. (4) No campo econômico as pequenas unidades deeconomia solidária e cooperativas populares sobrevivem, mesmo à margem da economia formal.

    Conclusão: implicações práticas

    1. Há um problema estratégico. Hoje chegam inúmeros apelos à resistência: resistir à prisão do Lula, aos ataques a Territórios indígenas e quilombolas e assentamentos de trabalhadores rurais, à política de privatizações, à reforma de previdência, à redução da maioridade penal, ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado, à escola sem partido, aos ataques a defensores e defensoras dos Direitos Humanos, à comunidade LGBT e tantas outras medidas que se anunciam. Não é possível, contudo, atuar em todas as frentes de combate a que somos convocados e é muito triste abandonar companheiros nas mãos dos inimigos. A sabedoria reside em lidar com tantas frentes, reunir forças e fazer um trabalho bem articulado e formativo. Essa sabedoria é importantíssima nos dias de hoje. Para isso, há que restaurar as forças.

    2. Restaurar as forças é fundamental. É preciso buscar refúgio onde se possa trocar ideias, rever serenamente os próprios erros e acertos sem acusar terceiros. Esse retiro não é perda de tempo. É fazer um recuo estratégico, onde seja possível fazer o processo de formação política e tecer novos laços de solidariedade. Embora esse recuo possa deixar espaço para o avanço das hordas adversárias, suas desavenças internas (que já são evidentes) tendem a desgastá-las em pouco tempo. Assim, ao voltar à luta seremos muito mais fortes do que hoje (e elas mais fracas).

    É claro que há demandas tão graves ou urgentes que nos obrigam a sair do retiro e retornar ao confronto direto. Mas nesse caso o lado mais fraco só tem chance de vitória se estiver na defensiva. Sabe-se que as forças de quem se defende se multiplicam por dez, desde que sua defesa seja sólida e não se aventure à luta em campo aberto. Talvez seja o caso da reforma da Previdência, de privatizações que violem a Constituição, a proteção a defensores dos Direitos Humanos e a preservação da Amazônia (que tem forte apoio internacional).

    3. Voltar às bases é dedicar-se ao trabalho direto, pessoal, para fazer conscientização e organização. Bases são os grupos de solidariedade pessoal (família, vizinhança, igreja, de amizade, de trabalho, associação por afinidade e outros) onde as relações pessoais se revestem de laços afetivos (e não necessariamente grupos populares). A esses grupos devemos nos voltar, agora, cada qual para aquele/s onde é bem recebido ou recebida, sempre dando prioridade aos grupos formados por gente pobre, vulnerável ou jovem. Trata-se de ir a essas bases para retomar o trabalho de educação política, isto é, de conscientização e de organização, sabendo que ele exige capacitação e que leva tempo.

    4. Exercer (ou reconquistar) a hegemonia intelectual e cultural é a missão dos e das intelectuais vinculadas/os às classes trabalhadoras. Essa missão foi bem desempenhada ao longo do século 20, quando os valores democráticos, igualitários e libertários se difundiram por todo Ocidente, deixando envergonhadas as pessoas que dele divergiam (tradicionalistas, racistas etc). A vitória do capitalismo na guerra fria, porém, favoreceu o pensamento de direita, que propõe a desigualdade como fator de progresso, e vê nas elites o resultado da ordem natural.

    Esse pensamento de direita conquistou espaço na sociedade com importante contribuição das religiões cristãs de vertente fundamentalista (incluída a católico-romana). Em sua versão vulgar ele traz o criacionismo, justifica o racismo e o patriarcado e outros sistemas de exclusão; em sua versão erudita ele justifica a liberdade individual como fundamento da lei natural que não pode ser mudada pelo Estado. Na versão teológica ele separa corpo e alma e se volta unicamente pela salvação desta (por meio de rituais), deixando as realidades materiais sob o domínio do mercado. Esse pensamento se difunde como defesa da família, da vida e dos valores tradicionais ameaçados pelo marxismo cultural que é apontado como o grande inimigo da civilização ocidental cristã: não tendo conseguido derrotá-la pela economia (fim do socialismo soviético), quer derrotá-la destruindo as bases morais da família.

    Embora esse pensamento tenha uma argumentação rasa e mal fundamentada, ganha adeptos recorrendo às emoções: medo do diferente, medo da liberdade feminina, busca de segurança no passado idealizado, orgulho de ser pobre mas honrado etc. Após sua aparente derrota para a modernidade, ele volta à tona de forma agressiva atacando quem defende um pensamento libertador ou libertário. Contra ele três medidas são recomendadas: (1) não repassar as mensagens que falam de seus avanços e abusos, (2) não se curvar diante das intimidações e ameaças, mas seguir em frente, e (3) sempre que possível rebater os argumentos e esclarecer as ideias, mas ignorar os ataques pessoais.

    Juiz de Fora, 11/ dez. 2018

     

  • Macri, o Mito argentino, três anos depois

    Atílio Boron é um importante analista político argentino.

    Sua análise, apresentada semana passada em um congresso internacional realizado na Grécia, nos faz pensar no Efeito Orloff: “Eu sou você amanhã”, aquela propaganda que alertava o consumidor sobre a importância de escolher certo a sua bebida e evitar a ressaca do dia seguinte, lembra?

    Na Argentina, e agora aqui, foram eleitos governos alinhados com o Grande Capital em políticas ultra-neoliberais: Estado mínimo para o cidadão, Estado repressor e forte em defesa do Capital. Como confessou ao El Pais um pequeno empresário “Queríamos a mudança que Macri propunha não a que ele fez.”

    Artigo de Atílio Boron, publicado originalmente por i21, traduzido e publicado em português por Portal Vermelho, dia 28/11/2018.

    As involuções da  Argentina de Macri

    Com o governo de Mauricio Macri, a Argentina passou por uma dupla involução. Por um lado, a transição de uma democracia capitalista limitada para um regime semi-autoritário, uma “democradura”. Macrismo é um híbrido que, em diferentes proporções, dependendo do caso, combina certas características de uma ditadura com as formalidades de uma democracia puramente eleitoral.
    Por outro lado, uma segunda transição de um estado soberano para um semicolonial, pronto a obedecer aos mandatos emanados de Washington, alinhando-se incondicionalmente com a política externa dos Estados Unidos e, recentemente, estabelecendo um aberrante co-governo entre a Casa Rosada e o FMI.
    Em relação à primeira involução, os gestos e as decisões políticas adotadas pela Casa Rosada foram de uma eloquência exemplar. Basta, no entanto, notar a alegação autocrática para designar, por um decreto de necessidade e urgência (DNU) do Poder Executivo dois juízes do Supremo Tribunal ou a aplicação de uma terapia de choque brutal para “sincerar” a economia da Argentina. “Sincerar” é um eufemismo cunhado pela direita para ocultar a tunga do “tarifaço” (1), a queda dos salários reais, o aumento do desemprego, a disparada da inflação, o rápido crescimento da pobreza, a transferência escandalosa de renda realizada ao longo destes quase três anos – como resultado da eliminação de impostos retidos na fonte (imposto de exportação) do agronegócio, mineração e hidrocarbonetos -, o fenomenal endividamento externo e a criação de condições para facilitar a exorbitante fuga de capitais – que era a verdadeira contrapartida da dívida.
    Na arena política, há um enfraquecimento do impulso democrático quando decisões transcendentais são tomadas sem qualquer debate público e de acordo com critérios supostamente técnicos. Um governo que ganhou com uma margem exígua de 51,4% dos votos atua como se sua legitimidade de origem se apoiasse sobre um mandato popular conferido por 70% ou mais dos eleitores, sem reparar que se sobrepõe a um país dividido em dois e que a busca do diálogo e do consenso, tantas vezes apregoada pelos notáveis do Cambiemos (2) durante a campanha eleitoral de 2015, foi velozmente arquivada uma vez que Mauricio Macri chegou à Casa Rosada.

    O caso dos exorbitantes aumentos nos preços dos serviços essenciais como a água, a eletricidade, o gás e o transporte, concretizados sem as necessárias audiências públicas prévias que são exigidas pela legislação argentina, ilustra com eloquência o que vimos dizendo. Por outro lado, a própria composição do governo, com presença significativa de presidentes de grandes transnacionais, lança luz sobre o caráter oligárquico do governo, o que é ratificado não só pela origem social dos supostos representantes da vontade popular, elevados às alturas do aparato estatal, mas fundamentalmente pelas políticas que promovem que, pelo menos até agora, beneficiaram apenas as classes dominantes e as grandes corporações e prejudicaram o resto da sociedade.
    A involução autoritária se confirma também quando se nota a asfixiante uniformidade comunicacional (salvo poucas exceções) que sofre a Argentina desde que Macri revogou parcialmente a Ley de Medios – golpe de mão presidencial que foi lamentavelmente convalidado depois pela Câmara de Deputados – cujo objetivo era a democratização da esfera pública.

