Artigo

  • NENHUM BISPO SERÁ IMPOSTO?
    Por Jorge Alexandre Alves

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    O Brasil é o país com o maior número de dioceses católicas no mundo. Geralmente as nomeações episcopais para as circunscrições eclesiásticas para o território nacional costumam sair às quartas-feiras. Nessa semana, por exemplo, o Vaticano acaba de anunciar nomeações para duas igrejas particulares do país.

    Uma delas muito importante porque é a capital da República. Nesse caso particular algo muito fora da curva ocorreu. Primeiro, o anúncio foi “vazado” por site jornalístico de teor conservador. O site informava que o prelado havia se envolvido em uma polêmica envolvendo racismo religioso.

    Segundo, um documento datado do começo do mês, com carimbo de segredo pontifício da Nunciatura Apostólica, onde se anunciava o nome do novo arcebispo circulou por vários grupos de aplicativo de mensagens na véspera do anúncio oficial. Aliás, documentos pontifícios têm vazado com frequência aqui no Brasil. Aconteceu com a encíclica Fratelli Tutti. O que estará por detrás desses vazamentos?

    Independente de polêmicas e vazamentos, cabe uma pergunta de maior valor para o Povo de Deus: Como se escolhem os bispos? Fato é que a maioria dos católicos desconhece que elementos são levados em conta nessa temática. É muito difícil saber de véspera quem será o novo titular (ou mesmo um auxiliar) de uma diocese.

    O processo de nomeação episcopal é algo secretíssimo, mesmo com todo o aparato midiático que dispomos hoje – o vazamento público da semana é um evento excepcionalíssimo. Apesar disso, as formalidades que envolvem a escolha de candidatos ao grau mais elevado do sacramento da Ordem estão previstas no Direito Canônico. Mas o “xis” da questão reside nas informalidades e subjetividades que determinam tais escolhas.

    O que sabemos é que a Nunciatura Apostólica sugere nomes para a Sagrada Congregação para os Bispos. Esse dicastério prepara relatórios e envia uma lista tríplice ao Papa feita pela diplomacia papal. Por sua vez, o Bispo de Roma escolhe o nome.

    Acontece que a Igreja é uma instituição universal, presente em todo o globo terrestre. Em 2015 existiam mais de duas mil dioceses em todo o mundo. Se Francisco fosse cuidar da escolha de cada bispo diocesano e dos prelados auxiliares das maiores (arqui) dioceses, talvez nem sobrasse tempo para conduzir a Igreja e exercer seu magistério.

    Na prática, deve ser a máquina vaticana quem se encarrega das nomeações no dia a dia. Todos os anos, pelo menos 15 bispos são nomeados na igreja do Brasil. O que nos dá uma ideia do que acontece em escala global. E da impossibilidade do Papa em pessoa acompanhar a escolha de todos os novos bispos.

    Isso significa que o Papa se omite nessa importante questão? Não, porque o Sumo Pontífice ratifica o trabalho feito pela Congregação dos Bispos e é quem traça um perfil de bispo a ser nomeado. Francisco já afirmou que o bispo deve ter o “cheiro das ovelhas”. Também se espera que os “candidatos” preencham requisitos que envolvem experiência pastoral, funções de liderança/coordenação e formação acadêmica no campo da Teologia.

    Evidentemente, em algumas escolhas episcopais se percebe a marca pessoal do Bispo de Roma.  Foi o que aconteceu em algumas nomeações nos Estados Unidos, na arquidiocese da Cidade do México e, sensivelmente, na arquidiocese de Bolonha (Itália). Mas também em Buenos Aires, por óbvias razões e, de forma espetacular, na arquidiocese de Lima, no Peru.

    Sabe-se hoje que, nos tempos de João Paulo II e de Bento XVI, por melhor que fosse sua formação teológica, padres vinculados à Teologia da Libertação eram preteridos para receber a mitra e o báculo. Também não eram bem vistos aqueles que defendessem a ordenação de homens casados. Quem questionasse publicamente a encíclica Humanae Vitae (Paulo VI) também veria suas chances serem reduzidas ao passar pelo crivo da Nunciatura Apostólica. Atualmente, dadas as declarações e as propostas de Francisco, pode-se dizer que o Papa tem outros critérios.

    A questão é saber se os protocolos de escolha de candidatos ao episcopado foram atualizados pelos curiais do Vaticano, estando em sintonia de fato com a orientação pastoral imprimida pelo Bispo de Romano. O fato de as escolhas dos bispos serem mantidas em segredo pontifício impede que se debata mais abertamente essa questão no seio da Igreja. Assim, fica-se muito nas “conversas de sacristia”, discute-se veladamente muito mais nomes do que perfis que seriam importantes para uma dada realidade diocesana.

    Entretanto, trata-se de complexa e delicada questão.  O segredo pontifício nos processos de nomeação episcopal é uma forma preventiva de a Igreja sustar ingerências do poder civil. No passado alguns Estados Nacionais, certos governantes ou nobres mantinham acordos (chamados de concordatas) com a Santa Sé, que lhe outorgavam o poder de indicar candidatos e de vetar nomes ao episcopado. Isso aconteceu no Brasil durante o Império.

    Imaginem se o atual governo brasileiro tivesse poder parecido nos dias atuais? Ou um governador de estado? Pensem no que poderia ocorrer nas dioceses da Amazônia ou em lugares estratégicos como São Paulo e Rio de Janeiro… Certamente a liberdade da Igreja estaria seriamente comprometida.

    Por outro lado, isso não impede necessariamente que se proteja a instituição eclesial e seus fiéis de ingerências políticas. Ao contrário, se elas ocorrerem discretamente, quase ninguém fica sabendo. Além disso, questões pastorais importantes ficam interditadas, situações escandalosas não são discutidas abertamente pelo Povo de Deus. Será uma maneira de infantilizar o laicato?

    Nas últimas décadas do século XX, muitas dioceses receberam novos bispos sem nenhuma identificação com a caminhada pastoral até então realizada naquela sede episcopal. A sucessão de Dom Helder Câmara na Arquidiocese de Olinda e Recife foi emblemática nesse sentido. Da mesma forma, situações controversas foram “varridas para debaixo do tapete” sem que as mudanças necessárias tenham ocorrido.

    Muitas vezes, não há nitidez na forma pela qual as nunciaturas chegam a uma relação de candidatos ao episcopado. O padre Jose Oscar Beozzo (1994) apontava que, naquele tempo, províncias eclesiásticas e “regionais da CNBB, como o do Ceará, desistiram inteiramente dessa tarefa, pois os nomes aprovados pelos bispos e apresentados à Nunciatura nunca foram levados em conta” (BEOZZO, 1994, p. 280). Estávamos no contexto da restauração conservadora imposta à Igreja do Brasil. Mas em tempos de Francisco, como isso funciona?

    No passado, a nomeação dos bispos foi um efetivo instrumento de enquadramento da CNBB, freando as opções teológico-pastorais feitas por significativa parcela do catolicismo brasileiro. Hoje, quando temos um Papa que propõe caminhos distintos de seus antecessores, a escolha de candidatos ao episcopado reflete os ventos da mudança que Francisco representa ou é um bastião de resistência dos opositores do Pontífice? Uma análise do perfil das recentes nomeações episcopais em alguns regionais pode ser muito elucidativa nesse sentido…

    O código de direito canônico prescreve algumas normativas para a escolha de candidatos ao episcopado: que as conferências episcopais ou bispos das províncias eclesiásticas elaborem uma lista de possíveis candidatos a cada três anos pelo menos, e a encaminhe a Santa Sé, e que cada bispo possa pessoalmente indicar os nomes daqueles que considerem aptos ao ministério episcopal (Cân. 377). Mas cabe ao Núncio Apostólico elaborar a chamada terna (lista tríplice), promovendo consultas.

    Segundo consta, podem ser consultados alguns membros do clero secular. Religiosos podem ser ouvidos, se o candidato pertencer a uma congregação. Leigos? Canonicamente apenas aqueles notáveis por sua sabedoria podem ser escutados. Tudo secretamente.

    Mas aqui pairam importantes questões: Quem define quem são os leigos “notavelmente sábios”? Por que as religiosas não são mencionadas no Direito Canônico? Tal processo não deveria ser mais pastoral e “menos canônico”? A ausência de respostas confirma o que escreveu padre Beozzo, quando afirmou que a Santa Sé atua no sentido “alienar totalmente as Igrejas particulares do direito de fazerem ouvir sua voz” (BEOZZO, 1994, p. 280).

    Em tempos de Vaticano II, com toda uma eclesiologia baseada na colegialidade e na coparticipação dos leigos, em que se reconhece que a Igreja não é somente a hierarquia, mas o Povo de Deus, ainda cabe tanto segredo? A escolha dos bispos não poderia ser mais transparente e mais inclusiva? O teólogo espanhol González Faus (1996) demonstra como era diferente o processo de seleção dos candidatos ao ministério episcopal nos primeiros séculos do cristianismo, com relativa participação do Povo de Deus, com candidatos locais.

    Ao longo da história da Igreja, tivemos cada vez maior concentração do poder eclesiástico e um ministério papal que assumiu para si a seleção de membros do episcopado. Faus (1996) argumenta que isso originalmente não fazia parte das prerrogativas do ministério petrino. Não por acaso o nome do livro em que o teólogo espanhol trata do tema é uma famosa frase de São Celestino, Papa do Século V: “Nenhum bispo será imposto”. Dessa forma, não faria parte de um projeto de “Igreja em saída” modificar a forma como são eleitos os bispos?

