Artigo

  • DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS
    Nota Pública da Comissão Brasileira Justiça e Paz

    Um sistema político-econômico, para seu desenvolvimento saudável, necessita garantir que a democracia não seja somente nominal, mas sim que possa se ver moldada em ações concretas que velem pela dignidade de todos os seus habitantes sob a lógica do bem-comum, em um chamado à solidariedade e uma opção preferencial pelos pobres (cf. ‘Laudato Sì’, 158).

    A Comissão Brasileira Justiça e Paz inicia nova gestão, com a renovação de seus membros pela CNBB, e o faz com a reunião de seu colegiado por três dias de intensos e fraternos debates e estudos, que culminaram com a presença do presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte.

    Deparamo-nos com um quadro nacional de graves ataques aos direitos humanos e à dignidade da pessoa, que se expressa em uma preocupante trajetória do governo rumo ao autoritarismo e ao desrespeito às normas constitucionais, e se manifesta em um processo de elevação da pobreza, do reaparecimento da fome e da miséria, mas também no aumento do feminicídio, de assassinatos de lideranças populares no campo e nas cidades, da iminência de um processo de etnocídio e genocídio de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, fruto da cobiça humana e do incentivo governamental à ocupação das terras indígenas para a mineração, a agricultura e a pecuária voltadas à exportação.

    É uma conjuntura que preocupa os cristãos de todo o planeta em comunhão com as pessoas de boa vontade que habitam nossa Casa Comum, ameaçada por um sistema econômico que, sob o signo da morte, compromete a vida na Terra. Nós nos unimos ao Papa Francisco em sua caminhada profética em defesa da Amazônia, dos pobres e desesperançados, respondendo a seu chamado de unir forças para garantir a vida de mulheres e homens que precisam receber os frutos do desenvolvimento humano integral, numa perspectiva do Bem Viver.

    O Brasil está em uma encruzilhada que ameaça a democracia, a soberania e a vida. Enfrentar essa situação, com dignidade e amor ao próximo, é dever de todas as pessoas.

    “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que dá o trabalho!” (Papa Francisco).

    Brasília, 19 de fevereiro de 2020

    Secretaria Executiva Comissão Brasileira Justiça e Paz

  • Dez pontos para se entender a conjuntura do Brasil

     

    Esse texto se propõe a indicar elementos para uma análise de conjuntura desses tempos obscuros que estamos vivendo. São chaves de leitura preliminares. Como tais, não serão desenvolvidas aqui.

    1) O que se passa atualmente no Brasil não é um caso isolado. Coisas semelhantes ocorreram em outras partes do mundo. O que aconteceu nas eleições presidenciais de 2018 por aqui com o uso da tecnopolítica – disseminação de “fake news”, transmissão automática de mensagens – já havia ocorrido de forma semelhante no Reino Unido (Brexit), na Argentina (eleição de 2015 – vitória de Maurício Macri) e nos EUA (eleição de Donald Trump).

    2) Da mesma forma, governos de viés autoritário, baseados na intolerância e no ódio à diferença/pluralidade cultural se estabeleceram em várias partes do mundo ao longo desta década. E em lugares muito diferentes entre si, tais como as Filipinas (Duterte), Índia (Modi), Turquia (Erdogan), Hungria (Orban), Polônia (Morawiecki) Reino Unido (Boris Johnson), EUA (Trump), Brasil (Bolsonaro). Além destes, estiveram até recentemente  presentes no governo italiano (Salvini). São lideranças de extrema-direita, ultraconservadores e que chegaram ao poder ou se aliaram com governos democraticamente eleitos. A “implosão lenta” das instituições democráticas é, portanto, um fenômeno que não se restringe ao Brasil.

    3) As descobertas relacionadas ao petróleo do Pré-Sal, os recursos naturais de que dispomos e a inserção brasileira na geopolítica internacional na década passada trouxeram o país para o centro de uma disputa entre os EUA (potência em declínio) e a China (potência emergente) coligada com a Rússia. Além de nossas contradições internas, a ascensão da extrema-direita no Brasil nos últimos anos também é efeito da chamada Guerra de 4ª Geração. Principalmente porque os governos de esquerda buscaram um alinhamento internacional com um grupo de nações que ficaram conhecidas como BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

    4) Bolsonaro é um autoritário proto-fascista. Não é neoliberal nem anarcocapitalista como seu ministro Paulo Guedes. Seus atos presidenciais são marcados pela desonestidade intelectual, pelo grotesco e pela bizarrice. É notório seu despreparo para o cargo, mas sua estratégia política tem sido extremamente eficiente em anular as esquerdas e em manter um contingente não muito elevado (mas aguerrido) de apoiadores, sobretudo nas redes digitais.

    5) A democracia para ele é uma questão de conveniência.  Enquanto o sistema eleitoral servir aos seus interesses, ele se sujeitará a disputar as eleições. Se ele for derrotado sob qualquer circunstância, contra qualquer candidato, ele não entregará o poder pacificamente. Em 2018, ele já tinha um discurso pronto (a tese da fraude das urnas eletrônicas) para justificar uma eventual derrota e contestar um resultado que lhe fosse adverso. Agora que ocupa a cadeira presidencial, que argumentos terá ao seu dispor para se negar a deixar o poder?

    6) Enquanto Bolsonaro for bem-sucedido em manipular as eleições através das “fake news”, de mensagens enviadas pelas redes digitais e por aplicativos de comunicação, as eleições continuarão a acontecer. Mas isso não significa que continuamos numa democracia. Na ditadura havia eleições…

    7) O grupo que hoje está no poder formou um “consórcio do ódio” para vencer as eleições. A base de apoio bolsonarista, apesar das fissuras recentes, continua forte, embora sem coordenação. É formada por segmentos da grande propriedade agrária (agronegócio), por segmentos religiosos fundamentalistas seja no campo evangélico (setores intelectuais presbiterianos, evangelismo norteamericano e pastores neopentecostais), seja por extremistas católicos que fazem oposição ao próprio Papa (catolibãs). O Presidente ainda conta com apoio de frações do grande capital, sobretudo dentre os grandes rentistas. Ao mesmo tempo, o governo sublocou sua agenda econômica ao Congresso Nacional. O presidente da Câmara se comporta como um primeiro-ministro não declarado em temas de economia e nas finanças, como se estivéssemos em um “parlamentarismo branco”. O setor financeiro agradece e lucra como nunca.

    8) A grande imprensa se divide entre o apoio quase incondicional e a oposição à agenda moral do governo. Se a mídia capitalista não o apoia totalmente, tem muita responsabilidade pelo atual estado de coisas. TV, rádio e jornais deram grande contribuição à polarização política, pois ajudaram a incendiar o país, criando um ambiente social que permitiu a ascensão do bolsonarismo ao poder, sepultando quaisquer vestígios da chamada Nova República.

    9) O “Messias” busca constituir um aparato político-militar que o sustente indefinidamente no poder. Para tanto, está cada vez mais cercado de militares, terceirizando setores do governo aos quartéis para, caso descarte o processo eleitoral, ter um dispositivo militar para governar o país sem eleições, com poderes absolutos. Por isso, há tantos militares ocupando postos-chaves no Poder Executivo. Os oficiais-generais que estão no governo compartilham ou da mesma visão de mundo de Bolsonaro ou da aversão que ele tem às esquerdas e aos movimentos sociais. Mas esse é o eixo institucional do aparato de poder bolsonarista. Existe outro, oculto.

    10) Diferente de outros governos conservadores, o consórcio que está hoje no Planalto tem conexões não explicadas com o pior do banditismo nacional e da criminalidade mais abjeta. No campo e na cidade, grupos paraestatais se veem autorizados para impor o terror e à violência a seus opositores (indígenas, negros, feministas, movimentos sociais, comunidade LGBT, moradores das periferias, intelectuais, servidores públicos, professores e jornalistas investigativos) e por exercer formas de dominação autônomas face aos poderes constituídos. Os autores das queimadas da Amazônia, as milícias no Rio e em outras partes (talvez na Bahia e no Ceará?), e grupos armados (jagunços), patrocinados pela grande propriedade agrária, estariam de alguma forma em simbiose com os atuais donos do poder central?

    Será esse o eixo oculto do dispositivo ditatorial que está em curso no Brasil? Não há como afirmar. Queimas de arquivo recentes talvez tenham sido eficientes em encobrir a verdade dos fatos. E podem ocultar da sociedade brasileira ligações que tornariam evidentes o que hoje parecem ser apenas indícios.

    OBS: Agradeço a Ivo Lesbaupin e a Névio Fiorin a leitura preliminar e as sugestões ao texto.

    * Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor da Educação Básica. Católico, participa do Movimento Fé e Política.

  • “É assassino quem tira a vida dos pobres” (Eclesiástico 34, 25)
    Mensagem dos Frades Dominicanos no Brasil

    Hoje no Brasil, os Direitos Humanos vêm sendo violados, não como exceção, mas como rotina. Povos indígenas são ameaçados em seus direitos e seus territórios: várias lideranças indígenas foram assassinadas nos últimos meses, como os guajajaras Paulo, Firmino e Raimundo, no Maranhão. A Amazônia sofre violência, queimadas e devastação por mineradoras, garimpeiros, madeireiros e latifundiários. Neste chão, hoje entregue à ganância dos poderosos, posseiros e sem-terra, lideranças populares e defensores de direitos são equiparados a delinquentes e vilipendiados por um Estado que abriu mão de suas responsabilidades na efetivação das reformas agrária e urbana, e de políticas sociais inclusivas.

    Enquanto isso, permanecem impunes ecocídios mortíferos como em Mariana e Brumadinho, a reforma trabalhista estanca as possibilidades de se exigir condições dignas de trabalho, ao desarticular a legislação e dificultar o acesso à Justiça. Abre-se cada vez mais espaço para o trabalho precarizado, o desemprego e subemprego, e até a tolerância para o trabalho escravo. Movidos por nefasta ideologia ultraliberal, os poderes públicos se omitem, entregando os indefesos à sua sorte e deixando os poderosos aos seus lucros. A cada minuto quatro mulheres em nosso país são agredidas. A esperança de vida para transexuais no Brasil não ultrapassa 35 anos. Mais de 100 mil pessoas vivem ao relento, pois se encontram em situação de rua. Metade da população brasileira não dispõe de saneamento, sendo exposta a muitas enfermidades, enquanto o sistema público de saúde se encontra sucateado. Crianças, jovens, adultos são mortos por balas “perdidas”.

