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  • Movimento Fé e Política de Três Rios realiza Fórum sobre Religião, Política e Direitos Humanos

     

    Religião, Política e Direitos Humanos

    Por padre Medoro – Publicado em Entre-Rios Jornal, 04 de dezembro de 2019

    Nos dias 29 e 30 de novembro, aconteceu no auditório da UFRRJ de Três Rios o Fórum Religião, Política e Direitos Humanos. Esse evento foi organizado pelo Movimento Fé e Política de Três Rios em parceria com o Núcleo de Práticas Jurídica da UFRRJ/ITR. Foram 4 mesas de debates muito ricos, em que aprofundamos diversas questões relacionadas ao tema do Fórum, com especialistas das áreas discutidas.

    Na primeira mesa, da qual participei como convidado para fazer a abertura, junto com o professor Rullian Emmerick, coordenador do Núcleo de Práticas Jurídicas, tivemos o tema Políticas Públicas e Políticas de Direitos Humanos e os convidados dessa mesa foram o ex-Ministro chefe da Secretaria -Geral da Presidência da República Gilberto Carvalho, que com sua simplicidade, foi nos apresentando, criticamente, as dificuldades em desenvolver Políticas Públicas voltadas para a construção de direitos para uma população historicamente excluída de todo processo de desenvolvimento. A grande novidade na última década foi a inclusão do pobre no orçamento do país, política que vê o combate à miséria e à pobreza não como custo, mas como investimento. Infelizmente, hoje nós temos os interesses do capital destruindo todos os avanços sociais conquistados. E outro convidado foi o Professor Cunca Bocayuva do Núcleo de Estudo de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ, que com uma análise instigante, nos levou a pensar as contradições existentes nas diversas linguagens políticas, religiosas, midiáticas que envolvem hoje toda essa problemática do não direito. Ou seja, há um processo de desconstrução em que o mecanismo utilizado é o MEDO, por isso há necessidade de se organizar na sociedade uma resistência contra essa lógica perversa que destrói as possibilidades de vida de uma grande maioria da nossa sociedade.

    Na segunda mesa, o tema discutido foi Democracia e Direitos Humanos, e o convidado foi o professor Waldeck Carneiro da Pós Graduação da Faculdade de Educação da UFF e Deputado Estadual, que de uma forma bem aprofundada e didática, nos introduziu no debate da atual crise democrática demonstrando que todo o processo de perdas de direitos sociais está diretamente ligada aos interesses do capital internacional e que hoje estamos, cada vez mais, reféns desses interesses, e a perda da soberania é uma marca da atual gestão do país. Ele apresenta como exemplo o corte de recursos para as universidades e os órgãos de pesquisa e tecnologia uma forma de regresso ao colonialismo e a dependência as grandes potencias. Isso aprofunda a crise social e econômica em que nos encontramos, aprofundando as mazelas sociais. Foi um rico debate com grande participação da plateia. Uma mesa muito bem conduzida pela professora Marcela Siqueira Miguens da UFRRJ/ITR, que com seus comentários nos levou a pensar como as perdas de direitos está atingindo a essência da democracia que é o Estado de Direitos.

    A terceira mesa foi relato de vida e de pesquisa frente a duas realidades em que se encontra o que nós chamamos de minorias sociológicas, as populações afrodescendentes e as indígenas. Os debatedores foram os professores Babalawô Ivanir dos Santos da UFRJ e Heiberle Horácio coordenador do curso de Ciências da Religião da Universidade Montes Claros – MG, que aprofundaram o tema Direitos Humanos, Religião e Minorias. Ivanir dos Santos demonstra que a intolerância contra a população negra não está presente só nas relações, mas também, de forma enfática, na construção do pensamento moderno e isso, sem dúvida nenhuma, fortalece essa realidade de intolerância contra as religiões de matrizes africanas. Por isso, a necessidade de se mobilizar contra qualquer forma de preconceito passa por articulações entre as próprias religiões. Dentro desse contexto, ele exemplifica a Caminhada em defesa da Liberdade Religiosa, em que é um dos organizadores, e que no Rio acontece desde 2008, como uma forma de resistência contra a toda e qualquer forma de intolerância religiosa. O professor Heiberle, através do seu relato das suas pesquisas e, principalmente, das suas relações com povos indígenas (principalmente com o povo Xakriabá, no município de São João das Missões – Norte de Minas e povos indígenas da região Amazônica) nos faz pensar sobre algumas questões que são fundamentais. Uma delas seria o local da fala. Quando inicia a sua explanação, deixa claro isso, mesmo como pesquisador, que “ele não fala pelos povos indígenas, mas fala com os povos indígenas”. É se situar na luta e na vida desses povos e não vê esses povos como um objeto utilitários das suas pesquisas. Uma outra questão é que a Religião mata, ou seja, quando as religiões se adentram nas comunidades indígenas elas, muitas vezes, eliminam ritos, símbolos e vivências desses povos, fazendo com que percam referenciais das suas culturas; e por último, podemos dizer que continuamos vendo a realidade dos povos indígenas dentro de uma perspectiva etnocêntrica, a partir de nós, das nossas realidades, ou seja de um olhar de fora, não se abrindo para ouvir a fala desses povos por eles mesmos, isso certamente ajuda na continuidade desse processo de intolerância e preconceito.

    E por fim, a última mesa de debates, o Tema foi: Fé e Política: Alienação ou Transformação. Para essa mesa, contamos com a presença do professor (PUC- RIO), Teólogo e Assessor Nacional das Cebs Celso Carias e com o professor da Escola do Legislativo da ALERJ e da Pós graduação do Direito da PUC Leonardo Ribas. Celso nos leva a pensar o tema, a partir de duas referências para a vida cristã. A primeira é a vida dos primeiros cristãos, que mais que ações políticas tiveram experiências que modificavam as formas de viver e de se relacionar. Opunham-se ao poder Romano, a partir da solidariedade com os mais excluídos. E a segunda, e mais importante é pensar a vida do Jesus histórico, pensar o que significa o seguimento de Jesus na realidade dos nossos dias. E o Leonardo nos apresenta a ideia da ruptura democrática está levando cada vez mais para a desumanização da sociedade e que a crise da democracia é também uma crise humana. E que hoje, mais do que uma questão ideológica faz-se necessário resgatar essa humanidade nessa sociedade cada vez mais desumana.
    Além dos debates temáticos esse fórum propiciou uma aproximação da universidade com a sociedade, dividindo experiências e saberes, fazendo-nos cada vez mais comprometidos com a luta pelos Direitos Humanos, dentro de uma perspectiva que o Papa Francisco nos traz:

    Cada um é chamado a colaborar com coragem e determinação, na especificidade de sua função, em prol do respeito dos direitos fundamentais de cada pessoa, especialmente as “invisíveis”: aquelas que têm fome e sede, que estão nuas, doentes, estrangeiras ou detidas, que vivem às margens da sociedade ou são descartadas.” Papa Francisco.

    Medoro, irmão menor-padre pecador.

     

  • A hegemonia pentecostal no Brasil

    Por Magali do Nascimento Cunha – Publicada na Edição do mês da Revista Cult – 2 de dezembro de 2019

    Bispo Edir Macedo, missionário R. R. Soares, apóstolo Estevam Hernandes, pastor Silas Malafaia, bispo Valdemiro Santiago, pastora Damares Alves, apóstolo Rina, pastor Marco Feliciano, apóstola Valnice Milhomens, pastora Cassiane. O que essas lideranças religiosas, destacadas por mídias brasileiras, têm em comum? São pentecostais, o segmento religioso cristão que mais se expandiu, numérica e geograficamente, no Brasil nas últimas décadas. Hoje, compreender o pentecostalismo é imprescindível para quem se interessa pelas dinâmicas socioculturais e políticas que envolvem o país.

    O pentecostalismo é uma das ramificações evangélicas formada por uma variedade de grupos, desde grandes igrejas, como a Assembleia de Deus (que também tem suas divisões), até pequenas denominações de uma única congregação, como a Igreja Evangélica Pentecostal Maná do Céu, em São Vicente (SP), e tantas outras vistas Brasil afora.

    Evangélicos pentecostais e neopentecostais

    O segmento evangélico é bastante diverso. Tem origem na Reforma Protestante do século 16 que abriu caminho para o surgimento de luteranos, congregacionais, presbiterianos, batistas, metodistas, anglicanos. No século 20, surgiram os pentecostais, expressão de um movimento de protesto contra o racismo e o classismo nas Igrejas, e de afirmação da população negra, migrante, feminina e pobre nos Estados Unidos.