    Pouco tempo atrás, o Papa Francisco instaurou um procedimento experimental na escolha do Vigário da Diocese de Roma (trata-se do bispo que comanda a diocese romana em nome do Pontífice). Segundo o jornalista Andrea Tornielli (2017), Francisco promoveu uma consulta que envolveu as paróquias da Cidade Eterna e de Óstia. Como resposta, recebeu mais de 400 cartas com sugestões nomes e indicando as necessidades diocesanas.

    Bergoglio respeitou a consulta e fez o bispo-auxiliar Angelo de Donatis seu Cardeal-Vigário. Menos de dois anos antes, Donatis era um simples pároco. Essa forma de proceder não deveria ser um protocolo válido para toda a Igreja?

    *Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Atua no Movimento Fé e Política.

     

    REFERÊNCIAS:

    BEOZZO, José Oscar. Indícios de uma reação conservadora – Do Concílio Vaticano II à eleição de João Paulo II. Comunicações do ISER. Rio de Janeiro, ano 9, n. 39, p. 05-16. 1990.

    ________. A Igreja do Brasil: De João XXIII a João Paulo II – de Medellín a Santo Domingo. Petrópolis – RJ: Vozes, 1994.

    CÓDIGO de Direito Canônico. Promulgado por João Paulo II, Papa. Tradução Conferência Episcopal Portuguesa. Lisboa: Editorial Apostolado Da Oração, 1983. Disponível em http://www.vatican.va/archive/cod-iuris-canonici/portuguese/codex-iuris-canonici_po.pdf. Acesso em: 06 mai. 2020.

    GONZÁLEZ FAUS, José Ignácio. “Nenhum bispo imposto” (S. Celestino, Papa) – As eleições episcopais na história da Igreja. São Paulo: Paulus, 1996.

    MEDEIROS, Mirticeli. O pároco que pode virar papa. Dom Total, Belo Horizonte, 30 ago. 2019. Disponível em <https://domtotal.com/noticia/1384213/2019/08/o-paroco-que-pode-virar-papa/>. Acesso em: 06 mai. 2020.

    Papa lança consulta inédita para eleição do próximo vigário de Roma. O Globo, 13 mar. 2017. Disponível em <https://oglobo.globo.com/sociedade/papa-lanca-consulta-inedita-para-eleicao-do-proximo-vigario-de-roma-21052973>. Acesso em: 06 mai. 2020.

    TORNIELLI, Andrea. Há um ano e meio, novo vigário-geral do papa era pároco. La Stampa, 27 mai. 2017. Disponível versão traduzida em http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/568160-ha-um-ano-e-meio-novo-vigario-geral-do-papa-era-paroco. Acesso em: 06 mai. 2020.

  • O problema do Brasil é o Fascismo, não o Comunismo – Roberto Malvezzi (Gogó)

    Imagem de diariopopularmg

    É só chegar o período eleitoral para que grupos religiosos – e os manipuladores eleitorais da religião -, levantem a bandeira do pavor comunista. É uma receita de bolo que garante votos, por aterrorizar pessoas inocentes que nem sabem o que é comunismo.  Então, o slogan fascista “Deus, Pátria e Família” volta aos santinhos eleitorais.

    Essa retórica anticomunista na Igreja Católica é anterior ao Vaticano II. Foi por não inserir nos textos do Vaticano II a condenação explícita do comunismo que se formaram muitos grupos integristas no mundo e no Brasil. Nosso caso exemplar é a TFP. É que o Vaticano II optou pelo diálogo com a humanidade, em vez de insistir em condenações. Esse é um dos motivos para que a Igreja Pós-Vaticano II seja considerada herética por eles.

    Mas, o mesmo Papa XI que fez uma condenação explícita do Comunismo em 1937 (Divini Redemptoris), já o fizera do Fascismo Italiano em 1931 (Non abiammo bisogno) e do Nazismo (Mit Brennender Sorge), também em 1937, poucos dias antes da condenação ao comunismo. Só que as cartas condenatórias do Fascismo e do Nazismo nunca são divulgadas, mas somente aquela contra o Comunismo. Ainda mais, um cânon no Direito Canônico de 1917, que codificava essa condenação ao Comunismo, foi suprimido pelo cânon 6 do Código do Direito Canônico de 1983. Até mesmo o “Decretum Contra Communismum”, de Pio XII, de 1949, perdeu significado diante da postura dialogal da Igreja a partir do Vaticano II.

    Essa adesão ao Fascismo é uma opção com muitas conveniências. A ala carreirista do Clero sempre se deu bem com os fascistas. Assim foi na Itália com Mussolini, na Espanha com Franco, em Portugal com Salazar e no Brasil em tantos períodos, como no Regime Militar e agora com o Bolsonarismo. Não é possível saber se representam a maioria, mas esses padres, bispos e leigos existem em quantidade. Entretanto, o próprio Pio XI, tão exaltado pela ala anticomunista, já declarava em 1937: Quem quer que exalte a raça, ou o povo, ou o Estado, ou uma forma particular de Estado, ou os depositários do poder, ou qualquer outro valor fundamental da comunidade humana – por mais necessária e honrosa que seja sua função nas coisas mundanas – quem levanta essas noções acima de seu valor padrão e diviniza-os a um nível idólatra, distorce e perverte uma ordem do mundo planejada e criada por Deus; ele está longe da verdadeira fé em Deus e do conceito de vida que essa fé defende” (Mit brennender Sorge n.8).

    O Brasil de hoje tende para uma ditadura teocrática de neopentecostais católicos e evangélicos, de um Deus desumano e distante, de supremacistas brancos, de exaltação do Estado e de mitos ridículos, de eliminação dos povos indígenas e seus territórios, assim como de quilombolas e outras comunidades tradicionais, também de nossos biomas. O atual governo uberizou o trabalho, precarizou a saúde e assina a contaminação de quase 5 milhões de pessoas pelo Covid19 e mais de 140 mil óbitos.  Portanto, votar nessas eleições é prioritariamente votar contra vereadores e prefeitos de linha fascista e escolher candidatos que pensem na inclusão e na justiça.

    O Papa Francisco acaba de lançar a carta “Fratelli Tutti”, afirmando que somos todos irmãos nessa Casa Comum. O problema atual do Brasil é o Fascismo carregado de ódio, não o Comunismo. O futuro do país é uma imensa escuridão no fim do túnel.   Só a resistência ao Fascismo Brasileiro sinaliza a esperança.

    Artigo publicado originalmente no site do autor http://robertomalvezzi.com.br/ onde se pode acompanhar outras publicações.

  • Pedro A. Ribeiro de Oliveira: Economia de Francisco e Clara para quê?

    Surpreendeu-me a entrevista de Luigino Bruni, publicada na edição de 15/09/20 do IHU. Diretor científico do congresso que, a pedido de Francisco, deve pensar uma economia capaz de “garantir a justiça social, a correta redistribuição dos recursos e a compatibilidade com o meio ambiente”, ele assume como ponto pacífico que essa economia é o capitalismo, devidamente aprimorado pelo cristianismo. Simplificando, ele diz que o capitalismo produz e concentra riqueza, mas o capitalista cristão a redistribui. Ao deparar-me com um pensamento tão simplista, devo dizer que estou muito preocupado com os resultados desse congresso com tema tão auspicioso como é “Economia de Francisco (e Clara)”.

    A entrevista revela um pensamento eurocêntrico, que vê dois modelos de capitalistas: o protestante, que passa a vida acumulando até que ao final da vida faz grandes doações, e o capitalista católico, que redistribui sua riqueza ao mesmo tempo que ela é produzida. O exemplo deste último é idílico: “a paróquia leva à cooperativa, o partido político dá origem à empresa, ao banco rural (que às vezes é fundado inclusive pelo pároco). E é acima de tudo o capitalismo familiar (e, de fato, as empresas italianas são 80-90 por cento familiares).” Ele deveria visitar o Brasil, maior país católico do mundo, e conhecer os bancos e empresas que aqui operam e ver o que fazem com seus lucros…

    É preciso levar a sério o desafio do Papa Francisco, que embora evite falar a palavra “capitalismo” e suas derivadas, deixa bem claro que ao criticar essa economia que mata não se refere à Máfia, mas ao capitalismo em sua fase globalizada. Ele pede aos e às jovens que participarão do congresso que busquem alternativas que realmente superem o modo de produção e consumo capitalista. E isso por várias razões. Aponto duas: a primeira é porque nele a Terra entra apenas como uma reserva de matérias-primas a serem exploradas e transformadas em mercadorias. A segunda é porque o mercado é o espaço institucional da vitória do mais forte e competitivo sobre o mais fraco, e se não for submetido a um poder mais forte será sempre concentrador de riqueza e desigualdade social.

    Pelo que sei, no Brasil o congresso a realizar-se em Assis está sendo preparado de maneira bem mais crítica ao capitalismo e a suas megaempresas transnacionais. Os grupos já constituídos trabalham seriamente para recuperar o sentido próprio de economia como ciência e arte de cuidar da Terra – Nossa Casa Comum. Por isso mesmo aqui preferimos falar da Economia de Francisco e Clara, valorizando a dimensão feminina indispensável ao cuidado.