    Embora mais da metade da população brasileira seja formada por negros e pardos, fazendo de nosso país a segunda nação com maior contingente de negros do mundo, aqui esses nossos irmãos e irmãs – mais de 130 anos após a abolição da escravatura –, sofrem preconceitos e discriminações em dose dupla: por serem negros e pobres. São muitas as pessoas caídas à beira da estrada. Como na parábola do “bom samaritano” (Lc 10, 30-37), cada um de nós é desafiado a abrir o olho e tomar atitudes. Nós mesmos, como reagimos? Com aquela indiferença denunciada pelo Papa Francisco? Ou com aquela agressividade – para não dizer ódio – de quem destrata Direitos Humanos como “coisa de bandido”? Estaríamos dispostos a interromper a nossa rotina, desviar nosso caminho e nos colocarmos a serviço das vítimas de tantas injustiças? Afinal, a quem pretendemos “salvar”: a nós mesmos ou àqueles e àquelas que têm sido violentados, despejados, e assassinados, muitas vezes a mando ou com a anuência do Estado e do poder econômico, seu aliado?

    O compromisso com a defesa da vida e da promoção dos Direitos Humanos é prioridade para nós Frades Dominicanos no Brasil, consoante com nossas  Constituições e as decisões dos nossos Capítulos, e coerente com o exemplo do padroeiro que identifica nossa Província: Frei Bartolomeu de las Casas. Como ele, levamos a sério essa advertência bíblica: “Quem tira a vida dos pobres é assassino. Mata o próximo quem lhe tira seus meios de vida, e derrama sangue quem priva o operário de seu salário”. (Eclo 34, 21-22)

    Discípulos de Jesus, a exemplo dos discípulos de Emaús, não queremos nos deixar abater e não pretendemos caminhar sozinhos. Daqui, de nossa Assembleia anual, impelidos pela urgência frente a tantas violações do direito, da dignidade e da justiça, lançamos um apelo a todas as pessoas de boa vontade: é hora de assumir destemidamente nosso compromisso com a defesa intransigente da vida, da diversidade e do planeta, nossa Casa Comum. Discípulos de um profeta assassinado, porém ressuscitado, proclamamos nossa fé na promessa de uma terra sem males e reafirmamos nosso compromisso de colocar nossa vida religiosa consagrada a serviço do Reino por Ele inaugurado.

     

    Frades Dominicanos do Brasil

    Assembleia Anual

    São Paulo, 31 de janeiro de 2020.

     

    http://www.dominicanos.org.br/index.php

    Foto: http://www.dominicanos.org.br/galeria.php

  • Frei Sérgio Görgen: A Petrobras está dentro de nossas casas

    Esta empresa é uma de nossas maiores façanhas como Povo Brasileiro. Muitos lutaram por ela.

    04/02/2020

    O ônibus que nos leva até a rodoviária, até o bairro ou até o centro da cidade é movido a diesel, com petróleo extraído do fundo do mar, pela Petrobrás e seus trabalhadores, com tecnologia de exploração em águas profundas desenvolvida por engenheiros e cientistas desta nossa amada nação.

    Nossos carros e motos se movem com gasolina, da mesma fonte e da mesma empresa. Assim nossos tratores, caminhões e colheitadeiras. Produzem e transportam o alimento e as bebidas que estão todos os dias em nossas mesas.

    Cozinhamos e aquecemos água – para o café, o chá, o chimarrão – com gás de cozinha originado na forma gasosa de co-produto proveniente da extração do petróleo. Assim também fertilizantes nitrogenados e uma gama enorme de produtos originários da petroquímica estão presentes em nosso quotidiano.  Muito mais do que imaginamos, de plásticos, estofados a chinelos de dedos.

    Em tudo isto, a Petrobrás presente.

    Esta empresa é uma de nossas maiores façanhas como Povo Brasileiro. Muitos lutaram por ela. Muitos desacreditavam de suas possibilidades. Getúlio Vargas assumiu a decisão política de cria-la no bojo de um fantástico movimento popular chamado “O Petróleo é Nosso”.

    O mesmo Getúlio criou a Fábrica Nacional de Motores e a Companhia Brasileira de Tratores. Mas Juscelino Kubitscheck, em troca de multinacionais automobilísticas e de máquinas agrícolas, rifou a indústria e a tecnologia nacional. O militares nacionalistas – já existiu este tipo de seres em nosso país – não aceitaram entregar a fabricação de aviões e a Embraer sobreviveu como empresa nacional até dias atrás.

    E assim a FNM e a CBT foram extintas e os motores de nossos ônibus, carros, motos, tratores, colheitadeiras, caminhões são todos produzidos por multinacionais e o lucro vai para fora. E vivemos o paradoxo de um povo que desenvolveu ciência para explorar petróleo em águas profundas e construir aviões, mas não sabe fazer uma motocicleta, um carro, …… Não que não sabe, é que houve uma decisão política que entregou isto a outros e matou o que era nosso. Matou a ciência, o saber, a indústria.

    Agora as multinacionais querem também a Petrobrás e todo o nosso Petróleo.

    O processo está em andamento, por isto o preço dos combustíveis e do gás já está dolarizado e sobe conforme a moeda americana. As refinarias da Petrobrás produzem 70% de sua capacidade e nós exportamos óleo cru e importamos diesel. Petrobrás produz adubos nitrogenados. Fecharam a fábrica e passaremos a importar encarecendo ainda mais os custos de produção agrícola, que vai encarecer o alimento.

    Os trabalhadores da Petrobras, os heroicos Petroleiros, estão na linha de frente para resistir e não deixar que este descalabro aconteça.

    Fosse por mim, não queria a Ford, a Mercedes, a GM, a John Deere ganhando dinheiro nas nossas costas e levando o lucro para fora enquanto nosso povo passa necessidade. Mais dia, menos dia, um projeto nacional começará a reverter esta desnacionalização reconstruindo uma nação livre, justa e soberana.

    Precisamos a Petrobras nacional e pública dentro de nossas casas, em nosso quotidiano, industrializando o país e gerando emprego, vendendo combustível em reais e não em dólares. Dispensamos a Esso, a Shell, e outras que tais, sugando nosso suor, nosso sangue e levando nossas riquezas.

    Até para a grande transição ecológica que as mudanças climáticas nos obrigarão a fazer, diminuindo paulatinamente a petrodependência em nossa economia, em nossa agricultura e em nossa sociedade, será mais fácil e mais viável com uma Petrobrás nacional e pública.

    Viva a resistência petroleira. Todo o apoio à greve dos petroleiros. Somos todos petroleiros.

    Frei Sérgio Antônio Görgen ofm. – Frade Franciscano, Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores.

    https://jornalggn.com.br/artigos/a-petrobras-esta-dentro-de-nossas-casas-por-frei-sergio-antonio-gorgen-ofm/

  • DOM, COMPROMISSO E PLURALIDADE: PELO DIREITO DE SER NO CATOLICISMO

    DOM, COMPROMISSO E PLURALIDADE: PELO DIREITO DE SER NO CATOLICISMO

    Por Jorge Alexandre Alves*

    O surgimento de grupos ultraconservadores no catolicismo tem chamado a atenção mais pelo barulho que fazem do que pela quantidade de membros que possuem. Com considerável aporte financeiro, têm sido relativamente eficazes em disseminar sua ideologia religiosa, assumindo para a si a missão de “recristianizar a Igreja”, nas palavras de Thais Oliveira. Contudo, é no ambiente líquido das redes sociais onde seu alcance é maior.

    Nas últimas eleições, o extremismo católico surfou na onda do conservadorismo de extrema-direita que colocou Jair Bolsonaro no Planalto e vários similares do gênero nos governos estaduais. Os catolibãs também elegeram representantes para o parlamento federal e nos legislativos estaduais também. Assim, seu discurso hoje está amplificado e potencializado pelo momento político vivido no país. Por isso, se por um lado são pouco numerosos, por outro não podemos desconsiderar o alcance de sua “catequese”.

    No contexto do catolicismo, suas falas e proposições vão na contramão do magistério do Papa Francisco. Alguns de forma velada e outros abertamente criticam o Bispo de Roma. E assim, constituem a linha de frente da resistência às reformas que Bergoglio vem tentando promover na Igreja.

    Com certa frequência, atacam a CNBB e sua direção, acusando-os dos mais variados disparates (comunistas, lenientes com a defesa da fé ou mesmo hereges). Não obstante o ataque à conferência episcopal, alguns prelados apoiam abertamente tais grupos. Os extremistas leigos acabam fazendo o “jogo sujo” contra o Papa que muitos eclesiásticos não têm coragem de fazer abertamente.

    Dessa forma, em algumas (arqui) dioceses muito conservadoras esses grupos tem feito ecoar com mais força sua mensagem intolerante. Há uma certa cultura católica em implementação por esses grupos. Aqui reside o problema, porque tal modus operandi tem se caracterizado pelo fundamentalismo religioso, permeado por um discurso de ódio a tudo o que tais grupos consideram contrários a fé cristã católica.

    O extremismo católico direciona seus ataques fundamentalmente sobre qualquer pessoa, grupo, movimento ou expressão que possa ter vinculação à Teologia da Libertação. Mesmo que isso esteja bem longe da verdade, como aconteceu em 20/11/2019, em celebração pelo Dia Nacional da Consciência Negra, numa paróquia a poucos metros da sede do arcebispado do Rio de Janeiro. Os catolibãs consideram essa teologia (e toda pastoral que se produziu a partir dela) a origem de todos os males do catolicismo contemporâneo brasileiro.

    Esses grupos se entendem como verdadeiros “cruzados” do Novo Milênio, a caça de hereges em nome sã doutrina da Igreja. Travestidos de paladinos da tradição, destilam ameaças, difamações e perseguições a quem eles consideram responsáveis de, através da TdL, corromper a Igreja, infiltrando na esposa de Cristo o marxismo cultural, a ameaça a família e a subversão dos valores da cristandade. Agem com enorme violência simbólica, com doses cavalares de agressividade virtual através da internet, nas redes digitais.

    É nesse contexto explosivo que a Campanha da Fraternidade nos interpela com a temática da compaixão, do cuidado e da solidariedade. E faz uma significativa reflexão sobre o papel da vida como dom e compromisso cristão, trazendo uma poderosa imagem: a do Bom Samaritano. Cabe perguntar como podem grupos que se dizem defensores da fé da mais genuína Tradição ignorarem a mensagem contida nessa narrativa do Evangelho?

    Nove parágrafos do Texto-base (134-142) da CF-2020 desenvolvem a máxima “Cuidar é ter mais ternura na vida”. O parágrafo 135 afirma que “se Deus é ternura infinita, também o ser humano é capaz de ternura”. Sendo assim, onde está a ternura daqueles que, em nome da fé, espalham ódio e intolerância internet afora? Mais à frente, o parágrafo 137 começa afirmando que “não é possível falar de cuidado sem falar de ternura”. Que cuidado é esse dos catolibãs para com o próximo que se baseia na mentira, no ataque e na violência?