    Os primeiros evangélicos chegaram ao Brasil por meio de missionários estadunidenses, na primeira metade do século 19. A identidade “protestante” nunca foi bem afirmada por boa parte deles, que sempre optaram por se denominar “evangélicos”, reforçando disputas religiosas com o histórico catolicismo romano ao colocarem-se como detentores “do verdadeiro Evangelho”.

    Atualmente, o grupo mais significativo desse mosaico religioso são os pentecostais. Representam a maior fatia numérica (são cerca de 60% dos evangélicos, segundo o Censo de 2010), com presença geográfica importante, ocupação de espaço nas mídias tradicionais (rádio e TV) e intensa atuação na política partidária.

    O que diferencia evangélicos pentecostais dos históricos é a crença no segundo batismo, uma experiência mística atribuída à ação do Espírito Santo, que leva os fiéis a falarem línguas estranhas como sinal de

     

    sua presença. Essa ação do Espírito Santo também atribui dons especiais, como profecia e cura pela oração.

    Missionários trouxeram o pentecostalismo ao Brasil na primeira década do século 20 e se estabeleceram no Pará (suecos, Assembleia de Deus) e em São Paulo (estadunidenses, Congregação Cristã do Brasil e Evangelho Quadrangular). A partir dos anos 1950, com os intensos movimentos migratórios do campo para as cidades e o processo de industrialização do país, surgiram as Igrejas pentecostais fundadas por brasileiros, como a Casa da Bênção, a Brasil para Cristo, a Deus é Amor, entre outras. Várias delas tiveram em programas de rádio um importante apoio para disseminar sua fé.

    A ação pentecostal no país é historicamente marcada por presença mais voltada à população empobrecida e às periferias das cidades. Essa prática tornou possível maior enraizamento nas culturas populares, com lugar garantido para a emoção e expressões corporal e musical, ainda que marcada por um puritanismo de restrições morais e culturais. Isso deu aos grupos pentecostais condições de consolidação nos espaços religiosos e crescimento numérico mais expressivo.

    Mas o boom pentecostal, de fato, ocorreu a partir da década de 1980 e transformou significativamente o perfil do segmento evangélico brasileiro. Essa expansão tão marcante tem alicerces nas transformações do mundo naquele período. Foi o momento dos processos de derrocada do socialismo, simbolizado pela queda do Muro de Berlim, e a consolidação do capitalismo globalizado e da cultura do mercado, baseados na lógica da plena realização do ser humano pela posse de produtos e serviços e pelo acesso à tecnologia da informática.

    Grupos cristãos estadunidenses adequaram seu discurso à nova ordem mundial e criaram a Teologia da Prosperidade. Ela foi abraçada por uma parcela de pentecostais brasileiros que passou a pregar que as bênçãos de Deus, na forma de prosperidade material (posse de finanças, saúde e felicidade na família), são concedidas aos fiéis que se empenham nas práticas de devoção aliadas às ofertas em dinheiro às igrejas. A elas também é destinada a prosperidade, por meio de amplo número de fiéis, ocupação geográfica, aquisição de patrimônio e influência no espaço público. Os estudiosos da religião dizem que se trata de uma relação de troca com Deus, bem própria do clima social estabelecido pelo mercado neoliberal.

    Como essa noção de prosperidade também tem a dimensão da saúde plena, as propostas de cura se amplificaram, bem como se intensificaram as práticas de exorcismo contra os males (demônios) que impedem a felicidade. Isso representou um reprocessamento de elementos da matriz religiosa brasileira com a farta (re)utilização de símbolos e representações do catolicismo e de religiões de terreiros.

    Cura, exorcismo e prosperidade tornaram-se marcas de uma nova forma de pentecostalismo, que deixava de enfatizar a necessidade de restrições de cunho moral e cultural para que se alcançasse a bênção divina.

    Esse pentecostalismo se expandiu no Brasil pelos anos 1990 e 2000, com a formação de um sem-número de igrejas. Estudiosos da religião denominam essa expressão religiosa de neopentecostalismo, ao qual estão vinculadas as Igrejas Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo, Mundial do Poder de Deus, Sara Nossa Terra, Bola de Neve, entre as maiores, somadas a inúmeras igrejas autônomas.

    O crescimento pentecostal passou a exercer influência decisiva sobre o modo de ser das demais Igrejas cristãs. A influência se concretizou de maneira especial no reforço aos grupos chamados “avivalistas” ou “de renovação carismática”, que têm similaridade de propostas e posturas com o pentecostalismo e que, em busca de crescimento numérico, passaram a conquistar espaços importantes na prática religiosa das Igrejas chamadas históricas, incluindo a Católica.

    Mídias, política e mercado

    O neopentecostalismo não significa a superação do pentecostalismo clássico do início do século 20. Pelo contrário, a Assembleia de Deus consolidou-se como a maior denominação pentecostal, e é também a maior Igreja Evangélica do Brasil, em termos numéricos e geográficos, com suas grandes e pequenas divisões em “ministérios”. A Congregação Cristã do Brasil, a Evangelho Quadrangular, a Deus é Amor e a Brasil para Cristo continuam a ter presença significativa em todas as regiões do país.

    Entretanto, os grupos neopentecostais ganharam intensa visibilidade por conta da ocupação das mídias tradicionais, como rádio e TV, e dos projetos de participação política.

    Na virada para o século 21, pastores e líderes neopentecostais tornaram-se empresários de mídia e detentores do que se poderia chamar “verdadeiros impérios” no campo da comunicação, buscando competir até mesmo com empresas não religiosas historicamente consolidadas (caso das Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo e Internacional da Graça de Deus). Chegou ao ponto de alguns desses grupos religiosos já nascerem midiáticos, isto é, a interação com as mídias passaram a fazer parte de sua própria razão de ser.

    Ao mesmo tempo, as grandes mídias (seculares) assimilam essa atmosfera e passam a produzir programas, ou parcelas deles, para disputar a audiência evangélica: espaço para a música cristã contemporânea (“gospel”) e seus artistas; patrocínio de festivais e megaeventos de rua; veiculação de programas de entretenimento com temática religiosa (inclusive com a concepção de personagens para telenovelas e criação das próprias telenovelas bíblicas).

    A tudo isso se conecta o crescimento de um mercado da religião. Os cristãos tornam-se um segmento de mercado com produtos e serviços especialmente desenhados para atender às suas necessidades religiosas, sejam de consumo de bens, sejam de lazer e entretenimento. Passou a ser possível encontrar produtos os mais variados, como roupas, cosméticos, doces, viagens, filmes e jogos com marcas formadas por slogans de apelo religioso, versículos bíblicos ou, simplesmente, o nome de Jesus. A Igreja Católica passou a seguir a mesma trilha.

    A maior presença dos evangélicos no campo da política partidária é parte desse contexto. Desde o Congresso Constituinte de 1986 e a formação da primeira bancada evangélica e seus desdobramentos, a máxima “crente não se mete em política” foi sepultada. A máxima passou a ser “irmão vota em irmão”.

    A atuação daquela primeira bancada no Congresso Constituinte (1986-1989) foi marcada por fisiologismo e pela histórica farta distribuição de estações de rádio e canais de TV aos deputados evangélicos (determinante para a ampliação da presença de pentecostais nas mídias).

    Depois de altos e baixos numéricos, decorrentes de casos de corrupção e fisiologismo nas legislaturas pós-Congresso Constituinte, a bancada evangélica consolidou-se como força a partir dos anos 2000, chegando a alcançar 92 parlamentares (88 deputados e 4 senadores) em 2014, e nas eleições de 2018, 94 (85 deputados e 9 senadores), sendo os pentecostais uma força hegemônica.

    Essa potência solidificou-se na última década e meia, muito especialmente por conta da força de duas Igrejas Evangélicas que concretizaram, desde 1986, projetos de ocupação da política institucional do país: as Assembleias de Deus (AD) e a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Ambas passaram a ocupar, depois de 2003, espaços plenos de poder em partidos (respectivamente o Partido Social Cristão, PSC, e o Partido Republicano Brasileiro, PRB), maior quantidade de deputados e senadores no Congresso, conquistas de cargos públicos, como as nomeações de ministros de Estado de Dilma Rousseff (dois da IURD) e de Michel Temer (dois da IURD), e lançaram dois candidatos à Presidência da República (Marina Silva e pastor Everaldo, ambos da AD). A IURD conseguiu ainda eleger o bispo, ex-senador e ex-ministro Marcelo Crivella como prefeito da cidade do Rio de Janeiro (2016).