    As experiências brasileiras de economia solidária e de cooperativas de produção do MST, que asseguram os três “Ts” de Francisco – Terra, Teto e Trabalho para todos e todas – certamente serão mais valiosas para a busca de uma Economia de Francisco e Clara do que a proposta de capitalismo católico que subjaz na entrevista do diretor científico do congresso.

    Artigo publicado originalmente em IHU, 19/09/2020.

  • O que é o Tempo da Criação?

    Close-up young plant growing in the soil concept save nature or agriculture on soft green tree background.

    A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 28-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto para o IHU de 31 Agosto 2020.

    “Do que se trata?”, você pode estar se perguntando.

    Fique tranquilo, “a” pergunta desta semana encontra todas as suas respostas e antecedentes em um período eclesial que está se tornando mais proeminente para mais cristãos a cada ano e que cada vez mais inclui católicos.

    O que é o Tempo da Criação?
    O Tempo da Criação é uma observância orante de um mês que convoca os 2,2 bilhões de cristãos do planeta a rezarem e a cuidarem da criação de Deus. É um momento para refletir sobre a nossa relação com o ambiente – não apenas a natureza “distante”, mas, crucialmente, o lugar onde vivemos – e as formas pelas quais os nossos estilos de vida e decisões como sociedade podem colocar em perigo o mundo natural e aqueles que o habitam, tanto humanos quanto outras criaturas.

    O comitê ecumênico que planeja e promove esse período a cada ano o apresenta desta forma:

    “O Tempo da Criação é um período para renovar a nossa relação com o nosso Criador e com toda a criação por meio da celebração, da conversão e do compromisso juntos. Durante o Tempo da Criação, nos unimos às nossas irmãs e irmãos da família ecumênica em oração e ação pela nossa casa comum.”

    É um momento de oração, contemplação e, cada vez mais, um chamado à ação.

    O Tempo da Criação é apoiada por uma série de organizações cristãs importantes, incluindo o Conselho Mundial de Igrejas, a Christian Aid, a Federação Luterana Mundial, a Rede Ambiental da Comunhão Anglicana, o Movimento Católico Global pelo Clima e o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano. Todas elas fazem parte do comitê do Tempo da Criação.

    Quando é o Tempo da Criação?
    O Tempo da Criação abrange 34 dias.

    Ele começa no dia 1º de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e se conclui no dia 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia.

    Esse período está alinhado com a estação da colheita do outono [no hemisfério Norte] – uma época em que o estado da Terra pode estar na mente de muitas pessoas.

    Há quanto tempo ocorre o Tempo da Criação?

    Os cristãos ortodoxos celebram o Tempo da Criação há décadas. Ele começou em 1989, quando o Patriarca Ecumênico Dimitrios I proclamou o dia 1º de setembro como um dia de oração pelo ambiente. Na realidade, esse dia marca o início do ano da Igreja Ortodoxa Oriental.

    Naquela época, o foco no ambiente estava aumentando em todo o mundo. Dois anos antes, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento divulgou o seu relatório “Nosso Futuro Comum”, a partir do qual foi desenvolvida a “Carta da Terra” – uma declaração que delineia os princípios éticos para o desenvolvimento sustentável em todo o mundo.

    A carta foi o foco central da Cúpula da Terra de 1992 no Rio de Janeiro, que formou a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Em 2015, as negociações decorrentes desse processo deram origem ao Acordo de Paris, que traça um plano global para limitar o aumento das temperaturas do planeta.

    Ao longo do tempo, o dia de oração se expandiu para um período inteiro, e o Conselho Mundial de Igrejas desempenhou um papel de liderança. Uma das primeiras celebrações organizadas do Tempo da Criação foi realizada no ano 2000 em uma igreja luterana em Adelaide, Austrália. Em 2003, a Igreja Católica das Filipinas começou a pedir aos católicos que observassem o Tempo da Criação.

    Mais recentemente, o Tempo da Criação tornou-se uma celebração mais ecumênica entre todos os cristãos. E os últimos anos viram-no ganhar força entre os católicos. Para isso, você pode apontar para o Papa Francisco.

    Poucos meses depois de publicar sua encíclica Laudato si’  sobre o cuidado da nossa casa comum, em 2015, o Papa Francisco acrescentou formalmente o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação no calendário católico como um dia anual de oração. E, no ano passado, ele convidou oficialmente os católicos a celebrarem o período completo.

    “É hora de redescobrir a nossa vocação de filhos de Deus, de irmãos entre nós, de guardiões da criação. É tempo de se arrepender e de se converter, de voltar às raízes”, escreveu ele. “Somos as criaturas prediletas de Deus, que, na sua bondade, nos chama a amar a vida e a vivê-la em comunhão, conectados com a criação. Por isso, convido veementemente os fiéis a se dedicarem à oração neste tempo que, a partir de uma iniciativa oportunamente nascida em âmbito ecumênico, se configurou como Tempo da Criação.”

    É apenas um tempo de oração?
    A oração certamente é uma parte central disso.
    Nos últimos anos, os organizadores ecumênicos sugeriram temas como uma forma de unificar as celebrações entre as comunidades e de chamar a atenção para os desafios ecológicos que o mundo enfrenta. No ano passado, por exemplo, o Tempo da Criação colocou os holofotes sobre a biodiversidade, em um momento em que os cientistas previam taxas de extinção “sem precedentes”, que poderiam exterminar até 1 milhão de espécies nas próximas décadas.

    Neste ano, os organizadores sugeriram o tema Jubileu pela Terra: Novos Ritmos, Nova Esperança. Jubileu, em termos bíblicos, refere-se a um período de restauração a cada 50 anos, quando a terra descansa, e a justiça é restaurada. O tema, em parte, é uma referência à 50ª celebração do Dia da Terra, ocorrida em abril.

    O fato de a pandemia global do coronavírus ter ocorrido à medida que o planeta se aproxima de pontos de inflexão climática mostra como as realidades sociais, econômicas e ecológicas estão interconectadas, disse o comitê do Tempo da Criação ao explicar o tema.

    “Durante o período deste ano, entramos em um tempo de restauração e esperança, um jubileu para a nossa Terra, que requer formas radicalmente novas de viver com a criação”, disse o comitê, incluindo “a necessidade de sistemas justos e sustentáveis” para cuidar melhor das pessoas e do planeta.

    O Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano destacou o tema no início deste ano, ao anunciar uma celebração especial de um ano pelo quinto aniversário da Laudato si’. Ele expressou esperança de que a próxima década possa se tornar um “tempo de ‘Jubileu’ para a Terra”, alinhando-se com o prazo que os cientistas dizem ser crucial para reduzir quase pela metade as emissões globais de gases do efeito estufa e colocar o planeta dentro do limite do aumento da temperatura média em 1,5ºC.

    Como as pessoas podem observar o Tempo da Criação?

    Os exemplos são incontáveis.
    Ritos especiais de oração e liturgias que refletem sobre a sacralidade da criação e gestos concretos de defesa ou de restauração do meio ambiente.

  • Alguns sinais de esperança – por Roberto Malvezzi (Gogó)

    Amanhã será outro dia!   Foto: publicada por br.pinterest.com/pin

    Mergulhados na avalanche de negatividades desse governo, talvez fique difícil imaginar que nossas resistências estão gerando importantíssimas vitórias do povo brasileiro contra tempos que poderiam ser ainda piores. Não se trata de falsos consolos, nem de suscitar falsas esperanças, mas de resistências importantes que podem nos animar a continuar nesse processo de resistir para existir. Não se trata de questões eleitorais, mas quem sabe, de uma nova cultura política, social e cultural nesse país.

    Primeiro, esse governo tinha um propósito de campanha absolutamente sanguinário. O atual presidente falava em matar pelo menos umas 30 mil pessoas para que o Brasil pudesse entrar nos moldes que ele e seus sequazes imaginam o ideal para o país e nosso povo. Alguns dirão que era uma retórica de campanha, na minha opinião era intenção real. Embora já tenham morrido mais de 120 mil pelo Covid-19, não era essa a proposta original. Naquele momento falava em metralhar petralhas, lideranças de esquerda, comunistas, sem falar nos negros, índios, pobres, presidiários e “bandido bom como bandido morto”. O barro foi jogado na parede, não colou, a liberdade de matar concedida aos policiais não foi realizada totalmente, o STF proibiu a entrada da polícia nas favelas em tempos de pandemia e as mortes por policiais nesses espaços caíram 76%. Por outro lado, aumentaram em 11,5% as mortes de negros por homicídio e diminuíram em 12,9% as mortes de brancos nos últimos dez anos. Racismo explícito até nos óbitos.

    Não conseguiu implantar a ditadura militar. O elogio a tantos ditadores e torturadores também era barro jogado na parede. Muita gente foi às ruas para pedir a ditadura com Bolsonaro no poder, mas suprimindo o STF e o Congresso. Uma pesquisa do DataFolha mostrou que cerca de 80% dos brasileiros não queriam a ditadura de volta. O STF reagiu – embora só quando a ameaça chegou aos ministros e seus familiares -, a mídia burguesa também recusou, o Congresso também recusou, lideranças da extrema direita foram presas, contas nas mídias sociais desativadas e acampamentos desmontados. Enfim, foi demonstrado a Bolsonaro e aos militares que mais uma de suas ditaduras não teria sustentação popular. Eles, ao menos por agora, silenciaram. Vivemos uma democracia de baixíssima intensidade, sem substância social, econômica e ambiental, mas mantivemos as formalidades das instituições.