    Decerto que a ênfase da Campanha está relacionada ao cuidado com os pobres, os excluídos, aqueles sofrem nas periferias existenciais do mundo de hoje. Estes uma grave exigência à Igreja e aos seguidores de Jesus de Nazaré: que se coloque em saída, muito mais como hospital de campanha. Nesse contexto, a Eucaristia deve ser muito mais consolo e remédio do que prêmio para os bons, como nos ensina o Papa.

    Logo, fazendo jus ao significado mais profundo do termo católico, a Igreja deveria ser uma campeã do diálogo e da escuta, da construção de pontes. Consequentemente, todo católico deveria também recusar os muros da intolerância e do fechamento em si mesmos. Como defender a fé, anunciar a Boa-Nova e seguir ao Cristo indo na contramão desses princípios?

    As questões anteriormente suscitadas por uma breve reflexão sobre a CF-2020 já vêm sendo feitas há algum tempo. O extremismo dos catolibãs causa espanto e indignação em muitos grupos, dentro e fora da Igreja. Por vezes, ao manifestar publicamente seu escândalo com os fundamentalistas, pessoas e grupos também são criticados como incapazes de dialogar.

    Evidentemente, é fato que precisamos ser assertivos e abertos o suficiente para compreender as razões de tanta gente ter adotado uma narrativa baseada no ódio, sobretudo no campo da política. Mas no contexto religioso cristão-católico, o que fazer quando se é alvo e sua forma de crer é acusada de forma desonesta e vil? Neste caso, não se trata mais de uma limitação nas tentativas de estabelecer uma espécie de diálogo “intraecumênico”.

    Muitas vezes, debatendo sobre a questão do fundamentalismo, se interpela os adeptos da Teologia da Libertação com uma crítica bastante séria. Ao se escandalizarem publicamente com o tradicionalismo impregnado de ódio dos extremistas, estariam colaborando mais para o aprofundamento da divisão na Igreja do que para a pacificação dos espíritos. É uma crítica contundente, sem dúvida.

    No entanto, o problema é de outra natureza. E muito mais grave atualmente, uma vez que o diálogo somente é possível quando existe predisposição para a conversa. A raiz do problema se encontra nessa questão.

    Portanto, como estabelecer pontes com quem lhe vê como inimigo da Igreja e da fé? Com quem lhe nega a sua condição básica e fundamental de batizado? Com quem não reconhece que você tem o direito inalienável de escolher como ser cristão, e que podem haver outros modos legítimos de viver a fé?

    A acusação feita aos que se identificam com a Teologia da Libertação resvala em certo discurso presente nos ambientes paroquiais da arquidiocese do Rio de Janeiro em meados dos anos 1990. Naquele tempo havia tensões no campo pastoral entre várias tendências católicas, como o modo pentecostal-carismático de ser Igreja, os “movimentos de encontro” e os defensores de uma pastoral libertadora. Dizia-se que os carismáticos tinham a espiritualidade e o pessoal da TdL tinha o engajamento social. Muita gente afirmava buscar a síntese dos dois. E talvez seja possível ainda hoje encontrar gente reproduzindo esse discurso e angariando aplausos. Ledo engano.

    Só pode afirmar que não há espiritualidade na Teologia da Libertação quem desconhece o Ofício Divino das Comunidades ou a experiência fecunda de Penha Carpanedo e de tantas pessoas na Rede Celebra no campo da liturgia. Quem nunca ouviu com atenção as canções de Zé Vicente ou ignora a mística Hélder Câmara ou de Marcelo Barros.  E desconhece a potência criativa que usa a arte como expressão de fé do Ateliê 15 ou do Movimento dos Artistas da caminhada – MARCA.

    Precisa ser pouco informado ou desonesto para dizer que a TdL é vazia de Deus. Só pode ser coisa de quem nunca celebrou com a PJ ou nunca foi a um encontro de Ceb’s. Ou desmerece a experiência da leitura orante da Bíblia e nem nunca participou de um encontro ecumênico de formação pastoral, como foi o Curso do Rio ou é ainda o Curso de Verão em São Paulo.

    Mais do que tudo isso, negar a existência de uma íntima relação com o Deus de Jesus Cristo na Teologia da Libertação é solenemente ignorar a profunda fé do povo das comunidades. De gente que, contra toda adversidade desses tempos obscuros, continua a caminhar depositando suas esperanças no Senhor e no Reino de Deus. Quem afirma a ausência do sagrado na Teologia da Libertação despreza a fé simples do Povo de Deus.

    Portanto, longe de ser uma atitude fechada, o que se aponta é o elevado grau de fundamentalismo de certos grupos, a pressuposição de que um determinado modo de ser e de viver a fé é o único possível. Ou seja, aqueles que não vivem dessa forma devem ser ou “convertidos” à força ou suprimidos, cortados ou mesmo eliminados da comunidade eclesial.

    Mas também não podemos negar que se pensa a Igreja a partir de outras bases, de uma outra eclesiologia. Consequentemente, se constata um modelo de Igreja fracassou retumbantemente em sua missão de cristianizar o mundo contemporâneo. A renúncia de Bento XVI é a maior evidência disso. Por isso também existem objeções e questionamentos em relação a grupos que, para além de sua intolerância, desejam o resgate de um modo tridentino de viver o catolicismo, totalmente anacrônico.

    Entretanto, diálogo pressupõe escuta mútua e predisposição para se colocar como igual, olhando nos olhos e acolhendo as diferenças. Certamente isso não seria problema para quem se vincula à Teologia da Libertação. Todavia, ninguém quer ser agredido, atacado e violentado em suas crenças.

    Assim, o que parece é que certos grupos pentecostais católicos ou tradicionalistas estão tão convencidos de seu catolicismo embriagado de triunfalismo, são tão senhores da verdade que se recusam em reconhecer aqueles ligados à TdL como irmãos na fé.  Para os catolibãs, estes são como a lepra, hereges perigosíssimos. Como dialogar nesse clima?

    A única coisa que os fundamentalistas parecem desejar é a eliminação de qualquer um que se declare simpatizante da Teologia da Libertação como sujeitos eclesiais (alguns parecem até que, se pudessem, os queimariam numa fogueira tal qual se fazia nos autos de fé da Inquisição) ou a à capitulação diante do que se acredita ser o seguimento de Jesus. Com efeito, não parecem muito dispostos a quaisquer formas de diálogo. Tampouco querem debater teologia ou perspectivas eclesiológicas.

    Esses cristãos se veem numa batalha messiânica.  Por isso estão numa disputa permanente com quem não comunga de seus princípios. E aí entramos nós, que somos os alvos desse combate. Esse embate não foi por nós provocado e não ocorre em bases racionais.

    Ao mesmo tempo, é necessário não se deixar intimidar pelo ódio e pelo extremismo do catolibãs. Precisamos reafirmar o direito á diferença no catolicismo. Aliás, o termo católico significa universal. Em 2000 mil anos de cristianismo, essa universalidade nunca foi sinônimo de uniformidade.

    Não podemos ser ingênuos a ponto de crer que a pluralidade será facilmente aceita pelos intolerantes, como efeito de uma sensibilização dos espíritos ou por uma ação milagrosa de natureza divina. Esses grupos não estão abertos a esse caminho de conversão (metanoia). Tampouco serão convencidos através de argumentos racionais.

    A disputa se dá no plano simbólico, na subjetividade e nas narrativas.  Por isso, será muito difícil construir qualquer ponte com essa gente. Se eles nos reconhecem como interlocutores, eles deixam de ser quem são. Ora, só há existência para eles se eles tiverem um inimigo da fé, uma ameaça à cristandade a ser combatida.

    Para os catolibãs, apenas faz sentido defender a fé nessas bases.  Eles precisam de inimigos para manterem sua própria identidade. Por isso, a necessidade de alvos. Contra inimigos não há ternura, nem cuidado, nem humanidade. Só resta o ódio. Como lidar com isso?

    * Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor da Educação Básica e participa do Movimento Fé e Política.

    REFERÊNCIA:

    OLIVEIRA, Thais Reis. Os católicos ultraconservadores que querem “recristianizar” o Brasil. Disponível em: https://vermelho.org.br/2020/01/20/os-catolicos-ultraconservadores-que-querem-recristianizar-o-brasil/ Acesso em: 29/01/2020

  • Pedro A. Ribeiro de Oliveira – Análise de conjuntura – 2020

    Introdução

    Este texto atualiza a análise publicada em maio de 2019, evitando repetir suas justificativas teóricas e os dados de caráter estrutural[1]. Sua novidade reside no aprofundamento das consequências da derrota do povo brasileiro na guerra de 4ª geração que derrubou o governo Dilma e resultou no atual regime ultraliberal. Quanto ao esquema, o texto segue a forma habitual: o sistema Terra, o sistema-mundo capitalista e o Brasil.

    Sistema Terra

    catástrofe climático-ambiental continua a dar sinais de antecipação. As medidas recomendadas pela comunidade científica internacional no sentido de evita-la continuam sendo promessas vagas. Devemos esperar, portanto, o agravamento das dificuldades climáticas porque a data-limite para estancar o processo é o ano de 2021. Sinal positivo é o Fórum Econômico de Davos receber neste ano a adolescente Greta Thumberg, que deu seu recado de protesto a quem manda no mundo dos negócios e na política: os 2.150 bilionários cuja riqueza equivale à riqueza de mais da metade da população mundial. Mas é preciso ser ingenuamente otimista para acreditar que aquele clube de ricaços (cujo número dobrou depois da crise 2008) abra mão da riqueza que lhe garante status privilegiado para evitar a deterioração da vida na Terra. Noticia-se que uma parte deles aceita abrir mãos de (alguns) privilégios, mas outra parte continua dizendo que o clima é um problema entre outros, e que o importante é o crescimento econômico. Se eles não se mexem em favor da Terra, tampouco se mexem os milionários, os muito ricos ou apenas ricos. Sinal disso são os dividendos da Vale, que superaram as indenizações pelo crime de Brumadinho, levando suas ações a recuperar o valor anterior à tragédia.

    Longe do mundo dos milionários e ricaços, porém, cresce na juventude a consciência da Terra como sujeito de direitos e isso poderá trazer resultados positivos para a vida da Terra e da Humanidade. Também os povos originários e tradicionais – exímios cuidadores da natureza – estão assumindo protagonismo no mundo político. Ameaçados de extinção, eles ganharam nova energia. Os novos movimentos sociais, organizados de forma horizontal, como coletivos, despontam como sujeitos do processo que marcará o final do atual modo de produção e consumo capitalista. Ainda é cedo para saber por quanto tempo esses coletivos serão atuantes e qual a sua real incidência nesse processo (porque com a mesma rapidez que se formam, podem se desfazer), mas diante do esgotamento das instituições políticas usadas pelas classes trabalhadoras (partidos, sindicatos, igrejas) é neles que hoje surgem sinais esperançosos de mudança. Ainda que não seja mais possível escapar da catástrofe que se anuncia, ela poderá ser amenizada se esses coletivos conseguirem produzir a real solidariedade universal, como é seu propósito.