    Além disso, dois fatos impulsionaram o poder pentecostal na política. Um deles foi a inusitada nomeação do deputado Marco Feliciano (hoje, Podemos, o PODE/SP) como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, em 2013. Ela culminou no revigoramento de campanhas por legislação pautada pela moralidade sexual religiosa, sob o rótulo “Defesa da Família Tradicional”, contra movimentos feministas e LGBTI, em aliança com a bancada católica. Essas pautas encontraram eco na população conservadora não religiosa e reforçaram movimentos reacionários às conquistas de direitos alcançadas nas últimas duas décadas.

    Outro fato foi a eleição do deputado federal pentecostal Eduardo Cunha (Movimento Democrático Brasileiro, MDB/RJ) à presidência da Câmara dos Deputados, em 2015. Representou um poder sem precedentes para a bancada evangélica e facilitou tanto a defesa das pautas descritas aqui como a abertura à concessão de privilégios a Igrejas no espaço público. A prisão e a cassação do deputado, em 2016, não afetou significativamente as conquistas políticas da bancada.

    Tanto a IURD como a AD ofereceram amplo apoio à eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018, acompanhadas por outras denominações pentecostais, no rastro das propostas conservadoras apresentadas por ele. Bolsonaro candidatou-se à Presidência com um discurso identificado como cristão, marcadamente evangélico conservador, embora declarando-se católico. Nesse contexto, a bancada evangélica se fortaleceu como interlocutora do novo governo e ganhou representantes nos ministérios da Casa Civil (Onyx Lorenzoni) e da Mulher, Família e Direitos Humanos (pastora Damares Alves), com fiéis alocados em cargos estratégicos no Ministério da Educação.

    Para refletir

    Esse quadro retrata a ampliação da visibilidade pública alcançada pelos evangélicos no Brasil nas últimas décadas, por conta da hegemonia (neo)pentecostal.

    É um fenômeno que marca o momento sociopolítico e cultural do país, em que os evangélicos se colocam na arena como bloco organicamente articulado. Eles não são mais “os crentes” ou os grupos fechados de outrora; desenvolvem uma cultura “da vida normal” que combina a religião com presença nas mídias, no mercado, no entretenimento e na política. Um segmento religioso que se vê fortalecido como parcela social que tem suas próprias reivindicações e pode eleger seus próprios representantes para os espaços de poder público.

    MAGALI DO NASCIMENTO CUNHA é doutora em Ciências da Comunicação pela USP, integrante da Associação Internacional Mídia, Religião e Cultura e da Associação Mundial de Comunicação Cristã

  • Sementes do Amanhã – Série que será exibida no Canal Futura, às terças, 23:15h

     

    Sementes do Amanhã é dirigida por Alan Mendonça e apresentada por Nanda Barreto - Créditos: Fotos: Marcelo Curia
    Sementes do Amanhã é dirigida por Alan Mendonça e apresentada por Nanda Barreto / Fotos: Marcelo Curia

    A série documental Sementes do Amanhã estreia nesta terça-feira (12), às 23h15, no Canal Futura. Resgatando espécies alimentícias brasileiras que correm risco de extinção, divide-se em 13 episódios, exibidos todas as terças, que vão contar as histórias de comunidades tradicionais, ambientalistas e pesquisadores que atuam na defesa desses alimentos e na conservação da biodiversidade.

    Dirigida por Alan Mendonça e apresentada por Nanda Barreto, a série foi produzida ao longo de 10 meses. Conforme conta Nanda, jornalista que faz sua estreia como apresentadora, apesar do cenário de destruição, quem assistir à série vai conhecer modos de vida que respeitam a natureza, tirando dela o seu sustento. “É um passeio pela cultura alimentar da nossa gente, dando visibilidade à manifestações artísticas e voz ao conhecimento ancestral e científico”, afirma.

    Série faz resgate de alimentações brasileiras tradicionais

    A série começou de um jeito e terminou de outro, conta Alan Mendonça. “Inicialmente, a ideia de falar sobre a extinção dos alimentos era uma forma de sensibilizar os espectadores sobre a questão do meio ambiente. Hoje, vejo como um trabalho de resistência política, social e cultural, uma vez que foi preciso endurecer o discurso após os retrocessos das últimas eleições. Venceu o que existe de pior na política. As pessoas precisam entender que modelos econômicos destrutivos tem consequências”, avalia o diretor.

    O Cerrado, exemplifica Alan, está sendo destruído numa velocidade assustadora, o que vai resultar, em poucos anos, em uma crise hídrica no Sudeste no Brasil. “Você pode imaginar o que é uma cidade como São Paulo? É sobre isso que estamos falando. Hoje, a nossa geração é a última que ainda pode fazer algo para salvar a vida do planeta. A única opção é preservar o pouco que ainda resta”, conclui.

    * Com colaboração de Fabiana Reinholz
    Edição: Marcelo Ferreira

  • As críticas e ataques ao Papa Francisco têm fundamento?

    Publicamos Artigo de Dom Amilton Manoel da Silva, CP, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Curitiba – PR, publicado no site da arquidiocese de Curitiba, dia 04 de novembro de 2019.

    As críticas e ataques ao Papa Francisco têm fundamento?

    Nos últimos tempos têm circulado, nas redes sociais, inúmeras críticas e ataques maldosos ao Papa Francisco. Isso tem me incomodado, por isso escrevo este artigo sem muitas pretensões, apenas com o objetivo de afirmar a unidade da Igreja, no momento vacilante, e discutir alguns pontos que não estão sendo levados em consideração.

    Defendo que essas críticas são infundadas e quase sempre elas partem de pessoas ou de grupos do interior da própria Igreja, dizimando a unidade e fomentando a rejeição ao Sumo Pontífice. Para início de conversa, é bom lembrar nossa fé católica de que Jesus Cristo edificou a sua Igreja sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e este “ofício pastoral de Pedro e dos outros Apóstolos faz parte dos fundamentos da Igreja e é continuado pelos Bispos sob o primado do Papa” (CIC n. 881).

    O teólogo Victor Codina, no seu artigo “Francisco, um Papa que incomoda”, situa essas críticas em duas vertentes (na primeira vertente, exponho uma síntese do pensamento do autor; na segunda vertente, tomo a liberdade de discorrer sobre a acusação ao Papa Francisco de ser comunista), a saber:

    • Teológica: Onde se afirma que Francisco não é um teólogo, por isso comete “erros doutrinais” nos seus documentos e discursos.Nesse sentido vale a afirmação de Santo Tomás de Aquino, quando distingue entre a cátedra magisterial (dos teólogos professores das universidades), da cátedra pastoral correspondente aos Bispos e ao Papa; embora em muitos momentos ambas aparecem juntas. Não é preciso muito esforço, para perceber que Francisco é um teólogo que parte da realidade: da injustiça, da pobreza, da destruição da natureza e do clericalismo eclesial.
    • Sociopolítica: Neste aspecto, as acusações são de que Francisco é “comunista”, pela insistência numa Igreja pobre para os pobres em busca de uma sociedade justa e solidária.Fico a pensar se as pessoas ou grupos que fazem tal acusação, têm lido os documentos e exortações do Papa, escutado seus pronunciamentos, prestado atenção nos seus gestos e na sua maneira de ser. Indago-me se conhecem o manifesto de Karl Marx e Friedrich Engels e o pensamento comunista… E mais ainda, se têm lido e rezado a Palavra de Deus, “mantido os olhos fixos em Jesus” (Hb 12,2), nas suas ações (Mt 9,35) e mandamentos (Mt 25, 35-45). Creio que não, pois se assim fosse, nos poupariam de tais aberrações e calúnias.

    Sobre a segunda vertente é importante um aprofundamento:

    • O Marxismo defende uma Sociedade igualitária – ateísta – materialista. O Papa Francisco, em muitos pronunciamentos, tem se manifestado contrário a essa concepção, como no capítulo IV da Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, onde destaca que a construção de uma sociedade justa exige, em primeiro lugar, uma confissão de fé. A sociedade nova é a instauração do Reino de Deus, que está no coração do Evangelho e que significa um espaço de fraternidade, de justiça, de paz e dignidade para todos. Porém, isto só é possível com uma relação pessoal com Deus, de amor, uma vez que Ele reina no mundo (cf. n. 177 a n. 258). “Sem amor e sem Deus, nenhum homem pode viver sobre a terra” (Encontro com os jovens, na Romênia, 01/06/2019).
    • O Marxismo privilegia a sociedade (coletivo) e não a pessoa humana, sua liberdade e seus direitos. O Papa Francisco defende a pessoa em vista de uma Igreja nova e uma sociedade mais humana, como nesta afirmação: “Cada ser humano é objeto da ternura infinita do Senhor e, Ele mesmo, habita na sua vida. Na cruz, Jesus Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa. Independentemente da aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o nosso afeto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida” (EG, n. 274).