    Não conseguiu implantar o AI-5. O propósito era claro. Mas foi rejeitado inclusive pelos meios burgueses. Com as exceções jurídicas perigosas desse ato, nem juízes, mídia, empresários, deputados, senadores etc., estariam mais seguros do ponto de vista de seus direitos individuais. Então, parece que o Brasil aprendeu que as exceções jurídicas do AI-5, mesmo apoiado por vários generais, inclusive o General Heleno, seriam nefastas para a sociedade brasileira.

    Enfim, ainda conseguimos constitucionalizar o FUNDEB, importante para o futuro educativo do Brasil. A pandemia exigiu um auxílio emergencial de R$ 600, importantíssimo para a população sem nenhuma renda. Quem sabe se consiga transformá-lo numa renda mínima permanente, embora aí o mercado já mostre as garras de seus interesses. Não será fácil, mas quem sabe um avanço.

    Enfim, perdemos muito na saúde pública, na educação, nos investimentos, em termos ambientais, na economia (o PIB voltou ao patamar de 2012), sobretudo, perdemos e vamos continuar perdendo milhares de vidas para o Covid.

    Perdemos muito também em termos de vergonha na cara, tanta hipocrisia religiosa, falsos moralistas da família, pastor@s católicos e evangélicos mercenários, sepulcros caiados na luta contra a corrupção, mas que também estão sendo desmascarados por suas próprias falcatruas, inclusive o que aconteceu na Lava-Jato com os hipócritas da toga. Então, o que era uma perda de dignidade do país, pode se transformar em um enorme ganho com o passar do tempo.

    Outro sinal importante é a emergência das vozes pretas e índias nesse momento da história do Brasil, particularmente as femininas. Enfim, essas etnias vão se impondo como parte constitutiva da sociedade brasileira, mesmo em tempos de discriminação sórdida por parte das políticas oficiais.

    Outros se lembrarão de vitórias ou sinais importantes que eu não lembrei ou citei.

    Sim, estamos mal, mas o pior dos piores até agora conseguimos evitar. Nessa tremenda noite escura qualquer fósforo aceso é uma luz.

  • É de outra Igreja que precisamos

    O caso envolvendo irregularidades com o padre Robson do Santuário do Pai Eterno em Goiânia, está em investigação, tomara que não passe de um engano, mas a validade do artigo do Pe. Manoel Joaquim não depende da culpa ou inocência do Pe, Robson. Este artigo poderia já ter sido escrito há muito tempo e não mudaria o sentido de sua preocupação (Olimpio de Souza, no facebook).
    Veja a seguir artigo de Pe Manuel Joaquim R. dos Santos,de Londrina PR

    Jornal Opção: Goiás terá uma das maiores basílicas do Brasil

    “É de outra Igreja que precisamos”
    Pe Manuel Joaquim R. dos Santos (presbítero de Londrina PR)

    O caso envolvendo irregularidades com o padre Robson do Santuário do Pai Eterno em Goiânia, nos leva a necessárias e sérias reflexões. Há anos atrás eu escrevi um artigo mordaz, discorrendo sobre o que chamava genericamente de “padres cantores”. Outros preferem o termo influencer, mas dá no mesmo.

    Nos anos noventa, uma estratégia clara da Igreja católica, foi o enfrentamento das Igrejas pentecostais visando concretamente a evasão dos católicos com esse destino. Foi o momento da explosão das mídias católicas – Canção Nova, Século XXI, Rede Vida etc. Todas obedecendo à mesma linha influente da RCC, em tese, a que melhor proporcionaria uma comunicação perfeita a esse objetivo primeiro. Numa linguagem do chamado catolicismo explícito, ou comunicação explicitamente religiosa, esses Meios entravam na casa dos brasileiros, cumprindo um papel, que segundo se dizia, não era mais atingido pelas paróquias e antigas estruturas. Com isso, os lares católicos brasileiros passaram a ter um canal “católico” em suas casas, dando catequese, ditando a moral, formando opinião e em alguns casos, em rota de colisão com a Igreja ou com vários párocos. Mas o pior! Geralmente esses programas criaram locais específicos de grandes peregrinações, que se transformaram numa espécie de super paróquia. Católicos geralmente quase nada envolvidos em atividades eclesiais e descompromissados com a Comunidade de origem, faziam peregrinações sistemáticas e mobilizavam outros, até esses points da fé! Por sua vez, padres midiáticos cada vez mais aperfeiçoados no metier, recorrendo a modelos nada convencionais (cowboy – country, show man etc.), abusando de batinas e clergyman, iam se impondo no imaginário popular como super heróis do catolicismo moderno a atual. Paradoxalmente, mal sabiam os idosos e espectadores, que de moderno e atual essa gente não tem quase nada. O conteúdo desses shows da fé, abusando de devocionismos e sacramentários (no pior sentido do termo), arrasavam com a caminhada histórica da Igreja brasileira e resgatavam modos populares, em nada condizentes com uma boa e necessária evangelização. Que a devoção seja positiva e uma boa plataforma para voos mais altos em termos de compromisso com o Reino de Deus, é pacífico e defendido em inúmeros documentos do Magistério. Porém, o devocionismo provocado e alimentado por esses Meios de Comunicação Católicos empoderando padres recém ordenados, não é adequado ao objetivo que a Igreja Católica tem se proposto em seus Planos de Evangelização dos últimos anos.

    Concomitantemente, este modelo envolve altos recursos financeiros. Uma família católica média pode receber em sua casa de dois a três boletos mensais, com solicitação de ajuda. Como aparentemente o objetivo é sacro, a generosidade do povo nunca falha. Além do dízimo, se é que em muitos casos não é substituído! São milhões. Bilhões, na verdade. Construção de Santuários faraônicos, redes de Tvs, Rádios etc. etc. Dinheiro exige administração e transparência. Um caso de escândalo envolvendo essas doações derrubam imediatamente todo o plano. O caso do padre Robson está sob investigação. Mas ao que parece, houve alto desvio para bens particulares. Em Goiânia um caso destes, já não é inédito!

    Será o começo do fim de um modelo que até hoje não podemos avaliar em termos de vantagens para a evangelização? Sabemos que a tipicidade destes evangelizadores da Mídia, associados a Santuários, é tipicamente do continente americano. A peregrinação enquanto tal é inerente ao ser humano. Ele caminha como o grande paradigma da sua própria existência. Caminha por caminhar. É caminhando que se faz o caminho. Na idade média se caminhava também por penitência. No entanto, os Santuários de hoje envolvem mais do que isso. Para pior. São “centros de bênçãos” e locais de gastança de dinheiro. São erigidos a santos, anjos e arcanjos. Desenvolveu-se uma teologia medíocre e barata desses personagens do mundo da fé. Alguns são apenas programas de turismo religioso barato. Afinal, os pobres também têm o direito de ir em algum lugar, já que não o podem fazer a Roma ou Jerusalém! Isso é descer vários degraus no que a Igreja pós conciliar e o mundo atual preconizam e precisam. Multidões em algum lugar, escutando sermões, teológica e eclesialmente suspeitos, é tudo de que nós não precisamos no momento.

    Eu estava na maternidade onde nasceu a Rede Vida. Em Brasília, com os cardeais da época, discutindo a possibilidade de a CNBB assumir para si “uma Tv Católica”. Pela história, sabemos da recusa dos bispos a esta possibilidade. Mas Monteiro a ofereceu. Posto isso, ela se transformou numa “TV Católica” sem a CNBB! Creio que foi uma atitude sensata dos bispos e cardeais. Ter uma televisão porta voz da Igreja fica muito caro e é perigoso. Outros países já discutiram esta opção e não a endossaram.

    Está passando da hora de nos alinharmos com as ideias refrigeradas de Francisco ensopadas no Vaticano II e nas Conferências Latino Americanas. Não vejo sinceramente nenhuma contribuição deste “modelo de evangelização” usando padres-show e santuários, para uma Igreja que precisa se reinventar nos tempos de mudança de época em que nos encontramos. Muita tinta ainda correrá sobre este “fenômeno” dos anos 90 que chega até aos dias de hoje. A crise que enfrentamos hoje e que provoca na Igreja um ressurgimento da dimensão profética e de proximidade total com os sofredores, empobrecidos, descartados, discriminados e ateus, não encontra no padre Robson e tantos outros similares nenhuma empatia. Água e azeite não se misturam.

    [publicado em 24 de agosto no blog jotaparente.com]
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    Assista este vídeo na página do nosso youtube
    https://www.youtube.com/watch?v=Y4OIKuDM8P4&list=PLtaLh9_0MaeyhfxY1cTFeQpuTf8HD3Aw8&index=3
    E depois da pandemia? Qual o nosso projeto de sociedade?
    1º de outubro/2020 (quinta-feira) – 19 h
    Com:
    Antônio Martins (Outras Palavras) e
    Carmen Silva (AMB Articulação de Mulheres Brasileiras /Recife e Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político)
    Ivo Lesbaupin – Moderador
    Acompanhe pelo youtube do movimento nacional fe e politica
    https://youtu.be/afOfpIR3VpE
    ou pelo facebook
    https://www.facebook.com/iserassessoria/

    Temos discutido muito a conjuntura atual, há boas análises sobre a situação e o por que chegamos a ela. Mas pouco se discute sobre o amanhã, ou melhor, a transição necessária do tipo de sociedade/economia que temos hoje para um novo tipo de organização socioeconômica.