    Por isso episódios tão graves como os que revelaram os Panamá Papers ou os “contribuintes truchos” (roubo de nomes de pessoas que depois foram colocadas em uma lista de contribuições ilegais para a campanha do partido no poder) e que comprometem a figura presidencial e seus principais colaboradores, foram meticulosamente blindados ante os olhos da população por um sistema de mídia cuja missão não é mais informar, mas sim manipular ou confundir a opinião pública.

    Vivemos um lamentável retrocesso que empobrece a consciência dos cidadãos e devora a vitalidade da democracia, porque esta adquire uma existência meramente espectral quando o que prevalece na mídia é uma sufocante oligarquia.

    O resultado do ajuste selvagem feito pelo co-governo Macri-FMI é uma crise econômica fenomenal, macro desvalorizaçã o do peso, taxas de juros da ordem de 70% ao ano, inflação projetada de 45% e um índice de desaprovação social de 62% da população. Tudo isso com uma dívida de 153 bilhões de dólares usada para a especulaão financeira e a fuga de divisas. Nem um hospital, nem uma escola, nem uma nova empresa pública, nem uma universidade foram criadas com o dinheiro desse endividamento.
    A segunda involução é aquela que ocorreu quando, somada a anterior, o governo também abandonou qualquer pretensão de autonomia em matéria de política externa fazendo sua a agenda, as prioridades (e os conflitos!) dos Estados Unidos.
    A Argentina já tentou provar as virtudes da submissão neocolonial nos desastrosos anos noventa, durante a presidência de Carlos S. Menem.

    Sem receber nada em troca, quaisquer benefícios especiais como uma recompensa pela subserviência oficial, um preço terrível foi pago por tal subserviência: 106 pessoas foram mortas em dois ataques contra a Embaixada de Israel e da AMIA, em retaliação à participação argentina na Primeira Guerra do Golfo. Por que a história deveria ser diferente dessa vez?

    A ofensiva feroz contra uma única política latino-americanista – a única sensata em um sistema internacional marcado por ameaçadoras turbulências – expressa no abandono pelo macrismo de projetos como UNASUL e CELAC nada de bom prenuncia para o tão alardeado como enigmático “retorno ao mundo” da Argentina. Na verdade, uma inserção proveitosa que só será possível a partir de uma posição de autonomia – é claro que sempre relativa – que preserve os interesses nacionais e não a partir de uma condição de submisso peão em um perigoso tabuleiro mundial cujas fichas o imperador move a seu gosto, e somente atendendo a seus próprios interesses e não aos interesses de seus servis vassalos. Donald Trump precisa da Argentina para fustigar a Venezuela e encontra no governo de Macri um fiel executor de suas ordens.

    Em menos de um ano haverá eleições na Argentina. A direitização do clima ideológico internacional joga contra a restauração democrática e a reorientação da política nacional. O Partido Comunista da Argentina promove a unidade do campo popular para derrotar o holocausto social que executa o macrismo. Se for feito progresso na unidade, organização e conscientização do grupo heterogêneo de forças oposicionistas, se for elaborado a tempo um programa de salvação nacional baseado no Projeto de Plataforma Programática que nosso partido elaborou para enfrentar a crise e se adotamos uma adequada estratégia de campanha – levando em consideração, como ensina o triunfo de Bolsonaro no Brasil, o tremendo papel desempenhado hoje pelas redes sociais, os “big data”, as “fake news” e toda a artilharia da “Cambridge Analytica” – as possibilidades de derrotar o macrismo não são poucas. Lênin nos ensinou que o impossível pode se tornar real. Será uma tarefa árdua, mas inescapável. Especialmente porque é muito necessário, e não só para a Argentina.

    Notas do i21
    1. No primeiro semestre de 2018 o governo Macri promoveu reajustes nas tarifas (os “tarifaços”), que alcançaram até 30% de aumento nos transportes, gás, água, eletricidade, pedágios, medicamentos e telefonia.

    2. Nome da formação política do presidente da Argentina, Maurício Macri.

    *Atilio Borón é doutor em Ciência Política pela Harvard University, professor titular de Filosofia Política da Universidade de Buenos Aires e membro do Comitê Central do Partido Comunista da Argentina

     

  • O Mistério na tessitura da Vida: A espiritualidade de Gilberto Gil

    Trata-se de tarefa desafiante tentar captar a experiência espiritual na trajetória criativa de Gilberto Gil. Foi o desafio que busquei responder nas breves notas que seguem, a partir de um convite de conferência realizado pelo Programa de Pós-graduação em Letras da UFJF. Seguiu-se um mergulho nas canções desse compositor singular e inaugural, assim como nas biografias disponíveis e entrevistas realizadas pelo compositor baiano. O panorama geral é convidativo, descortinando dimensões singulares da visão espiritual de Gil.

    De início, podemos destacar o profundo amor pela vida alimentado por Gil e cantado em diversas canções.

    Gilberto Gil foi alguém sempre marcado pela vida espiritual, mas curiosamente o passo de abertura para a experiência interior ocorreu por ocasião de sua prisão, em dezembro de 1968.

    A prisão de Gil aconteceu no final de dezembro de 1968, junto com Caetano Veloso. Os dois foram libertados em 19 de fevereiro de 1969, uma Quarta-Feira de Cinzas. Seguem então para Salvador, permanecendo em estado de confinamento até a partida para o exílio, em julho de 1969. Gil ficará no exílio até janeiro de 1972, quando retorna com sua mulher Sandra e o filho Pedro. Caetano e sua mulher, Dedé, tinham retornado antes.

    A experiência na cadeia foi decisiva no desenvolvimento de sua vida espiritual. Como ele mesmo diz, foi ali que sua busca manifestou uma “face mais visível”, bem como sua “ânsia mística”.

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  • DERROTA DA DEMOCRACIA NO BRASIL

    Em 1933, Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha pelo voto democrático. Em 2018 – 85 anos após a vitória eleitoral do líder nazista – o ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil com 57,5 milhões de votos dos 147 milhões de eleitores. Seu adversário, o professor Fernando Haddad, ex-ministro da Educação dos governos do Partido dos Trabalhadores e ex-prefeito de São Paulo, mereceu 47 milhões de votos. Houve 31,3 milhões de abstenções, 8,6  milhões de votos nulos e 2,4 milhões de votos brancos. Portanto, 89,3 milhões de brasileiros não votaram em Bolsonaro.

    Muitos se perguntam como foi possível, após a Constituição Cidadã de 1988 e os governos democráticos de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, os brasileiros elegerem presidente um deputado federal obscuro e declaradamente favorável à tortura e à eliminação sumária de prisioneiros, defensor intransigente da ditadura militar que subjugou o país ao longo de 21 anos (1964-1985).

    Nada é acaso. Somam-se múltiplos fatores para explicar a meteórica ascensão de Bolsonaro. Não tenho a pretensão de abarcar todos. Apenas expresso o meu ponto de vista.

    A democracia brasileira sempre foi frágil. Desde a chegada dos portugueses às nossas terras, em 1500, predominaram governos autocráticos. Na condição de colônia, fomos governados pela monarquia lusitana até novembro de 1889, quando se decretou a República. E até o ano anterior manteve-se no Brasil o mais longo regime escravocrata das três Américas. Durou 350 anos.

    Os dois primeiros períodos de nossa República foram comandados por militares. O marechal Deodoro da Fonseca governou de 1889 a 1891, e o general Floriano Peixoto de 1891 a 1894. Na década de 1920, o presidente Artur Bernardes governou durante quatro anos (1922-1926) mediante o recurso semiditatorial do Estado de Sítio. Vargas, eleito presidente em 1930, tornou-se ditador sete anos depois, até ser deposto em 1945.

    Desde então o Brasil conheceu breves períodos de democracia. O marechal Dutra sucedeu Vargas que, pelo voto direto, retornou à presidência da República em 1950, onde permaneceu até as forças de direita o induzirem ao suicídio, em 1954. Seu vice, Café Filho, e os parlamentares Carlos Luz e Nereu Ramos, completaram o mandato, sucedidos por Juscelino Kubitschek, eleito em 1955. Em 1960 JK empossou Jânio Quadros, derrubado sete meses depois por “forças ocultas”. O poder foi provisoriamente ocupado por uma Junta Militar que o repassou a Ranieri Mazzilli e, logo, admitiu a posse de João Goulart (Jango), vice de Jânio, que governou apenas 7 meses. Em abril de 1964 foi deposto pelo golpe militar que implantou a ditadura, que durou até 1985.

    Nesses últimos 33 anos de democracia, um presidente faleceu antes de ser empossado (Tancredo Neves); seu vice, José Sarney, assumiu e levou o país à bancarrota; um avatar, Fernando Collor, se elegeu como “caçador de marajás” e, dois anos e meio depois, sofreu impeachment por corrupção, tendo a presidência sido ocupada por seu vice, Itamar Franco. Este foi sucedido pelos dois mandatos presidenciais de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), dois de Lula (2003-2011) e um integral de Dilma (2011-2014) que, reeleita, sofreu impeachment nitidamente golpista após 1 ano e 8 meses de governo, tendo sido substituída por seu vice, Michel Temer, que passará a faixa presidencial a Bolsonaro em 1º de janeiro de 2019.