    Sistema-mundo capitalista em crise – clima de guerra

    A crise financeira de 2008 marca o final do ciclo de acumulação puxado pelos EUA no século 20. A intervenção dos Bancos Centrais injetando alguns trilhões de US dólares no sistema bancário deu-lhe uma sobrevida, mas não alterou o processo de financeirização do capital, que beneficia a concentração da riqueza em poucas mãos. Hoje 147 grupos (dos quais 75% são bancos) controlam 40% do sistema corporativo mundial, de modo que 1% dos habitantes da Terra detêm riqueza igual à dos 99% restantes. Enquanto o capital financeiro se agiganta, os capitais produtivos quase não crescem, exceto no campo polarizado pela China e pela Índia, fazendo que o polo mundial se transfira do Atlântico Norte ao Pacífico.

    O poder militar, porém, continua sendo dos EUA, que exibiu sua força ao matar o principal chefe militar iraniano em visita ao Iraque. Não se enquadrando numa operação de guerra, esse atentado confirma que os EUA hoje não se submetem às normas do convívio internacional. E isso alimenta o clima de tensão mundial, que caminha para a intensificação dos conflitos armados.

    Essa crise financeira que se encaminha para o agravamento de conflitos militares incide no campo das ideias e das relações políticas como expressão de um mal-estar generalizado. O processo de dissolução da civilização ocidental moderna (capitalista, colonialista, patriarcal e antropocêntrica) está avançando, fazendo eclodir movimentos reacionários ou ultraconservadores – dos quais o bolsonarismo é um exemplo – em diferentes partes do mundo. Sua presença se dá também no campo religioso: os fundamentalismos e a oposição a Francisco atacam intransigentemente as inovações em nome de um passado idealizado. S. Bannon –que respalda os reacionários no campo político (campanhas eleitorais) e no campo religioso e cultural – é um dos cérebros desses movimentos de reação ao processo de construção de uma sociedade planetária. Eles são incapazes de apontar uma solução viável às dificuldades do tempo presente, mas têm a capacidade de demolir as propostas de estruturas sociais, econômicas, culturais e políticas alternativas àquelas da civilização ocidental em decadência. Daí o mal-estar contemporâneo que parece atingir todos os setores da sociedade.

    Em muitos lugares da Terra esse mal-estar resulta em guerras. Seu pretexto varia: podem ser questões étnicas, religiosas, políticas, combate ao terrorismo ou às drogas, mas trata-se sempre de eliminar um poder definido como hostil. No final do século 20, as corporações e o governo dos EUA impuseram sua vontade unilateral ao resto do mundo, mas o ressurgimento da Rússia, a emergência da China como maior economia mundial, e a resiliência da União Europeia quebraram aquela hegemonia. Hoje temos um quadro multipolar no qual as tensões se equilibram sem chegar ao confronto direto entre as grandes potências, embora não esteja descartado um conflito de grandes proporções – inclusive com o uso de armas nucleares de baixa intensidade.

    A novidade das guerras do século 21 é o uso racional e metódico da informação via internet como meio de ataque a um poder hostil. Trata-se de produzir informações parcialmente verdadeiras (pós-verdade) ou falsas (fake-news) que sejam plausíveis para quem as recebe. Difundidas pela grande mídia (TVs, rádios e jornais), redes digitais, ou instituições (Igrejas, ONGs, institutos de produção de ideias), elas são replicadas por quem as recebe, multiplicando-se nas redes virtuais (como o vírus do hacker). Elas agem sobre as consciências no sentido de deslegitimar o inimigo (a acusação mais frequente é de corrupção) até que, fragilizado esse poder seja facilmente derrubado por meios militares, políticos ou judiciais. Essa forma de guerra (chamada híbrida ou de 4ª geração) foi experimentada no Iraque (em 2003) e depois na Primavera árabe. O Irã é alvo constante dessa guerra, mas tem resistido, tal como a Venezuela. Em nossa América, ela foi empregada em Honduras, na Venezuela, no Paraguai e agora na Bolívia. No Brasil, ela conduziu o processo de derrubada da Presidenta Dilma até a eleição de Bolsonaro e mantém-se até hoje como forma de dissuasão a possíveis reações populares contra o regime em vigor.

    Para entender essa forma de guerra, é preciso ter em conta que ela não tem um único comando centralizado, mas diferentes nodos – grupos de poder econômico, político, cultural e militar – atuando em vista de seus próprios interesses, mas objetivamente conectados e reforçando-se mutuamente. P. ex.: agências governamentais e fundações dos EUA oferecem bolsas para formar gente que vai pensar e atuar conforme suas leis e valores; agências de segurança interceptam informações que trafegam na internet e definem os alvos para ataques policiais ou econômicos (ver Snowden); sites produzem e falseiam notícias, que são reproduzidas por instituições confiáveis e replicadas na rede virtual; promovem-se manifestações públicas, com repercussão midiática, que enfraquecem as instituições definidas como “hostis”. O resultado é que a grande massa, confundida por notícias disparatadas, acaba sendo levada por argumentos que apela antes para as emoções do que para a razão.

    É claro que o sucesso das guerras de 4ª geração requer a cumplicidade de grupos sociais no país alvo. No caso do Brasil, foram os 20.000 muito ricos, que romperam o pacto de 2002 com o PT (que suspendeu as reformas agrária, fiscal e política e a auditoria da dívida pública em troca da governabilidade e do projeto social-desenvolvimentista do governo Lula) e se alinharam com as corporações e o governo dos EUA. Disso resultou o governo Temer-PSDB e a eleição de Bolsonaro, ambos dando cobertura à política ultraliberal: o máximo ao mercado, o mínimo ao Estado de proteção social.

    Brasil: Estado cliente

    Se aceitarmos a hipótese – plausível, embora sujeita a contestação – de que houve uma guerra de 4ª geração vencida pelas corporações e governo dos EUA com a cumplicidade dos muito-ricos do Brasil, devemos explicitar suas consequências. A primeira delas, já mencionada em textos anteriores, foi a derrota histórica das classes trabalhadoras e dos setores nacionalistas[2]. Outra consequência foi a imposição de um regime de subordinação do Estado brasileiro aos vencedores. Para facilitar a compreensão, podemos fazer um paralelo com o regime em vigor na França após sua derrota diante do exército alemão em 1940[3]. O Marechal Pétain, herói da Guerra de 1914-18, assumiu o governo do Estado Francês e assinou o armistício que dividiu o território francês em duas partes. Uma, ficou sob controle direto das forças alemãs de ocupação e outra, com cerca de 3/5 do território mais as antigas colônias, ficou sob governo francês com sede na cidade de Vichy. Sua soberania era apenas formal, para permitir a manutenção das relações diplomáticas e o controle das “províncias ultramarinas”, porque de fato só fazia o que não contrariasse a orientação nazista. Por isso, pode ser usado o conceito de “Estado cliente” da Alemanha. Embora contestado por um pequeno setor militar comandado por De Gaule, refugiado na Inglaterra, e por grupos nacionalistas de esquerda, que assumiram a Resistência na clandestinidade, aquele governo sobreviveu até a invasão aliada em 1945, tendo o apoio das classes médias e altas e do clero católico.

    É evidente que a realidade do Brasil hoje é muito diferente do que ocorreu na França e em outros países sob ocupação nazista. Mas se houve uma guerra e uma derrota – tal é nossa hipótese de trabalho – o regime aqui imposto não decorre somente de uma troca de governo resultante das eleições de 2018. Novos parâmetros políticos foram estabelecidos pelos vencedores: a Constituição e as instituições republicanas permanecem em vigor, mas seu funcionamento foi enviesado para proteger os interesses das corporações e das empresas a elas subordinadas, em detrimento do trabalho[4]. Os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, devidamente amparados pelo Ministério Público e pelas Forças Armadas, estão conduzindo a sociedade brasileira na direção do ultraliberalismo econômico. A redução dos gastos públicos com políticas sociais, as privatizações, o favorecimento ao agronegócio, as concessões de exploração mineral na Amazônia e em Territórios Indígenas, e outras medidas já anunciadas são evidências de que aquele projeto avança praticamente sem resistência da sociedade.

    A cada semana tomamos conhecimento de novas violações de Direitos assegurados pela Constituição, mas a indignação dos setores democráticos não resulta em punição dos transgressores nem produz efeitos na política: na hipótese mais favorável, o responsável é demitido e outra pessoa toma seu lugar. A cena política é ocupada por falas provocadoras ou disparatadas do presidente, de algum ministro ou ministra e de pessoas de seu entorno, produzindo indignação de um lado e recebendo aplausos de outro. Esses jogos de cena distraem o público enquanto a equipe econômica de P. Guedes faz seu serviço nos bastidores. É importante observar que os resultados nefastos dessa política, especialmente para os setores de média e baixa renda, já são evidentes, mas os equipamentos da guerra de 4ª geração continuam em pleno funcionamento: a Mídia corporativa, as redes digitais, setores importantes das Igrejas evangélicas e católica, e organismos formadores de opinião tratam de camuflar as notícias e, sempre que possível, atribuem os malefícios atuais aos governos passados ou os apresentam como remédios amargos mas necessários para o País atingir a almejada prosperidade geral. De vez em quando faz-se ouvir a voz de militares – boa parte deles treinados para manter a lei e a ordem dos brancos no Haiti – para lembrar que o atual regime tem seu respaldo e que não serão tolerados desvios de seu rumo político.

    Nesse contexto, é ingênuo propor manifestações de massa, greve geral ou ocupações de terra, assim como é ingênuo pensar que uma vitória eleitoral possa mudar o regime. Há que se disputar as eleições municipais, pelo menos para dificultar o avanço do projeto ultraliberal em âmbito local e constituir mandatos em defesa das causas populares, mas sabendo que elas se limitam a reduzir danos. Também a atuação nos espaços sindicais, de associações civis, movimentos organizados e Igrejas deve ser conduzida por objetivos claros: minimizar o alcance da política econômica ultraliberal e de seus efeitos colaterais. No contexto de um Estado que hipotecou sua soberania, as ações de libertação têm que mirar o médio e o longo prazo, preparando hoje o terreno para a contra-ofensiva que deverá aguardar o momento oportuno para alcançar êxito.

    Diante do quadro acima, o atual momento brasileiro deve ser visto como um “deserto fértil”, no dizer de D. Hélder. É o momento de plantar as sementes que alimentarão o processo de criação de um novo modo de produção e consumo justo, construtor da paz e respeitoso da Terra. Essas sementes serão tanto mais fecundas quanto mais forem adubadas pelo exame sereno e crítico dos erros e equívocos cometidos pelas forças populares, que não perceberam a realidade de guerra de 4ª geração na qual foram envolvidas. Uma dessas sementes é a conscientização popular, tema que preciso estudar e aprofundar antes de aborda-lo num futuro artigo.