    As esquerdas (tanto partidos quanto grupos) têm estado paralisadas, sem iniciativa. Muitos estão esperando que algo aconteça, algo que viria “de fora” – do STF, de um julgamento de processo sobre o Moro ou das eleições municipais. A ausência de uma autocrítica sobre o processo político anterior (anos 2000 em diante) leva a pensar que o caminho da salvação seria voltar ao que já foi feito.
    Temos de mudar nossa postura, temos de ter um projeto e propor ações para incidir na situação política e levá-lo à frente (proatividade).

     

  • PEDRO RIBEIRO – Indignação de um leigo católico

    Pedro A. Ribeiro de Oliveira, Juiz de Fora MG – Membro histórico do Iser Assessoria e da Coordenação Nacional Fé e Política

    Sei que desde o Batismo sou membro da Igreja. Só depois de crismado, porém, ao fazer o compromisso de militância na Juventude Estudantil Católica (Ação Católica) assumi conscientemente minha condição de leigo, isto é, membro do laos – povo – que tem a missão de evangelizar a sociedade. Já há mais de 60 anos procuro ser fiel a essa missão não só individualmente, mas como parte plena da Igreja Católica Romana, em comunhão com tantas pessoas que animam essa Igreja desde as Comunidades Eclesiais de Base até as Conferências Episcopais e a Diocese de Roma. Comovido pelo sofrimento de uma menina de dez anos vítima de cruéis estupros – que precisou recorrer ao Judiciário para interromper a gravidez resultante daquela violência e foi atendida num hospital de Recife – e solidário com os e as profissionais da saúde que a atenderam, me sinto na obrigação de expressar o profundo desconforto causado pelas manifestações de Bispos do Brasil.

    Duas falas publicadas no site da CNBB no dia 18/08 bastam como exemplos. O site reporta a fala de seu Presidente, D. Walmor A. Oliveira, referindo-se a “dois crimes hediondos”, sendo um a violência sexual e o outro a violência do aborto. Destaque maior é dado à manifestação de D. Ricardo Hoepers, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, que fala do aborto como “um ato horrendo, de um ato abominável, nós demos a pena capital a um bebê.”

    A minha indignação tem duas causas. A primeira é com o simplismo intelectual dessas falas, que, seguindo a linguagem vulgar, não distingue embrião, feto e bebê, e ainda qualifica como pena capital um procedimento cirúrgico destinado a salvar a vida de uma menina. É possível que, no calor das emoções, esses bispos tenham exagerado nas figuras de linguagem, mas isso não justifica essa abordagem, que ao ser reproduzida pelas redes digitais causa confusão em pessoas de pouca escolaridade. Ninguém que eu conheço considera o aborto um método de contracepção equivalente a qualquer outro, e nenhuma mulher recorre a esse procedimento com a mesma serenidade com que vai ao dentista. Aborto é sempre uma decisão muito grave e deve ser tratada com respeito. Estima-se que, no Brasil, a cada ano cinco milhões de mulheres recorrem ao aborto. As que podem pagar o procedimento numa clínica, o fazem com segurança; mas as mulheres pobres arriscam a sua vida e muitas, inclusive jovens e adolescentes, morrem. Por isso, o debate deve ser feito com seriedade, levando em conta os conhecimentos científicos, a Ética e – para os cristãos – os preceitos bíblicos de defesa da Vida.

    A outra causa de minha indignação é pelo destaque eclesiástico dado a essas manifestações enquanto a Carta ao Povo de Deus, endossada por mais de 150 bispos foi oficialmente ignorada pela CNBB. Até parece que Francisco já previa isso ao referir-se às “ideologias que mutilam o coração do Evangelho: A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte”. (Gaudete Exsultate 101).

    Diante dessa realidade atual de minha Igreja, consola-me o que disse a mesma CNBB, nos sofridos anos da ditadura militar aberta, no Comunicado Pastoral ao Povo de Deus, de 25 de outubro de 1976. Cito apenas a Introdução, onde se lê “Nossa intenção é iluminar com a luz da Palavra de Deus os acontecimentos atuais para que os cristãos tomem, diante deles, uma atitude de fé e coragem, uma animação parecida com aquela que dá o livro do Apocalipse. Ao cristão é proibido ter medo. É proibido ficar triste”. E segue-se uma preciosa apresentação da realidade da época, com perseguição aos pobres e à Igreja, sempre relacionada ao Novo Testamento, que é a única fonte citada – ao todo, 14 vezes.

    Tendo vivido bastante para ver o apequenamento da CNBB, espero viver ainda o suficiente para ver também o seu ressurgimento, com esses novos bispos que, em sintonia com a proposta de Igreja em saída e com a valiosa colaboração das Pastorais Sociais, denunciam os sistemas e os governantes que destroem a Vida, ao mesmo tempo que anunciam a certeza de um novo céu e uma nova terra, movida pela mesma Esperança que deu vida à vida do santo Pedro do Araguaia.

    Juiz de Fora, 18 de agosto de 2020

    [O artigo foi publicado originalmente em fepolitica.org.br]

     

  • CARTA AO POVO DE DEUS

    Montagem da imagem Por Jornal GGN -27/07/2020

    CARTA AO POVO DE DEUS

    22 de julho de 2020.
    Festa de Santa Maria Madalena, “Apóstola dos Apóstolos”.

    Povo de Deus,
    a vós, graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo (Ef 1,2).
    Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância (Jo 10, 10).

    1. Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo.
    2. Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.
    3. É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor.
    4. O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança.
    5. Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.
    6. É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós” (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).
    7. Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
    8. Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.
    9. O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população; e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais.
    10. O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde; na desnecessária tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.
    11. No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.
    12. Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil. Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel. O Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à COVID-19, aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020).
    13. Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário. Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?
    14. O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos. Estamos comprometidos com o recente “Pacto pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.
    15. Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs. É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença, para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/4/20).
    16. Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).

     

    O Senhor vos abençoe e vos guarde. Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós.
    O Senhor volte para vós o seu olhar e vos dê a sua paz!
    (Nm 6,24-26).

     