    Algumas declarações suas estão na mesma linha: “Para mim, o âmago do Evangelho pertence aos pobres. Há dois meses ouvi uma pessoa dizer ‘Este Papa é comunista’. Não! Esta é uma bandeira do Evangelho, não do comunismo. A pobreza sem ideologia… E por isso creio que os pobres estão no centro do anúncio de Jesus. É suficiente lê-lo! O problema é que esta atitude em relação aos pobres, às vezes, na história, foi ideologizada. No Evangelho não há ideologia, a ideologia é algo diferente…” (Resposta do Papa Francisco a um grupo de jovens da Bélgica, 2014).

    Perguntado se gostaria de uma sociedade de inspiração marxista, respondeu: “Isso me foi perguntado muitas vezes e minha resposta sempre foi essa: se há alguma semelhança, na busca de cuidar dos pobres, então são os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falava de uma sociedade onde os pobres, os fracos e os marginalizados tinham direito de decidir. Não os demagogos, nem Barrabás, mas o povo, os pobres, tendo eles fé em um Deus transcendente ou não. São eles (os pobres) que precisam ajudar para alcançar a igualdade e a liberdade (…)” (Entrevista ao jornal italiano La Repubblica, 2014). Durante a Missa celebrada na Casa Santa Marta, na manhã do dia 24/05/2018, o Papa Francisco lamentou que se identifique como comunistas os que pregam a “pobreza”, uma vez que a pobreza está no centro do Evangelho.

    Sobre a caridade: “A caridade nunca é ideológica, dado que não se servem ‘ideias’, mas ‘pessoas’, e nesse sentido, amar não se reduz a uma atitude de servilismo, mas fixa sempre o rosto do irmão, toca a sua carne, como a carne de Cristo, sente a sua proximidade” (Homilia em Cuba, 2015).

    Diante disso pergunto: As críticas e ataques ao Papa Francisco, têm fundamento? Não! Desde que assumiu o ministério petrino, em março de 2013, Francisco tem buscado dar à Igreja um rosto mais simples, serviçal e misericordioso. Estas características se fundamentam na pessoa de Jesus que “veio para servir e não para ser servido” (Mt 20,28), nas exigências do Evangelho e na vivência cristã das comunidades primitivas. Suas mensagens confirmam as decisões do Concílio Vaticano II e a doutrina social da Igreja. Onde o Papa está errando?

    Permaneçamos em comunhão com o “Vigário de Cristo” (LG, n.22), zelemos pelo respeito e obediência ao Pastor, eleito num conclave, sob a condução do Espírito Santo, para guiar a Igreja Católica Apostólica Romana e descartemos toda forma de agressão que não gera a unidade.

    Deus abençoe a todos (as)!

    Dom Amilton Manoel da Silva, CP
    Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Curitiba – PR

  • CPT Rondônia: Práticas Agroecológicas e a transformação na Amazônia

    Processos de transformação na Amazônia a partir de práticas agroecológicas

    Grupo Bem-Viver, Cacoal/RO, Brasil – publicado em cptrondonia.blogspot.com/ em – 5 de novembro de 2019

    As práticas ecológicas constituem a cultura e o modo de vida de muitas comunidades tradicionais, e estiveram na base da resistência de alguns povos migrantes, que adotaram o cuidado com a terra.

    Senhor Jesus Ferreira Martins, chegou em Rondônia na década de 70, se estabeleceu no setor prosperidade. Para as famílias a conquista da terra não foi simples, muitos passaram pelo sistema de meia, trabalhando em terras de terceiros pela metade da produção, até conquistarem seu pedaço de chão.

    A sustentabilidade não foi um processo fácil, mesmo na terra, muitos vendiam sua mão de obra para as fazendas vizinhas. Quando a Família de Dona Maria de Fatima de Oliveira e Sr.  Antônio Custódio de Oliveira, chegam na região, conhecer os vizinhos foi a primeira preocupação.

    Daí as iniciativas de produção, os mutirões e o nascedouro do Grupo de Famílias Agroecológicas Bem Viver.

    A família que ali chegava vinha carregada de experiências de organização a partir do Movimento de Pequenos Agricultores e Movimento dos Trabalhadores rurais sem-terra, que juntos vivenciaram a experiência de práticas agroecológicas do Projeto Terra Sem Males desenvolvido pela CPT nos anos 2000.

    A fala de Odinira Pires reflete a opção política pela construção coletiva “Se eles (Fátima e Antônio) quisessem nós seriámos empregados deles até hoje, recebendo salário mínimo e estaríamos felizes, porém hoje somos produtores agroecológicos[1]”.

    O grupo cresceu, criou redes, estabeleceu espaços junto ao município, participando ativamente de Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, Associações rurais, Cooperativa, Escola, Comunidades eclesiais de base, e mesmo na CPT. Nesse período, jovens do grupo acessaram a universidade e hoje são Educadores do Campo. A condição de vida mudou e a natureza foi sendo recuperada “árvores e pessoas cresceram[2]”.

    Encontraram o caminho das feiras, e toda a quinta-feira trazem seus produtos para a Feira do Produtor Rural de Cacoal, no início voltavam com os produtos para casa, hoje tem a confiança dos consumidores pela certeza da qualidade dos produtos e de serem livres de agrotóxicos. A feira e a entrega para a merenda escolar são bases da subsistência hoje.

    Olhar para a história e para o que o grupo é hoje “uma verdadeira escola[3]” é refletir sobre o trabalho de muitas mãos, de redes de parceiros estabelecidos pela comunidade, e do serviço pastoral da CPT na construção da agroecologia como alternativa de vivência e convivência com o Bioma.

    O cuidado com a terra permitiu ao grupo um ambiente equilibrado, sem que tenham necessidade de utilização de insumos químicos, e mesmo naturais para o controle de pragas e doenças.

    As famílias são guardiãs de sementes crioulas, e conscientes do processo de transformação desse bem em commodites patenteadas, conservar e partilhar esse bem faz parte da prática, num levantamento rápido são em média, 48 espécies guardadas por família, cultivadas hoje. A experiência se multiplica e atraí outras famílias, já são 15 na região da zona da mata que motivadas por eles iniciam seus processos de transformação.

    [1] Odinira, agricultora agroecológica do Grupo Bem Viver.
    [2] Liliana W. A. Dos Santos – CPT/RO.
    [3]  Sandra Lobo, assessoria do CAIS.

  • José Luís Fiori: Outubro vermelho

    Outubro vermelho

    Por José Luís Fiori* – publicado originalmente em aterraeredonda.com.br – em 05 novembro de 2019

    Por qué protestan?
    Es por la desigualdad económica.
    Y los bajos salarios.
    También por la baja o nula movilidad social

    y la falta de un futuro mejor para los jóvenes.
    Es por los servicios públicos infames.
    Y por la globalización y la pérdida de puestos de trabajo…”
    Moisés Naim, El País, 27 de outubro de 2019.

    Desta vez tudo foi muito rápido. Como se, em apenas uma noite, a América Latina tivesse dormido de direita e acordado de esquerda. Depois da avassaladora vitória de López Obrador no México, em 2018, em apenas um mês, outubro de 2019, as forças progressistas venceram as eleições presidenciais na Bolívia, Uruguai e Argentina, elegeram um jovem economista de esquerda para o governo de Buenos Aires e ganharam na Colômbia eleições para a prefeitura de suas principais cidades, como Bogotá e Medellín. E quase simultaneamente, uma sucessão de revoltas populares derrubou ou colocou de joelhos os governos direitistas de Haiti e Honduras, impondo pesadas derrotas aos presidentes de direita, do Equador e do Chile.

    Muitos analistas se surpreenderam com essa sequência de derrotas da direita, como se fosse inesperada, um raio em céu azul. Mas isso não é verdade, sobretudo, nos casos iminentes da rebelião do povo chileno e da derrota de Mauricio Macri na Argentina. No caso do Chile, já tinha havido uma gigantesca manifestação de mais de um milhão de pessoas, em 1988, pelo fim da ditadura do General Pinochet, acossada pelo fracasso de uma economia que havia crescido apenas 1,6%, em média, durante os 15 anos da ditadura militar, deixando como herança um desemprego de 18%, e 45% da população abaixo da linha da pobreza.