    Acertos e erros do PT

    Como se explica que, após 13 anos de governo do PT, 57 milhões de brasileiros, entre 147 milhões de eleitores dentre a população de 208 milhões de habitantes, eleja presidente um militar de baixa patente, deputado federal ao longo de 28 anos (sete mandatos), cuja notoriedade não resulta de sua atividade parlamentar, mas de seu cinismo ao louvar torturadores, lamentar que a ditadura não tenha eliminado ao menos 30 mil pessoas? Como entender a vitória de um homem que, em seu discurso de campanha em São Paulo, via internet, proclamou em alto e bom som que, se eleito, seus opositores deveriam sair do país ou iriam para a prisão?

    Não é hora de “jogar pedra na Geni”. Mas em que pesem os avanços sociais promovidos pelos governos petistas, como livrar da miséria 36 milhões de brasileiros, há que destacar erros que o PT até agora não reconhece publicamente e que, no entanto, explicam o seu desgaste político. Saliento três:

    1) O envolvimento de alguns de seus líderes em casos comprovados de corrupção, sem que a Comissão de Ética do partido tenha punido nenhum deles (Palocci se excluiu do partido antes que o expulsassem).

    2) O descaso com a alfabetização política da população e com os meios de comunicação favoráveis ao governo, como rádios e TVs comunitárias e a mídia alternativa.

    3) Não haver implementado nenhuma reforma estrutural ao longo dos 13 anos de governo, exceto a que alterou o regime de contribuição previdenciária do funcionalismo federal. O PT é, hoje, vítima da reforma política que não promoveu.

    As manifestações públicas de junho de 2013 soaram como um alerta. A população se sentia acéfala. Havia nas ruas protestos, mas não propostas. A multidão não se considerava representada por nenhum partido.

    No ano seguinte, Dilma se reelegeu com pequena margem de votos acima de seu adversário, Aécio Neves. O PT não entendeu o recado das urnas. Era hora de assegurar a governabilidade pelo fortalecimento dos movimentos sociais. Optou-se pela via contrária. Adotou-se a política econômica do programa de governo da oposição. O ajuste fiscal monitorado por um economista ultraliberal, Joaquim Levy, aprofundou a recessão. O governo petista se tornara um violinista que agarra o instrumento com a esquerda e toca com a direita… Desacreditado por suas bases de apoio, abriu-se o flanco que possibilitou o golpe parlamentar que derrubou Dilma, sem que houvesse protestos significativos nas ruas.

    Temer aprofundou a crise: 14 milhões de desempregados; crescimento pífio do PIB; reforma trabalhista contrária aos direitos elementares dos trabalhadores; 63 mil assassinatos por ano (10% do total mundial); intervenção militar no Rio de Janeiro para tentar evitar o controle da cidade pelo narcotráfico. E a corrupção grassando na política e nos políticos, sem isentar sequer o presidente da República, com fotos e vídeos comprobatórios exibidos na TV em horário nobre.

    Tudo isso contribuiu para aprofundar o vácuo político. Dos partidos com maior bancada no Congresso, apenas o PT tinha um líder representativo, Lula. Mesmo preso, chegou a merecer 39% das intenções de voto ao inicio da corrida eleitoral. Porém, o Judiciário confirmou o óbvio: fora preso sem provas para ficar excluído da disputa presidencial.

    Quem então poderia aspirar a presidência? Fernando Henrique Cardoso percebeu o vazio. Nenhum dos lideres políticos em voga tinha suficiente cacife para preencher o vácuo. Por isso ele propôs Luciano Huck, um apresentador de TV. Mas Huck declinou da indicação. Então surgiu Bolsonaro.

    Como se explica a ascensão meteórica do candidato de um partido minúsculo, insignificante, que ferido em campanha abandona as ruas e não participa dos debates na TV?

    Repito, nada acontece por acaso. O capitão recebeu o apoio de três importantes segmentos da sociedade brasileira:

    1) Primeiro, do único setor que, nos últimos 20 anos, se dedicou obstinadamente a organizar e fazer a cabeça dos pobres: as Igrejas evangélicas de perfil conservador. O PT deveria ter aprendido que nunca teve tanta capilaridade nacional ao contar com o apoio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Mas as CEBs refluíram sob os pontificados conservadores de João Paulo II e Bento XVI. E nenhum trabalho de base se fez para expandir a capilaridade e a formação dos núcleos partidários, dos sindicatos e dos movimentos sociais, exceto movimentos como o MST e o MTST. Enquanto isso, as Igrejas evangélicas passaram a ocupar 30% da programação televisiva aberta, e ensinar que “irmão vota em irmão”, deslocando os temas sociais e políticos para o moralismo individualista. Tais Igrejas cresceram mais de 60% nos últimos anos. Não por acaso Bolsonaro, que era católico, se deixou batizar em Israel pelo pastor Everaldo.

    2) Foi apoiado também pelo segmento policial militar que nutre nostalgia pelos tempos da ditadura militar, quando gozavam de amplos privilégios, tinham seus crimes acobertados pela censura à mídia, e desfrutavam de total imunidade e impunidade. Agora, segundo promessa do eleito, terão licença para matar.

    3) E foi apoiado ainda pelos setores da elite brasileira que se queixam dos limites legais que dificultam seus abusos, como o agronegócio e as mineradoras em relação às reservas indígenas por eles cobiçadas e à proteção do meio ambiente, em especial da Amazônia. Este setor quer um governo disposto a ignorar tudo que diz respeito a trabalho escravo, proteção ambiental, direitos de indígenas e quilombolas. E obter sinal verde para criminalizar movimentos sociais que lutam por terra e teto, em defesa dos direitos humanos, e contra atitudes discriminatórias, como o homofobia.

    Há ainda um novo fator que favoreceu a eleição de Bolsonaro: o poderoso lobby das redes digitais monitoradas desde os EUA. Milhões de mensagens foram remetidas diretamente aos 120 milhões de brasileiros com acesso à internet, quase todos eleitores, já que no Brasil o voto é obrigatório para quem tem de 16 a 70 anos de idade.

    Bolsonaro soube explorar esse novo recurso que ameaça seriamente a democracia e foi utilizado com êxito na eleição de  Donald Trump, nos EUA, e no referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). Os tribunais eleitorais do Brasil até agora não sabem como enfrentar tais ataques cibernéticos.

    Desafios de futuro

    E agora, o que fazer? Os movimentos progressistas e o que resta de esquerda no Brasil certamente promoverão passeatas, manifestações, abaixo-assinados etc., no esforço de evitar um governo fascista. Nada disso me parece suficiente. Há que retornar às bases populares. Como enfatizou Mano Brown no comício final da campanha de Haddad no Rio, a esquerda já não fala a linguagem da periferia. Os pobres votaram no projeto dos ricos. A esquerda enche a boca com a palavra “povo”, mas não se dispõe a “perder” fins de semana para ir às favelas, às vilas, à zona rural, aos bairros onde vivem os pobres. Não se arma com o método Paulo Freire para organizar, politizar e mobilizar o povão. Não procura conhecer e aplicar a metodologia de educação popular. Não reconhece a fé popular como fator, não apenas de alienação, mas também de libertação, dependendo de como é cultivada.

    Eis as prioridades da atual conjuntura brasileira: o PT fazer autocrítica e se recriar; a esquerda retornar ao trabalho de base; o movimento progressista redesenhar um projeto de Brasil que resulte em projeto político viável. Caso contrário, o Brasil ingressará por longo período na idade das trevas.

    Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros…

  • Na construção de uma Frente Ampla Democrática

    Nas últimas semanas, vivemos um certo movimento de tomada de consciência cidadã. Houve como que um despertar de alguns  setores da população, que se deram conta de um  perigo iminente. É o que se chamou uma possível virada eleitoral. Expressiva nas grandes cidades, com pessoas de todas as idades, mas particularmente entre jovens e mulheres. Tempo curto, que não impediu a derrota de nosso candidato Haddad, mas que mostrou um movimento saudável na sociedade e que poderá servir para desenhar um caminho futuro. Pela rua, no momento da votação, aqui no Rio, havia um grande número de bótons 13, de pessoas de uma alegria contagiante. Do outro lado, uma certa perplexidade, diante de uma vitória que já não parecia tão fragorosa. Mesmo assim, foi uma ampla maioria, de cerca de 12%. Em São Paulo, ela foi enorme. Ali nasceram PT e PSDB, assim como fortes movimentos sindicais. E agora é o centro do conservadorismo. Em plano nacional, em relação às últimas pesquisas, foi caindo a diferença entre os dois candidatos, mas não levou a uma inversão no resultado final. Há como que dois brasis, o do nordeste, onde ganhou Haddad e as outras regiões. Temos, neste momento, alguns ingredientes básicos com que preparar um programa de ação política para o futuro.