    [1] A pessoa interessada encontrará esses textos em:  http://www.ihu.unisinos.br/588773-analise-de-conjuntura-em-tempos-de-guerra-artigo-de-pedro-a-ribeiro-de-oliveira ou em http://fepolitica.org.br/pedro-ribeiro/analise-de-conjuntura-em-tempos-de-guerra/

    [2] Não cabe aqui analisar seus erros estratégicos, porque a derrota era inevitável devido à superioridade das armas de 4ª geração empregadas pelas forças vencedoras.

    [3] Para quem não conhece esse fato histórico, um breve relato encontra-se em https://pt.wikipedia.org/wiki/França_de_Vichy

    (Publicado originalmente no site do Movimento Fé e Política, e 03/fevereiro de 2020)

  • Sobre as águas do Rio, sobre as águas da CEDAE



    Toda reflexão sobre o Rio de Janeiro, sua dinâmica, sua beleza, sua gente e inclusive seus (não poucos e nem pequenos) dramas, passará pelas suas águas em algum momento. Da água benta da procissão de São Sebastião aos pulos sobre as sete ondas em Copacabana no Reveillón. São ás aguas da Baía de Guanabara, de Copacabana, do quebra-mar da Barra, do pisicinão de Ramos, da Lagoa…

    Mas, tragicamente, são as águas das enchentes na Praça da Bandeira, em Madureira e em Jacarepaguá. São ás águas das chuvas que alagam a rua do Catete, que levam morro abaixo os barracos da gente pobre… Também são as águas da Cedae, da adutora do Guandú, que nem na cidade do Rio está localizada.

    Para além da cidade, a água tem profunda simbologia. Está intimamente vinculada á vida, afinal somos majoritariamente… ÁGUA! Por isso ela é tão ligada ás cerimônias religiosas. Presente nas mitologias indígenas, avatar de divindades das religiões afro-brasileiras, é pelas águas que os Cristãos são inciados em sua fé religiosa, renascendo para uma vida nova.

    Mas na Cidade Maravilhosa, hoje á agua provoca desconfiança, adoece a população e esvazia o bolso do cidadão. Neste verão, a água sangra a alma carioca. E sufoca os mais humildes

    Quando nós, professores da rede estadual, fizemos greve em 2016, o Estado do Rio de Janeiro começa a viver a profunda crise fiscal e financeira que se perdura até hoje. Para poder colocar os salários do funcionalismo em dia e sair do buraco, o governo se submeteu a acordos financeiros com instituições bancárias. Deu a Cedae como garantia, prometeu privatizá-la. Brasília autorizou o acordo e o banco liberou a grana. E a joia do patrimônio público estadual estava empenhada.

    Na época, apenas os mais atentos se deram conta de um detalhe: A companhia estadual de água e esgoto era um empresa saudável, que havia ficado praticamente de fora dos escândalos de Cabral e Pezão, e lucrava para o Estado R$ 70 milhões por ano. Nós, cidadãos fluminenses, temos que aturar o cretinismo dos governantes que fazem ilações sem apresentar provas.

    Afinal, desde quando o sucateamento da Cedae é sabotagem? Só se for a do Poder Executivo que, em nome dos interesses privados de seus mandatários, prejudica a vida da população e faz a festa dos comerciantes e distribuidores de água mineral. É evidente que essa história da água barrenta com gosto ruim é uma tentativa de justificar a privatização da empresa. Um meio de convecer a população de que o serviço público não é bom, a empresa é ineficiente e que nas mãos da inciativa privada teremos uma água de qualidade superior.

    Mais uma vez o Rio e o Brasil indo na contramão dos interesses da população. E nem podemos contar com os canais de televisão e com os jornais para um debate sério. Ao contrário, já seria de conhecimento público que, na Alemanha e no Reino Unido estão reestatizando as empresas de saneamento e de eletricidade por que as privatizações, após mais de duas décadas, pioraram a qualidade dos serviços essenciais.

    Enfim, este verão, que poderia ser marcado pelos 50ºC a sombra ou pela polêmica dos megablocos, virou o verão da água suja. Tão suja quanta a cara de pau dos gestores desse combalido estado. Quem sabe tenhamos água limpa com as águas de março…

    Triste sina a do carioca, sitiado pela incompetência e pelo desgoverno em nível municipal, estadual e federal. Mais triste ainda é constatar nossa passividade com essas coisas. Em um descalabro desses, nossos dirigentes nem deveriam poder sair às ruas por causa da insatisfação popular. Mas ao invés disso, ficamos nós caçando água mineral comércio afora como se estivéssemos em uma gincana de colônia de férias.

    Fico me perguntando o que sobrará para nós depois que isso tudo passar. Sim, eu creio que isso tudo vai passar, apesar de tudo. O problema é que parece ainda estar muito distante para enxergar uma luz no fim do túnel.

    *Sociólogo, professor da Educação Básica e carioca da gema

  • Evangelho de Jesus Segundo a Estação Primeira de Mangueira …

    É importante rever este artigo publicado em agosto de 2019, quando foi escolhido o samba da Mangueira.

    Padre Gegê, que preside uma paróquia na “Faixa de Gaza” do Complexo de Manguinhos, inserido no mundo dos pobres e negros, solidário com as famílias que perdem seus entes queridos de forma violenta, nos ajuda neste texto a pensar “fora da caixa” na qual aprisionamos a imagem que temos de Deus, de Jesus Cristo, enfim, de uma fé desencarnada.
    É hora de passarmos de uma política vincadamente policialesca para uma política do diálogo e da troca positiva.

     

    “Sou padre há 25 anos (jubileu) na diocese do Rio de Janeiro, mestre em teologia sistemático-pastoral pela PUC-RJ e doutor em ciência da religião pela PUC-SP. Como religioso católico, acolho a notícia do samba enredo da Mangueira para o carnaval de 2020 como uma provocação às igrejas cristãs amordaçadas neste momento dramático e trágico na história do Brasil. Provocar (“provocare”) é “chamar para a briga”, incitar, desafiar… Desse modo, o enredo da Mangueira de 2020 “A VERDADE VOS FARÁ LIVRES” pode constituir um desafio aos que se dizem cristãos!

    Certa feita, num livro antigo de Leonardo Boff, conheci o termo “profecia externa”. Para o teólogo, a expressão se referia a possibilidade de a sociedade, de diversificada forma, exercer a profecia, isso é, falar em nome de Deus na defesa da vida. Dizendo de outro modo, pessoas e grupos, como, por exemplo, movimentos sociais, em princípio, não religiosos, podem, as vezes com mais coragem do que os que se dizem seguidores ou seguidoras de Jesus, viver e lutar por um mundo de amor, justiça, igualdade, democracia e paz.

    Nesse horizonte, recebo o enredo da Mangueira como “profecia externa”. O último pleito eleitoral revelou setores cristãos (católicos e evangélicos) despudoradamente aliados à grupos políticos promotores da violência e da matança dos pobres e indefesos. De forma explícita e velada grupos cristãos se apresentaram como coniventes dos esquadrões da morte. E todos esses grupos tem hoje nas mãos o sangue dos Wajãpi e responderão no juízo final por suas vidas brutalmente ceifadas. Muitos cristãos, sobretudo da hierarquia religiosa, jamais seriam capazes de assassinar, mas isso não os impede de amolar a faca para que outros o façam.

    Em resumo, a capacidade de o cristianismo ser aliado dos vitimizados da história foi mais uma vez, terrivelmente, posta em cheque. De que lado estão os cristãos: do lado das vítimas ou dos carrascos? A Bíblia está repleta da denúncia acerca de profetas que se venderam e se calaram diante das atrocidades da história . O próprio Jesus aventou a possibilidade de, em face do silenciamento dos profetas, as pedras se pronunciarem na defesa da vida (“as pedras gritarão”). Então, é na contramão da apresentação, por parte de muitos cristãos, de um Jesus Cristo “açucarado”, conivente e insensível ante a dor dos pobres e segregados de toda sorte (indígenas, negros, mulheres, gays, terreiros etc..), que a Estacão Primeira de Mangueira, a meu juízo, profeticamente, pode estar mais próxima do Jesus dos Evangelhos do que muitos que não tiram a Bíblia debaixo dos braços e sabem citar de cor quaisquer capítulos ou versículos. Terá a narrativa da Mangueira mais pertinência e relevância que a dos doutos (e quase sempre arrolhados e encastelados) biblistas?

    A propósito, o termo “Evangelho” quer dizer notícia feliz, interessante, oportuna e significante… De certo, é razoável pensar que o que interessa às vítimas seja diametralmente oposto ao que interessa aos verdugos; a notícia oportuna a senzala não é a mesma desejada pela casa grande. Considerando que Jesus não é propriedade privada de nenhuma igreja e que o Espirito Santo é livre e, por isso, fala onde quer e como quer, é possível pensar num Deus falando na Sapucaí, infelizmente, as vezes de forma mais potente do que nas igrejas.

    Ler o Evangelho é também um ato político, uma interpretação que nasce de um “lugar de fala”, nos termos de Djamila Ribeiro. E não existe leitura – inclusive, bíblica – neutra! Praza a Deus, o discurso da Mangueira, como diz Conceição Evaristo, consiga, na potência evangélica do samba, acordar a Casa Grande de seus sonos injustos! A Verdade que liberta o oprimido, ao mesmo tempo, desnuda e denuncia as mentiras do opressor!

    Desejo, pois, que as igrejas cristãs se convertam do olhar colonialista , preconceituoso e racista para com o carnaval e tantas outras expressões culturais e religiosas afro-brasileiras. É hora de passarmos de uma política vincadamente policialesca para uma política do diálogo e da troca positiva. Ademais, o samba também evangeliza, inclusive aos que se dizem cristãos! Se as “pedras” podem profetizar, por que o samba não pode? Vale repetir: o Espírito Santo é livre e sopra onde quer! As vezes fala onde menos se espera… Deus é desconcertante! Da minha parte, como pesquisador das religiosidades das populações subalternizadas, estou, pessoal e visceralmente, ansioso e esperançoso para ver/ouvir a exegese bíblica do Samba, a versão, a hermenêutica decolonial de Leandro Vieira – o Evangelho de Jesus segundo a Estacão Primeira de Mangueira!”

    *Padre Geraldo Natalino – mestre em teologia e doutor em ciência da religião – é conhecido popularmente no Complexo de Manguinhos como Padre “Gegê”.

  • Ladislau Dowbor: “Não há razão para haver tanta miséria

    O economista da PUC-SP Ladislau Dowbor comenta a proposta do papa Francisco de que jovens economistas reflitam sobre as possibilidades de desenvolver uma “economia diferente”, que “inclui”, “humaniza” e “cuida da criação”. “Nós temos que ampliar o debate e essa é a motivação central do Papa nesse processo, porque estamos enfrentando um caos político generalizado, e a desigualdade, em particular, gerou uma imensa insegurança nas populações”, pontua.