    Logo depois da redemocratização do país, a partir de 2006, sucederam-se grandes mobilizações estudantis contra a privatização e os altos custos da educação, da saúde, da água e do saneamento básico, que haviam sido privatizados durante a ditadura e permaneceram privados depois da redemocratização. Numa mobilização quase contínua, que alcançou uma extraordinária vitória em janeiro de 2018, com a aprovação pelo Congresso Nacional chileno de um novo sistema de educação universitária, universal e gratuita, tanto pública quanto privada.

    Foi na esteira dessas manifestações que a população chilena voltou a sair às ruas nesse outubro, protestando contra uma sociedade que apesar do seu “equilíbrio macroeconômico”, segue sendo a mais desigual dentre todos os países da OCDE, com a concentração de 33% da riqueza nacional nas mãos de apenas 1% da população. Posicionaram-se contra os sistemas de saúde, água e serviços básicos que seguem privatizados e com custos exorbitantes; contra o sistema de previdência privada que entrega aos aposentados apenas 33% do seu salário ativo. Trata-se de um quadro de descontentamento que prenuncia a provável derrota das forças de direita nas eleições presidenciais de 2021.

    No caso da Argentina, a vitória peronista foi uma resposta imediata e explícita ao fracasso do programa econômico neoliberal do presidente Mauricio Macri, que conseguiu destruir e endividar o a economia argentina, deixando como herança um crescimento negativo do PIB, uma taxa de inflação de 50%, um desemprego de 10% e ainda 32% da população abaixo da linha de pobreza. Sabe-se que a Argentina foi, até bem pouco tempo atrás, a sociedade mais rica e com melhor qualidade de vida e nível educacional da América Latina. Ou seja, resumindo o argumento, a rebelião chilena e a vitória peronista na Argentina não são surpreendentes, o que vale também para a sucessão em cadeia das demais derrotas da direita latino-americana.

     

    Que consequências imediatas se deve esperar, e que lições extrair desse “outubro vermelho”?

    A primeira e mais contundente é que os latino-americanos não suportam nem aceitam mais viver em sociedades com níveis de desigualdade extrema e vergonhosa. A segunda é que o mesmo programa neoliberal que fracassou na década de 1990 voltou a fracassar, exatamente porque não produz crescimento econômico sustentado e acentua violentamente a precarização, a miséria e a desigualdade que já existem em toda a América Latina.

    Por outro lado, do ponto de vista estritamente brasileiro, esse fracasso da política neoliberal, sobretudo o fracasso do Chile e da Argentina, caem como bombas em cima do programa de promessas e blefes ultraliberais do senhor Guedes, cuja insistência na mesma tecla, depois de tudo o que aconteceu, sugere tratar-se de um financista que, além de fanático, parece ser cego ou burro.

    Assim, permanecem no ar duas perguntas importantes: Por que esse novo ciclo neoliberal foi tão curto? O que se deve esperar para o futuro?

    Para refletir sobre essas questões, entretanto, é necessário se afastar um pouco da conjuntura, e de seus debates mais acalorados, e recorrer a uma hipótese de longo prazo acerca da natureza contraditória do desenvolvimento capitalista, formulada pelo economista e historiador Karl Polanyi, em A grande transformação (1944).

    Polanyi propôs uma explicação para o fim da “ordem liberal do século XIX” – que alcançou seu apogeu e começou sua crise e transformação, a um só tempo, a partir de 1870. Segundo o economista austríaco, essa simultaneidade deve-se à existência de um duplo princípio que comanda a expansão capitalista: “o princípio do liberalismo econômico, que objetiva estabelecer um mercado autorregulado, e o princípio da proteção social, cuja finalidade é preservar o homem e a natureza, além da organização produtiva” [1].

    Teria sido exatamente por isso que os Estados e sociedades capitalistas mais avançados e suas populações teriam começado a se defender do avanço do liberalismo desenfreado, no exato momento em que tal avanço alcançou seu apogeu. Como consequência, segundo Polanyi, a partir de 1870, “o mundo continuou a acreditar no internacionalismo e na interdependência, mas agiu cada vez mais sob os impulsos do nacionalismo e da autossuficiência” [2].

    Assim, na mesma era do padrão-ouro, da desregulamentação dos mercados financeiros e da expansão imperialista do final do século XIX, os Estados europeus começam a praticar o protecionismo e desenvolver formas embrionárias de sistemas de proteção social, que alcançaram o ápice com a criação do Estado de Bem-Estar Social, após a Segunda Guerra Mundial.

    Seguindo Polanyi, podemos também formular a hipótese de que o sistema capitalista voltou a experimentar um grande impulso de internacionalização, liberalização e promoção ativa dos mercados desregulados a partir dos anos 1980, e que esse “surto internacionalizante” entrou em crise terminal com as guerras do início do século XXI e o colapso econômico-financeiro de 2008.

    Essa crise terminal desencadeou ou acelerou um novo grande movimento de autoproteção por parte dos Estados e economias nacionais, que começou na Rússia e na China, no início do século XXI, alastrou-se pela periferia do sistema europeu e acabou atingindo o próprio núcleo financeiro e anglo-americano do sistema capitalista mundial, na hora do Brexit; e ainda mais, com a eleição de Donald Trump referendando o “America first”.

    Nessa perspectiva, podemos também conjeturar que a onda neoliberal da América Latina dos tempos de Menem, Fujimori, Fernando H. Cardoso e Salinas fez parte do movimento geral de internacionalização, desregulamentação e globalização das décadas de 1980/90, liderado pelos países anglo-saxônicos. A “virada à esquerda” do continente, na primeira década do século XXI, com seu viés nacional-desenvolvimentista, também fez parte desse novo e grande movimento de autoproteção estatal, econômico e social que está em pleno curso sob a liderança das quatro grandes potências que deverão liderar o mundo no século XXI: EUA, China, Rússia e Índia.

    Olhando para o mundo dessa maneira, pode-se entender melhor porque o revival neoliberal latino-americano dos últimos cinco anos durou tão pouco: ele está rigorosamente na contramão da lógica do sistema capitalista mundial. Apesar disso, esta reincidência neoliberal tardia pode fazer parte de uma disputa pelo futuro do continente que ainda está em pleno curso e que pode se prolongar ainda por muitos anos, incluindo a possibilidade de um impasse sem solução. Ou seja, deste ponto de vista, apesar da grande vitória progressista deste outubro vermelho, o futuro da América Latina segue incerto e dependerá muitíssimo do que venha a se passar na Argentina, Chile e Brasil, nos próximos tempos.

    No caso da Argentina, o novo governo de Alberto Fernández enfrentará desafios de grande proporção quase imediatos e que podem levar o país a repetir o dilema das últimas décadas, prisioneiro de uma “gangorra” que não deslancha, ora sob o comando dos “liberistas”, ora sob o comando dos “nacionalistas”, sem conseguir sustentar uma estratégia de desenvolvimento que seja coerente, consistente e duradoura.

    A diferença entre Fernández e Macri foi de 8% dos votos, e apesar do fato de que Fernández terá maioria no Senado, não a terá no Congresso, onde será obrigado a negociar com Macri e com os demais partidos para aprovar seus projetos. Além disso, Fernandez começará seu governo no mês de dezembro, com um país quebrado e endividado, com reservas que já estão quase inteiramente comprometidas com o pagamento de dívidas de curto prazo, com altas taxas de inflação, desemprego e miséria. E com a ameaça permanente de ver seu governo torpedeado por novas explosões inflacionárias e crises financeiras que se repetem periodicamente na Argentina.

    Por outro lado, no caso do Chile, as forças progressistas só poderão recuperar o governo em 2021. Até lá terão que negociar com o governo de Sebastián Piñera um programa de reformas constitucionais capaz de enfrentar o dilema da necessidade reestatização dos serviços de saúde, água e saneamento básico, pelo menos, além da rediscussão do sistema de previdência social por capitalização, que fracassou rotundamente, do ponto de vista dos aposentados. Essa negociação supõe a aceitação conjunta do fato de que o desempenho macroeconômico chileno das duas últimas décadas é insuficiente para dar conta das necessidades concretas dos cidadãos comuns que não se interessam pelas cifras e querem apenas sobreviver com um mínimo de decência e qualidade de vida.