    Não posso deixar de lembrar, no passado, dois momentos traumáticos para o país: a eleição de Jânio e sua vassoura e de Collor com a denúncia dos marajás, dois presidentes sem equilíbrio nem apoio político. Receberam o voto de setores de classe média, como agora, pendentes de um discurso anticorrupção. Uma ética necessária virava um moralismo simplificador e enganoso. Aliás, a  falta de ética desses dois presidentes foi ficando evidente, na vida privada e pública. Estaremos repetindo o mesmo erro, com os mesmos apoios?

    Bolsonaro aproveitou o terrível atentado para posar como vítima ou para eximir-se de debater e de apresentar um programa de governo minimamente coerente. E então, assim, jornalistas a soldo, se lançaram como abutres contra a dupla democrática. Lembremos a valentia de Manuela diante de perguntas mal intencionadas num programa roda viva. Ou no mesmo programa a clareza de estadista de Fernando Haddad. Antes, ele fora agredido com violência por uma dupla raivosa, que não fazia perguntas mas desfiava acusações sem prova.

    Gostaria de refletir sobre o que está acontecendo no país. Vivemos um tempo de divisão profunda, marcada pela intolerância, e, inclusive há que dizer, com a contribuição apaixonada de companheiros de nosso lado. Famílias, amigos, colegas, entraram em choque e ficou difícil a convivência.  A sociedade adoeceu. Como recuperar o que os ingleses chamam sanity? Há uma lição a tirar para nosso lado democrático. Não podemos cair na síndrome paralisante da  decepção e da derrota. Mas, principalmente, não deveríamos reagir com agressividade e rancor, por mais que pudesse haver razão de sobra, ao descobrir um trabalho criminoso de falseamento da realidade e de construção de slogans absurdos.

    O curioso é que muitos votaram em Bolsonaro em nome do novo na política. Incrível a falta de memória. Esse cidadão foi deputado em mais de uma legislatura, obscuro, imerso há tempos no grupo informe do chamado baixo clero. Apareceu para a opinião pública naquela noite lamentável, capitaneada vingativamente por Eduardo   Cunha, no encaminhamento do impeachment de Dilma Rousseff. Ali, na sua declaração, fez uma incrível homenagem a um  dos maiores torturadores dos tempos da ditadura. Procurando descobrir sua atuação nas votações na Câmara, vemos que estava sempre ao lado do chamado grupo da bala, daquele do boi e de um fundamentalismo religioso. Nada mais velho e caduco.

    Assusta ver pessoas inteligentes e de boa vontade dizerem coisas insensatas e sem provas, afirmando que o país correria o risco de se tornar uma nova Venezuela, ou que seria invadido por médicos cubanos doutrinadores.  Ou invocando um inexistente “kit gay”. Ao tentar desmanchar esses equívocos, muitas vezes nos temos deparado com um semblante rígido e inexpressivo, incapaz de entrar num contraditório. Fiéis de igrejas pentecostais votam no que os pastores ordenam, considerando que só eles dizem a verdade. O diálogo torna-se quase impossível.

    Há dois tipos de eleitores bolsonarescos. Uns, que tem a mesma síndrome violenta do candidato e que agridem adversários, odeiam negros e gays ou são de um machismo espantoso.  Aí, pelo momento, há pouco a fazer, a não ser denunciar uma síndrome de destruição, que surge em todas as ocasiões que viram nascer o nazismo e o fascismo. Temos de apelar aos psiquiatras e aos psicólogos e lembrar com eles, Karen Horney e sua mentalidade neurótica de nosso tempo, ou o medo da liberdade de Eric Fromm.  Joel Birman tem desocultado com maestria essa enfermidade coletiva.

    Mas há outra parte dos que votaram Bolsonaro,  que absorveu acriticamente notícias falsas ou deturpadas, difundidas pelos meios de comunicação  ou por púlpitos. Com esses temos de preparar o caminho para um diálogo. Há que provar que realmente aceitamos o pluralismo e que estamos dispostos inclusive a rever nossas próprias posições. Tudo num clima de abertura e de simplicidade. Habermas falava da força da argumentação, e ela vale nos dois sentidos.

    É preciso aprender com a história, nas vitórias, e especialmente nas derrotas. O grande poeta Antonio Machado, em 1939 partindo para o exílio, onde morreria logo depois, escreveu melancolicamente: “A história não caminha no ritmo de nossa impaciência”. Mas a resposta vem mais adiante, em 1973, na intervenção pela radio Magallanes de Salvador Allende. Vendo os aviões voar baixinho para bombardear o Palácio da Monda e ouvindo Allende despedir-se, baixou-nos num  primeiro momento uma  enorme tristeza e uma sensação de impotência. Porém disse o presidente: “Más temprano que tarde volverá el pueblo a las grandes alamedas… La historia es  nuestra, la hacen los pueblos”. Suas palavras foram retiradas do ar pela estática dos vencedores. Mas nos trouxeram alento e esperança.

    Tempos depois da derrota, alguns partidos de diferentes tendências criaram a Concertação, que elegeria os primeiros presidentes democratas. Eu estava em Santiago mais adiante, voltei à Moneda restaurada, atravessei comovido o pátio de los naranjos, convidado para almoçar ali pelo secretário-geral da presidência, que voltara do exílio. E no canto da praça, um busto de Allende estava voltado para a janela de onde tantas vezes ele se dirigira a seu povo. Na base, trechos de sua última alocução. Mais tarde, quando Ricardo Lagos tomou posse como presidente democraticamente eleito, entrou pela porta da rua Morandé, por onde chegava Allende, e que tinha sido taipada pela ditadura,  foi até a sala de onde ele se tirou a vida e depositou ali uma rosa vermelha. E o corpo de Allende voltou a Santiago, atravessou a Alameda Bernardo O’Higgins, onde um povo comovido o acolheu em silêncio.

    Tudo isso para dizer que a história pode redimir-se de seus tropeços. Sentimos isso, fortemente, os que retornamos ao Brasil entre 1977 e 1979.

    Volto à atualidade. Passada a eleição, é hora de preparar um novo processo. Não deveria ser possível ressuscitar  velhos ajustes de contas, nem fazer cobranças, mas é indispensável lembrar fatos nem sempre agradáveis de ouvir. Aqui seria necessária uma grande abertura, grandeza e sentido uma revisão histórica positiva. Temos uma realidade complexa pela frente.

    Criou-se, certamente construído em bases falsas, um clima antipetista violento. Porém o próprio partido não sai totalmente absolvido. Faz muitos anos, Tarso Genro, então presidente interino, propôs sua refundação, no tempo dos escândalos do mensalão.  Não foi ouvido. Depois, vieram mais denúncias, infundadas ou não. Talvez por culpa de alguns dirigentes, o partido passou um ar de arrogância e de incapacidade para confessar falhas. E não se abriu a uma aliança, em igualdade de condições, com outros partidos e políticos. Por isso, num momento futuro, o PT não tem condições de ser o catalizador de uma nova aliança, mas certamente será um dos membros principais desse processo.

    A construção de uma frente deveria ser fruto de uma concertação em várias direções, como no Chile. O PCdoB tem dado um exemplo, colocando-se disciplinadamente nas alianças. Manuela d’Ávila deu um lindo sinal de firmeza e de discrição. Flávio Dino, reeleito largamente no primeiro turno, entrou de cheio da campanha de Haddad, ele que,  na primeira eleição, viu  dirigentes petistas apoiarem  Roseana Sarney, agora uma vez mais derrotada. O PSOL, que sai com uma expressiva votação em Marcelo Freixo, teria de abrir-se a alianças, o que não conseguira fazer na eleição municipal, que levou o incompetente Crivella à prefeitura carioca. Assim por diante, são lições a tirar, sem mágoas, mas sem esquecer a dureza implacável dos fatos.

    Podemos elencar deputados eleitos, que podem ajudar a costurar essa grande aliança: Alessandro Molon, Paulo Teixeira, Luíza Erundina, Jandira Feghali,  Jean Wyllys   e tantos outros que talvez eu esteja esquecendo. Temos senadores como Paulo Paim ou Jacques Wagner. E inclusive políticos excelentes que foram varridos pelo tsunami eleitoral, como Flavio Suplicy, Jorge Viana, Dilma Roussef, à frente em sondagens no começo do período eleitoral ou outros com boas raízes, como Lindberg Farias, Chico Alencar e  Roberto  Requião.