    Entrevistado por Patricia Fachin, 15 Janeiro 2020,  para o IHU.

    Fonte: Wikimidia Programas sociais como o “Bolsa Família consomem apenas 30 bilhões, numero pequeno quando comparado com 230 bilhões ganho pelos super ricos

    Confira a entrevista.

    IHU On-Line — Como o senhor interpreta a convocação do Papa para que jovens economistas reflitam sobre as possibilidades de uma nova economia?

    Ladislau Dowbor — O fato de chamar jovens ajuda muito, pois temos que investir na generalização de novas visões. Estão também convidando diversos países, o que é muito bom, pois tem país rico, pobre, e pessoas de diversas áreas que, evidentemente, não são apenas economistas, mas pessoas das ciências sociais, engenheiros, empresários. Ou seja, é um ambiente que permite construir novas visões. Nós temos que ampliar o debate e essa é a motivação central do Papa nesse processo, porque estamos enfrentando um caos político generalizado, a desigualdade, em particular, gerou uma imensa insegurança nas populações e essa insegurança está sendo aproveitada por demagogos do tipoTrump, Bolsonaro,  Erdoğan, na Turquia, e Duterte, nas Filipinas; o caos está se generalizando. Nós precisamos — no sentido mais forte — construir novos caminhos, porque esse sistema não está funcionando.

    IHU On-Line — Em que contexto surge a proposta do Papa e quais são as razões que o motivam a discutir uma nova economia no atual momento histórico?

    Ladislau Dowbor — Na realidade, não há muitas divergências quanto ao desastre que se criou. Nós somos 7,7 bilhões de habitantes. Todo mundo está querendo consumir mais e isso não está funcionando. Os efeitos disso são o aquecimento global, a liquidação da cobertura florestal do planeta, da vida nos mares e dos insetos, enfim, é só ver o muro das lamentações que os diversos cientistas de diversas áreas estão criando. Em termos ambientais, o fato é que estamos destruindo o planeta.

    O segundo ponto é que estamos destruindo o planeta para uma minoria e a desigualdade está atingindo níveis absolutamente insustentáveis. Não há razão para haver tanta miséria, para haver, por exemplo, 850 milhões de pessoas passando fome, porque só de cereais produzimos mais de um quilo por dia por habitante. Então, o nosso problema é de organização social, de governança. Veja bem: não há nenhuma razão para haver miséria no planeta. Se dividirmos os 85 trilhões de dólares que temos de PIB mundial pela população, isso equivale a 11 mil reais por mês, por família de quatro pessoas. Isso é amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confortável, mesmo sem precisar de uma igualdade opressiva. Basta reduzir um pouco essa desigualdade obscena que existe.

    O terceiro elemento dessa situação crítica é que não existe falta de recursos, pois o planeta tem, em paraísos fiscais, cerca de 20 trilhões de dólares. Isso é 200 vezes aqueles 100 bilhões que a Conferência de Paris decidiu alocar para salvar o planeta do desastre ambiental. O problema é de organização social; não é econômico.

    IHU On-Line — O Papa propõe uma economia “que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda” e afirma que é preciso “re-almar a economia”. Ele propõe também a necessidade de “corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gerações”. Em termos econômicos, o que essa iniciativa implica? Que alterações precisam ser feitas nos modelos econômicos para seguir a proposta do Papa?

    Ladislau Dowbor — É preciso uma alteração sistêmica, porque estamos organizando as corporações, os governos e todas as atividades em função do enriquecimento de grupos financeiros, os chamados mercados, que geram fortunas, mas não resolvem os problemas. Então, o eixo de orientação é relativamente simples: temos que usar os imensos recursos financeiros que são essencialmente improdutivos e estão nas mãos dos grandes grupos financeiros, como bancos e investidores institucionais, para financiar a mudança da política ambiental. Isso significa mudar a matriz energética, a matriz de transporte, criar uma agricultura menos destrutiva e também reduzir e enfrentar de maneira direta a desigualdade, o que implica, essencialmente, organizar a inclusão produtiva das pessoas. Nós temos os recursos financeiros, temos as tecnologias, sabemos onde estão os problemas; é uma questão de reorientação.

    Para mim, as ações prioritárias são, primeiro, gerar a transparência dos fluxos financeiros, dos estoques em paraísos fiscais e coisas do gênero. Isto é, saber onde estão os recursos e como estão sendo utilizados. Segundo, temos que gerar impostos sobre o capital improdutivo, impostos sobre os capitais parados, sobre os imensos patrimônios acumulados. Por meio de Thomas Piketty e um conjunto de economistas, sabemos precisamente o que deve ser feito.

    Quando olhamos os estudos sobre as grandes fortunas no Brasil — 206 bilionários —, vemos algo simplesmente ridículo, pois um homem como Joseph Safra tem, por exemplo, 95 bilhões de reais que poderiam ser investidos em uma coisa útil e servem apenas para especulação financeira. Só nos últimos 10, 12 meses, ele aumentou sua fortuna em 19 bilhões. A família Marinho atrasa seus impostos e tem uma fortuna acumulada de 33 bilhões de reais — isso é mais que a totalidade do Bolsa Família para 45 milhões de pessoas.

    Então, gerar essa transparência, gerar um imposto sobre o capital improdutivo e descentralizar o financiamento de maneira que em cada cidade, em cada comunidade haja uma reapropriação do controle sobre o uso dos recursos financeiros e tecnológicos, é fundamental. Isso funciona na Alemanha, na China, no Canadá e na Suécia. Não é preciso inventar grandes coisas e nem grandes “ismos ideológicos”; basta simplesmente tornar os recursos úteis.

    IHU On-Line — O Papa também convida todos nós a revermos “nossos esquemas mentais e morais, para que possam estar mais em conformidade com os mandamentos de Deus e com as exigências do bem comum”. Em relação à economia, quais são os esquemas mentais e morais que a fundamentam e precisam ser superados?

    Ladislau Dowbor — Há um deslocamento ético radical que é o seguinte: nós devemos deslocar o conceito de sucesso de quem “arranca mais” e fica demonstrando quantos bilhões tem e passar para algo básico. Luiz Pasteur é reconhecido mundialmente não porque conseguiu “arrancar” mais para si, mas, sim, porque conseguiu contribuir mais para o planeta. Então, o deslocamento de atitude ética fundamental é passarmos dessa ideia de sucesso como capacidade de “arrancar”, de ser mais esperto, para o sucesso visto como a pessoa que mais contribui para a nossa espaçonave Terra, para que vivamos melhor.

    Um segundo eixo é que estamos na era da economia do conhecimento e o conhecimento é diferente da máquina ou do produto físico: se passo o conhecimento para alguém, continuo com ele. Por exemplo, toda a pesquisa mundial sobre genoma se faz de maneira colaborativa entre centenas de laboratórios, porque na era do conhecimento os sistemas colaborativos são muito mais produtivos do que a competição, em que cada um tenta esconder sua produção e tenta reinventar a roda; esse deslocamento é fundamental para a sociedade.

    A atitude ética básica de que o merecimento se deve para a pessoa que mais contribui e não para a pessoa que mais “arranca”, e que temos que nos deslocar da filosofia da competição e da guerra de todos contra todos para a filosofia da colaboração para o bem-estar das populações e do planeta, é o deslocamento efetivo que precisamos em termos de visão de mundo.

    IHU On-Line — Que tipos de critérios determinariam, na sua avaliação, uma sociedade economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente sustentável?

    Ladislau Dowbor — Os critérios nós já sabemos: é uma sociedade ambientalmente sustentável, socialmente justa e economicamente viável. Para isso, nós tivemos imensas reuniões planetárias com cientistas, políticos e empresas e se chegou aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS, a chamada Agenda 2030. Esses objetivos são perfeitamente atingíveis, mas exigem a reorganização de como se governa. Em termos práticos, para atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, temos que orientar a economia para o bem-estar efetivo das famílias, e não para o bem-estar dos mercados que geram mais Wall Street, mais paraísos fiscais e coisas do gênero. E o que é o bem-estar das famílias? É, de um lado, ter dinheiro no bolso para conseguir pagar o transporte, o aluguel e comprar a camisa e ter, também, acesso aos bens de consumo coletivo: a pessoa não compra seu hospital e sua escola, ela tem que ter acesso a bens públicos de acesso gratuito e universal, porque isso simplesmente é mais produtivo. Isso não é complicado: nós podemos aumentar o bem-estar das famílias sem gerar desastre ambiental, porque aumentar o bem-estar não significa comprar mais pás de plástico e coisas do gênero, mas, sim, ampliar o acesso à saúde, à educação e à cultura, ou seja, todos esses bens que enriquecem as nossas vidas sem destruir o meio ambiente. Isso significa mudar a contabilidade, porque o PIB calcula apenas o ritmo de uso dos recursos no planeta, mas não calcula nem os impactos ambientais nem os impactos em termos de bem-estar das famílias.

    O objetivo dessa reorientação nos leva a mudar as contas nacionais, e o melhor exemplo é justamente o trabalho de Kate Raworth, que está publicado no Brasil sob o título “Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo” [1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2019. Tradução: George Schlesinger], que é uma forma de contabilização dos resultados e não apenas do ritmo de atividade econômica. No conjunto, saber os ODS, nos orientarmos para o bem-estar das famílias, tanto no que diz respeito à renda como no acesso a bens de consumo coletivo, e adequar o sistema de contabilidade correspondente é o que traça um norte perfeitamente compreensível.

    IHU On-Line — Os economistas favoráveis ao capitalismo alegam que ele foi o sistema que mais possibilitou a criação e a distribuição de riquezas. Os críticos, por sua vez, argumentam que esse sistema não consegue distribuir as riquezas e gera inúmeras desigualdades sociais. Como avalia o processo de desenvolvimento da economia capitalista? Quais são seus pontos positivos, limites e desafios?

    Ladislau Dowbor — O capitalismo se tornou global, enquanto os governos são nacionais: se um governo decide fazer uma mudança de impostos ou de taxas de juros, os capitais fogem, se movimentam internacionalmente e vão para paraísos fiscais, os governos se desarticulam e essa impotência gera também o caos político. O que temos de compreender é que o capitalismo mudou, porque ainda temos na cabeça a ideia de um investidor de verdade — não o que faz aplicações financeiras, mas o que investe em produtos —, que compra máquinas para produzir sapatos, por exemplo, pega crédito para financiar a produção, contrata mão de obra, portanto está gerando empregos, está produzindo sapatos que poderão ser usados e está pagando impostos com os quais o governo vai poder financiar as infraestruturas e o acesso à saúde, à escola e aos bens públicos de acesso universal — isso é o que as pessoas pensam quando falam em capitalismo. O que elas não veem é que o sistema mudou: não é mais o lucro sobre a produção; é o rentismo sobre a especulação. Os imensos capitais que estão nas mãos de Wall Street, nos grandes paraísos fiscais, como Suíça, Holanda, Ilhas Cayman, no Panamá, rendem para os especuladores.