    Por fim, o futuro brasileiro está cada vez mais difícil de prever depois dessa revolta continental. Mesmo que o país consiga se desfazer do grupo de pessoas que se apoderou do Estado, evitando a instalação autoritária de um regime controlado por milicianos e narcotraficantes, mesmo assim, depois do que já fizeram, eles deixarão, como herança funesta, um Estado e uma economia aos pedaços, e uma sociedade dividida e moralmente destruída. O que foi construído pelos brasileiros nos últimos 90 anos está sendo demolido e entregue, sistematicamente, por estes senhores em meio a promessas e blefes destituídos de qualquer base científica ou histórica.

    Mesmo sem voltar a falar da cegueira ideológica do senhor Guedes, basta ver o estrago que já foi feito novo chanceler brasileiro à imagem internacional do país e a sua história diplomática, induzido por delírios religiosos e milenaristas e pela decisão de “purificar” os costumes “ocidentais e cristãos”. A sua promessa de invasão da Venezuela virou piada internacional, o Grupo de Lima implodiu, o servilismo aos norte-americanos abriu as portas para a formação de um novo eixo político-diplomático no continente, articulado em torno do México e da Argentina. Ele próprio, se continuar nesse caminho, acabará passando para a história da diplomacia brasileira como um personagem patético: “Ernesto, o Idiota”.

    Concluindo, mesmo depois que esse grupo de marginais e fanáticos seja devolvido ao seu devido lugar de origem, o Brasil terá que enfrentar o desafio extremamente complexo de reconstruir o Estado, suas instituições e a própria sociabilidade, ao mesmo tempo em que terá que definir os novos rumos de sua economia. Isso só será possível a partir de um grande acordo civilizatório entre as forças políticas democráticas, que tenha como ponto de partida o rechaço terminante ao projeto atual de destruição do Estado e de submissão do país à direção econômica e ao protetorado militar dos Estados Unidos.

    *José Luís Fiori é professor de Economia Política Internacional no Instituto de Economia da UFRJ

    Notas
    [1] Karl Polanyi. A grande transformação. Rio de Janeiro, Campus, 1980, p. 139.
    [2] Idem, p. 142.

     

  • Desafios da articulação das CEBs no Brasil

     

    Entre os dias 17 e 20 de outubro de 2019 foi realizado na cidade de Duque de Caxias – RJ o seminário Desafios da Articulação das CEBs no Brasil. Esta atividade, promovida pelo Iser Assessoria, está em continuidade com uma série de encontros realizados desde 2011, em parceria com o Setor CEBs da CNBB, com o objetivo de contribuir para o fortalecimento de uma rede nacional de pessoas que dão apoio à caminhada das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil.

    Estes encontros e a nossa observação em diversas atividades relacionadas às CEBs em diversas localidades têm evidenciado a crescente dificuldade na articulação das CEBs em nosso país, não obstante o empenho e compromisso de suas lideranças e assessores/as. Trata-se de um desafio urgente. Por esta razão, o Iser Assessoria idealizou este seminário, para compreender as causas desta fragilidade e buscar coletivamente caminhos para superá-la.

    As 41 pessoas que participaram deste seminário foram convidadas pela equipe de Iser Assessoria. Tivemos o cuidado em garantir a diversidade regional, além da presença de mulheres e de homens, de leigos/as, religiosos/as e de clérigos. Estiveram presentes pessoas de todas as grandes regiões do país e de 15 dos 18 regionais da CNBB. Pessoas que conhecem bem as CEBs, que acreditam neste jeito de ser igreja a serviço do Reino de Deus, no compromisso com os pobres e com nossa casa comum.  Gente com a responsabilidade de acompanhar as CEBs em seus processos de formação, e também de ajudar as CEBs a se organizar em rede para o desenvolvimento de sua missão na Igreja e na Sociedade.

    A proposta metodológica adotada foi trabalhar a maior parte do tempo em oficinas, estabelecendo um processo de produção coletiva do conhecimento, baseado no intercâmbio de experiências e troca de saberes. Algumas seções foram realizadas com breves provocações iniciais de membros do grupo, seguidas de reflexão em grupo. Depois de compartilhadas as conclusões do grupo, outros/as participantes previamente designados/as faziam alguns destaques e aprofundavam a reflexão. A isso se seguia uma rodada de debates em plenária. Outras seções começaram diretamente pelo trabalho em grupos, seguindo-se o mesmo procedimento.

    Elemento essencial da identidade das CEBs são as ações voltadas para a transformação da sociedade e em favor da justiça social.  Por isso, durante o seminário foi feita a sensibilização para o levantamento de práticas alternativas indicativas de outro paradigma de desenvolvimento socioeconômico, realizadas ou apoiadas por membros das CEBs por todo o país. Os/As participantes foram convidados/as a descrever brevemente a iniciativa e deram contatos de pessoas que poderão dar mais detalhes sobre a iniciativa.

    O seminário foi organizado em 4 blocos: (a) análise da conjuntura sociopolítico e eclesial; (b) diagnóstico sobre a situação das CEBs no Brasil; (c) levantamento dos desafios da articulação das CEBs; (d) indicativo de proposições para fortalecer sua articulação e reflexão sobre as perspectivas para as CEBs no atual contexto. Foi feito um esforço de sistematização da reflexão efetuada. O relatório do seminário está em elaboração e será compartilhado com os organismos representativos, grupos de assessoria, lideranças das CEBs e agentes de pastoral.

    Os quatro dias do seminário aconteceram durante as três semanas em que foi realizado no Vaticano o Sínodo da Amazônia, que refletiu sobre Novos para a Igreja e para uma Ecologia Integral, com uma significativa delegação brasileira. Esta feliz coincidência proporcionou uma sintonia entre as reflexões, na busca de novos caminhos para as CEBs, iluminada por todo o processo sinodal. Sintonia expressa no relatório final do Sínodo, que afirma que as CEbs têm sido e são um dom de Deus para as Igrejas locais da Amazônia e, ousamos completar, para todo o Brasil.

  • No meio da noite escura, confiantes na Ressurreição, uma visão da atual conjuntura política

    Introdução

    Há um ano apresentei num evento de Fé e Política uma análise de conjuntura que foi criticada por ter sugerido que, após nossa derrota pelo golpe de 2016 consumado na eleição de Bolsonaro, era o momento de “fingir-se de morto e evitar confrontos, a menos que possamos sair vitoriosos”. Lembro isso para insistir na necessidade do pessimismo da análise e do otimismo da ação. Otimismo porque sugeri também que era o momento da autocrítica e podíamos reconhecer pelo menos um ou dois erros sem entrar em depressão, e adotar a estratégia da dispersão. Voltar às bases, sempre em grupo (conforme Jesus recomendava) mas também ocupar os espaços de poder que se abrissem no Estado e na Sociedade civil (aí incluídos os espaços de instituições religiosas). Na atual conjuntura, as posições de poder devem ser assumidas como serviço de proteção a quem estiver nas bases.

    O que mudou de um ano pra cá?

    Intensificação de processos de morte

    1. Aumentaram os sinais da catástrofe climático-ambiental até 2050. Mas aumentou mais ainda a consciência dessa crise: Greta Thumberg e as greves pelo clima. Nesse contexto a Amazônia veio para o centro das preocupações mundiais.
    2. Agravou-se a crise financeira mundial iniciada em 2008: economia quase paralisada, até mesmo na China. Aumenta a probabilidade de guerras do mundo (Hoje são 30, além de 18 pontos de tensão). Despesas com armamentos crescem. A Amazônia aparece aos olhos do mercado como válvula de escape, pela privatização e mercantilização de seus bens-comuns.
    3. O governo Bolsonaro está perdendo força: sua submissão às empresas petroleiras (leilão das reservas de petróleo, e não do petróleo) e à política externa de D. Trump não é recompensada pelos EUA. A qualidade do ministério e do primeiro escalão do governo é muito pior do que podíamos imaginar há um ano. Mas a política ultraliberal de P. Guedes agrada aos 20.000 muito ricos, e ele será apoiado enquanto promover as privatizações e garantir a livre dominação do capital sobre os trabalhadores e trabalhadoras. Além disso, a retirada da proteção ao meio-ambiente, aos povos indígenas e às populações tradicionais, agrada ao agronegócio e às grandes mineradoras. Enfim, os privilégios concedidos aos setores militar e policial asseguram seu apoio ao governo sempre que apelar para a repressão. Provavelmente Bolsonaro será descartado quando P. Guedes terminar seu serviço, mas Mourão dará apenas um pouco mais de seriedade ao governo.