    É de prever que o futuro governo poderá ser errático, entre militares nacionalistas e economistas privatistas, com um presidente meio  perdido no meio. Medidas draconianas poderão fazer perder avanços históricos populares, nosso petróleo seguirá sendo rifado, como está fazendo este atual governo liliputiano. Poderão crescer  setores de repressão, à sombra de uma nova doutrina de segurança nacional.  O que parece provável é que, por um desgoverno, o presidente caia mais adiante, vítima de suas contradições e de sua incapacidade. Poderá haver pela frente o terrível risco de uma intervenção militar. Ou então, teríamos, por um tempo, uma ciranda de governos fracos. Sem uma reforma política  – E este parlamento será capaz de fazê-la? – Nos espera um futuro bastante incerto. A não ser que, lenta, mas firmemente, se vá afirmando a tão sonhada  Frente Ampla Democrática, Popular e Nacional.
    Escrevendo este texto, depois dos foguetes e dos gritos de vitória, saiu de uma janela vizinha a voz de Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Assim seja.

     

  • O Brasil no centro da Guerra Híbrida

    O analista político norte-americano Andrew Korybko, autor de “Guerras Híbridas – Das Revoluções Coloridas aos Golpes”, em entrevista para site Tutameia, mostra como a estratégia de controle geopolítico dos EUA está usando as redes sociais, sobretudo whatsapp, para influenciar as eleições de 2018.
    “Há uma Guerra Híbrida muito intensa sendo travada no Brasil neste momento e afeta todas os aspectos da vida de cada cidadão. Ao longo dos últimos dois anos, agentes externos vêm tentando muito sutilmente condicionar a população para voltá-la contra o Partido dos Trabalhadores, usando instrumentos como a Operação Lava Jato, apoiada pela NSA [agência norte-americana de inteligência], que tomou vida própria.

    Autor de livro sobre nova estratégia de controle geopolítico dos EUA sustenta: país entrou na mira desde a eleição de Lula, mas descoberta do pré-sal gerou novo ímpeto. Segue a publicação:

    Andrew Korybko, entrevistado por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena, no Tutameia de 19 de outubro de 2018.
    “Há uma Guerra Híbrida muito intensa sendo travada no Brasil neste momento e afeta todas os aspectos da vida de cada cidadão. Ao longo dos últimos dois anos, agentes externos vêm tentando muito sutilmente condicionar a população para voltá-la contra o Partido dos Trabalhadores, usando instrumentos como a Operação Lava Jato, apoiada pela NSA [agência norte-americana de inteligência]”, afirma o analista político norte-americano Andrew Korybko, autor de “Guerras Híbridas – Das Revoluções Coloridas aos Golpes”, recém-lançado no Brasil pela Expressão Popular.

    Em entrevista por e-mail ao TUTAMÉIA, Korybko, que vive em Moscou e se dedica ao estudo das estratégias dos Estados Unidos na África e Eurásia, afirmou que os EUA são os principais propulsores desses movimentos, que consistem em desestabilizar governos a partir de grandes manifestações de massa. São “a fagulha que incendeia uma situação de conflito interno”, como diz a apresentação do livro. Podem se transformar em golpe ou mesmo guerras não convencionais – daí a expressão guerra híbrida.

    Conselheiro do Institute for Strategic Studies and Predictions e jornalista na Sputinik News, ele também comentou a ascensão da candidatura de Jair Bolsonaro. Diz que os mentores externos da guerra híbrida no Brasil vinham há muito tempo moldando as condições sociopolíticas do país para facilitar o surgimento de um azarão que pudesse chegar ao poder e destruir tudo o que fora construído nos governos do Partido dos Trabalhadores.

    A seguir, a íntegra da entrevista.

    O que são guerras híbridas?

    Desde o lançamento de meu livro, em 2015, ampliei minha definição para incluir o seguinte:

    “As Guerras Híbridas são conflitos identitários provocados por agentes externos, que exploram diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas e geográficas em países de importância geopolítica por meio da transição gradual das revoluções coloridas para a guerra não convencional, a fim de desestabilizar, controlar ou influenciar projetos de infraestrutura multipolares por meio de enfraquecimento do regime, troca do regime ou reorganização do regime.”

    Em suma, isso significa que países como os EUA se aproveitam de problemas identitários em um Estado-alvo a fim de mobilizar uma, algumas ou todas as questões identitárias mais comuns para provocar grandes movimentos de protesto, que podem então ser cooptados ou dirigidos por eles para atingir seus objetivos políticos.

    O eventual fracasso desses movimentos pode fazer com que alguns de seus participantes recorram ao terrorismo, à insurgência, à guerrilha e a outras formas de conflito não convencional contra o Estado. Na maioria das vezes, pelo menos no Hemisfério Oriental, esses fenômenos fabricados têm o efeito de dificultar a viabilização de projetos da China de implantação da nova Rota da Seda, coagindo o Estado-alvo a compromissos políticos ou mudanças de governo ou mesmo a uma secessão – que pode eventualmente levar a uma balcanização.

    Seu livro descreve as Guerras Híbridas como “caos administrado”. Como isso é construído?

    O estudo detalhado da sociedade de um estado-alvo e das tendências gerais da natureza humana (auxiliado por pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas e outras) permite construir um quadro de como é o funcionamento “natural” daquela sociedade. Armados com esse conhecimento, os praticantes da Guerra Híbrida podem prever com precisão quais “botões apertar” por meio de provocações para obter respostas esperadas de seus alvos, tudo com a intenção de perturbar o status quo por processos locais de desestabilização manipulados por forças externas. Podem ser conflitos étnicos, movimentos de protesto (“Revoluções Coloridas”) ou a exacerbação de rivalidades regionais. O ponto principal é produzir o maior efeito com o mínimo de esforço e, então, explorar a evolução dos acontecimentos e a incerteza crescente a fim de realizar os planos políticos.

    O livro descreve os EUA como propulsores desses movimentos. Por quê?

    Por causa de sua hegemonia mundial – ainda que cadente –, os EUA têm interesses globais, e suas décadas de experiência operando em todos os continentes lhes deram uma compreensão profunda da situação doméstica de praticamente todos os países. Não só é, portanto, muito mais fácil para os EUA iniciar Guerras Híbridas como eu as descrevo, mas também – e mais importante —eles têm a motivação para fazê-lo. Que é o que falta a outras grandes potências em relação a ações em países fora de suas áreas de influência regionais.

    O Brasil se tornou alvo da Guerra Híbrida após a descoberta do petróleo do pré-sal?

    Na minha opinião, o Brasil se tornou um alvo desde a eleição de Lula e seu movimento em direção à multipolaridade, mas a subsequente descoberta das reservas de petróleo do pré-sal definitivamente acrescentou um novo ímpeto à Guerra Híbrida dos EUA no Brasil, embora apenas porque esses recursos seriam vendidos para a China. Se Lula tivesse fechado um acordo com os EUA para fornecer acesso irrestrito ao pré-sal e também permitisse que Washington aproveitasse essa vantagem para controlar o acesso da China ao mesmo, então os EUA poderiam não ter motivação para empreender uma Guerra Híbrida no Brasil, ou poderia ser atenuada ou adiada. Porém, por causa da posição independente de Lula sobre os depósitos do pré-sal e muitas outras questões, ele e sua sucessora foram vistos como alvos “legítimos” pelos EUA porque Washington temia que eles acelerassem seu declínio hegemônico no hemisfério se não fossem detidos o mais rapidamente possível.

    O fato de o Brasil ter participado ativamente dos BRICS junto com a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul também é uma das razões pelas quais ele foi alvo da Guerra Híbrida?

    Sim, mas principalmente por causa do sentido simbólico dessa iniciativa, porque acredito que o movimento BRICS, apesar de ser uma plataforma muito promissora, não foi capaz de atingir seu pleno potencial por causa da rivalidade interna, manipulada pelos EUA, entre a China e a Índia. Isso prejudicou sua eficácia geral, mesmo antes da primeira fase da Guerra Híbrida no Brasil ter sido bem-sucedida em derrubar a presidenta Dilma. Sua destituição do cargo e o “golpe constitucional” contra o presidente sul-africano Zuma se combinaram para reduzir o BRICS ao tripartido original do RIC, que está profundamente dividido entre a China e a Índia (apesar das afirmações oficiais em contrário), com a Rússia assumindo papel de mediadora entre os dois. Para todos os efeitos, o BRICS não existe mais, exceto como um grupo que se reúne anualmente para conversar e, para muitos, uma lembrança de sonhos desfeitos.

    O livro fala muito sobre os casos da Síria e da Ucrânia e diz que esses modelos podem ser reproduzidos em outros lugares. Este modelo poderia ser reproduzido no Brasil?

    Teoricamente sim, mas não acredito que isso seja o mais provável. Isso porque a dimensão anti-Rota da Seda, que foi a principal motivação daqueles conflitos, é principalmente aplicável ao ambiente operacional único do Hemisfério Oriental (Afro-Eurásia), que é muito mais suscetível a conflitos identitários manipulados externamente desse tipo. Dito isso, a engenharia social, o pré-condicionamento político e as campanhas de guerra psicológica que formam a base das Revoluções Coloridas (a primeira parte das Guerras Híbridas) são definitivamente reproduzíveis em qualquer lugar do mundo, especialmente na era interconectada da mídia social atual.