    1. Dom Adolfo Zon Pereira, SX, bispo de Alto Solimões, AM.
    2. Dom Adriano Ciocca Vasino, bispo prelado de São Félix do Araguaia, MT.
    3. Dom Ailton Menegussi, bispo de Crateús, CE.
    4. Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém, PA.
    5. Dom Aldemiro Sena dos Santos, bispo de Guarabira, PB.
    6. Dom Aloísio Alberto Dilli, OFM, bispo de Santa Cruz do Sul, RS.
    7. Dom André Marie Gerard Camillade Witte, bispo emérito de Ruy Barbosa, BA.
    8. Dom Angélico Sandalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau, SC.
    9. Dom Antônio Carlos Cruz Santos, MSC, bispo de Caicó, RN.
    10. Dom Antônio Carlos Félix, bispo de Governador Valadares, MG.
    11. Dom Antônio Celso de Queirós, bispo emérito de Catanduva, SP.
    12. Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB, bispo auxiliar de Belém, PA.
    13. Dom Antônio Fernando Saburido. arcebispo de Olinda e Recife, PE.
    14. Dom Fr. Antônio Roberto Cavuto, OFMCap, bispo de Itapipoca, CE.
    15. Dom Armando Bucciol, bispo de Livramento de Nossa Senhora, BA.
    16. Dom Armando Martin Gutiérrez, bispo de Bacabal, MA.
    17. Dom Arnaldo Cavalheiro Neto, bispo de Itapeva, SP.
    18. Dom Benedito Araújo, bispo de Guajará-Mirim, RO.
    19. Dom Bernardo Johannes Bahlmann, OFM, bispo de Óbidos, PA.
    20. Dom Canísio Klaus, bispo de Sinop, MT.
    21. Dom Carlo Ellena, bispo emérito de Zé Doca, MA.
    22. Dom Carlos Alberto Breis Pereira, OFM, bispo de Juazeiro, BA.
    23. Dom Carlos Alberto dos Santos, bispo de Itabuna, BA.
    24. Dom Carlos Verzeletti, bispo de Castanhal, PA.
    25. Dom Claudio Cardeal Humnes, OFM, arcebispo emérito de São Paulo, SP.
    26. Dom Dario Campos, arcebispo de Vitória, ES.
    27. Dom Derek John Christopher Byrne, SPS, bispo de Primavera do Leste, Paranatinga, MT
    28. Dom Egidio Bisol, bispo de Afogados da Ingazeira, PE.
    29. Dom Edilson Soares Nobre, bispo de Oeiras, PI.
    30. Dom Edivalter Andrade, bispo de Floriano, PI.
    31. Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos, SDB, bispo auxiliar de Manaus, AM.
    32. Dom Edson Taschetto Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira, AM.
    33. Dom Eduardo Vieira dos Santos, bispo auxiliar de São Paulo, SP.
    34. Dom Élio Rama, bispo de Pinheiro, MA.
    35. Dom Erwin Kräutler, bispo prelado emérito do Xingu, Altamira, PA.
    36. Dom Estevam dos Santos Silva Filho, bispo de Ruy Barbosa, BA
    37. Dom Eugênio Rixen, bispo de Goiás, GO.
    38. Dom Evaldo Carvalho dos Santos, CM, bispo de Viana, MA.
    39. Dom Evaristo Pascoal Spengler, OFM, bispo prelado de Marajó, PA.
    40. Dom Fernando Barbosa dos Santos, CM, bispo prelado de Tefé, AM.
    41. Dom Fernando José Penteado, bispo emérito de Jacarezinho, PR.
    42. Dom Flávio Giovenale, bispo de Cruzeiro do Sul, AC.
    43. Dom Francisco Biasin, bispo emérito de Volta Redonda/Barra do Piraí, RJ.
    44. Dom Francisco Cota de Oliveira, bispo eleito de Sete Lagoas, MG.
    45. Dom Francisco de Assis Gabriel, CSsR, bispo de Campo Maior, PI.
    46. Dom Francisco Lima Soares, bispo de Carolina, MA.
    47. Dom Gabriel Marchesi, bispo de Floresta, PE.
    48. Dom Gentil Delazari, bispo emérito de Sinop, MT.
    49. Dom Geovane Luís da Silva, bispo auxiliar de Belo Horizonte, MG.
    50. Dom Getúlio Teixeira Guimarães, bispo emérito de Cornélio Procópio, PR.
    51. Dom Geremias Steinmetz, arcebispo de Londrina, PR.
    52. Dom Gilberto Pastana, bispo de Crato, CE.
    53. Dom Giovane Pereira de Melo, bispo de Tocantinópolis, TO.
    54. Dom Guido Zendron, bispo de Paulo Afonso, BA.
    55. Dom Guilherme Antônio Werlang, MSF, bispo de Lages, SC.
    56. Dom Gutemberg Freire Régis, CSsR, bispo emérito de Coari, AM.
    57. Dom Hernaldo Pinto Farias, SSS, Bispo de Bonfim, BA.
    58. Dom Irineu Andreassa, bispo de Ituiutaba, MG.
    59. Dom Irineu Roman, CSJ, arcebispo de Santarém, PA.
    60. Dom Itamar Vian, arcebispo emérito de Feira de Santana, BA.
    61. Dom Jailton de Oliveira Lino PSDP, bispo de Teixeira de Freitas-Caravelas, BA.
    62. Dom Jaime Vieira Rocha, Arcebispo de Natal, RN.
    63. Dom Jayme Henrique Chemello, bispo emérito de Pelotas, RS.
    64. Dom Jan Kot, OMI, bispo de Zé Doca, MA.
    65. Dom Jesús María Cizaurre Berdonces, OAR, bispo de Bragança, PA.
    66. Dom Jesús María López Mauleón, OAR, bispo prelado do Alto Xingu, Tucumã, PA.
    67. Dom Jesus Moraza Ruiz de Azúa. bispo prelado emérito de Lábrea, AM.
    68. Dom João Aparecido Bervamasco, SAC, bispo de Corumbá, MS.
    69. Dom João José Costa, OCarm, arcebispo de Aracaju, SE.
    70. Dom João Muniz Alves, OFM, bispo do Xingu-Altamira, PA.
    71. Dom JoãoSantos Cardoso, bispo de Bom Jesus da Lapa, BA.
    72. Dom João Justino de Medeiros Silva, arcebispo de Montes Claros, MG.
    73. Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, bispo auxiliar de Belo Horizonte, MG.
    74. Dom Joaquim Pertiñez Fernandez, bispo de Rio Branco, AC.
    75. Dom Josafá Menezes, arcebispo de Vitória da Conquista, BA.
    76. Dom José Alberto Moura, arcebispo emérito de Montes Claros, MG.
    77. Dom José Albuquerque de Araújo, bispo auxiliar de Manaus, AM.
    78. Dom José Altevir da Silva, CSSp, bispo de Cametá, PA.
    79. Dom José Belisário da Silva, OFM, arcebispo de São Luís, MA.
    80. Dom José Benedito Cardoso, bispo auxiliar de São Paulo, SP.
    81. Padre José Celestino dos Santos, administrador diocesano de Ji-Paraná, RO.
    82. Dom José Haring, bispo emérito de Limoeiro do Norte, CE.
    83. Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV, bispo prelado de Itacoatiara, AM.
    84. Dom José Luís Azcona Hermoso, OAR, bispo prelado emérito de Marajó, PA.
    85. Dom José Luiz Bertanha, SDV, bispo emérito de Registro, SP.
    86. Dom José Luiz Ferreira Salles, CSsR, bispo de Pesqueira, PE.
    87. Dom José Maria Chaves dos Reis, bispo de Abaetetuba, PA.
    88. Dom José Mario Stroeher, bispo emérito de Rio Grande, RS.
    89. Dom José Moreira da Silva, bispo de Januária, MG.
    90. Dom José Moreira de Melo, bispo emérito de Itapeva, SP.
    91. Dom José Reginaldo Andrietta, bispo de Jales, SP.
    92. Dom José Roberto Silva Carvalho, bispo de Caetité, BA.
    93. Dom José Valdeci Santos Mendes, bispo de Brejo, MA.
    94. Dom JuarezSousa da Silva, bispo de Parnaíba, PI.
    95. Dom Juventino Kestering, bispo de Rondonópolis, MT
    96. Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM, arcebispo de Manaus, AM.
    97. Dom Limacêdo Antonio da Silva, bispo auxiliar de Olinda-Recife, PE.
    98. Dom Luciano Bergamin, CRL, bispo emérito de Nova Iguaçu, RJ
    99. Dom Luís Ferrando Lisboa, bispo emérito de Bragança, PA.
    100. Dom Luís Flávio Cappio, OFM, bispo de Barra, BA.
    101. Dom Luiz Demétrio Valentini, bispo emérito de Jales, SP.
    102. Dom Luiz Gonzaga Fechio, bispo de Amparo, SP.
    103. Dom Luiz Mancilha Vilela, arcebispo emérito de Vitória, ES.
    104. Padre Manoel Aparecido da Silva, administrador diocesano de Barreiras, BA.
    105. Dom Manoel João Francisco, bispo de Cornélio Procópio, PR.
    106. Dom Manoel de Oliveira Soares Filho, bispo de Palmeiras dos Índios, AL.
    107. Dom Manuel Ferreira dos Santos Júnior, MSC, bispo de Registro, SP.
    108. Dom Marcos Marian Piatek, CSsR, Bispo de Coari, AM.
    109. Dom Mariano Manzana, bispo de Mossoró, RN.
    110. Dom Mário Pasqualotto, PIME, bispo auxiliar emérito de Manaus, AM.
    111. Dom Martinho Lammers, bispo emérito de Óbidos, PA.
    112. Dom Mauro Montagnoli, bispo de Ilhéus, BA.
    113. Dom Mauro Morelli, bispo emérito de Duque de Caxias, RJ.
    114. Dom Meinrad Francisco Merkel, bispo de Humaitá, AM.
    115. Dom Milton Kenan Júnior, bispo de Barretos, SP.
    116. Padre Nadir Luiz Zanchet, Admistrador diocesano de Balsas, MA.
    117. Dom Neri José Tondello, bispo de Juína, MT.
    118. Dom Orlando Octacílio Dotti, OFM Cap, bispo emérito de Vacaria, RS.
    119. Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, bispo de Guaranhus, PE.
    120. Dom Pedro Casaldáliga, bispo prelado emérito de São Félix do Araguaia, MT.
    121. Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá, AP.
    122. Dom Pedro Luiz Stringhini, bispo de Mogi das Cruzes, SP.
    123. Dom Paulo de Mascarenhas Roxo, bispo emérito de Mogi das Cruzes, SP.
    124. Dom Philip Eduard Roger Dickmans, bispo de Miracema do Tocantins, TO.
    125. Dom Plínio José Luz da Silva, bispo de Picos, PI.
    126. Dom Protógenes Luft, bispo de Barra do Garças, MT.
    127. Dom Roberto José da Silva, bispo de Janaúba, MG.
    128. Padre Roberto Oliveira Silva, administrador diocesano de Jequié, BA.
    129. Dom Romualdo Matias Kujawski, bispo de Porto Nacional, TO.
    130. Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho, RO.
    131. Dom Rubival Cabral Britto, bispo de Grajaú, MA.
    132. Dom Santiago Sánchez Sebastián, bispo prelado de Lábrea, AM.
    133. Dom Sebastião Bandeira Coelho, bispo de Coroatá, MA.
    134. Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Caxias, MA.
    135. Dom Sergio Aparecido Colombo, bispo de Bragança Paulista, SP.
    136. Dom Sérgio Eduardo Castriani, CSSp, arcebispo emérito de Manaus, AM.
    137. Dom Severino Clasen, OFM, bispo de Caçador, SC.
    138. Dom Sílvio Guterres Dutra, bispo de Vacaria, RS.
    139. Dom Tarcisio Scaramussa, SDB, bispo de Santos, SP.
    140. Dom Teodoro Mendes Tavares, bispo de Ponta de Pedras, PA.
    141. Dom Tommaso Cascianelli, CP, bispo de Irecê, BA.
    142. Dom Valdemir Ferreira dos Santos, bispo de Amargosa, BA.
    143. Dom Valentim Fagundes de Meneses, MSC, bispo eleito de Balsas, MA.
    144. Dom Vicente de Paula Ferreira, C.Ss.R, bispo auxiliar de Belo Horizonte, MG.
    145. Dom Vilsom Basso, SCJ, bispo de Imperatriz- MA.
    146. Dom Vital Corbellini, bispo de Marabá, PA.
    147. Dom Vítor Agnaldo de Menezes, bispo de Propriá, SE.
    148. Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, bispo emérito de Viana, MA.
    149. Dom Welington de Queiroz Vieira, bispo diocesano de Cristalândia, TO.
    150. Dom Wilmar Santin, OCarm, bispo prelado de Itaituba, PA.
    151. Dom Zanoni Demettino Castro, Arcebispo de Feira de Santana, BA.
    152. Dom Zenildo Luiz Pereira da Silva, CSsR, bispo prelado de Borba, AM.