    Ou seja, temos pela frente um cenário que já foi definido como de necropolítica: a morte como objetivo político (sucesso do filme Bacurau). A aprovação da nova lei da Previdência foi a mais recente medida para provocar a morte das pessoas vulneráveis, em benefício dos fundos de pensão. A curto prazo, está a liberação de venenos e o corte de verbas para o SUS.

    Novidades a favor da vida

    1. Sínodo da Amazônia: com grande apoio da população mais consciente, embora provocando divisão na Igreja e dando pretexto para aumentar a violência simbólica contra Francisco, o Sínodo é um sinal visível da Igreja em saída. A Igreja sai dos templos, sacristias e salões paroquiais, em direção ao povo que sofre, seja católico ou não, e ao cuidado da Casa Comum. Importante notar que esse movimento não tem volta: quem experimenta o seguimento de Jesus como cuidado com seus preferidos – os e as empobrecidas – descobre a melhor forma de espiritualidade do cristianismo, porque descobre a Salvação como Boa-Notícia a quem está ameaçado de morte ou de destruição. “Queremos terra na Terra, já temos terra no Céu”, dizia Pedro Casaldáliga. É ressurreição também da religião e da nossa Igreja, que está adoecida porque não toma sol, está sem luz, paralisada em seus rituais repetitivos como se nosso Deus fosse um ídolo sem vida.
    2. O levante da juventude no Chile é a grande surpresa. Modelo de sociedade de mercado livre de intervenções do Estado (P. Guedes fez parte da equipe que traçou o projeto, aplicado pelo regime de Pinochet), governada por um empresário milionário, o Chile de repente explode em revolta de adolescentes e jovens contra o aumento de 30 centavos no metrô. A repressão atiçou o fogo da revolta. “Não são 30 centavos. São 30 anos”. Apesar do severo toque de recolher, quase 20 mortes, muitas denúncias de estupros e torturas, o povo está nas ruas. E só aceita o diálogo político depois do fim do toque de recolher. O Chile buscará, pelo diálogo, atacar a causa real de sua revolta: a pobreza da multidão devido à concentração da riqueza de algumas poucas famílias. Esse processo poderá ser uma luz para todos os Povos.

    Questionamento que o Chile nos faz

    A pergunta que não se cala é: por que não há revolta no Brasil? A desigualdade aqui é maior do que no Chile, e será agravada com o passar do tempo, pois as medidas protetoras dos governos Lula e Dilma foram desidratadas e as medidas ultraliberais já mostram seus efeitos nefastos: aumenta o número de bilionários enquanto o desemprego se alastra, principalmente entre a juventude. Será que precisaremos de vinte anos para entender que o mercado liberado de regulação só serve para concentrar a riqueza nas mãos de pouca gente? Se for preciso todo esse tempo, será tarde demais… A catástrofe climático-ambiental destruirá a economia de mercado antes que ela seja posta sob controle da sociedade, como quer a “Nova Economia” que Francisco propõe ser estudada em março de 2020, em Assis.

    Enquanto isso a grande maioria da Humanidade vive em tempos de escuridão – como no Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago – e não percebe que caminha para se matar uns aos outros. No caso, trata-se dos olhos impedidos de enxergar por efeito do deslumbramento: excesso de luminosidade emitida pelas mídias – tradicional e eletrônica – onde o mundo virtual encobre o mundo real e sua dureza. Esses potentes holofotes midiáticos, porém, tendem a perder o brilho, revelando-se assim a escuridão da noite que estamos a atravessar. Quando chegar essa hora, o mundo será iluminado por humildes lamparinas, desde que se mantenham acessas e se juntem. O cristianismo pode alimentar essas lamparinas pela Fé na Ressurreição, pelo Cuidado amoroso com a Terra e sua comunidade de vida, e pela Esperança da Sociedade do Bem-Viver. Outras espiritualidades ou correntes de pensamento deverão trazer outras contribuições de modo que, juntas, essas humildes lamparinas formem um novo e potente farol para a Humanidade reconciliada consigo mesma e com a Terra.

     

  • “Se não fizermos, ninguém vai fazer por nós”, diz padre que comanda mutirão em praias de Pernambuco

    Comunidade de Tamandaré limpa sua área

    No Espírito do Sínodo para Amazônia, padre Arlindo e a comunidade local se mobilizaram. Igreja em Saída, que pede o papa Francisco, é isso. Criar o espírito de comunidade que cuida das  pessoas, da terra, das águas e forma comunhão. 

    Enquanto o governo biroliro, inerte e abobado, busca culpar a Venezuela ou o Greenpeace pelo imenso desastre ambiental causado por óleo no litoral do Nordeste, a população age.

    Enquanto o Ministério Público Federal toma medidas burocráticas como entrar com uma ação contra a União por omissão e nenhuma autoridade se dispõe a sujar as barras das calças, o povo limpa as praias em mutirões voluntários.

    Só na Bahia já foram retiradas mais de 155 toneladas de óleo das areias.

    Em Pernambuco, o padre Arlindo Laurindo de Matos Júnior, da paróquia de São Pedro, tem sido um dos mais atuantes ao convocar populares e transmitir entusiasmo para o sucesso da empreitada.
    Ele conversou com o DCM.

    DCM: Como está a situação em Tamandaré? Qual foi a extensão do estrago?

    Padre Arlindo: Tamandaré tem 16 km de praias. Na praia dos Carneiros e na Boca da Barra é que o óleo chegou em maior quantidade. O centro de Tamandaré, até agora, está limpo.

    Tecnicamente não sei qual o impacto teve. Só sei que conseguimos evitar que chegasse no rio Ariquindá, mas no outro rio sujou um pouco.

    Qual foi sua reação ao ver a poluição?

    Chegou muito rápido. Quando começamos a nos comunicar pelos grupos de whatsapp sobre as notícias, no outro dia de manhã a praia já tinha sido atingida.

    Calcei uma luva e comecei a limpar. O óleo misturado com areia tem uma consistência que facilita manusear. Daí pescadores e outras pessoas da comunidade foram se juntando.

    Quando vimos a extensão daquilo parecia ser uma tarefa impossível. Mas conforme a comunidade foi chegando e trabalhando, em um dia já deu para ver que progredíamos.

    Que avaliação o senhor faz da atuação das autoridades? Recebeu ajuda?

    Depois de dois dias chegou a Marinha. Vi três marinheiros olhando, filmando. Perguntei se iriam ajudar, disseram que não estavam com equipamento de proteção correto, que teriam que esperar.

    Então a sensação é de abandono por parte do governo federal.

    Há ONGs presentes?

    Não. A única coisa que teve foi uma afilhada minha da Universidade Rural que veio com 40 alunos da faculdade.

    E para onde está sendo enviado o óleo recolhido?

    Não sei dizer o que será feito com ele, nós acumulamos tudo num canto da praia em sacos plásticos.

    O contato com o óleo traz perigo para a saúde…

    Temos que colocar a mão na massa, não tem outro jeito. Talvez seja perigoso, mas estamos tomando o maior cuidado que podemos porque se não fizermos, ninguém vai fazer por nós.

    Se não tem luva, a gente pega com saco plástico. Ficar esperando não dá.

    Estou muito feliz com a ação da comunidade, mas muito triste com o que aconteceu e com a falta de informação. As pessoas estão preocupadas se vai chegar mais manchas de óleo. Há um sentimento de angústia, pessimismo e tristeza e isso é tão tóxico quanto o óleo.

    O turismo já sente prejuízos?

    Não sabemos ainda o impacto. O pessoal da hotelaria está muito preocupado, principalmente pela falta de informações sobre os riscos.

    Qual o sentimento frente a esse descaso?

    Se a comunidade não tivesse se mobilizado teria sido muito pior. O povo nordestino está demonstrando para o país o quanto pode fazer. Estamos tirando a sujeira no braço.

    Queria ver as autoridades monitorando e coletando material para analisar, mas até agora nada. Só vimos promessas e nada acontecer.

    Serviu para mostrar a solidariedade e força da comunidade. Então aqui está tudo bem, estou com fome e ainda vou celebrar mais missa hoje. E se sujar, a gente limpa de novo.

  • As trevas do pensamento econômico

    Na realidade a “Escola de Chicago” é uma ideologia e não uma teoria econômica, sua aceitação depende de fé. Tem a pretensão de ciência, sem ser. Artigo de André Motta Araújo, para o GGN.

    Charge Latuff

    Ascensão e queda da Escola de Chicago

    Por André Motta Araújo

    Eles são as trevas do pensamento econômico”, Paul Krugman.