    O livro também trata da “Primavera Árabe”. Analistas também apontaram que o Brasil estava sendo alvo da Guerra Híbrida War desde 2013, quando um estranho movimento começou a surgir no país através da internet. Isso faz sentido?

    Sim, claro. A primeira fase organizacional ativa da guerra híbrida Wars hoje começa na internet. Os articuladores dos movimentos buscam na rede informações importantes sobre seus alvos antes de se conectarem com eles, direta ou indiretamente, através de campanhas informativas direcionadas que efetivamente atraiam seus interesses ou necessidades, que são cada vez mais descobertas por meio de análises de “Big Data”, como o que a Cambridge Analytica é acusada de fazer. Movimentos sociopolíticos estão começando a aparecer online muito mais do que nas ruas, como costumavam, porque as pessoas ficam mais confortáveis interagindo usando o celular quando bem entendem, em vez de terem de participar de encontros e reuniões físicas. Hoje em dia, tudo o que precisam fazer é conferir as últimas notícias compartilhadas em um grupo do Facebook ou do WhatsApp.

    Na campanha eleitoral no Brasil, houve uma avalanche de notícias falsas, especialmente difundidas por grupos do WhatsApp. Estamos sendo vítimas de uma guerra híbrida?

    Sim, há uma Guerra Híbrida muito intensa sendo travada no Brasil neste momento e afeta todas os aspectos da vida de cada cidadão, desde o que cada um lê nas mídias sociais (seja informação real, falsa ou manipulada) até o que ouve nas ruas. Ao longo dos últimos dois anos, agentes externos vêm tentando muito sutilmente condicionar a população para voltá-la contra o Partido dos Trabalhadores, usando instrumentos como a Operação Lava Jato, apoiada pela NSA, que tomou vida própria.

    Isso forçou o Partido dos Trabalhadores a reagir e defender sua integridade, o que, por sua vez, provocou reação mais feroz daqueles que estavam tentando derrubá-lo. O Brasil está no foco da Guerra Híbrida por tanto tempo que hoje é dado como certo que toda informação que circula está, de um jeito ou de outro, conectada a essa campanha incessante.

    Qual é o objetivo desta Guerra Híbrida e quem está por trás disso? Jair Bolsonaro?

    Não creio que Bolsonaro tenha sido o progenitor desta Guerra Híbrida, mas sim que seus mentores norte-americanos já tinham há muito tempo um plano para moldar as condições sociopolíticas do país para que o candidato considerado “zebra” pudesse chegar ao poder e, então, desmantelar sistematicamente tudo o que o Partido dos Trabalhadores havia construídos em seu governo.

    Olhando em retrospectiva e considerando tudo o que hoje se sabe sobre a operação Lava Jato, pode-se considerar que a inteligência americana provavelmente concluiu há bastante tempo que Bolsonaro seria o melhor candidato para isso por causa de sua história de pronunciamentos políticos que se alinham com os interesses globais dos EUA para o país. Também foi levado em conta que ele não esteve implicado em nenhum dos escândalos anticorrupção dos últimos anos, o que os EUA teriam sabido antecipadamente por causa da participação da NSA na busca de “evidências” que então catalisaram a expurgação política do país.

    Com o Partido dos Trabalhadores fora do poder e com a comprovação de que muitos dos usurpadores e seus aliados foram igualmente — se não mais — corruptos, o palco estava montado para o “azarão” dos EUA entrar em cena e conquistar o imaginário de muitos que foram pré-condicionados a odiar todos os políticos do establishment (e especialmente do Partido dos Trabalhadores) depois da operação Lava Jato.

    Essa população estava também cada vez mais desesperada por medidas drásticas de segurança a serem implementadas para salvá-los da onda de criminalidade ou, pelo menos, dar-lhes uma chance de lutar para se defenderem – o que aconteceria com a prometida liberalização de armas de Bolsonaro.

    É minha opinião que os EUA trabalharam duro para facilitar a ascensão de Bolsonaro e o estão ajudando em cada passo do caminho. Talvez ele nem tenha percebido isso no início, mas agora, considerando a possibilidade de sua vitória no segundo turno, quase certamente as próprias forças que o apoiaram trataram de lhe dar a informação diretamente.

    Qual a diferença entre o uso do WhatsApp e do Facebook no contexto das Guerras Híbridas?

    O WhatsApp é mais instantâneo e impulsivo, enquanto o Facebook é mais organizacional e metódico. O primeiro é geralmente usado para enviar informações curtas e rapidamente reunir grandes multidões, enquanto o segundo é mais bem aproveitado para um planejamento organizacional mais profundo e gerenciamento de controle de multidões a longo prazo. Eles são basicamente dois lados da mesma moeda, e andam de mãos dadas quando se trata do aspecto tático de Revoluções Coloridas.

    Seu livro foi lançado em 2015. O que mudou desde a primeira edição?

    Desde então, expandi e expliquei mais cientificamente a definição de Guerra Híbrida para incluir seis das categorias identitárias que são os alvos mais comuns, bem como os objetivos de ajustes de regime, mudança de regime ou reorientação de regime.

    As táticas de engenharia social e pré-condicionamento político das Revoluções Coloridas (a primeira metade da Guerra Híbrida) se tornaram muito mais sofisticadas após a descoberta de como a Cambridge Analytica fazia coleta e análise de dados de usuários de mídia social a fim de obter um conhecimento sobre-humano do que as pessoas nos países-alvo estão interessadas, suas necessidades e a melhor forma de manipulá-las.

    Isso significa que o planejamento da Guerra Híbrida entrou em uma era completamente nova, mas apenas em países onde a maioria da população (ou pelo menos aqueles dentro de qualquer uma das seis categorias identitárias que os EUA desejam atingir) usa a mídia social, o que não é o caso em grandes partes da África que estão gradualmente se tornando campos de batalha da Guerra Híbrida contra os projetos da China de implantação da nova Rota da Seda.

    Como é possível responder às Guerras Híbridas?

    O Estado pode restringir ou monitorar as mídias sociais, mas a primeira medida pode provocar indignação na população e confirmar as suspeitas das pessoas de que o governo está suprimindo seu “direito à liberdade de expressão” porque tem “medo” do povo, o que pode ou pode não ser realmente o caso.

    Já o cidadão comum precisa desenvolver seu pensamento crítico para poder diferenciar entre notícias reais, notícias falsas e notícias manipuladas, assim como entre artigos de opinião, análises e simples reportagens jornalísticas.

    Quanto aos partidos da oposição, oficiais ou não, eles precisam travar suas próprias Guerras Híbridas, seja ofensivamente ou defensivamente, embora seja sempre melhor para eles ficar do lado da verdade em vez de recorrer a mentiras. A primeira é muito mais eficaz do que a segunda e ser pego mentindo poderia diminuir a confiança do público-alvo nesses grupos. Da mesma forma, todos os lados da interminável Guerra Híbrida (que está se tornando parte da vida cotidiana) precisam expor as mentiras dos demais.

    Você escreveu sobre as ações dos EUA, mas não citou ações similares da Rússia. Eles não ocorrem? As acusações contra a Rússia nessa área (especialmente em relação às eleições nos EUA) são falsas?

    Meu livro é sobre o uso de um modelo particular que faz com que Revoluções Coloridas (não violentas) manipuladas por agentes externos passem a movimentos violentos de guerra não convencional. Teve como objetivo provar a existência de um método nunca antes descoberto de desestabilização do Estado pelos EUA para fins geopolíticos.

    O livro é sobre a transformação de Revoluções de Cores em Guerras Não Convencionais, sobre a origem de ambas, a fase de transição e o resultado desses ciclos de agitação apoiados por agentes externos. As Guerras Híbridas não são simplesmente operações de gerenciamento de percepção ou infowars, em que todos os países do mundo participam e até mesmo muitas empresas (embora estas últimas não o façam por razões políticas, mas apenas para comercializar seus produtos ou serviços, às vezes no concorrente). Elas também nem sempre são travadas por agentes estatais, ou mesmo agentes não governamentais que realizam determinada atividade contratados por um Estado.

    É minha opinião pessoal que as acusações contra a Rússia não são relevantes para o modelo de Guerra Híbrida elaborado em meu livro, porque nunca houve intenção séria de organizar uma Revolução Colorida ou uma Guerra Não Convencional. Além disso, todas as acusações apontam para as atividades mais conhecidas sendo conduzidas por agentes não-estatais, que podem ou não ter agido a pedido de um Estado, mas nenhuma conexão clara com o Kremlin foi confirmada.

    Outro ponto importante a ter em mente é que, mesmo se a essência geral dessas acusações for verdadeira, o que duvido, representaria apenas uma forma muito básica de guerra de informação, que é comparativamente mais tosca e muito menor em escopo do que a operação que a União Soviética conduziu durante a Guerra Fria, o que mais uma vez sugere que isso poderia ter sido feito por um ator não-estatal independente do Estado russo e suas agências de inteligência.