     

  • Arthur Soffiati: A humanidade e as florestas em vista do Covid-19

    Publicado por  leonardoboff.org/  – em  03/08/2020

     Arthur Soffiati é um eminente ecologista, de Campos-RJ, já conhecido por suas contribuições neste blog. Vamos publicar uma série de três (3) artigos acerca das formas como os seres humanos se relacionaram com as florestas. Esta série é oportuna pois nos ajudará a entender o porquê da intrusão do coronavírus  no planeta inteiro. O foco predominante das análise se concentra na ciência, na técnica, nos insumos e da desenfreada busca  de uma vacina, o que é necessário e urgente. No entanto, vê-se  o Covid-19 isoladamente sem o seu contexto que é o capitalismo e o neoliberalismo que no afã de acumularem mais e mais riqueza e aumentarem o consumo está depredando a natureza  e pondo em risco a sustentabilidade do planeta Terra, limitado e com bens e serviços também limitados e, por isso, não suporta um projeto ilimitado. Esse ponto da natureza está praticamente ausente nas análises dos epidemiologistas.

    O vírus é consequência do antropoceno, vale dizer, dos seculares ataques dos seres humanos à natureza que reage como todo ser vivo quando atacado. O Covid-19 como o aquecimento global e toda uma série de vírus já enviados, representa uma represália da natureza contra as agressões da humanidade. A continuar esta dinâmica de super-exploração de todos os ecossistemas poderemos contar com mais vírus e, eventualmente, como alguns afirmam, com “o Big One“, com aquele grande e inexpugnável que afetará grande parte da biosfera e levará também milhões e milhões de seres humanos ao desaparecimento, não excluída a hipótese, de toda a espécie humana. Como nunca antes na história o ser humano é responsável por seu destino junto com a vida caso quiser viver ou aceitar absurdamente seu desaparecimento. Ou mudamos ou contemos com o pior.

    O estudo de Arthur Soffiati nos introduz nas várias  etapas da relação da humanidade para com as florestas até chegarmos ao ponto culminante atual com o contra-ataque da natureza à violência que lhe infligimos. Se quisermos ter futuro como espécie junto com a comunidade de vida, devemos fazer uma radical conversão ecológica, de respeito à natureza, aos seus ritmos e também aos limites que não podem ser ultrapassados. L.Boff

    Arthur Soffiati: A humanidade e as florestas

    Sempre e nunca são palavras que não devem ser usadas pelo historiador. O senso comum acredita que o ser humano sempre foi desmatador, caçador e poluidor. Que faz parte da natureza humana destruir a natureza não-humana. Por outro lado, não é raro ouvir que nunca houve um período em que a humanidade tenha se relacionado de forma equilibrada com a natureza. Associo arbitrariamente a origem da cultura ao Homo habilis, ancestral do Homo sapiens, há 1.400.000 anos passados. Supõe-se que os primeiros hominídeos, grupo zoológico do qual fazemos parte, desceram das árvores e se adaptaram às savanas. Sua economia baseava-se na coleta, caça e pesca. É de se perguntar por que o Homo habilis, o H. erectus, o H. neaderthalensis e H. sapiens desmatariam. Uma que outra árvore podia ser cortada ou queimada, mas não toda uma floresta. Não havia necessidade de desmatamento nem tecnologia capaz de tal proeza. No máximo, um incêndio provocado por raios ou por combustão espontânea. Também um incêndio ocasional depois da invenção das técnicas de produzir fogo.

    Até 10.000 anos passados, não houve necessidade de desmatar, porque a humanidade se organizava em pequenos grupos nômades que não incluíam em sua economia o uso de caules em larga escala. Com o aquecimento climático no início do Holoceno, algumas sociedades nômades inventaram a agricultura e o pastoreio. Comumente, as áreas para plantar e pastorear eram aquelas sem floresta, para facilitar o trabalho. Caso necessário, parte das florestas era derrubada para o plantio e o pastoreio. Elas também serviam para o fornecimento de lenha e de madeira. Contudo, o desmatamento era mínimo, já que a economia então vigente visava apenas a subsistência das sociedades.

    Com a formação das civilizações, o desmatamento aumentou. Ampliou-se a necessidade de campos de cultivo e de pastagem, bem como a necessidade de lenha e de madeira para construção. Há uma conhecida passagem na “Epopeia de Gilgámesh” em que o herói mitológico, com ajuda de seu amigo Enkídu, mata Humbaba, o protetor da floresta. Eram os primórdios da civilização mesopotâmica. A natureza ainda era protegida por entidades divinas e tinha um caráter sagrado. Gilgámesh é meio deus, meio humano. Depois de matar o protetor, ele destrói a floresta. Progressivamente, o sagrado cede lugar ao profano.

    Também na civilização chinesa, houve desmatamentos e caçadas colossais logo em sua fase inicial. Alguns historiadores sustentam que o confucionismo e o taoísmo são respostas culturais aos ataques contra a natureza e contra os humanos. Algo como uma tentativa de ressacralização do mundo. Na civilização Índica, que se desenvolveu no vale do rio Indo, atual Paquistão, a historiografia vem demonstrando que grandes desmatamentos contribuíram para seu fim. Como não havia pedra, os prédios e monumentos eram construídos com tijolos. Para seu cozimento, as matas foram transformadas em lenha. Entre os maias, a explicação mais consistente para explicar seu fim foi um grande desmatamento para ampliar campos de cultivo. Esses desmatamentos foram praticados em encostas de morros, contribuindo para a erosão e o assoreamento das partes baixas, onde havia brejos e lagoas.

    No diálogo “Timeu”, Platão narra que o desmatamento da península Ática transformou um corpo carnudo num esqueleto. Sua narrativa sobre os processos de erosão, empobrecimento dos solos e assoreamento do mar nas partes rasas é bastante atual. Na ilha de Páscoa, hoje conhecida com o nome original de Rapa-Nui, a construção de grandes ídolos de pedra exigiu uma base rolante para transportá-los do centro da ilha para a costa. Como não se conhecia a roda, usava-se o tronco da palmeira mais alta do mundo, existente na ilha, como rolamento. Assim, o desmatamento foi deixando a ilha desprotegida de cobertura florestal. Além do mais, cada grupo incendiava a mata de outro(s) como arma de guerra. Quando os europeus chegaram à ilha no século XVIII, Rapa-Nui estava devastada, erodida e assoreada.

    O desmatamento foi praticado em várias sociedades, com modos de produção distintos. Cada cultura construiu sua visão sobre as florestas. De sagradas a profanas, passando por concepções intermediárias. Nenhuma concepção, porém, transformou as matas em fonte de lucro como a ocidental em sua fase capitalista. Na sua fase de formação, entre o século V ao século XIV, vigorou o sistema feudalista de produção. Nele, as atividades rurais representavam o sustentáculo da economia. Partindo da Itália, os missionários cristãos não eram muito simpáticos às florestas porque elas eram sagradas para os povos ainda não convertidos e motivo de adoração. Depois de convertidos, eles eram instados a derrubar as matas. Mesmo assim, restaram muitas florestas, agora com caráter utilitário. Elas complementavam a economia feudal. Havia florestas comunais, ou seja, florestas que podiam ser usadas por todos, sobretudo pobres, para obtenção de lenha, madeira, água fresca e caça. Essa visão começa a ser mudada a partir do século XI, quando o capitalismo começa a progredir.

    Covid-19: A humanidade e as florestas (II)

    ARTHUR SOFFIATI  – leonardoboff.org – ATUALIZADO EM 10/08/2020

    Quando portugueses e espanhóis chegaram à África e à América respectivamente, no século XV, as florestas temperadas da Europa já estavam muito reduzidas. Elas foram progressivamente abatidas. Na África, a floresta tropical do Congo foi o que restou da grande floresta que cobria o Saara no início do Holoceno. Não houve um desmatamento descomunal que transformou uma grande mata num imenso deserto. Foram as mudanças climáticas naturais. Os povos que viviam na floresta congolesa extraíam recursos dela, mas sem comprometer sua integridade. O mesmo acontecia com a floresta equatorial da Indonésia. Além da floresta e do deserto, havia no continente africano extensas savanas e estepes habitadas por uma megafauna, que já era cobiçada pelos navegantes, sobretudo o elefante.

    No grande continente americano, os europeus encontraram as florestas temperadas do norte, a grande floresta amazônica e a Mata Atlântica. Além desses biomas, havia no interior o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, os campos do Sul e as zonas geladas do Antártico. Os povos que habitavam a América (considerando-a um só continente, pois não havia países) usavam as florestas, mas as consideravam sagradas e merecedoras de respeito. Eles obtinham nelas recursos para sua subsistência, mas sem ultrapassar limites. Essa visão contemplativa está demonstrada nos depoimentos de índios da América do Norte reunidos no livro “Pés nus sobre a terra sagrada”. Na América do Sul, é ilustrativo o depoimento do xamã yanomami Davi Kopenawa.

