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A Escola Base e o suicídio do reitor

Por: Ivo Lesbaupin

  1. Em 1994, os diretores de uma Escola infantil em São Paulo, a Escola Base, foram acusados de pedofilia. Sem apurar devidamente o caso, vários meios de comunicação divulgaram as denúncias. A Escola foi depredada e os seis acusados tiveram de se esconder para não serem linchados. Poucos dias depois, se revelou que não havia provas contra os acusados, mas o estrago já estava feito, a reputação das pessoas estava destruída. Anos depois, vários jornais e canais de TV foram condenados a pagar indenização às seis pessoas acusadas injustamente[1].
  2. No período entre a posse do governo Temer, agosto de 2016, e o primeiro turno das eleições presidenciais, em outubro de 2018, em dois anos, portanto, quatro universidades federais foram invadidas pela polícia para prender reitores e/ou diretores e/ou professores por suposta improbidade administrativa. Cabe lembrar que tais pessoas não foram intimadas previamente, como manda a lei, foram alvo de “condução coercitiva”. Foi o mesmo procedimento utilizado inúmeras vezes pelo Juiz Sergio Moro na Operação Lava Jato.

Outro elemento a ser observado é que os policiais que foram às universidades estavam fardados para uma operação de guerra, sendo que iam apenas deter professores, não bandidos armados. As respectivas universidades não sabiam o que ia ocorrer, mas a imprensa, sim, estava presente para registrar a prisão e a humilhação.

No caso da Universidade Federal de Santa Catarina, a investigação era conduzida pela delegada Erika Marena e uma das sete pessoas presas foi o Reitor: ele foi detido, algemado, levado a um presídio, obrigado a se despir e vestir uniforme de presidiário. No dia seguinte, em razão dos recursos impetrados pelos advogados, foi solto, mas proibido de colocar os pés na universidade onde era o reitor. Duas semanas depois, o professor Luís Carlos Cancellier se suicidou. Em seu bolso foi encontrado um bilhete: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”.

Havia suspeita de que recursos haviam sido desviados, no início se falava de 80 milhões, dias depois dizia-se que eram 500 mil[2]. E tais recursos teriam sido desviados em período anterior à posse de Cancellier como reitor. Finalmente, depois de um ano da operação policial, a investigação foi concluída, mas não há nada provado contra os suspeitos.

Ninguém foi responsabilizado pelo que aconteceu com o reitor.

A delegada responsável pela prisão do Reitor é a mesma que agora foi convidada por Sergio Moro para trabalhar num setor do Ministério da Justiça. Verifica-se com isso que a Justiça não tem nada a cobrar da referida delegada em relação à Operação Ouvidos Moucos, que resultou na morte do reitor.

Em outras palavras, para, supostamente, combater a corrupção, vale tudo, “os fins justificam os meios”, inclusive acabar com a reputação de pessoas (e, eventualmente, a vida) sobre cuja suspeita ainda não se tem provas.

  1. Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, 17 universidades públicas de vários estados sofreram intervenção por ordem de Tribunais Regionais Eleitorais, supostamente por estarem fazendo propaganda eleitoral. Na verdade, as faixas que foram objeto de suspeita eram apenas “contra o fascismo”. Em todos os casos, o que a investigação queria era intimidar qualquer possível tentativa de propaganda contra o candidato Bolsonaro.

É evidente que a universidade pública está na mira do governo eleito. Já o era no governo Temer, está visível agora, pelas medidas que volta e meia são tomadas visando ora a instituição, ora reitores, ora professores. As iniciativas judiciais e policiais têm como objetivo a desmoralização e/ou a intimidação: a desmoralização, com acusações de corrupção – mesmo não provadas -, é tática muito usada para justificar a futura privatização (veja-se o caso da Petrobras); a intimidação é uma velha prática da ditadura militar, para coibir possíveis manifestações de protesto.

Em outras palavras, não é bom ser universidade pública neste momento: é risco de suspeita. Pode-se ter certeza: os recursos para a universidade pública vão diminuir (para banqueiros e rentistas, vão aumentar).

[1] Da série “Julgamentos Históricos”: Escola Base, a condenação que não veio pelo judiciário. 10/12/2014. http://www.justificando.com/2014/12/10/da-serie-julgamentos-historicos-escola-base-a-condenacao-que-nao-veio-pelo-judiciario

[2] Ver o artigo de Elio Gaspari, de 02/05/2018: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2018/05/o-reitor-luiz-carlos-cancellier-nao-precisa-morrer-de-novo.shtml?loggedpaywall

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