    De qualquer forma, a questão é artificialmente politizada porque já foi provado que ela não teve impacto no resultado da eleição norte-americana, mas está sendo usada pelos oponentes de Trump nas burocracias militares, de inteligência e diplomáticas permanentes (“estado profundo”) e por seus cúmplices públicos (sejam “inocentes úteis” ou colaboradores) na academia, na mídia e em outras comunidades (incluindo cidadãos comuns) para “deslegitimar” sua vitória e pressioná-lo a realizar concessões políticas, mudanças de regime (desistir ou sofrer impeachment), ou reorientação do regime, por reforma do sistema de colégio eleitoral e outras medidas semelhantes. Pode-se dizer, portanto, que as acusações exageradas da chamada “interferência russa” estão sendo feitas como uma importante arma de guerra híbrida contra Trump como parte das ações do “estado profundo” dos EUA, o que é um caso interessante digno de estudo futuro com o uso do modelo de análise que desenvolvi.

    Créditos á: TUTAMÉIA

  • As Eleições 2018 e o Fanatismo Religioso

    fanatismoPerto do segundo turno das eleições, em meio a uma tempestade de notícias falsas, dinheiro de caixa 2, manipulação das mentes via redes sócias uma palavra de serenidade, bom senso e alerta! Dom Sílvio Guterres Dutra, bispo da Diocese de Vacaria, RS envia uma mensagem para comunidades, pastorais, movimentos, lideranças: “de todas as possíveis manifestações fanáticas, das quais a primeira vítima é sempre o próprio uso da razão, o fanatismo religioso é o pior. O atual fenômeno do fanatismo religioso, misturado com a política, tem se caracterizado por algumas causas (bandeiras) defendidas a “unhas e dentes” sobre as quais é praticamente impossível se dizer qualquer coisa sem ser condenado ao “fogo dos infernos”. Publicado no site da diocese, 18 out 2018. Segue a Mensagem:

    “Por causa do Evangelho de Jesus Cristo”

    Mensagem dirigida às comunidades, pastorais, movimentos, lideranças e ao povo de Deus peregrino da Diocese de Vacaria.

    Segundo o dicionário, “Fanatismo religioso é uma forma de fanatismo caracterizada pela devoção incondicional, exaltada e completamente isenta de espírito crítico, a uma ideia ou concepção religiosa. Em geral o fanatismo religioso também se caracteriza pela intolerância em relação às demais crenças religiosas. Um fanático religioso é, muitas vezes, um indivíduo disposto a se utilizar de qualquer meio para firmar a primazia da sua fé sobre as demais”.

    Ciente de que posso estar me colocando diante da crítica impiedosa, mas impulsionado ainda mais por uma consciência que me diz que aquilo que não se diz na hora certa se deve calar depois dos fatos ocorridos, e de que em certas circunstâncias a omissão pode ser o maior dos pecados, decidi emitir minha opinião sobre a mistura da religião com a política neste momento do nosso amado Brasil. Prefiro correr o risco do erro de avaliação do que estar para o rebanho como uma “sentinela adormecida”, que embora veja o lobo se aproximando não cumpre sua missão.

    O recende dia de Nossa Senhora Aparecida, foi muito intenso para mim. Enquanto viajava pelas estradas da nossa diocese de Vacaria, na direção das comunidades, minha mente, quase que independente de minha vontade, voltava toda hora ao fato de que nossa querida padroeira já foi vítima, ao menos duas vezes, do fanatismo religioso. Em 1978, um homem se dizendo enviado por Deus, destroçou a pequena imagem de Nossa Senhora em mais de duzentos pedaços; há alguns anos atrás um pastor fanático desrespeitou grosseiramente a representação de Nossa Senhora (sua imagem) com uma sequência de chutes em um programa de televisão.

    Outra experiência recente de fanatismo, dentro da própria Igreja Católica, fez com que indivíduos instruídos por gurus das redes sociais, tenham agredido a CNBB como se ela fossa composta por moleques imaturos que não sabem o que fazem. Se tudo isso não bastasse, o grande Papa Francisco tem sido alvo de ataques ferrenhos contra a sua pessoa. Em todos estes casos podemos detectar uma doença espiritual/psicológica que revela a ausência de discernimento e de juízo equilibrado.

    De todas as possíveis manifestações fanáticas, das quais a primeira vítima é sempre o próprio uso da razão (o fanático se nega a raciocinar por que isso seria muito perigoso), o fanatismo religioso é o pior, pois atinge o cerne da pessoa, atinge a sua dimensão mais íntima, sagrada e transcendente. Como dialogar com uma pessoa que está certa, sem uma mínima chance de equívoco, de que é Deus que a manda dizer o que diz e fazer o que faz? O fanatismo no futebol e o próprio fanatismo ideológico da política, de longe não são tão prejudiciais quanto o religioso. Famílias e comunidades que convivem com pessoas que se deixaram fanatizar sabem bem o que isso significa. Imaginemos agora, por exemplo, o estrago que faz misturar a doença religiosa com a ideológico/política! Que Deus nos acuda!

    O atual fenômeno do fanatismo religioso, misturado com a política, tem se caracterizado por algumas causas (bandeiras) defendidas a “unhas e dentes” sobre as quais é praticamente impossível se dizer qualquer coisa sem ser condenado ao “fogo dos infernos”. Vou me referir a duas delas:

    A BANDEIRA DO ANTICOMUNISMO – Aqui não se trata absolutamente de defender o pensamento comunista, questão já tratada adequadamente pela Igreja, mas é necessário se dar conta que ao reduzir a responsabilidade de todos os males do mundo aos comunistas se está fechando os olhos para a realidade que é muito diferente. O problema do nosso tempo é bem outro que o comunismo, é a ditadura do “deus mercado”, o verdadeiro “deus” do capitalismo selvagem que vem devastando valores, destruindo pessoas, famílias, cooptando igrejas e movimentos eclesiais e colocando em xeque a possibilidade de sobrevivência do planeta. A idolatria em torno do “deus mercado” é tão absurda que o torna a única divindade inatacável. Pode-se debochar e desprezar qualquer outra representação religiosa, que isso é tido como liberdade de manifestação, porém se alguém ousar criticar o “deus mercado” será perseguido de morte como o profeta Elias depois de acabar com os profetas de Baal. De fato, o capitalismo não nega a existência de Deus (o que é simpático aos crentes desavisados) mas o que ele faz é substituir o Deus de Jesus Cristo pelo “deus dinheiro/lucro”.

    Esta mesma causa anticomunista, que possui seus méritos, serve para que a doença espiritual (fanatismo) leve seus adeptos a pensar que o “Mal” está sempre fora da sua igreja, que é sempre um perigo que vem de fora e que deve ser combatido. Tudo o que aprendi sobre o Demônio até hoje, me faz lembrar que ele é tudo, menos ingênuo e burro. Com isso quero dizer que a pessoa não fanatizada é capaz de perceber primeiro o pecado que está dentro de si e da sua própria instituição. Esta tarefa é a mais difícil e mais dolorosa, mas também é a mais equilibrada e madura, e é a única que pode curar o problema na sua raiz. Proponho uma questão concreta para reflexão: o que faz mais mal às famílias, às igrejas e à própria experiência de fé, a proximidade com um ateu ou a existência de graves escândalos de ministros no interior das próprias igrejas?

    O Papa Francisco, modelo de lucidez e equilíbrio para o nosso tempo, tem o foco de suas principais preocupações noutro alvo. No seu documento do início do ministério ele afirma: “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras…” (EG 56)Com estas palavras não me prece que o Papa entenda que o risco do comunismo seja o único, e muito menos o maior perigo da atualidade.

    A BANDEIRA ANTIABORTISTA – Antes que alguém aponte sua arma na minha direção, dou testemunho da minha firme decisão de ser um missionário da sagrada e intocável vida que é dom de Deus. Uma recente experiência de milagre que aconteceu entre meus familiares, em torno do nascimento da Cecília (minha sobrinha-neta) chancelou para sempre meu amor a vida desde sua origem. Nenhuma ideologia, ciência, medicina, e nenhum médico está acima da vida ou a pode trata-la como objeto ou coisa. A questão da doença espiritual (fanatismo) aqui não é a de assumir a indispensável luta contra o aborto, mas a cegueira que impede o crente de pensar mais além. A vida não vale somente enquanto está no útero materno, ela vale sempre. Hoje, a fixação exclusiva nesta causa serve muito mais aos projetos do grande poder econômico que, neste caso, instrumentaliza uma causa nobilíssima dos cristãos para impor seus mesquinhos interesses políticos.