    Pesquisas arqueológicas estão demonstrando que culturas avançadas se desenvolveram na Amazônia antes da chegada dos europeus. Como se sabe, os solos amazônicos são pobres. As florestas se retroalimentam naquela vastidão de planície. Solo preto em grande quantidade vem sendo encontrado pelos arqueólogos. A conclusão é que a floresta chegou a comportar cerca de dez milhões de habitantes reunidos em culturas distintas que exploravam a grande floresta mantendo-a em pé. A terra preta era fabricada para o cultivo de diversas espécies, inclusive arbóreas. As prospecções sugerem uma ou mais civilizações na Amazônia. As ricas cerâmicas de Marajó, de Maracá, de Santarém e outras confirmariam que houve ali culturas que alcançaram grau civilizacional. Cauteloso, prefiro considerá-las neolíticas avançadas.

    Além do mais, os europeus encontraram as adiantadas culturas dos Andes, da América Central e do Ártico, sem contar a cultura já declinante dos maias. Esta, ao que tudo indica, não soube lidar com a floresta e a devastou. Em parte, seu declínio se deve a essa remoção, segundo os estudiosos. No círculo polar ártico, não existiam florestas. Os denominados esquimós conseguiram desenvolver uma refinada cultura para viver no gelo. No México, o grande império asteca impressionou os europeus, o mesmo ocorrendo com o império inca nos Andes.

    Como mostra o historiador ambiental José Augusto Pádua no seu livro “Um sopro de destruição”, as luxuriantes florestas encontradas pelos portugueses na América alimentaram neles a concepção de que elas poderiam ser exploradas indefinidamente. Mais que concepção, pode-se falar numa síndrome de inesgotabilidade. Para quem deixou um continente com parcas manchas florestais, encontrar a Mata Atlântica pela frente alimentou a crença na sua infinitude. Logo nos primeiros tempos, a busca pelo pau-brasil estimulou um desmatamento ainda em pequenas proporções, ao mesmo tempo que alterava a concepção dos povos nativos. O famoso diálogo travado entre um velho tupinambá e o calvinista Jean de Léry ilustra duas visões de mundo não só distintas como antagônicas. O francês via dinheiro no pau-brasil. O tupinambá entendia que se tratava apenas de madeira, o que o levou a concluir que os europeus eram loucos. De fato, o sistema capitalista era algo inimaginável e inútil para o índio.

    Com a escolha da cana-de-açúcar para colonizar as terras reservadas a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, o primeiro grande tratado da globalização, exigiu-se desmatamento mais intensivo. Até o século XVII, as terras baixas foram depenadas. As florestas deram lugar aos canaviais e aos pastos. É de se perguntar por que os portugueses e seus descendentes no Brasil se contentaram com a Mata Atlântica até o século XIX. Os colonos tinham 1,3 milhão de quilômetros quadrados de floresta para explorarem. As árvores eram simplesmente queimadas para abrir espaço para as lavouras e pastagens. Além de não precisarem da Amazônia, os colonos não contavam com tecnologia para derrubar uma floresta que parecia infinita.

    Já existem artigos acadêmicos e livros demonstrando com documentos a visão que se tinha das florestas. Derrubá-las significava progresso e civilização. Havia algumas vozes no século XIX que já se opunham a uma tão grande devastação. Mas eram vozes isoladas. Havia quem condenasse o africano ou seu descendente escravizado como o culpado pelo desmatamento, quando, na verdade, eles cumpriam ordens do patrão, que por sua vez atendia às exigências de um capitalismo rasteiro. Por mais protestos isolados, o Brasil era uma grande fazenda dominada por rudes proprietários. Alguns cientistas também condenavam o desmatamento excessivo, como foi o caso de Auguste de Saint-Hilaire ao empreender excursões pelo Brasil. Nem a falta d’água na cidade do Rio de Janeiro causada pelo desmatamento do maciço da Tijuca, exigindo seu reflorestamento, foi suficiente para convencer a economia rural sobre a importância das matas.

     

    Arthur Soffiati: A Humanidade e as Florestas (final)

    Por LEONARDOBOFF.org – 17/08/2020

    Desde os anos de 1970, está havendo um descompasso entre a importância da floresta amazônica em pé e os interesses econômicos e políticos. Um documentário intitulado “No país da Amazônia”, dirigido por Joaquim Gonçalves de Araujo e datado de 1922, mostra uma floresta rica a ser conquistada, desbravada, explorada, derrubada. Converter a floresta derrubada em dinheiro significava progresso. Muitas árvores cortadas, muitos animais mortos e uma postura triunfalista são mostrados no documentário. Os índios são mostrados como animais ou quase. Tudo indica que o documentário foi produzido por interesses econômicos, dados os recursos caros empregados na filmagem.

    Outras aventuras dissonantes com a floresta foram praticadas na Amazônia, como a ferrovia Madeira-Mamoré e a Fordlândia. Elas foram recebidas com aplauso por representarem o desenvolvimento do Brasil. A partir da Conferência de Estocolmo, em 1972, a atitude em relação à grande floresta nos meios científicos e entre os ambientalistas mudou. Estudos progressivos foram mostrando a importância do grande bioma não só para o Brasil, mas para o cone sul e o mundo. Ela não é o pulmão da Terra, mas desempenha fundamental papel na troca de gases. Libera oxigênio, que não abastece o planeta, mas absorve gás carbônico que, junto com outros gases, agravam os efeito-estufa e aceleram as mudanças climáticas. A Terra sem a Amazônia lançaria na atmosfera várias giga toneladas de CO2.

    Mais ainda, a floresta em pé recebe as chuvas que provêm do oceano Atlântico e produz nuvens por evapotranspiração. Essas nuvens são empurradas para oeste, esbarram nos Andes e se dirigem para o sul, transformando-se em chuva na Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e nas regiões sudeste e sul do Brasil. Quem segue com o dedo o paralelo 24° S, encontrará os desertos de Atacama, de Kalahari e da Austrália. No Brasil, encontrará uma área outrora coberta pela exuberante Mata Atlântica. Mata Atlântica depende fundamentalmente da Amazônia. Sem a Amazônia, Sudeste e Sul do Brasil seriam um deserto como o de Atacama.

    Se Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia zelassem por sua oferta de água, reclamariam formalmente ao governo brasileiro por amaçar a umidade de seus países. Estudos de cientistas vêm demonstrando que a floresta também abriga animais hospedeiros de vírus, bactérias e protozoários sem serem afetados por eles. Com a captura desses animais e com o desmatamento, microrganismos patogênicos podem entrar na sociedade e deflagrar epidemias com potencial pandêmico. A hipótese mais consistente para a difusão do novo corona vírus pelo mundo é o habito oriental de consumir animais silvestres, como morcegos e pangolins, obtidos nas florestas. As oito espécies de pangolim são as mais ameaçadas de extinção do mundo. Sabe-se já, com segurança, que vírus africanos foram trazidos das florestas para a sociedade.

    Proteger a Amazônia, até recentemente, era uma preocupação de cientistas e ambientalistas. Com todas as advertências de que a grande floresta em pé representava uma garantia para a economia, o agronegócio, a mineração e a exploração de madeira continuaram aceleradas. Cientistas demonstraram que o desmatamento na Amazônia acima de 20% afetaria os outros 80% e a transformaria numa savana. As previsões já começaram a se confirmar. A Amazônia não está mais produzindo o antigo volume de água que abastece o mundo peri-amazônico. Nem mesmo está produzindo mais a água necessária à sua existência. Cerrado e Pantanal estão carentes de umidade. Nos períodos de estiagem, a secura está se acentuando e agravando os incêndios, como está acontecendo em 2020 no Pantanal, o maior incêndio registrado. Sudeste e Sul do Brasil estão com o abastecimento de água comprometido.

    Depois de se beneficiar excessivamente com o desmatamento da Amazônia, sobretudo com a abertura da Transamazônica pela ditadura militar, o agronegócio anuncia oficialmente que defende a grande floresta desde sua origem. A fala do atual ministro do ambiente, na fatídica reunião ministerial de 22 de abril, mostra que ele atendia a um pedido da ministra da agricultura para legitimar as áreas desmatadas do que restou da Mata Atlântica. A bancada do boi no Congresso Nacional continua com seu tom agressivo em relação à proteção florestal. Os fundos de pensão e finanças internacionais pressionam o governo brasileiro – o pior de todos os tempos em termos de proteção ambiental e social – a assumir uma atitude de proteção da Amazônia. Tais fundos parecem estar atendendo a seus clientes. E o governo esperneia. De forma retrógada, agita um conceito de soberania nacional anacrônico. Hoje, a soberania do Brasil deve ser usada para proteger a Amazônia para os brasileiros e para o mundo, não para interesses particularistas mesquinhos. Propala que os países que condenam o Brasil derrubaram suas florestas. De fato, derrubaram quando esta prática ainda era aceita em nome do progresso. Agora, eles reflorestam. Sustenta que o fogo na Amazônia é uma mentira e que existe uma campanha internacional de difamação para internacionalizar a Amazônia. Por incrível que pareça é a mesma economia que predou a Amazônia que agora prega oficialmente sua defesa.

    O atual governo não saiu da década de 1930. Não quer se atualizar. Não conseguiu e nem conseguirá, com sua postura anacrônica, militarista e assustada com fantasmas inexistentes.

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