    Tem uma coisa básica que Piketty ajudou a entender claramente: produzir exige esforço, então, o crescimento no mundo de bens e serviços é na ordem de 2%, 2,5% ao ano. Agora, quem aplica seu dinheiro em títulos de dívidas de diversos papéis financeiros, em commodities e coisas do gênero, tem tido um rendimento de 7% a 9% nas últimas décadas.

    O que faz o capitalista que enriqueceu? Todos aqueles que têm reservas financeiras hoje em dia, em vez de investir, que é arriscado, trabalhoso, tem que produzir, simplesmente compram papéis. Inúmeras instituições, bancos, holdings, financeiras e todo o sistema Shadow banking ajudam as pessoas a investir, mas isso não é investimento; é aplicação financeira. Na realidade, se desviam os recursos para sistemas especulativos. Esta é uma mudança radical: onde se tinha produção material de bens e serviços e lucro, hoje se tem, essencialmente, especulação e rentismo; isso desfigurou o capitalismo. Ele foi produtivo, sim, mas não está mais sendo produtivo. Hoje temos enriquecimento improdutivo, um crescimento pífio, desigualdade e destruição ambiental, portanto esse sistema não está funcionando.

    IHU On-Line — Que desafios as mudanças climáticas impõem ao atual modelo econômico-político-social?

    Ladislau Dowbor — A mudança climática é típica dos novos desafios, porque nossos problemas eram locais, regionais ou nacionais, as economias eram nacionais ou locais e tínhamos o comércio exterior para as trocas. Agora não; nós temos um sistema global e as emissões de dióxido de carbono ou gás de efeito estufa dos Estados Unidos ou da China vão impactar o planeta todo. A destruição da Amazônia, a liquidação da vida nos mares e a acidificação dos oceanos impacta todo o planeta. Nós estamos, de certa maneira, desafiados a enfrentar problemas que são globais, enquanto estamos divididos em 193 nações, cada uma tentando puxar para o seu lado. Isso, obviamente, é um disfuncionamento sistêmico. O que precisamos introduzir e o que temos dificuldade como seres humanos, porque temos a tendência de pensar no curto prazo e num problema de cada vez, de forma fracionada, é pensar de maneira sistêmica e no longo prazo. Para nós, 2050 é lá longe; não é. Ou seja, os dados do desastre que será 2050 já estão na rua, já estão irrecuperáveis e, em grande parte, 2050 já está determinado.

    Então, essa mudança é absolutamente essencial: é preciso uma visão de longo prazo, que pense de maneira sistêmica e conjuntamente os sistemas e os impactos não só econômicos, mas sociais e culturais. Uma segunda dimensão desse processo é o resgate da governança correspondente para enfrentarmos isso, o que implica, em primeiro lugar, democratizar o processo decisório. Como é que nós, no planeta, decidimos nosso futuro? Por enquanto, são as grandes corporações que fazem o que querem através de movimentações financeiras, mas nós temos que democratizar as decisões, temos que assegurar transparência dos fluxos para que a população possa estar informada e temos que gerar sistemas de comunicação que permitam que se criem processos de produção de consensos democráticos; é o caminho que se tem pela frente, o resto leva ao desastre.

    IHU On-Line — Ao refletir sobre a proposta do Papa, o senhor disse recentemente que “o grande desafio é o da governança do sistema, desafio sem dúvida técnico, mas sobretudo ético e político”. Pode explicar essa ideia? Por que a governança do sistema é o ponto central a ser enfrentado, na sua avaliação?

    Ladislau Dowbor — O ponto central é que temos uma economia mundializada e os governos são nacionais, logo, há um desajuste entre os meios e os fins. Nós não temos um governo planetário, apesar de termos problemas planetários. Um segundo eixo é que o poder dominante, hoje, é corporativo. Quando vemos um desastre em Mariana com a Samarco, se pensa: “Como isso é possível?”. A Samarco é riquíssima, transfere milhões para as empresas controladoras, para os grandes grupos financeiros, seja da BHP Billiton, do Bradesco e da Vale. O Brasil construiu Itaipu, nós temos engenheiros e pessoas que entendem desse processo, mas quem manda não são os engenheiros, são os grupos financeiros que controlam as empresas, e os conselhos de administração das empresas recebem seu bônus em função não de quanto investem no futuro da empresa, mas baseado no quanto conseguem extrair para os acionistas, e em função de quanto os acionistas ganham é que será calculado o bônus.

    Esse sistema é disfuncional porque essas grandes corporações, hoje, são dominantes no planeta e são dominadas, essencialmente, por um grupo de 28 bancos, que chamamos internacionalmente de Systemically Important Financial Institution – SIFIs, que têm ativos que se aproximam do PIB mundial, ou seja, quem manda realmente não é o governo, quem manda no governo são os lucros financeiros. Os americanos têm uma excelente expressão para isso: “hoje é o rabo que abana o cachorro”. Antes, as finanças eram um complemento que ajudava a dinamizar e financiar a produção; hoje, tornou-se um sistema extrativo, capitalismo extrativo. O que nós temos — isso é estudado por [Joseph] Stiglitz e vários outros cientistas — não é um embate entre o Estado e as empresas, mas sim uma apropriação do poder político pelas próprias empresas, pelas grandes corporações financeiras. A partir de certo grau de poder financeiro, o poder político tem que se submeter, o que naturalmente está liquidando o pouco que nos resta de democracia.

    IHU On-Line — Do ponto de vista das faculdades de economia, que programas podem ser adotados para repensar a economia nos moldes que o Papa propõe?

    Ladislau Dowbor — Nós temos uma forma de ensino da economia que é pré-histórica, corresponde a outro tipo de capitalismo, a outro sistema e a outro tempo. Precisamos trabalhar menos por disciplinas e mais de maneira integrada e por problemas. Na Finlândia, na escola secundária, já não se trabalha por disciplina, mas sim por problemas-chave. A resolução de um problema demográfico, cultural ou ambiental tem dimensões políticas, financeiras, jurídicas e sociais. Portanto, aprender a cruzar essas diversas áreas é fundamental. Por exemplo, o direito não estuda a economia e a economia não estuda o direito? O que é o direito? São as regras do jogo e a economia funciona de acordo com as regras do jogo. Então, não faz nenhum sentido separarmos de forma que uns estudem os mecanismos na economia e outros estudem as regras no direito e um não saiba qual se aplica a qual. Nós temos que, inclusive, juntar áreas científicas, como medicina e estudos climáticos, para que a economia passe a ser um instrumento muito mais rico, porque a economia não é uma área em si, não é indústria nem comércio, é uma dimensão de cada área. A segurança tem uma dimensão econômica, assim como construir casas e as transformações do uso do solo têm uma dimensão econômica. De certa forma, temos que reaproximar a economia dos problemas aos quais ela precisa ajudar a responder.

    Eu trabalharia, portanto, por problemas, de forma interdisciplinar e interinstitucional. Hoje estamos todos conectados no mundo e podemos perfeitamente organizar cada faculdade, universidade, instituição ou grupo de trabalho sob um problema-chave e ver como esse problema-chave está sendo trabalhado em Tóquio, em Frankfurt ou em qualquer parte do mundo. Inclusive, os tradutores online estão se tornando perfeitamente aceitáveis, ou seja, é uma outra dimensão da construção científica que temos pela frente.

    IHU On-Line — Entre os pesquisadores das áreas econômica e ambiental que participarão do evento “Economia de Francisco”, destacam-se nomes como Jeffrey Sachs, Joseph Stiglitz, Amartya Sen, Vandana Shiva, Muhammad Yunus e Kate Raworth. O que esses teóricos têm em comum e que contribuições podem oferecer à proposta do Papa?

    Ladislau Dowbor — O que eles têm em comum — não são pessoas de esquerda ou com afinidade ideológica — é que são pessoas de bom senso. Joseph Stiglitz foi economista-chefe do Banco Mundial e do governo [Bill] Clinton e se deu conta de que esse sistema não funciona. Hoje ele tem um Nobel de Economia, mas o essencial é que ele tem uma visão de conjunto. O livro dele chamado “People, Power, and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent” redimensiona a articulação das transformações da sociedade.

    Jeffrey Sachs trabalha mais os problemas da desigualdade. No início de sua produção, ele não era muito recomendável e hoje se tornou um batalhador extremamente confiável por uma economia que funcione.

    Amartya Sen nos trouxe a imensa transformação da compreensão de que não se trata apenas de pobreza e, portanto, de dar um dinheirinho para os pobres, mas de assegurar a cada pessoa a oportunidade para construir a vida que ela deseja. É uma visão muito mais complexa da exclusão que a pobreza está criando; trata-se de gerar essa dimensão humana de direito de construção da sua própria vida.

    Vandana Shiva trabalha de maneira extremamente forte o problema do conflito entre as necessidades humanas e o desajuste profundo que as corporações estão criando, que simplesmente querem arrancar o que podem e estão apenas recentemente começando a fazer proclamações de que devem se preocupar com os impactos ambientais, sociais e econômicos do que fazem.

    Muhammad Yunus descobriu que um pouco de crédito muito barato — não com juros extorsivos — na base da sociedade dinamiza a economia de maneira radical, inclusive, em particular, ao dinamizar as capacidades econômicas das mulheres. O Grameen Bank é um exemplo mundial. Yunus também recebeu um Prêmio Nobel. Aliás, é característico que deram um Nobel da Paz para ele e não um de Economia, porque nunca os economistas dariam um Prêmio Nobel para alguém que está dizendo que o dinheiro na base da sociedade é mais produtivo do que o dinheiro nos cofres dos banqueiros.

    Kate Raworth nos traz com o livro “A Economia Donut”, que já existe em português, uma excelente visão de como fazer contas nacionais que façam sentido. Em vez de fazer do PIB uma arma essencialmente ideológica, ela sugere pegar o que são os excessos que precisamos reduzir, por exemplo, emissões de gases de efeito estufa e destruição florestal e, por outro lado, as coisas que são insuficientes, como pessoas subnutridas — temos 850 milhões de pessoas que passam fome —, e reduzir os excessos e compensar as insuficiências. Isso nos permite ter, no conjunto, 23 elementos de contas que põem a contabilidade nacional de pé, porque hoje essencialmente ela está de ponta-cabeça.

    Nós temos que criar economistas que entendam não de modelos econômicos, mas da dinâmica complexa que gera os desafios para poder propor soluções e não apenas para explicar, depois do desastre, por que determinado modelo não funcionou.

    IHU On-Line — Como o evento proposto pelo Papa tem repercutido entre os economistas que o senhor conhece? O senhor tem visto reações favoráveis e contrárias à proposta?