    Novamente é o Papa Francisco que convoca à lucidez e afirma no seu mais recente documento sobre o chamado à santidade no mundo atual: “Mas é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando algo superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da pessoa humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente de seu desenvolvimento. Mas igualmente é sagrada a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura e em todas as formas de descarte. Não podemos nos propor um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (GE 101). Entendo que Francisco está nos pedindo para não permitir que uma questão tão importante como a sacralidade da vida seja instrumentalizada, a ponto de os mesmos que defendem ferrenhamente a vida do nascituro sejam os que pregam o ódio, a violência, a tortura, o racismo, a homofobia etc.

    Os pensamentos acima são frutos da inquietação de um pastor que se angustia muito com os fenômenos do nosso tempo e que entende que não tem o direito de se calar. Silenciar sobre estes temas que estão pautando o momento político brasileiro seria para mim muito mais difícil de administrar, do que correr o risco do equívoco tanto no mérito da minha manifestação quanto na interpretação dos que a lerem. Fico à disposição para todo tipo de crítica e de discordância, contanto que não seja mera agressão. Vale lembrar o que dizia Dom Helder Câmara: “se discordas de mim, tu me enriqueces”.

    Dom Sílvio Guterres Dutra
    Dom Sílvio Guterres Dutra
    Bispo Diocesano de Vacaria-RS

    O que eu quero crer de verdade é que não cheguemos ao ponto de ter que pedir socorro aos ateus, para que nos livrem do fanatismo de cristãos adoecidos que estão prestes assumir o governo do nosso país.
    O que exponho aqui não pretende ser toda a verdade, muito menos a única verdade.É apenas minha palavra.

     

  • Uma mentira repetida mil vezes…*

    Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda de Hitler, 1933-1945

    Nós sabíamos que a batalha seria dura, mas achávamos que certos golpes baixos seriam evitados. Ledo engano. Para garantir que o candidato do golpe não perca, vale tudo. A pesquisa do Ibope divulgada ontem provoca em qualquer leitor atento uma enorme surpresa: depois do tsunami de manifestações contra Bolsonaro no sábado, em inúmeras cidades no Brasil, eram de se esperar outros números. Segundo o Ibope, as intenções de voto no capitão subiram. Em compensação, Haddad ficou estacionado.
    E sua taxa de rejeição subiu 11 pontos em uma semana.

    Obviamente, é uma pesquisa pouco confiável, com o objetivo de tentar influenciar os eleitores para votar em Bolsonaro e para desanimar os eleitores de Haddad.

    Ao mesmo tempo, o juiz Sergio Moro divulga trechos selecionados da delação premiada de Antonio Palocci, a apenas seis dias das eleições. Delação esta feita há vários meses e rejeitada pelo próprio Ministério Público, mas, mesmo assim, divulgada neste momento. Tudo parece ter sido combinado para oferecer ao Jornal Nacional elementos suficientes para atacar o PT.

    Felizmente, saiu hoje outra pesquisa, feita pela Real Time Big Data, onde Bolsonaro também está em primeiro lugar, com 29%, mas Haddad está logo atrás, com 24%, tendo subido 17 pontos em dezoito dias (a pesquisa anterior foi em 12 de setembro e esta em 1º de outubro), praticamente 1 ponto por dia.

    Esta situação nos fez lembrar a última semana da eleição de 1989, quando os adversários eram Lula e Collor e a Globo jogou todo o seu poder mediático para conseguir barrar Lula. Nos fez lembrar também o escândalo da Proconsult, quando esta empresa de contagem de votos fez fraude para impedir a eleição de Brizola ao governo do estado do Rio (1982). Era também a Globo que divulgava os dados da Proconsult. Felizmente, além da contagem oficial, havia uma contagem paralela, feita pela Rádio Jornal do Brasil, pela qual se pôde ver a enorme discrepância e Brizola pôde denunciar a falcatrua. Sobre este caso, ver a reportagem do Observatório da Imprensa de 06/07/2004: http://observatoriodaimprensa.com.br/memoria/a-globo-e-a-proconsult .

    Estejamos atentos!

     

    * “Uma mentira repetida mil vezes se torna verdade” (Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda de Hitler, 1933-1945).

  • DOSSIÊ ELEIÇÕES 2018

    Reunimos aqui várias notas públicas que foram lançadas nos últimos tempos por entidades religiosas e civis sobre as eleições. De uma forma ou de outra, elas chamam a atenção para o nosso objetivo de longo prazo que é construir uma Civilização do Amor. Denunciam as perdas de direitos ocorridos nos últimos dois anos: a PEC do Teto dos Gastos, a Reforma Trabalhista, a Reforma do Ensino Médio, as tentativas de aprovar uma Reforma da Previdência. Conclamam as pessoas de fé e de boa vontade a eleger candidatos comprometidos a restabelecer a prioridade dos direitos sociais – saúde, educação, moradia, transporte, assistência – e a rejeitar o apelo à violência.

    DOSSIÊ ELEIÇÕES 2018 em PDF

    Sumário

    • Pastoral da Juventude
    • Religiosas do Brasil
    • Franciscanos
    • Diocese de Lorena – Sobre as eleições deste ano de 2018
    • Arquidiocese de Montes Claros
    • Diocese de Ruy Barbosa
    • Eleições 2018: pastorais católicas, em nota, defendem agenda cidadã e “do bem comum”
    • Carta Pastoral de evangélicos à Nação Brasileira
    • Carta Pastoral sobre as eleições 2018 da Igreja de Confissão Luterana e Igreja Católica de Colatina e São Mateus, ES.
    • Mensagem dos Bispos do Regional Leste 2 da CNBB sobre as Eleições de 2018
    • Mensagem da CNBB sobre as eleições 2018
    • As eleições e o povo chamado metodista
    • Auditoria Cidadã da Dívida
    • Carta aberta: A Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados e as eleições 2018
    • Carta aberta da Articulação Nacional de Agroecologia à sociedade brasileira sobre as eleições 2018 .
  • Agrofloresta é mais – documentário sobre agroecologia

    Foi lançado no dia 13 de setembro, em Curitiba (Paraná), o documentário Agrofloresta é mais, uma co-produção da VideoSaúde Distribuidora (Icict/Fiocruz), que também o distribui, das Universidades Federais do Rio de Janeiro e do Paraná, do Ministério Público do Trabalho do Paraná e da Associação Paranaense das Vítimas Expostas ao Amianto e aos Agrotóxicos (APREAA). O filme é dirigido por Beto Novaes, professor e pesquisador do Projeto Educação através das Imagens, da UFRJ.

    A produção mostra como uma área degradada pela produção extensiva de búfalos – a Fazenda São Miguel, em Antonina (PR) – na região da Mata Atlântica paranaense, foi transformada por meio de iniciativas de recuperação do meio ambiente pela produção agroflorestal, com produção de alimentos e preservação da biodiversidade.

    Os protagonistas dessa transformação foram as 24 famílias de agricultores do Acampamento José Lutzenberger – Movimento dos Sem Terra (MST), numa área conquistada em 2004 – a Fazenda São Miguel, na cidade de Antonina, a quatro quilômetros do Pico Paraná, o ponto mais alto do estado.  Em outubro de 2017, o Acampamento recebeu o Prêmio de Conservação e Ampliação da Agrobiodiversidade, pelo Instituto Sociambiental (ISA) justamente por essa iniciativa.

    Apesar das ameaças e das dificuldades, a decisão do grupo de agricultores pela agroecologia veio a partir do momento em que se deram conta de que precisavam “sobreviver e produzir”, numa Área de Proteção Ambiental – APA, e que requeria cuidados e um novo aprendizado em como lidar com a terra.  Além disso, “Agrofloresta é mais” mostra, também, o orgulho dos trabalhadores pelo aprendizado que tiveram e pelo que estão desenvolvendo – uma agricultura saudável, que leva em consideração a saúde e o meio ambiente, afinal “a gente é o que a gente come”, como afirmou de forma simples e direta, a agricultora Valdineia Claudino, que trocou a cidade grande pelo campo.

    Sinopse

    No dicionário, agroecologia significa agricultura sustentável que agrega conhecimento científico e conhecimento tradicional. Sem fertilizantes industriais e agrotóxicos. Já a agrofloresta é classificada como cultura agrícola com emprego de espécies para restaurar florestas e áreas degradadas.

    No acampamento José Lutzenberger, Mata Atlântica, Estado do Paraná, os termos do dicionário ganham vida por meio de histórias pessoais e de famílias inteiras. E também por evidências de que um outro modelo de produção de alimentos e preservação da biodiversidade é possível. Célia cultiva hortaliças, diz que seu psicólogo é a mata e relembra os dias num bairro marcado pelas drogas. Valdineia conta como ela e os filhos nunca mais tomaram remédios. Luzinete recorda as lutas contra jagunços e fazendeiros. Hoelington fez curso técnico e compartilha o que aprendeu com a comunidade. Jonas, memória viva da comunidade, fala da satisfação de recuperar um olho d´água e a mata ciliar de um rio.

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