    “Chicago economics” ou Escola de Economia da Universidade de Chicago é uma linha de pensamento econômico que acredita que os mercados são resultado da “competição perfeita” e, portanto, é o “mercado” deixado operar livremente o melhor modelo de gestão da economia em qualquer lugar. Acreditam também no rígido controle da moeda, quanto menos moeda em circulação melhor será para o funcionamento da economia. Mercados livres e moeda escassa são os mandamentos da Escola de Chicago, o resto se encaixa como consequência.

    A História econômica se encarregou de derrubar essa ficção que é obra de fé, mas os adoradores desse modelo insistem em considerá-lo sagrado, não importa em que lugar, país, região, sob que condições ou estágio, como se o modelo fosse algo cientifico, da física.

    Na realidade a “Escola de Chicago” é uma ideologia e não uma teoria econômica, sua aceitação depende de fé tal qual o marxismo, ambos apresentam a mesma pretensão de ciência, sem ser.

    O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, da Universidade de Princeton, é um dos maiores críticos atuais do “Chicago economics”, a quem denominou de “Era das Trevas” do pensamento econômico.

    Nos próprios Estados Unidos a Escola de Chicago nunca foi uma unanimidade, as escolas de economia da Costa Leste como Harvard, MIT, Columbia, Yale, Princeton tem visão e angulações bem diferenciadas de Chicago, sem falar na New School de Nova York, que é a antítese de Chicago. Hoje, o Institute of New Economic Thinking de Nova York, onde estão Paul Krugman e Joseph Stiglitz, contestam frontalmente toda a filosofia de Chicago.

    Os “new keyneisians”, corrente moderna de seguidores da visão de Lord Keynes, em economia, abominam os pressupostos da Escola de Chicago. Na Universidade da Califórnia em Berkeley, Brad DeLong, diz que a escola de Chicago chegou a um colapso intelectual, significando que parou no tempo e nada mais tem a contribuir no pensamento econômico.

    O que restou de crença na Escola de Chicago desabou por completo na crise financeira de 2008, quando o capitalismo americano do “mercado perfeito” ruiu e implodiu, sendo salvo nada mais, nada menos pelo execrado ESTADO. O Tesouro dos EUA despejou US$ 708 bilhões em dinheiro público para salvar o coração desse capitalismo, tanto financeiro, quanto industrial. Salvou o CITIGROUP, a seguradora AIG, maior do mundo, e a GENERAL MOTORS, maior empresa industrial dos EUA e mais outra 200 empresas e bancos.

    Foi a segunda vez que o ESTADO salvou a economia americana. A primeira foi em 1933 quando a Reconstruction Finance Corporation, estatal criada por Roosevelt, emprestou dinheiro para resgatar 8.000 bancos e empresas na esteira da Grande Depressão, quando o “crash” da Bolsa de Nova York quase liquidou para sempre a economia americana e mundial.

    Em 1929 e 2008 o ESTADO mostrou que é infinitamente maior como instrumento da economia do que o “mercado perfeito”, mas nem isso mudou as mentes dos fanáticos de Chicago.

    Financiado desde seu início pelo magnata do petróleo John Rockefeller, em torno de 1890, a escola de economia da Universidade de Chicago tem longa história baseada em dois eixos: a competição perfeita que vem dos mercados livres do Estado e o rígido controle do fluxo de moeda, teoria que teve duas fases. A primeira, de Irving Fisher, desaparecida com a crise de 29, quando Fisher, um economista de reputação nacional disse em entrevista que a “economia americana nunca esteve tão sólida”, isso duas semanas antes da implosão da Bolsa em 24 de outubro de 1929. Com essa profecia furada foi-se embora também o monetarismo de Fisher que renasceu nos anos 60 com Milton Friedman, nova onda nascida nos cofres do CITIBANK, que financiou as palestras e a revista de Friedman, história que descrevo com detalhes em vários capítulos de meu livro de 2005, MOEDA E PROSPERIDADE, edição Top Books, 900 paginas, hoje esgotado, é um romance, como se constrói uma teoria econômica de interesses.

    No livro de Lanny Eberstein, uma monografia sobre a Escola de Chicago, de 2015, ele destaca um fenômeno muito perceptível, a “apropriação” que economistas medíocres formados em Chicago fazem de seu credo que NÃO é exatamente o neoliberalismo político que se prega em alguns países. Friedman, por exemplo, inventou o conceito de “bolsa família”, ele achava que os muito pobres tinham sim que ser amparados pelo Estado, algo que os seguidores preferem esquecer. No livro, Eberstein fala das preocupações sociais de Friedman e Hayek, esquecidas pelos seus seguidores, que selecionam na teoria o que lhes interessa.

    O fato é que a “escola de Chicago” criou uma visão de economia para o mundo anglo-americano, inaplicável para países de estrutura econômica onde o Estado historicamente tem um papel muito maior do que na Inglaterra e Estados Unidos. Países de raiz mercantilista, como França e Alemanha e mais ainda países com outras culturas econômicas como Rússia, Índia e China. A loucura é pretender, como alguns sectários, aplicar o “Chicagonomics” em países de outra tradição, sociedade e formação, como o Brasil, onde desde o nascimento do País, o Estado tem um papel central na economia, que nunca teve na Inglaterra ou nos EUA.

    Mas mesmo no seu berço de origem, o modelo de Chicago já foi sepultado. No último enterro o coveiro foi o banco Lehman Brothers. O estranho é que, com todos esses resultados à vista de qualquer indivíduo de mediana inteligência, ainda há fanáticos da privatização e da moeda escassa, mesmo depois de tantos desmontes desse modelo fracassado. Como muito bem expõe o livro de Eberstein, o “quantitative easing” acabou com o monetarismo na Europa e nos EUA, ele sobrevive apenas no Banco Central do Brasil, tão atual como Templo Positivista de São Lourenço, em Minas Gerais, onde a filosofia Positivista desaparecida da França há cem anos ainda é cultivada com carinho. Os saudosos do monetarismo de Friedman são convidados a visitar o museu do Banco Central em Brasília, onde se lembrarão do mestre e reverenciarão o único lugar do mundo onde se pratica o culto à moeda escassa como religião.

    Os visitantes aproveitarão a viagem para conhecer o país do mundo onde se pratica o “monetarismo” religioso de Friedman, sob a regência do Banco Central. É isso que garante aos bancos brasileiros o maior lucro do planeta sobre ativos, graças exatamente à escassez de moeda que, ao mesmo tempo, garante os lucros extraordinários do sistema financeiro e proporciona uma recessão que dura quatro anos e uma monumental taxa de desocupação de um terço da população economicamente ativa, maior índice desde a Grande Depressão de 1929 na Europa e os EUA. No Brasil, a Grande Depressão mundial provocou muito menos desemprego do que a recessão de 2014, sob a regência de Joaquim Levy.

    Desocupação, desemprego e recessão não preocupam minimamente os seguidores de Chicago nos Estados Unidos e muito menos no Brasil. Esses fenômenos nem fazem parte de seus manuais. Milton Friedman teria mais sensibilidade do que seus alunos, era um monetarista com algumas preocupações sociais, de visão mais ampla que seus seguidores e com a capacidade da verdadeira inteligência, a de reconhecer erros e voltar atrás, fez isso no fim da vida em conversas com Alan Greenspan, seu amigo mas adversário intelectual.

    Como é comum em tantas filosofias, ideologias, religiões, crenças e teorias, os seguidores fora de seu berço são mais fanáticos e radicais, enquanto no ninho original a crença morre ou se recicla, na sua projeção para fora a seita se estratifica, se mumifica no túmulo do fracasso.

    Hoje nos EUA, até na própria Universidade de Chicago, os preceitos do “Chicagonomics” têm menor fidelidade. O legado de Friedman foi desmoralizado pela crise de 2008 e se mudou para a Universidade Carnegie Mellon de Pittsburgh, onde seu herdeiro intelectual Alan Meltzler, falecido no ano passado, lecionava. Agora o Brasil pode ser a nova rampa de re-relançamento do “Chicagonomics” embalsamado, o único dos grandes países emergentes outrora conhecidos como BRICS onde essa seita pode caminhar fora do merecido túmulo, enquanto Rússia, Índia e China crescem longe de teorias anglo-americanas e praticando o dia a dia da politica econômica de circunstância, sem metas de inflação, privatizações, preocupação com dívida em moeda nacional e com bancos centrais a serviço do crescimento e não da estagnação. O Brasil sai dos BRICS e vira área de serviço de Washington, é a História.

    Chicago Boys por GGN

     

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