    Ladislau Dowbor — No conjunto, pessoas que estudaram de forma muito clássica ou são muito ligadas aos mercados ou aos interesses do sistema financeiro reagem de maneira ideológica, porque estão muito centradas na ideologia do enriquecimento das grandes fortunas. Agora, no geral, e sobretudo na nova geração, tenho encontrado muita receptividade. Ou seja, há uma redescoberta entre os economistas de que cada problema econômico tem dimensões políticas, sociais, ambientais e éticas. O conceito de função de economia está penetrando e, para muitos na área dos economistas que pensam de maneira tradicional, é um desafio ver personagens como Stiglitz, Jeffrey Sachs e Kate Raworth mudando radicalmente os rumos. Isso porque se sentem, de repente, sem base naqueles modelinhos que estavam baseados, essencialmente, numa simplificação do ser humano, de que o ser humano é um maximizador racional de vantagens individuais e que o enriquecimento significava apenas um objetivo individual. Isto é, esse deslocamento de que os indivíduos são complexos têm dimensões de generosidade, de competição e de colaboração, e temos que trabalhar com as pessoas realmente existentes e com o conjunto de enriquecimento social, porque na realidade hoje ninguém mais vai viver feliz sozinho.

    IHU On-Line — Como podemos repensar a economia brasileira à luz da proposta do papa Francisco?

    Ladislau Dowbor — Eu trabalharia justamente elencando os problemas-chave. Quais são os desafios-chave da nossa economia? No Brasil é evidente: a desigualdade. Nós temos 206 bilionários que, nos últimos 12 meses, segundo a revista americana Forbes, aumentaram as suas fortunas em 230 bilhões de reais — isso com a economia parada. Só lembrando: o Bolsa Família consome 30 bilhões de reais. Logo, não é o Bolsa Família e a aposentadoria dos velhinhos que estão prejudicando a economia, e sim a enorme extração de recursos por parte desses grandes grupos financeiros que não produzem, mas são, essencialmente, aplicadores financeiros.

    Em 2012, quando começou o embate contra a Dilma [Rousseff], nós tínhamos 74 bilionários; hoje, são 206. Esse sistema não está funcionando para a economia e para a população, mas para alguém está funcionando. Essas famílias — não estamos falando do valor das empresas, mas dos grupos pessoais, que, aliás, não pagam impostos no Brasil porque lucros e dividendos distribuídos são isentos — tinham uma fortuna, em 2012, de 346 bilhões de reais e, em 2019, passaram a ter uma fortuna de 1 trilhão e 206 bilhões de reais. Isso é um problema ético, porque não foram os pobres que criaram a forma de funcionamento desse sistema. O problema ético está do lado dos ricos, porque os ricos estão enriquecendo sem produzir e sem merecimento. Então, o eixo central é uma reorganização de como usamos os recursos e de como usamos a política.

    O enriquecimento improdutivo é a nossa principal deformação econômica, social e política. Por que tiraram a CPMF? Não é pelo ridículo 0,38% sobre as transações financeiras, é porque gerava transparência, mostrava quem transferia para quem, como eram os fluxos de capitais. Nós temos que resgatar o controle dos fluxos, fazer uma reforma tributária porque, por exemplo, eu como professor pago 27,5% sobre o meu salário, já o Joseph Safra, sem produzir nada, ganhou nos últimos 12 meses 19 bilhões de reais e não paga imposto; esse sistema é simplesmente uma aberração. Precisamos taxar as grandes fortunas, tornar real o Imposto Territorial Rural – ITR, que é uma ficção, e taxar, em particular, o capital improdutivo, coisa que está sendo amplamente discutida hoje no mundo, porque é uma das medidas centrais. Nós temos que passar a taxar quem acumula um monte de dinheiro sem produzir nada, porque se tem um imposto que começa a reduzir o capital do indivíduo, talvez ele pense em fazer algo útil com o dinheiro porque o capital está sendo reduzido. Essa é a visão para tornar a sociedade produtiva. Com as tecnologias e a riqueza financeira que temos, ter as economias paradas é ridículo.

    Além disso, temos, evidentemente, uma dimensão ética. Lembro de um cartaz que vi na Av. Paulista: um senhor curiosamente com uma bandeira do Brasil e com um cartaz dizendo “evasão fiscal não é roubo”. Ele diz que não é roubo, não paga impostos, mas gosta de ter o filho estudando numa federal ou na USP, estudando com o dinheiro dos outros, gosta de ter a rua asfaltada com o dinheiro dos outros. Do que se trata? Isso não são ideologias, é realmente pensar a economia que funcione e a própria economia tem que mudar o rumo da forma como é ensinada e aplicada.

    IHU On-Line — Deseja acrescentar algo?

    Ladislau Dowbor — Eu acrescentaria algo básico que ajuda as pessoas a entender os processos. Trata-se de algo que sabemos que funciona: funcionou no Brasil de 2003 a 2013, funcionou nos Estados Unidos de Roosevelt com o New Deal, funcionou na Europa com o que se chamou de Estado de bem-estar social (Welfare State), funciona até hoje na China, na Coreia do Sul, no Canadá, na Suécia e na Alemanha. O que têm essas referências em comum? Elas controlam o sistema financeiro, orientam os recursos para o bem-estar das famílias, de um lado, assegurando um bom salário mínimo e a renda no bolso das famílias e, por outro lado, assegurando sistemas públicos, universais e gratuitos de saúde, educação e cultura, porque isso é investimento nas pessoas, não é gasto. Quando um país usa seus recursos para o bem-estar das pessoas, isso gera mais capacidade de compra das famílias, o que gera mais demanda frente às empresas. Isso gera inflação? Não, porque no Brasil, por exemplo, as empresas estão trabalhando com menos de 70% da sua capacidade.

    Um empresário estava dizendo que está mais barato e mais fácil contratar hoje, mas que não tem por que contratar se não tem para quem vender. Como a empresa funciona? Para funcionar, a empresa tem que ter mercado para quem vender e tem que ter juro barato para poder investir; no Brasil nós não temos nenhuma coisa nem outra. Agora, como se viu no Brasil entre 2003 e 2013, se investe com aumento de salário, Bolsa Família, Luz para Todos. Foram criados 149 programas sociais. Por que a economia cresceu e não gerou déficit? Porque dinamizou as empresas e o consumo. Para ver o resultado, basta olhar no Banco Central e verificar que nos anos dos governos Lula e Dilma não houve déficit. O déficit é gerado na fase [Michel] Temer e Bolsonaro, quando há a paralisia da economia. O atual governo diz que está consertando a economia, mas quem destruiu o sistema é quem está hoje no poder e isso explica a nossa paralisia. Temos que voltar ao bom senso de orientar a economia para as famílias, para as empresas, e para o Estado poder investir nas infraestruturas e nas políticas sociais.

    Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Além disso, é consultor de diversas agências das Nações Unidas.

  • Frei Betto – reflete sobre 2019

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    Não guardo a menor saudade do ano que passou. Ano de diatribes governamentais, mentiras oficiais, renúncia à soberania nacional. Carrego, contudo, muitas perguntas. Como explicar a inércia de um povo vilipendiado a cada dia em seus direitos? Onde e quando nos roubaram a voz e a vez? Por que a nossa indignação não se traduz em protesto coletivo?

    Há uma profunda ferida na triste alma do Brasil. Perdemos o senso de humor (alguém conhece uma piada nova?), e ainda que uma sátira ouse romper as trevas, ela é recebida com coquetéis Molotov e o silêncio cúmplice das autoridades.

    Por que esse grito parado no ar? Parece que tudo está em suspenso: a democracia, os direitos humanos, a liberdade. Eis o teatro macabro no qual cotidianamente se desenrola a tragédia cujos atores e atrizes riem de si mesmos, enquanto a plateia, atônita, não sabe como estancar o sangue das vítimas de tantos sacrifícios ou repartir o pão para aplacar o sofrimento dos famintos.

    As ruas de meu país se tornaram intransitáveis. Os carros se assemelham a feras ensandecidas, convencidas de que a estridência de suas buzinas tem o poder de abrir caminho a ferro e fogo. Nas calçadas, reduzidas a sarjetas, corpos maltrapilhos, abatidos por álcool e drogas, retratam a ontológica injustiça do sistema que nos engloba.

    Ocorre que a maioria, encurvada pela desesperança, enxerga árvores sem perceber a floresta. A ideia de sistema soa demasiadamente abstrata. É dor sem causa, borboleta sem lagarta, luz sem sol. E o que ressoa aos ouvidos é a narrativa do poder, à qual se agarra como o ébrio à sua garrafa. O espectro do desemprego pobretariza multidões que aceitam menores salários e menos direitos, e neutraliza os que se uberizam ou mendigam uma ocupação.

    Os que percebem que os primeiros ratos mortos são prenúncios de peste permanecem exilados em suas bolhas solipsistas, onde privatizam a indignação e o protesto. Adianta? Duvido, porque adulteraram a linguagem e baniram a verdade de seu lar, filha das núpcias indeléveis entre a inteligência e o real. Agora ela vaga pelos buracos negros da insensatez, enquanto muitos tentam se proteger enclausurados no dialeto de sua tribo virtual, sem que a tribo vizinha consiga decifrar ferocidades semânticas. Na cidade de surdos, uivam nas janelas sem que ninguém dê importância. Você fala em flores, eles entendem feras; fala em amar, eles entendem armar; fala em cultura, eles entendem censura.

    Não nos resta outra saída senão deixar de ser prisioneiros virtuais, romper a bolha e dar as mãos a todos que estão dispostos a avançar sobre ruas para repletar avenidas. E não basta clamar “Ele não”. Aos protestos devem se sobrepor propostas. Eis o único modo de evitar que os fantasmas do medo se reencarnem na figura anômala do terror.

    Navegar é preciso! Mas na direção contrária à de Ulisses. E deixar que a tripulação fique de ouvidos e olhos abertos para descobrir que as sereias não passam de monstros necrófilos cujos urros pretendem nos ensurdecer e cegar para não descobrirmos que a rota traçada por eles nos conduzem às profundezas do Hades.

    Na segunda metade da década de 1970, assentei-me em uma favela capixaba. Fui ao norte do estado visitar o que restava da antiga Vila de Itaúnas. Nos vinte anos anteriores a ação predatória da cobiça antiambientalista havia destruído a vegetação que detinha o avanço da areia da praia sobre a vila. Todas as manhãs, as mulheres varriam a areia acumulada no vão das portas, soprada pela força do vento. No dia seguinte, mais areia e o trabalho insano de tentar contê-la. Até que as dunas cobriram por completo a vila. Restou apenas o cume da torre da igreja.

    Como ingênuos habitantes de Itaúnas, temos varrido a soleira da porta sem ainda nos convencer de que somente ações mais determinantes serão capazes de conter o dilúvio.

    Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

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